Qualidade, segurança e ambiente
O comportamento dos ascensores em caso de incêndio 1.a Parte Miguel Leichsenring Franco1, João E. Almeida2 1
Engenheiro Eletrotécnico, Administrador Schmitt–Elevadores, Lda., Portugal.
2
Engenheiro, Mestre em Segurança Contra Incêndios Urbanos
Desde a introdução de ascensores em edifícios para auxiliar o transporte vertical de pessoas e bens, surgiu a
As medidas preconizadas na legislação têm
de Segurança contra Incêndio em Edifí-
três propósitos fundamentais: a.
reduzir a possibilidade da ocorrência de
cios”, RT-SCIE; >
um incêndio originado pelo ascensor;
questão de salvaguardar a segurança
Decreto-Lei n.° 295/98 de 22 de setembro que procede à transposição
das pessoas, não apenas durante a sua
b. em caso de incêndio, o ascensor e os
normal utilização, mas também em caso
seus componentes, incluindo a caixa,
1995/16/CE – “Diretiva Ascensores”, al-
de emergência. Neste artigo aborda-se a
não deverão contribuir para facilitar a
terado pelo Decreto-Lei n.° 176/2008
questão da segurança dos ascensores
sua propagação, seja por combustão
em caso de incêndio.
direta, ou pela passagem de fumo, cha-
INTRODUÇÃO
c.
A construção de edifícios em altura condu-
para o Direito Nacional da Diretiva
de 26 de agosto; >
Decreto-Lei n.° 320/2002 de 28 de de-
mas e de gases de combustão;
zembro que estabelece as disposições
garantir a segurança de pessoas em
aplicáveis à manutenção e inspeção de
caso de incêndio.
ascensores,
ziu à necessidade do desenvolvimento de
monta-cargas,
escadas
mecânicas e tapetes rolantes, após a
meios mecânicos que facilitassem a movi-
Existe ainda a questão da evacuação de
sua entrada em serviço, bem como as
mentação de pessoas e bens entre os vá-
pessoas, em caso de emergência, através
condições de acesso às atividades de
rios pisos.
dos ascensores, ou o seu uso pelas forças
manutenção e de inspeção, alterado
de segurança (bombeiros e outras), durante
pela Lei n.° 65/2013 de 27 de agosto;
Com a introdução dos ascensores surgiu
as operações de socorro. Neste texto não
também a necessidade de garantir a segu-
serão abordados estes dois últimos pontos,
rança das pessoas. Vários regulamentos e
que serão alvo de atenção em próximos ar-
Normas abordam esta temática nas várias
tigos. O foco da análise será exclusivamen-
vertentes: construção dos equipamentos,
te a garantia da segurança das pessoas e
“Regras de Segurança para o fabrico e a
instalação e utilização.
impedir que os ascensores sirvam para au-
instalação de Ascensores – Aplicações
mentar as consequências negativas de um
particulares para ascensores de pessoas
incêndio.
e ascensores de carga – Parte 73: com-
Neste artigo far-se-á uma análise ao com-
>
to que estabelece as “Normas Técnicas sobre Acessibilidades”; >
portamento dos ascensores em caso de incêndio.
Decreto-Lei n.° 163/2006 de 8 de agos-
Norma NP EN 81-73:2005 que define as
portamento de ascensores em caso de LEGISLAÇÃO EM VIGOR A conceção, o fabrico, a instalação e a manu-
incêndio”; >
Norma NP EN 81-72:2003 que define as
SEGURANÇA CONTRA INCÊNDIO
tenção de ascensores obedece a um conjun-
“Regras de Segurança para o fabrico e a
Na construção de um edifício, as preocu-
to de leis e regulamentos que é complemen-
instalação de Ascensores – Aplicações
pações a ter na segurança contra incên-
tado com Normas Europeias harmonizadas.
particulares para ascensores de pessoas
dios encontram-se regulamentadas pelo
Os principais documentos a observar em
e ascensores de carga – Parte 72: Ascen-
Decreto-Lei 220/2008, de 12 de novembro,
Portugal são presentemente os seguintes:
sores prioritários de bombeiros”;
que estabelece o Regulamento Jurídico de
>
Decreto-Lei n.° 220/2008 de 12 de no-
>
Norma NP EN 81-1:2000 + A3:2009 que
Segurança Contra Incêndio em Edifícios
vembro que estabelece o “Regime Jurí-
define as “Regras de Segurança para o
(RJ-SCIE) e pela Portaria 1532/2008 de 29
dico da Segurança Contra Incêndios em
Fabrico e Instalação de Elevadores – Par-
de dezembro, que contém o Regulamento
Edifícios”, RJ-SCIE;
te 1: Ascensores Elétricos”;
Técnico de Segurança Contra Incêndio em Edifícios (RT-SCIE).
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elevare
>
Portaria n.° 1532/2008 de 29 de dezembro que aprova o “Regulamento Técnico
>
Norma NP EN 81-2:2000 + A3:2009 que define as “Regras de Segurança para o
Qualidade, segurança e ambiente Tabela 2 Razões para a entrada de fumo na caixa do ascensor.
mar (atualmente não prevista nas Normas e legislação em vigor).
Razões 1.
Incêndio na própria caixa do ascensor
2. Incêndio na casa de máquinas
Ocorrência raro.
>
raro (só crítico se a casa de máquinas for em
sencarceramento e abertura das portas
baixo).
de patamar pelo interior das caixas. As
possível mas pouco frequente.
caixas seriam equipadas com escadas do
>
a entrada de fumos da área onde deflagra o in-
tipo marinheiro, para permitir a evacuação
cêndio para a caixa devido ao “efeito chaminé”;
das pessoas.
4. Incêndio em zona na vizinhança da caixa do ascensor
tados de algumas ferramentas para de-
>
do ascensor 3. Incêndio na cabina
Os ascensores poderiam ser também do-
>
>
a entrada de fumo será muito intensa, quando não existir uma antecâmara.
Outras medidas de proteção ativa passam pelo recurso a sprinklers que obrigam a que a os componentes elétricos estejam
Tabela 3 Medidas de proteção de pessoas.
devidamente protegidos contra contactos diretos e indiretos por ação da água. Nos
Tipo
Medidas Paragem do ascensor num piso seguro e desativa-
1.
Preventivas
2. Ativas na cabina
3. Ativas na caixa
EUA já há várias Normas (NFPA) a este respeito.
ção com portas abertas (comando de incêndios estático ou dinâmico).
REPOSIÇÃO DA NORMALIDADE
Máscaras de oxigénio,
Após a extinção do incêndio, ou no caso de
Extintores/Mantas,
alarme intempestivo e quando for reposta
Iluminação de emergência,
a normalidade, o ascensor será colocado
Sistemas de intercomunicação bidirecionais.
automaticamente em situação normal de
Sobrepressão de ar fresco através de ventilação
funcionamento, quando receber da cen-
forçada.
tral de deteção de incêndio o respetivo sinal elétrico de funcionamento normal ou quando houver uma desativação do in-
zona de operação, e em todos os pisos ser-
Outra hipótese seria pressurizar a própria
terruptor de chamada, manualmente, por
vidos por esse ascensor não estiverem em
caixa do elevador. Todavia, a insuflação de
pessoal técnico autorizado.
alarme.
ar novo só poderia ser feita no caso de haver a garantia de que o espaço envolvente
Os ascensores poderão voltar a receber
Outra possibilidade poderia ser a de permitir
não estava com chamas, para evitar ali-
chamadas e a tratar os pedidos da forma
a operação, apenas nos pisos abaixo do piso
mentar a combustão com oxigénio. Para
normal.
sinistrado, e enquanto nesses pisos e na casa
controlar esta situação, seria necessário
das máquinas (caso esta exista) não houves-
uma cuidada interligação à CDI.
se também nenhum alarme de incêndio.
CONCLUSÕES Os ascensores são parte integrante dos
Meios de primeira intervenção
edifícios modernos e a sua utilidade é in-
Controlo de fumo na Caixa dos Ascensores
Quando o ascensor, ou os espaços circun-
questionável. Os incêndios são fenómenos
Sabendo-se que o maior perigo para os as-
dantes, já se encontram tomados pelas
raros, mas de consequências dramáticas,
censores é a invasão da caixa por fumo pro-
chamas e fumo, só resta a possibilidade de
se não forem tomadas as medidas de pro-
veniente do incêndio, este poderá ser evitado
recorrer a meios ativos de combate.
teção adequadas. Os ascensores podem
através do recurso à compartimentação
fazer parte do problema ou da sua reso-
corta-fogo. Claro que esta solução só será
Para salvaguardar a vida dos ocupantes,
lução; tal depende do cumprimento das
eficaz se o incêndio tiver origem noutro se-
as cabinas poderiam ser dotadas de meios
Normas de Segurança na sua conceção e
tor que não aquele onde se encontra o as-
elementares de combate a incêndio, como
montagem, mas também e principalmen-
censor (Tabela 2).
pequenos extintores, mantas ignífugas,
te, da sua manutenção e exploração nas
máscaras de proteção e sistemas de co-
devidas condições.
A proteção poderia passar pela criação de
municação bidirecionais, conforme indica-
antecâmaras, com paredes e envolvente
do no Ponto 2 da Tabela 3.
corta-fogo, assim como vãos de acesso de-
Apesar das medidas de segurança existentes atualmente, ainda há espaço para a
vidamente protegidos. Para evitar a eventual
Outra possibilidade, no caso da cabine ficar
implementação de outras que possam re-
contaminação do espaço com fumo durante
encravada entre dois pisos, seria a existên-
duzir os níveis de risco e aumentar as pos-
a abertura das portas, estes locais deveriam
cia de alçapões, com dispositivos que per-
sibilidades de sobrevivência de ocupantes
ser pressurizados, em caso de incêndio, em
mitissem o acesso e a fuga dos ocupantes
presos numa cabine envolta pelas chamas
relação aos compartimentos adjacentes.
pela caixa do ascensor até à porta de pata-
e pelo fumo.
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