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efeitos fisiológicos e físicos da corrente elétrica 1.ª PARTE Eurico Zica Correia Engenheiro Eletrotécnico
Por ação direta: o corpo é atravessado pela corrente O corpo humano é a sede de um certo número de efeitos fisiológicos agrupados sob a designação de “choque elétrico e as suas consequências”. Também pode ser de efeitos físicos de aquecimento análogos aos que haveria com uma resistência metálica (Lei de Joule). Estes efeitos traduzem-se por queimaduras eletrotérmicas.
Por ação indireta: o corpo não é atravessado pela corrente É a consequência de um arco elétrico que se traduz por queimaduras por ação do calor, ou térmicas. Nota: Tanto o arco como o contacto, pelo efeito de Joule (este último acompanhando-se muitas vezes de faíscas) podem deitar fogo ao vestuário e produzir queimaduras mistas.
3. A FASE IMEDIATA Ação direta: o choque elétrico e as suas consequências 1. INTRODUÇÃO O leitor constatará que demos uma grande importância às lesões corporais, pois da sua compreensão depende a qualidade dos socorros fornecidos, desde a fase imediatamente a seguir ao acidente até à eventual hospitalização. Por outro lado é preciso lembrar que o estudo dos efeitos exercidos pela corrente elétrica sobre o homem está ligado à utilização de uma tecnologia de prevenção, tanto na conceção dos métodos de trabalho e dos equipamentos, como na elaboração dos modos operatórios e das instruções de segurança. Certamente que a prevenção é o principal problema mas, o pessoal, é a ela tanto mais sensível, quanto ele sabe, compreende e conhece o “como” e o “porquê” das ações de socorro imediatos. Um certo número de documentos – entre os quais “As Prescrições Gerais de Segurança” – indicam como resolver na prática, e em detalhe, o problema dos primeiros socorros. As linhas que se seguem referem-se principalmente ao “porquê” dos socorros, mostrando as razões essenciais que dão às lesões dos acidentados elétricos um aspeto tão particular.
2. AS LESÕES Generalidades É admitido reservar o termo “eletrocussão” apenas para os acidentes mortais de origem elétrica e não se aplica esse termo às queimaduras elétricas. Os casos de eletrocussão formam, pois, um grupo particular dentro do conjunto dos acidentes de origem elétrica. Noutro plano, o acidente elétrico pode produzir-se de duas maneiras, subentendendo-se que se trate aqui de Corrente Alternada, com a frequência de 50 Hz. www.oelectricista.pt o electricista 63
A passagem de corrente elétrica no corpo humano é suscetível de produzir efeitos de importância e de qualidade variáveis. Pode-se, muito esquematicamente, classificar as vítimas de acidentes, observadas desde os primeiros instantes (fase imediata) em dois grupos: O primeiro grupo refere-se aos indivíduos que não perderam a consciência. Excetuando os casos extremamente benignos (simples formigueiro), alguns indivíduos sentiram um “esticão”, outros – a um grau mais elevado – foram vítimas de uma violenta convulsão. • Esticão Conforme o esticão é mais ou menos forte, nota-se nas vítimas um verdadeiro estado de comoção que aliás, se dissipa mais ou menos rapidamente. • Convulsão No momento do contacto, a vítima foi repelida violentamente pelo condutor sob tensão ou, pelo contrário, ficou incapaz de o largar. É a “tetanização elétrica” produzida pela Corrente Alternada. Se a vítima foi repelida à distância por uma contração muscular violenta (em Alta Tensão, particularmente), ela pode ser projetada no solo e sofrer lesões traumáticas (avaliem-se as consequências quando a vítima, trabalhando em altura, não está presa por um cinto ou pela corda de segurança). Mas no caso mais frequente (em Baixa Tensão, particularmente), a tetanização tem por efeitos fixar, ou “colar” de alguma maneira, a mão ao condutor e provocar, se a corrente não for cortada, lesões profundas, principalmente queimaduras ao nível do ponto de contacto. Também pode haver riscos de queda, com todas as suas consequências, pelo facto da vítima se soltar ou pelo reflexo de afastamento no momento do corte da corrente. O segundo grupo de vítimas tem um comportamento clínico mais perigoso. O que impressiona nelas é que perderam, brutalmen-
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te, a consciência no momento do contacto ou nos minutos seguintes. Examinemos uma destas vítimas. Privada de consciência, a sua respiração e o seu pulso não são percetíveis, e os barulhos do seu coração inaudíveis: ei-la num estado de “morte aparente”, que só levará à morte real depois de um período mais ou menos prolongado. Os mecanismos postos em causa para explicar este estado de morte aparente são múltiplos. Citamos os principais, que traduzem a maioria dos casos observados. • Fibrilação do coração O funcionamento do coração depende dos estímulos elétricos que se registam no eletrocardiograma, os quais vão originar a despolarização e contração do músculo cardíaco (sístole) seguida da repolarização e expansão (diástole) a intervalos regulares. Este fenómeno foi objeto de estudos em animais de todas as espécies para determinar a lei que possa associar o valor da corrente, ainda que não perigosa, à duração da sua passagem. Para choques de duração breve, inferior à do ciclo cardíaco, a fibrilação só pode ser desencadeada quando o choque se dá durante uma certa fase T deste ciclo, que se estende e cerca de 20% da duração total do ciclo. Esta Figura representa um eletrocardiograma normal em que a fase crítica T está indicada a tracejado. Para o ciclo cardíaco médio do homem (0,75 segundos), esta fase T dura durante cerca de 0,16 segundos. Portanto, a fibrilação cardíaca ou, mais exatamente, a fibrilação ventricular é a contração não sincrónica das fibras ou grupos de fibras que constituem os ventrículos cardíacos: esta anarquia da contração equivale a uma paragem funcional da bomba cardíaca... “Nestas condições, o cérebro, o próprio coração, deixam de ser irrigados e perturbações graves, irreversíveis, ao fim de alguns minutos, levam à paragem definitiva do coração” (Vidé a Figura seguinte).
U
Sístole R
T
Diástole
t
Q Fase Crítica
Ciclo Cardíaco
Caraterísticas de fibrilação Ela é desencadeada por intensidades muito mais fracas do que as necessárias para provocar uma inibição bulbar. No homem, ela é espontaneamente “irreversível’ e responsável por uma grande parte dos casos em que a morte real sucede à morte aparente.
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alta tensão Esta noção “de estado espontaneamente irreversível” que carateriza a fibrilação não deve, bem entendido, provocar em caso nenhum um atraso no começo da ação de reanimação: • Fenómenos de inibição nervosa Uma forte densidade da corrente provoca, ao nível dos nervos, um “bloqueio”: perda de excitabilidade e de condutibilidade do nervo atravessado pela corrente. Quando estes fenómenos de inibição nervosa atingem a região bulbar (entre o cérebro e a espinal medula) podem levar a uma paragem de respiração e, seguidamente, a uma paragem de circulação, provocando em alguns minutos, na ausência de reanimação, lesões encefálicas graves (encéfalo: conjunto de cérebro – cerebelo bolbo raquidiano).
“Certamente que a prevenção é o principal problema mas, o pessoal, é a ela tanto mais sensível, quanto ele sabe, compreende e conhece o ‘como’ e o ‘porquê’ das ações de socorro imediatos.”
Deve prosseguir enquanto um médico não constatar que há sinais certos de morte no acidentado. Reanimação oral, boca a boca no local do acidente: insuflação começada sobre um suporte (Figura seguinte): notar-se-á neste caso a hiperextensão do pescoço que é o elemento determinante para que o ar da boca possa passar livremente às vias respiratórias.
Caraterísticas da inibição bulbar Esta inibição é geralmente temporária e, segundo os especialistas, “se manobras de reanimação forem muito prontas e, corretamente aplicadas, é muitas vezes possível manter na vítima uma sobrevivência artificial até que o desaparecimento da inibição permita uma ‘retomada normal das funções circulatórias e respiratórias’”. • Tetanização dos músculos respiratórios Viu-se no primeiro grupo que um dos efeitos da contração era fixar a mão ao ponto de contacto e prolongar esta ação de modo nefasto. Se a corrente não for cortada, há o risco da generalização da contração provocar a asfixia por tetanização dos músculos respiratórios, quando a intensidade é suficiente ao nível dos músculos toráxicos.
Caraterísticas da tetanização Basta uma corrente de 30 mA para determinar um efeito tetanizante que se interrompe, aliás, no momento em que a corrente elétrica deixa de passar através do corpo humano. O estado de morte aparente é provocado pela asfixia, ficando a vítima “colada” ao condutor, onde a necessidade de uma reanimação imediata. Por outro lado, atualmente há a tendência de considerar que qualquer acidente de origem elétrica pode determinar um estado de “choque” suscetível por si só de provocar uma perda de consciência passageira. Em definitivo, a regra absoluta é aplicar sempre os tratamentos de reanimação em qualquer vítima inanimada em consequência do acidente elétrico. O tratamento não admite atrasos. E é necessário, para que haja possibilidade de sucesso, que ele seja posto em prática nos primeiros minutos que se seguem ao acidente e, neste domínio, um segundo contra um minuto. A reanimação deve começar no próprio local do acidente e continuar sem nenhuma interrupção mesmo no caso de uma eventual evacuação para um centro clínico (exemplos: Figuras anterior e seguintes).
Ação direta: as queimaduras eletrotérmicas Estas queimaduras provocadas pelo efeito de Joule são devidas, lembremo-lo, à quantidade de calor libertado pela passagem no organismo duma corrente de intensidade suficiente durante um tempo suficientemente longo. Elas apresentam caraterísticas particulares que as diferenciam das queimaduras térmicas (ou químicas) ainda que sejam suscetíveis de infeção no corpo as outras queimaduras. Em primeiro lugar nota-se que são, por vezes, indolores devido à destruição das terminações nervosas produzidas pelo efeito calorífico da corrente (mas podem existir fenómenos dolorosos em caso de queimaduras mistas, o que é frequente). Elas são sempre muito profundas e mesmo mais extensas, que o que parece à primeira vista, porque a sua particularidade fundamental, que importa conhecer, é o serem suscetíveis de provocar “necroses”, destruindo os tecidos pouco a pouco: as lesões de necrose revelam-se sempre mais importantes que o que deixariam supor as lesões iniciais, superficialmente aparentes. As queimaduras eletrotérmicas, além de serem suscetíveis de provocar acidentes vasculares muitas vezes bem graves, apresentam uma tendência muito fraca à cura e exigem um tempo muito longo para cicatrizar espontaneamente.
Ação indireta: queimaduras por arco elétrico Trata-se de queimaduras por causas externas devidas ao flash de um arco e que não diferem em nada das queimaduras de outra origem. A quantidade de calor libertado pelo arco, muito importante, juntam-se as projeções de matérias em fusão. www.oelectricista.pt o electricista 63