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INTRODUÇÃO AO FAROESTE Histórias de faroeste não são algo comum na Literatura Brasileira, afinal são histórias de uma outra cultura bem diferente da nossa. Mas não posso deixar de lembrar como isso sempre foi algo presente na minha vida, de uma forma ou de outra, talvez por ser, de certo modo, algo bem mais popular.


Meu pai lia aqueles livrinhos de faroeste, de bolso, bem baratinhos, de leitura rápida e fácil, que infestavam as bancas a tempos atrás. Eu assistia aos filmes do Giuliano Gemma e Terence Hill ao lado de minha mãe que parecia gostar tanto quanto eu.

Quando me apaixonei por quadrinhos li, por muito tempo, apenas os superheróis, até que descobri, também, os quadrinhos italianos de faroeste – os fumetti - , como Tex e Zagor. E eu simplesmente os devorava.

Quando fiquei adulto o advento do DVD me fez rever (ou mesmo ver pela primeira vez) alguns clássicos do faroeste que eram difíceis de assistir na TV ou mesmo de conseguir no velho VHS.

Assistir Três Homens em Conflito, Era Uma Vez no Oeste, Rio Bravo, entre outros, me levava não só de volta ao passado, como também reacendia essa paixão que eu tinha – mesmo que eu nem percebesse – pelo Velho Oeste.

E Jerusalem Jones nisso tudo? Bom, Jerusalem Jones nasceu por acaso, e nem mesmo era para ter vivido além de um único conto. Mas, ao que parece, ele é mais forte do eu pensei.

Quando escrevo no meu blog – o Rapadura Açucarada – eu sempre o uso como um laboratório, onde faço minhas experiências de escrita. Algumas dão certo, outras não, e algumas até explodem na minha cara. Quando estava, um dia, tentando encontrar uma idéia para um conto, pensei que podia escrever um que se passasse no Velho Oeste. Sim, era isso mesmo que eu ia fazer, restava agora, encontrar um nome para o personagem central.

Eu nem mesmo tinha uma história, mas precisava de um nome. Meu cérebro começou a girar em busca de alguma coisas em suas “pastas e sub-pastas”. Um nome estalou em minha mente: Jericho Jones. Isso soava bem. Mas eu não


queria algo que corresse o risco de já existir, então fiz uma busca rápida no Google. Sim, existia, parecia ser o nome de uma banda obscura qualquer. Então desisti de Jericho Jones.

Continuei a pensar e vi que Israel tinha mais nomes interessantes para cowboys com nomes surreais, e pensei, bem se não posso usar Jericó, vou usar Jerusalém. E, mantendo Jones, resultou no nascimento de Jerusalem Jones.

Assim, escrevi o conto que abre esta coletânea – Ouro de Tolo – na intenção de que fosse apenas mais um conto, entre tantos que eu escrevia no blog.

Alguns dias depois me peguei pensando que deveria escrever só mais um com o Jerusalém Jones. E assim foi. A aceitação dos leitores do blog estava sendo grande e isso, junto com meu próprio entusiasmo, me deu a certeza de que eu deveria transformar o J.J. (como os leitores começaram a chamá-lo) em um personagem fixo.

Mesmo depois de escrever um conto de ficção-científica, eu acabei por fazer uma ligação da próxima história do J.J com o conto de FC e estava pronta a “confusão”.

J.J. pode viajar no tempo, é quase um zumbi, luta com bandidos comuns, as vezes É um bandido comum (ou não tão comum), encontra fantasmas, alienígenas, versões diferentes dele mesmo, as vezes entra em combate com (na realidade geralmente apanha de) ícones da literatura, quadrinhos e sabe-se lá de onde mais.

Talvez J.J. viva em um Velho Oeste que nunca existiu, ou talvez apenas, nós é que não chegamos a conhecê-lo. Quem sabe seja apenas um universo paralelo, e eu tenho que agradecer aos universos paralelos. O que eu faria sem eles?


O que sei é que as histórias de Jerusalém Jones são para divertir, mesmo que, às vezes elas assustem um pouco (de uma maneira ou de outra). Assim sendo, que cada um que se atreva a ler este eBook, saiba que tudo por aqui é inesperado, se proteja das balas e boa leitura! Eudes Honorato, Rio de Janeiro City, 13 de Junho de 2007

EPISÓDIO 01 – OURO DE TOLO

Aqueles eram dias estranhos. No entanto, Jerusalem Jones estava feliz, pois ganhara "honestamente" todo o ouro de Billy "Sem Pescoço". O que ele podia fazer se Billy era tão bronco? Achava que jogar cartas era uma diversão como outra qualquer. Jerusalem ficou realmente chateado quando Billy tentou atirar nele. E ficou mais chateado ainda de ter que abrir uma saída de ar na sua cabeça. Sério. Chateado mesmo. Afinal eles eram amigos de infância. Fora Jerusalem quem lhe dera o carinhoso apelido de "Sem Pescoço", que Billy aceitou prontamente, depois de os dois rolarem no chão, numa briga que deve ter durado umas três horas. Jerusalem admite que levou uma bela surra, mas era tarde demais, Billy continuou "Sem Pescoço".

Jerusalem não era homem de guardar rancores, e não foi por causa disso que jogara cartas de forma é... hmmm... "diferente", com Billy. Não. Era porque ele


era desonesto mesmo. Estava em seu sangue. E ao ver Billy com aquela "montanha" de ouro, propôs logo um joguinho de pôquer. Diacho! Ele nem mesmo sabia que Billy tinha se tornado mineiro. Mas, para sua felicidade, ele se tornara sim. E continuava o mesmo bronco que era quando criança.

Billy contava suas aventuras em busca de ouro, as quais ele devia engarrafar e vender como xarope contra insônia. Seu entusiasmo em contar suas histórias ia diminuindo ao passo que ia perdendo mais e mais do ouro que tinha consigo. Até que, finalmente, as histórias acabaram junto com o ouro. Foi aí que Billy lembrou que tinha uma arma. Péssima idéia, Billy. Legítima defesa.

Quando Jerusalem saiu para a rua, com o sol forte batendo em seu rosto, ajeitou o chapéu e foi em direção a seu cavalo, para guardar a pequena sacola de ouro. Foi nessa hora que viu as iniciais P.S. bordadas, e não entendeu, e nem fez questão de entender. Mas deveria. Quando ia montar, um homem vestido bem até demais para o estilo decadente de Bether City, passou por ele e entrou no bar de onde acabara de sair. Jerusalem olhou para trás e percebeu que o homem pedia informações e que o barman apontava para Billy, morto na mesa e para ele, em resposta. Jerusalem suspirou. Pensou em montar e desaparecer, mas sentiu um frio na espinha ao ver que o homem já estava praticamente em frente a ele.

- O senhor está com algo que me pertence, Sr. Jones. - Qual seria sua graça? - Peter Shepherd - disse o homem apoiando a mão sobre o cabo do revólver mais reluzente que Jerusalem já vira em sua vida.

Por alguns segundos ele amaldiçoou o "Sem Pescoço" em sua mente. Mineiro coisa nenhuma. Apenas um ladrãozinho de merda. E ainda inventando histórias enfadonhas sobre sua vida nas minas. Deveria ser escritor, o desgraçado. Se bem que seria um fracasso de venda. O que fazer? O que fazer?


O homem tinha um olhar congelante. Como diabos o "Sem Pescoço" conseguiu roubar esse cara? Isso tudo era uma confirmação de que os dias andavam muito estranhos. Como se as coisas estivessem fora do lugar. Jerusalem estendeu a sacola, com todo aquele ouro que ele nunca vira em toda sua vida. Que para alguns gananciosos poderia ser pouco, mas que para Jerusalem poderia significar o fim de uma vida desonesta. Bom, não vamos exagerar.

- Eu ganhei isso num jogo honesto, Sr. - tentou Jerusalem, numa última tentativa. - Sim, ganhou - disse o homem, sem mover um músculo da face, mesmo assim Jerusalem sentiu o sarcasmo.

Quando o homem tomou a pequena sacola com ouro, soltou e deixou cair. Em seguida tombou para a frente quase caindo em cima de Jerusalem que se desviou. Uma faca enorme estava cravada em suas costas e ele estrebuchava no chão. Em pé atrás dele estava um índio. Jerusalem lembrava de tê-lo visto perambulando pela cidade, e parecia bem inofensivo. Pelo menos até agora.

O índio estava como se fosse em transe olhando o corpo de Shepherd que dava suas últimas estrebuchadas. Quando por fim ele parou de se mover, o índio pegou a sacola do chão, segurou a mão de Jerusalem e entregou-lhe o ouro, dizendo:

- Homem do revólver reluzente estuprou filha de Pássaro Triste. E depois matou. Homem feio ajudou a distrair homem de revólver reluzente, então ouro seu. Pássaro Triste agra... - mas Pássaro Triste não terminou a frase, pois os homens do xerife não estavam nem aí para vinganças pessoais e caíram em cima dele, prendendo-o.


Homem feio. Homem feio é o cacete! Não sou tão feio assim. Pensava consigo mesmo Jerusalem.

Quando ia guardar novamente a sacola no seu alforje, Jerusalem percebeu que havia algo errado. As iniciais sumiram. O saco era o mesmo, claro que era. Sem pensar duas vezes, abriu-o, meteu a mão e puxou... pedras. Nada mais que pedras. Num canto do saloon, um velho bêbado ria de se mijar, olhando para Jerusalem. Ainda rindo o bêbado apontou para trás do saloon, e Jerusalem foi olhar e só viu a poeira dos cavalos do índio e dos supostos ajudantes do xerife. Já iam longe. E o bêbado disse:

- Fica felisshh! Eu esshhhcutei que elesshhh iam pegar era vochê, massshhh o almofadinha chegou e elessh mudaru o prano. HAHAHAHAHAHAHA! - e, rindo, o bêbado se mijou.

Odeio gente desonesta, pensou Jerusalem. E montou em seu cavalo.

EPISÓDIO 02 – O DESERTO TE CHAMA

Jerusalem Jones estava num daqueles dias em que nada dava certo para ele. Nada mesmo. Depois de ter perdido todo aquele ouro para um maldito pelevermelha, o que ele menos queria na vida era ver outro índio pela frente.


Provavelmente ele atiraria no primeiro que aparecesse, só para tentar fazer passar a raiva que sentia.

E era pensando nisso que Jerusalem cavalgava em direção ao Norte, para Birconal City. A noite já estava avançada e ele não ia querer atravessar o deserto à noite. Estava na hora de apear, fazer uma fogueira, comer alguma coisa e dormir. Estava para fazer isso, quando viu um clarão mais adiante. E um defeito que Jerusalem Jones detesta em si mesmo, é a sua maldita curiosidade. Invariavelmente ela o coloca em alguma espécie de enrascada. Mas ele precisava ver o que era o clarão, que estava lá a frente. Montou no cavalo, e disparou naquela direção.

Quando se aproximava, logo percebeu que a coisa não era nada agradável. Logo percebeu que era uma caravana que havia sido atacada. O clarão era do fogo que vinha das carroças incendiadas. Naquela escuridão da noite o espetáculo era algo assustadoramente hipnótico. Porém, chegando mais perto, era óbvio que a cena era muito mais aterradora: corpos de pessoas espalhados para todo lado. Jerusalem desceu de seu cavalo, passou com cuidado entre uma das carroças que pegava fogo e começou a andar entre a tragédia. Sua mente gananciosa só pensava em encontrar alguma coisa de valor que tivesse ficado para trás.

Enquanto examinava os corpos, sentindo o calor das chamas que parecia não diminuir nunca, percebeu que as carroças pegando fogo, faziam um círculo perfeito em volta dos corpos. Poderia ser uma manobra para se proteger do ataque, mas alguma coisa não estava certa. Ele só não entendia o que. Foi quando percebeu que as pessoas no chão, todas mortas, também estavam dispostas em uma ordem. Aquilo fez um arrepio percorrer todo o seu corpo. Nem mesmo a forma brutal com que foram mortas, algumas até mesmo decapitadas, mas com a cabeça ainda junto ao corpo, fez Jerusalem sentir tanto incômodo ou, como ele não queria admitir para si mesmo, medo.


Parece que estava na hora de Jerusalem Jones deixar o local, pois de valor ali, não havia nada. Também seria bom cavalgar mais para longe e descansar em outro lugar. Estava pra sair quando o luar fez reluzir algo dourado embaixo do corpo de uma menininha loira, que fora degolada. Ele se abaixou e puxou com força e era um cordão com um pingente estranho. Uma estrela de cinco pontas, com várias algumas inscrições em uma língua que, com certeza ele, que era quase analfabeto, não conhecia. No reverso haviam desenhos bizarros, que mesmo minúsculos dava para ver que era coisas que pareciam ter saído do inferno. Jerusalem escutou um uivo de lobo bem distante. O que era comum naquelas paradas. Mesmo assim outro arrepio percorreu seu corpo.

Bom, o que importava era que aquele cordão era pesado, e era de ouro. Jerusalem não queria saber como aquelas pessoas foram massacradas. Provavelmente fora algum bando de saqueadores sádicos, já que não havia sinal de tiros. E índios também não foram, pois não havia uma flecha sequer por ali. Se foram ladões, estranho terem deixado o cordão para trás. E estranho terem apenas estripado e degolado aquelas pessoas que pareciam não fazer mal a uma mosca.

Jerusalem levantou olhou mais uma vez para a estrela e depois para os corpos espalhados no chão e levou um susto. Chegou mesmo a se engasgar com a própria saliva. Tossindo ele saiu do meio das carroças em chamas, sentindo o vento da noite ficar mais frio. Olhou ao redor e viu uma elevação. Correu na direção dela e subiu até seu topo. Por sorte, da elevação dava para ver os corpos todos dentro do círculo flamejante. Jerusalem tremia. Os corpos. Ele levantou a estrela e, fechando um olho, sobrepôs à imagem dos corpos. Sim, eles estavam dispostos no mesmo formato da estrela de ouro.

Foi quando Jesrusalem Jones ouviu o grito mais aterrador de toda sua vida. Como se mil demônios gritassem numa única voz. Como se as portas do


inferno se abrissem. Um grito que rasgava a alma em tiras. Jerusalem se desequilibrou e rolou da elevação, caindo lá embaixo, aos pés de alguém. Ele viu pequenos pés descalços e brancos como neve. Quando olhou para cima, era a menina da qual ele tirou o cordão de debaixo do corpo. A menina loira. com seu vestidinho branco. Não estava mais degolada, nem mesmo suja de sangue. Parecia estar preparada para ser posta na cama. Olhava para Jerusalem caído ao chão, com seus olhinhos de criança e um sorriso incômodo. Ela estendia uma das mãos e apontava para a estrela. Ela a queria de volta.

Jerusalem não sabia o que fazer. Sua ganância superava seu medo. Medo esse que não era pouco. A menina apontou novamente para a estrela na mão dele e fez sinal de que a queria de volta. Seu sorriso desaparecera. Jerusalem hesitava em entregar. Sentado no chão ele começou a se arrastar para trás, para longe dela, devagar. A menina andava calmamente em sua direção. Seu rosto se transfoformara numa máscara de fúria contida. Ela apontou mais uma vez para a estrela e fez sinal com a mão para que ele a devolvesse. Sem perceber, Jerusalem fez que não com a cabeça. Nessa hora a menina deu um grito gutural ensurdecedor e pulou na direção de Jerusalém, que segurou a estrela com força e acertou a cabeça da menina com uma das pontas.

Ela caiu e começou a entrar em convulsões violentas, soltando gritos terríveis, tanto que Jerusalem Jones tapou os ouvidos pois parecia que iriam endurdecêlo. Quando terminou, o que restou foi um monte de estrume seco, no lugar onde antes havia uma menininha. Jerusalem quase riu daquilo. Estrume seco e fumegante. Ele meteu a mão nele e puxou a estrela de ouro. Quando olhou na direção do massacre, as carroças estavam apagadas, restando muito pouco delas.

Ele nem havia notado, mas o dia estava amanhecendo. Jerusalem sentia algo estranho dentro de si, e acabou fazendo algo que nem ele mesmo acreditou depois que parou pra pensar, mais tarde. Conseguiu o máximo de pedras que


podia, e deu um enterro cristão àquelas pessoas. Armou cruzes e fincou em cada um dos montes de pedras. Treze pessoas no total, contando com o estrume que um dia foi a menininha. Sentia como se a estrela esquisita de ouro fosse seu pagamento por aquilo tudo. Quase se sentia honesto.

Ele não sabia o que aconteceu ali, nem fazia questão de saber. Ele queria apenas chegar o mais rápido possível em Birconal City e se livrar daquele cordão pelo melhor preço que ele pudesse conseguir. De preferência antes da meia-noite.

INTERLÚDIO – PROTOCOLO BETA 77

Enquanto isso, em algum lugar do futuro...

O dia estava escuro e ainda era o meio da tarde. A chuva cairia em breve. Eu ouvia alguns trovões ao longe, e tudo aquilo tornava aquele dia mais sinistro, mais pesado. Eu olhava para o deserto adiante, a perder de vista, e sentia uma angústia na alma, angústia essa que eu não conseguia identificar exatamente a causa, afinal de contas eu sabia tudo que devia fazer. Nada do que acontecera fora por acaso. Tudo foi planejado. Até mesmo os erros do projetos não foram surpresas. Todos sabiam o que estava em jogo, e resolveram se arriscar, sabendo que os benefícios poderiam ser infinitos para a humanidade. Nesse


ponto, eu quase solto uma gargalhada. "Benefícios para a humanidade". Todos estavam ávidos de enriquecer tanto quanto eu.

Um clarão de luz atravessa as nuvens negras, muito longe ainda, e segundos depois, ouço a resposta de um trovão, como se fosse um presságio das coisas que ainda estão por vir. Eu escuto o som a que me acostumei, nos últimos dias, vindo do freezer. É Tanya. Não tive coragem. Depois que as coisas ficaram mais sérias entre nós, deixamos de ser apenas um par de colegas, para nos tornamos amigos e amantes. Quando tudo deu errado, eu consegui fazer aquilo para o qual fui treinado caso tudo desse errado, como estava previsto nas projeções. Injetei a única unidade de antídoto em mim mesmo, e matei todos os outros, antes que tudo passasse da linha-limite. Mas não consegui eliminar Tanya. Tanya de quem agora escuto os grunhidos vindos do freezer.

Tomo um gole do café frio que tenho comigo, e volto a encostar a cabeça na vidraça que dá para o deserto. Depois que o prazo final para nos comunicarmos chegar ao fim, os militares virão com tudo para cá e, provavelmente bombardearão o laboratório, e só depois farão as perguntas. Eu já devia ter me mandado daqui. Mas eu não consigo deixar Tanya. Não consigo. Uma ironia e tanto, já que nosso projeto não estava nem aí para os humanos envolvidos, que eram tão descartáveis quanto se provaram ser. Os cientistas envolvidos não sabiam que eles mesmos eram as cobaias, e que os animais que usamos para testes eram nada menos que um showzinho para distraí-los. A droga não fazia o efeito desejado neles. Ela fora desenvolvida para seres humanos. Disso eles sabiam. Que bando de ingênuos. Vou te dizer, foi muito bom estourar a cabeça do Paul Bryan, depois daquelas piadinhas infames sobre meu... ah, porra, melhor

esquecer

isso.

Esse

assunto

está

morto

e

.....hahaha...HAHAHAHA...AHAHAHAHAHAHA... ai, ai... enterrado. Ou quase.


Sou despertado para a realidade por um grito mais agudo de Tanya, seguido por gorgolejos horríveis. É sinal de que ela está se alimentando. Acho que ela já consumiu quase todo "alimento" que deixei no freezer junto com ela. Se tudo aqui fosse ilegal, seria um bom modo de eliminar as provas. Mas tudo aqui foi patrocinado pelo governo e as experiências tinham um objetivo prático, pelo menos para eles. Eu aceitei porque, além da fama e fortuna, eles disseram que teria aplicações humanitárias também, e não só militares. Não sei se acreditei, ou se apenas quis acreditar que era verdade. Mas, excetuando-se o caso da minha querida amada, lá no freezer, tudo valeu a pena. Aprendi coisas que eu não aprenderia em 100 anos, literalmente falando. Mas tudo tem seu preço, aqui não seria diferente. Não sou tão ingênuo assim.

Eu preciso ir embora. Informar aos militares para que limpem a área. A chuva começa a cair pesada. As gotas parecem bombas quando atingem o chão. O cheiro de terra molhada atravessa as paredes. Preciso ver Tanya uma última vez. Sei que não deve ser uma visão das mais agradáveis, mas eu devo isso a tudo pelo que passamos. Devo acabar com seu sofrimento e partir. As tentativas que fiz de reproduzir o antídoto foram em vão. Não há salvação para a mulher que amo.

Bom, melhor parar de protelar e fazer a ligação para os militares, acabar com o sofrimento de Tanya e partir desse cemitério no meio do deserto.

Pego meu celular e teclo um número secreto. Alguém com uma voz muito impessoal atende, eu digo apenas "Protocolo Beta 77", e ouço um "entendido" do outro lado da linha. Desligo o celular e levo um susto quando vejo que a o laboratório está escurecendo e não é por causa do tempo lá fora. O laboratório está sendo lacrado. Que diabos! Eu não sabia desse procedimento. Malditos! Fui ingênuo em achar que eles deixariam alguma testemunha. Sou tão descartável para eles quanto todos os outros. Que devo fazer? Sentar e morrer?


O laboratório é lacrado completamente. Logo tudo ali vai ser mandado pelos ares. Deve ser questão de minutos até que os bombardeiros cheguem. Engraçado, estou tentando lembrar algo importante. Nossa! É isso! O freezer! Existe material explosivo dentro do freezer, mantido a baixa temperatura. Foi usado em algumas experiências de outro bloco. Acho que posso usar para escapar. Hã... a porta do freezer... está aberta?! Desde quando? Diacho, há um temporizador na porta. Estava marcado para abrir automaticamente...

Sinto uma dor imensa na perna direita e tudo escurece.

***

Que... hã... que... que sonho estranho. Tanya, querida, você está aí? Tá escuro aqui e frio, e que cheiro horroroso. Que diacho? Onde estou? Não é a cama. To congelando! Parece que tô no free... droga um interruptor, enfim. Luz. Hã... Tânya... que, onde estamos? Que há com você? Porque estamos no freezer? O que você está comendo? Isso é uma perna, Tanya? Oh, meu deus... minh... aaaaaaaaaaaahhhhhhHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!

Ao longe uma bola de fogo se forma no deserto, em meio a tempestade que cai.

EPISÓDIO 03 – A TEMPESTADE


De volta ao presente...

Jerusalem Jones acordou, como se saísse de um poço de areia movediça. Olhou para o lado, na cama, e fez uma careta. Era sempre assim quando ele bebia demais, acabava na cama com uma mulher que poderia muito bem sair no tapa com um urso... e vencer.

Procurou, então, sair de fininho, mas o barulho do ronco era tão alto, que ele nem mesmo precisou de muito esforço. Tremia ao imaginar o que ele teria feito para que ela dormisse com tanta satisfação e com aquele sorriso - onde faltavam vários dentes - estampado na cara. Jerusalem espantou esses pensamentos da cabeça e resolveu ir embora. Estava no bordel que sempre frequentava e, se acabara com aquilo lá na cama, devia ser mais uma peça que Betina, a dona do local, lhe pregara. Ela adorava fazer esse tipo de coisa com ele.

Quando desceu as escadas, as poucas garotas que já estavam acordadas ficaram dando risinhos e cochichando entre si. Ele procurou não dar atenção e foi ao bar, pedindo alguma bebida, para curar a ressaca. Betina estava servindo, e apenas sorriu para Jerusalem, como quem dizia que ele mereceu tudo pelo que passou. Depois de beber, mandou pendurar - coisa com que Betina já estava acostumada - e saiu.

Jerusalem tinha alguns negócios em Battle City, e estava querendo apenas resolvê-los, pegar a grana e se deitar com a mulher mais gostosa que ele conseguisse, para pode esquecer de vez o episódio desta noite. Montou em seu cavalo e foi em direção ao norte à toda velocidade, mesmo com sua cabeça explodindo devido à ressaca.

Viajaria de dia mesmo, sem paradas e sem esperar que a noite chegasse, pois os últimos acontecimentos, lá no deserto, ainda estavam frescos em sua mente. Rezava - sabe-se lá para quem - para que nada de estranho acontecesse desta


vez. Mas, parece que seus pedidos não iam ser atendidos, pois uma tempestade parecia estar se formando, e era das grandes. Ele tinha de se apressar. Já bastava a dor de cabeça, ficar ensopado seria mais uma coisa para irritá-lo.

Jerusalem Jones cavalgava e sentia que a tempestade que iria desabar a qualquer momento, adquiria um aspecto muito estranho. O céu estava ficando num tom meio avermelhado, e os relâmpagos parecia emitir um som estranhíssimo, como o de metal sendo raspado por metal. Aquilo estava deixando-o louco. Chegou a pensar se não era coisa de sua imaginação, ou simplesmente da ressaca que ainda não estava curada.

Olhou para trás e a cidade de onde acabara de sair estava com o céu límpido sobre ela. Aquilo quase o fez cair do cavalo. Jerusalem Jones começou a pensar se ele não atraía esse tipo de coisa. Sua mente vagueou e começou a lembrar de quando era garoto e presenciava as coisas mais estranhas, ou simplesmente estava no meio delas. Lembrou de quando sua mãe saiu correndo para fazer o parto de Patty O'Malley e ele foi junto. Quando chegaram por lá, era tarde demais, a criança já havia nascido. Ou melhor, algo havia nascido. Aos pés de Joe O'Malley estava algo que parecia ter saído do próprio inferno, com um ancinho fincado no meio do peito. Ele vomitou tanto nesse dia, que parecia que ia colocar as tripas para fora. Alguns dias depois, Patty e Joe se suicidaram.

Um relâmpago mais forte faz com que o cavalo de Jerusalem quase o derrubasse. Assim, ele acha que o melhor a fazer é parar por ali e procurar um abrigo. Logo encontrou uma caverna não muito funda , na qual entrou e colocou seu cavalo. A chuva começou a cair forte logo em seguida. parecia que o mundo estava ganhando outro dilúvio. Foi quando Jerusalem escutou um som de explosão. Olhou na direção do som e viu, ao longe, uma bola de fogo se formando no deserto, em meio a tempestade que caía.


Era uma explosão, obviamente, mas uma que Jerusalem nunca tinha visto. A chuva foi diminuindo e a curiosidade de Jerusalem Jones aumentando. Logo ele se pôs a cavalgar na direção de onde ele avistou a bola de fogo. Jerusalem se sentia estranhamente vivo. Cavalgava com rapidez e logo pôde ver escombros de algo que ele, tinha certeza, nunca vira por aquelas bandas antes. Quando se aproximou mais, viu algo bem estranho. Um homem com roupas estranhas vinha em sua direção, usando algo como bengala, pois lhe faltava uma perna. Aliás, ele tinha feito um torniquete bem esquisito nela. Jerusalem vendo o homem naquele estado sabia que não precisava temê-lo, assim pensava ele. Quando este chegou mais perto, começou a falar como um louco: . - A explosão... o laboratório... a tempestade! Um vórtex temporal. Criou um vórtex temporal. Em que ano estou... em que ano estou. Você é um cowboy? Estou no Velho Oeste? Em que ano estou? A tempestade criou um vórtex temporal e a explosão me lançou para o passado, junto com tudo mais. Eu consegui escapar dela.... consegui escapar dela... dela...

- Hmmm... é... dela quem, meu camaradinha? - Perguntou Jerusalem, sem ter certeza se queria mesmo saber.

Então, o homem apontou para adiante e disse:

- Tanya!!!

Jerusalem olhou e viu uma mulher com uma roupa parecida com a do homem, com sangue na boca, parada a alguns metros deles. Dava para ver que ela não era uma mulher comum. Jerusalem lembrou do bebê dos O'Malley e seus estômago embrulhou.

Ela olhava para eles dois, e respirava como se estivesse cansada. Parecia estar tomando uma decisão. Ela olhou para longe, na direção da cidade que, na


verdade, não dava mais para ser vista dali de onde estavam, mas ela estava olhando na direção correta. Ela cheirou o ar, soltou uns grunhidos horrendos e, de repente, começou a correr na direção da cidade.

- O que é aquilo e o que ela está fazendo, meu camaradinha? - Perguntou Jerusalem Jones ao estranho.

- E-ela... ela... está com ... cof, cof... ela está com fome!

E, dizendo isso, o estranho desabou na lama. Parecia estar morto por perda de sangue. Jerusalem olhou a coisa correndo na direção da cidade, como ele nunca vira algo correr. Provavelmente corria mais que seu cavalo. A chuva já havia parado por completo. Jerusalem olhou para a perna do estranho, e entendeu como ele a perdeu. E entendeu também o que ia acontecer na cidade.

Foi nessa hora que ele sentiu o que devia fazer... e fez. Esporou seu cavalo e saiu galopando a toda, na direção contrária.

EPISÓDIO 04 – MEU NOME É JERUSALEM JONES

Jerusalem Jones estava lavando o rosto à beira de um rio, e sua mente começou a vaguear para o passado, quando era um garoto ainda. Lembrou de quando perguntou ao seu pai por que diabos ele escolhera esse nome, Jerusalem. Shamus respirou fundo, sentado à mesa, descansando depois de trabalhar


muito na construção de uma nova ferrovia. Ganhava uma miséria, mas era o que tinha para sustentar seu filho e sua mulher. Suspirou fundo mais uma vez. Shamus McMurray Jones tinha essa mania. Como isso habitualmente era sempre logo após a alguma pergunta, Jerusalem suspeitava que ele estava apenas ganhando tempo.

"Meu filho", começou ele, "quando você nasceu, foi um verdadeiro milagre na Terra. Sua mãE e eu não tínhamos mais esperança de ter filhos, pois a gente vinha tentando há muito tempo, e nada de a gente ter nosso herdeiro, ou mesmo herdeira, eu não era exigente. Então, uma noite, antes de sua mãe e eu trep... nos deitarmos pra fazer amor - como já te expliquei antes, aquela história das abelhinha - eu fiz uma promessa pra Deus. Na minha promessa eu disse que se a gente tivesse um bebê, eu daria o nome a ele, da Terra Santa, Jerusalem.

"No dia seguinte, quando eu fui trabalhar, um homem que eu nunca vi na cidade, começou a me acompanhar. Ele tinha uma roupa bonita, branca, uns revólver reluzente, parecia de prata. Eu não entendia como a roupa dele conseguia ser tão branquinha nesse lugar tão poeirento. Eu quase perguntei que sabão que ele usava pra deixar a roupa com aquele branco radiante. Ele foi puxando conversa, e do nada, ele disse que a Beth tava prenha. Eu saltei pro lado e agarrei o colarinho dele, perguntando logo o que diabos ele tava querendo dizer com aquilo. Daí, ele segurou minha mão e disse para eu ficar calmo, que minhas preces iam ser atendidas e eu ia ganhar um garoto forte e sadio. E seu nome seria Jerusalem. Jerusalem McMurray Jones.

"Quando ele falou aquilo eu quase caí pra trás. O troço devia ser algum tipo de coisa divina, sei lá. Um anjo, querubim, ou outra coisa dessas que o padre Caffey falava nas missa. Só sei que depois disso eu prestei mais atenção no que ele dizia. Ele disse que meu filho ia ser grande e que eu escolhera bem o seu nome. Que ele ia ser lembrado pelos seus feitos, e os Jones iam se orgulhar de


serem lembrados através dele. E depois de dizer isso, ele tirou aquele chapéu dele, branco que nem neve, fez um cumprimento, eu senti o sol me ofuscar, e ele sumiu. Nove meses depois você nasceu."

Jerusalem Jones olhou para o pai, deu uma fungada, e ficou em silêncio alguns segundos. Tomou um gole de seu café que tinha esfriado, enquanto ele escutava a história que seu pai contara. Shamus olhava para Jerusalem com uma cara engraçada e, então, Jerusalem disse: "Pai, fala sério, poxa!" Shamus deu uma gargalhada, daquelas que só ele sabia dar, bateu na perna, e disse, "tá certo, tá certo, tu é danado de esperto, garoto. Você é meu filho mesmo! Pra dizer a verdade, quando você nasceu, tua mãe queria te chamar de Jerome. Eu disse, tudo bem. Ela não podia levantar ainda, pra ir ao cartório comigo, então eu te peguei, e fui te registrar. Só que no caminho eu parei para te mostrar pros amigos, e conversa vai, conversa vem, eu tomei umas e outras, e cheguei ao cartório, digamos, em um estado meio interessante", e dizendo isso, gargalhou de novo, e bateu na perna, "então, eu... como vou dizer isso, eu esqueci o nome que sua mãe falou. Eu só sabia que começava com J, mais nada.

"Eu esperei pra ser o último. Deixava todo mundo passar, pra poder lembrar o raio do teu nome, mas não conseguia. O tabelião me chamou, e eu fui, sem saber que nome que eu ia te dar. Eu estava sem saber o que fazer. Pra tentar a sorte, eu perguntei qual era o nome dele, do tabelião. Ele disse que era David. Eu fiz uma cara feia, que acho que ele percebeu. Mas aí eu pensei, 'David?! Rei dos Judeus?! Cidade Santa?! Jerusalem! Era esse o nome que A Beth falou. Eu tinha toda certeza do mundo. E, depois de um pequeno arroto, eu disse "Jerusalem McMurray Jones, pode escrever aí.

"Quando cheguei em casa, ainda sob efeito da maldita, sua mãe te pegou do meu colo, colocou no berço com cuidado. Depois, mesmo não estando muito bem, ela jogou quase tudo que tinha na casa em cima de mim. Minha sorte é que a gente sempre teve pouca coisa.


"Com o tempo ela me perdoou, mas só te chama de Jerry até hoje, como você bem sabe. Eu prefiro Jerusalem Jones, acabou ficando bonitão, né não, meu filho?"

Jerusalem sorriu, afinal era impossível levar seu pai a sério. Ele era um homem honesto e trabalhador, que gostava de tomar umas e outras de vez em quando. Nunca fez mal a ninguém. Jerusalem enxugou o rosto, e viu o mesmo refletido nas águas que corriam na direção de Terence Falls City, a qual ele dera as costas, depis que viu aquela aberração indo na direção dela. Aquela... Tanya.

Jerusalem pensava nisto a dois dias. Para desencargo de consciência ele relatou o caso ao xerife de Battle City que, é claro, riu na sua cara. Jerusalem não era muito digno de crédito por aquelas bandas, ainda mais contando uma história daquelas. Quem iria acreditar em explosões após tempestades esquisitas, e em uma mulher que comeu a perna de um estranho que saiu do centro da tal explosão. Quem iria acreditar que ela, provavelmente corria mais que um cavalo. Ele sentiu que, pelo menos essa parte, ele devia ter omitido.

Nesses dois dias ele só pensava em Betina e nas garotas do bordel, as únicas pessoas que valiam alguma coisa naquela cidade inteira. Jerusalem podia não ter muita consciência, mas ele sabia o que era amizade. Mas que fazer? Provavelmente o que tinha de acontecer, já havia acontecido.

Jerusalem lembrou das palavras que o estranho da lorota que seu pai contou, disse: " ele ia ser lembrado pelos seus feitos". Jerusalem sorriu ao lembrar do pai e de como ele era bom com histórias. Sua mãe que o diga. Mas ele sabia que as palavras que seu pai disse, era um desejo genuíno, mesmo que a história não fosse verdadeira. Mas ele não nascera para ser herói. Jerusalem bufou, meio puto consigo mesmo, montou seu cavalo e disparou em direção a Terence Falls


City. Ele precisava saber como estava Betina e as garotas. Elas eram sacanas, mas pelo menos era no bom sentido.

Sem Jerusalem saber, alguém observou sua partida.

EPISÓDIO 05 – SALVAÇÃO

Jerusalem Jones estava a caminho de Candace Falls City. Relembrando agora parecia apenas um sonho ruim. Aquele homem estranho com roupas esquisitas, sem uma das pernas, saindo dos escombros de uma construção que nunca estivera naquela área e, logo em seguida, aquela mulher com aspecto quase demoníaco, com olhar faminto, que deixou os dois ali e correu em direção à Candace Falls, numa velocidade que Jerusalem nunca vira um ser humano correr. Pelas marcas de dentes que viu no que restou da perna do estranho, ele logo deduziu, aquela louca comia gente.

Jerusalem Jones tinha resolvido deixar aquele assunto para as autoridades de Candace Falls e, provavelmente, a tal de Tanya já deveria estar morta e enterrada a essa altura. Ou talvez não. Jerusalem Jones parecia sentir em suas entranhas que acontecera o pior. Ou vai ver ele estava com problemas intestinais e não sabia. Mas foi com essas dúvidas na cabeça que ele resolveu voltar à cidade e ver se estava tudo bem com Betina e as meninas do bordel.


Desde que partira ele sentia que estava sendo seguido. Resolveu ver quem seria o intrometido. Disparou e se escondeu atrás de uma rocha mais proeminente. Quando viu o sujeito passando, guardou as armas. Era apenas "Traseiro Pelado". Ele sorriu para si mesmo e lembrou como detestava índios, mas para "Traseiro Pelado" ele abria uma excessão. Era quase um amigo. Lembrava de como ele deu esse apelido ao índio, assim que o conheceu. Este estava com os fundilhos da calça que vestia rasgados e sem mais nada por baixo. Jerusalem Jones na mesma hora cunhou o apelido que o índio tanto detestava. Saiu de seu esconderijo e emparelhou com o pele-vermelha:

- Então era você, Traseiro Pelado? Quer morrer, desgraçado? - Já te falei Jones, é Búfalo Pequeno! Será que você nunca vai esquecer esse maldito apelido? - Jerusalem gostava de ver como Traseiro Pelado falava melhor que muito branco que ele conhecia. - Você sabe que é com carinho....hahahahahahahah! E aí, que faz me seguindo? Alguém te contratou pra me matar com seus peidos? - Nada. Eu apenas vi você saindo da cidade e resolvi te seguir. Senti seu espírito pesado, e achei que, talvez, eu pudesse ser de ajuda.

Outra coisa que Búfalo Pequeno tinha de peculiar, achava realmente que era alguma espécie de feiticeiro, e estava sempre vendo "espíritos pesados" por toda parte. Quando bebia fazia a dança da chuva, que terminava sempre com ele levando um balde d'água na cabeça. No fundo, o pessoal gostava dele, e era tudo uma brincadeira inofensiva. Fora que só assim ele tomava um banho.

- Você vai começar com isso de xamã, Traseiro? Você sabe que não acredito nisso e, mesmo se eu acreditasse, não acreditaria que você pudesse ter competência pra ser um deles. - Pode rir, Jones, mas sinto que o Grande Espírito me compeliu a seguir seus passos por algum bom motivo. - Dinheiro emprestado?


- Cinco dólares e eu não te perturbo mais. - E os dois caíram na gargalhada.

Jerusalem Jones contou tudo o que acontecera e os motivos de estar voltando a Candace Falls. Traseiro Pelado ouvia tudo sem interromper e ao final suspirou tentando dar uma de sábio feiticeiro:

- Meu avô, feiticeiro poderoso de nossa tribo, me falou de ter visto algo parecido. Demônios que comiam gente. Disse que os viu atacar, e que escapou por pouco. Sempre que contava a história, ele repetia o feitiço que usou para escapar. Nessas horas ele sempre entrava em transe, como se voltasse àquele dia. - Então você acredita nisso tudo? - Eu sou índio, Jones, já vi coisas mais estranhas que isso.

Jerusalem Jones sentiu um calafrio estranho. Nesse momento estava chegando onde encontrou o homem estranho e onde ele caíra morto. Não estranhou quando viu que não havia mais sinal de nada, nem do homem, nem dos escombros da construção de onde ele saíra. Mas, ao passar bem no local onde ele deixou o cadáver, pôde ver que não era delírio seu, pois no chão uma marca, um contorno negro de um corpo, deixava claro que alguém estivera ali. Búfalo Pequeno olhou aquilo e agitou seus amuletos que trazia no pescoço, como que espantando maus espíritos.

Passaram o resto do caminho calados. Pareciam não saber muito o que dizer. E foi assim que entraram à cidade. Até que Búfalo Pequeno quebrou o silêncio:

- Cadê todo mundo, Jones? - Não faço a mínima idéia, Trasei... - Búfalo Pequeno.


Parecia que estavam em uma cidade-fantasma. Era o meio da tarde e não havia viva alma em lugar algum. Casas com janelas e portas abertas, o saloon silencioso, e não havia cavalos, nenhum deles. Era um silêncio assustador. E havia aquele cheiro que o vento trouxe de repente. Um cheiro de carne podre que fez Jerusalem e Búfalo Pequeno sentirem náuseas:

- Qua diabos é isso, Jones? Que cheiro desgraçado é esse?

Sem saber bem o porque, Jerusalem Jones foi na direção da igreja que ficava logo adiante. O cheiro parecia vir de lá. Búfalo Pequeno o seguiu. Quando os dois apearam dos cavalos e iam amarrá-los, os animais relicharam, empinaram e se puseram em disparada, para fora da cidade. Os dois ficaram sem entender, mas Jerusalem Jones nem podia culpá-los, aquele cheiro estava insuportável.

A porta da igreja estava semi-aberta. Jones e Búfalo sacaram as armas, e foram empurrando a porta lentamente, atentos para qualquer surpresa. Quando puderam ver o interior do recinto, logo se arrependeram. No altar, sentada em uma cadeira, estava Tanya, como se fosse alguma espécie de líder. espalhados por toda a igreja, várias pessoas da cidade, todas tão monstruosas quanto Tanya. Mas isso não era tudo. O cheiro não vinha deles, mas da carne humana que ocupava toda a igreja. Pedaços de pessoas apodrecendo por todo o canto. Era como uma despensa. E os seguidores de Tanya, assim como ela mesma, eram os que se deleitavam com aquele banquete macabro.

Os dois se seguravam para não vomitar e para não fazer barulho. Mesmo que aquelas coisas só se preocupassem em comer, e parecessem não prestar atenção em mais nada, era melhor não abusar. Jerusalem Jones tentou olhar com mais cuidado e pôde divisar em um canto Betina, umas duas garotas do bordel com ela, e mais uns três moradores da cidade. Provavelmente os últimos sobreviventes e a última refeição daquela horda. Eles tinham de salvar, pelo menos, Betina. Mas como?


Jerusalem Jones puxou Búfalo Pequeno para longe da igreja e disse:

- Acho que essas pessoas aí dentro não tem mais salvação, a não ser as que ainda estão, digamos, normais. Devem estar sendo guardadas para serem comidas quando o estoque do que tá espalhado pela igreja acabar. Mas eu sei como tirá-las daí. - Jones, eu acho que não vamos conseguir, você viu aquilo lá? Parece o inferno. Aquelas coisas são muitas e nós somos só dois. - Exato, vamos diminuir a contagem. Sei onde tem dinamite suficiente para acabar com todos eles.

Jerusalem Jones leva Búfalo Pequeno até a delegacia, e lá procura as bananas de dinamite que precisa e delineia o plano:

- Eu vou explodir a parede esquerda, onde Betina e as outras pessoas estão. Vou tentar explodir o mais próximo possível, sem explodi-las junto no processo. Abro um buraco e entro. Já você fica na porta onde estávamos, com essas dez dinamites aqui, amarradas, acende o pavio principal assim que eu for na direção da parede esquerda. Vai dar tempo de eu explodir. Você só joga depois de contar até cinco após ouvir a minha explosão. Até cinco, entendeu? Isso deve dar tempo para eu entrar e tirar o pessoal, que não estão amarrados mesmo. Parecem estar meio fracos, mas vão conseguir andar. Quando eu sair, suas dinamites vão mandar a igreja e os que estiverem lá dentro, pelos ares. Certo?

Búfalo Pequeno acenou que sim, mas com a garganta seca. Foram na direção da igreja e logo saberiam se o plano ia dar certo ou não. Búfalo se postou na porta e Jerusalem correu para a parede esquerda da Igreja. Búfalo Pequeno viu ele sumir e acendeu o pavio principal. Agora era esperar a explosão, contar até cinco e jogar.


Jerusalem Jones tentou lembrar onde vira Betina e os outros e calculou aproximadamente onde ele deveria explodir. Betina era a primeira pelo modo como estavam perfilados, sentados e, aparentemente, cansados. Jerusalem cortou o pavio o mais curto possível de apenas uma dinamite e acendeu.

Búfalo Pequeno estava preocupado. O fogo já havia passado do pavio principal para os pavios individuais. Sua mão tremia, e começava a escorregar. Ele trocou a dinamite de mão. Suava muito. Ele estava atrás da porta e era apenas empurrá-la e jogar. Se Jones demorasse ele a jogaria de qualquer modo.

Jerusalem Jones colocou a dinamite no chão e se distanciou o suficiente. A explosão foi quase imediata. Abriu um rombo na lateral da igreja. Ele entrou correndo com a fumaça atrapalhando um pouco. Lá dentro as coisas se alvoroçavam confusas, com medo. Ele entrou sem pensar muito nelas, viu Betina encostada à parede e os outros logo após ela. Pareciam não ter se dado conta da explosão.

- VAMOS! VAMOS!!! VENHAM POR AQUI!

Búfalo Pequeno começou a contar... um...

Jerusalem Jones sabia que a confusão daquelas coisas ia durar pouco e que, já já, Búfalo Pequeno ia mandar todos ali pelos ares. Ninguém se mexia, que inferno! Ninguém parecia querer ser salvo. Que se danem todos.

dois...

Ele agarrou Betina pelo vestido...

três...


Notou que Tanya já se refazia da confusão...

quatro...

Arrastou Betina pelo buraco afora e sentiu uma mão agarrar sua camisa por trás...

cinco....

Ele conseguiu empurrar Tanya para dentro e puxar Betina, correndo para longe da Igreja...

BUUUUUUUUMMMMMMMMMMMMMMMMMM!!!!

Pedaços de madeira voaram para todos os lados e, claro, pedaços de pessoas vieram junto. Jerusalem Jones segurou Betina de modo a protegê-la. Viu Búfalo Pequeno correndo em sua direção. Tudo dera certo.

- Betina, Betina! Conseguimos!!!.

Quando olhou Betina, sentiu um vazio estranho em seus olhos. Ela parecia normal, mas seus olhos estavam mortos. De repente Jerusalem Jones notou uma mordida profunda em seu pulso, muito infeccionada, ou ao menos era o que parecia:

- Fome, Jones, tô com fome - disse Betina, e avançou no pescoço dele.

Por instinto Jerusalem Jones sacou da arma e atirou várias vezes em Betina. Mas Betina não morria, e continuava avançando. De longe Búfalo Pequeno gritou:

- NA CABEÇA! ATIRA NA CABEÇA!


E foi o que Jerusalem Jones fez. Betina estrebuchou e caiu.

- Como você sabia disso? - Eu não sabia, só achei que era uma opção mais viável. - Diacho, detesto quando você quer aparecer falando difícil.

Jerusalem Jones levou a mão ao pescoço e sentiu que Betina conseguira cravar os dentes, mesmo que não profundamente. Sentiu a área coçar e pensou que precisava de um curativo urgente.

- Será que todos eles estavam na igreja, Jones? - Peguntou Búfalo Pequeno. - Eu não sei dizer, e nem mesmo vou me dar ao trabalho de procurar. respondeu, olhando na direção da igreja. - Mas, apenas para ter certeza, pega mais um bocado de dinamite e joga nessa porcaria de igreja.

Depois de destroçar o que restava da igreja, Jones e Búfalo enterraram Betina:

- Afinal o que aconteceu aqui, Traseiro? - Pelo que você me contou, aquela tal de Tanya não apenas comia as pessoas, como passava a maldição dela para quem sobrevivia. Pelo que vimos, ela parecia estar formando algum tipo de exército, sei lá. Acho que sua amiga, Betina, estava pra fazer parte dele, se é que você me entende.

Jerusalem Jones coçou o ferimento no pescoço, o qual havia feito um curativo apressado.

- Ela te mordeu, não foi? - Perguntou Búfalo Pequeno. - Mordeu sim. Acho que eu estou com um problema do tamanho de um trem, Traseiro Pelado.


Continua...

EPISÓDIO 06 – ENTREGA ESPECIAL

Jerusalem Jones recapitulava mentalmente como foi parar ali, conduzindo aquela carroça coberta, com um caixão dentro dela. Primeiro ele foi contatado por um velho esquisito que lhe ofereceu uma grana alta para que ele fizesse uma entrega. Quando escutou a quantia que o velho disse, Jerusalem se controlou para não deixar transparecer sua surpresa. Nem mesmo quis saber quem enganou àquele velho dizendo que ele fazia entregas. Quando recebeu metade da quantia combinada, Jerusalem pensou consigo mesmo que por tanto entregaria até o garfo do diabo no próprio Inferno.

O velho o levou até um grande galpão, onde havia uma carroça coberta e, dentro dela, um caixão. Jerusalem sabia que por tanto dinheiro, não podia ser algo simples. Transportar um morto até que não era algo tão ruim assim. O velho deu-lhe o nome da cidade e o nome da pessoa a quem ele devia entregar o caixão. Lá entregariam o restante do dinheiro a ele. Tudo parecia bem tranquilo. Tranquilo até demais. Mas, Jerusalem não estava em posição de recusar nada. Suas finanças andavam de mal a pior.


O velho deu-lhe uma última recomendação. Se fosse atacado por algum bandoleiro, grupo de bandidos, índios ou seja lá o que fosse que pusesse a entrega do caixão em perigo, Jerusalem deveria empurrar para baixo uma pequena alavanca que ficava no lado direito, na altura de onde estariam os pés do morto. Jerusalem perguntou de que adiantaria isso e o velho disse que selaria o caixão por dentro e ninguém conseguiria abri-lo para violar o cadáver em seu interior. Jerusalem pensou consigo mesmo que, quando alguém quer realmente algo, não há alavanca que o salve. Mas também se perguntou quem diabos poderia fazer questão deste cadáver.

Foi pensando em tudo isso que Jerusalem Jones estava prestes a obter sua resposta ao ver que cinco homens a cavalo vinha justamente em sua direção. Ele logo começou a pensar que as coisas nunca eram fáceis para ele, nunca. Os homens se aproximaram. Um deles puxou o revólver, apontou para Jerusalem Jones e disse:

- Só queremos o caixão, nada mais.

Jerusalem Jones fez que concordava, e começou a se virar para descer da carroça, já pensando em abaixar a tal alavanca. Porém, para sua surpresa, ele viu que, na verdade, existiam duas alavancas, e o velho desgraçado não mostrou isso. Para piorar ele não lembrava qual das duas era para abaixar.

- Vamos logo com isso. Saia daí que um dos homens vai assumir a carroça. Você pode refazer o caminho a pé mesmo. Não adianta tentar ir ao xerife, não somos conhecidos por essas bandas.

- Jerusalem desistiu de tentar lembrar e apertou qualquer uma das duas. Fez isso e pulou da carroça. Foi aí que um pandemônio teve início. A tampa do caixote pulou uns dois metros, como se tivesse sido cuspida. E, de dentro do caixão, um homem se levantou e passou a disparar com seus dois revólveres


como se fossem duas pequenas metralhadoras. Jerusalem se jogou ao chão, para que não acabasse indo pro Inferno no meio daquele tiroteio. Mas os cinco não tiveram a mínima chance. Os revólveres do defunto eram do capeta. Os tambores giravam loucamente e as balas simplesmente não acabavam. Ele não apenas matou os cinco bandoleiros, mas fez uma verdadeira peneira de seus corpos. O som das balas saindo de suas armas era ensurdecedor. Quando, por fim, o homem viu que não restava mais ninguém vivo, travou as armas, olhou para Jerusalem e disse:

- Ameaça dirimida, parceiro!

O homem podia estar tudo, menos morto. Mas a sua voz era... era algo assust... não, não era bem assustadora, era irritante. Parecia o barulho de aço sendo arranhado. Jerusalem levantou devagar e bateu a poeira da roupa. Ao olhar o indíviduo mais de perto e com mais atenção, Jerusalem notou duas coisas. Primeiro, a pele do sujeito estava refletindo o sol e segundo... o fulano era Jesse James!!! E ele estava estendendo a mão para que Jerusalem Jones subisse na carroça.

- Qual o seu nome, parceiro? - Perguntou Jesse James naquela voz que fazia os dentes de Jerusalem Jones trincarem. - Jerusalem Jones. - Notável coincidência, não. Temos as mesmas iniciais replicadas. - De que diabos ele estava falando? - É, sim... temos. - Jerusalém não conseguia tirar os olhos daquela pele estranha. Algo estava muito errado. Será que ele estava falando com um morto-vivo, ou coisa do tipo? Jerusalem atraía esse tipo de esquisitice.

- Minhas referências não estão completas, Senhor Jones. O senhor estava me levando para onde eu seria totalmente indexado. Porém, enquanto estava em estado suspenso dentro do recipiente, tive tempo de reformular alguns


conceitos pré-indexados. - Jerusalem olhava-o hipnotizado. - Resolvi eu mesmo adquirir referências teóricas e práticas de acordo com o tempo-energia de que disponho que, pelos meus cálculos, devem ser uns 50 anos antes de eu ter de me preocupar com isso novamente. Ainda não desenvolvi todos os padrões de elementos sensitivos que propõe sentimentos, mas quero que saiba que, mesmo assim, estou agradecido pelo que fez. Um conselho, Senhor Jones, não vá a cidade onde pretendia fazer a entrega deste que vos fala, não vão gostar de ver que o senhor perdeu a mercadoria. Fim da transmissão.

- C-como assim mercadoria? E meu dinheiro...?

Sem mais nada dizer, Jesse James, ou o que quer que aquilo fosse, desceu da carroça e partiu em direção ao horizonte, sem cavalo, sem água, apenas andando. Aliás, um andar muito estranho, diga-se de passagem.

Jerusalem lembrou que ainda tinha metade do pagamento, e que já era uma boa grana. Não procurou entender muito bem o que aconteceu ali, apenas jogou o que restou do caixão fora e pôs a carroça em movimento. Heyá!!!

Ao longe um coiote uivou, mas como era de dia ainda isso não fez diferença...

EPISÓDIO 07 – XERIFE WAYNE

"Algo me diz que não devo entrar nessa cidade", pensou Jerusalem Jones ao ver, pendurado na árvore diante dele, o que parecia ser o xerife daquele lugar.


Olhando aquilo, ele calculava o quanto as coisas poderiam estar ruins nesta cidadezinha, se até o xerife acabara enforcado e colocado, é óbvio, na entrada dela como um sinistro aviso de que ninguém que entrasse ali deveria enfrentar a "autoridade" dos bandidos que tomaram conta do lugar.

"É meu camarada pendurado, acho que vou acatar seu aviso silencioso e dar meia-volta. Antes, porém, vou levar sua estrela de xerife, como recordação desse nosso infeliz encontro". Jerusalem Jones se aproximou e se pôs em pé no cavalo, puxando então a estrela do falecido xerife. Lustrou-a em sua camisa, e resolveu experimentar, para ver como ele ficaria de xerife, coisa que nunca iria acontecer. Quando fixou a estrela em sua camisa, Jerusalem sentiu um vento seco, que ele não soube de onde vinha, uma voz em sua cabeça... e apagou.

O xerife Wayne olhou seu corpo balançando tristemente na árvore à sua frente. As coisas saíram tão erradas quanto possível. Sua vida de xerife era tranquila na pequena Badland City. Apesar do nome, era uma boa cidade, até a chegada de Zedediah Smith e seu bando. Na verdade, apenas um amontoado de foragidos que ele resolvera liderar. Os dias em Badland foram difíceis desde então, e uma verdadeira guerra se travou para que se expulsasse aqueles assassinos. Wayne e seus dois assistentes, mais alguns homens da cidade (e até mesmo Verona, a jovem esposa de Wayne), eram a linha de frente de Badland.

A guerra durou vários dias e houve baixa dos dois lados. Mas Wayne acreditava na justiça, como seu pai lhe ensinara. Acreditou até o momento que se viu pendurado em uma árvore, como se fosse o mais baixo dos criminosos. Tudo porque ele já estava prestes a expulsar Zed Smith e seus dois únicos amigos sobreviventes. Então algo deu errado, ele só não sabia o que. Mas, Wayne estava de volta uma última vez para consertar isso. Sua estrela de xerife era sua autoridade, e ela estava de volta ao seu peito, mesmo que não literalmente.


Wayne entrou na cidade que havia sido feita refém de três imbecis que mal sabiam falar. Estavam no Saloon, onde mantinham a cidade sob o domínio do medo (Wayne sorriu pensando em como aquela frase final daria um bom título de um livro). Wayne ainda conseguia sorrir, apesar de tudo. Calvalgando o cavalo e o corpo de outra pessoa, Wayne se aproximou do Saloon onde, ele sabia, Verona e outras mulheres da cidade haviam sido obrigadas a servir a Zed e os seus, de todas as formas. Wayne rangeu os dentes, saltou do cavalo e entrou no saloon:

- Posso saber quem é você? - Perguntou Zed? - Meu nome é Jerusalem Jones. Algum problema? - Nenhum, a não ser essa estrela no seu peito e suas armas que eu pediria que deixasse com o meu amigo barman - Zed se referia a um de seus capangas sobreviventes que sorria mostrando os dois dentes que restavam-lhe. - Você é o xerife da cidade? - Perguntou Wayne - Pode-se dizer que sim. E você, pode me dizer onde conseguiu essa estrela? Bem se vê que você não é nem nunca foi xerife - Zed falava apontando a arma para Wayne, mesmo depois deste ter entregue as suas. Ele não via Verona por perto. Isso o preocupava. - A estrela... é uma lembrança. - Lembrança? Lembrança do que ou de quem? - Perguntou Zed rindo para o outro capanga sentado com ele à mesa, também armado. - Uma lembrança de quem é a lei em Badland City.

Wayne sentiu Zed retesar o corpo, e reconhecer algo na voz de Jerusalem Jones. Bastou esse momento de espanto de Zed, para que Wayne puxasse uma faca da bota de Jerusalem Jones e enfiasse na mão do "barman" que, distraído com a conversa, não recolhera suas armas do balcão. Wayne pulou para trás do balcão, já pegando as armas. O tiroteio começou antes mesmo dele aterrisar do outro lado. O "barman" foi atingido sem dó nem piedade. Wayne notou que


todo mundo que estava ali contra a vontade aproveitou para se mandar ou se proteger. Eram apenas ele, Zed e o único capanga restante.

Wayne sabia que eles eram burros o suficiente para estarem atirando sem se protegerem. E, melhor ainda, eles estavam atirando na bancada, e vindo na direção de Wayne acreditando que este não se exporia, por estar em desvantagem numérica. Os dois atiravam frenéticamente contra a parte inferior do balcão, onde Wayne estava logo atrás, sem se darem conta de que esta fora construída para suportar esse tipo de incoveniente. Estavam tão furiosos que não notavam que as balas não vazavam, realmente, a madeira. Acreditavam piamente que do outro lado, Wayne já estava morto, ou no mínimo ferido mortalmente. Quando Wayne, sentiu que as balas acabaram, e que eles estavam sobre o balcão, ele fez o impensável.

- Eu me rendo!!!! - Gritou Wayne - Quê? Esse filho da mãe está vivo?

Wayne se levantou sob a mira de Zed e seu capanga. Wayne colocou suas armas novamente sobre o balcão.

- Creio que essa estrela pertence a vocês? - Disse Wayne, lentamente levando a mão à estrela para entregar a Zed. - Que pensa que está fazendo? Eu já estou cansado de você! - Disse Zed engatilhando.

Wayne arrancou a estrela de seu próprio peito e cravou no peito de Zed, que disparou, no susto, acertando o ombro de Wayne. "Merda, contei errado", pensou Wayne e Jerusalem Jones caiu. Zed olhou para seu parceiro, pegou a arma em cima do balcão, apontou para a cabeça dele, e atirou. Wayne estava no corpo de Zed agora.


Wayne no corpo de Zed foi ao outro lado do balcão. Seu "parceiro" estava caído no chão. A bala só passara de raspão. Wayne não sabia se ele estava desmaiado pelo susto, ou pela súbita saída sua de seu corpo. Mas tudo indicava que ele ficaria bem. Só precisava de um curativo. Antes Wayne precisava encontrar Verona e se despedir. Ele precisava fazer isso, mesmo que fosse ali, no corpo de Zed.

Quando se levantou Wayne viu que, no alto da escada, escondida, Verona observava assustada e chorando a todo os acontecimentos. Ele largou as armas, fazendo um gesto de que estava sem mais nenhuma arma e disse:

- V-verona... não se assuste! - Quando disse isso, Verona deu um grito e correu... correu para os braços de Wayne. - Eu sabia... eu sabia...sabia que você conseguiria, meu amor... - Dizia Verona cheia de paixão! - Então você sabe? Você consegue me ver? - Claro, meu amor! Claro, Zed! - (música de suspense!) - O quê?! - Graças a Deus você escapou. Pensei que depois de tudo que passamos para nos livrar do Wayne, você ia morrer pelas mãos desse fracassado. Já bastava de eu viver nessa cidadezinha com um xerife caipira, sem perspectiva de uma vida melhor. Quando nos encontramos sem que Wayne soubesse e você me contou sobre tudo que poderíamos ter juntos, eu arrisquei tudo dopando Wayne e entregando el... - Um tiro interrompeu Verona. Um buraco fora aberto ao lado de sua cabeça. Os olhos brilhantes, vidrados em Wayne, se apagaram.

Wayne achou engraçado que a única coisa que lhe viesse a cabeça, naquele instante, fosse se matar, mesmo já estando morto. Apontou o revólver para sua cabeça, para a cabeça de Zed e aper... "Não. Eu posso fazer melhor", pensou Wayne. Foi até o balcão e procurou uma faca bem amolada. A mais amolada que ele pudesse encontrar. Pegou um pano, enrolou e pôs na boca. Ele tinha


todo o tempo e privacidade do mundo. As pessoas estavam bem longe do saloon, em suas casas, com medo e esperando aquilo tudo terminar.

Wayne sentou o corpo de Zed, no qual estava dentro, numa cadeira. Abriu a calça de Zed e puxou para fora o bem de Zed mais precioso. A dor, naquele momento, quem sentiria era Wayne. Mas só naquele momento. Colocou a faca bem no talo, fechou os olhos e, com toda a raiva que Wayne sentia, cortou fora!

Wayne quase desmaiou. Ficou zonzo de dor. Mas fez de tudo pra manter-se acordado. Sangrando e segurando a "jóia" de Zed, se aproximou da porta e jogou para alguns cães que estavam por perto.

"Lúcido. Preciso ficar... lúcido e terminar isso". Wayne foi até Jerusalem Jones, arrancou a estrela de seu peito, da camisa de Zed, e a colocou de volta em Jerusalem Jones. Nesta hora, Zed caiu desacordado. Wayne levantou, agora de volta ao corpo de Jerusalem Jones. Por um prazer mórbido, Wayne juntou o corpo morto de Verona ao de Zed, desacordado, como se fossem um lindo casal. Wayne colocou a faca na mão de Verona, e foi embora.

Foi até onde seu corpo estava pendurado, retirou-o e deu a si mesmo um enterro decente. Antes de ir, tirou a estrela do peito e jogou sobre sua cova. Jerusalem Jones bambeou um pouco, mas não caiu. Porém, não conseguiu evitar de vomitar, sem saber o porque. Viu a cova, a estrela sobre ela, e viu árvore sem o corpo. Sentiu um calafrio e resolveu não se fazer muitas perguntas, e apenas ir embora dali sem levar nada.

Quando montou em seu cavalo e estava se preparando para partir, Jerusalem Jones ouviu um grito pavoroso vindo da cidade. O grito de alguém que parecia ter pedido a própria alma ou, quem sabe, mais que isso.


EPISÓDIO 08 – METALINGUAGEM

Tim Harris cavalgava decidido para um menino de 15 anos. Cavalgava com uma meta, Tim Harris iria matar o seu pai, Jerusalem Jones. Tim perdeu seu pai adotivo aos 10 anos, para uma doença incurável, e sua mãe aos 13, quando esta sofreu um acidente trabalhando em uma fazenda. Ela ainda teve tempo de contar toda a verdade sobre quem realmente era o seu pai. Jonathan Harris aceitou Martha e seu filho e o criou como se fosse seu próprio. Porém, Martha não podia partir e deixar seu filho sem saber a verdade. Contou-lhe tudo e disse que seu pai verdadeiro a abandonou assim que soube que ela estava grávida. Jerusalem Jones disse que era um espírito livre. Tim pensou consigo mesmo,assim que sua mãe fechou os olhos, "você vai virar um espírito, Jerusalem Jones, isso você vai."

Tim logo fugiu da casa dos parentes distantes que ficaram de cuidar dele, os Parkers. Ele tinha uma missão e ia cumpri-la. Mesmo ainda tão jovem, Tim sabia se cuidar e conseguia emprego dos mais variados, trabalhando até mesmo em um pequeno jornal, como entregador. O Sr. Gaiman, dono do jornal, o tinha como um filho e o deixava dormir por ali mesmo. Mas, Tim logo deixou esse lugar seguro para continuar em busca de seu pai. Acabou se juntando a um bando de ciganos que não tinham parada certa. Os ciganos ensinaram muito a Tim, até mesmo que vingança nem sempre implica em morte. Tim provou ser um rapaz de confiança e as artes arcanas dos ciganos foram ensinadas a ele, mesmo que não em sua plenitude. O chefe da tribo, o cigano Alanmohr, lhe


mostrou algo que serviria a Tim, quando este encontrasse seu pai. Pediu que Tim estendesse a mão e colocou sobre ela um pequeno saco de pano. Recitou algumas palavras no ouvido de Tim, fechou os olhos e disse a Tim, em que cidade estava Jerusalem Jones. E saiu de seu transe.

Tim deixava sua breve vida de cigano para trás e cavalgava ao encontro de seu pai, para fazê-lo pagar pelo que fez à sua mãe. Tim cavalgou por alguns dias, sempre parando e descansando, e treinando as artes místicas que fariam com que seu pai sofresse algo pior que a própria morte.

Nesse ponto é onde encontramos Jerusalem Jones bebendo no Saloon TopTen, tentando esquecer os azares de sua vida. Fica ali até a noite, se divertindo e quando se dirige para a estalagem Four Reasons, dá de cara com um moleque na rua, que o encara.

- Eu perguntei pela cidade e me disseram que você é Jerusalem Jones - diz o moleque com uma certa firmeza na voz, pouco comum para um garoto da sua idade. - Sim, guri, sou eu mesmo.

Ao dizer isso, o garoto pega uma sacola pequena. Jerusalem Jones olha pra ele curioso. O garoto coloca um pó brilhante sobre a palma da mão. Jerusalem Jones logo arregala os olhos. Apesar de bem fino, parece ouro, ouro em pó.

- Sabe o que é isso, moço? - pergunta o garoto aproximando mais de Jerusalem, para este poder ver mais de perto. - Nem faço idéia garoto. Deixa ver aqui na minha mão.

Quando Jerusalem se aproxima, Tim Harris sopra o pó sobre o rosto de Jerusalem Jones, que diz desconsolado:


- Ah, não! De novo não!

... ... ...

Jerusalem Jones abre os olhos e vê... o que Jerusalem vê? Um cara sem camisa, com as pernas em cima de uma mesa, e com uma especie de tábua sobre o colo ao qual ele cutuca com os dedos. O cara olha para uma caixa iluminada à sua frente. Jerusalem Jones está no mundo real agora. Está no mundo de seu criador, Eudes Honorato. Ele se apóia na máquina de lavar roupa, meio zonzo, por causa do pó, é claro.

- Q-quem é você? Que lugar é esse? Cadê aquele maldito fedelho? Tem pó de sei-lá-o-que entupindo meu nariz. Me ajude, cara! - Hmmm... eu sou o cara que criou você. - Como assim, me criou? - Você é um personagem de vários contos que escrevo sobre faroeste. Você não existe de verdade. - Eu estou tendo um pesadelo. Você é um pesadelo meu. Você que não existe! Disse Jerusalem Jones consternado e sentando no chão, encostado à máquina de lavar. Ele coloca seu chapéu no chão e me olha sem saber o que dizer. - Tipo, não é nada pessoal, sabe. Eu apenas estava sem idéia para seu próximo conto. Então, enquanto eu estava no banheiro, me veio essa idéia à cabeça. Eu resolvi, tipo, homenagear uma história muito boa que li uma vez em um gib... um livro ilustrado. Se chamava Homem-Animal e o herói (o Homem-Animal) se encontrava com seu criador, Grant Morrison.Chamam a isso de metalinguagem. - Sei, sei, sei... você tá copiando dos outros, eu entendi - disse Jerusalem emburrado. - Ei, agora virou crítico literário? Se trata de uma homenagem. Essa é apenas a principal, mas há outras em toda esse conto. O Tim Harris, seu filho...


- Ah, já que estou aqui, vou fazer seu jogo e fingir que tudo isso aqui é verdade: que porra de história de filho é essa?! Eu não me lembro de ter emprenhado ninguém. - Certo, você não lembra ainda, pois eu não escrevi a parte em que você se recorda de ter transado com Martha Harris. Por falar nisso, como eu estava dizendo, Tim Harris também é uma homenagem a um personagem de... hmmm... livros ilustrados, mas o Harris é uma homenagem a uma amiga. - Nossaaaaa, que história interessante... - Ser sarcástico não ajuda em nada, Jerusalem. Você devia dar graças a Deus por existir. Era pra você ter sido personagem de apenas um conto, mas como seu nome ficou maneiro, eu decidi escrever mais um e mais um, e mais um... - É, isso tenho que concordar, meu nome é muito bom mesmo. Ah droga, como eu acordo desse sonho maluco? - Ok, você não é uma boa companhia, mas acho que é porque eu coloquei muita coisa de mim em você. Certo, vou te mandar de volta para seu mundo... mas ainda não sei como vou terminar a história sobre seu filho. Vou decidir na hora. Até mais, Jerusalem. - Você é um cara extraordinário, Eudes... ... ... você me obrigou a dizer isso, não foi? - É... hmmm... foi... bom, até mais.

... ... ...

- Aaaaahhhhhh - Gritou Jerusalem Jones ao acordar no dia seguinte - O que foi tudo aquilo? - Oi, pai? - Você ainda está aqui? Quem diabos é você e o que fez comigo? - Nada demais. Só um feitiço cigano passageiro. Mas me senti vingado ao passar a noite te vendo tremer e gemer como uma garotinha, pai. - Que história é essa de pai? - Martha Harris... ela era minha mãe.


- Hmmm... quer dizer que... - "Eu sou um espírito livre", te lembra alguma coisa?

Jerusalem Jones ficou sem saber o que dizer. Sim, ele lembrava, mas ele era jovem demais. Não podia pagar por algo do passado. Não podia ter essa pedra no sapato pro resto de sua vida.

- O que quer? Que eu acabe de te criar? - Não, na verdade eu ia te matar. Mas enquanto passei a noite aqui e vi como o feitiço te deixou, lembrei do ensinamento do cigano Alanmorh, quando me disse onde você estava. Ele disse, "Tim, a vingança nunca é plena, mata a alma e envenena." Vou voltar para morar com os Parkers, e construir minha vida. Você não parece ser um cara tão ruim, pai. - e dizendo isso, apertou a mão de Jerusalem, montou seu cavalo e se foi.

Jerusalem coçou a cabeça, sem entender realmente o que aconteceu ali. Olhou em volta, procurando seu chapéu. Estava jogado em um canto perto dos cavalos. Pegou-o e viu que na frente havia duas letras grandes escritas, como que bordadas, R e A. Ele não lembrava como aquilo foi parar ali. Achou que devia ser alguma piada do tal Tim Harris.

Bateu a poeira da roupa e sentiu um calafrio ao olhar aquelas letras. Jogou o chapéu fora e voltou para o Saloon TopTen, para beber mais algumas.

EPISÓDIO 09 – ENCONTRO COM BLACK GODDARD


Ninguém fazia idéia da origem de Black Goddard, sabiam apenas que ele apareceu na cidade e, em pouco tempo, se tornou dono de metade dela. Neville City não era mais próspera por causa disso, na verdade, nunca mais fora a mesma depois que Black Goddard apareceu e, de modo estranho, foi tomando conta do lugar. Parecia uma erva daninha, crescendo sempre mais, querendo sempre mais. Sua base de operações, por assim dizer, era o Salloon Goddard, onde passava os dias sempre conversando com pessoas estranhas, que não eram habitantes do lugarejo. E sempre que essas pessoas sumiam, Goddard se tornava dono de mais um pedaço da cidade, fosse um imóvel, um negócio, ou mesmo uma vida.

Era evidente para todos que Goddard gostava do poder. O prefeito e o xerife da cidade praticamente respondiam às ordens de Goddard, e muita coisa sinistra que acontecia na cidade era encoberta, ora por um, ora por outro. Porém, Black Goddard, nos últimos dias, vinha pensando em alçar vôos mais altos. Onde iria aterrisar só Deus poderia saber.

Enquanto isso, chega na cidade Jerusalem Jones. Veio à Neville City apenas para descansar até seguir para Fawcett Town. A cicatriz no seu pescoço coçava mais que o normal. Devia ser por causa do calor. Fora isso, os efeitos daquela maldita mordida pareciam realmente ter sido obliterados para sempre. Jerusalem Jones tentou lembrar como diabos aprendera aquela palavra, "obliterado", mas não fazia idéia. Seu vocabulário não era dos melhores. Deve ter sido em algum folhetim que andou lendo.

Black Goddard pensava consigo mesmo que, para levar adiante seu plano mais recente, precisaria de alguém ingênuo o bastante para que tal plano desse certo. Na verdade, ingênuo não era bem a palavra, teria que ser alguém bem...


- IMBECIL! Olha por onde anda! - gritava um homem enorme em quem Jerusalem Jones esbarrara ao entrar no Saloon - Ei! Desculpa, meu camarada, mas você bem que podia evitar ficar bem na entrada do saloon, hein?

O homem fulminou Jerusalem com um olhar e preparava-se para dar-lhe um belo soco, quando Black Goddard segurou seu braço e disse-lhe:

- Calma, Smitheson. É assim que você trata os visitantes? - e Smitheson se acalmou, afinal era Black Goddard quem pedia, e não qualquer um. - Bem-vindo, forasteiro. Pode entrar e se sentir a vontade em meu estabelecimento. Sente naquela mesa e já me junto ao senhor.

Jerusalem Jones nada entendeu, mas foi para a mesa indicada. Sentiu uma pontada na cicatriz. Coçava de novo. Quem sabe agora parava, já que saíra do sol escaldante lá de fora. O estranho que parecia ser o dono do saloon chegou com duas canecas de cerveja e depositou-as em cima da mesa. Empurrou uma para Jerusalem Jones...

- Por conta da casa. Então, o que o traz à Neville City? - Minhas pernas - disse Jerusalem Jones e soltou uma gargalhada solitária. - Hmmm... bom, fora o seu bom humor, veio tratar de algum negócio em particular na cidade, senhor...? - Jones, Jerusalem Jones. - Prazer, me chamo Black Goddard.

De repente Jerusalem Jones se engasgou com a cerveja. Começou a tossir e a rir ao mesmo tempo, num ataque desconcertante. Goddard quase levou um banho de cerveja e, ao mesmo tempo, não entendia o motivo das risadas de Jones. Quando este conseguiu falar, disse:


- Você não tá falando sério. Que diabo de nome é esse? - Jerusalem Jones também não é um nome lá muito comum - disse Goddard tentando controlar a antipatia que começava a sentir pelo forasteiro. - Certo, mas tem bem mais estilo, se me permite dizer. No seu caso, bom, seu pai chegou e disse "põe aí Black, meu filho vai se chamar Black"? Ou isso é um tipo de nome de guerra? Seja sincero, não se vê muitos Blacks por aí, pelo menos não da sua cor - disse Jerusalem Jones explodindo em outra gargalhada.

As pessoas no saloon, sem querer, estavam ouvindo a conversa e, sem querer, estavam sendo contagiadas pelas risadas histéricas de Jerusalem Jones. Tentavam segurar o riso, mas o estranho ria tão descontroladamente de algo tão banal quanto um nome, que elas não estavam conseguindo se conter. Sabendo como Black Goddard podia ser cruel às vezes, aquelas pessoas que não estavam conseguindo se segurar, começavam a pagar sua conta e sair do saloon.

A cicatriz do pescoço de Jones estava coçando miseravelmente. Para quem não lembra, a cicatriz foi provocada pela mordida de uma morta-viva, que quando era apenas viva, era amiga de Jerusalem Jones. Infectado e com o risco de se transformar em um morto-vivo, Jerusalem Jones aceitou a ajuda de um feiticeiro índio e conseguiu escapar da sina de se transformar, ele mesmo, em um morto-vivo. Por que, então, a cicatriz agora estava coçando tanto? E por que ele estava rindo de algo tão bobo, quanto o nome daquele cara? Ele não conseguia se conter. E metade do saloon ria junto com ele. Ele precisava parar, estava até mesmo perdendo ar de tanto rir.

Neste momento Black Goddard já havia desistido de usar aquele fracassado para qualquer plano seu. Goddard só pensava em uma coisa: matá-lo. Se controlando para não atirar no desgraçado ali mesmo, Goddard gritou:

- Eu o desafio para um duelo!


- M... m... mas...hhihihihihih... hahahah...hhihih... o que dia... haiuaiaiahiehai... eu... eu... fiz...? hauehaue - Jerusalem Jones estava desesperado, não conseguia parar de rir e nem de coçar a cicatriz no pescoço. Agora queimava.

Goddard agarrou o tal Jones pela gola da camisa e o levou para fora. Agora todos haviam parado de rir... menos Jerusalem Jones.

-

C...

como...hauhuahhahaha...

e...

eu...

vou...hahahaha...

conseguir...

ahehauehauheua... ati.. atirar assim?

Goddard não deu a mínima para o apelo de Jones. Contou vinte passos de onde Jones estava e virou de frente para ele. Jerusalem Jones se pôs de pé com dificuldade. Estava sem ar de tanto rir. Ele não estava entendendo o que havia com ele. A piada já perdera a graça a muito tempo. Goddard designou seu barman como juíz do duelo e que ele apontasse o momento de disparar. Goddard só estava fazendo aquilo, porque estava vendo que o idiota não ia parar de rir e ele o mataria ali, dentro da lei, na frente de todos.

O barman disse que ia contar até três. Jerusalem estava praticamente em convulsões por causa da crise de riso. O barman estava no "dois". Jerusalem tentava ao menos colocar a mão sobre a sua arma, e não conseguia. O barman gritou "TRÊS" e um estampido se ouviu vindo da arma de Black Goodard. Jerusalem Jones girou e caiu.

A multidão ficou em silêncio. O barman se aproximou de Jerusalem Jones para constatar sua morte. O forasteiro estava caído de costas. Não havia sangue. Quando o barman foi virá-lo, notou que havia uma cicatriz em seu pescoço, e essa estava... a cicatriz, ela estava...pulsando?! O pobre barman só sentiu seu corpo ser arremessado pra longe, por um Jerusalem Jones ensandecido. A multidão soltou um "ooooh" em conjunto. O forasteiro se pôs de pé e olhou na direção de Black Goddard, que estava estupefato, até mesmo esquecendo que


estava com uma arma na mão. Quando este lembrou que podia atirar, era tarde demais. Jerusalem Jones deu salto que nenhum homem normal poderia dar. Caiu em cima de Black Goddard, que perdeu sua arma na queda. Goddard gritava todos os palavrões do mundo, ordenando que Jerusalem Jones saísse de cima dele, ou que alguém atirasse no desgraçado. Mas as pessoas estavam ou correndo, ou sem saber o que fazer. Talvez não atirassem com medo de acertar Goddard.

Quando Goddard xingou a mãe de Jerusalem de nomes que aqui não caberiam, este soltou um rugido gutural e, num movimento rápido, arrancou a orelha esquerda de Black Goddard. Seu grito foi ensurdecedor. Quando ele viu que Jones estava saboreando sua orelha, Goddard entrou em pânico. Ele não estava entendo o que estava acontecendo.

Foi quando Jerusalem sentiu um disparo passar rente à sua cabeça. Estava chegando ajuda para Goddard. Antes que pudesse ser morto, Jerusalem Jones disparou rumo à saída da cidade, e o xerife e seus ajudantes, assim como um Goddard sem orelha, ensanguentado, observaram como ele corria. Uma velocidade inumana.

Goddard levantou-se e sabia que, de agora em diante, tinha um novo objetivo em sua vida: caça e matar Jerusalem Jones. Em seguida desmaiou. ... ... ...

Demorou muito tempo para que Jerusalem Jones acordasse. A única coisa de que lembrava era de Goddard atirando e o tiro passando rente ao seu braço, e ele caindo. Lembra que a dor no pescoço, por causa da cicatriz era tanta, que desmaiou, ou acha que desmaiou. Não lembra de mais nada depois disso. A cicatriz estava quieta, nem mesmo parecia existir. O que teria acontecido? Jerusalem não queria saber. Estava sem seu cavalo e teria de andar bastante até conseguir um. Ele só queria esquecer que conhecera alguém chamado Black


Goddard. Levantou, lavou o rosto num córrego próximo. Bateu a poeira da roupa e se pôs a andar.

De repente, Jerusalem Jones soltou um arroto, e sentiu um gosto estranhíssimo na boca. Não lembrava de ter comido nada.

EPISÓDIO 10 – A CIDADE FANTASMA

Ilustração por Óqui

Há alguns anos atrás...

Fazia tempo que Jerusalem Jones não fazia aquele percurso, mas não tanto tempo a ponto de surgir uma cidade naquele lugar. Ele coçou a cabeça e tentou entender o que poderia ter acontecido. Seria uma miragem? O sol até que estava bem forte, mas ele se sentia muito bem, e não estava nem com sede. Mas uma cidade inteira. Se fosse uma pequena vila, tudo bem. Jerusalem Jones olhou em volta, e as montanhas pareciam se fechar sobre a cidadezinha recém-aparecidado-nada.

Gantua sabia que não lhe restava mais nada. Depois que sua nave sofreu uma avaria no inter-espaço, a única coisa que pôde fazer foi se teleportar para o planeta mais próximo, sabendo que isso não seria, contudo, sua salvação. Mas era melhor do que explodir junto


com a nave. A guerra para Gantua chegara ao fim ali. Viver mais um pouco, em um lugar totalmente estranho, seria apenas uma última aventura. Claro, se ela conseguisse respirar na nova atmosfera...

Jerusalem Jones entrou, ressabiado, na cidade. Olhava como as pessoas agiam normalmente. Alguns cumprimentavam-lhe, outros nem mesmo notavam sua presença. Era uma cidade normal, com pessoas normais. Jerusalem Jones desceu de seu cavalo e levou-o até onde o animal pudesse se refrescar, e Jones pensou em fazer o mesmo. O saloon ficava logo à sua frente. Ao entrar, aquele aspecto de normalidade que a cidade tinha o incomodou mais ainda. Tentando deixar essa sensação estranha de lado, pediu uma bebida.

Gantua se materializou acima do solo e sofreu uma queda feia, mas que não fez com que sofresse nada mais grave. O lugar onde caíra era deserto, árido. O calor seria sufocante, se Gantua não tivesse vindo de um planeta ainda pior. Sem grandes meios de locomoção, Gantua só podia esperar morrer dentro de alguns dias. Ou, quem sabe, talvez Gantua pudesse esperar um pouco mais, antes de morrer, e explorar o território onde caiu, quem sabe aprender, e levar consigo um pouco mais de conhecimento.

Jerusalem Jones tomou sua bebida com calma, enquanto olhava ao redor. As pessoas, parecia faltar algo a elas. Elas conversavam entre si, havia toda aquela aura de uma cidade comum, com pessoas de todos os tipos e, no entanto, faltava algo. De repente uma idéia louca passou pela cabeça de Jerusalem Jones. Sem pensar muito, para não desistir, Jerusalem Jones encheu os pulmões e soltou o palavrão mais cabeludo que conhecia tão alto que chegou a doer seus próprios ouvidos. Ninguém notou. Ninguém se abalou.

Gantua já estava há uns dias no planeta e em vez de morrer, se tornava mais forte. Aparentemente a atmosfera do lugar a ajudava. Isso era um imprevisto. Na verdade, Gantua até mesmo se acostumara àquele lugar deserto e árido, pois lembrava-lhe um pouco o lugar de onde veio. Uma coisa interessante é que ela não vinha sentindo fome. Parecia que a atmosfera lhe provia até mesmo uma certa fonte de nutrientes. Porém,


Gantua tinha que fazer algo para matar o tempo, enquanto não encontrava uma solução para o que faria nesse planeta. Talvez devesse construir algo, quem sabe.

Jerusalem Jones entendeu então o que vinha incomodando-lhe, aquelas pessoas eram apenas cascas. Eram vazias. Sem almas. Aquele pensamento deu-lhe arrepios. Seria uma cidade-fantasma? Não, não era isso. O problema é que ele não sabia o que era. Ele resolveu que sairia dali o mais rápido possível, pois não estava muito a fim de descobrir. Talvez fosse tudo uma ilusão e ao deixá-la para trás, tudo acabasse. Quando saiu para a rua, percebeu que, quem quer que fosse o reponsável pela construção da cidade, soube que ele estava ali, e que ele não era um deles. Jerusalem Jones sacou de seu revólver e apontou para o pequeno grupo de pessoas que avançava para ele, lentamente, com aqueles olhos vazios.

Gantua tinha mais ou menos uma idéia do que poderia fazer. Mas não estava certa se seria algo de bom gosto, já que sabia muito pouco sobre o planeta. Estava para tentar algo usando o mínimo que sabia, quando ouviu um estampido, e mais um, e mais um. Gantua correu, subiu em uma elevação e viu que adiante de onde estava, existia um povoado. Gantua porém conseguiu definir alguns padrões que conseguiram assustá-la. Ela não era a única de outro mundo a estar ali, seus inimigos, sabe-se lá porque, chegaram primeiro. Gantua correu.

Jerusalem Jones estava atirando para todos os lados e correndo. As pessoas caíam e se transformavam em pó. Ele saltou sobre um cavalo que estava em seu caminho e disparou na direção da cidade, quando percebeu que o cavalo começou a levá-lo em outra direção. E, por mais burro que pudesse ser, deduziu que se as pessoas eram esquisitas, os animais também deviam ser. O animal empinou e derrubou-o. Ia pisoteá-lo se ele não sai de lado. Jerusalem Jones levantou-se e já estava tomando seu rumo novamente, quando foi agarrado por um dos habitantes da cidade. Segurou-o com uma força imensa, quase quebrando seu braço. O homem segurou a cabeça de Jones e ia começar a torcê-la quando de repente caiu e virou pó.


Gantua não sabia o que eles poderiam estar tentando montando um símile do que ela deduzia ser um povoado do planeta, mas tinha que ir lá saber do que se tratava. Morrer pelas mãos deles era o menor dos problemas. Chegou ao povoado em poucos minutos, correndo em velocidade beta. Quando entrou no povoado viu que os habitantes eram apenas cópias-térmicas. Era uma tática dos inimigos que ela bem conhecia. Fizeram uma cópia-térmica de seu filho, antes de o matarem. Onde estava eles estão? Gantua percebeu agitação de um lado da cidade, correu e viu que uma cópia-térmica tentava matar um habitante do planeta e a impediu.

Jerusalem Jones teve um choque ao ver o que o salvou. Era tão aterrador que a única coisa que ele pensou foi em atirar, mas ele não podia, afinal a coisa o salvara. Mas o que diabos era aquilo? Um troço com uma cauda enorme, uma língua que parecia querer agarrá-lo. A única coisa que Jerusalem Jones reconhecia era algo parecido com peitos de mulher. Ele estava hipnotizado olhando aquilo.

Gantua esqueceu que sua aparência devia ser horrenda para aquele habitante, assim como ele era bem feio para ela. Gantua deu meia-volta antes que as coisas piorassem. O habitante estava estático olhando para ela, com aquela espécie de arma na mão apontada para ela. Gantua não sabia como os inimigos construiram aquele povoado e porque, e pior, não sabia como ia desativar tudo aquilo.

Jerusalem Jones viu aquela coisa se afastar e resolveu que também iria tomar o seu rumo, antes que mais alguém da cidade-fantasma tentasse matá-lo. Foi quando notou que havia algo entre o pó que sobrou do troço que tentou matálo. Abaixou e pegou aquela coisa esquisita. Estava apitando ou algo assim.

Gantua viu o que o habitante pegou e entendeu tudo. Aquilo tudo não foi o inimigo quem fez, e sim as cópias-térmicas. De algum modo uma unidade replicadora caíra no planeta e replicara tudo o que captou em kilômetros. Aquilo na mão do habitante era a unidade replicadora, que estava naquela cópia que devia ser a cópia-térmica-matriz. E ia


se auto-destruir. Gantua correu e agarrou a unidade replicadora do habitante. Apontou para frente, sinalizando que ele saísse dalí. Gantua ia ficar e ter certeza de que a unidade não iria se auto-replicar antes de se destruir.

Jerusalem Jones entendeu o que a coisa quis dizer e correu o mais rápido que pôde. Quando estava quase a uma boa distância, sentiu a explosão lançá-lo para a frente. Ficou um bom tempo caído, até que levantou e olhou para trás, e da cidade não restara nada, nem escombros. Nem mesmo da criatura que o salvou por duas vezes. Um sentimento de gratidão estranho o invadiu. Era esquisito sentir-se grato a algo que ele sentiu tanta repulsa. Jerusalem Jones viu seu cavalo correndo adiante, mais assustado que ele, então correu para alcançá-lo. Era hora de ir para casa.

Gantua agora estava em casa.

EPISÓDIO 11 – THE END

Ilustração por P.C.

Jerusalem Jones morreu ao pôr-do-sol. Enforcado em uma árvore com aspecto miserável. Ele sempre soube que morreria assim, enforcado. Estranho isso, saber como iria morrer. E sabia também que seria de forma injusta. As coisas sempre eram injustas para Jerusalem Jones, ou pelo menos não eram sempre justas.


Minutos antes de parar de respirar, Jerusalem Jones chegou a conclusão de que aquela história, de que toda a nossa vida passa diante de nossos olhos quando estamos morrendo, era tudo lorota. A única coisa em que ele conseguia pensar era na maldita mordida que levou no pescoço, e de como aquilo se tornou uma benção e uma maldição em sua vida.

Jerusalem escapou de muitas enrascadas graças aos estranhos poderes que aquela mordida acabou lhe concedendo, mas isso parecia ter um preço: às vezes sentia uma fome irracional, uma fome insana e imoral, por carne que não era, digamos, carne comum, se é que vocês me entendem. Afinal, aquela mordida que Jerusalem Jones recebeu era de alguém que estava com fome de Jerusalem Jones. E, mesmo tendo sido ajudado para que não virasse uma daquelas coisa, as sequelas foram inevitáveis. Mas porque Jerusalem Jones foi morto afinal? E por quem?

Bom, um dia isso tinha que acontecer. Se metendo sempre com quem não devia, Jerusalem Jones ia acabar na ponta de uma corda. O caso foi que Jones estava morando há um tempo em Dobstownville, longe de encrencas. Foi quando recebeu a proposta do xerife de ser seu assistente. Como estava precisando de grana Jerusalem Jones aceitou, avisando que seria temporário, pois ele não pretendia se estabelecer na cidade. O xerige Moonaghan aceitou de bom grado e, com um tapa efusivo nas costas de Jerusalem Jones, enfiou uma estrela em seu peito, quase perfurando seu coração.

Os dias se seguiram tranquilos. O trabalho de Jones era apenas recolher bêbados problemáticos, e fazê-los passar um dia ou dois na cadeia. Geralmente Jones acabava jogando cartas com eles, dentro da cela, assim que eles "acordavam" da bebedeira. Chegava a ser um trabalho divertido. Não acontecia muita coisa em Dobstownville.


Tudo ia muito bem, até que o xerife precisou se ausentar e a coisa toda desandou. Um garoto entrou às pressas e, ofegante, disse que havia problemas na casa do representante da cidade, o sr. Douglas. Como a cidade era muito pequena, não havia prefeito, apenas um representante. O garoto disse que ele estava batendo na mulher, ou algo assim. Jerusalem Jones amaldiçoou o representante por acabar com seu sossego, e rumou em direção à sua casa.

Jones chegou e bateu à porta. Esta estava aberta, e havia um silêncio sepulcral lá dentro. Era aquele silêncio que precede coisas ruins, que Jerusalem Jones conhecia tão bem. Entrou devagar, e ouviu um som vindo do andar de cima, algo como um gorgolejo, contínuo. Um som de arrepiar os cabelos da nuca. Subiu as escadas e foi ver o que era.

Vinha do que ele imaginava ser o quarto do casal. A porta também estava aberta e o tal gorgolejo mais alto e incessante. Sem saber como, Jerusalem Jones teve uma visão exata do que veria, antes mesmo de abrir a porta. E lá estava, a mulher de joelhos, com apenas o branco dos olhos à mostra, com um vestido branco, todo ensanguentado, uma faca na mão e o corpo do representante Douglas, estirado à sua frente e, totalmente estripado. Havia velas e ao redor dele, e a mulher estava ajoelhada dentro de um circulo desenhado no chão.

Quando viu Jerusalem Jones a mulher correu alucinada em sua direção, e o esbofeteou tão forte que Jerusalem Jones foi a nocaute na mesma hora. Ao acordar, Jerusalem Jones estava todo amarrado sobre um cavalo e com uma corda amarrada ao pescoço. Estava para ser enforcado.

O xerife comandava a turba que queria o sangue de Jerusalem Jones. O xerife disse à Jones que não entendeu os motivos dele - Jerusalem Jones - ter cometido aquele hediondo assassinato duplo. Matar o representante e sua esposa, sem mais nem menos. O xerife disse que Jerusalem Jones seria enforcado imediatamente, pois o povo da cidade estava indignado e, de qualquer forma,


ele seria linchado mesmo. O xerife piscou um olho matreiro para Jerusalem Jones.

Jones começou a colocar a cabeça pra funcionar e lembrar de algumas coisas. Como por exemplo, que havia um boato na cidade de que o xerife e a mulher do representante teriam um caso. Porém, isso nunca era admitido abertamente por ninguém. Mas se os dois planejaram matar o representante e jogar a culpa em alguém, para depois ficarem juntos, como o xerife falou em duplo assassinato? A mulher também morrera. Mas, Jerusalem tinha certeza que não a matara.

Foi quando Jerusalem Jones lembrou de um livro que achou na gaveta do xerife, sobre feitiçaria, e coisas como controle da mente através de magia negra. Na hora Jerusalem Jones achou apenas que o xerife gostava de livros exóticos. Mas se a mulher do representante se matou, porque então ele faria aquilo tudo? Com que objetivo?

Enquanto se preparavam para enforcar Jerusalem Jones, a multidão gritava que o novo representante da cidade seria o herói, que descobriu e prendeu o assassino, xerife Douglas. Ah, então era por isso. Poder. Alguém deu uma palmada no cavalo onde Jerusalem Jones estava, ele disparou e a corda puxou seu pescoço, apertando-o, deixando-o sem ar, até que Jones era só um corpo balançando na árvore. Ele foi enforcado fora da cidade e o deixaram lá, sem nem mesmo um enterro decente.

... ...

... o galho quebrou. Jerusalem Jones não sabe quanto tempo ficou ali pendurado. Nem mesmo sabia porque não estava morto. Quer dizer, tinha a ligeira desconfiança que isso teria a ver com sua cicatriz. Jones se sentia bem, pra dizer a verdade. Sendo que apenas um detalhe, que antes lhe incomodava,


agora ele sentia que seria bem útil: ele estava com fome. Aquela outra fome, e ele pretendia saciá-la na cidade, almoçando com o novo representante dela.

EPISÓDIO 12 – OLHE LÁ NO CÉU!

Jerusalem Jones gostava do deserto, um lugar solitário e esquisito, assim como ele mesmo. Entre uma cidade e outra, uma aventura e outra, ele dormia pelos desertos, à luz de uma fogueira, olhando as estrelas e pensando em sua estranha vida. Pois bem, estava Jerusalem Jones fazendo exatamente isso, quando ele notou que uma das estrelas começou a aumentar de tamanho de repente. Ele ficou ali, deitado, com as mãos atrás da cabeça, apoiado a uma pedra, olhando aquilo, paralisado. Era incrível, mas a estrela estava aumentando cada vez mais. Apenas quando já era tarde demais, ele percebeu que a estrela estava, na verdade, vindo em sua direção.

Jerusalem Jones "acordou" e saiu correndo em direção ao cavalo. Pulou na sela, esporou o bicho e tentou correr o máximo que podia. Mas era tarde. O que quer que fosse aquilo, atingiu o chão perto de Jones, e lançou ele e o cavalo metros a frente. Pedra e poeira caíram sobre ele. Tossindo, ele se levantou e viu que o cavalo estava mais ou menos bem, só parecia não querer levantar de onde estava, como se estivesse muito cansado de tudo aquilo que passava ao lado (quer dizer, embaixo) de Jerusalem Jones. Suspirou e deitou a cabeça.

Jones bateu a poeira da roupa e olhou na direção da cratera aberta pela tal "estrela". Pequenas chamas rodeavam o local e havia algo dentro dela. Ele se


aproximou cauteloso e viu que era uma coisa ovalada. Parecia quase como uma bala de canhão, só que mais enfeitada. Sem saber o que pensar ou fazer sobre aquilo tudo, Jones já estava para pegar seu cavalo e ir embora, quando ouviu um chiado forte e a coisa começou a abrir uma portinhola na parte de cima. Depois de sair muita fumaça de dentro - uma fumaça estremamente fria - deu para ver que havia dentro... um bebê!

Um bebê? Jerusalem Jones olhou ao redor, como se esperasse que alguém aparecesse para explicar tudo aquilo, mas, é claro, isso não ia acontecer. O bebê parecia bastante saudável para quem acabara de sofrer uma queda daquela dimensão. Ele erguia os braços na direção de Jerusalem Jones e fazia aqueles barulhos engraçadinhos que bebês costumam fazer. Jones sentiu uma coisa estranha dentro de si, algo que nunca sentira antes, seus olhos começaram a marejar sem ele saber porque. Jones não sabia, mas ele estava sendo sensível. Pena que não duraria.

Quando já estava até pensando em um nome para o filho das estrelas, que adotaria como seu, recebeu uma espécie de raio vermelho bem no ombro, vindo dos olhos do garoto. Jones deu um grito tão alto, mas tão alto que o eco durou alguns segundo para dissipar pelo deserto. O moleque assou o seu ombro esquerdo. Queimou como o inferno.

O moleque soltou uma risadinha de bebê que soou extremamente diabólica. Logo em seguida, ele começou a... flutuar! O desgraçado estava voando! Quando Jones viu os olhos do bastardinho ficarem vermelhos de novo, sacou de sua arma, tentando não pensar que aquilo era uma criança mas, sim, uma cria do Capeta. Quando disparou, Jones achou que tinha errado, pois o trocinho nem se mexeu, apenas disparou outro feixe de calor que por pouco não acerta a cabeça de Jones. Atirou de novo, dessa vez descarregando as armas no filho da mãe. Então Jones percebeu, ele era à prova de balas. O moleque riu de novo, e aquilo fez a espinha de Jones congelar.


Ele começou a flutuar em direção a Jones, e ele só tinha uma coisa a fazer, correr e muito. Quando deus as costas para o bebê, sentiu um rajada forte de vento, em suas costas e foi derrubado. Ele sabia que tinha sido ele, nem precisa ver para saber. Levantou antes que ele pudesse chegar em cima dele, olhou na direção de umas pedras mais a frente, onde poderia se esconder, e ia correr na direção delas, quando sentiu um vento no pé da orelha e viu que o moleque já estava lá, antes dele. As coisas não iam bem.

O trocinho começou a voar na direção de Jones e colocou um punho esticado para a frente, enquanto voava. Os panos de bunda que o envolviam eram vermelhos e azuis e estavam enrolados nele, mas quando ele começou a voar nessa posição, parecia que o corninho tinha uma espécie de capa. Jones pensou em como tudo aquilo era ridículo. Foi quando recebeu um soco no queixo. Ah, o punho estendido era pra isso...

Jerusalem Jones rodopiou e caiu. Não desmaiou, mas quase. Mas pouco adiantava estar acordado. Provavelmente era o fim de tudo, para Jerusalem Jones. O garoto estava em cima do peito dele, olhando na direção de sua cabeça. Os olhos estavam de um verde vivo e parecia que ele vasculhava algo dentro de Jones. Ele deu aquela risadinha irritante, quando seus olhos voltaram ao normal. Mas não por muito tempo. Começaram a ficar vermelhos de novo. E mirava a cabeça de Jones. Ele ia fritar seu cérebro e nada podia ser feito quanto a isso. Ou quase nada. Jones viu o céu ficar pontilhado de luzinhas verdes e de repente uma chuva bizarra teve início. Eram pedras pontiagudas, verdes. Uma delas atravessou as costas do moleque.

O grito que que a criança deu foi macabro. A coisa começou a meio que a derreter, a pele se desfazendo. Em pouco tempo só restou o esqueleto, em cima de Jerusalem Jones. Que tirou de cima de si, com um pavor e um nojo inesquecíveis. A chuva foi rápida e Jones deu graças a Deus de não ter sido


atingido por nenhuma das pedras, mesmo que algumas estivessem bem perto dele. Ele não sentia nada perto delas. Pelo jeito só afetava o bacurinho mesmo. Sabe-se lá porquê.

Olhando em direção ao troço de onde o moleque saíra, ele viu que uma das pedras maiores atingiu o objeto em cheio, enterrando-o. Melhor assim, ele não estava mais curioso e não queria mais saber de adotar ninguém que viesse do céu, nem que fosse Jesus Cristo.

Seu cavalo, na hora da chuva, não foi bobo e se escondeu. Jesusalem Jones foi na direção dele, quando algo pequeno deu uma pancada forte em sua cabeça. Ele olhou pro chão e viu um anel verde. Pegou e viu que tinha um desenho de algo que lembrava uma lamparina. Colocou em seu dedo e viu que cabia. Ficou vendo se acontecia algo e nada. Esperou mais um pouco e nada. Sem querer guardar lembranças, tirou e atirou para trás com um palavrão.

Sem que Jerusalem Jones visse uma luz verde havia formado um dedo médio apontando para cima.

INTERVALO – TEXTOS REJEITADOS

Ilustração por Óqui

De Volta Para O Exterminador do Futuro:


Jerusalem Jones sente o ar do deserto crepitar e um gosto de ozônio se instala em sua boca. Não que ele saiba como é o gosto de ozônio, na verdade, ele nem sabe exatamente o que é ozônio, mas é o que acontece. Acordado no meio da noite, de seu sono no deserto, Jones vê uma bola de fogo branco se formar quase que à sua frente. Depois de todo misancéne (não sei como se escreve isso), uma mulher aparece ali no meio do nada e vai em direção a um Jersusalem Jones estupefato:

- Venha comigo Senhor Jones, o futuro depende de sua salvação! - De que diabos a madame tá falando? Quem raios é você? - Meu nome é Sarah Connor, fui enviada de 1987, onde o mundo é dominado pelos nazistas desde 1938. Mas um homem nos deu a esperança, e ele é seu filho. Os nazistas estão enviando um robô exterminador para que o senhor não gere um filho, o nosso salvador, Indiana Jones! - Mas pera lá... Eu nem mulher tenho! - Senhor Jones, porque acha que fui enviada pelada?!

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O Ataque dos Tomates Verdes Fritos:

Jerusalem Jones fecha o livro que acabara de comprar e ler. Sentado em sua casinha recém-adquirida de cerca branca, passa os dias a ler romances água com açucar e fingir que não está chorando, para que seu cão de estimação, Murdock, não perca o respeito por ele. Tudo corre tranquilo na vida de um Jerusalem Jones aposentado, que viveu tantas aventuras. Ele escreveria um livro, se sua letra não fosse tão horrível que nem ele mesmo consegue ler os recados que deixa para sí.

Jerusalem Jones sabe que, mesmo aposentado, as coisas não costumam ficar tranquilas para ele. Tanto sabe que não se espanta quando vai até sua plantação


de tomates e leva uma mordida que não sabe de onde vem, até ver um tomate quicando à sua frente. E mais outro, e mais outro, e mais outro!

Jerusalem Jones sai em desabalada quando dá um encontrão em uma mulher:

- Venha comigo Senhor Jones, o futuro depende de sua salvação! - Peraí... tem coisa errada. Por que você tá pelada?

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O Dia em Que a Terra Parou... Olhou Para os Dois Lados e Atravessou:

O eclipse estava assombrando a todos na cidade de Deckard Town. Todos olhavam para cima, boquiabertos, enquanto Jerusalem Jones bocejava em uma mesa do Saloon Goldmine. Eclipses.. bah... quem precisava deles. Jerusalem Jones precisava de dinheiro urgentemente. O pouco que tinha não dava nem para pagar mais uma bebida. Foi pensando nisso que Jones sentiu uma sensação estranha. Olhou para frente e viu que tudo estava parado demais. Literalmente. Tudo e todos estavam impassíveis, imexíveis.

Jones se levantou, saiu do saloon e quando pôs os pés para fora, uma mulher o agarrou:

- Venha comigo Senhor Jones, o futuro depende de sua salvação! - Ah, chega disso! - E dizendo isso, empurrou a mulher para longe que cambaleou atônita sem entender nada.


Jones andou mais um pouco e via que as pessoas realmente estavam estáticas. Somente então é que sua mente, que trabalhava devagar, entendeu que aquilo era um sinal dos céus. Era para que ele pudesse recolher a grana dos incautos paralisados. Para não ser injusto deixaria os doces das criancinhas intocados. Quando meteu a mão no bolso do primeiro transeunte ouviu um grito em uníssono:

- PEGADINHAAAAAAAA!!!!!!

EPISÓDIO 13 – O CAÇADOR DE RECOMPENSAS

Eu detestava quando isso acontecia. Era um verdadeiro pé no saco. De tempos em tempos eu era confundido com algum bandido, pé-rapado ou não, que estivesse sendo procurado. E, por mais que eu dissesse que meu nome era Jerusalém Jones, o desgraçado do caçador de recompensas não acreditava. Assim sendo, era sempre um custo para me livrar deste bando de urubus que caíam em cima de mim como abutres.

O pior de tudo é que eu nem tinha como provar que eu era eu mesmo. Você já reparou que nós que vivemos no velho oeste (quer dizer, ele ainda é novo, mas quando você estiver lendo isso, ele será velho) nunca temos um documento de identificação? Tipo, como a gente sabe que o Buffalo Bill é o Buffalo Bill? Só por causa daquele cavanhaque brega? Qualquer um pode ter um cavanhaque idiota daqueles. Qualquer um pode dizer que é o Bufallo Bill.


O fato é que, desta vez, era um maldito de um chinês que estava no meu encalço. Eu fugia pelo deserto como o gato foge de água molhada. Não que eu realmente estivesse com medo daquele amarelo, o desgraçado nem mesmo tinha armas. Eu corria apenas porquê não queria ter de matar um filho da mãe e depois ter, realmente, minha cabeça posta a prêmio. E mais, ter minha cabeça posta a prêmio e por uma ninharia, o que seria mais vergonhoso.

Assim sendo eu galopava o vento (nossa, se um dia eu for escritor vou colocar essa frase pro texto ficar mais, tipo, cheguei!). Lá ia eu galopando o vento quando meu cavalo se assustou com alguma coisa (uma cobra eu acho) e me derrubou, saindo em disparada, me deixando sozinho a mercê do comedor de peixe cru (peraí, é japonês ou chinês que come peixe cru, eu nunca sei).

Não demorou muito pro amarelo me alcançar e ele saltou sem nem mesmo pôr as mãos no cavalo. Por um momento eu achei que o nanico tinha voado da cela. Devia ser o sol que estava me fazendo ver coisas. Se tudo aquilo tivesse um fundo musical, eu teria escutado um assovio melodioso.

Me levantei e encarei o china bem dentro dos olhos. Minha vontade era sacar e encher o boneco de balas. Afinal eu estava bem arranhado por conta da queda, e o suor que caía nos arranhões não me faziam ficar mais feliz. Mas, em vez disso, eu apenas gritei: "EU NÃO SOU QUEM VOCÊ ESTÁ PENSANDO, SEU CHINEZINHO DE MERDA, MEU NOME É JERUSALEM JONES!". E, antes que eu me desse conta, senti um pé no meu queixo, rodopiei três vezes e caí no mesmo lugar de onde havia terminado de levantar.

Eu me levantei grogue, olhei para o desgraçado parado a minha frente, sorrindo, me olhando com aqueles olhos que eu não tinha certeza se estavam mesmo abertos. Me dei conta de que ele devia ter parte com o demo, já que eu não lembro de ter visto ele se mexer. Ele deu outro sorrizinho e disse:


- Meu nome é Pe Bo Lim! Você não "Zerusarem" Jones! Você Paul "Macarister", e eu vou levar você "pureso" e "pegá" a "lecompensa"!

- Peraí, Paul McCallister? Como alguém pode me confundir com aquele troncho do Paul McCallister? O cara é uma mistura de Corcunda de Notre Dame com Frankenstein. EU NÃO SOU TÃO FEIO ASSIM!!!! Vê se abre mais esse olho, china desgraçado - ser comparado com o Paul McCallister foi demais pra minha beleza. E aquele china tava tentando me matar, assim seria apenas legítima defesa. Saquei as armas e... e nada.

O china deu um pulo no ar. Se existisse cinema nessa época eu diria que a cena toda ficou em câmera lenta. Eu meio que vi o china flutuar, com aquela roupa rídicula de cowboy que não combinava com ele, então girar no ar, e daí seus pés acertaram meus dois revólveres, jogando-os muito, mas muito longe.

Ele voou! Eu juro que o china voou. Foi coisa de segundos, mas o viadinho voou! Quando ele aterrisou seus pés se enterraram no chão. Ele olhou de volta para mim, com um olhar (pelo menos eu deduzia que fosse um olhar, já que não se via nada, a não ser seus olhos fechados) de "eu sou o maioral". E pra completar, ele disse, todo cheio de confiança:

- Ou vem "poro" bem, ou vem "poro" mal!

Diacho, eu já tinha ouvido historinhas sobre esses chineses, e que eles tinham umas técnicas de luta conhecidas como Funde Ku, Bung Fu, ou algo assim. O Padre Crowns disse que uma vez, estava em um clube de lutas proibido quando aceitaram um desses amarelos numa luta onde valia tudo. O padre disse que foi um massacre, e que Dwight, o peso-pesado mais assassino de todos os tempos, ficou aleijado. Claro, o padre Crowns sempre bebeu demais e sempre viu coisas demais. Ele jurava que quando esteve pelas bandas de


Roswell viu um "pires voador", assim sendo eu não acreditei em nada do que ele disse. Pelo menos até agora...

Eu não estava nem um pouco a fim de ser preso no lugar do McCallister. Eu até podia deixar ele me levar e ver a cara de idiota que ele ia ficar quando o xerife dissesse que não era eu que estavam procurando. Era isso que eu fazia na maioria das vezes que me confundiam com procurados. Mas agora, agora eu estava puto, e aquele amarelo não ia me levar a lugar nenhum, pois mesmo não sendo eu o bandido, iam rir de minha cara por ser capturado por aquele toco de gente. Eu precisava dar uns pipocos no rabo desse chinês e pôr ele pra correr.

Olhei na direção das minhas muito distantes armas. Olhei para o chinês metidinho e... disparei na direção delas. Eu corri como nunca corri em minha vida. Eu escutei um barulho de tecido ao vento, atrás de mim, e senti uma pancada nas costas. O viadinho me acertou de novo. Eu pensei que ia ter de enfrentá-lo e isso não seria muito bom... pra mim. Pra piorar, eu suava tanto que um bando de moscas se juntava em mim, por causa do suor e dos meus arranhões que devia estar uma beleza de podres. Agora eram o chinês e as moscas que me irritavam.

Me levantei e fiquei de frente para o chinês. Eu não sabia bem o que fazer. Se eu corresse ele me enchia de porrada, se eu ficasse ele me levava preso e o vexame seria maior. Quando eu espantei uma mosca da cara, ele se assustou e ficou em posição de ataque, com as mãos em frente ao rosto. Fazia uns barulhos esquisitos, uns gritinhos meio afeminados demais para o meu gosto. Uma mosca quase entrou em meu nariz e eu fiz um gesto mais brusco, o que bastou para que ele me desse um chute na cara. PORRA!!! Esse chinês é maluco??!!

Meu nariz sangrava. Agora as moscas (de onde vinha tanta mosca?) estavam na minha cara aos montes. Eu dei um grito de raiva e o chinês pulou com a perna esticada pra me acertar de novo, foi quando ao tentar afugentar as moscas eu


acertei o pé dele e o derrubei no chão. Ele se levantou estupefacto. Na verdade eu também estava, só que não tinha tempo pra isso, pois as moscas me perturbavam.

O chinês estava furioso por ter sido derrubado, deu um grito e avançou pra mim, começando a tentar me acertar golpes com as mãos, a cada vez que ele tentava, eu o impedia sem querer, enquanto tentava me livrar das moscas que zuniam na minha frente. Era golpe do chinês de lá, e golpes meus, sem querer, de cá. Acabei por me defender de todos os seus golpes. Quando ele tentou me acertar a orelha com um golpe do pé, eu tentava pegar uma mosca ali bem na hora e acabei por pegar o tornozelo do china. Sem pensar duas vezes rodopiei o cabra pelo tornozelo e acertei a cabeça do disgramado numa pedra que estava ao meu lado.

O chinês apagou na hora. Acho que ele não esperava isso, e nem eu. As moscas nessa hora, se dispersaram, foram embora. Não entendi muito bem. Zung Fu, né? Olhei para aquele corpo estendido no chão, com mais ou menos metro e meio e pensei que não existia lutador perfeito, e que tudo dependia da sorte... ou das moscas, sei lá.

Estava sem saber o que fazer com o chinês desacordado, (que, claro, amarrei bem amarrado) quando me lembrei do que o Padre Crowns disse sobre o clube de lutas clandestino. Eu sabia onde tinha um, e se era dinheiro que o amarelo queria, ele ia ganhar, mas ia ter de dividir comigo. Ou isso, ou eu ia colocá-lo para trabalhar em uma pastelaria.

Chamei meu cavalo de volta, joguei o china amarrado no dele, e fui na direção do pôr do sol, sabendo que tudo que se precisa para ganhar dinheiro na vida, é um chinês que lute Fung Su.


Rai rô, rai rô... Ó suzana, não chores por mim, vou voltar pro Alabama tocando Pe Bo Lim... (argh... podre essa!)

EPISÓDIO 14 – ENCONTRO INSÓLITO

Eu gosto do deserto, isso é um fato. Outro fato no entanto, é que é no deserto que me acontecem as coisas mais estranhas e inesperadas. Talvez no fundo eu goste de coisas estranhas e inesperadas. Sim, estou tocando nesse ponto porque esses dias aconteceu mais um desses estranhos casos que parecem me perseguir aqui pelo deserto. Talvez o mais estranho de todos.

Eu vinha de Start City e ia na direção de Ending City, atravessando o deserto, e não estava nada contente por ter perdido dinheiro no jogo. Estava chateado por mais de um motivo, já que o dinheiro não era meu e, sim, um pagamento que fui incumbido de fazer aos irmãos McNeill. Certo, eu achava que estava com sorte e resolvi usar o dinheiro do resgate do pequeno Bob Laughton, que havia sido sequestrado há 12 dias pelos tais irmãos. Convenci o pai do Bob de que eu poderia levar o dinheiro em segurança e resgatar o garoto. É incrível como as pessoas acreditam em qualquer um hoje em dia.

Certo, não me olhem desse jeito. Eu apenas sou fraco quando se trata de jogatina. Perdi toda a grana e ainda tive de empenhar minhas armas. O pobre Bob estava em maus lençóis. De certa forma eu tinha intenção de resgatá-lo sim, mas ficaria com o dinheiro, mandando os irmãos McNeill para o inferno. Como exatamente eu iria fazer isso, no caminho eu ia decidir.


Como nada disso saiu como planejado, fui atravessando o deserto indo para bem longe. Se o pai do Bob me pegasse, não haveria quem me salvasse. Bom, mas como eu ia dizendo, eu passava pelo deserto, nessa travessia que costumo fazer em tantos outros desertos e que já me renderam algumas aventuras bizarras, quando eu vi um caveleiro ao longe se aproximando rápido. Não pude deixar de notar que ele carregava alguém junto. Alguém pequeno. Quando ele ia passar por mim à toda velocidade, eu quase caí do cavalo de susto: O DESGRAÇADO ERA A MINHA CARA!!!

Acho que ele passou tão rápido que não me notou. Parecia com bastante pressa. Resolvi ir atrás e quando o alcancei, foi que ele se deu conta da semelhança que havia entre nós e parou. Ficamos meio que estupefactos por um tempo, até que um dos dois resolveu falar, eu, no caso:

- Somos irmãos que se perderam ou algo assim? Qual é seu nome? - M-meu nome é Jerusalem Jones. E o seu?

Eu não podia acreditar, era algum tipo de brincadeira. O que estava acontecendo afinal?

- Quem é o garoto com você, posso saber? - Cara, eu não sei o que está acontecendo aqui, até as nossas vozes são idênticas. O garoto se chama Bob Laughton, eu acabo de resgatá-lo e estou levando o garoto e o dinheiro de volta para o pai dele. Espero que os dois consigam reconstruir suas vidas depois desse pequeno constrangimento.

Minha cabeça estava doendo demais. Quando ele disse essas coisas é que notei que haviam algumas diferenças entre nós dois: ele parecia mais... mais... honesto. Já ia comentar sobre isso quando olhamos os dois para um outro cavaleiro que se aproximava e eu, não sei o motivo, sabia que era outro Jerusalem Jones. E não deu outra.


Ele se aproximou de nós dois, tinha um olhar insano, e estava com o mesmo garoto na garupa, só que um pequeno detalhe: o garoto estava morto, esfaqueado. O novo Jerusalem Jones estava coberto de sangue. Ele não parecia ver nenhum problema em estar diante de mais dois parecidos com ele, e disse:

- Reunião de família? Hehehehehe? Hein? Reunião, é... hehehehehe. Tenho que entregar essa encomenda ao velho Paul Laughton. Eu disse que resgatava o filho dele... hehehehehe... só não disse como o entregaria! Heheheheheeheh... vocês precisavam ver o que fiz aos irmãos McNeill. Pena que não consegui me controlar e deixar o garoto vivo.. heheheheeh.

- Porque diabos você matou o garoto? - Perguntou meu eu mais honesto. - Porque o Demônio das Sete Chaves ocultas falou comigo enquanto eu cagava em Barrows City. Ele disse que se eu fizesse isso eu salvaria o mundo e ganharia a simpatia dele. Ah, e porque eu estava sem fazer nada.

O meu eu mais honesto ia retirar o revólver do coldre, quando um quarto cavalo vinha se aproximando e, claro, havia alguém sobre ele. Mas dessa vez parecia ser uma mulher. Respirei mais aliviado ao constatar isso. Mas isso durou pouco, pois quando a mulher se aproximou, estava vestida como uma pistoleira e... se parecia comigo também. Ver meu rosto emoldurado por cabelos compridos e com batom não foi nada animador. Eu me senti tonto. O meu eu psicopata perguntou:

- E aí, querida? Você também é da família? Qual seu nominho? - Disse ele babando. - Meu nome é Jerusalena Jones, e o primeiro que rir do meu nome, leva chumbo.


Ela não tinha ninguém na garupa. Mas parecia ter participado de algum tipo de luta, pois parecia bem machucada. Por curiosidade, eu perguntei:

- Você estava tentando resgatar alguém? - Roberta Laughton, filha de Paula Laughton. Cheguei tarde demais. Mas consegui dar cabo nos assassinos. Mas o que diabos significa isso tudo, porque todos somos tão parecidos e porque diabos esse maluco está com um garoto idêntico ao que está vivo na garupa ali do outro?

Foi quando ela disse isso que vi que o garoto que ainda estava vivo olhava para todos nós de boca aberta, como se estivesse vendo fantasmas, e eu nem podia culpá-lo. Eu estava querendo apenas continuar meu caminho e deixar aquelas cópias de mim mesmo, para trás. Quando dei sinal de que ia partir, meu eu insano sacou da arma para atirar em mim, quando meu eu honesto se meteu na frente e levou o balaço. A garota Jerusalena sacou da arma e atirou no doido, bem no peito, mas não escapou de levar um tiro bem na cabeça. Eu fiquei ali, em meio àquela carnificina. Todo mundo morto, menos eu e... o garoto.

Vi que os corpos tremeluziram e foram desaparecendo, mas o garoto ficou. Talvez por estar vivo, não sei. Me veio a idéia de que eu devia compensar o fato de ter perdido o dinheiro do Paul Laughton, e levar o filho dele de volta. Mesmo que não fosse exatamente o mesmo, afinal o original já deveria estar morto a essa altura.

- Vem, garoto. Vou te levar pra seu pai. - Ele subiu na garupa e partimos de volta para Start City.

Eu não sei o que aconteceu ali, nem faço muita questão de saber. Quando estava de volta para a cidade, um outro cavaleiro passou por mim, achei que ele parecia muito comigo, só que era negro. Eu estava com pressa e não queria mais pensar em cópias alteradas de mim mesmo. Apenas segui em frente.


EPISÓDIO 15 – O NATAL DE JERUSALEM JONES

Então não havia muito o que festejar. Jerusalem Jones estava bêbado como um gambá alcóolatra. Queria apenas esquecer que era Natal. Não, não que sua infância tenha sido um desastre, e ele nunca tenha ganho nada. Seu Natal sempre foi o de uma criança normal. Pena que ele nunca foi uma criança normal. Ele detestava o Natal apenas por detestar. Ou era apenas mais um desculpa para se entupir de bebida. Na verdade, acho que era isso mesmo, afinal ele dizia odiar a Páscoa também, e enchia a cara pelas mesmas razões... ou falta delas.

Jerusalem Jones nunca acreditou em Papai Noel e, certa vez que seu pai foi cair na besteira de brincar com isso, tentanto subir no telhado da casa, Jerusalem Jones, lá com seus 8 anos de idade, pegou o revólver do pai, e começou a atirar em sua direção, que rolou, deslizou pelo telhado e caiu no chão, passando o Natal todo quebrado. Jerusalem Jones nunca entendeu qual era a da barba branca e da roupa vermelha. Sua mãe só fazia rir de tudo aquilo.

É, Jerusalem Jones apenas detestava isso de espírito natalino. Ele dava graças a Deus de não ter parentes ou mesmo amigos a quem tivesse que dar presentes. Além de estar sempre duro, provavelmente daria algo que não seria do agrado da pessoal. Foi pensando nisso tudo, meditando na vida ao sabor do álcool


destilado, que Jerusalem Jones viu, àquela hora da noite, quatro Papais Noel saindo de um dos bancos da cidade. Cada um com um saco mais cheio do que o outro. Jones sabia, por algum motivo, que os sacos não deviam estar cheios de brinquedos.

A rua estava deserta, pois todos estavam em volta de suas árvores de Natal, e a Gangue do Papai Noel parece ter achado a oportunidade ideal para limpar o banco. E, com aquele disfarce, podiam ser abordados por aí e diriam que eram mais um dos tantos Papais Noel que andavam circulando pela cidade.

Jerusalem Jones foi notado por todos eles, que olharam em sua direção, mas vendo o estado alcoolizado dele, não deram a mínima importância e seguiram em frente. Mas Jones estava sóbrio agora, apesar de não parecer. Havia duas coisas que deixavam Jerusalem Jones sóbrio por mais bêbado que estivesse: cheio de mulher gostosa e cheio de dinheiro. E ele estava sentido o cheiro de muitas notas naquele momento.

Mantendo o aspecto de bêbado, Jones seguiu a quadrilha a uma certa distância. Eles estava indo na direção de uma carruagem, que já tinha um cocheiro à espera. Entraram todos os quatro e a carruagem partiu a toda. Jerusalem Jones entrou em desespero. Tinha que segui-los. Enfiou dois dedos embaixo da língua e tentou assoviar para chamar seu cavalo. Não conseguiu. Tentou novamente. Só saía baba. Ele ainda tinha efeito do álcool agindo sobre ele. O jeito foi gritar:

- CADÊ VOCÊ, CAVALO DE UMA PORRA?!

O cavalo apareceu dobrando a esquina e correu em sua direção. Jones pulou na cela do jeito que dava e disparou na direção da carruagem. A noite estava um breu e a lua mal iluminava o caminho. Ele mais escutava a carruagem do que propriamente a via. Seguiu mantendo uma boa distância até, que depois de um


longo tempo, viu que eles decidiram parar. Com certeza iam dormir, para seguir viagem de dia. Estavam todos eles no meio do deserto.

Jerusalem Jones saltou e tentou pensar no que ia fazer. Uma coisa que ele tinha notado agora, ele não pensou em nenhum plano para enfrentar quatro Papais Noel armados. Ele suspirou, tossiu, e quase morreu com o próprio bafo de cachaça. O que fazer, afinal? Nessas horas é que ele queria que algo de estranho acontecesse. Uma daquelas coisas que costumam acontecer com ele quase sempre, sem ele saber o motivo. Ele precisava de ajuda! Ou isso, ou era morrer tentando tomar a grana daquele pessoal.

Jerusalem Jones via a fogueira, que eles acenderam, tremular no meio da escuridão. Ele tirou seus revólveres da cartucheira, segurou bem rente ao rosto, se preparando para fazer algo que ele nem sabia mesmo o que era. Morrer, talvez. Foi quando ele começou a escutar gritos horrendos e barulho de ossos sendo quebrados, despedaçados. Ouviu grunhidos e gritos de dor lancinantes. Sua espinha tinha virado uma trilha de gelo em suas costas. Os sons eram horríveis demais. Jones achava que nunca mais conseguiria dormir. Quando, enfim, o rebuliço parou, o silêncio voltou a reinar sobre o deserto. Mas ir lá ver o que era, nem pensar, não com essa escuridão.

Jerusalem Jones esperou, esperou e esperou até o dia amanhecer, sem pregar os olhos. Qaundo o sol nasceu, Jones sentia dores horríveis pelo corpo, por não ter conseguido dormir. Foi andando, devagar, até o local onde os bandidos estavam acampados. Quando chegou bem perto, conseguiu entender mais ou menos o que acontecera. Eles não viram, mas levantaram seu acampamento bem no centro de um cemitério indígena de animais. Ou talvez até soubessem, mas não estavam nem aí.

Mesmo assim, Jerusalem Jones não entendia o que podia ter atiçado a ira desses espíritos para tanto. Havia pedaço de Papai Noel para todo lado. Roupa


vermelha, barba branca e pedaços de gente enterrados no chão. Jones olhou ao redor e viu os sacos de dinheiro intactos. Sorriu feliz da vida. Olhou mais em volta, vendo todos os estranhos túmulos de animais mais adiante, que eram marcados por pedras empilhadas. Viu que uma das covas estava remexida, e não acreditou no que viu. Um dos bandidos abriu o que pensou ser apenas um buraco e cagou dentro. Vendo o que restava dos ossos, Jones viu que era o tumulo de cão bem grande. Devia ser de algum chefe da aldeia. Que péssima idéia esse cara teve.

Jerusalem Jones se apressou em juntar os quatro sacos, quando ouviu um barulho às suas costas. Ah, não. Era o xerife e seus ajudantes:

- Jones! Foi você mesmo quem fez isso, meu filho?! Eu sempre achei que você era um vagabundo insolente, mas nunca pensei que fosse dado a heroísmos. Vou conseiderar esse massacre - que não faço idéia de como cometeu - como legítima defesa, meu filho. Pelo jeito você sabia que esse dinheiro era para obras de caridade de quatro cidades, doados pelo governador e conhecidos seus, devido ao Natal. Passe as sacolas, filho. Você fez um bom trabalho.

Jerusalem Jones ficou ali, parado, segurando quatro sacos vermelhos, cheios de dólares, pensando em como ele odiava ser chamado de "filho", por pessoas que não eram seu pai. Ele fungou, pensativo. Estava meio perdido em seus pensamento, até que decidiu entregar as sacolas e disse:

-É, xerife, tudo pelas criancinhas. Feliz Natal para o senhor e sua família. - Pra você também, meu filho.

E o xerife deu as costas e se foi com seus ajudantes em seu encalço, sem que vissem o dedo que Jerusalem Jones mostrava para eles.


Já estava indo embora quando viu um é atrás de uma grande pedra. O corpo de um dos bandidos estava destroçado atrás dela, um de seus braços estava mais adiante, segurando um maço de notas. O idiota deve ter tentado subornar a assombração. Que coisa mais imbecil. Jones pegou o maço de notas e viu que tinha uma grana considerável.

Olhou para onde estava a cabeça do bandido, ainda com a barba branca (na verdade a barba parecia verdadeira), e disse:

- Obrigado, Papai Noel! Eu adoro o NATAL!

E se mandou para a cidade mais próxima, onde iria comprar alguns presentes para si mesmo!

EPISÓDIO 16 – CRISE NO VELHO OESTE

Jeremiah Bernstein me devia uma grana e eu precisava ir até a casa dele cobrar. Isso implicava em ter de chegar perto dele, e eu detestava isso. Ele era um velho que teimava que era cientista e, em função de suas muitas invenções "revolucionárias, ele nunca tomava banho enquanto não as terminasse, e como ele estava sempre terminando uma e começando outra, isso significava não tomar banho nunca. Até mesmo eu não conseguia ficar sem banho tanto tempo, mas o maldito Bernie conseguia.

Outro coisa chata era como ele me agarrava e começava a delirar, contando como inventou o trem a vapor e a caneta-tinteiro e de como essas patentes foram roubadas dele por pessoas inescrupulosas. Tudo bem, fora o cheiro insuportável, algumas vezes eu dava boas risadas dessas histórias loucas do Bernie, mas hoje não era um dia em que eu estava de bom humor.


Quando me aproximei da casa, e bati na porta, ela se abriu sozinha. Quando eu entrei um cheiro forte de putrefação invadiu meu nariz que eu quase desmaiei. Acho que o Bernie realmente estava precisando de um banho, urgente.

Uma fumaça espessa vinha de outro cômodo da casa, onde eu mesmo nunca estive. Quando fui até lá, a visão de tudo me deixou enjoado. No chão, saindo de uma espécie de máquina, algo parecido com uma enorme caldeira, mas com uma porta na frente, estava o Bernie, saindo dela, como quem estivesse se arrastando, o rosto em desespero, olhando diretamente para mim. Mas o pior é que não era todo o Bernie, mas apenas metade dele. Algo o rasgou pelo meio, levando seu corpo da cintura para baixo.

Estranhamente sua metade estava bem em cima da linha da entrada daquela máquina estranha. Eu o rodeei, tentando entender o que havia acontecido. A máquina continuava a emitir um som, como se estivesse resfolegando, como um velho trem que se prepara para partir da estação. E estava muito, mas muito quente. Olhei de um lado dela, e um relógio esquisito estava conectado a vários canos que davam para o centro no alto da estranha máquina. Em vez de dois ponteiros, o relógio tinha uns cinco. Em vez de marcar as horas, ele parecia estar marcando certas datas. Porém, eu não conseguia entender o que era tudo aquilo. Quando me aproximei mais do relógio, senti uma pancada forte na cabeça, e apaguei.

... .... ... ...

Xingando a mãe de todo maldito traiçoeiro que ataca pelas costas, eu acordei, fui abrindo os olhos e divisando as coisas ao meu redor. Quando consegui ver com clareza, percebi um cara olhando diretamente para mim. Fiquei pasmo ao perceber que ele se parecia muito com o Bernie. Ele nunca havia me dito que tinha um filho. O homem devia ter uns 40 anos. Será que ele tá achando que eu matei o pai dele?


- Você é Jerusalem Jones? Ele me disse que eu devia procurá-lo se algo desse errado, e parece que deu. - Disse o suposto filho de Bernie, apontando para o corpo do seu - supunha eu - pai.

- Sim, sou eu. Mas porque me acertou na cabeça?

- Não fui eu, amigo. Quando eu cheguei aqui você já estava desmaiado aí no chão.

- Hmmmm... certo. Você é filho do Bernie?

- He he he he he!!!!

A risada dele parecia estranha, ao mesmo tempo melancólica e com um certo tom de apavoramento. Ele não parecia querer responder a minha pergunta. Ficou olhando para o corpo de Bernie com um olhar estranho, longínquo. Talvez estivesse tentando sentir alguma coisa por aquele velho que não via há tantos anos e não conseguia. Talvez Bernie o tivesse abandod...

- Eu sou ele. Sou Jeremiah Bernstein, que vai morrer daquela forma ali. Acho que não é todo dia que alguém vê como vai morrer. Sabe, quando esse velho maluco me procurou dizendo que eu devia tomar cuidado com quem eu me associava, para não perder patentes de importantes invenções minha, eu não acreditei, assim como você não está acreditando agora. Não acreditei até que alguns estranhos invadiram minha casa, exatamente nesta mesma hora, e foram na direção do velho, que agarrou uma espécie de caixa com uma pequena alavanca, mas quando ele a acionou... bom... os homens o agarraram pelas pernas, e foi com isso que eles ficaram. Metade do corpo dele.


A caixa com a alavanca acabou ficando na sala, não sumiu com a outra metade do corpo do velho. Os homens ainda estavam tentando entender o que aconteceu quando eu peguei a caixinha, e sem parar para pensar, eu a acionei... e aqui estou. Saí por aquela porta, de dentro daquela máquina, e não faço idéia de como vou voltar para minha época, pois pelo que pude perceber, eu viajei para o futuro. O futuro do meu eu idoso, que constrói essa máquina aí que parece poder transportar as pessoas através do tempo.

Eu fiquei sentado olhando para o homem, para o filho do Bernie, estupefato, de boca aberta, sem conseguir dizer uma palavra. O cara era jovem e já estava tão louco quando o pai que jazia morto ali, saindo de dentro daquela coisa que, com certeza, era alguma invenção estúpida do Bernie que deu errada. Talvez um novo tipo de máquina para retirar o fedor de meses sem tomar banho.

Eu tentava não rir, não cair na gargalhada, afinal o cara era, evidentemente, um maluco tão doido quanto o pai e, sabe-se lá o que poderia fazer se eu começasse a rir de sua história ridícula. Foi pensando em tudo isso que eu escutei a máquina chiar alto. A porta se fechou com um estrondo, quase jogando o corpo do Bernie do outro lado da sala. Um silvo alto quase ensurdeceu a nós dois e o vapor preencheu a sala. Quando tudo parou, a porta se abriu e de dentro da máquina saiu... saiu... saí... EU... 20 anos mais moço!!!

Meu eu u mais jovem olhou para mim mesmo, sentado ali no chão, deu um sorriso maroto, mas não falou nada. Foi até o cara que eu achava que era o filho do Bernstein, pegou-o pelo braço e enfiou-o dentro da máquina. Meu eu mais jovem mexeu nos ponteiros do relógio estranho, apertou uma alavanca perto do mesmo, e correu para dentro da máquina, se apertando junto com o outro. Antes de fechar a porta, olhou para mim, e disse:


- Cara, os anos não vão ser nada gentis comigo. - E dizendo isso, tocou a aba do chapéu num cumprimento e fechou a porta. A máquina chiou e apitou de novo, e um estrondo deu a entender que os dois foram embora.

Quando tudo terminou.... e a fumaça de vapor se dispersou... Bernie não estava mais na sala. O corpo havia sumido. Na verdade, a própria máquina também sumira. A casa estava limpa e não fedia mais. Ouvi passos vindo de outro cômodo, e era, bom, era o Bernie, trazendo um copo d'água:

- Desculpa ter te acertado, Jones. Pensei que fosse um ladrão ou algo assim. Não que que você seja muito honesto - E dizendo isso, soltou uma gargalhada. Era tudo estranho demais, e para piorar, o Bernie estava limpo, sem barba e parecia gente de verdade.

- Aqui está a grana que eu estava te devendo, Jones. - Bernie me pagou integralmente, e isso foi a gota d'água.

- Bernie, o que diabos aconteceu aqui?!

- Não sei, mas acordei hoje com uma sensação de dèja vu que não quer ir embora por nada. E mais, com uma estranha sentimento de que estou com uma dívida enorme com você.

- Não, não, tudo bem. Acho que o dia hoje está estranho demais pro meu gosto. - Me levantei e ia saindo, quando vi uma caneta-tinteiro na mesa do Bernie. Ao lado dela estava escrito Bernstein Inc.

Quando saí da casa, pude ver que ela, agora, era bem maior que antes. Com uma baita dor de cabeça, montei no meu pangaré fui embora, para não voltar a ver o Bernie tão cedo.


EPISÓDIO 17 – O HOMEM MASCARADO

Até agora não entendi porque diabos estou sendo perseguido por um mascarado, cavalgando um cavalo branco e por um índio que o acompanha. Só podem ser bandidos.

Tudo começou quando o Sr. MacTargget do Banco de Pennsilville resolveu me confiar uma tarefa meio que secreta: desvio de dinheiro. Sabendo do meu caráter, digamos, maléavel MacTargget sabia que podia confiar em mim, por uma pequena comissão. Nada que eu já não tivesse feito antes para ele. E nada que fosse realmente crime, no pleno sentido da palavra, já que MacTargget sabia o que estava fazendo. Ou pelo menos eu pensava que sabia. Então me pus a caminho, levando a grana comigo, para a cidade vizinha, para entregar ao outro sócio de MacTargget, que cuidava de toda essa parte. Tudo ia muito bem, até que esses dois se puseram em meu encalço, atirando, sem mais nem menos.

Enquanto isso...

No Banco de Pennsilville o Sr. MacTargget sabendo que está em maus lençóis, a ponto de ser descoberto pelos banqueiros para os quais trabalha, resolveu jogar a culpa em cima de alguém... esse alguém sendo Jerusalém Jones.

- Sim, isso mesmo Sr. Cavaleiro Solitário, ele acabou de sair com mais uma leva de dinheiro, o qual vem sistematicamente arrancando do banco. As autoridades


locais nada conseguiram fazer para capturá-lo, assim sendo resolvi recorrer ao senhor e a seu amigo índio.

- Fique tranquilo, meu caro senhor, nós capturaremos o meliante.

E foi assim que..

Eles vão acabar me acertando. O jeito é revidar. Totalmente sem jeito eu saco a arma e dou dois tiros para trás, sem nem mesmo olhar, pois estou preocupado demais em conseguir manter distância deles. Depois que atiro, um silêncio toma conta de tudo, ficando apenas o galopar do meu pangaré. Será que...?

Quando olho para trás, vejo os dois estatelados no chão. Seus cavalos galopando sem rumo. Eu os acertei de primeira?! Como? Resolvo voltar lá só mesmo para ter certeza do que fiz. Quando chego perto, o índio está morto com um tiro no meio da testa, e o mascarado eu acertei no estômago, não vai viver muito tempo.

- Se deu mal, né? Achou que ia levar a grana fácil. Tudo bem, eu não sou nenhum rei do gatilho, mas parece que a sorte está do meu lado às vezes. Quem são vocês, afinal? - C-c-cavaleiro s-solitário... e esse é... era o meu parceiro... - Hmmm... mas peraí, se ele era seu parceiro, como você poderia se autointitular Cavaleiro Solitário? No máximo poderia ser o Cavaleiro do Parceiro Indígena. - T-tonto! - Ok, você que tem o apelido estranho, e eu que sou tonto? - N-não, imbecil! O... cof... cof... nome dele... era Tonto!! Cof... Cof! Tivemos... muitas aventuras juntos!


- Aventuras... sei. Sabe, em alguns Estados mais radicais isso dá até pena de morte. - S-S-SEU LADRÃOZINHO ESTÚPIDO! DO QUE ...COF... COF... DIABOS VOCÊ ESTÁ FALANDO? - Peraí!!! Peraêeeee.... ladrãozinho é a mãe. Quem de nós dois usa máscara aqui? Eu estou de cara limpa e fazendo um trabalho honesto...bem, na verdade, quase honesto, mas dá no mesmo. E você, você sim tava me perseguindo pra me roubar. - E-e-eu sou um Ranger, s-seu a-animal... cof...cof...! Um Ranger Solitá... - Mas e o ín... - T-tá, tá, tá... e-esquece a p-porra do índio, merda! J-já ouviu... cof...cof... cof... ffalar em licença p-poética alguma vez, s-seu desgra...çado! - Não sei porque tá irritado. Me perseguir atirando, sem se identificar, não é uma atitude muito digna de um Ranger. - Cof... Cof... o gerente... do... banco de... P-Pennsilville... disse...cof... q...que... você...o... cof cof...roubava. - Ohhh, isso, entendi! É... quer que eu limpe esse sangue da sua boca, cara? É o mínimo que posso fazer. - Sim, obrigado. E-eu... eu me exal...tei. Ac-acabei fumando um pouco das eervas que Tonto s-sempre t-trás consigo e... assim... elas af-afetaram m-minhas d-decisões. - Cê tá falando de cannabis? - E-ERVAS M-M-MEDICINAIS, DROGA! T-t-totalmente legalizad.... cof...cof...

E dizendo isso, o Cavaleiro Solitário que andava acompanhado, deu seu último suspiro. Gostei da máscara e dos revólveres. Peguei-os para mim, podem se úteis. Quando abro o tambor, de um deles, vejo que as balas são de prata. É, o cara pode ser azarado, e meio esquisito, mas tinha um certo estilo. Merece até ser enterrado decentemente... mas não por mim, infelizmente. Estou com pressa.


Merda! Meu cavalo sumiu. Por perto só vejo o cavalo branco do mascarado. Reparo nas esporas um nome gravado, Silver. Deve ser o nome do bicho. Assovio para ele, que nem olha pra mim, então o chamo:

- AÍ... ÔOOOOOOO... SILVEEEEER!!!! - E ele vem.

EPISÓDIO 18 – TERRORES DA NOITE

Jerusalem Jones estava completamente louco. A maldição que adquirira ao ser mordido por uma morta-viva, que aliás tinha sido sua melhor amiga, voltara com força total. Mesmo os feitiços de um velho índio, avô de um amigo seu, só serviram para evitar que ele se tornasse um cadáver ambulante. Mas a fome, sim, a fome por carne humana o atacava de tempos em tempos... como agora.

Ele entrou na cidade e atacou sorrateiramente os moradores, saciando sua fome. Ele não se lembrava mais exatamente o que fora fazer nesta cidade. Talvez encontrar uma pessoa, não lembrava. A cidade era familiar, algo no fundo de sua memória embotada pela fome. Ele estava a espera de mais uma vítima, escondido entre os becos escuros.

Escutou passos. Uma mulher se aproximava. Quando ela passou por onde ele estava, agarrou-a e a mordeu arrancando um naco de sua face, com uma única dentada. O choque a impediu até mesmo de gritar. Jerusalem Jones ia continuar sua refeição quando percebeu que conhecia a mulher... oh, não!

- Mãe?!


Jerusalem Jones acordou de um pulo, suado, tremendo. Um pesadelo horrível. Fazia muitos anos que não via sua mãe. Depois que seu pai morreu, ele ganhou um padrasto, e então decidiu que, estando sua mãe com alguém, era hora dele ganhar o mundo e viver sua própria vida. Ainda estava tremendo, relembrando o sonho horrível. O mais estranho era que não sentia nada na maldita cicatriz em seu pescoço. Parecia nem mesmo existir.

Logo ele percebeu que ainda era noite lá fora. Estranhou, pois parecia que tinha dormido muito tempo, e que já deveria ser manhã. Chegara em Dodgeville apenas para descansar e partir na manhã seguinte. E agora estava sem sono. Mesmo que quisesse não conseguiria dormir, depois de um pesadelo desses.

Desceu as escadas da pensão e saiu para a rua deserta. Uma brisa incômoda trazia um cheiro esquisito que ele não conseguia definir o que poderia ser.

Acendeu um cigarro e continuou andando, sem rumo. De repente, escutou o barulho de bater de asas e ao olhar para trás, um homem vestido com uma espécie de uma batina preta estava postado exatamente atrás dele. Jerusalem Jones levou um susto, mas não teve tempo suficiente para reagir, quando foi agarrado e o estranho enfiou os dentes em seu pescoço.

Porém, ao engolir o sangue de Jerusalem Jones, o estranho deu um grito horrível, e e seu corpo começou a literalmente evaporar, exalando um fedor indescritível. Logo restava apenas um monte de cinzas no chão, junto ao manto estranho que ele vestia, e um anel com um "D" enorme.

Acostumado com as bizarrices em sua vida, Jerusalem Jones apenas continuou andando. Na verdade, ele achava que tudo não passara de alucinação. Estava pensando nisso quando de uma casa de dois andares, próxima, pulou um


enorme bicho peludo, que ele viu com o canto do olho. Só deu tempo de amortecer a queda.

Os dois rolaram pelo chão. O bicho que parecia um cachorro enorme, ou um lobo, sei lá, rosnava e babava sobre o rosto de Jones, que tentava manter suas presas longe de sua cara. Em meio a isso tudo, Jones pensava porquê ninguém acordava com todo aquele barulho.

O bicho já se preparava para arrancar sua cabeça quando alguma coisa o puxou de cima do J.J. Ele quase não acreditou no que via: um homem nu, de uns dois metros e meio de altura, com costuras por todo o corpo, inclusive no rosto, agarrara o bicho, que se debatia.

Jones sacou sua arma (que na verdade era a arma, que tinha balas de prata, do mascarado que ele matara no deserto) e atirou no cachorro gigante. O bicho estrebuchou no chão e... nossa... começou a diminuir, perder pêlo, até que se transformou em um homem franzino... que estava bem morto, agora.

O homem costurado olhou para Jones, e o agarrou da mesma forma que fez com o homem-cachorro, começando a apertá-lo, quase quabrando sua espinha. Jones conseguiu colocar o revólver na barriga do dito cujo, e descarregar. Os dois caíram.

O que estava acontecendo afinal? O que era tudo aquilo? Porque ninguém acordava na cidade, com todo aquele alvoroço?

Jones escuta um grito vindo de uma das casas à frente. Um grito humano. Corre para tentar ver quem é essa pessoa que parece ser a única da cidade.

Ao localizar de que casa vem o grito, arromba a porta, corre para o quarto de onde parece vir o som, e encontra um monstro com barbatanas nas costas,


atacando um velho deitado. Era do velho o grito. Jones saca um dos revólveres que ainda está carregado de balas de prata, e atira, matando o bicho.

Jones se aproxima da cama do velho e vê que ele segura um livro. Pega e lê a capa onde está escrito "Histórias de Terror - Monstros e Pesadelos". Pesadelo, hein, pensa Jerusalem Jones. Ele suspira, olhando para o velho de olhos abertos, vidrados, mas que ao mesmo tempo parece estar dormindo.

Lá fora um barulho ensurdecedor de passos faz com que Jones pegue o livro e veja onde o velho parou de ler... é o capítulo "A Legião do Inferno".

Jerusalem Jones coçou a barba por fazer, e tentou raciocinar. O barulho lá fora aumentava e o cheiro de enxofre dava ânsias de vômito. Logo eles estariam ali, e ele não tinha mais balas. Apenas uma, na verdade.

Jones lembrou de seu sonho, com sua mãe, e de como aquilo pareceu real. O velho, ele estava sonhando. Sonhos bem reais, depois de ter lido aquele livro de terror. Mas porquê só ele estava vendo as coisas que o velho sonhava? .... Oh, é isso. Por algum motivo, que ele não fazia a mínima idéia de qual era, Jones estava nos sonhos daquele velho.

As coisas já estavam dentro da casa. Jones não teve muito tempo para pensar. Tentou acordar o velho e não conseguiu. Era como se ele estivesse em coma. Sem muito tempo, ele só conseguiu pensar em uma saída. Atirar na cabeça do coroa, para ver se conseguia sair daquele sonho. Será que ele iria morrer na vida real? Aliás, será que Jones ia sobreviver também?

Os monstros do Inferno apareceram na porta, e Jones não teve mais o que pensar, encostou o cano na cabeça do velho, pediu perdão pelo que ia fazer, e atirou... BLAM!


Jerusalem Jones abriu os olhos... seu coração parecia que ia sair pela boca. Estava acordado, estava vivo. Nem conseguiu acreditar. Outro maldito sonho.

Jurou que não ia mais ler livros de terror. Estava velho demais para essas coisas. Já com 74 anos, ele devia saber que seu coração não aguentaria esses pesadelos. Ele só não sabia quem diabos era o cara que, no sonho, atirara em sua cabeça sem a mínima piedade. Parecia conhecido, mas o velho J.J. não conseguia lembrar quem poderia ser.

Maldição, pensou Jones, me mijei de novo.

EPISÓDIO 19 – O MONSTRO DE FERRO

O monstro de ferro amassou a delegacia de Village Old Town City. e apenas o xerife Wild Gruppy escapou, sendo que Billy Boas Maneiras estava atrás das grades, portanto... adeus, Billy. Mas o monstro queria mesmo era a mim. Soltando vapor por todos os lados, o bicho de mais de 20 metros gritava:

- "JONESYYYY!!!"

Tudo bem, a culpa foi minha. Tudo começou com uma piada inocente feita a um oriental, no Armazém do Grabbie. Ele estava lá, comprando todo tipo de parafuso e metal que o Grabbie possuía, quando eu, depois de ter tomado umas


no Salloon do Arnold Backinsale (que agora não existe mais, vá com Deus), puxei conversa:

- E aí, china, pra quê tanto parafuso e placas de metal?

- Eu não sou chinês, Mr. "Jerusarem Jonesy", sou japonês.

-Uau, tô ficando famoso, já me conhecem até na China...ops, Japão.

- Não. Apenas já me alertaram contra a sua pessoa, Mr. "Jonesy".

- Tá certo. Só queria fazer uma pergunta. Algo que sempre comentam acerca dos homens orientais.

- Diga logo, tenho pressa. Não tenho o dia todo livre como certas pessoas.

- Isso foi injusto. Mas tudo bem. Me diga, é verdade o que dizem sobre o "negócio" do japonês ser muito, mas muito pequeno?

- Negócio, que negócio? Eu não sou comerciante, Mr. "Jonesy".

- Hmmm.. com "negócio", eu quero dizer braúlio, bilau, pinto, estrovenga, ou numa linguagem mais coloquial, pênis!

Nessa hora eu vi o japa ficar vermelho como um tomate, ou mais até. Pensei que ele fosse explodir. Ele pareceu estar paralisado, mas logo vi que não, quando ele meteu a mão no bolso e puxou a arma mais minúscula que eu já tinha visto em toda minha vida, e apontou para minha cabeça. Provavelmente disparava grãos de arroz:


- Mr. "Jonesy", no meu país existe um velho ditado que diz: "Não é o tamanho que importa, e sim o modo como se usa". - E dito isso, ele disparou.

Plec, plec, plec...

A arma do japa engasgou, e em seguida explodiu em sua mão. Claro, eu não pude manter minha boca fechada, vendo essa ironia do destino:

- É, eu acho que os boatos sobre as coisas miúdas "made in japan" são verdadeiras!

- Mr. "Jonesy", a honra é algo muito importante em meu país. Esteja amanhã ao meio-dia em frente ao "Saroon" de Mr. Arnold "Backinsare" para um duelo até a morte.

- Não vou faltar. Venha com uma arma maior. Mr...

- Kyosama Tenchigui! - E foi embora levando seus parafusos e placas de metal.

E ele veio, ao meio-dia. Ele chegou de trem. Um trem que estacionou bem em frente ao Saloon, deixando toda a cidade em polvorosa. Claro, afinal, ali não havia trilhos e a estação ficava do outro lado da cidade. Ele ainda possuía mais dois vagões, ou algo semelhante a isso. Eu não estava entendendo porque o japa estava ali num trem. Bom, eu não estava entendendo até ele dar um sorriso maroto de dentro da cabine e puxar uma alavanca.

Se a coisa já estava esquisita, ficou pior ainda. O trem começou a se transformar em outra coisa. Com muito ruído e muita fumaça - pois ele parecia funcionar a vapor, como os outros trens comuns - ele começou a ficar de pé! Se transformou em uma espécie de monstro de ferro.


As maioria das pessoas corriam com medo e gritando, mas muitas ainda permaneciam para saber no que aquilo ia dar. O saloon do pobre Arnold foi o primeiro a ser destruído. A coisa não conseguia andar direito e ao tentar vir em minha direção, esmagava tudo que estava à sua frente, ou dos lados.

O bicho era tão grande que eu entendi mais ou menos a ironia da coisa toda. O japonês estava tentando me esmagar como um inseto. Pra ficar mais excitante, o troço soltava fogo, como um dragão. Aquilo devia estar consumindo carvão de uma forma absurda.

O barulho das engrenagens que o faziam andar era ensurdecedor. Eu tentava ficar o mais longe possível, mas correr só piorava as coisas, pois aquela máquina estava destruindo toda a cidade tentando me capturar.

Eu ficava me perguntando como essa história ia terminar. Bem que isso poderia ser apenas um sonho e eu acordar, mas acho que isso já havia sido usado demais. Eu precisava me livrar daquilo de alguma forma. Não havia outra saída.

Eu consegui montar em um cavalo qualquer e disparar na direção da saída da cidade e ir a toda para o deserto. Imaginei que como aquilo era bem pesado, não conseguiria andar tão rápido. Olhei para trás e suspirei aliviado, pois a máquina estava saindo da cidade, vindo na minhha direção. Provavelmente o deserto ia acabar com o japonês e suas reservas de carvão. Até lá eu já estaria long... hã... como? Como pode ser? O monstro VOA?! Todo aquele peso? Como pode?

Não podia acreditar, mas agora aquilo ia me alcançar em questão de minutos.

Quando o bicho aterrisou, o barulho fez com que meu cavalo se assustasse e me derrubasse. O monstro de ferro levantou um pé enorme e já ia me esmagar,


quando eu vi o brilho de uma espécie de estrela bem sobre ele, descendo. Um clarão mais forte me cegou completamente, e eu não consegui ver o que estava acontecendo. Corri como pude para longe do que parecia ser uma batalha entre o monstro de ferro e alguma outra coisa que parecia só saber gritar "HUÁC".

Me escondi em uma pedras, ainda cego. Quando todo aquele barulho de luta ensurdecedor parou, eu só escutei o som de ferro sendo amassado e depois um último "HUÁC", e senti que algo foi embora.

Me encostei na pedra e esperei um bom tempo, até que minha cegueira provocada pelo clarão foi embora. Consegui enxergar e olhei para onde tudo aconteceu. Só havia uma gigantesca bola de ferro retorcido e o corpo do japonês totalmente nu, jogado para o outro lado.

Fui até lá para ver se o idiota ainda estava vivo. Pude constatar que ele estava respirando apesar de estar muito mal.

- O que aconteceu, japa?

- De novo... aquele maldito... Ultr.... cof... - e desmaiou.

Dei um chute no lado do desgraçado, isso porque eu não sou de guardar rancor. Coloquei-o sobre o cavalo para entregar ao Xerife. E... hmmm... que tem demais? Conferi os documentos do japonês e... é, realmente os boatos, pelo menos no caso dele, são bem verdadeiros. Minúsculamente verdadeiros.

EPISÓDIO 20 – O POVO DE MASSINA

O sino da igreja começou a tocar. Era o sinal. Estávamos sendo invadidos. As pessoas de Massina City (nunca entendi o porquê desse nome) estavam vindo


com tudo para cima da gente aqui, em Down River. Não dava para acreditar que aquelas pessoas, em sua maioria pacíficas estavam armadas e prontas para matar. Eu só acreditei quando ouvi o primeiro estampido e o Carl "leprechaun" Dobney, que estava logo ao meu lado, levou um tiro certeiro na cabeça, disparado por uma velha de uns 90 anos. Era hora de revidar.

Tudo teve início quando o "Louco" chegou à cidade. Eu estava morando em Down River já há algum tempo, descansando um pouco das loucuras pelas quais passei. Mas até que estava demorando acontecer algo, pois assim que o Louco chegou, ele correu na minha direção e agarrou minha camisa.

- Amigo, amigo!!! Eu sou amigo!!!! - Certo... amigo. Se você deitar e rolar eu te jogo um osso. Agora, pode largar a minha camisa. Você está babando nela. - Eles estão vindo. Tentaram me pegar, mas eu sou mais esperto, entende? Ninguém pode entrar na minha cabeça. Ninguém. - Eu até imagino o motivo - O próximo passo é Down River. Ouvi quando eles disseram "conseguimos Massina, o próximo passo é Down River".

Eu me senti incomodado com a conversa do Louco, pois eu nem mesmo podia dizer que era bobagem o que ele estava dizendo, pois coisas muito piores já haviam acontecido comigo. Ainda assim eu não fazia idéia do que ele estava tentando dizer. Arrastei-o para o saloon para ver se ele se acalmava tomando uma birita. É, eu estava mesmo vivendo bons dias. Pagar bebida para alguém era contra a minha religião. Mas o Louco tava precisando.

Ele falou por horas do que aconteceu ao povo de Massina City. Mas tudo que ele disse era tão desencontrado, tão... louco. Ele falava sobre demônios e espíritos maus. Falava algo sobre dominação mundial e portas abertas do inferno. Não era algo difícil de se acreditar, para alguém como eu, mas o cara


era apenas o "louco da vila". Devia ter sido expulso por ter abusado da filha de algum fazendeiro.

Quando me dei conta ele estava tão bêbado que não falava nada mais com nada. Só conseguiu dizer: - Elesh vão invadir Down River amanhã. - E desmaiou.

Parecia brincadeira, mas ao meu redor, escutando as histórias do Louco, se formara uma multidão.

- Pessoal, isso tudo é besteira. O cara deve ter sido expulso da cidade. Se acalmem. - disse eu. - J-jerusalem...o-olha - Era o Vince apontando para o Louco na mesa.

O corpo do pobre coitado começou a brilhar, sua roupa foi sendo como que queimada e, sem que ninguém pudesse acreditar, o Louco bêbado desapareceu num clarão de luz tão forte que quase me cegou. De repente todo mundo começou a pegar em armas e a avisar toda a cidade sobre a invasão que sofreríamos vinda da cidade de Massina.

E aqui estávamos, matando pessoas que conhecíamos e alguns matando até mesmo parentes - não que isso fosse problemas para certos conhecidos meus. Eu atirei em um garoto que veio pra cima de mim com duas 38 disparando como louco. Acertei entre os olhos, antes que ele me matasse. Era uma guerra entre duas cidades.

Eu vi o Billy Bob Joe, o açougueiro, acertar um cutelo no meio da testa de um padre, para logo em seguida ter o coração arrancado pelo coroinha que veio logo depois. Adeus, Billy.


Os cavalos dos habitantes de Massina também pareciam insanos e eu me ocupava de derrubá-los logo que podia. Um deles já tinha conseguido me machucar. Me escondi um pouco para recarregar as armas e quase morri de susto quando vi a porra do Louco bem na minha frente.- Que diabos é isso?!

Você não tinha morrido, ou sei-lá-oquê? - Tome. Um tiro só. - E sumiu bem na minha frente.

E dizendo isso ele me deu uma bala de ouro (nossa, eu já podia fazer uma coleção, balas prateadas, douradas).

Um tiro só. Sei. Nem precisa dizer muita coisa. Até já imaginava. Eu devia acertar o líder da invasão que, provavelmente, isso iria deter a todos, ou algo parecido. Agora, porquê o diabo do Louco não me disse quem era o líder? Merda! Mesmo sendo fantasma ele ainda é o idiota da vila. Lá vou eu então

Entrei no meio do tiroteio. Me protegi atrás do Bubby Conwell, que levou um tiro logo em seguida. A coisa tava feia. Como eu ia saber quem era o cabeça da coisa toda, antes de ser morto?

Cabeça? Que estranho. Isso me lembrou algo. Cabeça... cabeça. Eu havia visto no meio da multidão de Massina, uma mulher com cabelos vermelhos e uma estrela na testa. Será tão óbvio assim? Não lembro de ter visto mais ninguém com sinal. Onde estava ela?

Arrrrkk... acho que ela...arkkh... me achou. Ela agarra meu pescoço com força, está prestes a quebrar. É quando um tiro corta o ar e ela cai ao chão com a cabeça com um rombo enorme. Mary Kate, a dona do saloon, a acertou. No mínimo não quer que eu fique sem pagar minha conta.


Só que nada parou. Será que preciso acertá-la, mesmo morta, com a bala de ouro? E se não for ela, e eu desperdiçar? Tenho de parar esse massacre. Essa foi a única cidade que não me pôs pra fora em menos de 3 horas.

Não, não é ela. Eu volto para a guerra, e tento ver algo que me chame atenção. Estamos perdendo, tenho de ser rápido, ou morrer tentando. É quando olho pro meio da multidão invasora e vejo meio que tomando a frente de todos e causando o maior número de mortes... ele... o Louco? Não penso duas vezes, miro na direção dele, que me olha, e parece sentir que o fim está próximo, eu miro, ele mira - todos miram - na minha direção... eu atiro, eles também. Eu caio.

Me joguei no chão. Uma saraivada de balas passa rente a minhas costas e pára. Quando me levanto, a guerra acabou. Os sobreviventes de Massina estão parados, sem saber o que fazem ali. O pessoal de Down River os detêm por precaução. Tudo acabou.

Vou na direção do corpo do Louco e vejo que... não, não é ele. Apenas se parece com ele, só que mais velho. Imagino que seja seu pai . Abro sua camisa e ele está cheio de estranhas tatuagens, sendo que uma delas, lembra uma espécie de parto sendo feito no Inferno.

Eu descarrego minha munição no homem. Não sei exatamente porquê, apenas o faço.

Por um instante sinto uma espécie de paz. Mas apenas por um instante. Melhor eu ajudar com os feridos e enterrar alguns mortos. Ainda vou ficar um bom tempo por aqui.

EPISÓDIO 21 – A INSÓLITA AVENTURA DE JACK TRIPPLECOLT


Era um daqueles dias em que fico filosófico. Estava no saloon, bebendo umas e outras e acho que tinha lido livrinhos demais nesse dia. Eu adorava as histórias do Jack Triplecolt, e de como o cara só se metia em cada aventura maluca, coisas que eu nem mesmo poderia, é... bom, eu não podia falar muito, mas ainda assim o Triplecolt era só um personagem em um livretos de 10 centavos.

O Bob Calhoun bebia comigo. Já estava bêbado fazia um bom tempo. Eu conversava com ele, mesmo sabendo que ele não ouvia mais nada. Eu também não estava muito bem, pois já tinha bebido bastante, mas estava melhor que ele. Então eu comecei a falar:

- E, cara, lendo as aventuras do Jack Triplecolt eu parei pra pensar por um instante e me veio à cabeça: e se nós, aqui, e tudo isso ao nosso redor, for apenas o fruto da imaginação de outra pessoa? E se nada disso aqui existir e se você, Bob, bêbado aí, deitado na própria baba, for apenas o que as palavras de alguém em algum lugar, estiver descrevendo? Doido, né? Eu penso nisso porque as histórias do Jack Triplecolt são tão reais às vezes. Olha só essa edição que acabei de comprar no velho Gorgie: "Um Túmulo Para Jack". Vou ler pra você... ei... BOOOOB!!!

- Hã... mãe, quero leite e páprica no meu pão... hã...

- Presta atenção, vou ler pra você:


"Jack Triplecolt estava entre a vida e a morte depois de salvar a filha do rancheiro. Ele conseguiu fazer com que ela escapasse, colocando-a num cavalo e dando cobertura para que fosse embora. Teve de enfrentar todo o bando, e conseguiu matar a todos, mas não sem sair mortalmente ferido. Jack estava sangrando e agonizando. Sentia que era o fim, o frio tomando conta de seu corpo. O fim, depois de tantas aventuras, e de perigos muito piores que esse que enfrentou. Mas morreria como sempre quis, tendo lutado até o fim.

Jack pensou em apressar a morte colocando o cano da arma na boca. O gosto do metal fez com que ele se lembrasse que mesmo alguns minutos de vida, ainda assim era vida.

Jack sentia que estava morrendo, mas de repente começou a ter alucinações, talvez causadas pela perda de sangue.

Viu a si mesmo cavando seu túmulo, sua sepultura num lugar ermo, onde ninguém se lembraria dele, nem de seu nome, nem de seus feitos. Via a si mesmo cavar com vigor, sem nem mesmo parar para descansar, e ao olhar para dentro do túmulo, viu o que parecia um abismo sem fim, de uma escuridão pastosa e assustadora. Jack nunca sentiu medo na vida, mas estava sentindo medo agora, na morte.

Não medo da morte em si, mas daquela alucinação que estava sendo perturbadora demais. Era como se ele estivesse expiando seus pecados, como se tivesse que passar por aquilo para poder morrer em paz. E a escuridão do túmulo começou a criar garras negras e puxá-lo com força para dentro do alémvida, que na verdade era o além-morte.

Jack foi sugado para dentro do túmulo e já estava achando que estaria no inferno quando chegasse ao fundo. Mas não foi bem assim. Quando abriu os


olhos estava à entrada de uma cidadezinha que ele nunca vira antes, dessas tranquilas, onde parece que o tempo parou.

Ele entrou na cidade sem saber exatamente o porquê de estar ali, e ao mesmo tempo algo dentro dele parecia o guiar para um lugar específico."

- Errr... Jerusa, cama... rada... essa história é uma grandess... grandessízi... uma merda. Quem...hic... escreveu isso? - Disse Bob em um momento de lucidez incoveniente.

- Bob, você não sabe ler. Não pode querer dar uma de crítico. Agora deixa eu continuar.

"Logo se via que Jack não era da cidade e as pessoas o notavam. Mesmo sendo amistosas elas viam que havia algo de diferente naquele homem. Como se ele conhecesse muito mais do mundo do que eles. E assim, ele continuava indo para onde parecia que seus pés o levavam, e viu que se tratava do saloon da cidade. Um lugarzinho simples infestado de homens comuns que queriam apenas beber para esquecer da vida simplória que levavam. Mas era ali que estava a resposta para sua busca.

Numa das mesas do canto, um homem estava lendo um livreto em voz alta. Lia para um bêbado que estava quase desacordado, com a cabeça apoiada na mesa."

- Je-Jerusa... hic... pára de inventar vai...isso... hic... isso não está escrito aí....he he he...hic...

Eu também comecei a duvidar do que eu estava lendo. Mas a próxima frase fez com que eu levantasse a cabeça e olhasse para a entrada do saloon:


"O homem com o livro levantou a cabeça e olhou na direção de Jack."

Fiquei confuso, não conseguia entender nada. Queria continuar lendo, mas o Jack Triplecolt estava na minha frente. Eu estava paralisado, sem saber o que fazer. Não era apenas coincidência. O homem parado na porta olhando pra mim era como os livretos anteriores o descreviam. Eu não sabia o que fazer, o que dizer. O que estava acontecendo afinal? Com muito esforço eu voltei minha atenção para o livro para tentar ler o que ia acontecer em seguida.

"Quando Jack estava para perguntar algo ao estranho homem com o livro ele voltou a ler o livro e ele... acordou."

Olhei para a porta e Triplecolt não estava mais lá. Voltei a ler.

"Jack estava em uma cama. A filha do rancheiro cuidava dele. Ela disse-lhe tudo que aconteceu. Como seu pai voltou com ajuda, levando um médico, e contou de como conseguiram salvá-lo da morte certa. Disse também que Jack ficou desacordado por três dias, e que ela ficou ali lendo para ele todo esse tempo.

- Nossa, Sr. Triplecolt. Eu fiquei aqui lendo mesmo sem saber se ouvia, pois esperava que se recuperasse logo.

- Posso ver o título desse livro, senhorita?

- Claro.

- As Aventuras de Doc Fletchwood. Certo.

Jack respirou aliviado, pois lembrava que na sua alucinação achava que tinha visto seu nome na capa do livro do estranho no saloon. Despreocupadamente ele folheou o livro e foi ler a última página, a última frase:


'Doc, não se desespere. Somo apenas o fruto da imaginação de outra pessoa.'

Jack não entendeu a frase, apenas sorriu para a moça, entregou-lhe o livro, se recostou o voltou a dormir, e nos seus sonhos não haviam mais túmulos."

Jerusalem Jones sentiu-se estranho ao terminar de ler o livro. Detestava coisas que não conseguia entender. Saiu do saloon, jogou o livro no chão e pôs fogo. Olhou em volta, como se tentasse enxergar algo que estava invisível a seus olhos. Olhou para cima, suspirou, e decidiu que agora só ia ler o jornal e olhe lá.

FIM DO VOLUME I

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Jerusalem jones vol 01  

E-book made by Eudes Honorato, a brazilian writer with stories of Jerusalem Jones, a mythical cowboy.

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