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Ficha Técnica

Editorial

Impressão: Printhouse

Chegada a última edição deste mandato, resta-me fazer uma reflexão sobre todo o meu trabalho na ANEMIA. Quando peguei neste projeto, cheio de ideias e vontade de trabalhar, via esta revista como algo com tremendo potencial de se tornar melhor, mais profissional, mais apelativa, com tudo para ser uma revista de referência noutras escolas médicas do país e além fronteiras. Tomei como meu primeiro objetivo reformular o design da revista, para um formato mais clean. Se queria que a ANEMIA fosse tomada mais a sério, tinha de passar por uma aparência mais profissional. Tive como referência revistas conceituadas, inspirando-me na “Time” e na “National Geographic”, por exemplo. Após esta reestruturação, precisei garantir que o conteúdo não ficava aquém da qualidade gráfica. Procurei sempre trazer os assuntos mais pertinentes e interessantes, apoiando-me em entrevistas de grandes nomes da medicina e de materiais de grande interesse. Porém, nem tudo correu pelo melhor. Primando pela transparência com vós, assíduos leitores, deixem-me dizer que, antes de sair alguma edição, era uma odisseia! O pior não era planificar o conteúdo de uma edição. Era arranjar escritores. Escasseiam pessoas com vontade de escrever e interessadas em participar neste projeto. Os colaboradores da ANEMIA merecem os maiores parabéns pelo seu esforço e pela paciência que tiveram comigo, quando mandava mensagem dia sim, dia não, a fazer pressão para enviarem os textos, e sempre foram muito cumpridores e disponíveis, não podia pedir melhor que eles. No entanto, face à quantidade de artigos e face à dimensão que a revista está a ter, é necessário mais pessoas para escrever e essa foi uma dificuldade sentida em todas as edições. Tentei envolver todos os colegas. Tentei chegar a toda a gente. Tentei que a ANEMIA desse o próximo passo e aquece-me a alma saber que, efetivamente, deu. Termino dizendo que foi uma experiência imensamente satisfatória e realizadora, poder pegar neste projeto e levá-lo mais além. Um grande obrigado a todos pelo feedback positivo que, de uma maneira ou de outra, me foram dando. Sei que, quem quer que seja que pegue nesta revista no próximo mandato, fará um trabalho tão exímio e tão bom como o meu (fica a expectativa!). Espero ter feito a diferença nas pessoas que leram a ANEMIA este mandato, espero ter conseguido aumentar a sua cultura e o seu conhecimento. Desejo a todos uma excelente época de exames. Drop the mic.

Tiragem: 250 exemplares, Distribuição Gratuita

Pedro Pinto

47ª Edição - Janeiro 2017 Propriedade de

Medicina

do da

Núcleo AAC

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de Pólo

Estudantes das

Ciên-

cias da Saúde da Universidade de Coimbra Sub-Unidade 1 da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra Azinhaga de Santa Comba, Celas 3000-548 Coimbra geral@nemaac.net www.nemaac.net anemia@nemaac.net Departamento Cultural Direção: Pedro Manuel Pinto Redação: Pedro Pinto, Margarida Duarte, João Cascalheira, Hugo Almeida, Gonçalo Engenheiro, Catarina Viegas, Gonçalo Costa, Eleni Faria, Tiago Lorga, Gonçalo Torres, Ana Lúcia Oliveira

Design e Grafismo: Marina Cruz e Hugo Pereira Capa: Marina Cruz

Revista segundo o novo acordo ortográfico

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Índice 4 ..................................................... Aqui Faz-se Ciência

5 ................................................................... Ciência Atual

6 ........................................................ À Procura do NEMo

8 ..................................... Ser Médico na Cruz Vermelha

10 ..................................................................... Neste Mês

12 .................................................................... Cooltiva-te

13 ................................................................ Vive Coimbra

14 ............................................................... Tema de Capa

18 ......................................................... Medicina Lá Fora

20 ......................................................... Fora da Medicina

22 ........................................................................... Cinema

23 ................................................................. Coffee Break

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Aqui Faz-se Ciência Nova Mutação Descoberta na Doença de Leigh

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o cabo de quatro anos de estudo, uma equipa, encabeçada por Manuela Grazina, docente da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, descobre a mutação na origem da Doença de Leigh, em dois doentes seguidos no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra. Na verdade, foram identificadas, neste contexto, duas mutações, mas apenas uma delas era, até agora, totalmente desconhecida.

A Doença de Leigh é uma patologia neuro-

degenerativa progressiva rara, pertencente ao grupo das encefalopatias mitocondriais. Tipicamente, dá os seus sinais nos primeiros anos de vida, mas também há exceções à regra. O quadro clínico caracteriza-se por hipotonia, anorexia, vómitos, irritabilidade e convulsões, nas crianças com menos de um ano de idade. Nas crianças mais velhas, pode ocorrer ataxia, disartria, regressão intelectual, dificuldades respiratórias e alterações oftalmológicas (oftalmoplegia, nistagmo, atrofia óptica ou estrabismo). Os doentes apresentam lesões bilaterais focais numa ou mais áreas do sistema nervoso central, como no tronco cerebral, tálamo, gânglios da base, cerebelo ou medula espinhal. A esperança de vida destes doentes é, infelizmente, curta. Porém, um dos doentes do estudo é referenciado como o doente vivo com mais idade, afetado com a Doença de Leigh.

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grupo de médicos e cientistas responsável por esta descoberta identificou um défice enzimático

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da Citocromo C Oxidase (COX) – complexo enzimático IV da cadeia respiratória mitocondrial – e alterações no gene SURF1 – responsável pela montagem das subunidades que constituem a COX. A conjugação destas duas alterações, resulta num transtorno da produção de energia a nível da mitocôndria, pois é da mais extrema importância o correto posicionamento das várias subunidades.

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resultado desta investigação foi publicado na revista “Mitochondrion”, na qual se podem ler artigos acerca da ciência básica das mitocôndrias de todos os organismos, assim como da sua implicação clínica. Foi descrito por Manuela Grazina como um contributo relevante “para compreender melhor a origem da Doença de Leigh, uma doença mitocondrial rara, que surge na infância. As mutações agora descobertas são mais uma peça do puzzle, porque já foram descritas mutações genéticas associadas à doença em mais de 20 genes diferentes (nucleares e mitocondriais)”.

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ais trabalhos serão necessários para chegar a conclusões precisas acerca da utilidade clínica desta e de outras descobertas que estão a ocorrer relativamente à Doença de Leigh, que ainda não tem um tratamento eficaz disponível. Mas este já é um grande passo que foi dado pela equipa de Manuela Grazina.

Por: Margarida Duarte


Ciência Atual Sabias Que...?

comum da vez mais a c é te n e o e com Atualm alimentaçã a m o c o d a , nas ter-se cuid do, por isso n e rr o c in , o agpossam im o nosso corp e s e u q s a louc pendendietas mais s que, inde ia b a s , o d estar inar. Contu que optes, r o p ta ie d r peso num temente da r e a perde a h n a g a re aumentar semp mpo, pode te e d o d o lares? curto perí ardiovascu c s a ç n e o de d o risco de rça de vonta fo a s a rc e p ão nstantePortanto, n ma dieta co s e m a m té uma boa e man ano novo é o d is o p e mente. D começar! altura para

Sabias que o Facebook , apesar de ma destina ser uma pla da a criar m taforaior ligação soas, é resp entre as pe onsável po sr causar de isolamento pressão de social, espe v id o cialmente n a vem? Esta co um público ndição está joconfirmada compreend de e-se pela co nstante nece sde 2011, e acionamen ssidade de to com os o relutros, e pela chegar aos necessidad padrões est e de ipulados po modo, para r outros. De combater e ss ss e a condição por vezes fa de depress cilmente ig ã o , norável, os dores deve seus utiliza m passar ap enas peque de tempo o nos períod nline; dista os nciar-se de de inveja p um sentime ela vida pe n to rc ebida das p sua rede so essoas na cial; e não a ce amizade de antigos parc itar pedidos de eiros amoro sos e/ou se xuais.

Tradicionalm ente, as tatu agens são uti expressão de lizadas como arte ou como método de d ciar e embele ife zar o corpo h umano. Contu renequipa de ci do, uma entistas dese nvolveu uma característic tinta com as especiais, para utilizaçã a tinta brilha o médica: apenas quan do está expo determinada sta a uma condição lum inosa, permit a alguns doe indo assim, ntes, que se identifique, n o local onde o seu corpo, terão de ser operados, até de antecedê três meses ncia, sem tere m de voltar a sem terem d o médico e e ter cuidado s excessivos como aconte com a pele, cia até aqui, em que a tin podia causar ta utilizada inflamações e comprome sucesso futu te ro ro da operaçã o.

Por: João Cascalheira

Doenças degene rativas como o Parkinson ou o Al zheimer afetam milhões de pess oas no mundo inteiro e são extr emamente difíce is de diagnosticar precocemente. N o entanto, sabias qu e foram, recentemente, desenv olvidas técnicas que permitem di agnosticar estas doenças? Pelo m enos em pintores : analisando pintur as feitas à mão, e reconhecendo os padrões e os estilos, é possível decompô-los em frações, com possibilidades infinitas, que, ao serem analisadas por um program a de computado r desenvolvido po r cientistas ingleses, consegue compreender e di agnosticar doen ças degenerativas com base na com paração entre quadros, estilos e utilização do pincel.

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À Procura do NEMo O Harrison (Im)Perfeito

O QUE É A PROVA NACIONAL DE SERIAÇÃO (PNS)?

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É consensual que este exame se encontra desatualizado e descontextualizado à realidade nacion-

PNS, vulgo “Harrison”, é o exame que, atualmente, efetua a seriação entre todos os médicos que se querem candidatar a uma vaga de especialidade em Portugal. É realizado anualmente no último trimestre do ano civil, habitualmente no mês de novembro. A bibliografia para a prova assenta em cinco capítulos do livro Harrison’s Principles of Internal Medicine – Nefrologia, Pneumologia, Cardiologia, Gastroenterologia e Hematologia e consta de 100 perguntas de escolha múltipla (20 perguntas por cada um dos capítulos). al. Por exemplo, nele, não são abordadas patologias com elevada prevalência no nosso país, como a Diabetes Mellitus. Outra das críticas habitualmente feitas a este exame é que apenas se baseia em algumas áreas da Medicina Interna, não abrangendo nenhuma área cirúrgica. Sendo a atual prova constituída por 100 perguntas e existindo cerca de 2700 candidatos à sua realização, facilmente se compreende que existem muitos candidatos com a mesma nota, o que lhe retira o seu grande propósito – a seriação. Desta forma, é necessário o recurso à média final de curso para desempate dos candidatos que obtêm a mesma nota. Fruto da necessidade de reformulação da PNS, o Ministério da Saúde criou, em dezembro de 2011, um grupo de trabalho (GT) para a revisão do Regime do Internato Médico (RIM). Faziam parte dos objectivos desse grupo, entre outros, “clarificar e melhorar o acesso ao Internato Médico”. Em maio de 2012, este GT redigiu o seu relatório final, no qual consta uma proposta para o conteúdo da nova prova.

PROVA NACIONAL DE AVALIAÇÃO E SERIAÇÃO (PNAS) – O QUE ESPERAR?

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GT propôs que o novo exame fosse efetuado com recurso a questões de “resposta múltipla, relativas a problemas de saúde e a alguns casos clínicos, centradas em aspetos de importância reconhecida para a prática médica, restringindo-se às áreas curriculares comuns ao último ano de todos os cursos de Medicina.” As áreas curriculares em questão são: Medicina Interna, Cirurgia, Pediatria, Ginecologia/Obstetrícia, Saúde Mental e Medicina Geral e Familiar.

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ANEMIA


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m 2015 foi aprovado um novo RIM que prevê várias alterações ao modelo atual: uma nova prova – Prova Nacional de Avaliação e Seriação (PNAS), com entrada em vigor a partir de 1 de janeiro de 2018; a possibilidade de existir uma nota mínima para acesso à especialidade, cuja fórmula de cálculo ainda não se encontra estabelecida; a escolha da especialidade passará, também, a não estar apenas dependente da nota obtida no exame de acesso. A nota na PNAS passará a contar 80%, sendo os restantes 20% correspondentes à classificação final do Mestrado Integrado, ponderada entre as várias escolas médicas. A forma de ponderação também ainda não está definida, embora exista uma proposta da Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM), aprovada em Assembleia Geral da ANEM.

Em relação à nova prova, a ANEM considera que deve existir pelo menos uma prova-piloto antes

da aplicação do novo exame. Segundo a legislação existente, o novo modelo de prova deve ser aprovado por despacho do membro do Governo responsável pela saúde, após parecer da Ordem dos Médicos e do Conselho Nacional do Internato Médico. Em janeiro de 2016, foi criada uma Comissão Técnica com o objetivo de desenvolver o novo modelo da PNAS e apresentar uma proposta de regulamento da mesma. Os estudantes de Medicina estão representados nesta Comissão, através do Presidente da ANEM.

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e forma a garantir a qualidade da nova prova, a ANEM considera que a mesma deve consistir num exame que contenha entre 150 e 250 questões de escolha múltipla e que deve existir uma matriz pública com os conteúdos abordados. Considera, ainda, que esta matriz deve ser revista anualmente, com, pelo menos, um ano de antecedência em relação à realização da prova. Esta matriz deverá, ainda, conter bibliografia recomendada e única para cada conteúdo que nela esteja contido.

COMO SE PODERÁ ASSEGURAR A QUALIDADE DA PROVA?

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qualidade das perguntas a incluir é um dos aspetos essenciais da nova prova. A ANEM considera importante, entre outros aspetos, a validação das questões através da sua inclusão numa prova (num máximo até 10% do conjunto total de questões do exame). Os aspetos formais de realização de perguntas de escolha múltipla devem ser estritamente seguidos, devendo a prova ser realizada por profissionais com experiência na área. O National Board of Medical Examiners – NBME (organismo Norte-Americano responsável pela elaboração do exame de acesso à especialidade nos EUA) afirma que as perguntas de escolha múltipla com apenas uma resposta correta são a melhor forma de avaliar a aplicação de questões de conhecimento, integração, síntese e julgamento. O NBME também não recomenda a utilização de questões de escolha múltipla de Verdadeiro/Falso.

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ma das formas de garantir a qualidade da avaliação é realizando a sua própria avaliação, o que é conseguido através da análise docimológica. A análise da consistência interna da prova, que nos dá uma ideia sobre se produziria a mesma seriação dos candidatos caso fosse re-administrado, é importante para verificar a qualidade global do mesmo. Relativamente a cada questão, a qualidade das mesmas pode ser verificada através de alguns indicadores, por exemplo: o índice de facilidade (IF) indica a proporção de examinandos que responderam corretamente a uma determinada questão, sendo geralmente considerado como aceitável um IF entre os 30% e os 80%; o índice de discriminação (ID) refere-se à capacidade da pergunta distinguir entre os alunos com 25% de melhores resultados na globalidade da prova e os 25% de alunos com piores resultados, sendo aceitável um ID superior a 0,1. A atual prova de seriação revela-se como um exame que não está adaptado à realidade. O medo e desconfiança sobre a mudança da prova paira sobre a maioria dos estudantes de Medicina do país, o que se torna compreensível tendo em conta a pouca informação que ainda existe sobre a mesma. No entanto, devemos olhar para esta mudança como uma oportunidade para uma melhoria daquilo que existe atualmente e como uma progressão na forma de assegurar uma justa seriação dos candidatos.

Por: Hugo Almeida

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Ser Médico na Cruz Vermelha

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uando nos pediram para falar sobre a Cruz Vermelha e a nossa participação nessa organização enquanto estudantes de medicina, ambos cruzamos o olhar e nos rimos. Pedir para descrever tudo o que se passa naquela casa de uma “família disfuncional e perfeita” ... não é tarefa fácil. É, certamente, diferente a perspetiva que tantos de nós, socorristas, tomam perante a Cruz Vermelha, seja como estudantes de medicina ou com outro ofício qualquer, mas aqui vai a nossa .

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Cruz Vermelha entrou na nossa vida em tempos e circunstâncias diferentes, mas como o elo de ligação entre o objetivo de vida de ajudar os outros em situações de angústia, na raiz da dor, com a paixão pela adrenalina, pela ciência e pela arte da medicina.

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Cruz Vermelha vai para além-fronteiras da saúde, mas em tudo o que faz ajuda holisticamente o Homem perante as dificuldades que a condição humana acarreta: seja em emergência pré-hospitalar, seja no apoio psicossocial, ou até mesmo em eventos que a cidade de Coimbra alberga, como a tão “inebriante” Queima das Fitas!

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orém, fazer parte da Cruz Vermelha é muito mais que isso, é também ser a primeira face da salvação, da resolução da dor, da fome, do frio, é a nobreza de gente humilde que tomou por força própria fazer do Outro a questão de importância. É saber que a cada chamada, alguém, desconhecido, nos permite entrar em sua casa e, num ato de confiança, depositar em nós o medo, a angústia e frustração de uma doença que, de si, ou dos seus, se apoderou.

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omo estudantes de Medicina é nosso dever e função procurar na curiosidade abrigo à nossa evolução como mentes médicas. Procuramos saber como funciona o corpo humano, como é que este interage com o mundo, como é que este evolui, reage e acima de tudo o que podemos fazer para ajudar na busca de uma nova homeostasia. Como voluntários da Cruz Vermelha esta veia e educação médica é observada no dia-a-dia das nossas ações, procuramos ajudar quem mais precisa, quem mais sofre, tentando imparcial e humanamente atingir o equilibro. 8

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as, é tempo que se troca dos muitos capítulos que se têm que estudar, dos muitos livros a ler, sem nunca “perder” verdadeiramente o tempo fundamental de estudo. É como uma substituição, alimentamos o conhecimento da doença, da saúde, observando-a, tentando compreendê-la sempre com o conhecimento que os livros, professores, colegas e mentores nos deram. “Nunca fazer o mal, fazendo o bem”. Os livros estão lá, para serem lidos, suados e sabidos, mas também lá está esta paixão e aprendizagem de que tanto alimenta um sonho.

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erá precoce esta ideia de acelerar o processo da educação? Como acontece quando temos que decidir entre o tempo dado à Cruz Vermelha e o exigido pelo curso de Medicina? Pois aqui deixa de haver respostas certas, cada um vive o que sente à sua maneira. Mas é na hierarquia das nossas vontades, necessidades e valores que cada situação é avaliada como una, tomando-se uma decisão final que não deixa espaço a arrependimento.

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uando só nós sabemos o que fazemos, as horas que damos, o suor que suamos, as gargalhadas levadas no vento para um bem maior, em nós é criada a força da união, o orgulho de ser humano. A Cruz Vermelha ensina-nos como funciona parte da vida, qual é o objetivo da medicina, que perante o medo de enfrentar a doença, a fome, o frio, a dor, há alguém que se ergue e nos dá a mão.

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izem que “quando um Homem sonha, o Mundo pula e avança”, e foi sobre o sonho de Henri Dunant e sobre estes sete princípios (humanidade, imparcialidade, neutralidade, independência, voluntariado, unidade e universalidade), que hoje sabemos poder sonhar num mundo melhor.

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ão conhecemos outra realidade, só conhecemos a realidade da exigência na rua e da excelência no curso. Errar não é opção e por vezes estes dois amores traze-nos dissabores seja pelo elevado consumo de atenção, pela elevada ginástica de tempo ou simplesmente pelas amargas aventuras vividas. No entanto a vida é feita de escolhas, sabemos que nem sempre é fácil fazer uma, especialmente quando as consequências são tão intangíveis, incalculáveis e imponderáveis.

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é assim, com a cruz ao peito, medicina na alma e olhos postos no sonho, que escolhemos o caminho da dedicação, sacrifício e resiliência.

Por: Germano Carreira e Tiago Cabral

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Já aconteceu... Por: Pedro Pinto 1 de dezembro 1640 - Restauração da Independência de Portugal em relação a Espanha. 1887 - É publicado o primeiro romance policial de Sir Arthur Conan Doyle, sobre o detetive Sherlock Holmes. 1935 - Nasce Woody Allen, cineasta e humorista norte-americano. 2 de dezembro 1804 - Napoleão Bonaparte é coroado imperador de França, na Catedral de Notre-Dame. 3 de dezembro 1967 - É realizado o primeiro transplante de coração, com sucesso, pelo Dr. Christiaan Barnard. 4 de dezembro 1980 - Morre Francisco Sá Carneiro, Primeiro Ministro de Portugal, no desastre de Camarate. 5 de dezembro 1791 - Morre, em Viena, o compositor Wolfgang Amadeus Mozart. É enterrado numa vala comum, devido à sua pobreza. 6 de dezembro 1185 - Morre, em Coimbra, D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal. 7 de dezembro 1941 - Durante a II Guerra Mundial, o Japão ataca a base americana de Pearl Harbor, no Havai. 8 de dezembro 1854 - Dia da Imaculada Conceição, Padroeira de Portugal, definido pelo Papa Pio IX. 1948 - Os irmãos McDonald abrem um negócio de venda de hambúrguer nos Estados Unidos. 1980 - O ex-Beatle John Lennon é assassinado a tiros diante do prédio onde morava, em Nova York. 9 de dezembro 1854 - Morre o escritor português Almeida Garrett. 10 de dezembro 1964 - Martin Luther King é a pessoa mais jovem a receber o Prémio Nóbel da Paz. 11 de dezembro 1930 - O Banco dos Estados Unidos, em Nova Iorque, entra em falência devido à Grande Depressão de 1929. 1946 - John D. Rockefeller Jr. oferece um terreno seu, em Nova Iorque, para a construção da sede das Nações Unidas. 12 de dezembro 1915 - Nasce Francis Albert Sinatra, Frank Sinatra, cantor e ator norte-americano. 13 de dezembro 2003 - Saddam Hussein é capturado por tropas norte americanas. 14 de dezembro 1799 - Nasce George Washington, primeiro Presidente dos EUA. 1955 - Portugal adere à ONU. 15 de dezembro 37 - Nasce Cláudio César, imperador de Roma. 1832 - Nasce Alexandre Gustave Eiffel, engenheiro e construtor francês. 1907 - Nasce Oscar Niemeyer, arquiteto considerado um dos maiores expoentes do movimento moderno da América Latina. 16 de dezembro 1770 - Nasce o compositor Ludwig Van Beethoven. 17 de dezembro 1989 - Estreia d’Os Simpsons em televisão.

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19 de dezembro 1915 - Morre o psiquiatra alemão Alois Alzheimer. Ele deu notáveis contributos no estudo da doença que tem o seu nome. 1994 - Suécia aprova a união civil de casais do mesmo sexo. 20 de dezembro 1699 - Pedro, o Grande, anuncia a adoção de um novo calendário russo, cujo ano novo começaria no 1º dia de janeiro, e não mais no 1º dia de setembro. 1999 - A soberania de Macau é devolvida à China, após mais de 400 anos sob administração portuguesa 21 de dezembro 1879 - Nasce Josef Stalin, político Soviético que consolidou a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). 1958 - O General Charles de Gaulle é eleito Presidente da França e proclama a Vª República. 22 de dezembro 1834 - É aprovada a Lei da Liberdade de Imprensa em Portugal, no reinado de D. Maria II. 1858 - Nasce o compositor italiano Giacomo Puccini, autor de óperas como La Bohème, Tosca, Madame Butterfly e Turandot. 23 de dezembro 1888 - Sofrendo de depressão, Vincent Van Gogh, pintor pós-impressionista holandês, corta parte da sua orelha esquerda. 1970 - A construção do World Trade Center, em Nova York, atinge 411 metros. O complexo inclui duas torres de 110 andares. 24 de dezembro 1524 - Morre Vasco da Gama, em Cochim, Índia, explorador e navegador português, o primeiro europeu a percorrer o caminho marítimo para a Índia, que descobriu. 1818 - Nasce James Prescott Joule, físico britânico conhecido, sobretudo, pela investigação na eletricidade e termodinâmica. 1865 - Fundada a Ku Klux Klan, no Tennessee, EUA, organização terrorista secreta. 25 de dezembro 336 - A primeira celebração de Natal no dia 25 de dezembro ocorre em Roma. 1642 - Nasce Isaac Newton, físico e matemático britânico, considerado um dos maiores cientistas da história. 1977 - Morre o ator e diretor de cinema britânico Charles Spencer Chaplin. 26 de dezembro 1831 - Charles Darwin parte de Inglaterra no navio Beagle para a viagem que lhe permitiu desenvolver A Origem das Espécies. 2004 - Violento tsunami no Oceano Índico, com 9,3 na escala de Richter, mata mais de 285 000 pessoas no Sudeste Asiático e costa Este de África. 27 de dezembro 1571 - Nasce o astrónomo e filósofo alemão Johannes Kepler, que descobriu a trajetória dos planetas em órbitas elípticas. 1822 - Nasce Louis Pasteur, cientista francês que descobriu a vacina anti-rábica. 28 de dezembro 1923 - Morre Alexandre Gustave Eiffel. 1993 - O Vaticano reconhece, oficialmente, o Estado de Israel. 29 de dezembro 1864 - É fundado o Diário de Notícias, em Lisboa, o mais antigo jornal diário português. 1959 - É inaugurado o Metropolitano de Lisboa. 30 de dezembro 1853 - O México vende aos EUA 78.000 km2 no sul do Arizona e do Novo México por 10 milhões de dólares.

31 de dezembro 406 - Os Vândalos cruzam o rio Reno para invadir a Gália. 1600 - Criação da Companhia Britânica das Índias Orientais. 1995 - Publicada a última banda desenhada de Calvin e Hobbes. 1999 - Os EUA transferem para o Panamá, o controlo do Canal do Panamá e de todas as áreas do que fora, até então, a “Zona do Panamá”.

Por: Pedro Pinto

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Crónica A Paixão de Viver Por: Gonçalo Engenheiro Estes são os melhores anos das vossas vidas. E passam num instante...

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urante mais de 2 anos escrevi crónicas neste espaço. Falei de temas da atualidade e num estilo orgulhosa e humildemente muito próprio. Neles imprimi vivacidade e relevância para o nosso universo através do poder da analogia com situações que bem conhecemos do diaa-dia como estudantes de Medicina e não só. Fui sarcástico, lisonjeiro, impulsivo, ponderado... enfim, um pouco de tudo. A cada crónica que escrevia um pedaço de mim se transformava em algo que antes nunca experienciara! Com os “amigos do coração” e o universo NEM/AAC cresci muito. Tenho algumas pessoas a quem agradecer e o largo sorriso que desponta no meu rosto quando os vê, denuncia o quão especiais são para mim. Há quem diga que mudei, mas eu sei que não apenas mudei, também me revelei (e rebelei!). Antes lia dezenas e dezenas de livros (e o meu futuro será decidido pela memorização de milhares de páginas) e também tinha boas notas, mas aprendi que nada me dá mais prazer do que estar com os amigos (ah, que pena isso não contar para entrar na especialidade!). Felizmente, não foi ao fim de 6 anos que cheguei a essa conclusão, foi muito antes... E se o que hoje sou era no passado uma miragem, a verdade é que tive coragem de atravessar um deserto inteiro para descobrir que afinal era realidade. Consegui despertar o que aqui dentro vegetava num sono latente à espera de um surto de paixão para eclodir em qualquer coisa de especial! E agora até me ando a aventurar na poesia, porque À medida que a mente foi mudando, O mundo à volta também mudou nessa onda, Ondas que a amizade desafiou a surfar, E a medo no mar me deixei entrar. 1

2Na

vida, alturas há em que arriscar é necessário, Nem todas as águas são calmas, Por que os desafios fazem-se das ondas gigantes, Não daquelas que já sabemos enfrentar! 3Por

que o que já sabemos enfrentar, Em nada nos vai surpreender, E as melhores coisas da vida são as mais inesperadas, Como aquele encontro ocasional, E aquele sorriso fatal... (E a mudança pode nascer na espontaneidade de um simples sorriso).

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ANEMIA

Tão

espontaneamente como a forma como me apetece voltar a fazer coisas que já me fizeram feliz no passado. Escrever crónicas é sempre especial e andei demasiado tempo afastado desta paixão. O grande projeto In4Med IV fez-me privar com alguém que me ensinou a seguir o bater do coração, pois só assim podemos ser bons e fazer a diferença na vida das pessoas. E o resto... bem, o resto é paisagem! E por agora simplesmente quero aventurar-me num romance com a poesia, porque 4Ser

espontâneo é ser genuíno, E quando tiveres a coragem de rasgar a camisa que te vestiram, E vestir a t-shirt que te proibiram, Quando decidires assumir os teus sonhos, E por eles lutar, lutar, lutar, É que a derrota com que um dia lidarás, Se transformará no êmbolo para a vitória que no dia seguinte alcançarás! 5Tens

é que te libertar da frieza da timidez, E abraçar o calor do tacto, Tens é que te olhar ao espelho, Dar 4 murros no peito, E gritar bem alto, Alto, alto, alto, alto, alto, Ainda mais alto. Ainda, ainda, a-in-da mais alto Para espremer do fundo desses pulmões, Das profundezas do teu ser, O que melhor de ti o mundo ainda não conhece, Para libertar dessa cela em que cresceste O tigre, a pantera, o dragão, a águia e o leão Que tens aí bem dentro de ti! 6Não

sigas todas as regras que te impuserem, Porque a beleza do conteúdo é superior a voluptuosidade da forma (Como vês, nem todos os meus versos rimam na sílaba, mas todos eles rimam na essência) Perde é o medo de ser feliz E vai por mim: Vale mais viver a saciar a fúria do coração, Do que morrer abraçado à solidão da razão!


Vive Coimbra História de Coimbra A

lta e bela fica Coimbra, cidade dos amores, sabedoria, tradição! Espelhada nas águas do rio Mondego, brilha e encanta quem a vê.

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eminium foi o seu primeiro nome, concedido pelos romanos durante a sua ocupação. O fórum era o coração da cidade, construído sobre uma plataforma assente sobre o grandioso criptopórtico, exposto no atual Museu Machado de Castro. Foram sendo descobertos, ao longo do tempo, outros vestígios deste período, dispersos pela cidade.

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indo o período da ocupação romana, a cidade foi sofrendo invasão de diferentes povos, entre os quais os bárbaros, os visigodos e, por fim, os muçulmanos, deixando cada um a sua marca na história de Coimbra. Em 878, com o conde Hermenegildo Mendes, iniciam-se as tentativas de reconquista do nosso território, mas é Fernando Magno quem devolve o domínio da cidade ao povo cristão.

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oimbra torna-se então a cidade mais influente a sul do Douro: aqui nasceram D. Afonso Henriques, D. Sancho I, D. Afonso II, D. Sancho II, D. Afonso III, D. Afonso IV, D. Pedro I e D. Fernando; aqui tomou lugar a ascensão ao trono de D. João, Mestre de Avis; aqui se assistiu ao milagre das rosas; aqui se derramaram as infindáveis lágrimas da tragédia de Inês de Castro.

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uitos artistas por aqui passaram, implantando novos estilos como o Românico e o Gótico, representados pela Sé Velha, Santiago, S. Salvador e Santa Clara-a-Velha.

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Universidade de Coimbra, a mais antiga do país e uma das mais antigas do mundo, é fundada em 1290 ao ser assinado o documento Scientiae thesaurus mirabilis, por D. Dinis. Inicialmente a funcionar em Lisboa, é transferida definitivamente para Coimbra em 1537, por ordem de D. João III. D. João V dá um enorme contributo ao construir a torre da Universidade e a Biblioteca Joanina, edifícios simbólicos, não apenas da Universidade, mas da cidade de Coimbra.

cido “Laboratório Chimico”, actualmente chamado Largo Marquês de Pombal em sua homenagem.

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ontudo, as transformações não param aqui. São ainda mais sentidas no início do século XIX, primeiro como consequência das Invasões Francesas e, mais tarde, na década de trinta, devido à Guerra Civil Portuguesa, entre liberais e absolutistas. No final da guerra civil e no contexto da consolidação do Liberalismo no país, com a extinção das ordens religiosas desaparecem ainda muitas das casas religiosas que então existiam.

E

m 1856, com a chegada do primeiro telégrafo e da iluminação a gás, Coimbra renasce e recupera o brilho perdido. É, em 1864, inaugurado o caminho-de-ferro e, em 1875, construída a ponte férrea. Ultrapassando tempos tão difíceis na primeira metade do século XIX, a cidade chega ao final do mesmo atingindo novamente a sua plenitude e abrindo portas ao progresso da era moderna.

J

á na década de 1940, com a necessidade de construir novos edifícios universitários, grande parte da Alta é destruída, apagando muitas marcas da sua história, custo da evolução do progresso.

H

oje, todas estas marcas históricas são altamente valorizadas e preservadas. Coimbra é o equilíbrio perfeito de uma cidade aberta ao futuro mas sem nunca esquecer o grandioso passado e o valor de cada pedra que a edifica.

Por: Catarina Viegas

A

reforma da cidade pelo Marquês de Pombal levou ao desaparecimento das muralhas do castelo. Por outro lado, nasce o Jardim Botânico e o largo onde se erguem os edifícios do Museu de História Natural e do conhe-

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Janeiro 2017 13


Tema de Capa Study Smarter, Not Harder Num dia, parece que nunca há horas sufici-

entes. Contudo, já que todos temos as mesmas 24 horas, porque há pessoas que conseguem fazer muito mais do seu tempo do que outros? Porque é que muitos estudantes não investem metade do tempo que outros e têm bons ou excelentes resultados? Por vezes, parece-nos quase impossível ter bons resultados e, ao mesmo tempo, uma vida social e horas de sono que nos dão qualidade de vida. A resposta está em tornar o teu estudo num período de trabalho altamente otimizado e eficaz na aprendizagem. A inteligência tem um papel preponderante, mas não é o verdadeiro problema, pois todos nós já tivemos aquele exame para o qual tivemos pouco tempo para estudar e até tivemos notas bastante razoáveis. Inicialmente, estamos tentados a estudar um maior número de horas, que apesar de funcionar, muitas vezes o tempo investido não compensa o aumento de algumas décimas nas notas. Contudo, este artigo não é um aviso para não estudar. Disso não há escapatória! O objetivo deste artigo é dispensar o desnecessário do teu estudo e focar no que realmente te ajudará a ter melhores resultados. Quantidade com qualidade!

Capacidade de recuperação (recall strength) é a capacidade de aceder à memória - que desvanece com o tempo. Esta capacidade precisa de manutenção regular.

Para uma melhor compreensão deste tema,

analisemos, não o único, mas provavelmente dos mais importantes, a Memória!

Compreendendo a Memória

Considera a memória como construir uma

parede de tijolos. Se colocares os tijolos demasiado depressa, sem deixar o cimento solidificar, vais acabar com uma parede pouco segura. Assim, é essencial que a tua aprendizagem seja espaçada - conceito conhecido como Spaced Learning. Por outro lado, tradicionalmente pensava-se que, com o tempo, as nossas memórias se desvaneciam. Contudo, teorias mais recentes afirmam que a verdade poderá ser um bocado mais complicada. Na teoria “Forget to Learn”, admite-se que a memória tem dois tipos de capacidades:

Capacidade de armazenamento (storage strength), que não desvanece com o tempo.

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Uma vez que a informação é adquirida e o cérebro reconhece a sua importância, esta permanece armazenada. Esta capacidade apenas pode aumentar com o seu uso repetido.

.

ANEMIA

C

omo resultado, o ato de “esquecer” é um problema de acesso: a memória existe, mas não a consegues encontrar, não lhe consegues aceder. Ressalvo que as memórias são o resultado de várias perceções e que ajuda a capacidade de recuperação se houver vários sentidos ou emoções envolvidos no armazenamento de uma determinada memória (um som, uma imagem, um sentimento, um doente que conhecemos nas aulas práticas) - partindo do princípio que foi feito um esforço de registar a informação e que lhe foi dada a devida importância.

O

segundo princípio desta teoria é: quanto maior for a dificuldade na recuperação de uma determinada memória, maior será a aprendizagem quando a memória é acedida.

O

u seja, é preciso esquecer de forma a reforçar a nossa a aprendizagem - conceito de dificuldade desejável. Em suma, de for-


ma a maximizar a tua aprendizagem, o segredo é ter a melhor distribuição do estudo. Por um lado, não deves rever a mesma matéria vária vezes num único momento, por outro lado, este intervalo de tempo não deve ser muito espaçado.

D

ito isto, aqui ficam algumas dicas que podes seguir:

A. Relembra o que acabaste de ler

D

epois de leres uma página, sem olhares para ela, relembra as ideias principais. Tenta recordar as ideias principais quando estiveres fora do ambiente de estudo (ex. viagem de autocarro ou comboio). Isto permite treinar o acesso que tens às memórias. A tua capacidade de relembrar é um dos melhores indicadores de uma boa aprendizagem.

F

inalmente, e o mais importante, deves testar-te várias vezes, idealmente de uma maneira espaçada.

Como fazer BONS flashcards Faz as tuas próprias flashcards Mistura Figuras e Palavras Usa Mnemónicas Escreve 1 Pergunta por cartão Separa conceitos complexos em múltiplas questões Diz as palavras em alta voz Estuda as flashcards em diferentes ordens Flashcard não é um método infalível

C. Usa o Spaced Repetition

P

egando na teoria do “Forget to Learn”, deves programar as tuas sessões de estudo para maximizares a tua memorização e aprendizagem. Há muitos trabalhos feitos sobre o assunto, mas o essencial é descrito na Tabela 1, que possui os melhores intervalos de tempo de acordo com diferentes datas de teste. Tabela 1 – Gaps de Sessões de Estudo*

B. Testa-te

S

e há algo que provoca ansiedade aos estudantes é um momento de avaliação. Contudo, ao testares os teus conhecimentos vais ter efeitos diretos – acertaste e recolheste corretamente a resposta da tua memória, em vez de só leres – e efeitos indirectos – falhaste e sabes que aquela matéria está a precisar de atenção, permitindo-te planeares a revisão da matéria. De acordo com a evidência recolhida, qualquer tipo de teste é bom para te testares (ex. escolha múltipla). Contudo, irás beneficiar de testes que requerem a tua memorização de conteúdos-chave do que simplesmente reconhecer a resposta certa.

D

Time To Test

First Study Gap

1 Week 1 Month 3 Months 6 Months 1 Year

1-2 Days 1 Week 2 Weeks 3 Weeks 1 Month

*ATENÇÃO! Estes gaps de tempo são aproximados e deves adaptar de acordo com as tuas próprias capacidades.

A

ssim, se tens um teste numa semana, deves ter a tua primeira sessão hoje e a próxima sessão amanhã ou no dia depois. Recomenda-se, também, fazer uma terceira sessão no dia antes do teste. Há várias apps que integram este conceito com flashcards. O mais recomendado é o “Anki”, para o PC e para o teu telemóvel. Contudo, para usares a versão para iPhone, tens de pagar 25 euros (mas OS X é grátis!). Outras aplicações que integram o Spaced Repetition é o “Memrise”, “SuperMemo” e “Nimble Notes”

eves encorajar-te a fazeres flashcards deD. Faz Pausas pois de cada aula/capítulo (Box 1). Numa primeira abordagem deves fazer questões simples (resposta á dias em que te sentes muito produticurta simples) e, quando a matéria fica mais complexa, dificulta as tuas perguntas (ex. compara a tua resposta vo e outros em que estás só sentado. Myth bustescrita com a resposta escrita no verso do flashcard) er: dias ocupados e muitas horas de estudo não

H

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Janeiro 2017 15


equivalem a alta produtividade. Aliás, estar muito tempo sentado é mau para a tua saúde (obesidade, cancro e diabetes). Por outro lado, intervalos curtos e regulares, ajudam-te a manter focado e com energia.

E

sta é a base para a técnica “Pomodoro”. Existem várias aplicações que podes fazer download no Google Play. Recomendo o “Pure Pomodoro” para o PC e “Forest: Stay Focused” para o telemóvel. Outro hábito saudável é fazer a uma power nap de 25 minutos, aka sesta, depois do almoço. Recomendo beber café antes, para que, quando acordares, o café já esteja a fazer efeito.

Como usar o Pomodoro Verifica o teu horário (programa sessões de 25 min)* Define o teu Temporizador Trabalha numa ÚNICA Tarefa Faz uma pausa curta (5 min) Continua as tuas sessões de trabalho e faz uma pausa maior (20 min) após 4 sessões *Recomendo 25 minutos, mas podes experimentar os teus próprios intervalos

E. Foca-te

Q

uando se trata de redes sociais, estas podem ser a pior distração. A não ser que tenhas um excelente auto-controlo, a melhor maneira de prevenir é bloquear o acesso a estas. Contudo, não prevines que te distraias com outro site, mas o objetivo é dificultar a procrastinação. Se te distrais mais com o Facebook ou Youtube, bloqueia esses dois. Apps que podes utilizar: - “Stay Focused (Chrome extension) - “Focal Filter” (Windows) - “SelfControl” (Mac)

A

aplicação “Forest” também é boa para bloqueares o teu telemóvel quando é preciso.

F. Localização

Regra

geral, quando estás num sítio específico para trabalhar, como uma biblioteca ou sala de estudo, tenderás a estar mais mentalizado para trabalhar do que deitado na cama de tua casa.

G. “A vida é dura para quem é mole”

C

Outra dica bastante útil é fazeres analogias

omeça o teu dia pelo mais difícil, que é quando tens mais energia. Tenta separar esses conceitos complexos em várias partes mais pequenas e foca-te separadamente em cada uma. Ao compreenderes cada parte completamente, passa para a parte seguinte. Vais reparar que, pouco a pouco, as peças do puzzle vão-se juntando. simples de matéria complexa.

H. Multitasking não é bom

Quando

O

estamos a fazer multitasking, o que estamos realmente a fazer é task-switching. Na verdade, estamos apenas a demorar mais tempo a terminar uma tarefa do que se só nos dedicássemos exclusivamente a ela, levando a uma perda de produtividade. multitasking afecta, sobretudo, a tua memória a curto prazo, levando o teu cérebro a não dar importância a uma determinada informação e não registando a mesma a longo prazo.

I. USA OUTRAS FERRAMENTAS DE ESTUDO

A

o usares diferentes ferramentas de estudo, estás a fortalecer as ligações neuronais a uma determinada memória. Mas atenção: nem todas as técnicas de estudo que utilizas são eficazes. Na Tabela 2 poderás ver um resumo das diferentes técnicas e a sua eficácia, retirado de um artigo de revisão: Tabela 2 – Diferentes técnicas de estudo e respectiva eficácia

Técnica

Eficácia

Practice testing

Very effective under a wide array of situations Very effective under a wide array of situations Promissing for math and concept learning, but needs more researching Promising, but needs more research Promising, but needs more research

Distributed practice Interleaved practice Ellaborative interrogation

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Self-explanation

ANEMIA


Técnica

Eficácia

Rereading

Distributed rereading can be helpful, but tme could be better spent using another strategy

Highlighting and underlining

Not particulary helpful, but can be useful as a first step toward further study

Summarization

Helpful only with training on how to summarize

Keyword mnemonic

Somewhat helpful for learning languages, but beneficts are short-lived

Imagery for text

Benefits limited to imagery— friendly text and needs more research

Como podes ver, a releitura e o sublinhar podem não ser os melhores métodos a utilizar, apesar de serem frequentemente usados.

J. Leva uma vida saudável

Apesar desta ser bastante óbvia, é sem-

pre importante relembrar, época de exames.

especialmente

na

N

ão dormir o suficiente faz com que haja uma acumulação de substâncias tóxicas, diminuindo a eficácia das ligações neuronais. Ou seja, a técnica do “amanhã, vou acordar super cedo e estudar imenso” não é eficaz se só dormiste cinco horas na noite anterior. O recomendado e estudado, para uma melhor memorização e estudo, são entre sete e oito horas de sono de qualidade, especialmente na noite antes do exame.

Disclaimer: Este artigo baseia-se na minha experiência de 6 anos de Medicina e pelo meu interesse em otimizar o meu tempo e perceber como torná-lo mais produtivo. Poderás encontrar mais informação sobre este tema nos links em baixo. https://collegeinfogeek.com/flash-card-study-tips/ https://www.mindtools.com/pages/article/pomo-

doro-technique.htm?utm_source=nl&utm_medium=email&utm_campaign=09Sep14

https://collegeinfogeek.com/8-advancedazer exercício físico liberta endorfinas study-tips/

F

que te deixa com muito melhor humor e mais recetivo para memorizar a informação. O recomendado é uma sessão intensa (ex. jogging, crossfit ou cycling) de 45 minutos, 3 vezes por semana.

O

segredo para uma boa época de exames é comparares com uma maratona. Distribui bem a tua energia e motivação e verás que irás mais longe.

http://www.health.com/health/gallery/0,,20707868,00.html https://collegeinfogeek.com/spaced-repetition-memory-technique/ John Hamilton. (October 17, 2013). “Brains Sweep Themselves Clean of Toxins During Sleep.” NPR All Things Considered. http://www.aft.org/sites/default/files/periodicals/dunlosky.pdf Por: Gonçalo Costa

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Medicina Lá Fora Especialidades Lá Fora: Perú

Ir para fora nunca foi um problema para ti? O

Perú parece ter o necessário à sua disposição para agradar qualquer pessoa que por alí passa. Mais conhecido pelas famosas ruínas Inca de Machu Picchu, o Peru é um país bastante diversificado, dividido em costa, serra e selva. Entre história e tradições andinas e os seus inúmeros prémios pela sua gastronomia, o Perú tem uma nuvem mística que o rodeia. É de saber que a medicina lá também passa por tipos de medicina alternativas, variando consoante a região.

N

o Perú, existem 3 sistemas de saúde: o privado, o publico e um misto. A formação médica no Perú varia um pouco da encontrada na Europa. Lá, os alunos entram para a faculdade por volta dos 16/17 anos, terminando o curso 6 anos depois, por volta dos 22. Os alunos têm um exame (Examen Nacional de Facultades de Medicina - ENAM) no final do 6º ano para poder realizar o internado, que corresponde ao nosso ano comum. A nota deste exame conta para a colocação e escolha do local onde irão realizar o ano seguinte, que se inicia a 1 de janeiro e acaba dia 31 de dezembro do mesmo ano. Existe uma segunda opção, em que os alunos podem fazer um exame mais complicado para conseguir uma vaga no ESSALUD, que é o sistema misto de saúde do Peru, ou na privada.

D

urante esse período, os alunos têm a oportunidade de rodar pelos diferentes serviços. O internado consiste em 4 rotações com uma duração de 3 meses sendo estas pediatria/neonatologia, cirurgia geral, medicina interna, ginecologia/obstetrícia. É um ano fundamental para o ensino prático, em que, apesar da burocracia, da grande responsabilidade que o aluno terá, este já efetua grande parte dos procedimentos médicos, estando presente nas urgências, no consultório, nas enfermarias, sempre sob supervisão de pessoas mais experientes. É um ano trabalhoso e difícil, em que os alunos sentem falta de tempo para fazer outras coisas, mas um ano muito

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ANEMIA

enriquecedor a nível de aprendizagem. Os internos têm de ficar de guarda à noite em média 7 vezes por mês, mas varia de serviço para serviço. O salário deste primeiro ano é nulo se for no setor público, acabando por ser um pouco mais gratificante, em termos salariais, se for no privado. O internado acaba com um exame chamado SERUMS ou SECIGRA, que permite o acesso à etapa seguinte.

P

ara um estrangeiro que queira ir lá fazer a especialidade, os passos anteriores não são necessários. Necessário será, através de documentos validados cá, provar o seu estatuto de médico e apresentar as notas do curso para serem também validadas.

A

seguir, vem um ano de serviço rural, em que os estudantes, consoante a nota do exame anteriormente referido, serão enviados para diversas zonas do país (cidades e aldeias) durante mais um ano. Este período já é remunerado, chegando a atingir, dependendo das zonas, um salário de 7100 soles líquidos (correspondente a 1940 euros, já incluindo o preço dos deslocamentos necessários).É de saber que quanto mais longe de casa e da cidade se trabalha, mais se recebe.

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indo de fora, esse ano é obrigatório para qualquer pessoa que se queira especializar neste país. Adicionalmente ao salário recompensador, é atribuída uma bonificação, por sistema de pontos, consoante o local onde foi realizado o serviço rural. Estes pontos serão acrescentados à nota do exame final deste ano, chamado ENARM, que permite o acesso à especialidade. Consoante a nota do ENARM, os concorrentes irão, tal como em Portugal, ser seriados para poder escolher, por ordem, o futuro que pretendem.

Por: Eleni Faria


Medicina Lá Fora Erasmus: Austria I

nnsbruck. A vista a partir do pico de 2.334m de Hafelekarspitze corresponde à visão do paraíso se este fosse gelado. Em todo o redor montanhas recortam o horizonte em sucessivas linhas, cada uma elevando-se mais que a anterior numa mistura de neve e rocha. Bem lá em baixo, aninhada no vale e atravessada pelo rio Inn, a cidade.

I

nnsbruck é o coração do Tirol. Basta percorrer o labirinto de ruas do centro para nos apercebermos o quão caricatos são os edifícios, com tonalidades vivas e que evocam os típicos trajes alpinos. O coração do Tirol bate de forma energética. Dos Weihnachtsmärkte espalhados pelo centro onde se celebra o Natal com uma magia pueril, ao calor de uma caneca de Glühwein em dias de neve, passando pelas tardes à beira-rio, Innsbruck revela-se uma cidade acolhedora, moderna e com um espírito intrínseco. Alia a elegância vienense dos mélange e dos Apfelstrudel à profunda crença religiosa de Salzburgo, num contexto onde os campos e as montanhas que a rodeiam evocam cenários de episódios da Heidi e de anúncios publicitários da Milka. Em que sítio seria possível dançar pela noite fora dentro de um igloo a 1.900m de altitude? Ou onde mais se encontrariam tantas pistas de ski e snowboard, glaciares e paisagens tão belas? E os lagos, que satisfazem as saudades de um oceano que nos é tão familiar?

I

nnsbruck é uma cidade fantástica onde se é recebido com imenso carinho e de braços abertos. O centro absorve-nos com histórias de tempos idos e personagens que deixaram a sua marca. As telhas de cobre dourado do Goldenes Dachl continuam a exalar um encanto sem paralelo. As noites são ani-

madas por bares e discotecas, nunca esquecendo a importância das cervejas e dos Biergarten, e, tendo em conta a proximidade a Itália, nunca se dispensa o Aperol Spritz. A gastronomia surpreende pelo Speck, Schnitzel, Tiroler Gröstl e Kaiserschmarren. Qualquer viagem é por si um deslumbre, em particular nos comboios que atravessam vales e rios, serpenteando pelas encostas das íngremes montanhas.

Q

uanto à experiência na vertente médica, permite uma formação prática sem paralelo, dado que as turmas são no máximo de 6 pessoas. A Klinik é moderna e munida com equipamentos da mais recente voga. O pessoal é afável e, apesar do alemão se poder apresentar como um entrave para a escolha deste destino, existe bastante aceitação. Por outro lado e para tornar o desafio mais interessante, é de referir o dialecto local, o Tirolerisch, que mesmo para alemães e austríacos se revela pouco perceptível!

Q

uanto à formação pessoal, é uma experiência que vivamente recomendo. O contacto com uma mentalidade diferente, o conhecer pessoas dos quatro cantos do mundo e a saída da zona de conforto são mais-valias que Erasmus traz. Falo por mim, e digo que aqueles 9 meses em que estive em Innsbruck passaram a voar. Quando me perguntam o que mais me custou, respondo sempre e sem hesitar: “Ver as últimas neves do Hafelekarspitze desaparecerem sobre os raios de Sol de Julho”. Realmente o que custou mais foi de facto dizer: “ ‘Wiederschauen, liebes Österreich!”.

Por: Tiago Lorga

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Fora da Medicina Entrevista ao professor Dr. António Miguéis

O “Fora da Medicina” conta, nesta edição, com a

A

colaboração do Professor Doutor António Miguéis, tão bem conhecido pelos estudantes como Regente da cadeira de Anatomia III, aquele “demónio” de cadeira, e, mais recentemente, também recente de Otorrinolaringologia, do 4º ano. redação da revista ANEMIA agradece, desde já, a disponibilidade do Professor em colaborar connosco e em responder às nossas perguntas. Esperemos que gostem.

Que memórias tem da sua juventude a da época em que era estudante?

U

ma época muito alegre, cheia de expectativas e de vontade de “ver chegar o futuro”. Muita vontade de aprender e, sobretudo, de aprender a fazer bem. Estes estímulos vinham dos meus pais, em particular da minha mãe. Eu acredito que a motivação e a disciplina devem exercitar-se desde muito cedo, desde a infância e, nesse aspeto, também tive muita sorte com os dois professores de exceção do Ensino Primário a quem não me canso de prestar homenagem: o Professor Oliveira, em Cantanhede e o Professor Ferraz, em Coimbra, onde concluí a 4ª classe.

Como era enquanto estudante? Mais boémio, mais estudioso, mais revolucionário...

P

rocurei sempre ser um estudante aplicado. Isso nunca me impediu de aproveitar as coisas boas que a vida proporciona, sobretudo numa fase em que as faculdades físicas e mentais estão no auge. É uma fase em que a liberdade de pensar e de traduzir o pensamento em ação é única e irrepetível. De facto, é nesta fase que se forja o caráter, ou falta dele, da vida adulta.

F

iz bons amigos, diverti-me com eles, joguei futebol (fui juvenil e depois júnior da Académica, meu clube do coração de então como de hoje); tinha as minhas sessões de “jogatana” de cartas (King e Lerpa) com um grupo fixe de colegas; as tertúlias de café no “Pigalle”, no “Piolho” (Café Académico), no “Ritz”, no “Avenida”. Era perdido por cinema. Cheguei a ter uma agenda com todos os filmes a que assistia. Devo dizer que o cinema nos meus anos de juventude era, de facto, a 7ª Arte. O ambiente era outro, e desculpem lá, bem melhor! Não esqueço os filmes de época em écran gigante de 70 mm, as superproduções como eram chamadas. Os gigantes da realização como David Lean ou James Ivory. O “Dr. Jivago”, “A Filha de Ryan”, “O Soldado Azul”, “Patton”, “A Ponte sobre o Rio Kway”, “My Fair Lady” ou o icónico “Easy Rider” vêm-me já à memória.

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ão falhava as 5as feiras clássicas do “finado” Cinema Avenida (hoje as moribundas Galerias Avenida), os ciclos de cinema de terror no antigo Cinema Tivoli onde vi todos os “Drácula” com o “imortal” Christopher Lee (imor-

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ANEMIA

tal porque vampiro e formidável). Nesse cinema vi o “Exorcista”, irrepetível no género. Comigo estava uma menina especial (tão especial que uns anos depois viria a casar com ela) que me confessou não ter conseguido dormir nas noites seguintes, tal o poder de sugestão das imagens de possessão demoníaca da protagonista Linda Blair.

"Aos 17 anos cheguei a ir à Figueira da Foz (ir e vir eram quase 100 Km pela antiga Estrada da Serra da Boa Viagem) em agosto"

N

as férias que passava entre Cantanhede, Praia de Mira ou litoral da região de Bordéus era inseparável da minha bicicleta que a minha avó Isaura mandava “à revisão” meticulosamente, antes de eu chegar. Tenho seis irmãos (5 raparigas e 1 rapaz), mas como sou o mais velho e era seu afilhado penso que era uma espécie de prenda. Julgo só lhe ter dado um “desgosto”: não ter sido padre. Mas levava o ciclismo a sério. Aos 17 anos cheguei a ir à Figueira da Foz (ir e vir eram quase 100 Km pela antiga Estrada da Serra da Boa Viagem) em agosto, só para ver as notas do 5º Ano (actual 9ª) do Liceu da minha namorada.

Como surgiu o gosto pela ORL?

Desde cedo sofri uma “imersão total” na Otor-

rino e no gosto pela vida académica, não só por ser essa a profissão e devoção do meu pai, como também por grande parte dos amigos dos meus pais virem do mesmo meio. É comum os filhos seguirem as pisadas dos pais e não se pense que isso é uma imposição. Comigo nunca o foi. É possível que a admiração que nutrimos pelos nossos pais acabe por nos moldar, além do ADN que nos condiciona para as mesmas afinidades e aptidões. O meu ambiente familiar era muito afectuoso e equilibrado. Vejo assim como algo muito natural que tenha decidido, desde muito cedo, que ser Otorrino era o que eu queria fazer.

Qual a sua motivação para ser professor? Qual foi a coisa mais engraçada que um aluno já lhe disse?

A

admiração por alguns Mestres de excepção poderá ter feito germinar em mim o gosto pela docência. Não me enganei no caminho. Apesar de todas as dificuldades, umas naturais outras “colocadas ardilosamente”, o Ensino continua a ser hoje a minha paixão e a resposta dos alunos o meu maior estímulo. Não vou recordar a coisa mais engraçada, mas sim a mais reconfortante e compensadora que um aluno pode ter-me dito: recentemente, recebi uma carta duma ex-aluna de Anatomia, hoje já especialista, em que agradece ter-lhe ensinado a Nomenclatura Anatómica Internacional, porque isso valeu-lhe ter obtido nota ”máxima num exame de especialidade.


"Não vou recordar a coisa mais engraçada, mas sim a mais reconfortante e compensadora que um aluno pode ter-me dito" Não se aborrece de, ano após ano, explicar e repetir a mesma matéria? Qual é, atualmente, o passo a dar em frente, agora?

D

e maneira nenhuma me aborreço ao ministrar aulas, ano após ano. Cada ano é diferente, como cada aluno é diferente e todos os anos procuro introduzir nova informação. Para isso mantenho-me atento a tudo o que surge de novo na bibliografia que vou atualizando. O passo em frente, agora que estou no topo da Carreira Docente, é aperfeiçoar o programa de Otorrinolaringologia, que comecei a lecionar este ano.

Quais são as suas paixões/vícios/hobbys?

Desde

jovem que viajar é uma paixão! É uma verdadeira escola, além de um grande prazer. Tenho outro hobby, a filatelia, e outra paixão, a Académica. Assisto a todos os jogos em Coimbra e claro, estive no Jamor na gloriosa Taça de 2012.

Qual a história de ter surgido a paixão de viajar?

Tudo começou com o Inter-Rail, a maior pren-

da que algum estudante pode ter. Só podia usar-se até aos 23 anos. Por menos de 2.000$00 (actuais 10 €) podia visitar-se a Europa inteira, exceto alguns países de Leste, durante 1 mês, de comboio em 2ª classe. Fiz três grandes viagens aos 20, 21 e 22 anos, no mês de agosto, saindo de Coimbra B, de mochila às costas, no Sud-Express percorrendo a linha da Beira Alta até Vilar Formoso, atravessando toda a Espanha ansiando chegar aos Pirinéus para então entrar na Europa do bem-estar. Percorri toda a Europa, do Círculo Polar Ártico à Riviera Francesa e Italiana, de Londres a Istambul, passando pela Grécia, a antiga Jugoslávia e a Bulgária. Conheço bem os Estados Unidos da América, paraíso dos viajantes. Só me falta o Midwest. Está nos meus planos fazer a mítica Route 66.

"Está nos meus planos fazer a mítica Route 66."

dimensão criadora e cósmica a que chamam Deus e sem a qual a mente humana, na sua forma actual, não consegue encontrar um sentido para a Vida.

Conselhos que tenha para os novos alunos e para os recém graduados?

Desejo aos meus estimados alunos que encon-

trem resposta aos seus anseios como profissionais e indivíduos e, assim, se realizem. Não se rendam perante as dificuldades que sempre se encontram em todas as vidas e em todas as épocas, sob diferentes formas. Escudem-se no afeto e encorajamento de familiares e amigos verdadeiros. Notem que estes últimos são sempre poucos. Quem tem um Amigo tem muito, quem tem muitos amigos não tem amigo nenhum. Não se deixem abater quando se sentirem injustiçados e conservem a vossa integridade. Definam o vosso objectivo, fixem-se nele e lutem.

"Quem tem um Amigo tem muito, quem tem muitos amigos não tem amigo nenhum" Neste momento, o que dizem os seus olhos?

E

sta não é uma época fácil, mas alguma o terá sido? Os nossos pais e avós tiveram as duas Guerras Mundiais e o pós-Guerra. A minha geração conheceu a Guerra Colonial e o período revolucionário que se seguiu ao 25 de Abril. Nenhum de nós sabia o que ia acontecer, mas continuámos e procurámos contornar os obstáculos, que, acreditem, não foram poucos. Por uma razão ou outra parece que o futuro não será risonho: ou a falência do Estado Social e da inerente prestação de Cuidados de Saúde para todos; ou o belicismo e terrorismo que sugerem que o “Homem é o lobo do Homem”!

I

sto é, meus caros alunos, o que agora dizem os meus olhos mas, como alguém terá dito, as grandes crises podem ser grandes oportunidades para recomeçar. Recomeçar sim, mas de modo diferente, evitando repetir os mesmos erros. Para isso é preciso aprender com a História o que mostra como é importante conhecê-la.

"As grandes crises podem ser grandes oportunidades para recomeçar."

Arrepende-se de alguma coisa que tenha feito?

Não me arrependo de nada, nem teria feito

nada de outra maneira. Estou grato à vida por tudo o que já me proporcionou e peço saúde para continuar a trabalhar o maior número de anos possível. Não anseio pela reforma, pelo contrário, confesso que a receio, pois não é de ânimo leve que se deixa aquilo que se faz com paixão.

Se pudesse ter um superpoder, qual seria e porquê?

Penso

que seria quase obsceno desejar ter um superpoder, face ao que já disse. Nunca quis ser Deus … o mais que posso desejar é encontrar um dia, num qualquer ponto do Universo infinito essa

Por: Pedro Pinto

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Creativa-te Luzes, Câmara, Ação! e, talvez o pior do monte, “Spotlight”. Nenhum destes filmes é inerentemente mau ou de qualidade inferior, mas partilham o mesmo problema: são filmes que querem forçar o seu valor e importância na cara dos espectadores sem se preocuparem minimamente em entreter. Não me interpretem mal, não sou nada contra o filme ser uma arte intelectual, mas existem modos inteligentes e, acima de tudo, subtis de transmitir a mensagem. Um filme ganha sempre pontos aos meus olhos se incluir uma mensagem ou moral pertinente, mas nunca se deve sacrificar história e personagens em sua prol. E é justamente nesse aspecto que os filmes supramencionados pecam. Tudo bem, o Alan Turing foi das mentes mais importantes da história da Humanidade, mas eu não preciso de ser enxovalhado com esse conceito por uma película pretensiosa que se acha superior a mim. E por alguma razão, hoje em dia em Hollywood reina a atitude de que se deve priorizar que um filme só vale tanto quanto o que tem para dizer, em vez do que tem para mostrar. E, na opinião do indivíduo que está a datilografar isto, essa é uma péssima atitude.

“R

aiders of the Lost Ark”, um dos melhores filmes de todos os tempos. Indiana Jones defronta os Nazis na demanda pela Arca da Aliança. Mas por que há o espectador de se ralar? Porque os Nazis são maus? Porque a abertura da arca terá consequências nefastas? Porque se trata do grande acontecimento arqueológico sécular? Não! O espectador preocupa-se porque o filme lhe deu oportunidade de conhecer o protagonista, porque gastou o tempo certo a estabelecer conflito, ambiente e história e, mais importante ainda, porque permitiu ao espectador a experiência de uma realidade pela qual vale a pena se preocupar.

E

“Mad Max: Fury Road” Ano: 2015 Realizador: George Miller Atores Principais: Tom Hardy, Charlize Theron, Hugh Keays-Byrne IMDb: 8.1/10

D

esta vez não vou falar sobre o filme em si, mas antes sobre a sua importância na atualidade da Sétima Arte. Resumindo, o filme é uma experiência visual incrível, um mundo repleto de personalidade e vida, mesmo apesar do “setting” no deserto remoto e, na opinião do gajo que está a escrever isto, o melhor filme de 2015. Sim, e isso inclui o filme com o Leonardo DiCaprio e o urso.

M

as porque é que este filme é assim tão importante? Bom, para responder a essa questão, há que, primeiro, analisar uma tendência que tem contagiado Hollywood inteira, e que se trata nomeadamente da preocupação em se fazer filmes que se considerem “revestidos de importância”. Permitam-me enumerar alguns exemplos: “A Teoria de Tudo”, “O Jogo da Imitação”

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ANEMIA

eis então que surge, em 2015, um filme avassalador que derruba violentamente o pedestal onde os produtores de hoje em dia posicionam a auto-indulgência dos seus filmes. O novo Mad Max chega para mascar pastilha e providenciar entretenimento de qualidade, e já acabou a pastilha. Este filme faz-me sentir verdadeiramente vivo nas duas horas que passo de rabo alapado a mirar o ecrã. Tudo bem que não é muito mais do que uma cambada de degenerados a acelerar em camiões ao longo do deserto, mas o filme preocupa-se em me fazer preocupar por tão pouco. Tudo bem que o diálogo não vai ganhar nenhum Pullitzer, mas a caracterização das personagens e da ação que as rodeia fala mais alto do que qualquer quantidade ou arranjo de palavras. Tudo bem que não tem grande história, mas os filmes Mad Max têm mais a ver, não tanto com o enredo, mas com os percalços aleatórios que distraem o protagonista da sua interminável peregrinação errante pelo deserto.

E

m 2015 foi celebrado por comunidades imensas o 30º aniversário do “Regresso ao Futuro”. Três décadas depois e ainda permanece relevante a aventura de um garoto que mete em risco a sua própria existência por intermédio de um DeLorean. Será que daqui a três décadas as pessoas se lembrarão da mesma forma do “Spotlight”? Na opinião do energúmeno que está a redigir isto, considero mais produtivo recordar o Michael Keaton vestido de morcego, pássaro ou de Beetlejuice, Beetlejuice, Beetlejuice!

Por: Gonçalo Torres


Coffee Break Carta ao Pai Natal de um estudante de Medicina

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uerido Pai Natal, como sabes, sou o Jerónimo Malaquias, estudante de Medicina da FMUC. Essa faculdade gloriosa, de excelência e onde se formam médicos incríveis, conheces? Hum, bem me parecia que não, mas tudo bem, quando passares por cá mostro-te tudo! Sabes, eu este ano portei-me mesmo bem, não faltei a nenhum convívio, nenhuma tarde do bar e até me esforcei para ir à gincana. Vês como sou aplicado? E, por isso, tenho muitos pedidos para te fazer. Quantos é que posso pedir? ssim de repente, quero um cheque-prenda na Dona Ana para comprar sebentas e toda a bibliografia recomendada e uma mala de roupa para levar livros porque agora só vou precisar de pijama e só assim consigo levar todas as sebentas para a biblioteca. Também me dava jeito uma namorada, daquelas bem-feitas, um verdadeiro modelo anatómico. Idealmente, uma que estude Medicina para a poder ver. Queria também um superpoder: voar, teletransporte ou omnipresença. Esta mania da multiculturalidade de espaços está a dar cabo de mim. Ou então conseguir que a matéria entre na cabeça se dormir em cima dos livros, por osmose. e for demasiado, peço, pelo menos, que tirar sorrisos pelas funcionárias da biblioteca, pilhas Duracell aos funcionários da cantina, harmonia entre os regentes da nossa faculdade e a poção mágica da vida forever ao Sr. Vitor. Já agora, quero também que dês a rapidez do Flash e a obediência dos teus elfos aos elevadores do hospital e estabilidade às paredes do CHUC, estou farto de as segurar. m troca de toda a tua generosidade, queremos oferecer-te um check-up de um dos carros da queima à tua escolha. Deixas o trenó na bomba de gasolina, a nossa entrada a faculdade, e depois é só procurar debaixo de terra, estaremos algures por lá.#queremosqueduresparasempre

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espeço-me porque tenho de ir estudar. Escrevo a computador para que entendas perfeitamente aquilo que te peço, não vá a minha letra de médico confundir-te. PS: se não for pedir muito, podes mudar esta quadra natalícia para depois de janeiro? Por: Pedro Pinto e Ana Lúcia Oliveira

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ANEMIA

Anemia - edição de Janeiro  
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