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Como pensar a formação de públicos1

Isaura Botelho2

Não se pode considerar a questão dos públicos da cultura como se ela fosse autônoma. Cerca de cinqüenta anos de produção de uma importante e variada quantidade de estudos sobre os hábitos culturais dos indivíduos gerou uma significativa literatura na sociologia da cultura e da arte. Esses trabalhos mostram-nos que não se pode prescindir do conhecimento mais aprofundado sobre a vida cultural da população ou dos mecanismos de transmissão de gosto. Ao considerar esses aspectos nos vemos diante de uma inevitável conclusão: o “desejo por cultura” não é natural e sim cultivado. O que significa dizer que não existem públicos a priori: eles se formam. A partir dessa constatação vários desafios se colocam para gestores de equipamentos e de instituições culturais, já que têm de levá-la em conta ao estabelecer suas estratégias. No entanto, apesar de todos os avanços no conhecimento do que preside as escolhas das pessoas, as políticas que se concentram na questão da oferta continuam sendo privilegiadas, como se fosse possível retomar pressupostos que marcaram certos projetos de democratização cultural, em especial a ideia de que basta torná-las disponíveis, haverá o encontro mágico entre as pessoas e as grandes obras da humanidade. Tais políticas não atentam, no entanto, para outros fatores que não sejam as preocupações com a má distribuição de equipamentos culturais e o preço de ingressos e de bens como se tudo pudesse ser reduzido à dimensão econômica ou “de oferta”. É preciso ir além e considerar as distinções de formação e de hábitos no tecido da vida cotidiana que têm grande incidência sobre as práticas culturais – a começar pelo fato de a cultura erudita, embora dominante no plano oficial por razões históricas, ser apenas uma vertente que convive com

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Esse texto foi parte da apresentação de Isaura Botelho, durante a mesa “Observações sobre a formação de públicos e seus desafios” no Encontro Internacional Públicos da Cultura, realizado em novembro de 2013. 2 Doutora em Ação Cultural pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e com pós-doutorado no Département des études, de la prospective et des statistiques (DEPS) do Ministério da Cultura e Comunicação da França. É gestora cultural, e, ao longo de sua carreira, especializou-se em planejamento e formulação de políticas públicas de cultura, ligadas a instituições federais: Funarte, biblioteca Nacional e o próprio Ministério da Cultura. É consultora do Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo.


2 outras formas de produção e outras tradições populares, tudo bastante infiltrado pela dimensão “industrial” e mercantil dos processos atuais. As iniciativas de democratização têm ignorado o contexto sociológico e as barreiras simbólicas que envolvem as práticas de natureza artística e cultural, além do peso das variáveis sóciodemográficas, como nível de educação, faixa etária, renda e localização domiciliar a que se deve acrescentar uma “variável oculta” e de peso indiscutível que é a bagagem cultural herdada de um ambiente familiar afeito a práticas culturais. Sempre se espera que, por meio de uma política “democrática” e bem engendrada, o acesso desse público, visto como único e homogêneo, à cultura e às artes mais tradicionais, entendidas como “a” cultura, estará garantido. No entanto, por paradoxal que pareça, as pesquisas mostraram que as políticas de subvenção terminam por reforçar essas desigualdades, uma vez que favorecem aquela parcela da população que já detém a informação cultural, as motivações e os meios de se cultivar.


Como pensar a formação de públicos