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CORREIO BRAZILIENSE
ESPORTES
Globo gência O Arquivo/A
NA CAMA DE UM HOSPITAL DA ZONA SUL CARIOCA, NILTON SANTOS, PERTO DE COMPLETAR 83 ANOS, AINDA LUTA. DESTA VEZ, PELA VIDA. MAS MANTÉM, BEM PRESERVADA, A VELHA PAIXÃO PELO BOTAFOGO
ODEOUTONO UM CRAQUE RICARDO MIRANDA DA EQUIPE DO CORREIO
io de Janeiro — Quem o vê reconhece imediatamente os olhos miúdos, o sorriso, a voz rouca e baixa, modulada agora num fiapo de som. O rosto marcante pertence a um dos maiores jogadores brasileiros de todos os tempos, sucedido fora dos gramados por um analista lúcido e grande contador de causos do futebol, que por anos brilhou como colunista do Correio Braziliense. Desfeita a miragem inicial, percebe-se que se está diante de um homem lutando bravamente, buscando cada naco de vida, cada segundo de lucidez.
R LAR
Com a Seleção Brasileira comandada por Vicente Feola, sagra-se campeão do mundo na Suécia. Sua participação ganha destaque pelo famoso gol marcado no jogo de estréia, contra a Áustria
REVESES
Fotos: Ricardo Miranda/CB/D.A Press
1958
No quarto número 21 da bucólica clínica de paredes amarelas, que há um ano virou o lar de um dos grandes nomes da história do esporte, a Enciclopédia do Futebol, campeão mundial pela Seleção Brasileira em 1958 e 1962, o homem cujo lugar cativo já está reservado na história do futebol brasileiro trava diariamente seu duelo particular pela sobrevivência. E, no próximo dia 16, as janelas do apartamento de 50 metros quadrados no terceiro andar da ala geriátrica da Clínica da Gávea, na Zona Sul do Rio, vão amanhecer abertas para trazer para dentro o aroma dos eucaliptos e a brisa fresca que sopra sem parar no alto da Estrada da Gávea. O ilustre paciente fará 83 anos.
MARIA CÉLIA CUIDA DO MARIDO NO QUARTO DA CLÍNICA E AGRADECE AO TIME DE CORAÇÃO DE NILTON SANTOS: “SEM O BOTAFOGO, NÃO ESTARÍAMOS AQUI. NEM REMÉDIO PODERÍAMOS COMPRAR”
AS PÁGINAS DA ENCICLOPÉDIA 1948
Makron Books/Reprodução
Nilton Santos chega ao Botafogo, então comandado por Zezé Moreira. No mesmo ano, sagra-se campeão carioca pelo alvinegro, com a vitória por 2 x 1 sobre o Vasco
1949 É chamado pela primeira vez para a Seleção Brasileira, pelo técnico Flávio Costa, e conquista, no Brasil, o Campeonato Sul-Americano, hoje Copa América
1961 Arquivo/Agência O Globo
1950
1962
É convocado por Flávio Costa, como lateral-direito, para a Seleção Brasileira, anfitriã da Copa do Mundo de 1950. Na reserva, assiste à tragédia da derrota na final para o Uruguai
● Aos 37 anos, com a Seleção Brasileira, sob o comando de
1952 Novamente chamado para a Seleção, agora por Zezé Moreira, conquista o Pan-Americano de 1952, em Santiago, na final com o Chile
Carlos Eduardo/CB/D.A Press - 31/7/96
1953
Aymoré Moreira, conquista o bicampeonato mundial, no Chile. Entra para a história o lance em que comete pênalti no atacante Collar, dá dois passos para a frente e ilude o árbitro, que dá falta fora da área ● Conquista o bicampeonato carioca com o Botafogo, na vitória sobre o Flamengo por 3 x 0, com um show particular de Garrincha. Conquista também o título do Torneio Rio-São Paulo, competição badalada, na época
1964
Conhece Garrincha, de quem leva um baile num treino em General Severiano. Logo em seguida, recomenda à diretoria que contrate o gênio das pernas tortas
Depois de 729 jogos e 11 gols pelo Botafogo, 84 partidas e três gols pela Seleção, abandona a carreira de jogador
1954 É convocado para a Copa da Suíça (na foto, está ao lado do lateral-direito Djalma Santos, com quem seria campeão em 1958 e 1962). Na derrota por 4 x 2 diante da Hungria,nas quartas-de-final,troca socos com Boszik e é expulso
Conquista, com a camisa do Botafogo, o Campeonato Carioca, com duas rodadas de antecipação
1971 Cezar Loureiro/Agência O Globo
Depois de tentar a sorte como treinador em pequenos clubes,torna-se diretor de futebol do Botafogo.Inconformado com a arbitragem de Armando Marques num jogo contra o São Paulo,no Morumbi,agride o polêmico juiz no Maracanã,após o jogo contra o Atlético-MG que deu aos mineiros o título de primeiro campeão brasileiro
1957 1973
Com a camisa alvinegra, conquista o Campeonato Carioca, ao bater o Fluminense por surpreendentes 6 x 2. Participa da campanha da Seleção Brasileira nas Eliminatórias, contra o Peru, com sofrida classificação para o Mundial do ano seguinte
Muda-se para Brasília, onde passa a cuidar de escolinhas de futebol. Fica na capital federal até 2001, quando se transfere definitivamente para a cidade fluminense de Araruama
Nilton Santos vive hoje o crepúsculo de um grande ídolo. Segundo Maria Célia, sua companheira há 37 anos, que preserva a todo custo a imagem de seu grande amor, Nilton sofre de demência senil, uma deterioração neurológica progressiva e irremediável, que o faz alternar momentos de lucidez com períodos na escuridão. Fala com dificuldades e não reconhece pessoas. Nilton também sofreu recentemente outro revés, uma dengue hemorrágica, da qual só se recuperou, segundo Célia, por um milagre. “As plaquetas dele chegaram a 50 (mil mm3). Mais um pouco e ele teria que ser transferido daqui”, conta. Agora, recupera-se de uma pneumonia.
ANJO DA GUARDA
Deitado na cama, o olhar indecifrável, o corpo quase imóvel, muito mais magro (em parte por causa de dengue), Nilton dá a impressão, para quem o conheceu antes, que saltará de repente da cama e nos surpreenderá com sua gargalhada contida, exibindo os dentes da frente separados, divertindo-se com sua própria condição. Mas, infelizmente, não há brincadeira. Nem volta. O estado do ídolo mobiliza toda a direção do Botafo-
go, a começar pelo presidente Bebeto de Freitas, que deu ordem para que não sejam medidos esforços para garantir o conforto e a tranqüilidade do maior patrimônio vivo do clube. O Botafogo paga todas as despesas de Nilton na clínica e colocou seu médico e cardiologista, Paulo Samuel, permanentemente na cabeceira do ex-jogador, a ponto de ser chamado pela família de “anjo da guarda”.
LIÇÃO
Nilton e Célia vivem de poucas rendas, especialmente da modesta aposentadoria de Nilton da LBA (Legião Brasileira de Assistência). “A sensação que sinto ao vê-lo assim é de tristeza, muita tristeza. Mas me conforta ver o Nilton cuidado da melhor forma possível. E isso graças ao Botafogo, especialmente ao Bebeto de Freitas, que teve a sensibilidade de permitir uma velhice melhor a um ídolo. Sem o Botafogo, não estaríamos aqui. Nem remédio para ele poderíamos comprar”, diz Célia, que permitiu a visita do Correio, de cerca de 40 minutos, ao quarto de Nilton. A lucidez está lá, em algum lugar nem sempre visível. E quando emerge da escuridão traz uma luz forte, cheia de esperança. O repórter do Correio disse a ele que esperava não ser expulso do quarto, um verdadeiro santuário do Botafogo, já que torcia pelo Flamengo, rival do alvinegro na final do Campeonato Carioca. Baixinho, Nilton soprou sua lição. “Não teria graça nenhuma se todos tivessem o mesmo time”, ensinou, sorrindo discretamente. Há algumas semanas, outro interno da clínica ouviu Nilton repetir um trecho de uma de suas histórias preferidas, sobre o primeiro teste do anjo das pernas tortas, Garrincha, no Botafogo. “Ele me deu um baile. Pedi que contratassem ele logo para não ter que enfrentá-lo de novo”, recordou.
PAIXÃO
Quarenta e quatro anos depois de sua última partida como profissional, seu grande alimento continua sendo o Botafogo. A simples menção do nome faz com que sua fisionomia mude. Não por acaso, o quarto que hoje é seu lar foi “decorado” por Maria Célia para aconchegá-lo, cercado por medalhas, taças, fotos de todas as épocas e quadros pintados por ele a partir de 1990. O último deles, terminado por Nilton há algumas semanas, antes de perder finalmente o interesse por pintar, mostra uma igrejinha na antiga Praia das Flecheiras, na Ilha do Governador, onde nasceu. Do botafoguense Nivaldo Santana, colega da clínica, recebeu um cartaz: “A reverência hoje é para a nossa maior lenda viva do futebol alvinegro, o lateral de todos os tempos, o maior, o nosso amável Nilton Santos, a Enciclopédia”. A parede está decorada por medalhas que ganhou ao longo da vida de glórias. Sobre uma pequena estante de madeira, guardada em
lugar especial, está a Comenda João Havelange, recebida da Confederação Brasileira de Futebol. A última homenagem veio da Prefeitura de Valença (RJ), que batizou um centro de treinamento com o seu nome. A camisa 5 do volante Túlio, entregue pelo próprio atleta, está guardada no pequeno armário. Uma mesa guarda um mosaico com as feições do então jovem jogador. Um sofá, próximo à cama, foi coberto com a bandeira do Botafogo. Almofadas, relógios, ímãs de geladeira, tudo lembra o time da estrela solitária.
SANTUÁRIO ALVINEGRO
DIA-A-DIA
A rotina de Nilton é muito simples. Banho de sol, caminhadas pela clínica, quando se encontra em condições, TV num salão onde se reúnem os internos e alguns prazeres frugais, como sorvete napolitano ou de flocos, que não podem faltar no frigobar. São quatro caixas por semana. No rádio-CD, tocam da alvinegra Beth Carvalho a Louis Armstrong. Nilton adora visitas, embora sejam menos freqüentes do que se imagine no caso de um ídolo desse porte. Célia acha que muitos amigos não o visitam porque não querem vêlo no estado atual. “Não vem mais gente porque as pessoas não querem”, encerra Célia, que não acha que o ídolo esteja sendo esquecido. Entre os amigos que recebe com mais freqüência, os ex-companheiros de pelada na Ilha, alguns ex-jogadores, como Brito, e um grande fã, Thiago Cesário Alvim, botafoguense roxo e dono de um bar do Rio, o Carioca da Gema, na Lapa. Sempre antes dos jogos do Botafogo, ele leva os filhos para alisar as pernas do velho mito. Dá sorte, dizem.
INESQUECÍVEL
Quando consegue, Nilton assiste aos jogos do Botafogo. Assistiu a parte da semifinal da Taça Guanabara, contra o Fluminense. No intervalo, chutou e acertou o placar. “Só me chamem quando estiver 3 x 0”, avisou. O primeiro jogo da decisão contra o Flamengo não viu e, aparentemente, ignora o placar. Nunca se sabe quando vai submergir e emergir de volta. Nilton se despede com um sorriso terno. Célia controla o choro. Pairam pelo quarto lembranças de outros ídolos do passado, do presente, de sempre, que sofreram de processos degenerativos semelhantes, como Leônidas da Silva, o Diamante Negro, e o húngaro Ferenc Puskas. Como eles, Nilton jamais terá que se preocupar com a memória. Para nós, ele nunca será esquecido. Nem hoje. Nem nunca.
correiobraziliense.com.br Confira na internet: galeria de fotos da carreira de Nilton Santos
O quarto da clínica no bairro da Gávea, no Rio de Janeiro, é decorado com as paixões de Nilton Santos: o sofá coberto pela bandeira do Botafogo; as fotos que lembram a carreira e as homenagens recebidas; os quadros pintados pelo ídolo. Tudo arrumado com carinho para deixar o ambiente o mais acolhedor possível
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