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Outubro l Novembro l Dezembro 2019

ISSN 2448-3885

Revista do CAU/SP

Fiscalização O trabalho do CAU/SP em garantir boas práticas do exercício profissional de arquitetos e urbanistas

Bate-Papo

Os projetos de Marcos Boldarini para o espaço público

Em Debate

A adaptação das cidades às mudanças climáticas


LÁPIS

na ponta do

José Alfredo Queiroz dos Santos

Os croquis representam parte do levantamento feito para o projeto de restauro da Chácara dos Fontoura, Estrada da Biacica, no bairro do Itaim Paulista, em São Paulo. O projeto foi contratado pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) e a autoria ficou a cargo dos arquitetos e urbanistas Lucio Gomes Machado, Paulo Julio Valentino Bruna, José Alfredo Queiroz dos Santos e Pedro Collet Bruna.


Editorial CCOM

Índice

28 I Fiscalização

O papel do Conselho na promoção do exercício profissional de qualidade

22 I Bate-papo

Marcos Boldarini e a construção do espaço público

54 I Arquitetura no Mundo

A valorização do tijolo na obra do uruguaio Eladio Dieste

18 I Em Debate

A contribuição da Arquitetura e Urbanismo para combater o aquecimento das cidades

38 I Concurso

Novas ideias para o Vale do Rio Jundiaí

46 I Exercício Profissional e Ética

Contratos: o que todos os profissionais deveriam saber

e mais: 06 12 14 60 62 64 66

I I I I I I I

CAU/SP em Ação Regionais Arquitetura Paulista Olhar do Arquiteto Ouvidoria Fique Atento Ponto de Vista

C

aros Colegas, A edição deste trimestre traz como matéria de capa o tema Fiscalização. A reportagem nos conta como o Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo tem atuado em prol da qualidade do exercício profissional em um país onde mais de 80% das construções são autogeridas, sem a assistência de profissionais qualificados. Em um ano onde mais desabamentos de prédios, marquises e passarelas causaram mortes, vale uma reflexão sobre o papel do arquiteto e urbanista neste cenário. Na sessão Na Ponta do Lápis, tivemos mais uma vez o privilégio de contar com a colaboração de arquitetos que integram os “Rabisqueiros” – o grupo se reúne às quintas-feiras para fazer arte no papel. Conheça o grupo em @rabisqueiroscoletivo. O dia 15 de dezembro marca a comemoração do aniversário do mestre Oscar Niemeyer e também o Dia do Arquiteto e Urbanista. Antecipando a nossa celebração pela data, a seção CAU em Ação conta como foi a ‘Semana da Arquitetura e Urbanismo do CAU/SP’, realizada entre os dias 21 e 30/11. Nela tivemos palestras, oficinas e visitas técnicas com a participação de arquitetos vindos de Barcelona, especialmente para os eventos. Confira! A sessão Em Debate traz tema sobre o aquecimento global e como a Arquitetura e Urbanismo pode contribuir para amenizar os efeitos destas mudanças climáticas, adequando as edificações e as cidades. Marcos Boldarini é nosso entrevistado na sessão Bate Papo. O arquiteto e urbanista atua na área de Habitação de Interesse Social e vem mudando a vida de muitas pessoas que vivem às margens da represa Guarapiranga. Ele acredita que os projetos de urbanização em áreas carentes “permitem intervir onde a vida acontece” com ações transformadoras. O concurso de ideias para o Vale do Rio Jundiaí, promovido pelo IAB e a Prefeitura Municipal de Jundiaí, trouxe sugestões para uma maior integração das margens do rio que corta a cidade com os bairros do entorno. As "Boas Práticas no Ensino e Formação em Arquitetura e Urbanismo" do Estado de São Paulo foram premiadas com menção honrosa pelo CAU/SP no Seminário de Ensino, realizado no dia 21/11 – o Edital, lançado em agosto de 2019, recebeu dezenas de propostas, dentre elas cinco foram escolhidas pela inovação, criatividade e boa recepção dos alunos. Boa leitura!!

Nancy Laranjeira Tavares de Camargo Coordenadora da CCom. Comissão Especial de Comunicação do CAU/SP * revista@causp.gov.br Nancy Laranjeira Tavares de Camargo Coordenadora Maria Alice Gaiotto Coordenadora Adjunta

Claudio Zardo Búrigo Marcia Helena Souza da Silva Martin Corullon

As ideias ou opiniões expostas nos artigos ou textos dos colaboradores são de responsabilidade dos próprios autores, não refletindo, Outubro l Novembro l Dezembro 2019 necessariamente, a opinião ou posicionamento do CAU/SP.

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Expediente

Conselho Diretor José Roberto Geraldine Junior Presidente Valdir Bergamini Vice-presidente José Antonio Lanchoti (Coordenador) Comissão de Ensino e Formação (CEF – CAU/SP) Anita Affonso Ferreira (Coordenadora) Comissão de Ética e Disciplina (CED – CAU/SP) Alex Marques Rosa (Coordenador) Comissão de Exercício Profissional (CEP – CAU/SP) CONSELHEIRAS FEDERAIS Nadia Somekh Titular

Helena Aparecida Ayoub Silva Suplente

Conselheiros Estaduais - Titulares Adriana Blay Levisky Guilherme Carpintero de Carvalho Alan Silva Cury José Antonio Lanchoti Alex Marques Rosa Jose Marques Carrico André Luis Queiroz Blanco José Roberto Geraldine Junior Angela de Arruda Camargo Amaral Luiz Antonio Cortez Ferreira Angela Golin Luiz Antonio de Paula Nunes Anita Affonso Ferreira Marcelo Martins Barrachi Carlos Alberto Palladini Filho Marcia Helena Souza da Silva Carlos Alberto Silveira Pupo Marco Antonio Teixeira da Silva Cassia Regina Carvalho de Magaldi Marcos Cartum Catherine Otondo Maria Alice Gaiotto Claudio de Campos Maria Fernanda Avila de Sousa Claudio Zardo Búrigo da Silveira Delcimar Marques Teodoro Maria Rita Silveira de Paula Amoroso Denise Antonucci Mario Wilson Pedreira Reali Dilene Zaparoli Marta Maria Lagreca de Sales Edson Jorge Elito Martin Gonzalo Corullon Fernanda Menegari Querido Mauro Claro Fernando de Mello Franco Mel Gatti de Godoy Pereira Flavio Marcondes

Miguel Antonio Buzzar Miriam Roux Azevedo Addor Nabil Georges Bonduki Nancy Laranjeira Tavares de Camargo Nelson Gonçalves de Lima Junior Paulo Marcio Filomeno Mantovani Poliana Risso Silva Ueda Rafael Paulo Ambrosio Rossella Rossetto Ruy dos Santos Pinto Junior Salua Kairuz Manoel Silvana Serafino Cambiaghi Tercia Almeida de Oliveira Valdir Bergamini Vanessa Gayego Bello Figueiredo Vera Santana Luz Vinicius Hernandes de Andrade Violeta Saldanha Kubrusly

Conselheiros Estaduais - Suplentes Adalberto da Silva Retto Junior Fabiano Puglia Moreno Marin Ailton Pessoa de Siqueira Fabio de Almeida Muzetti Ana Cristina Gieron Fonseca Fábio Mariz Gonçalves Ana Lucia Ceravolo Flavia Regina de Lacerda Abreu André Gonçalves dos Ramos Gianfranco Vannucchi Andre Luis Avezum Jeane Aparecida Rombi de Godoy Rosin Andressa Rodriguez Hernandez Katia Piclum Versosa Breno Berezovsky Laura Lucia Vieira Ceneviva Carlos Antonio Spinhardi Leda Maria Lamanna Ferraz Rosa Van Carolina Margarido Moreira Bodegraven Cícero Pedro Petrica Leila Regina Diegoli Consuelo Aparecida Gonçalves Gallego Liana Paula Perez de Oliveira Daniela da Camara Sutti Lizete Maria Rubano Daniela Perez Nader Andréo Lua Nitsche Danusa Teodoro Sampaio Luiz Eduardo Siena Medeiros Eduardo Trani Marcelo Consiglio Barbosa Eleusina Lavor Holanda de Freitas Marise Cespedes Tavolaro Enio Moro Junior Mauro Ferreira Eurico Pizao Neto Milton Liebentritt de Almeida Braga

Natália Costa Martins Patricia Robalo Groke Paulo de Falco Epifani Paulo Machado Lisbôa Filho Raquel Rolnik Raquel Vieira Feitoza Renata Alves Sunega Renato Matti Malki Ricardo Aguillar da Silva Roberto Claudio dos Santos Aflalo Filho Roberto Loeb Sami Bussab Sarah Feldman Sergio Baldi Sergio de Paula Leite Sampaio Silvana Dudonis Vitorelo Iizuka Sofia Puppin Rontani Weber Sutti

EXPEDIENTE CCOM Conselho e coordenação editorial Daniele Moraes Coordenadora de Comunicação Epaminondas Neto Técnico de Comunicação

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Carlos Alberto Silveira Pupo (Coordenador) Comissão de Fiscalização (CF – CAU/SP) Tercia Almeida de Oliveira (Coordenadora) Comissão de Organização e Administração (COA – CAU/SP) Marco Antonio Teixeira da Silva (Coordenador) Comissão de Planejamento e Finanças (CPFi – CAU/SP)

Editado por Ex Libris Comunicação Integrada Jornalista: Jayme Brener (Mtb 19.289) Editor: Silvia Lakatos Textos: Marco Paulo Ferreira, Silvia Lakatos, Cláudio Camargo, Daniele Moraes, Epaminondas Neto e Catarine Figueiredo. Projeto gráfico e diagramação: Regina G. Beer Impressão: Coan Industria Grafica Ltda. Tiragem: 59 mil exemplares revista@causp.gov.br

Comissões Ordinárias Comissão de Ensino e Formação do CAU/SP José Antonio Lanchoti (Coordenador), Flavio Marcondes (Coordenador Adjunto), Carolina Margarido Moreira (suplente), Sérgio de Paula Leite Sampaio (suplente), Nelson Gonçalves de Lima Junior, Delcimar Marques Teodozio, José Marques Carriço, Miguel Buzzar, Vera Santana Luz, Vinicius Hernandes de Andrade (licenciado), Fernando de Melo Franco (licenciado), Vanessa Gayego Bello Figueiredo Comissão de Ética e Disciplina do CAU/SP Anita Affonso Ferreira (Coordenadora), Marcos Cartum (Coordenador Adjunto), Luiz Antonio de Paula Nunes, Denise Antonucci, Cassia Regina Magaldi, Marcia Helena Souza da Silva, Claudio Zardo Búrigo, Poliana Risso Silva Ueda, Rafael Paulo Ambrosio Comissão de Exercício Profissional do CAU/SP Alex Marques Rosa (Coordenador), Dilene Zaparoli (Coordenadora Adjunta), Alan Silva Cury, Luiz Antonio Cortez Ferreira, Claudio de Campos, Maria Fernanda Avila de Sousa da Silveira, Catherine Otondo, Martin Gonzalo Corullon, Carlos Alberto Palladini Filho Comissão de Fiscalização do CAU/SP Carlos Alberto Silveira Pupo (Coordenador), Paulo Marcio Filomeno Mantovani (Coordenador Adjunto), Marcelo Martins Barrachi, Silvana Serafino Cambiaghi, Mel Gatti de Godoy Pereira, Angela Golin, Guilherme Carpintero, Salua Kairuz Manoel Comissão de Organização e Administração do CAU/SP Tercia Almeida de Oliveira (Coordenadora), Adriana Blay Levisky (Coordenadora Adjunta), Ana Cristina Gieron Fonseca (suplente), André Luis Queiroz Blanco, Ruy dos Santos Pinto Junior (licenciado), Violêta Saldanha Kubrusly, Marta Maria Lagreca de Sales, Nabil Georges Bonduki, Rossella Rossetto, Valdir Bergamini Comissão de Planejamento e Finanças do CAU/SP Marco Antonio Teixeira da Silva (Coordenador), Miriam Roux Azevedo Addor (Coordenadora Adjunta), Edson Jorge Elito, Nancy Laranjeira Tavares de Camargo, Maria Rita Silveira de Paula Amoroso, Maria Alice Gaiotto, Angela de Arruda Camargo Amaral, Fernanda Menegari Querido, Mario Wilson Pedreira Reali Comissões Especiais Comissão de Desenvolvimento Profissional do CAU/SP André Luis Queiroz Blanco (Coordenador), Fernanda Menegari Querido (Coordenadora adjunta), Maria Fernanda Avila de Sousa da Silveira, Luiz Antonio de Paula Nunes, Claudio de Campos Comissão de Política Urbana, Ambiental e Territorial do CAU/SP Nabil Georges Bonduki (Coordenador), Adriana Blay Levisky (Coordenadora adjunta), Paulo Marcio Filomeno Mantovani, Miguel Antonio Buzzar, Marta Maria Lagreca de Sales Comissão de Comunicação do CAU/SP Nancy Laranjeira Tavares de Camargo (Coordenadora), Maria Alice Gaiotto (Coordenadora adjunta), Claudio Zardo Búrigo, Marcia Helena Souza da Silva, Martin Gonzalo Corullon Comissão de Relações Institucionais do CAU/SP Marcelo Martins Barrachi (Coordenador), Edson Jorge Elito (Coordenador adjunto), Ruy dos Santos Pinto Junior, Poliana Risso Silva Ueda, Nelson Goncalves de Lima Junior Comissão de Patrimônio Cultural do CAU/SP Maria Rita Silveira de Paula Amoroso (Coordenador), Vanessa Gayego Bello Figueiredo (Coordenadora adjunta), Ana Cristina Gieron Fonseca (suplente), Cassia Regina Carvalho de Magaldi, Carlos Alberto Palladini Filho, Dilene Zaparoli


Palavra do presidente

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ncerramos o ano de 2019 com um marco histórico para o CAU/SP e para todos os arquitetos e urbanistas do Estado: o Conselho terá sua sede própria. Através do trabalho rigoroso e criterioso da Comissão Temporária para a Aquisição de Sedes Próprias, chegamos a um imóvel com localização privilegiada, no coração de nossa capital, facilmente acessível e de relevância arquitetônica. Diversos outros edifícios também de importância arquitetônica e histórica foram analisados pela Comissão. Entretanto, somente um atendeu aos requisitos técnicos exigidos pelos órgãos de controle para ser a futura sede da autarquia. O Plenário do CAU/SP aprovou a aquisição do edifício e nas próximas semanas vamos tratar dos procedimentos para a compra e adaptação deste imóvel que, apesar de centenário, já foi restaurado recentemente e conta com instalações modernas e atualizadas. Queremos que o edifício se torne um espaço de acolhida para todos os profissionais da capital e do interior do Estado, além de mais uma referência da Arquitetura na capital paulista. Também celebramos outras conquistas: lançamos neste ano quatro editais para fomentar a capacitação de profissionais por todo o estado de São Paulo e de assistência técnica à habitação de interesse social; oferecemos treinamentos e orientações na sede e nas regionais; e realizamos seminários e oficinas para o aperfeiçoamento e promoção da Arquitetura e Urbanismo. O projeto “CAU na Cidade” ajudou a expandir o alcance das iniciativas do CAU/SP a vários municípios do interior, numa ação que buscou envolver gestores públicos, estudantes e a sociedade civil em geral. Também recebemos as primeiras unidades móveis de atendimento e apoio à fiscalização do CAU/SP, que começarão a circular pelo Estado nas próximas semanas. Além de lançarmos o concurso público, que deve ampliar a equipe de fiscalização e atendimento do Conselho paulista. Em novembro, coroamos o trabalho desenvolvido em 2019 com a realização da “Semana de Arquitetura e Urbanismo do CAU/SP”, que contou com palestras sobre acessibilidade, BIM, ensino e formação, desenvolvimento e a prática do exercício profissional, em comemoração ao Dia do Arquiteto e Urbanista - 15 de dezembro. Para o próximo período, seguimos empenhados, com vigor e compromisso, na superação dos desafios, em especial no que tangem à defesa das atribuições profissionais – a fim de reafirmar de maneira incansável a importância dos arquitetos e urbanistas para a sociedade brasileira.

Daia oliver

Um ano de conquistas para o CAU/SP

José Roberto Geraldine Junior Presidente

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CAU/SP em ação

Plenário autoriza compra de sede própria em edifício histórico no centro da capital paulista

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or unanimidade, os conselheiros e conselheiras presentes na 3ª Reunião Plenária Extraordinária do CAU/SP, realizada no dia 5/12, aprovaram a autorização para a aquisição de edifício localizado à rua XV de Novembro, 194 – Centro – na capital paulista. O prédio de oito pavimentos, projetado pelo escritório do arquiteto Ramos de Azevedo e tombado como patrimônio histórico, está localizado no chamado ‘Triângulo Histórico’ – onde estão situados os principais prédios históricos da cidade.

Após quase dois anos de trabalho da Comissão Temporária para a Aquisição de Sedes Próprias, e superados inúmeros processos legais, que já constava nos planos de ação do Conselho desde a sua primeira gestão, em 2012, o CAU/SP deve concretizar a compra nas próximas semanas. De acordo com o Presidente do CAU/SP, José Roberto Geraldine Junior, o principal objetivo do Conselho é ter uma sede capaz de atender a todas as necessidades identificadas – como espaço para atendimento

O edifício que deverá abrigar a sede do CAU/SP, localizado no centro histórico, foi totalmente restaurado no ano de 2002.

ao público e reuniões plenárias -, além de garantir o melhor e mais adequado funcionamento da autarquia.

Sirirat/Shutterstock

Vídeos do seminário internacional sobre qualidade de ensino e mobilidade profissional

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á estão disponíveis no portal YouTube (www.youtube.com/comunicacaocausp) os vídeos relativos ao Seminário Internacional “Qualidade de Ensino e Mobilidade Profissional”, promovido pelo Conselho em maio na capital paulista. O evento trouxe para o país especialistas da África, América, Ásia e da Europa para debater temas como a internacionalização profissional, a acreditação dos cursos de Arquitetura e Urbanismo, novas tecnologias entre outros.


Acervo CAU/SP

CAU na Cidade leva cursos e oficinas ao interior

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m preparação para o lançamento da coleção “Arquitetura e Patrimônio Paulista”, prevista para o início de 2020, o CAU/SP promoveu em outubro uma série de encontros para debater a importância da preservação do patrimônio e a valorização do arquiteto e urbanista na pesquisa, conservação, restauro e gestão. Realizados pela Comissão Especial de Patrimônio Cultural, os encontros reuniram especialistas no Solar da Marquesa de Santos, no centro histórico da capital.

Cursos gratuitos para capacitação profissional na capital e no interior

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mericana, Campos do Jordão, Cotia e São Paulo receberam treinamentos gratuitos para auxiliar os arquitetos e urbanistas no exercício da profissão. Tabela de Honorários, Noções de Escopo e propostas, Registro e constituição de atividades técnicas foram cursos promovidos pela Comissão de Exercício Profissional entre os meses de setembro e outubro, visando a ajudar os arquitetos e urbanistas a realizarem com mais eficiência estes processos.

Acervo CAU/SP

Especialistas debatem preservação do patrimônio e valorização do arquiteto

ntre agosto e novembro, o Conselho lançou o projeto "CAU na Cidade" para intervir no debate público e alcançar a sociedade. Foram promovidas diversas ações integradas de palestras, workshops e oficinas técnicas, nas áreas de mobilidade urbana, manutenção e preservação do patrimônio histórico, ATHIS e BIM nas cidades de Bauru, Campinas, Mogi das Cruzes, Santo André (ABC), Santos, Sorocaba, Presidente Prudente e São José dos Campos. Este projeto faz parte da agenda de eventos preparatórios da UIA 2020 Rio, a 27ª edição do Congresso Mundial de Arquitetos, que deve reunir milhares de profissionais na capital fluminense em 2020.

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CAU/SP em ação

Acer vo CAU /SP

Cooperação para atualizar caderno de legislação ambiental

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a reunião plenária do dia 27/09, o CAU/SP assinou um protocolo de intenções com a Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo para cooperar com a atualização de um caderno de legislação ambiental. Em centenas de páginas, o documento compila a legislação aplicada e os instrumentos de planejamento, licenciamento e gestão ambiental no Estado. A edição 2017 deste caderno está disponível para download na página de publicações do CAU/SP.

Palestras sobre valorização profissional e legislação chegam às cidades do interior

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m continuidade ao projeto “Profissão: Arquiteto”, lançado no final de 2018, as cidades de Avaré, Bebedouro, São José dos Campos e Tupã sediaram as palestras gratuitas oferecidas pelo Conselho a estudantes de Arquitetura e Urbanismo. Durante estas palestras, os profissionais convidados abordam temas como a valorização profissional, legislação vigente, orientação e disciplina, e o combate ao exercício ilegal da profissão.

Oficina de fiscalização reúne conselhos profissionais para debater inovação

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s Conselhos profissionais de Administração (CRA-SP), dos corretores de imóveis (Creci), Fisioterapia e Terapia Ocupacional (Crefito-3ª Região), Medicina (Cremesp), Enfermagem (Coren-SP), Biologia (CRBIO-SP), Nutrição (CRN-3ª Região), Psicologia (CRP-SP) e Química (CRQ-SP) se reuniram num encontro pioneiro realizado pelo CAU/SP. Além das discussões de questões jurídicas, ensino e formação, as equipes debateram a inovação no âmbito da fiscalização, agregando experiências

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de vários campos profissionais. Também compartilharam os principais desafios no combate ao exercício ilegal da profissão, os maiores entraves, e as estratégias para incorporar inovação a estas atividades.


Acervo CAU/SP

Plenário aprova assinatura de termo para formalizar parcerias de fomento

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Funcionários recebem treinamento para atender aos profissionais com deficiência auditiva

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ntre os meses de setembro e novembro, funcionários do Conselho receberam treinamento em Libras (Língua Brasileira de Sinais). A iniciativa aconteceu graças ao Termo de Cooperação firmado com a Secretaria da Pessoa com Deficiência da Prefeitura de São Paulo. “Nossas equipes podem se deparar com a necessidade de atendimento de pessoas nessas condições e queremos estar preparados para atender de forma correta, respeitosa e digna”, diz o Coordenador de Gestão de Pessoas do CAU/SP, Carlos Moraes. O treinamento pretende não somente aprimorar o atendimento de arquitetos e urbanistas, mas também contribuir para a integração com futuros funcionários do Conselho, caso tenham deficiência auditiva.

a reunião plenária do dia 31/10, o Plenário do Conselho homologou a assinatura dos termos de fomento para a formalização de uma série de parcerias nas áreas de capacitação para empreendedorismo, BIM e outras, que ocorre anualmente por meio de uma chamada pública. A lista completa dos projetos aprovados está disponível no site do CAU/SP (www.causp.gov.br/ plenario-parceriasfomento-2019/). Neste ano, o Conselho estabeleceu oito lotes para o recebimento de propostas. A assinatura do termo de fomento, aprovada pelo Plenário, está condicionada ainda ao parecer favorável da equipe técnica e assessoria jurídica do CAU/SP para a realização dos projetos.

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CAU/SP em ação

Dia do Arquiteto e Urbanista é comemorado com capacitação e debate

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ara comemorar a data, a autarquia promoveu a “Semana de Arquitetura e Urbanismo do CAU/SP” com uma programação de palestras, oficinas e visitas técnicas na capital. O Colegiado das Entidades de Arquitetura e Urbanismo do CAU/SP (CEAU-SP) e as Comissões de Acessibilidade, de Ensino e Formação, de Desenvolvimento Profissional, de BIM, bem como a Comissão de Comunicação se mobilizaram para organizar e divulgar esta jornada intensa de eventos, que contou com a presença de especialistas do Brasil, da África e da Europa. A ‘semana’ estendida abriu com o ‘II SENASEF – Seminário Nacional sobre Ensino e Formação e II Fórum de Coordenadores de Curso’ no dia 21, que incluiu a premiação de boas práticas pedagógicas nas instituições de ensino superior; entre os dias 25 e 30, o ciclo de palestras ‘Diálogos de Arquitetura e Urbanismo’ ampliou o debate sobre a formação e prática do exercício profissional; no dia 27, centenas de arquitetos e urbanistas prestigiaram o ‘Seminário ‘BIM – CAU/SP: Do Ensino à Prática’ e o Seminário ‘Acessibilidade e Diversidade Humana em um só mundo. Arquitetura 21’. E fechando a programação, o 1° Seminário Internacional de Valorização e Desenvolvimento

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Profissional: ‘Archinexos – Nexos e Fluxos em Arquitetura e Urbanismo’ dedicou quatro dias (28/11 a 01/12) à discussão de temas importantes como a qualidade dos serviços públicos e os novos arranjos profissionais, entre outros, numa empreitada conjunta com o CAU/BR.


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Regionais

I BAURU

I PRESIDENTE PRUDENTE

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regional de Bauru no último quadrimestre teve um intenso trabalho de fiscalização. Os agentes notificaram obras, empresas e ainda participaram de reuniões para conscientização de síndicos de condomínios sobre as atividades profissionais e responsabilidades. O escritório realizou também 40 novos cadastros biométricos, bem como as atividades regulares de atendimento.

residente Prudente recebeu o projeto “CAU na Cidade” na semana do dia 08/10. Com mais de 200 profissionais presentes, foram promovidos seminários, oficinas de capacitação e atividades para valorizar a profissão. O escritório ainda realizou coleta biométrica de 50 profissionais, e os agentes de fiscalização notificaram obras e empresas. Também participaram de reuniões para conscientização de síndicos de condomínios sobre as atividades profissionais e responsabilidades.

I CAMPINAS

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ando continuidade ao “CAU na Cidade”, Campinas recebeu o evento entre os dias 29 e 31 de outubro. A programação foi dedicada ao aprimoramento profissional nas áreas de acessibilidade, ATHIS, patrimônio e tecnologia. O gerente Victor Chinaglia ressaltou que, no mesmo período, membros de universidades, movimentos sociais, autarquias e profissionais da região formaram uma comissão em prol do patrimônio arquitetônico de Campinas, promovendo atividades culturais para unir atores sociais em defesa da cidade, de sua memória e de seu potencial tecno-científico.

I RIBEIRÃO PRETO

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regional Ribeirão Preto acompanhou as audiências públicas promovidas pela Secretaria de Planejamento sobre os temas de parcelamento, uso e ocupação do solo, código de posturas e a habitação de interesse social (HIS), que segundo o subgerente Éder Silva, é uma das principais demandas dos arquitetos na cidade. Foram realizadas também ações concentradas de fiscalização voltadas para orientação de síndicos e fiscalização de obras em condomínios.

I MOGI DAS CRUZES

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m Mogi das Cruzes, a coordenadora Jane Marta da Silva destacou frutos vindos do projeto "CAU na Cidade", realizado em agosto, como o trabalho em conjunto com o Condemat para cadastramento do Patrimônio Material e Imaterial de toda região do Alto Tietê. Além das atividades regulares de atendimento, biometria e fiscalização, foram lançadas duas novas ações, o atendimento via “WhatsApp”, trazendo mais agilidade e praticidade ao profissional, e a segunda palestra “Tira Dúvidas Usucapião”, que orienta e esclarece esta atividade junto aos cartórios.

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I SANTOS

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projeto “CAU na Cidade” em Santos ocorreu entre os dias 18 e 20 de setembro. Representantes da prefeitura, da câmara de vereadores, AEAS e SASP estiveram presentes. A discussão sobre o patrimônio histórico foi o principal destaque. Nos debates, profissionais questionaram estratégias utilizadas para tombamento de prédios e conjuntos arquitetônicos históricos em outras cidades. Temas como empreendedorismo, BIM, mobilidade, acessibilidade também fizeram parte da programação, assim como oficinas de ATHIS.

I SÃO JOSÉ DO RIO PRETO

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o último quadrimestre, o gerente da regional de São José do Rio Preto, Kedson Barbero, participou da Terceira Audiência Pública da Revisão do Plano Diretor de Votuporanga e com o Conselho Municipal do Plano Diretor de São José do Rio Preto para discutir o aperfeiçoamento das novas diretrizes do Plano. A regional ainda promoveu visitas técnicas em Prefeituras da região para dar orientações e tirar dúvidas junto aos profissionais e órgãos públicos.

I SOROCABA I SANTO ANDRÉ (ABC)

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regional do ABC, sob gerência de Felipe Oliveira, participou de reuniões com o Departamento de Obras da Prefeitura de São Bernardo do Campo para instruções e cooperação no período de regularização fundiária em curso. E para dar sequência às questões levantadas no “CAU na Cidade”, realizado em agosto, foram criados grupos entre os profissionais da região, com representantes da área do patrimônio, associações e instituições de ensino.

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m Sorocaba, o gerente Eduardo Gatti participou de seminário da cadeia da construção civil em que respondeu a perguntas em relação à Arquitetura; também compareceu a reuniões com secretarias de obras e planejamento de várias cidades, propondo maneiras de desburocratização de processos de aprovação de projetos. Além disso, o escritório também manteve suas atividades regulares, tirando dúvidas sobre preenchimento de RRT, registro de pessoa física e de empresas, e sobre atividades inerentes ao exercício profissional.

I SÃO JOSÉ DOS CAMPOS

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projeto “CAU na Cidade” em São José dos Campos contou com a presença de representantes do poder público, entidades e sociedade civil. Ao longo do evento, profissionais e a população participaram de palestras, oficinas e workshops voltados para a atuação profissional e o papel social da Arquitetura. O gerente Paulo André Ribeiro enfatizou a importância do evento para conscientização da população sobre a importância do profissional na melhora na qualidade de vida nas cidades.

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CURTAS DO CEAU

I AsBEA

Ano produtivo

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ano de 2019 trouxe muitas novidades para a AsBEA. Dentre elas, a criação da AsBEA SP com uma nova gestão presidida pelo arquiteto Henrique Mélega Re e uma nova Diretoria. Esta nova gestão tem como missão se comunicar mais com os associados e o mercado. No planejamento para a gestão do biênio de 2019-2021, além da promoção de seminários, palestras e happy hours, uma das metas mais importantes é a expansão da Associação para todo o estado de São Paulo. Como primeira ação neste sentido, foi promovido o 1º Happy Hour, em Campinas, no dia 07 de novembro deste ano. Ele aconteceu na Portobello Shop de Campinas e contou com a presença de diversos escritórios da região. Arqta. Pierina Piemonte, Vice-Presidente de Comunicação da AsBEA-SP

I IABsp

Sob um novo olhar

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ara reconhecer relevantes contribuições à arquitetura e ao urbanismo, e ao mesmo tempo desestimular a competição interna à classe de profissionais, neste ano o júri da Premiação IABsp 2019 não escolheu vencedores. Em vez disso, foram destacadas até cinco obras de caráter referencial para o enfrentamento de problemas contemporâneos em cada uma das 17 categorias: edificações (7 categorias), urbanismo (2 categorias), ativismo urbano, arquitetura efêmera, materialidades (2 categorias), publicação, fotografia, plataformas tecnológicas, estudantes. O resultado, divulgado em 29 de novembro, pode ser conhecido no site do instituto: www.iabsp.org.br.

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I SASP

O SASP diante de um novo tempo

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SASP inaugura o próximo ano sob a gestão da chapa “Novos Tempos”, que assume o desafio de se readequar diante de um momento de profundas transformações, mantendo o seu legado de quase 50 anos de luta. Dentro do plano de ações para a nova gestão estão previstas ações voltadas para a sua sustentabilidade, garantindo o atendimento ao setor público bem como o universo autônomo, a qualificação para a classe de trabalhadores e universitários e a recuperação de sua memória. No novo tempo que se apresenta, o SASP convida a todas arquitetas e arquitetos, movimentos e sociedade civil, a fazer parte de sua história.


I ABAP

Premiação e Diálogos

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o dia 30 de novembro, em São Paulo, a ABAP premiou os vencedores da terceira edição do Prêmio Rosa Kliass. Organizada pela ABAP, a premiação é um concurso universitário nacional de paisagismo que avalia anualmente trabalhos finais de graduação nas áreas de Arquitetura da Paisagem em todo o país. A partir de uma divisão em cinco regiões, são escolhidos por júri específico os melhores trabalhos do ano anterior, sendo um vencedor para cada região. Neste ano, a premiação ocorreu durante o evento “Diálogos de Arquitetura e

Urbanismo”, organizado pelo CEAU-SP, com apoio do CAU/SP, que contou, no dia 30 de novembro, com palestras de Eduardo Barra, ex-presidente da ABAP, e Ana Góes Monteiro, da ABEA; e também com um debate composto por membros do júri do Prêmio. O objetivo foi promover um diálogo acerca dos trabalhos finais que versam sobre essa especial qualidade de projeto relacionado à Paisagem em seus diversos perfis: as dificuldades, metodologias, desafios e conquistas.

I ABEA

ABEA elege nova diretoria para o biênio 2020/2021

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arquiteta e urbanista Ana Maria Reis de Goes Monteiro é a nova presidente da Associação Brasileira de Ensino de Arquitetura e Urbanismo (ABEA). A professora da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Unicamp foi eleita no dia 14/11 durante a realização do XXXVII ENSEA e do XX CONABEA. A nova diretoria acredita que o momento é de fortalecimento da ABEA e das suas

interfaces com o CAU, IAB, e demais associações, entidades e sindicatos de arquitetos e urbanistas. Fazem parte da pauta a capacitação de docentes e coordenadores de curso, a promoção do debate sobre o ensino a distância, a implantação da extensão, a acreditação de cursos, a ATHIS (assistência técnica) entre outros temas. Outubro l Novembro l Dezembro 2019

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Arquitetura Paulista

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Casa dos Padres Claretianos

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ocalizada na cidade de Batatais (357 km ao Norte de São Paulo), a residência dos padres claretianos foi projetada entre 1981/82 pelos arquitetos Affonso Risi e José Mario Nogueira e concluída em 1984. “O projeto foi pensado com o uso exaustivo das possibilidades do tijolo (paredes, estrutura, tetos), facilitando condições para uma participação criativa dos operários no canteiro de obras e revisitando velhas técnicas construtivas em busca de novos espaços”, afirma Risi. Como nos antigos conventos, a construção se organiza ao redor de um jardim central quadrado, com uma galeria – claustro – para onde se abrem os diversos espaços. Dois lados contêm os dormitórios, abóbadas parabólicas de tijolo levantadas sem nenhuma fôrma ou cimbramento. Articulando esses dois lados estão a estrutura com as placas coletoras de energia solar e a torre de água. Na cobertura do claustro foi utilizada uma técnica já quase esquecida: a construção de lajes planas feitas com tijolos de barro. Na galeria da entrada esse teto se apoia em generosos arcos e se abre para a luz através de vários rasgos zenitais circulares.

*Informamos que o projeto da “Casa da Pedra” (1952), publicado na edição #18 da revista Móbile, é de autoria do arquiteto e urbanista Henrique Cristofani, que integrava a equipe do escritório de Gregori Warchavchik.

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ParabolStudio/Shutterstock

Em debate

Cidades mais quentes

O conforto ambiental, principalmente nos centros urbanos, tem sido cada vez mais afetado pelos efeitos do aquecimento global

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m dos novos desafios da Arquitetura e Urbanismo é como amenizar os efeitos das mudanças climáticas em curso, que têm afetado cada vez mais a qualidade de vida das pessoas, principalmente nas grandes cidades. As arquitetas e urbanistas Denise Duarte e Daniela Werneck fazem uma análise de como o país vem enfrentando essa questão e quais as principais estratégias de adaptação devem e precisam ser tomadas.


Breve contribuição sobre mudanças climáticas locais: o papel das cidades Arquivo pessoal

Por Daniela Werneck*

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Brasil assumiu um compromisso voluntário de reduzir as emissões de gases do efeito estufa, como parte da Política Nacional sobre Mudança do Clima, mas ainda faltam medidas de adaptação e mitigação para as áreas urbanas. Espera-se que a população urbana mundial até 2050 representará o dobro da atual, segundo estimativa da Nova Agenda Urbana-Habitat III, apontando o quão transformador será o processo de urbanização no século XXI. Nesse sentido, cidades são vulneráveis às mudanças climáticas pois nelas se concentram a população, infraestruturas e diversas atividades humanas. A ilha de calor urbana (ICU) é um exemplo característico do clima urbano que demanda ações de adaptação em cidades que convivem com o problema. ICUs ocorrem devido às alterações no balanço de energia nas camadas de cobertura e limite urbanas, proporcionadas pelo aumento de absorção de radiação de ondas curtas, menor perda de radiação de ondas longas, aumento do calor sensível, diminuição da evapotranspiração e diminuição do transporte de calor turbulento. Um elemento crucial é que as superfícies urbanas são, em grande parte, artificiais, impermeáveis e com alta capacidade de absorver calor e estocar energia. As ações de adaptação dependem de um entendimento de informações climáticas compatíveis com a escala da cidade, com o microclima e também informações socioeconômicas. As estratégias de adaptação mais estudadas incluem ventilação urbana, vegetação e alteração dos materiais de recobrimento do solo visando a melhorar o conforto dos pedestres e reduzir a demanda energética dos edifícios. O desempenho térmico dos materiais de construção é determinado por suas características

As ações de adaptação dependem de um entendimento de informações climáticas compatíveis com a escala da cidade, com o microclima e também informações socioeconômicas" térmicas e óticas: o albedo e a emitância de radiação de ondas longas são as mais significativas. Los Angeles, por exemplo, possui um projeto piloto com aplicação dos chamados materiais frios (termo traduzido do inglês - cool materials) que se caracterizam por alta refletância para radiação de ondas curtas e alta emitância para radiação de ondas longas. Nesse sentido, muitas propostas se voltam para a redução de ganhos térmicos nas edificações e no ambiente urbano, Outubro l Novembro l Dezembro 2019

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Em debate mudanças climáticas

em particular para a redução da absorção da radiação solar em busca de um balanço energético positivo e moderação da temperatura. Reitera-se que cada cidade precisa de estudos individualizados para suas demandas e contexto climático.

* Daniela Werneck, arquiteta e urbanista, é pesquisadora do Laboratório de Sustentabilidade Aplicada à Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília.

Oásis urbanos: o papel da Arquitetura e Urbanismo na adaptação ao aquecimento nas cidades Por Denise Helena Silva Duarte*

Arquivo pessoal

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m 2018, 55% da população mundial já vivia em cidades, proporção que deve aumentar para 68% em 2050. No Brasil, atingimos 84% de população urbana já em 2010. Em paralelo, além das mudanças climáticas globais em curso, com o aumento da frequência e da intensidade das ondas de calor, diferentes fenômenos de aquecimento urbano aumentam o desconforto, o stress térmico, a mortalidade e a demanda por energia. Em São Paulo, a 4a maior aglomeração urbana do mundo, dados climáti-

cos medidos revelam um padrão claro de aquecimento; desde o início das medições em 1933, houve um aumento de cerca de 3oC na média anual da temperatura do ar. Em áreas urbanas, os padrões de uso e ocupação do solo e as emissões de calor antropogênico podem ser mais impactantes nas tendências de aquecimento local do que as emissões de gases de efeito estufa. Para além das estratégias de mitigação, o cenário de mudanças climáticas e recorrentes eventos extremos


evidenciam a necessidade da adoção de medidas de adaptação em áreas urbanas. De início, o desafio é equacionar o adensamento necessário em lugar da expansão urbana, por uma série de razões, lado a lado com amenidades climáticas na escala urbana e dos edifícios, incluindo as questões de ventilação urbana, acesso ao sol e à luz natural, eficiência energética, mobilidade e serviços ecossistêmicos urbanos, com o objetivo de se alcançar um ecossistema urbano mais equilibrado diante dos desafios do clima atual e futuro. Dentre as medidas de adaptação, torna-se crucial a criação de oásis urbanos (cooling places), como locais de amenidade climática em espaços abertos, em espaços de transição e em edifícios, distribuídos pela cidade, que possam oferecer um refúgio durante os períodos extremos de calor. Na escala urbana, as infraestruturas verde e azul são estratégias fundamentais para a regulação do clima na microescala e para a economia de energia, principalmente pelo sombreamento e pela evapotranspiração proporcionados pela vegetação arbórea, aliada à necessária disponibilidade de água no solo. O sombreamento em diferentes graus nos espaços abertos, por elementos arquitetônicos e paisagísticos, lado a lado com o adequado tratamento das superfícies, são igualmente importantes para o balanço de energia nas áreas urbanas. Juntos, esses elementos fazem toda a diferença, apoiando as estratégias de mobilidade ativa e o uso dos espaços abertos.

O aquecimento global e local também influencia o desempenho térmico dos edifícios. O setor está ganhando expressão no consumo de energia no Brasil e no mundo, de modo que pode responder por parcela significativa das emissões de carbono, dependendo da matriz energética. Edifícios selados, totalmente dependentes de condicionamento artificial para a sua operação, ou mesmo com aberturas operáveis, mas incapazes de manter condições de habitabilidade de forma passiva, não contribuem para a adaptação ao aquecimento urbano, seja pela liberação de calor antropogênico para o meio exterior, proveniente dos sistemas de ar condicionado, seja pela manutenção de padrões de conforto térmico incompatíveis com a necessária adaptação por parte dos seus usuários. No setor residencial, o consumo de energia elétrica para condicionamento de ar no Brasil mais do que triplicou nos últimos 12 anos, por questões climáticas e arquitetônicas. Uma vez instalados, os equipamentos de ar condicionado serão utilizados sempre que houver eventos de calor extremo, o que significa que dificilmente os padrões de consumo voltarão a ser o que eram anteriormente. Nesse cenário, a urbanização é mais um desafio ambiental, particularmente para a mudança do clima, e os desafios serão amplificados se não forem gerenciados adequadamente; por outro lado, a urbanização sem precedentes pode significar uma oportunidade para ações de mitigação e adaptação alinhadas aos

Na escala urbana, as infraestruturas verde e azul são estratégias fundamentais para a regulação do clima na microescala e para a economia de energia"

objetivos do desenvolvimento sustentável, em uma janela de tempo que se fecha nas próximas décadas. * Denise Helena Silva Duarte, arquiteta e urbanista, é Professora Titular FAUUSP. Professora visitante do Erasmus Mundus Joint Master´s Degree on Urban Climate and Sustainability – MurCS (EU). Atualmente coordena o projeto ‘Adaptação das cidades à mudança do clima na microescala’ (CNPq). Em 2019 concluiu o projeto ‘O papel do planejamento, do desenho urbano e do projeto de edifícios na adaptação à mudança do clima na microescala. Contribuições a uma abordagem interdisciplinar’, no Programa Fapesp de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG/FAPESP).

Outubro l Novembro l Dezembro 2019

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Bate-Papo

Marcos Boldarini Construindo o espaço público

Imagens: https://concursosdeprojeto.org/ - sede do IAB/DF e CAU/BR - projeto do escritório São Paulo Arquitetos

Arquivo pessoal

A Para o arquiteto Marcos Boldarini, projetos de urbanização em áreas carentes permitem intervir onde a vida acontece, aliando uma visão de futuro a uma ação transformadora

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ntes de concluir a graduação em Arquitetura e Urbanismo, o paulistano Marcos Boldarini já se dedicava a projetos de habitação de interesse social. “Na época, final dos anos 90, eu era estagiário na empresa que fazia o gerenciamento dos projetos de urbanização de favelas em manancial do Programa Guarapiranga para a Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo”, ele relembra. “Eu integrava a equipe coordenada pela arquiteta Marta Lagreca, sob supervisão da Elisabete França. Esse primeiro contato foi importante para o início das atividades do escritório quando eu e mais dois sócios decidimos fundar, no ano 2000, nosso próprio escritório de Arquitetura.” Foi assim, um pouco por acaso, mas principalmente por escolha, que Boldarini tornou-se uma referência em projetos de interesse social. Na entrevista a seguir, ele fala sobre os caminhos que vem trilhando ao longo de duas décadas de atuação profissional,

analisa os desafios enfrentados e explica, com entusiasmo, os projetos que estão em andamento – um deles é o Cantinho do Céu, nas margens da represa Billings, extremo sul da cidade de São Paulo, que vem mudando a realidade de 10.000 famílias instaladas em uma área de quase 1.500.000 m². No final da graduação, o senhor estagiava em um projeto de urbanização de favelas na região de Guarapiranga. E depois de formado, quais foram seus primeiros passos? Nos anos 2000, eu, Eulalia Portela e Ronaldo Pezzo abrimos um escritório de Arquitetura. Com o tempo, por razões particulares, cada qual fez seu próprio caminho, e desde 2010 eu e o Lucas Nobre estamos à frente do Boldarini Arquitetos Associados. Grande parte da nossa produção gira em torno de projetos públicos, mas não exclusivamente. Nós temos também um conjunto de proje-


Daniel Ducci

Vista Parque, em São Bernardo do Campo/SP

Residencial Alexandre Mackenzie, bairro Jaguaré, em São Paulo, SP Outubro l Novembro l Dezembro 2019

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Leonardo Finotti

Bate-Papo Marcos Boldarini

Daniel Ducci

Œ Comprida (SP); São Bernardo do Campo (SP), Suzano (SP), Salvador (BA), Cuiabá (MT), Petrolina (PE), dentre outras localidades.

 tos particulares nas mais diversas escalas e temas. Qual é o caminho para ingressar nesse universo dos projetos públicos? As diretrizes para participação em projetos públicos são estabelecidas pela Lei No 8.666/93, conhecida como “Lei das Licitações”. Em geral, desenvolvemos nossos trabalhos junto às empresas responsáveis pelos contratos de projeto, gerenciamento ou obras já firmados com as prefeituras. Há, ainda, uma ou outra oportunidade de desenvolver projetos públicos, que é por meio da

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participação em concursos de projeto, mas participamos pouco dessa modalidade. Por quê? Porque nos concentramos em dar andamento aos trabalhos que o escritório vem desenvolvendo. E, que para elaborar propostas para os concursos, muitas vezes, é necessário organizar uma estrutura paralela, o que nem sempre vale a pena. Seu escritório participa exclusivamente de projetos e licitações em São Paulo? Não. Nós já desenvolvemos projetos para cidades como Ilha

Por que os projetos de reurbanização costumam ser tão demorados? O processo de elaboração de um projeto de urbanização passa por várias etapas. Diversas instâncias do poder público são envolvidas no processo. Muitas vezes, os projetos iniciais são feitos pelos técnicos das administrações municipais, que em seguida abrem uma licitação para o detalhamento ou para a concepção do projeto. É nesta etapa que se abre espaço para que um escritório de arquitetura como o nosso possa atuar. Ou seja, o momento de formulação e concepção da política de habitação (programas, recursos, gestão) cabe ao poder público, e nós entramos na aplicação da política. Este é um ponto que deve ser ressaltado, porque não se faz um projeto para a cidade ou para um grande número de famílias simplesmente a partir dos seus


Daniel Ducci

Œ Urbanização Integrada Silvina Audi em São Bernardo do Campo/SP

 Residencial

Corruíras, no Jabaquara, São Paulo/SP

Ž Favela Nova

Ž

desejos ou das suas questões particulares, e sim, a partir das diretrizes estabelecidas na política pública. Mas o arquiteto contribui para a formulação do projeto, certo? Sim, existem contribuições importantes que cabem a nós, arquitetos e urbanistas. O desenho do espaço urbano que pressupõe a transformação dos lugares é fundamental, mas ele deve tangenciar as diretrizes colocadas pelo promotor do projeto, ou seja, pela Prefeitura, Estado ou União. Esses trabalhos são muito complexos. A arquitetura, o urbanismo e o paisagismo não atuam isoladamente, nós precisamos do serviço social como suporte, das engenharias; precisamos lidar com outras disciplinas e com outros parceiros, para que, de maneira interdisciplinar, a gente consiga fazer o trabalho nessas áreas. Sob o ponto de vista metodológico, a escala e a complexidade de temas, como a melhoria de um bairro ou a construção de 500 habitações, inserem outros componentes que não se resumem ao olhar do arquiteto. Há contextos em que

Jaguaré, em São Paulo/SP

você vai lidar com 2.000 famílias, numa área ambientalmente sensível, com questões sociais etc. Apesar da importância da contribuição da arquitetura e do urbanismo, ela é uma disciplina dentro de um contexto muito mais amplo e desafiador. O senhor mencionou a possibilidade de não prestar serviço diretamente ao poder público, e sim, para o escritório contratado. Como se dá esse trabalho? Imagine uma cidade como São Paulo, com aproximadamente 1.600 favelas e onde 30% da população vive sob algum tipo de vulnerabilidade. Em termos de políticas públicas, esse cenário é dramático. O que o poder público faz? Contrata empresas, que desenvolvem e gerenciam esses projetos. Esse escopo abre um leque de possibilidades para que subcontratações e contribuições de outros parceiros aconteçam. Então, ao longo do tempo, temos buscado entender, dentro da lógica de como esses trabalhos acontecem nas diversas escalas (município, estado e governo federal) as possibilidades de encaixar o escritório em parte

de um trabalho. Somos um escritório pequeno, e isso nos dá oportunidade de participar de parcelas de trabalho; além disso, existe um reconhecimento pelos trabalhos que fizemos. Desse modo, entramos em subcontratação ou em contratação direta. É uma cadeia de oportunidades muito semelhante ao que acontece com os trabalhos particulares. A questão, eu acho, é compreender como que essas coisas estão organizadas, e quais são os espaços e as oportunidades que temos. Fale um pouco sobre os desafios mais recorrentes em projetos de reurbanização. Os contextos eleitos para atuação são definidos em função de prioridades estabelecidas pelo agente promotor da política – por exemplo, a Prefeitura. Geralmente, quando a gente chega para realizar o projeto, encontramos ocupações em áreas em situação de risco, sobre córregos, rios e/ou nascente, construções precárias com pouca iluminação e ventilação precária, sem infraestrutura de saneamento etc. Ou seja, não encontramos uma organização espacial com ruas, quadras, lotes. E as pessoas são aquelas que não conseguiram acessar o mercado formal de habitação e precisaram buscar alternativas. Geralmente, essas porções da cidade enfrentam questões que estão aquém da condição normativa, de um padrão de urbanidade mínimo desejado, e não apresentam infraestrutura mínima para que se tenha uma dignidade como cidadão. Nesse contexto, a gente Outubro l Novembro l Dezembro 2019

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Bate-Papo Marcos Boldarini

exemplo, ou à perda material. Nós vamos elencando prioridades e o projeto vai se estruturando a partir de uma visão de transformação, entendendo que esse lugar precisa ser parte da cidade, integrado e constituído como bairro. Mas as soluções de projeto não são necessariamente as mesmas que a gente vai encontrar em grande parte da cidade, e aí a parte criativa é muito interessante, porque eu preciso lidar com dispositivos e soluções de projeto que se adequem à essa condição inicial.

Quais questões costumam ser mais urgentes em projetos dessa natureza? Existem questões que se colocam como prementes e necessárias, como eliminar situações em que as pessoas possam estar expostas ao risco de morte, por

Então o projeto dá uma visão de futuro? Exato. Quando se faz um projeto de reurbanização, você pressupõe cenários. Quanto maior o número de moradias, por exemplo, maior é a necessidade de infraestrutura, o que

vai exigir soluções mais rápidas para possibilitar a implantação de serviços e infraestrutura urbana como pavimentação das ruas, drenagem, saneamento básico, etc. Nós fazemos, basicamente, uma leitura técnica, que permite detectar problemas e oportunidades, porque cada lugar tem suas questões, seus largos, suas praças, suas redes estruturadas. Enfim, é onde a vida daquelas famílias acontece. Os estudos preliminares permitem que o poder público e os moradores vislumbrem os possíveis caminhos e optem por um deles. É uma lógica que nos parece adequada. A grande questão nos projetos de reurbanização é que lidamos com uma lógica de construção de cidade distinta da do processo formal, onde eu pego a terra “virgem”, parcelo, faço a infraestrutura, as quadras, os lotes, e só Fabio Knoll

lança um olhar amplo, primeiro entendendo a lógica que esses lugares têm dentro da cidade, porque ora estão próximos a sistemas viários importantes, ora estabelecidos em áreas de mananciais. Então, você vai ter sempre um conjunto de questões diretamente relacionadas ao lugar em que eles estão inseridos. O projeto deve, assim, lançar um olhar em relação ao que é possível delinear para o futuro, a partir do reconhecimento das famílias moradoras, com suas condições de vida e peculiaridades.

Apesar da importância da contribuição da Arquitetura e do Urbanismo, ela é uma disciplina dentro de um contexto muito mais amplo e desafiador" Œ

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Daniel Ducci

Œ Vista aérea do Cantinho do Céu em São Paulo  Urbanização do Complexo Cantinho do Céu

 depois dessas etapas, consolido as edificações. Na favela não, lá nós temos que lidar com as edificações sem qualquer processo anterior de organização. A partir desse conjunto constituído, nós começamos a identificar os caminhos para implantação da infraestrutura, abertura de espaços públicos. A urbanização busca não apenas melhorar as condições urbanísticas como também possibilitar, mesmo que lá na frente, o reconhecimento da posse em prol das famílias instaladas e que as mesmas venham a efetuar o registro em cartório de suas moradias. Teve algum projeto que você considerou o mais desafiador? Acho que o escritório desenvolveu alguns projetos importantes que contribuíram para qualificação do debate acerca da importância do projeto público com qualidade. Tivemos algumas experiências que merecem ser mencionadas como a produção de habitação de interesse social para a Favela Nova Jaguaré e o Residencial Corruíras no âmbito da Operação Urbana Consorciada Águas Espraiadas, os projetos de urbanização para os assentamentos Silvina Audi e Areião

em São Bernardo do Campo e o projeto de maior repercussão até o momento que é a urbanização do Cantinho do Céu, reconhecido com inúmeros prêmios. O que o Cantinho do Céu tem de tão diferente? Foi um trabalho desenvolvido a partir de um convite da Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo, em uma área de 1.500.000 m² e 10.000 famílias. Tudo começou quando o Ministério Público pediu, na Justiça, a reintegração de posse daquela área. Para onde aquelas pessoas seriam transferidas? Ao mesmo tempo, existia, de fato, um problema: as famílias ocupavam as margens da represa Billings, um dos maiores e mais importantes reservatórios de água da Região Metropolitana de São Paulo. Diante dessa questão, a Prefeitura, a SABESP e o Ministério Público buscaram uma solução de consenso que se traduziu no projeto básico licitado. O desafio consistia em manter essas famílias e ter o ganho ambiental necessário. O resultado, hoje, é o de um espaço altamente qualificado em uma região muito singular. Vias pavimentadas, boas condições de acesso, equipa-

mentos de lazer e um parque à beira da represa são elementos presentes nessa reurbanização, que começou em 2008 e ainda não foi completamente terminada. Buscamos um desenho cuidadoso, que explora todas as nuances, esquinas, pequenos largos e praças, sempre entendendo que isso faz parte de um planejamento maior, mas que tem escalas e feições muito particulares, como pequenas praças ao final das ruas, que se interligam com o parque. O próprio desenho da rua é diferenciado, para que o reconhecimento desse espaço como um lugar compartilhado seja mais evidente do que numa rua asfaltada, onde o carro se sobrepõe ao pedestre. Priorizamos o menor impacto social e o maior ganho ambiental possíveis, dentro das condições de orçamento que uma obra pública permite. Eu sou suspeito para falar, porque esse projeto é muito querido no escritório. Temos até deques de madeira, e uma ONG da região utiliza essa infraestrutura para qualificar moradores que queiram ser pilotos de barco, com certificação e tudo. Iniciativas como essa vão sustentar uma engrenagem de novas possibilidades que, temos absoluta certeza, vão repercutir positivamente no cotidiano das pessoas que vivem ali. Contribuir para transformar as vidas das pessoas é muito estimulante. É uma alegria, uma satisfação difícil de descrever. ¥ Outubro l Novembro l Dezembro 2019

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reportagem especial

Fiscalizar

para proteger Diante dos desafios impostos pela cultura da autoconstrução no país, é papel fundamental do Conselho de Arquitetura e Urbanismo promover a qualidade do exercício profissional

TEXTO ELABORADO COM A COLABORAÇÃO DO SETOR DE FISCALIZAÇÃO, DA COMISSÃO ORDINÁRIA DE FISCALIZAÇÃO E DO CONSELHO DIRETOR DO CAU/SP.

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reportagem especial

São Paulo e servir de apoio às equipes de atendimento e fiscalização.

Edifícios Norma e Ernani, na Vila Mariana, em São Paulo

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acúmulo de notícias sobre recorrentes dramas urbanos – desde o desabamento de edifícios, o colapso de vias públicas e até a queda de passarelas, muros e marquises –, denota a falta de manutenção e de conhecimento técnico e aponta para a necessidade de evitar novas tragédias. O Conselho de Arquitetura e Urbanismo é parte deste esforço para criar uma cultura de responsabilidade no país. "Infelizmente, ainda precisamos avançar no reconhecimento da importância do trabalho do arquiteto e urbanista”, afirma o presidente do CAU/SP, José Roberto Geraldine Junior. “Atuamos, portanto, para que nosso ofício seja valorizado, reconhecido e qualificado, a fim de evitar que casas, e mesmo cidades inteiras, sejam construídas desprezando a validade do conhecimento técnico, com os resultados dramáticos que temos visto cotidianamente na imprensa”. Neste cenário desafiador, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo, dentro de uma nova gestão e regimento interno, vem trabalhando para defender a sociedade por meio do combate ao exercício irregular e ilegal da profissão. Para isso, medidas de aperfeiçoamento no setor de fiscalização estão sendo tomadas como aumento dos recursos humanos, implantação de novos planos de ação, revisão dos procedimentos administrativos, criação de ferramentas de acompanhamento do setor e aquisição de veículos utilitários – que vão percorrer o Estado de

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O que o CAU/SP fiscaliza? O Conselho tem como função orientar, disciplinar e fiscalizar o exercício da profissão de Arquitetura e Urbanismo. A base deste trabalho é construída sobre a Lei Federal 12.380/10, que criou o CAU/BR e os demais CAU/UF, e que regulamenta o exercício profissional em território brasileiro. “Apesar de alguns projetos de lei temerários, que ameaçam as funções precípuas dos conselhos profissionais, o CAU segue empenhado no cumprimento de sua missão: fiscalizar o exercício profissional como forma de proteger a sociedade”, acrescenta o presidente do CAU/SP. Internamente, o ofício dos fiscais é regulado pela Resolução Nº22/2012, editada pelo CAU/BR. Art 2º “A fiscalização do exercício da Arquitetura e Urbanismo prevista nesta Resolução visa garantir à sociedade serviços de Arquitetura e Urbanismo de qualidade, com as condições de segurança e bem estar à altura de suas necessidades, a serem prestados por profissionais habilitados com a devida formação acadêmica e qualificação técnica, em conformidade com as disposições da legislação em vigor”. Uma combinação de rotina, diligências e verificação de denúncias define o fluxo de trabalho das equipes de fiscais, distribuídas pela capital e pelos dez escritórios descentralizados, localizados no interior.


Em continuidade aos esforços rotineiros, de maneira a tornar mais ágil e dinâmico o trabalho da fiscalização, foram estabelecidos novos planos de ação: “Síndico Consciente”, “Espaço Responsável”, ”Olho Vivo”, “Profissão Arquiteto” e “Município 100%”.

Desta forma, condomínios horizontais e verticais, estandes de feiras de negócios, sites com ofertas de serviços de Arquitetura e Urbanismo, editais que envolvem atribuições de arquitetos e urbanistas e demais atividades técnicas realizadas são fiscalizados. A contratação de pessoa ou empresa não habilitada ou sem o devido registro para a execução de serviços relacionados à Arquitetura e Urbanismo é ilegal e tem consequências também para o contratante nas esferas administrativa, civil e

criminal, bem como no que se refere à responsabilização no caso de acidentes ou problemas técnicos. As mudanças em curso Desde o ano passado, mudanças no regimento interno do CAU/SP catalisaram aperfeiçoamentos na forma de trabalho dos fiscais, aumentando a prioridade no atendimento às denúncias recebidas. Neste ano, até novembro, entre as demandas recebidas pelas equipes de fiscalização, 71% tiveram por origem denúncias de irregularidades.

Janeiro a Novembro de 2019

“Síndico Consciente” Nenhuma obra ou reforma pode ter início sem a autorização do síndico do condomínio e sem o devido RRT (Registro de Responsabilidade Técnica), conforme prevê a NBR 16.280 : 2015. Nos últimos anos, o CAU/SP tem buscado cada vez mais a parceria com os síndicos. Neste sentido, o projeto “Síndico Consciente” promove uma aproximação com síndicos e demais gestores privados de condomínios horizontais e verticais com o objetivo de coibir o exercício ilegal e irregular da profissão de arquiteto e urbanista. Esse trabalho teve início ainda em 2018 com reuniões de aproximação com algumas das mais importantes entidades de representação do setor como: Associação dos Síndicos de Condomínios Comerciais e Residenciais do Estado de São Paulo (ASSOSINDICOS), Sindicato dos Contabilistas de São Paulo (SINDICONT), Associação das Administradoras de Bens Imóveis e Condomínios de São Paulo (AABIC) e Academia Nacional de Síndicos. A partir das primeiras informações coletadas com essas entidades e associações, foi elaborado material orientativo, que será disponibilizado em breve nos canais de comunicação do Outubro l Novembro l Dezembro 2019

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reportagem especial

CAU/SP, bem como uma ferramenta de cadastro para os síndicos trocarem informações com o Conselho. A ideia é simples. Síndicos e administradores se cadastram gratuitamente no projeto, podendo tirar dúvidas quanto à documentação recebida em seus condomínios e, em troca, enviam informações sobre as obras em andamento. Isso permite a realização de ações de fiscalização mais focadas. Os profissionais podem auxiliar o Conselho neste trabalho, apresentando o projeto “Síndico Consciente” a gestores de condomínios e denunciando possíveis irregularidades.

A ação utiliza-se da fiscalização inteligente, por meio da realização de reuniões prévias de orientação com os responsáveis pelos eventos e entidades representativas do setor, a fim de garantir o acesso da fiscalização à documentação dos espaços a serem fiscalizados, trazendo maior celeridade ao processo e aumentando a capacidade fiscalizatória da equipe. Após essa orientação inicial, ocorre a fiscalização das feiras para verificação do cumprimento das resoluções sobre o exercício profissional. Neste ano, foram 684 stands fiscalizados em 9 dos mais relevantes eventos em São Paulo.

O endereço eletrônico para cadastro no projeto é: http://tiny.cc/ SindicoConscienteCAUSP

“Olho vivo” O Projeto tem o objetivo de identificar os profissionais que cometem infrações recorrentes, visando prestar a orientação necessária para mitigar as práticas em desacordo com a legislação e garantir que o mercado profissional não seja prejudicado por profissionais que atuam de forma irregular. “Analisando as estatísticas geradas, a partir de dados coletados no SICCAU relativos à emissão de RRT (Registro de Responsabilidade Técnica), busca-se possíveis indícios de irregularidades na

“Espaço Responsável” Considerando o grande número de eventos realizados no Estado de São Paulo que contam com o trabalho de arquitetos e urbanistas para o projeto e planejamento de estandes e demais equipamentos, foi desenvolvido o projeto “Espaço Responsável”. Ele tem como objetivo suprimir a ocorrência de atividade sem responsável técnico em eventos, mostras e feiras de estandes.

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prática do exercício profissional”, relata o Coordenador da Comissão de Fiscalização do CAU/SP, Carlos Alberto Pupo, a respeito do Projeto Olho Vivo. “Profissão Arquiteto” Foi através da participação da sociedade que nasceu o projeto “Profissão Arquiteto”, que tem como objetivo coibir o exercício ilegal da profissão, identificados pelo mapeamento das denúncias recebidas. Em visitas às universidades, o projeto apresenta a legislação e orienta os estudantes sobre as consequências do exercício ilegal durante a graduação. De acordo com a Comissão de Fiscalização, os resultados da iniciativa podem ser observados pelos elogios recebidos dos coordenadores de curso das 18 universidades visitadas, totalizando mais de 800 alunos orientados, e pelas pesquisas respondidas pelos mesmos. “Município 100%” Outro Projeto muito relevante para os profissionais é chamado de “Município 100%” e tem como objetivo orientar os gestores públicos municipais quanto a necessidade da contratação de profissional arquiteto

e urbanista para integrar o efetivo da administração em atendimento às exigências legais. Como metodologia de estudo prévio das informações, foi realizado pelos Assistentes Técnicos Administrativos da Fiscalização um levantamento da atuação de arquitetos e urbanistas e de outros profissionais de áreas que possuem atribuições compartilhadas, durante os meses de agosto e setembro de 2019, por meio dos Portais de Transparência dos 645 (seiscentos e quarenta e cinco) Municípios do Estado de São Paulo. Com a apresentação dos resultados dessa análise preliminar, foram destacados os Municípios que não possuíam o cargo de “Arquiteto” em seu quadro efetivo. Dos Municípios em destaque, foram selecionados os que, de acordo com o IBGE possuem uma população entre 20.000 (vinte mil) e 26.000 (vinte e seis mil) habitantes. Esse recorte foi feito devido à obrigatoriedade legal dos referidos Municípios possuírem um Plano Diretor, exigência constitucional. Outubro l Novembro l Dezembro 2019

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reportagem especial

A atuação em desabamentos e outros sinistros Enquanto buscava abrigo da chuva, um rapaz de 17 anos morreu atingido por uma marquise no bairro paulistano dos Jardins no início de novembro. Em tragédias como essa, é dever da equipe de fiscalização averiguar os responsáveis pela obra. "A Arquitetura e Urbanismo tem no seu DNA a preocupação com a segurança e o bem-estar dos usuários do espaço construído. Quando o fiscal do CAU/SP averigua um sinistro, ele atua para checar se o profissional envolvido cumpriu essa missão essencial da nossa profissão", diz o presidente do Conselho. Cópia do boletim de ocorrências, inquérito policial, laudo/vistoria da Defesa Civil, certidão de ocorrências do Corpo de Bombeiros, documentos de aprovação em órgãos municipais, estaduais e federais; RRTs ou ARTs, ordem de serviço ou contrato são alguns dos documentos que podem ser examinados para proceder à apuração dos fatos. Se o fiscal constata a participação de um arquiteto e urbanista como responsável técnico, o profissional pode ser notificado, caso se verifique alguma irregularidade nos registros necessários ao exercício profissional. Após as apurações iniciais da Fiscalização do Conselho, e constatado que podem ter ocorrido condutas ou atitudes do profissional que contribuíram para a ocorrência do sinistro, as informações e documentos relacionados são encaminhados à Comissão de Ética e Disciplina. Essa Comissão decide se há elementos para a

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abertura de um Processo Ético-disciplinar. Nos últimos anos, o CAU/SP aplicou diversas penalidades por infrações ao Código de Ética. A menor sanção é a Advertência Reservada, seguida pela Advertência Pública, a Suspensão Temporária do Registro para o exercício profissional e o Cancelamento do Registro. Essas sanções podem ser acompanhadas de multa pecuniária, conforme resolução específica do CAU/BR. Se houver a participação de profissional não vinculado a este conselho, é feita comunicação ao órgão responsável ou Ministério Público. “Os desabamentos são mais do que tragédias e notícias. São a prova do desconhecimento ou desinteresse dos envolvidos sobre suas reais responsabilidades diante da urgente necessidade de manutenção dos nossos edifícios e construções”, comenta a Coordenadora de Fiscalização do CAU/SP, Cecília Carrapatoso. “É por isso que buscamos aprimorar e realizar cada vez mais ações de orientação, para contribuir com a formação de um cidadão crítico e participativo, e com pleno conhecimento

de suas responsabilidades”, informa. Denúncia, uma forma de colaborar Para fiscalizar os mais de 600 municípios do Estado de São Paulo, o CAU/SP conta com a colaboração dos cidadãos e profissionais de Arquitetura e Urbanismo. É possível encaminhar uma suspeita de irregularidade diretamente ao Conselho por meio do site oficial (www. causp.gov.br). Na aba do menu intitulada “Fale conosco”, o interessado pode acessar um formulário para cadastrar uma denúncia. É importante fornecer uma descrição da atividade técnica suspeita, o denunciante pode ainda incluir imagens ou cópias de documentos que são fundamentais para o trabalho da fiscalização. A equipe, consequentemente, avalia a denúncia e solicita informações ou documentos adicionais, se necessário. Após a averiguação, o denunciante é informado sobre os encaminhamentos e ações realizadas pela equipe de fiscalização, sendo fundamental que forneça um meio de contato.


Outras instituições de apoio ao cidadão Existem situações em que o profissional ou cidadão sente a necessidade do apoio de instituições quando busca a proteção de seus direitos. O CAU/SP pode orientar, mas alguns destes casos fogem de seu escopo de atuação. A desobediência às leis municipais, como em casos de desrespeito às regras de constru-

ção e ocupação do solo, é uma situação em que a denúncia deve ser dirigida às autoridades locais: cabe às prefeituras a fiscalização dessas leis. E quando um edifício representa uma ameaça à vida, é um caso para a Defesa Civil do município. Consulte o enquadramento de sua demanda no FAQ disponível no site do CAU/SP ¥

Leis mais duras para obras e edificações Os desastres que ocorreram nos últimos anos deixaram como legado uma legislação e um corpo de normas cada vez mais exigentes na área de inspeção de prédios e demais edificações. Um marco foi a norma técnica NBR 16280:2015, que estabeleceu as regras para a realização de reformas, e definiu procedimentos a serem realizados antes, durante e depois das obras. Consta desta norma a obrigatoriedade da presença de um profissional habilitado, com o devido documento de Responsabilidade Técnica, de maneira a assegurar toda e qualquer obra. Ainda no campo da inspeção predial, a ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) está promovendo a revisão da Norma Técnica 16.747:20 – que conta com a colaboração de representantes do CAU.

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Concurso

Vale do Rio Jundiaí O

concurso de ideias para o Vale do Rio Jundiaí, organizado pela prefeitura da cidade com o Instituto de Arquitetos do Brasil, teve como objetivo buscar uma nova proposta de desenho para o local, que hoje é caracterizado pela presença de um sistema viário ao longo

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do seu traçado, impedindo a conexão principalmente com o entorno imediato. Sendo assim, os projetos deveriam promover soluções para sua integração com a vida do entorno imediato, considerando questões como mobilidade e meio ambiente.


1o lugar Equipe Marie Caroline Lartigue

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Concurso Vale do Rio JundiaĂ­

1o lugar 40


2o lugar Equipe Francisco Spadoni

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Concurso Vale do Rio Jundiaí

3o lugar Equipe Vinícius Kuboyama Nakama

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MençÃO Honrosa

Equipe Raphael Matta

Equipe Marcelo Ferreira da Silva Salla

Equipe Paula Duque Rangel

Equipe Thiago Vidal Pelkauskas

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Ensino

Novas perspectivas para a sala de aula

Arquivo pessoal

Eleitos pelo CAU/SP, cinco trabalhos de docentes de cursos de graduação se destacaram e foram contemplados com menção honrosa "Boas Práticas no Ensino e Formação em Arquitetura e Urbanismo"

Apresentação de modelos finais em evento da disciplina "Fundamentos de Projeto" (USP)

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P

or meio de edital lançado em agosto, o CAU/SP selecionou entre mais de uma dezena de propostas, as melhores práticas para divulgar e valorizar os trabalhos de docentes dos cursos de graduação em Arquitetura e Urbanismo do Estado de São Paulo. Em busca da identificação de iniciativas pedagógicas dentro dos cursos de Arquitetura e Urbanismo ministrados em faculdades paulistas, a Comissão de Ensino e Formação do CAU/SP publicou o chamamento a todos os docentes para a apresentação de trabalhos realizados em suas disciplinas que tenham demonstrado inovação, criatividade e boa receptividade discente.


Ivan Moretti

Das propostas apresentadas, cinco trabalhos foram destacados e receberam a menção honrosa “Boas Práticas no Ensino e Formação em Arquitetura e Urbanismo” durante o II Seminário Nacional sobre Ensino e Formação – SENASEF, realizado no dia 21 de novembro. “Fundamentos de projeto”, do docente Rafael Antonio Cunha Perrone (FAU-USP), reuniu disciplinas de diversas áreas, permitindo o aprendizado unificado em termos de conhecimentos sobre o conteúdo e as habilitações envolvidas em projeto. Em “Arquitetura Urbana a partir da matriz pública proposta”, de Lizete Maria Rubano e Antonio Fabiano Junior (Mackenzie), os alunos elaboraram hipóteses de projeto com base em critérios como escala, espaço e estrutura do desenho urbano identificadas no recorte territorial proposto. Para o projeto “Jogos para aprender Arquitetura”, o professor César Augusto Sartorelli (UNIP) propôs a aprendizagem a partir de jogos de tabuleiro como design de interação, permitindo a fixação de conteúdos e a transmissão de conhecimentos sobre história da Arquitetura. Intitulado “Inovação pedagógica para aprendizagem significativa através da associação da Análise de Perfil Comportamental (APC) à Aprendizagem baseada em Projetos (PBL)” , o projeto de Giovanna T. Novellini Brígitte (FACENS) estabeleceu que os métodos de ensino e aprendizagem devem voltar-se não apenas

Atividade da disciplina '"Bases para o projeto de edificações em madeira" (Unimep)

ao desenvolvimento e avaliação de competências técnicas, mas também às competências intrapessoais e interpessoais. E, finalmente, Mônica Duarte Aprilanti (UNIMEP) apresentou o projeto “Detalhes construtivos em madeira – Bases para o projeto de edificações em madeira”, em que os alunos exploraram a utilização da madeira como material construtivo e em suas aplicações para projetos arquitetônicos. A comissão científica, composta por membros da Comissão de Ensino e Formação do CAU/SP, avaliou os trabalhos com base nos critérios de interdisciplinaridade, inovação e criatividade, assim como os resultados obtidos e sua coerência com a proposta pedagógica. Para a participação havia a exigência da aplicação da prática em pelo menos duas turmas, com resultados positivos quanto ao aproveitamento da disciplina. “O resultado da seleção do 1º Boas Práticas no Ensino e Formação foi muito satisfatório, pois bons trabalhos foram apresentados e a seleção das menções

honrosas pautou-se na inovação e na forma de envolvimento da comunidade estudantil com a prática desenvolvida e seus resultados, de forma a garantir a metodologia ao longo de várias turmas.”, disse o Coordenador da Comissão de Ensino e Formação do CAU/SP (CEF-CAU/SP), José Antonio Lanchoti. “A ideia é que essas práticas possam contribuir para uma constante renovação no ensino e formação dos novos profissionais arquitetos e urbanistas”, completa. A CEF dará continuidade no projeto em 2020, destacando novas ideias e métodos que promovam as boas práticas no ensino e formação. Também está prevista a abertura de uma nova seleção que identifique boas práticas em extensão. Os cinco trabalhos selecionados em 2019 pela Comissão estão disponíveis a todos os interessados no site do CAU/SP. ¥

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one line man/ Shutterstock

EXERCÍCIO PROFISSIONAL E ÉTICA

Vale o que está escrito Vários processos éticos e judiciais surgem por disputas em torno da execução de um contrato; conhecer seus elementos básicos é um aprimoramento do exercício profissional

S

e a proposta comercial é uma carta de intenções ao cliente em vista, o contrato sela o início do relacionamento de trabalho. É um documento que oficializa o pacto entre as partes. Estabelece um vínculo jurídico e tem consequências ético-disciplinares para o profissional de Arquitetura e Urbanismo. Pelo menos 10% dos processos analisados pelas Comissões de Ética e Disciplina e de Exercício Profissional do CAU/SP têm origem em desentendimentos entre profissionais e clientes sobre os termos de um contrato. Advogados têm a atribuição profissional de redigir esta peça, mas o arquiteto e urbanista precisa entender seus elementos

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básicos: será ele a vítima de um texto mal elaborado.

Itens fundamentais O desenho do contrato incorpora os termos constantes na proposta comercial: a qualificação das partes, o objeto, o prazo, o valor, as condições de pagamento. Mas acrescenta itens fundamentais: as obrigações do contratante e do contratado, bem como ‘medidas preventivas’ –condições especiais que podem eximir o profissional de responsabilidade em situações que não dependem de sua vontade, tais como ‘dependência de terceiros’, a exemplo de atrasos na entrega do material --caso as compras sejam incumbência do

cliente--, anormalidades climáticas, entre outros casos. Se conveniente ou necessário, a proposta comercial pode ser parte integrante do contrato, se esta condição for incluída em uma cláusula previamente acordada entre as partes, demonstrando a importância deste documento (veja texto na revista Móbile#18).

A letra da lei A elaboração e o cumprimento de contratos estão sujeitos a aspectos legais específicos do direito. O Código Civil (lei 10.406/2002) traz uma série de artigos fundamentais no que diz respeito a temas importantes como: tipos e formação de contratos, extin-


(estas recomendações)

• É obrigatório que o contrato seja

• • •

• •

acompanhado do RRT correspondente, que terá função análoga ao certificado de garantia técnica; A peça deve incorporar as informações e condições apresentadas na proposta comercial e/ou acordadas com o cliente; Tudo que está escrito tem força de cláusula contratual; O contrato deve ser cumprido à risca pelo profissional arquiteto e urbanista, que jamais deve abandonar a atividade técnica sem justificativas e provas; A assinatura do contrato marca o início do trabalho; Prestar serviços sem o devido contrato sujeita o profissional à recusa de pagamento, suspensão injustificada e até ao uso indevido da concepção de projeto entre outros riscos.

Fonte: Comissão de Exercício Profissional do CAU/SP.

O que diz o Código de Ética

Acervo CAU/SP

Não assine antes de ler

Veja abaixo algumas das principais Regras do Código de Ética e Disciplina do CAU/BR quanto a elaboração e execução de um contrato. Lembrando: a emissão do RRT (Registro de Responsabilidade Técnica) não substitui o referido contrato.

Regra 3.2.4. O arquiteto e urbanista deve discriminar, nas propostas para contratação de seus serviços profissionais, as informações e especificações necessárias sobre sua natureza e extensão, de maneira a informar corretamente os contratantes sobre o objeto do serviço, resguardando-os contra estimativas de honorários inadequadas.

Regra 4.2.10. ção (distrato e outros casos), vícios no produto (Artigos 421 a 504); prestação de serviços e empreitadas (Artigos 593 a 626); e sobre responsabilidade civil e indenização (Artigos 927 a 954). Por fim, o Código de Defesa do Consumidor (Lei 8.078/90) é outro item indispensável de consulta para o arquiteto e urbanista.

Gratuito e regular Periodicamente, o CAU/SP, por iniciativa de sua Comissão de Exercício Profissional, oferece cursos rápidos sobre noções de escopo, propostas e contratos, tanto em sua sede na capital quanto no interior. A programação é divulgada com antecedência pelo site oficial e pelas redes sociais. ¥

O arquiteto e urbanista deve condicionar todo compromisso profissional à formulação e apresentação de proposta técnica que inclua com detalhe os produtos técnicos a serem produzidos, sua natureza e âmbito, as etapas e prazos, a remuneração proposta e sua forma de pagamento. A proposta deve ser objeto de contrato escrito entre o profissional e o seu contratante, o qual deve ter também em conta as demais disposições deste Código. Fonte: Comissão de Ética e Disciplina do CAU/SP.

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Vitor Garcia

acessibilidade

Sem rampa, calçada é muro Rodrigo Seixas e Alexandre Lage

Projeto chama a atenção da sociedade e do poder público para calçadas onde deveriam haver rampas Por Marco Paulo Ferreira

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a cidade de São Paulo, regiões como Barra Funda, Bela Vista, Campo Belo, Chácara Santo Antônio, Jaraguá, Lapa, Liberdade, Mooca, Pinheiros, Sumaré e Vila São Francisco, além de Embu das Artes, já foram alvo da ação “Sem rampa, calçada é muro”, idealizado pela agência de publicidade Z+. O objetivo do projeto é, pela intervenção de grafites em meios-fios, conscientizar a

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Billy Saga, presidente da ONG Movimento SuperAção

população e o poder público da necessidade de haver rampa em pontos próximos a faixas de pedestre, o que não acontece com efetividade. Para cadeirantes e deficientes físicos, a ausência de rampa nesses pontos torna o meio-fio um verdadeiro obstáculo, provocando um impacto enorme na qualidade de vida desses cidadãos.


Rodrigo Seixas e Alexandre Lage Genga Estúdio

No Brasil, de acordo com o último censo demográfico publicado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 2010, mais de 45 milhões de pessoas declararam ter pelo menos um tipo de deficiência. No entanto, pouco menos de 5% das calçadas do País possuem acessibilidade. Já na maior capital brasileira, onde há mais de 200 mil pessoas com algum tipo de deficiência ou mobilida-

de reduzida, 9% das calçadas têm rampas de acessibilidade. “Um minimuro, que para uma pessoa que não tem mobilidade reduzida ou alguma deficiência é tão simples de transpor, para um cadeirante é muito difícil. Tão complicado quanto uma barreira. Grafitando esses minimuros chamamos a atenção da sociedade para essa questão”, diz o rapper Billy Saga, que preside a ONG Movimento SuperAção,

convidado para ser o embaixador do projeto. Entre os grafiteiros que participam estão artistas como Apolo Torres, Bruno Mazola, Clara Leff, Chivitz, Dinas Miguel, Feik, Felipe Palacio, Ignoto, Mazola Marcnou, Minhau, Ojos Blancos, Tarik e Tito Ferrara. O publicitário Rodrigo Seixas, da Z+, explica que a única regra para a intervenção dos artistas é grafitar somente os pontos sem rampa que estejam próximos das faixas de pedestre, porque nesses locais a instalação de rampa é uma responsabilidade das prefeituras. “E o artista escolhe o que ele quer fazer, damos total liberdade. A intenção não é passar uma mensagem dentro do desenho. Colocar o desenho no meio-fio já é a nossa mensagem, independente de qual seja ele”, diz o publicitário. Desde que o projeto teve início, em abril deste ano, Seixas conta que pelo menos 46 meios-fios foram grafitados e que a iniciativa começou a se espalhar pelo país. Capitais como Salvador, Rio de Janeiro e Recife, por exemplo, já aderiram ao movimento. Para divulgar o projeto a ONG criou uma conta no Instagram (@calcadaemuro), com imagens de todos os grafites já produzidos. Segundo o publicitário, em pelo menos cinco pontos da capital paulista a ação dos artistas resultou na construção de rampas, como na esquina da Rua Gil Eanes com a Rua Pascal, no bairro Campo Belo. ¥

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especial

O papel do Conselho na busca pela moradia digna Arquivo pessoal

O CAU/SP prepara o lançamento do seu segundo edital para selecionar e apoiar projetos de Assistência Técnica em Habitação de Interesse Social (Athis)

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O CAU/SP apoiou projeto de capacitação em Athis pela organização "Banco do Povo". Durante o curso, os profissionais tiveram visitas técnicas a comunidades carentes no ABC e litoral paulista

Arquivo pessoal

ara disseminar a assistência técnica, os Conselhos de Arquitetura e Urbanismo do País destinam 2% do seu orçamento anual para projetos de promoção e capacitação nesta área. O CAU/SP vem praticando esse tipo de ação desde 2018, e os primeiros resultados deste trabalho começaram a materializar neste ano (confira os relatos nas páginas seguintes). Em agosto de 2019, foi lançado um novo edital pelo CAU/SP para se-

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lecionar os projetos que devem ser realizados até 2020. As propostas já foram selecionadas e estão na fase de homologação. E antecipando a chamada pública de 2020, o CAU/SP se prepara para lançar um novo edital destinado a suportar projetos de assistência técnica. A fase de consulta pública foi concluída, e até o fechamento desta edição da Revista Móbile, a comissão técnica responsável avaliava as sugestões enviadas. “A chamada pública reforça três importantes compromissos do CAU: promover a Arquitetura e Urbanismo como meio para resolver um problema social; criar oportunidades para ampliar o mercado de trabalho de arquitetos e urbanistas; e cumprir a lei de assistência técnica”, ressalta o presidente do CAU/SP, José Roberto Geraldine Junior.


Imagens: Arquivo pessoal

A favela mais antiga de São José dos Campos Uma das propostas contempladas pelo CAU/SP no ano passado foi o “Projeto Veracidade”, um plano popular de urbanização e regularização fundiária da comunidade Jardim Nova Esperança. Com área de 255.000 m² e população de 460 famílias (aproximadamente 1.800 pessoas), o Jardim Nova Esperança foi o primeiro núcleo de favela de São José dos Campos, instalada bem no centro da cidade. “O núcleo começou a se formar no início da década de 1930, devido ao grande afluxo de trabalhadores para a região que começava a se industrializar – e muito antes de a grande área do Banhado ser considerada Área de Preservação Ambiental (APP), o que só aconteceria em 1984”, conta Djalma Nery Ferreira Neto, representante legal do Projeto Veracidade. Ele comenta que, já há algum tempo, a Prefeitura se empenha em remover todos os habitantes do local, mas os moradores resistem: “Há famílias que vivem ali há várias gerações, cultivando a terra, trabalhando com a comunidade”, observa Ferreira Neto. Ele relata que, mediante o risco de remoção forçada da comunidade, foi elaborado um plano de reurbanização que traz soluções técnicas capazes de assegurar uma permanência livre de riscos tanto para as famílias quanto para a cidade. "E com boa qualidade de vida para os assentados”, destaca.

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Ž Lastreado pelo que diz a legislação e pelo conhecimento técnico de todos os atores envolvidos nessa megaparceria de reurbanização – dentre eles, o Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (campus de São Carlos) e a Universidade do Vale do Paraíba –, o Projeto Veracidade levou ao poder público

Œ Banco do Povo  Gaspar Garcia Ž Gaspar Garcia  MDM Capacitacao ATHIS  MDM Capacitacao ATHIS

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Arquivo pessoal

especial

Oficina gratuita para ensino de técnicas de implantação de viveiros urbanos, um dos projetos de Athis apoiado pelo CAU/SP, numa parceria com o Movimento Pelo Direito à Moradia (MDM)

Ao atuar em ATHIS, o arquiteto consolida a sua função social, além de seu papel como agente transformador

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um plano que efetivamente pode ser reconhecido como uma alternativa à remoção dos residentes. “As propostas apresentadas contemplam aspectos de tecnologia sustentável. Além disso, mostramos como efetivamente executar o que está sendo proposto”, afirma Ferreira Neto. “Para os moradores, a realização do projeto foi fundamental para fortalecer sua argumentação, na medida em que ele corrobora a narrativa de que a permanência naquele espaço é viável”, acrescenta. Como representante legal do projeto, Ferreira Neto assegura que o financiamento do CAU/SP foi “fundamental” para viabilizar o deslocamento dos estudantes

de graduação e pós-graduação de Arquitetura, uma vez que vários deles vivem em outras cidades. “Alugamos van, pagamos alimentação e pudemos bancar estudos técnicos, fotos com drones e toda documentação”, ele informa. “O resultado obtido até aqui é o de um trabalho rico em dados, que aborda as questões ambientais, de trabalho, da relação rural-urbano, dos conflitos fundiários e das novas possibilidades de uso e ocupação do solo”, prossegue. Ferreira Neto explica que o estudo realizado na comunidade “problematiza a importância da produção rural em área central e valoriza o aspecto regional da


Imagens: Arquivo pessoal

Atividades do "Projeto Veracidade", outra proposta de Athis apoiada pelo Conselho, e que teve por foco elaborar um plano de regularização fundiária para um das mais antigas favelas de São José dos Campos

várzea do Rio Paraíba, reposicionando o tema da água e reorganizando as relações de trabalho nos seus diferentes níveis, a partir de proposições de novos espaços que qualifiquem a área objeto de disputa entre a prefeitura e a comunidade.” O trabalho prevê reassentamentos na própria área e ações de assessoria técnica para as moradias precárias, tendo como horizonte um zoneamento ambiental bem feito – hoje, as famílias se queixam da falta de saneamento básico –, bem como a criação de um anel verde de parques urbanos, com requalificação urbana por meio da integração física e simbólica com a cidade.

Um fórum para discussão da assistência técnica Também com o apoio do CAU/SP, o Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos (CGGDH) organizou o “Fórum de Assistência Técnica e Extensão Universitária em Habitação de Interesse Social: Atuação Integrada no Espaço Urbano” , em maio deste ano, na capital.

Evento preparatório para o Congresso Mundial de Arquitetos UIA 2020 Rio, no eixo temático “Fragilidade e Desigualdade”, o Fórum teve o papel de destacar o papel das Escolas de Arquitetura e Urbanismo na produção do conhecimento teórico e na capacitação técnica dos estudantes, para garantir sua futura atuação profissional em ATHIS. “O evento reuniu pesquisadores, profissionais, estudantes, movimentos sociais de moradia e diversas entidades, para debater e organizar experiências concretas de profissionais e de extensão universitária ligados a ATHIS”, relata a arquiteta Débora Sanches, uma das organizadoras. “No mundo todo, mais de um bilhão de pessoas vivem em assentamentos informais existentes nos grandes centros urbanos”, comenta. “Um documento temático elaborado para o Habitat III, evento realizado em Quito no ano de 2016, revela que essa parcela do tecido urbano corresponde a moradias sem segurança de posse, localizadas em áreas com ocupações ilegais ou locação informal; bairros geralmente isolados dos serviços es-

senciais de saneamento básico, água potável, espaços públicos e áreas verdes; práticas excludentes que cooperaram para condições históricas de desigualdades econômicas e da segregação”, enumera. “Na busca por uma resposta para a pergunta ‘projetar para quem?’, acreditamos ser meritório e relevante destacar a atuação dos arquitetos e urbanistas organizados em ATHIS”, pondera a arquiteta. “Esses profissionais buscam consolidar a sua função social, além de seu papel como agente transformador, frente ao ambiente a ser construído ou na melhoria do ambiente consolidado das áreas informais das cidades”, salienta Débora. “A oportunidade de diálogo entre as entidades de ATHIS e os grupos de extensão universitária é valiosa para o estabelecimento de relações de troca entre alunos, professores, profissionais e a comunidade”, conclui.¥

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Arquitetura no mundo

Eladio Dieste e a

Arquitetura do tijolo POR Cláudio Camargo

Iglesia de Atlántida Cristo Obrero y Nuestra Señora de Lourdes, Atlántida

Principal referência da Arquitetura no Uruguai, Dieste também projetou espaços construídos no Brasil

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om pouco mais de três milhões de habitantes, o Uruguai sempre foi um país sui generis na região – tanto que, até os anos 1960, era conhecido como a “Suíça da América do Sul”. Não é para menos: o país aproveitou a prosperidade trazida pela exportação da carne no início do século 20 para

promover profundas reformas sociais e políticas. O Uruguai foi a primeira nação sul-americana a adotar um sistema de welfare state (bem-estar social) e a implantar a jornada de trabalho de oito horas (em1915). Em termos de liberdades civis, o Uruguai também foi exemplar: cioso do caráter efetivamente laico do Es-


Eladio Dieste, engenheiro e arquiteto uruguaio

tado, aprovou o divórcio em 1908 e legalizou o aborto em 1934. Nem o fato de ter vivido uma ditadura militar, como a maioria dos países sul-americanos, nos anos 1970-1980, foi capaz de anular espírito progressista da “banda oriental”: mais recentemente, o Parlamento uruguaio aprovou o casamento de pessoas do mesmo sexo (2007), e legalizou a eutanásia (2009) e o consumo de maconha (2013). Também na Arquitetura o Uruguai se destaca. Montevidéu, a capital, tem marcos arquitetônicos do século XVIII, como a Puerta de la Ciudadela – tudo o que sobrou do muro que cercava a cidade e foi derrubado em 1829. Do século 20, temos a rambla (avenida costeira), construída em 1910; o Palácio Legislativo, sede do Parlamento, de 1925, com projeto dos arquitetos Victo Meano, Jacobo Vázquez Varela e Victo Banchini; o Palácio Salvo, no centro velho da cidade, construído em 1928 pelo arquiteto italiano Mario Palanti; e o aeroporto Carrasco, construído em

1947 e reformado em 2009 pelo arquiteto Rafael Viñoly. Fora de Montevidéu, destacam-se a Plaza de Toros Real de San Carlos (Colonia), de Jose Marcovich (1910); o Castillo Pittamiglo, em Las Flores-Piriápolis, de Humberto Pittamiglo (1956); a Casapueblo, em Punta Ballena, de Carlos Paez Vilaró, de 1960; e a ponte circular dos departamentos de Rocha e Maldonado, de Rafael Viñoly (2015). Mas o grande nome da arquitetura uruguaia é, sem dúvida, Eladio Dieste (1917-2000), criador da técnica denominada “cerâmica armada”, que permite vencer grandes vãos aliando cálculo estrutural e materiais comuns e de baixo custo, como tijolo e argamassa. De acordo com Sulamita Fonseca Lino, “um dos aspectos mais surpreendentes da obra de Eladio Dieste é a sua inventividade com a construção em tijolo e essa é conseguida devido ao seu conhecimento sobre essa estrutura. No método de trabalho de Dieste, projeto, estrutura e construção são uma coisa só, ele tem conhecimento de todas as etapas e, muitas vezes, o desenho técnico de arquitetura não é necessário” (1). Nascido na cidade de Artigas, interior do país, Dieste estudou Engenharia Civil na Universidade de La República em Montevidéu, formando-se em 1943. Ele aprendeu arquitetura na prática, em convívio com profissionais do Escritório Técnico da Direção de Arquitetura do Ministério de Obras Públicas, que passou a chefiar a partir de 1945. De acordo com Sulamita Fonseca Lino, a produção de Eladio

Dieste ocorreu na contramão do Movimento Moderno, que difundiu a tecnologia do concreto armado. Apesar das origens diversificadas, que vão desde da Bauhaus e Roland Corbusier, na Europa; Frank Lloyd Wright, nos Estados Unidos; Oscar Niemeyer, no Brasil; Carlos Raúl Villanueva, na Venezuela e Antoni Bonet i Castellana, no Uruguai, o Movimento Moderno trabalhava com técnicas e conceitos elaborados nos países desenvolvidos. Contra a corrente, Dieste optou por técnicas e condições locais de construção. “Nesse panorama amplo e diversificado, Dieste apresentou, em seus textos, várias questões importantes, por seu caráter crítico, sobre construção e arquitetura como: a importação de técnicas construtivas dos países centrais; o esquecimento, por parte dos construtores latinos, das tecnologias mais antigas; a supervalorização do projeto (e do desenho) de arquitetura em detrimento do processo de construção, entre outras. Em oposição a isso, ele colocou a pesquisa e o desenvolvimento da construção em tijolo como um caminho que resolveria grande parte desses questionamentos” (2). Os questionamentos de Eladio Dieste aos cânones da Arquitetura Moderna aplicados a países abaixo da linha do Equador são contundentes. Em primeiro lugar, ele cita a desconsideração pelo clima tropical: como se pode pensar em usar vidro e concreto armado em cidades de países onde o sol escaldante brilha quase que o Outubro l Novembro l Dezembro 2019

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Arquitetura no mundo

Interior da Iglesia de Atlántida Cristo Obrero y Nuestra Señora de Lourdes, Atlántida

ano inteiro? Por isso, Dieste criticava a padronização de formas de construir típica de países altamente desenvolvidos, como Europa e Estados Unidos, por ela ignorar tradições construtivas locais. Em uma visita à Colômbia, ele escreveu: “Muitos anos atrás, eu tinha que ir ver um grupo escolar em Natagaima, não muito longe de Bogotá, com altitudes mais baixas, com clima severamente tropical. Nele havia dois tipos de construção: uma de paredes de tijolo, estrutura metálica e cobertura de fibrocimento, baixa qualidade e muito desconfortável, e outra feita com uma técnica indígena, circular, sem paredes com pilares de bambu (cana de bambu de grande diâmetro e re-

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sistência) e cobertura de várias folhas de palmeira. Esta segunda construção, como contraste, era extremamente confortável e adaptada ao clima, e havia sido feita a um custo que me surpreendeu por tão baixo”. (3) Assim, o engenheiro tornado arquiteto surpreendeu pela leveza e consistência de sua obra, que inclui igrejas, armazéns, depósitos, fábricas, bem como pelos efeitos obtidos com a iluminação local dos locais. A seguir, um resumo das principais obras de Eladio Dieste. Iglesia de Atlántida Cristo Obrero y Nuestra Señora de Lourdes, Atlántida Uma das obras mais conhecidas de Eladio Dieste é a Iglesia de

Atlántida Cristo Obrero y Nuestra Señora de Lourdes, em Atlántida, Canelones, Uruguai, projetada em 1958 e construída em 1960. De acordo com o arquiteto Marcos O. Costa, Dieste “concebeu a Igreja como um amplo espaço litúrgico, cuja configuração aproximava os fiéis do altar. O átrio é protegido pela laje do mezanino do coro, sob o qual também estão os confessionários. O batistério fica enterrado e possui acesso independente desde o exterior. O altar é circundado por uma parede baixa e curvilínea, que também define os demais espaços: a sacristia e a capela de Nossa Senhora de Lourdes. O Campanário se constitui como uma torre cilíndrica isolada do corpo principal da Igreja”.


Andrés Cribari

Ž Œ Iglesia San Pedro, Durazno

 Montevidéu Shopping Center

Ž Iglesia Nuestra Señora de Lourdes, Malvín

Flickr

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para ser desenvolvido em etapas, das quais só se realizaram a torre do altar e o edifício da paróquia. Essas obras foram realizadas entre 1965 e 1968, ficando inconclusa a nave principal da igreja, última etapa do projeto. A torre do altar foi construída com um muro duplo de tijolos com escadas no interior, o que evitou o uso das formas durante sua construção.

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Iglesia San Pedro, Durazno Depois que em 1967 um incêndio destruiu as treliças de madeira originais e afundou a nave central da Iglesia de San Pedro, em Durazno, Dieste propôs elaborar um novo projeto de alvenaria armada. Esse projeto propiciou um espaço iluminado de luz natural, que ingressa através das aberturas geradas na cobertura e um grande espa-

ço único caracterizado pela nave central e as duas laterais. Iglesia Nuestra Señora de Lourdes, Malvín, Montevidéu O projeto dessa igreja, situada no bairro Malvín, de Montevidéu, data de 1961 e incluía a construção da igreja e da casa paroquial. De acordo com o arquiteto Cláudio Escandell Román, o projeto foi pensado

Montevidéu Shopping Center Inaugurado em 1984, o Montevidéu Shopping Center foi o primeiro shopping center do Rio da Prata. Tem um conjunto de abóbadas de cano e dupla curvatura. As paredes onduladas são usadas estruturalmente, transformando-as em uma série de suportes duplos pré-comprimidos, ancorando-os no mezanino, que funciona como um grande tensionador. Outubro l Novembro l Dezembro 2019

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Fábrica TEM S/A – Montevidéu Antigamente uma fábrica de eletrodomésticos, hoje é um depósito da Unilever. O conjunto é formado por dois armazéns cobertos com abóbadas de dupla curvatura com claraboias de tijolos ocos reforçados, sustentados por uma estrutura de concreto armado com os pilares internos separados a 12,4 m um do outro. Segundo o relatório da construção: “As paredes são de tijolos reforçados e com janelas em frente ao feixe de borda. A iluminação é obtida através de um corte transversal em cada abóbada fechada por vidro suportado por uma série de suportes de metal, com uma orientação sudeste que deixa entrar uma luz suave, de intensidade suficiente” (4). Terminal de Ônibus de Salto Concluída em 1980, a construção inclui um conjunto de abóbadas autoportantes, sustentadas por uma linha de pilares de concreto armado, concentrados no vale de cada abóbada. O espaço coberto, com 900 m², é formado por cinco abóbadas autoportantes de orientação de catenária pré-comprimida (5). Domingo Massaro S/A Em 1978, Dieste e seu sócio, Eugenio Montañez, foram chamados para a realização da cobertura do complexo agroindustrial Massaro, em Juanicó (Canelones). O projeto arquitetônico do conjunto é de outros profissionais. De acordo com o arquiteto Cláudio Escandell Román, a solução estrutural desse

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Universidad de la República

Arquitetura no mundo

Œ Œ Fábrica TEM S/A,

Montevidéu

 Terminal de ônibus de Salto

 edifício mostra toda a capacidade de Dieste para resolver a estrutura com tecnologia própria. As abóbadas cobrem um vão de 12,7 m com uma flecha de 4,23 m. A estrutura não possui vigas e as abóbadas se apoiam diretamente em pilares distantes 35 m entre eles. A casca com a maior mísula tem um balanço de 16,40 m. Mercado de Frutas e Hortaliças (Ceasa) de Porto Alegre Entre algumas obras de Dieste no Brasil, destaca-se o Mercado de Frutas e Hortaliças (o Ceasa) de Porto Alegre (RS). Segundo o arquiteto Cláudio Escandell Román, essa obra é o resultado de um concurso de projetos realizado em 1969, que os arquitetos brasileiros Carlos Fayet e Cláudio Araújo ganharam. O programa incluía o desenho arquitetônico e o planejamento urbanístico da área de 650 x 1.300 m, localizada na área metropolitana da cidade. As obras foram concluídas, após várias modificações do projeto original, em 1972. “Os arquitetos Fayet e Araújo solicitaram a colaboração de Dieste e Montañez para cobrir vários


edifícios do conjunto. A proximidade com Montevidéu e a posterior vinda de Montañez a Porto Alegre para dirigir pessoalmente as obras de construção das abóbadas permitiram um contato fluido e o êxito do empreendimento. Foi a maior obra realizada por Dieste e Montañez no exterior” (6). Dieste e Montañez usaram a aplicação da cerâmica armada em outros mercados do Brasil,

mas segundo o próprio Dieste, o mercado de Porto Alegre que lhe ofereceu um trabalho gratificante pela qualidade da equipe formada entre engenheiros e arquitetos. De acordo com Sulemita Fonsenca Lino, a obra de Eladio Dieste mostra que “a diversidade e as características locais associadas ao conhecimento e à critica do internacional” podem transformar a maneira de se produzir a arquitetura na região, pois ao somar a sabedoria convencional às condições locais, ele “abriu caminhos de investigação que podem realmente alterar a realidade da construção local” (7).¥

Ž Ž Fábrica

Domingo Massaro S/A

 Ceasa de Porto Alegre/RS

 Notas (1) LINO, Sulamita Fonseca, A obra de Eladio Dieste: flexibilidade e autonomia na produção arquitetônica. (2) Ibidem. (3) DIESTE, Eladio. Las tecnologías apropiadas y la creatividad.

Eladio Dieste – 1917-2000, El Pais, outubro de 2006. Ibidem. (6) ROMÁN, Cláudio Escandell, Eladio Dieste e a cerâmica armada. (7) LINO, Op. Cit. (4) (5)

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Olhar do Arquiteto

Luiz Hiroshi Moraes Takahama PrĂŠdio na Av. Paulista (SP)

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Claudia Pasqualini Centro Cultural São Paulo (SP)

Participe do Olhar do Arquiteto. Para isso, compartilhe sua foto no Instagram ou no Facebook usando a hashtag #minhafotonamobile. Mas ela precisa ser tirada em alta resolução e publicada em modo "público". Outubro l Novembro l Dezembro 2019

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Ouvidoria

Construir a cidade:

a oportunidade oferecida pela assistência técnica Por Affonso Risi, ouvidor do CAU/SP

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m meio à enxurrada de más notícias a que estamos tentados, imprudentemente, a nos acostumar, alguns fatos recentes trouxeram novo alento à Arquitetura brasileira. Quero aqui destacar dois deles. De um lado, a bem-vinda consagração do multipremiado Paulo Mendes da Rocha, autor de obra excepcional que ensina a todos e está sempre a indicar o caminho justo e oportuno. Foi por isso, merecedor do Pritzker (Hyatt Foundation), da Golden Medal (RIBA-Royal Institute of British Architects), do Praemium Imperiale (Japan Art Institute) e do Leão de Ouro (Bienal de Veneza), as mais importantes distinções internacionais da Arquitetura, numa evidência da profunda repercussão de seu pensamento nos mais ilustres foros mundiais. De outro lado, uma casa singela em São Paulo, a da Dona Dalva, projeto correto e inspira-

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dor de residência na Vila Matilde, de grande riqueza espacial e construtiva, obra dos associados no escritório Terra e Tuma Arquitetos (http://terraetuma.com), que demonstra com clareza como nosso conhecimento pode e tem obrigação de atender com qualidade à imensa população, cuja única escolha parece hoje resumida à autoconstrução que, caoticamente, se espalha nas periferias urbanas. O caminho apontado por eles é fecundo e ajuda a afastar o desalento de boa parte de nossa categoria profissional. Há uma tarefa imensa a desempenhar nas cidades brasileiras e já está mais do que na hora de nós, arquitetos e urbanistas, reivindicarmos esse trabalho e efetivamente tomarmos as providências para assumi-lo. O grande artista plástico Luiz Paulo Baravelli mantinha há al-

guns anos uma bem-humorada coluna, creio que semanal, na Folha de S.Paulo, em que, de forma instigante e inteligente, o assunto era sempre a cidade. O tema, num dos textos, foi o desânimo de jovens arquitetos frente à falta de clientes e de trabalho, e Baravelli sugeriu que “arregaçassem as mangas”, instalassem seus escritórios em portas de garagem, como as dos mecânicos e borracheiros, e colocassem junto à calçada placas em que, com giz, fossem enumerando os serviços que poderiam executar, com seus preços: projeto de calçada, muro, reforma de casa, ampliação e assim por diante. É claro que a brincadeira indicava, na verdade, a necessidade de abandonar posições que só servem para, erroneamente, associar nosso trabalho a serviços exclusivamente para a elite, inacessíveis ao comum dos mortais.


Que a Casa da Dona Dalva seja o anúncio do número enorme de belas casas que o arquiteto brasileiro pode e deve saber fazer. Surgiu nos Estados Unidos nos anos 1960 um interessante movimento de apoio técnico e político aos movimentos sociais, o advocacy planning, iniciativa de Paul Davidoff e Linden Stone Davidoff, que juntava profissionais e estudantes de diversas áreas, especialmente de Direito, Sociologia, Economia, Arquitetura e Urbanismo para, na defesa das populações mais pobres, dar subsídios e assessorar com qualidade reivindicações que enfrentaram decisões burocráticas das administrações, apresentando alternativas técnicas e desafiando, muitas vezes com sucesso, grandes interesses empresariais. Iniciativas deve tipo também existem entre nós e entre elas estão as atividades conhecidas

como ATHIS -- assistência técnica em habitação de interesse social -- desenvolvidas sobretudo através de ações coletivas multidisciplinares que buscam a justiça social através da construção da cidade. Oficinas vêm sendo realizadas em polos adequados do Estado, com a parceria do CAU/SP, e visam à instrumentação e capacitação de profissionais para que possam atuar no campo do direito à cidade e moradia digna, o que envolve projetos de urbanização de favelas e assentamentos precários, regularização fundiária e sistematização da autoconstrução. Um novo edital está sendo lançado pelo CAU/SP nesse final

de 2019 com vistas às ações de ATHIS para 2020, e é preciso que os colegas estejam atentos aos termos, condições e aos prazos para que a iniciativa seja de fato bem-sucedida. Independente disso, seria desejável que as entidades profissionais, presentes no CAU através do CEAU, buscassem ainda encontrar outras formas legais para o desenvolvimento e incentivo de nossa estratégia de atuação, para que os arquitetos e urbanistas brasileiros pudessem colocar em prática seu conhecimento e multiplicar as ‘Casas’ e ‘Cidades da Dona Dalva’ pelo nosso território.¥

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o Divulgaçã

fique atento

Bauhaus Uma exposição sobre a influência da escola alemã na Arquitetura está em cartaz na Casa Modernista, no bairro Vila Mariana (R. Santa Cruz, 325), em São Paulo. Intitulada “Sotaques Paulistanos da Bauhaus”, traz 20 fotos em preto e branco medindo 80 x 80 cm, instaladas em suportes metálicos, com imagens de obras projetadas por arquitetos brasileiros como Vilanova Artigas, Rino Levi, Paulo Mendes da Rocha e Oscar Niemeyer, entre outros. Com entrada franca, fica em cartaz até o dia 29 de março, e pode ser visitada de terça a domingo, das 9h às 17h.

“A Revolução Será Interrompida: Oscar Niemeyer na Argélia”

Fotos: Divulgação

De autoria do fotógrafo e escritor britânico Jason Oddy, o livro é uma das publicações mais abrangentes do legado do arquiteto e urbanista Oscar Niemeyer no país norte-africano. Um dos projetos destacados pelo autor é o La Coupole (A Cúpula), o Parque Olímpico construído para sediar os Jogos do Mediterrâneo, em 1975. Lançado no final do mês de outubro pela editora Columbia Books in Architecture and the City, nos Estados Unidos, o livro está à venda na loja Amazon brasileira.

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18ª Expo Revestir

Dica

Tomar um expresso no tradicional Café Floresta, no térreo do edifício Copan, e às 10h participar do encontro em grupo para subir até a cobertura e conferir uma vista incrível de São Paulo. Depois, caminhar até o bairro Liberdade e cruzar o viaduto Santa Ifigênia rumo à Pinacoteca do Estado de São Paulo, para encerrar o passeio conferindo a exposição que estiver em cartaz. Shutterstock

Tijolo por tijolo A história da construção do SESC Pompéia, em São Paulo, é contada em uma websérie disponível gratuitamente no site da entidade. Dividida em 15 episódios, conta desde a história do bairro onde funciona o espaço aos detalhes sobre os conceitos que nortearam a arquiteta Lina Bo Bardi para o projeto de restauro da antiga fábrica, que ocorreu entre os anos de 1977 e 1982, passando pelos diferentes traços do Brasil representados nos cantos da unidade, entre outras curiosidades.

de Walério Araújo, estilista

Arquivo pessoal

Sesc

Um dos principais eventos de soluções em acabamentos do país, a próxima edição da feira será realizada de 10 a 13 de março de 2020, no Transamérica Expo Center, em São Paulo. Além de apresentar as principais novidades e tendências do mercado em produtos e soluções, com dias de visitação com foco em diferentes interesses, a programação oferece aos visitantes possibilidade de negócios e networks. Para saber mais, visite o site da feira (www.exporevestir.com.br).

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Como avaliar a sustentabilidade ambiental de uma cidade?

C

ada vez mais a ideia pela busca de uma cidade sustentável tem sido discutida pela sociedade, pelos políticos, pelas comunidades, pelas empresas e pela academia. Somos diariamente informados de iniciativas dos mais variados tipos que buscam melhorar e transformar este território que hoje abrigam no país, pelo menos nas estatísticas oficiais, mais de 85% de sua população de 210 milhões, ou seja, 180 milhões de habitantes. Esta população ocupa 5.570 municípios, sendo estes municípios de diversos tamanhos e características com populações variando de 825 pessoas em Serra da Saudade em Minas Gerais até 12,2 milhão de pessoas na cidade de São Paulo. Esta é uma realidade heterogênea tanto política e culturalmente como social, economicamente e particularmente em termos ambientais. Nas pesquisas que desenvolvemos na academia, e ao estudar esta questão complexa, nos defrontamos com um desafio: como contribuir para a melhoria das condições do meio ambiente de nossas cidades? Seria possível avaliar a sustentabilidade ambiental de uma cidade brasileira? Qual poderia ser o método a ser utilizado para esta avaliação? Buscando a literatura existente, que surpresa! Encontramos aproximadamente 150 diferentes sistemas em inúmeros países do mundo, que propunham esta tarefa de medir e estimar a sustentabilidade urbana. Dentre estes encontramos inclusive 5 sistemas brasileiros. Entre todos os sistemas existentes encontramos um deles particularmente interessante que eram as normas técnicas da ISO, a International Organization for Standardization, que é a associação internacional das associações nacionais de normalização como a ABNT que temos no Brasil. A ISO que é conhecida no país por meio da série de normas ISO 9.000, de Qualidade e ISO 14.000, de Gestão Ambiental, também é responsável pela elaboração das normas técnicas internacionais de Cidades e Comunidades Sustentáveis. Este conjunto de normas procura então avaliar a

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Arquivo pessoal

Ponto de vista Alex Abiko

Finalmente, percebemos sim que é possível avaliar a sustentabilidade de uma cidade, permitindo uma maior racionalidade nesta tarefa"

sustentabilidade ambiental das cidades e comunidades, podendo ser aplicadas a cidades e bairros, além de comunidades de diversos tamanhos. O trabalho que desenvolvemos recentemente na ABNT, em sua CEE268, Comissão de Estudos Especial 268, se constitui em traduzir e adaptar para a realidade brasileira as normas já publicadas pela ISO, sendo pioneira a norma NBR ISO 37120, Desenvolvimento sustentável de comunidades – Indicadores para serviços urbanos e qualidade de vida, publicada em 2017. Ela aborda afora dados ambientais, questões sociais e econômicas. Atualmente a CEE268 não apenas traduz e adapta as normas já publicadas pela ISO, mas hoje ela participa do movimento internacional de elaboração das normas técnicas da ISO, sendo particularmente interessantes as normas relacionadas às Cidades Resilientes e às Cidades Inteligentes, além das normas de Infraestruturas. Finalmente, percebemos sim que é possível avaliar a sustentabilidade de uma cidade, permitindo uma maior racionalidade nesta tarefa, contando com uma ferramenta técnica que apoia decisões da sociedade e de seus agentes políticos. Para saber do estágio de desenvolvimento das normas da CEE268, acessar o site do CBCS: http://twixar.me/gGdT Alex Abiko Engenheiro civil. Professor titular de Gestão Urbana e Habitacional Escola Politécnica da USP


Profile for CAU/SP

Móbile #19 | Fiscalização  

O trabalho do CAU/SP em garantir boas práticas do exercício profissional de arquitetos e urbanistas

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