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CARBONO UOMO #26

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CARBONO uomo

DU MOSCOVIS O ator, em constante reinvenção, se afasta do título de galã e encara os dilemas da masculinidade

JOÃO CARLOS MARTINS Entre aplausos e recomeços, o maestro rege sua história

TENDÊNCIAS Da marcenaria de reúso ao aquarismo marinho, um retrato dos novos desejos do homem contemporâneo

HUGO CALDERANO O mesa-tenista volta ao topo e revela o que sustenta sua permanência entre os melhores

VIAGENS DE EXPERIÊNCIA Templos no Sri Lanka, achados autênticos em Fortim e a cena gastronômica de Medellín

CARBONO ZERO Iniciativas que estão reinventando marcas, práticas e produtos

Paz no trânsito começa por você.

Anos de espera. 3,1s para se apaixonar de novo.

O 911 TARGA VOLTOU.

PORSCHE. THERE IS NO SUBSTITUTE.

EXCELÊNCIA EM SOLUÇÕES NA AVIAÇÃO EXECUTIVA.

O FRETAMENTO COM EXCELÊNCIA.

Há 25 anos inteligência faz a gente voar.

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Algo muda assim que o sol toca seus ombros e a brisa do mar diz ao seu corpo que finalmente pode relaxar. Você deixa de tentar impor sua vontade ao dia e passa a deixar que ele te leve para onde quiser levar. Aqui, há algo diferente em você. Provavelmente porque aqui é diferente.

VER ITINERÁRIOS

Santorini, Grécia
St. Thomas, Ilhas Virgens Americanas

A gente vive num mundo de muitas desigualdades. Isso começou a me fazer pensar que era bom eu fazer um testamento, e achei por bem deixar meu patrimônio para Médicos Sem Fronteiras. Me traria uma paz de espírito, sabendo que eu poderia ajudar de alguma maneira. Porque somos assim, uma gotinha no oceano.”

Márcia Villas-Bôas

Doadora de Heranças de MSF

Escreva um novo capítulo da sua história com MSF.

Nomeie MSF em seu testamento.

Com a doação em testamento, você se torna um doador de heranças de Médicos Sem Fronteiras e garante que nosso trabalho chegue a quem mais precisa, onde quer que esteja.

1. Decida qual parte do seu patrimônio deseja destinar a MSF; 2. Em um cartório de notas de sua preferência, realize uma escritura pública de testamento. Para isso, você precisará de algumas informações cadastrais de MSF; 3. Envie uma cópia digital do seu testamento para ser arquivada de forma sigilosa por MSF (esta é uma etapa opcional).

Elefantes Líquidos

Minúsculas gotículas d’água salpicam o vidro da frente.

Uma coreografia que conduz a um estado quase de suspensão.

O olhar pisca devagar.

Cada gota, uma história.

Dentro do carro, o som da chuva chega abafado.

Como se o mundo estivesse distante. Abstração.

Combina com o mistério das pequenas explosões silenciosas na janela.

E, então, a dança se intensifica. As esferas transparentes se encostam e se transformam. Silhuetas se insinuam. Às vezes assustadoras, às vezes quase sagradas. Rostos de perfil surgem e desaparecem. Sorriem… até que, no encontro com outras gotas, se desmancham em desespero. Contornos arredondados tornam-se seres imensos.

Elefantes líquidos escorrem pela superfície e, ao tocar outro grupo, deixam de existir.

Observar essa vida efêmera é uma espécie de vertigem e...

ZUM

De repente, tudo acaba.

A morte vem.

Fria e rasteira.

O limpador de para-brisa percorre o vidro com uma violência cortante – apagando, sem hesitar, tudo o que havia sido construído.

A pele de vidro seca.

A vida seca.

Mas não por muito tempo.

Em milissegundos, brotam novos pontos d’água.

Celebram o impacto da chegada e se oferecem ao mesmo destino: o recomeço.

ZUM

Lá vem ele de novo.

E, ainda assim, a vida insiste.

Nada dura para sempre. Tudo já nasce em estado de desaparecimento. Mas nem tudo se perde.

Quando começamos a nos afeiçoar aos pingos que se agigantam em movimentados rios, eles já não estão mais ali.

Quando um sorriso ensaia nascer, já carrega em si a possibilidade da dor. E então escorre.

Tudo escorre.

Mas tudo permanece.

No balé do para-brisa, mesmo sob a ameaça constante do ZUM, há um lugar que resiste.

Um espaço mínimo, quase invisível.

Ali, onde o limpador não alcança. No canto arredondado do vidro, ou naquele pequeno miolo intacto – como uma ilha no meio da tempestade.

É a gruta sagrada onde se guarda aquilo que não escorre.

Que não se dissolve. Que não morre com o próximo movimento.

Ali, nada é apagado.

Ali vive o amor.

REDAÇÃO EDITORA CARBONO

PUBLISHER

Lili Carneiro lili@editoracarbono.com.br

DIRETOR EXECUTIVO E DE LIFESTYLE

Fábio Justos fabio.justos@editoracarbono.com.br

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COLABORADORES

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Lia Lubambo

CONCEPÇÃO EDITORIAL • Nº 26 •

Lívia Pacheco

Lucas Bori

Luisa Alcantara e Silva

Marcele Becker

Mari Campos

Mariana Ribeiro

Mario Mele

Rafael Gagliano

Rafael Mollica

Roberta Martinelli

Rodolfo Regini

Rodrigo Bernardo

Rodrigo Grilo

Sarkis Semerdjian

Thays Bittar

Vinicius Longato

Will de Carvalho

EDITORA CARBONO

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Jardim Paulistano

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CTP, IMPRESSÃO E ACABAMENTO Stilgraf

CIRCULAÇÃO Nacional

BANCAS, DISTRIBUIÇÃO E MAILING

Black and White, Dinap, Gables, SMLog e Correios distribuicao@editoracarbono.com.br

CAPA

FOTOGRAFIA

Vinicius Longato

EDIÇÃO DE MODA

Cuca Elias

GROOMING

Rodrigo Bernardo

AGRADECIMENTOS

Sala Acima, Casa Bradesco @casabradesco

DU MOSCOVI USA

À La Garçonne, Panerai, Frattina e Ricardo Almeida

Carbono Uomo é uma publicação da Editora Carbono | CNPJ 46.719.006/0001-14

A Editora Carbono não se responsabiliza pelos conceitos emitidos nos artigos assinados. As pessoas que não constam do expediente da revista não têm autorização para falar em nome de Carbono Uomo ou retirar qualquer tipo de material para produção de editorial caso não tenham em seu poder uma carta atualizada e datada, em papel timbrado, assinada por um integrante que conste do expediente da redação.

@CARBONOEDITORA

A SEGUIR:

26. CURTAS

Dicas quentes Carbono

38. MEU BAIRRO

Fernando Droghetti

42. ENTREVISTA I

João Carlos Martins

48. LIVROS

Roberta Martinelli

52. ENSAIO

Du Moscovis

72. ENTREVISTA II

Hugo Calderano

74. MINDS I

Felipe Bronze

76. MEU ESTILO I

Guilherme Rainer

78. CREATIVES I

Galeria Verniz

80. EXPERTISE

Marcenaria

86. PERFIL

Abraão Fidelis

90. MINDS II

Marcelo Schaffer

92. HOBBY

Aquários

96. ESTILO

Joias masculinas

102. PANORAMA

Design

106. MINDS III

Yuri Gricheno

108. MEU ESTILO II

Celso Rayol

110. CREATIVES II

Antonio Obá

112. ESPORTE

Padel

126. CARBONO ZERO

Um panorama sustentável

131. PÁGINAS AMARELAS

Guia de tendências Carbono

VIAGENS 114. Fortim 118. Medellín 122. Sri Lanka
Retrato
Du Moscovis, por Vinicius Longato; obra Wade in the water
(after Adriana Varejão) , de
Antonio Obá; e a villa
privativa
Casa
Uribe, em Medellín

@fasano #fasano www.fasano.com.br

SÃO PAULO
Rua Iguatemi, S/N– Itaim Bibi
Shopping Cidade Jardim – Av. Magalhães de Castro, 12.000 – 3º piso
Catarina Fashion Outlet – Rod. Castello Branco, km 60

CURTAS | Carbono Uomo

CURTAS

Relógios, gastronomia, arte, hotéis, carros e tudo aquilo que habita o imaginário masculino

ÍCONE REVISITADO

A Longines apresenta a nova geração do HydroConquest, um de seus principais relógios esportivos. O modelo chega com redesign completo, novas cores de mostrador de lunetas em cerâmica, além da estreia de uma pulseira de malha milanesa de aço inoxidável. Disponível em 39 mm e 42 mm, mantém características técnicas como resistência à água de 300 metros e movimento automático com 72 horas de reserva de marcha. A campanha global é estrelada por Henry Cavill e reforça o encontro entre elegância e o espírito aventureiro que define a coleção. @longines

ILHAS, NAVIOS E NOVOS HORIZONTES

Entre uma ilha reinventada nas Bahamas e uma nova geração de navios, a Norwegian Cruise Line redesenha a experiência de viagem no Caribe, com mais espaço e liberdade de escolha

A Norwegian Cruise Line entra em uma nova fase no Caribe ainda mais ampla, sensorial e afinada com o tempo de quem viaja. Em Great Stirrup Cay, sua ilha privativa nas Bahamas, a transformação é imediata. No centro dela está a Great Life Lagoon, uma extensa área de piscinas que organiza a experiência entre movimento e pausa. Ao redor, cabanas, bares dentro d’água e áreas que se abrem para diferentes ritmos: há espaços pensados para famílias, como o Splash Harbor, e refúgios mais silenciosos, como o Vibe Shore Club, dedicado aos adultos.

A chegada à ilha também muda de tom. Um novo píer aproxima o visitante, enquanto o transporte interno permite que o percurso seja feito sem pressa, quase como um prolongamento da própria viagem. Em breve, a experiência ganha outra camada com o Great Tides Waterpark, que adiciona alguns percursos aquáticos e uma dimensão mais lúdica ao destino.

No mar, essa mesma lógica se desdobra. O Norwegian Luna, que estreia no Caribe este ano, propõe um equilíbrio entre energia e contemplação. Há experiências que convocam o corpo, como o Aqua Slidecoaster, e outras que convidam à pausa: decks abertos, áreas exclusivas e espaços que se deixam atravessar pelo horizonte.

Já o Norwegian Aura, previsto para 2027, aponta para uma escala ainda mais ambiciosa. Com quase 345 metros de comprimento, o navio organiza sua vida a bordo em torno do Ocean Heights, um amplo complexo ao ar livre onde convivem percursos suspensos, cabanas elevadas e um conjunto de atrações aquáticas que atravessa diferentes níveis do navio. Ao redor, o Ocean Boulevard se estende como um calçadão contínuo sobre o mar, enquanto o The Haven cria um território mais reservado, com outra cadência.

Entre a ilha e o oceano, a Norwegian desenha uma ideia simples, mas cada vez mais rara: viajar com liberdade, sem pressa e com espaço para escolher, a cada momento, o próprio ritmo. @norwegianbrasil

PASSADO EM FESTA

No coração da Avenida Paulista, o Jardim Nacional surge como uma nova casa de eventos que conecta memória e futuro. Instalado no histórico Conjunto Nacional, ícone da arquitetura brasileira desde 1958, o espaço, que foi inaugurado recentemente, resgata a vocação original do edifício para celebrações, agora sob uma leitura contemporânea. Assinado por Bruno Barbato e Ana Ditolvo, o projeto une restauração e inovação em mais de dois mil metros quadrados, com dois salões versáteis que mesclam arquitetura tombada, tecnologia e experiências imersivas. À frente do empreendimento estão Fernando Ximenes, Thiago Armentano e Thomaz Rothmann – também responsáveis pelo Parque Mirante –, trio que aposta em endereços icônicos para criar vivências alinhadas à cultura paulistana. @jardim.nacional

SIMPLICIDADE CREMOSA

A Hokka Cream acaba de ser aberta nos Jardins trazendo para São Paulo a essência do soft cream japonês. Inspirada em Hokkaido, região onde o sorvete é tratado como uma joia, a casa aposta em poucos sabores e em uma base autoral de leites desenvolvida para alcançar textura ultracremosa. Entre os favoritos estão o milk blend, puro e saboroso; o cacau intenso, feito com chocolate real; o matcha, equilibrado para o paladar brasileiro; e o pistache natural, sem clorofila. Tudo é produzido na hora, seguindo a filosofia japonesa da simplicidade e da excelência. @hokka.cream

Carbono Uomo

A TAG Heuer tem uma herança fortemente ligada à preci são e ao automobilismo. Como esse legado influencia o design hoje, em um cenário cada vez mais digital?

Julien Delcambre

Mesmo em um mundo digital, o cronógrafo mecâni co entrega algo físico: clareza, controle e emoção ao medir o tempo. No TAG Heuer Carrera Chrono graph, por exemplo, priorizamos legibilidade com mostrador sem data e contadores monocromáticos. Já o TAG Heuer Carrera Chronograph Seafarer aplica essa lógica instrumental ao indicador de ma rés. O legado não é estética vintage, mas desem penho contemporâneo.

Carbono Uomo

Como equilibrar inovação estética e a tradição da relojo aria suíça?

Julien Delcambre

PULSO FIRME

Conversamos com o francês Julien Delcambre, Lead Designer da fabricante suíça de relógios de pulso TAG Heuer. À frente da direção criativa dos principais lançamentos da marca, ele traduz o legado histórico da TAG em uma linguagem contemporânea, unindo inovação técnica e identidade estética. Para a

Sustentabilidade e novos materiais já impactam o design?

Julien Delcambre

Parto do que é essencial desde 1963, com Jack Heuer e o TAG Heuer Carrera. Preservada essa base, inovamos onde há valor real. O TAG Heuer Carrera Chronograph Seafarer, por exemplo, une tradição náutica a movimento, manufatura TH20-04 e ajuste intuitivo. Tradição é a gramática; inovação escreve novas frases.

Sim, de forma visível e técnica. Materiais influenciam peso, luz e sensação no pulso. O TAG Heuer Carrera Split-Seconds Chronograph de titânio grau 5 traz leveza e estética técnica. Sustentabilidade significa criar relógios duráveis, com movimentos modernos como a família TH20, pensada para a longevidade.

DENTRO DE CASA

Primeira Casa da Soho House na América do Sul, a Soho House São Paulo reúne 32 quartos, Soho Health Club, pool bar na cobertura, restaurante, bar e clube para membros. Localizada entre a Avenida Paulista e a Bela Vista, a Casa aposta em design autoral, arte brasileira, conforto e rituais personalizados – do café passado na hora ao drink servido no fim da tarde. O projeto também preserva a arquitetura original do edifício e aposta em interiores inspirados na herança portuguesa da cidade e no modernismo. Desenvolvido em colaboração com artesãos locais, reforça a proposta de hospitalidade intimista da marca, aberta a membros e convidados. @sohohousesaopaulo

À BEIRA-MAR

Florianópolis, capital brasileira com o metro quadrado de alto padrão mais valorizado do país, recebe, em 2028, o UM Milano. Assinado por Guilherme Torres, com curadoria do Fuso Concept Hotel e paisagismo de Alex Hanazaki, o projeto propõe uma forma de morar que integra arquitetura, estética e bem-estar. São apenas 20 unidades na Beira-Mar Norte, com vistas para o Parque Natural do Itacorubi e áreas comuns inspiradas em um hotel cinco estrelas, incluindo andar wellness e rooftop à beira-mar. Para Eduarda Tonietto, diretora criativa e de produtos da Milano e fundadora do Fuso, o UM Milano reforça a vocação da cidade para um lifestyle autoral e contemporâneo. @milanoincorporadora

RUMO A LE MANS

Após uma temporada histórica em 2025, a Porsche Cup C6 Bank confirma um 2026 ainda mais ambicioso. A principal novidade é a realização de uma etapa da categoria Carrera como evento-suporte das 24 Horas de Le Mans – que acontece entre os dias 11 e 13 de junho –, marco inédito no calendário do campeonato. Ao todo, serão dez etapas ao longo do ano, entre provas sprint e endurance, passando por circuitos como Autódromo de Interlagos, Goiânia, Velocitta e Portugal. Mantendo suas três divisões – Carrera, Challenge e Trophy –, a maior categoria monomarca da América Latina segue como vitrine dos carros de competição mais produzidos do mundo, em um calendário cada vez mais internacional. @porschecupbrasil

PRIMEIRAS VOLTAS

Falando na Porsche Cup C6 Bank, a temporada 2026 marcou a estreia histórica de Pipo Massa nos carros de GT. Aos 16 anos, o piloto fez sua primeira participação oficial no Autódromo de Interlagos, abrindo – e vencendo como o mais jovem piloto a realizar esse feito – o campeonato na divisão Carrera Rookie. Filho de Felipe Massa, Pipo chegou à categoria após testes com o Porsche 911 GT3 Cup 992 na Europa e iniciou sua trajetória em uma das principais vitrines do automobilismo latino-americano, já com os olhos voltados para as grandes provas do endurance mundial. @pipomassa

BEM-ESTAR ALPINO

Fundado em 1958 por Jo Tournier, o Hotel Le Lana é um dos endereços mais tradicionais de Courchevel 1850. O que começou como um chalé de 20 quartos virou um cinco estrelas com 55 quartos, 28 suítes e dois apartamentos, sem perder o clima familiar que sempre foi a sua marca registrada. A novidade para a próxima temporada de inverno é que o Spa by Clarins passou por uma super-renovação. Agora ampliado, com 400 m² e sete salas de tratamento, piscina aquecida, sauna e jacuzzi, a atualização inclui até ice bath, os famosos banhos de imersão fria – um diferencial importante para a recuperação após as atividades nas pistas. A experiência se completa com dois restaurantes, além de bar, cigar lounge e espaço para as crianças. Tudo isso aos pés das pistas de Bellecôte, no coração dos Trois Vallées, com acesso direto a um dos maiores domínios esquiáveis do mundo. @lelanacourchevel

CRIAÇÃO VIVA

A Casa Bradesco inaugurou recentemente a Sala ACIMA, um laboratório criativo voltado à convivência, à formação artística e à cocriação. Foi lá o cenário do nosso ensaio de capa desta edição, com o ator Du Moscovis, em ambientação do Apartamento 61. Com programação aberta ao público e curadoria de Higor Advenssude, o belíssimo espaço oferece cursos, workshops, residências, mentorias e experiências imersivas em diversas linguagens, como teatro, música, fotografia, design e gastronomia. A proposta é estimular o pensamento crítico, a inovação e o diálogo entre diferentes gerações e áreas criativas, valorizando a diversidade cultural. Vale muito conhecer. @casabradesco

ENTRE JARDINS E MONTANHAS

Às margens do Lago Léman e diante do Mont Blanc, o La Réserve Genève Hotel, Spa and Villa se revela como um elegante oásis urbano em meio a quatro hectares de jardins. Primeiro hotel da marca La Réserve, o endereço combina o charme de um lodge africano com a sofisticação suíça em um projeto idealizado pelo empresário Michel Reybier e pelo designer Jacques Garcia. A poucos minutos do centro de Genebra, o complexo reúne quartos e suítes voltados para a natureza, gastronomia estrelada, spa dedicado ao better-aging e uma curadoria especial de experiências para famílias. O Kids Club La Petite Réserve acolhe crianças de diferentes idades com atividades educativas e recreativas, enquanto esportes aquáticos, passeios de barco e programas de inverno e verão completam a vivência familiar. Um convite ao descanso, à convivência e à elegância atemporal. @lareserve_geneve | @1erdestinations

O PUDIM PERFEITO

O melhor pudim já provado por Carbono Uomo acaba de ser eleito – e a vitória foi da LêCris! O doce, que guarda uma receita secreta lapidada após inúmeros testes e degustações, tem produção 100% artesanal e uma textura absolutamente irresistível. Pode ser encomendado nos sabores tradicional, pistache, café, fava de baunilha e macadâmia, em tamanhos família, médio ou mini – pensado para eventos. Vale cada colherada. @pudim.lecris

HERANÇA ENGARRAFADA

A Jack Daniel’s apresenta no Brasil a Bonded Series – trio premium que revisita a tradição da marca com um olhar contemporâneo. Sob o selo Bottled-in-Bond, que garante origem única, mínimo de quatro anos de envelhecimento e 50% de teor alcoólico, as versões Bonded, Bonded Rye e Triple Mash exploram intensidade, equilíbrio e complexidade. Entre notas de caramelo, especiarias e madeira tostada, a linha convida a novas leituras do clássico, seja em coquetéis autorais ou à mesa, nos melhores bares do País. @jackdanielsbrasil

MINEIRICES

A Pequê nasceu da busca pelo pão de queijo perfeito: mais queijo, menos polvilho e ingredientes de origem cuidadosa. Produzido com apenas seis insumos – entre eles queijo meia-cura, ovos orgânicos e azeite extravirgem – o pão de queijo da marca aposta em sabor destacado e textura leve. Com produção artesanal, collabs com produtores e chefs e uma loja-empório em Pinheiros, a Pequê transforma um clássico mineiro em produto autoral e cheio de afeto. @pequebrasil

Fotos Christopher Sturman, Giovanna Aurélio, Gregoire Gardette, Rafael Gagliano e divulgação

EMPÓRIO ARTESANAL

Recém-inaugurada em Moema, a Casa Fabri nasceu para resgatar o verdadeiro sentido da gastronomia artesanal. A delicatessen combina empório e salão para pequenas refeições em uma proposta idealizada pelo chef e empresário Tiago Fabri. O menu traz lanches e aperitivos à base de carnes e proteínas de longa cocção para consumo local, além de receitas artesanais que podem ser levadas para casa. @_casafabri

NOVA ERA

A Denza, divisão premium da BYD, ampliou sua presença no Brasil com um movimento estratégico: a inauguração da concessionária Denza Jardins, na capital paulista. O Z9 GT, cupê esportivo 100% elétrico, representa o novo posicionamento da Denza no País ao combinar design sofisticado de inspiração europeia, tecnologia de ponta e alto desempenho. Além dele, a marca já comercializa no Brasil o SUV híbrido off-road B5 e prepara a expansão do portfólio, ampliando a ofensiva de luxo no País. @denzabrasil

O arquiteto chileno Smiljan Radić Clarke é o vencedor do Prêmio Pritzker de Arquitetura 2026, o mais importante da arquitetura mundial.

A Bvlgari revela Jake Gyllenhaal, aclamado ator, produtor e voz ativa na cultura, como seu novo Embaixador Global.

CURTAS | Carbono Uomo

CURTÍSSIMAS

Audemars Piguet celebra seus 150 anos com o modelo 150th Heritage, que sintetiza tradição, virtuosismo artesanal e excelência em alta engenharia relojoeira.

Le Labo acaba de lançar o Violette 30, novo perfume de sua Coleção Clássica, com leitura contemporânea da violeta.

Soho House anuncia a construção de seu primeiro refúgio rural nos Estados Unidos. O projeto, chamado Soho Farmhouse New York, será desenvolvido em uma propriedade histórica de 250 acres na região do Hudson Valley, a cerca de duas horas de Nova York. A inauguração está prevista para 2027.

Em celebração ao centenário de sua boutique em Florença, a Panerai apresenta a jornada “Radiomir Viaggio nel Tempo Experience”. A ser realizada entre 15 e 18 de setembro de 2026, a experiência inclui imersão em Florença, visitas a locais ligados aos mergulhadores italianos e passagem pela base naval COMSUBIN, em Porto Venere. A viagem acompanha o novo conjunto de relógios Radiomir PAM01729 e PAM01730.

Louis Vuitton comunica o segundo ano de sua Parceria Oficial com a Formula 1® e reforça o compromisso de celebrar os maiores triunfos esportivos por meio de sua assinatura “A Vitória Viaja em Louis Vuitton”.

Por Ana Paola Pollini

Tecno Eletro lança churrasqueiras a gás em três tamanhos diferentes, unindo funcionalidade e design sofisticado.

TAG Heuer acaba de lançar um modelo do Connected Calibre E5 x Formula 1®, edição especial que leva a adrenalina da F1 para o pulso.

Zegna fará seu desfile anual SS27 no dia 5 de junho, em Los Angeles. A marca decidiu sair da tradicional agenda da Semana de Moda de Milão para levar suas criações ao centro da criatividade e do cinema.

Revo, referência em mobilidade aérea de alto padrão, e Teresa Perez, agência de viagens de luxo, se uniram para conectar diferentes etapas da viagem com deslocamentos em helicópteros, entre outros benefícios.

Ornare e Next Realty anunciam seu segundo empreendimento, desta vez nos Jardins, em São Paulo, marcando o sucesso da linha Branded Residences by Ornare.

Estúdio Mula Preta, comandado pelos designers André Gurgel e Felipe Bezerra, apresenta uma colaboração inédita com o ator e empreendedor Bruno Gagliasso: a futmesa Membeca.

Janela, espaço referência em experiências exclusivas inaugurado em Pinheiros, oferece arquitetura integrada, atmosfera de casa e condução flexível de eventos. A nova operação gastronômica da Mata São Paulo, o restaurante Lavva, chega para reunir a tradição do Korean barbecue com o churrasco brasileiro, sob o comando do chef Paulo Shin.

MEU BAIRRO

Fernando Droghetti, empresário
Retrato
Gui
Morelli

Paulistano de alma baiana, Fernando Droghetti, o Jacaré, conta como é morar em Trancoso, um lugar onde cada dia é um presente

Por Fernando Droghetti

A primeira vez que pisei em Trancoso foi em 1996. Eu morava em São Paulo, trabalhava no mercado financeiro e, todos os anos, tirava uma semana de férias para me desconectar e ficar na natureza. Sempre precisei disso para me equilibrar.

Meu primo morava em Trancoso, ia viajar e me emprestou a casa, que era uma graça, uma choupana mesmo. Mas a verdade é que eu não entendi Trancoso de imediato, demorei uns três dias.

De repente, parece que um coco caiu na minha cabeça e eu passei a olhar a vida de outro jeito.

Liguei para a minha ex-mulher, falei pra ela ir me encontrar e as férias de uma semana se transformaram em 20 dias. Foi nessa temporada, inclusive, que comprei o terreno onde fiz minha primeira casa e entrei de sócio em um investimento que futuramente se tornaria o Terravista.

Por mais dez anos continuei no mercado financeiro tocando esse negócio em paralelo e visitando Trancoso sempre. Em 2005, resolvi montar uma loja de decoração no Quadrado sem imaginar que eu tinha qualquer vocação para o assunto. O mesmo primo da choupana que me proporcionou conhecer Trancoso me chamou e, aos poucos, eu fui descobrindo meu interesse pelo design de interiores.

A história evoluiu – eu cheguei a ter loja em São Paulo e Barcelona –, mas quando me separei, em 2008, decidi fechar tudo e passar um ano sabático em Trancoso. Eu já pensava em morar

na Bahia, mas precisava sentir porque ainda era muito urbano. Apaixonei-me. Brinco que sou “wanna be baiano” porque não basta querer, mas meu coração está aqui com certeza.

Desde que moro em Trancoso, tive uma pousada no Quadrado, a Jacaré do Brasil Casas, e um restaurante com o Francis Malmann, o Los Negros. Como venho de uma família italiana e sempre gostei de cozinhar, esse capítulo despertou meu entusiasmo pela gastronomia. Passei a estudar e praticar cada vez mais. Foi então que abri o Jacaré do Brasil e, mais recentemente, o Floresta. Hoje, passo metade do ano na Bahia e a outra metade em Comporta, onde também tenho negócios. Gosto do calor e do sol.

Minha vida aqui é de sonho, um privilégio. As duas coisas mais bonitas de Trancoso acontecem no mar, que são o nascer do sol e da lua, e, mesmo estando na Bahia há tanto tempo, é difícil um dia em que não desça até a praia.

Quando me perguntam o que Trancoso tem de mais especial, sempre penso em uma coisa. Muito mais do que a beleza natural, existe uma energia diferente. É um conjunto da energia de diversas pessoas querendo estar exatamente onde estão, ainda que isso signifique menos oportunidades e dinheiro do que São Paulo. A energia que vem da felicidade de muitas pessoas juntas, compartilhando a simples alegria de estar aqui. Já imaginou?

“Além dos pães divinos, como o croissant, essa padaria tem massas e molhos frescos.”

Tel.: 73 98129 5199

trancoso

01 03

PÃO E PASTA DE ROURE

“O melhor lugar para comprar carnes – nacionais e importadas.”

@lojaderoure

COCO TRANCOSO

“Todos os dias eles entregam coco na porta de casa, além de sucos de laranja e tangerina.”

@coco_trancoso

04

02 REI DO FRANGO

“O frango, assim como a costela no bafo e o cupim, são bons. Eles entregam em casa. Então é uma opção prática para um almoço pronto.”

@oreidofrango_trancoso

sete acertos

BÔNUS

MIYAZAKI MASSAGEM E ACUPUNTURA

“O Miyazaki e a esposa realizam massagens maravilhosas.”

Tel.: 73 98858 5953

NALDO MOURA

“O Naldo é o personal das estrelas aqui de Trancoso e está sempre com a agenda cheia. Ele pode dar aulas em casa e é muito bacana.”

Tel.: 73 99957 1020

06

BODEGA DE MINAS

“Esse empório de um simpático casal mineiro tem os produtos mais gostosos da região, entre queijos da canastra, pães de queijo e linguiças artesanais.”

@bodegademinas

05

PEU LAGE

“O responsável pelos passeios de canoa mais lindos daqui, com uma ótima estrutura. São 6 km descendo o rio da Barra até a beira do mar.”

Tel. 73 98853 1085

07

NATURAL ECO BIKE

“O Leo tem as melhores bicicletas de Trancoso e faz passeios incríveis por trilhas na mata.”

@natural_ecobike_expedicoes

CARLOS MARTINS

JOÃO

A REVOLUÇÃO SERÁ MUSICADA

Aos 85 anos e com uma biografia que atravessa palcos históricos, filmes, livros e mais de 30 cirurgias, o pianista e maestro João Carlos Martins redefine a ideia de legado ao apostar na educação musical como sua obra mais importante

O piano ocupa o centro da sala como um eixo em torno do qual tudo parece gravitar. É ao redor de um Petrof centenário, içado até o 11° andar de uma cobertura nos Jardins, em São Paulo, e eternizado na abertura do documentário Die Martin’s Passion, que a vida de João Carlos Martins parece se organizar. Em torno dele, discos de vinil, troféus acumulados ao longo de décadas – muitos em formato de piano – e até mesmo um teto negro que reproduz a silhueta do instrumento.

Na parede, os quadros traçam uma linha do tempo de sua trajetória. Bach inaugura o percurso: João Carlos é considerado um dos maiores intérpretes do compositor, tendo registrado integralmente sua obra. Em seguida, uma pintura de Nova York, cidade para a qual se mudou aos 18 anos e onde sua carreira internacional decolou; uma pintura de sua apresentação no Lincoln Center, em 2011; e, por fim, uma fotografia e uma pintura de sua despedida das temporadas internacionais, em maio de 2025, no Carnegie Hall, em Nova York, com lotações esgotadas.

João recebe a equipe da Carbono vestindo camiseta polo, calça social, sapatos de couro preto e uma luva biônica na mão esquerda – síntese visual de uma trajetória marcada por interrupções e reinvenções. Em tom calmo e cadenciado, fala sobre a paixão pelo piano herdada do pai, que sonhava em ser pianista, mas teve parte da mão decepada em um acidente. Menciona também a influência do espiritismo: sua mãe, conta ele, teria sentido a presença de Giuseppe Verdi em casa quando criança. Talvez isso ajude a explicar por que, apenas 15 dias depois de ganhar o primeiro piano, já tocava o movimento inicial da Sonata ao Luar, de Beethoven.

Joca, como é chamado por sua mulher, a advogada

Carmen Valio – também responsável por suas redes sociais –, relembra que chegou a flertar com o suicídio em um quarto de hotel, por conta das complicações decorrentes da distonia focal do músico, distúrbio neurológico que causa contrações musculares involuntárias em suas mãos. Com mais de 30 cirurgias e múltiplas reinvenções, João é admirado não só por ser um dos maiores nomes da música clássica mundial, mas por sua determinação e sua resistência. Sem formação tradicional em regência, construiu, aos 62 anos, uma segunda carreira como maestro tão intensa quanto a de pianista.

A agenda segue cheia, com eventos recentes no Theatro Municipal de São Paulo e apresentações confirmadas em Xangai e Genebra, além de uma possível parceria com a Prefeitura de Nova York para o ensino musical. Recentemente, foi homenageado pela rainha da Espanha por sua trajetória profissional e viu a data de seu aniversário – 25 de junho – ser decretada como o “Dia da Música Clássica nas Escolas Municipais de São Paulo”.

Desde 2006, à frente da Fundação Bachiana, dedica-se a um projeto de democratização da música clássica, convencido de que a arte não é privilégio, mas ferramenta de transformação. “A minha carreira foi maravilhosa como pianista e como maestro, mas nada disso significa deixar um legado. Ele virá por meio da educação musical.”

Além da ala jovem, a Bachiana Filarmônica do Sesi-SP conta, desde 1º de maio, com a Bachiana Sênior, voltada para músicos com mais de 65 anos. Com isso, torna-se a primeira instituição no mundo a reunir os três segmentos da música clássica: jovens, profissionais em atividade e aposentados. Sobre esse e outros temas, João Carlos conta a seguir.

Carbono Uomo

“MINHA CARREIRA COMO MAESTRO E PIANISTA FOI MARAVILHOSA, MAS NADA SIGNIFICA DEIXAR UM LEGADO. ELE VIRÁ POR MEIO DA EDUCAÇÃO MUSICAL”

Quais são as memórias de sua infância?

João Carlos Martins

A minha mãe era dona de casa e meu pai era representante de uma firma francesa de aromas. Ele adorava música clássica. Todos os dias, depois do jantar, os quatro filhos tinham que ouvir meia hora do gênero. Primeiro com discos de 78 rotações, depois LPs e, mais tarde, CDs.

Carbono Uomo

E como começou sua paixão pelo piano?

João Carlos Martins

Meu pai sonhava em ser pianista, mas, com dez anos, já trabalhava numa gráfica. No caminho, ele ficava assistindo a uma aula de piano pela porta, até que a professora o convidou para estudar com ela. Ele ficou tão emocionado, que, quando chegou à gráfica, apoiou a mão numa prancha e teve parte de sua mão decepada. Nunca pôde realizar esse sonho. Quando eu tinha oito anos, ele comprou um piano para os filhos. Acredito em espiritismo. A minha mãe realizava sessões espíritas toda segunda-feira. E numa dessas baixou o espírito do Verdi, falando italiano… Tudo isso ainda é um mistério na minha vida, mas 15 dias depois que eu botei a mão no piano, estava tocando o primeiro movimento da Sonata ao Luar de Beethoven. Depois de três ou quatro meses, ganhei um concurso nacional da Sociedade de Bach de São Paulo. Com oito anos comecei a fazer os primeiros concertos em casas de mecenas e universidades, aos 13, fiz a minha estreia oficial e, aos 18, iniciei minha carreira internacional. Eu estudava muito. Sempre fui de estudar.

Carbono Uomo

Quando surgiram os primeiros sinais da distonia focal do músico?

João Carlos Martins

Aos 23 anos, percebi movimentos involuntários nos dedos ao final dos concertos. Morava em Nova York, e os médicos achavam que era psicológico. Mas eu adorava o palco. Cheguei a dar 50 concertos por ano. Somente em 1982 a Organização Mundial da Saúde reconheceu o meu caso e a distonia focal do músico foi considerada uma doença rara. Já realizei 31 cirurgias, a maioria nas mãos, mas também no cérebro. Convivo com dor ou desconforto desde os meus 18 anos, todos os dias.

Carbono Uomo

Em algum momento você pensou em desistir da carreira?

João Carlos Martins

Não só pensei. Aos 29 anos, entrei numa banheira para me suicidar com uma lâmina. Morava em Nova York, estava sozinho, quando o telefone tocou. Era meu professor de piano. Ele falou comigo durante uma hora e me encheu de esperança. Quando voltei para casa, passei a ser o cara com o maior amor à vida que você pode encontrar e priorizei minha saúde mental. Acredito na vitória da esperança e cada dia estou tentando alguma coisa nova. Antes fazia 21 notas por segundo numa escala. Hoje, a cada segundo faço uma. Mas com a mesma paixão e amor.

Acima, João Carlos com a mãe; aprendendo a tocar piano, nos anos 1950; e com o pai. Abaixo, em sentido horário: na gravação de um disco; com Guiomar Novaes; e com Koellreutter. Destaque para os programas de alguns dos seus concertos

“A MÚSICA EXPLICA QUE DEUS EXISTE”

Carbono Uomo

Como foi a transição para a regência?

João Carlos Martins

Aos 62 anos, os médicos me falaram que eu não poderia mais tocar profissionalmente. Caiu o meu mundo. No dia seguinte decidi ser maestro. Juntei 18 músicos aqui em casa e comecei a aprender com eles. Seis meses depois já estava regendo em Londres e Paris. Tomei umas três aulas de regência na minha vida. Como pianista toquei em cerca de 60 países e fiz 2.000 concertos. Como maestro regi outros 2.000. Tudo de cor. Minha memória é muito boa.

Carbono Uomo

Você anunciou o encerramento de sua carreira internacional no Carnegie Hall, em maio passado. Por quê?

João Carlos Martins

Foi o último concerto para valer. Devo participar da inauguração do novo teatro do MoMA, mas é um evento. Viagem internacional me cansa um pouco e quero estar mais envolvido nos projetos educacionais.

Carbono Uomo

Como surgiu a educação musical como missão?

João Carlos Martins

Há uns 20 anos, quando comecei a carreira de maestro, passei a visitar todas as periferias de São Paulo e formar núcleos de crianças com música. No tempo de Bach, uma criança podia ter concentração de várias horas para a música. Quando o Villa-Lobos conseguiu botar o Canto Orfeônico nas escolas, o tempo de concentração podia chegar a 50 minutos. Hoje, com o smartphone e video game, esse período de uma criança na escola para música não passa de 15 minutos. Baseado nisso, criamos a metodologia João Carlos Martins. Em vez de ensinar música a uma criança, a instigamos por meio de uma brincadeira com fundo musical. Fizemos o teste no Liceu Pasteur, em 2025. Como resultado, 80% dos participantes pediram para estudar música no ano seguinte. Esse projeto vai começar em 40 escolas do Estado e 15 da Prefeitura de São Paulo, além de dez da Prefeitura de Mauá. Minha ideia é chegar ao Brasil inteiro.

Momentos marcantes da carreira do maestro, sempre ovacionado pela plateia, e o cartaz do filme que relembra sua carreira

Meu pai viveu até os 102 anos, e eu estou só com 85. A minha carreira foi maravilhosa como pianista e como maestro, mas nada disso significa deixar um legado. Ele virá por meio da educação musical.

Carbono Uomo

Qual o poder da música?

João Carlos Martins

Ela controla a ansiedade, a depressão e desenvolve a coordenação motora. Nossos alunos de Suzano, por exemplo, têm as melhores notas de matemática, geografia, história e português. A droga não faz parte do universo deles. A música une gerações, emoções e até nações. A música explica que Deus existe. Quando o músico sobe no palco, o público tem que sair com uma lágrima nos olhos e com um sorriso nos lábios.

Carbono Uomo

Como é se ver representado nas telas?

João Carlos Martins

No filme João, o Maestro (2017), 80% é realidade e 20% ficção. Não é verdade que no meu primeiro casamento eu voltava com batom para casa, nem que eu bebia. Mas o diretor explicou que isso traria uma dramaticidade. Eu adorei.

Carbono Uomo

Quantos netos você tem? E o que mudou depois de se tornar avô?

João Carlos Martins

Tenho oito netos. Sendo os mais velhos com 23 anos e o mais novo com oito. Quando virei avô, entendi que poderia ter sido um pai melhor. Porque às vezes eu ficava ausente. Mas sempre tive como meta o futuro dos meus filhos, para que eles se realizassem profissionalmente. Meus netos são muito ligados a mim. Quando viajamos, parece um jardim de infância. Escondo-me debaixo da cama do hotel (risos).

TANTAS VIDAS EM UMA

Leitora voraz desde a infância, a comunicadora e curadora musical

Roberta Martinelli vê na literatura a possibilidade de viver novas narrativas e enfrentar histórias que aparecem no caminho

Pensar na literatura e em como ela entra na minha vida é uma maneira de olhar para trás e tentar contar uma história que formou quem eu sou.

É difícil me lembrar do início do meu gosto pelas palavras, mas acho que veio um pouco de cada lugar. Um pouco da escola, surpreendentemente, já que todo mundo reclama das imposições de leituras. Para mim, foi um lugar de descobertas. Eu amava ler os tais títulos obrigatórios. Lembro-me muito de uma aula, quando ainda era novinha, em que a professora selecionava três livros e cada um escolhia o que gostaria. Jogada boa dela, pensando agora, pois escolher a história já faz parte do processo e é uma das coisas que mais me encantam até hoje: pensar em qual mundo eu vou entrar. Eu escolhi O Diário de Anne Frank e amei.

Outro tanto do meu gosto pela leitura veio da minha avó (hoje com 102 anos). Ela sempre leu muito e eu gostava de escolher opções da sua biblioteca: Moby Dick, Poliana, Meu Pé de Laranja Lima. Mais velha, comecei a ler uma escritora que ela amava, Pearl Buck, e a gente vivia procurando suas obras em sebos.

E mais outro tanto desse gosto eu acredito que veio de uma coisa que minha mãe falava quando eu não conseguia dormir, ou quando estava triste ou nervosa: “Inventa uma história na sua cabeça”. Talvez eu tenha criado esse gosto por viver com histórias na cabeça. Escolhia o lugar, os personagens e começava.

Tenho fotos minhas, ainda pequena, lendo no café da manhã: primeiro os gibis e depois livros. A leitora voraz nasceu do vício de estar sempre acompanhando outra narrativa – quando a gente pega gosto por isso, é difícil viver sem.

Eu também trabalho com música há muitos anos e

sempre tive vontade de ter um programa de literatura. O meu Clube do Livro Eldorado mudou o que significa ler na minha vida. Música e literatura estão muito ligadas. A diferença mais marcante era a experiência coletiva. Música nós podemos ouvir juntos. Fico pensando que os clubes do livro são uma maneira de transformar o hábito numa experiência também coletiva – e que trabalho lindo que tantas pessoas estão fazendo de fomento à leitura.

Eu continuo uma leitora voraz, mas agora, trabalhando com isso, preciso seguir prazos. Tenho aquela pilha de livros desejados (quem não tem?) e estou sempre lendo nos intervalos que posso. Leio muito de manhã e sempre ando com o livro do momento na minha mochila – não pensem que não tenho o vício no celular, mas revezo com este outro (ufa!). E também leio na hora de dormir. Não consigo deitar sem um livro do lado.

Eu marco fases da vida pelas leituras que me acompanhavam. Quando tinha 18 anos, por exemplo, viciei-me em histórias de prisões depois de ler Estação Carandiru, de Drauzio Varella. Eu estudei Direito por cinco anos e acho que foi muito por causa disso. Quando meu pai estava prestes a morrer, eu li muito sobre isso: As Pequenas Chances, de Natalia Timerman, Aos Prantos no Mercado, de Michelle Zauner – e misturo os meus sentimentos com os delas. No luto foi tão importante ter Chimamanda, José Luis Peixoto, Joan Didion e Noemi Jaffe.

Escolher livros é um tipo de busca por histórias que queremos viver. Ou até histórias que estamos vivendo e não gostaríamos, mas que, acompanhada, às vezes, melhora. Temos tanto para viver, né? E tanto que não cabe na vida, mas que na literatura é sem limites. Eu gosto assim.

Roberta Martinelli, comunicadora, curadora e pesquisadora musical

UM DEFEITO DE COR

Ana Maria Gonçalves | Record

Esse livro é fundamental e deveria ser obrigatório nas escolas –para quem ama os obrigatórios. Assusta pelo tamanho, mas todo mundo tem que ler. É um livro que me fazia confundir sentimentos, sabe? Tenho até inveja de quem ainda não leu. Tenho saudades de Kehinde.

MATA DOCE

Luciany Aparecida | Alfaguara

Saí completamente transformada dessa leitura. Como é importante ler sobre mulheres e colocar essas mulheres juntas. Acompanhamos a trajetória de Maria Teresa, moradora de um vilarejo rural na Bahia, e a força de quem veio antes, além da construção do que está por vir.

BATIDA SÓ

Giovana Madalosso | Todavia

Apesar de recente, esse título me pegou de um jeito que posso chamá-lo de um dos livros da minha vida. Sabe quando as questões que você sempre bate estão todas ali? Eu sou uma pessoa que não acredita em muita coisa, mas com o livro entendi que acredito: nas pessoas, nos encontros, na vida.

POETA CHILENO MORRESTE-ME

O DESERTO DOS TÁRTAROS

Alejandro Zambra | Companhia das Letras José Luís Peixoto | Dublinense

É o livro que eu dou para todo mundo de presente e falo: tem que ler. O Zambra escreve de um jeito que parece lhe pegar pela mão e lhe conduzir. Ao mesmo tempo engraçado e bonito que só ele. E a trilha sonora desse livro?

Dino Buzzati | Nova Fronteira

Quando acabei esse livro, aos 18 anos, deitei na cama, transtornada. Foi ele que me fez entender que um livro pode transformar sua vida. E que transformar a vida é agora, é cada dia, é viver! Penso em reler, mas não quero perder esse impacto. Será que ele sobrevive ao tempo?

A AMIGA GENIAL A LOUCA DA CASA

Elena Ferrante | Biblioteca Azul Rosa Montero | Todavia

Minha entrada no universo de Rosa Montero, que me deixou alucinada: como ela podia escrever tão próximo, tão atormentada e, ao mesmo tempo, tão clara sobre processos criativos?

AOS PRANTOS NO MERCADO

Quando li as quatro obras da série, fiquei vidrada na relação entre as duas amigas e muito identificada em diversos pontos. Fomos criadas num ambiente de comparações e isso acontece forte na trama. Mas sabemos só de um lado da história, e como compramos o que nos é contado, né?

ESTAÇÃO CARANDIRU

Michelle Zauner | Fósforo Drauzio Varella | Companhia das Letras

O livro da cantora Michelle Zauner é de soluçar. Eu terminei um dia antes de meu pai morrer. Ela conta sobre a doença e morte da mãe e diz que, quando ela morreu, as coisas começaram a dar certo na vida dela, pois estava sendo cuidada do lado de lá. Deu-me um quentinho no coração, enquanto me preparava para sentir o mesmo.

A jovem que fui não pode se esquecer desse, que me abriu um universo de leituras sobre prisões no mundo todo. Fui estudar Direito motivada a terminar com o sistema carcerário – saí quando percebi que não conseguiria nunca e que as regras do jogo eram bem mais complexas. Fui para as artes.

Ah, esse livro. Ganhei de um ouvinte, que se tornou amigo, quando meu pai morreu. Deixei de lado e, depois, outro ouvinte me deu com uma arte com meu pai, eu e minha filha. Eu nunca chorei tanto na minha vida lendo: como alguém pode colocar no papel, de maneira tão perfeita, o que sentimos ao perder alguém?

ORAÇÃO PARA DESAPARECER

Socorro Acioli | Companhia das Letras

Socorro é também um mundo que se abre – e que mundo especial. Ela parte de um lugar real, de um fato que aconteceu para todo um universo – nesse caso, Almofala, no Ceará, onde uma igreja foi parcialmente soterrada pelas dunas, e Almofala, em Portugal.

UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES

Clarice Lispector | Rocco

Eu li essa história inteira em voz alta para minha avó em uma viagem para o Uruguai. Todo dia, sentávamos no jardim, ela num banco e eu numa canga e lia. Não me lembro do que falávamos. Engraçado. Tenho a imagem e a leitura gravadas, e só.

TRICOT E CALÇA BOSS • SANDÁLIA BIRKENSTOCK CANETA LONGINES

ENSAIO ABERTO

Sem medo de ousar, o ator Du Moscovis dá vida a uma moda autêntica, contemporânea e cheia de bossa, que tem como destaque a alfaiataria desconstruída e os tecidos nobres

Edição

Agradecimento

Fotos Vinicius Longato
Direção de arte Mona Conectada
de moda Cuca Elias
Grooming Rodrigo Bernardo (Capa MGT)
Casa Bradesco
Moda | DU MOSCOVIS
BLUSA BOSS • CALÇA ALEXANDRE WON COLAR GUERREIRO
CARDIGAN, TRICOT E CALÇA BOSS • COLAR GUERREIRO
BLAZER E CALÇA À LA GARCONNE
CAMISETA INTIMISSIMI UOMO
CINTO CALVIN KLEIN
SANDÁLIAS BIRKENSTOCK
ÓCULOS MONTBLANC • CANETA LONGINES
CAMISA E GRAVATA RICARDO ALMEIDA • RELÓGIO IWC, NA FRATTINA
BLUSA E CALÇA À LA GARÇONNE • RELÓGIO PANERAI, NA FRATTINA • MOCASSIM RICARDO ALMEIDA
TRICOT BOSS RELÓGIO PANERAI, NA FRATTINA

MERGULHO PROFUNDO

Descolado do arquétipo do galã do final dos anos 1990, Eduardo Moscovis assume novos papéis e causa desconforto ao expor, na arte, a brutalidade da violência

Denise Meira do Amaral Takeuchi Fotos Vinicius Longato

A parede descascada, o cimento escorrido e os azulejos brancos quebrados, com alguns números anotados à mão – resquícios do antigo hospital Matarazzo, em São Paulo –compõem um cenário (produzido pela Galeria Apartamento 61) que parece preparado para a ocasião. Eduardo Moscovis chega de sandálias para o ensaio de fotos, na Casa Bradesco, depois da sessão, na noite anterior, de O Motociclista no Globo da Morte. Traz no corpo uma calma quase praiana e, na fala, a memória ainda vívida do monólogo apresentado no Teatro Vivo. “As pessoas sequer têm vontade de aplaudir de imediato”, conta. No palco, Du, como é chamado por todos, interpreta um matemático sensato, defensor da convivência ética, que, a partir de um episódio em um bar, é tragado por uma espiral de violência. A descrição do ato brutal é minuciosa. Na noite anterior, uma mulher na plateia contorcia o rosto a cada detalhe; ao final, um homem resumiu a experiência num suspiro:

“Que porrada”. O desconforto chega a ser tanto que a produção incluiu um aviso na venda de ingressos: “Contém cenas que podem despertar gatilhos emocionais”.

“A peça fala tanto dessa violência do micro, do cotidiano, como do macro, caso dos grandes eventos bélicos. São séculos de confrontos, imposições religiosas e tomadas de territórios. Falo desse incômodo, de pessoas abusivas, expansivas, autoritárias, que intimidam… E também num vetor homem-mulher”, pontua ele, aos 57 anos, que, além de ator, decidiu ser produtor e investir na montagem.

O texto, escrito por Leonardo Netto e dirigido por Rodrigo Portella, não se apresenta como panfletário e convoca o espectador a ocupar um lugar ativo: uma espécie de testemunha, cúmplice ou juiz. Apesar de não ser particularmente atraído por monólogos, por gostar das trocas em cena, Du diz que algo o atravessou ao ler a narrativa pela primeira vez: “Eu me vi aflito, querendo saber o que

acontecia. Peguei-me emocionado”. A proliferação de câmeras e celulares, que ampliou a circulação de imagens violentas, foi o motor inicial da peça. “Se por um lado virou prova e instrumento de defesa, por outro essas imagens acabam sendo normalizadas, consumidas como espetáculo”, observa.

Pai de quatro: Gabriela, 27, Sofia, 25, Manu, 18 e Rodrigo, 14, Du diz que a convivência com as filhas ampliou seu olhar sobre as pautas feministas. “Elas me chamam a atenção para coisas que eu não percebia. É um processo evolutivo”, diz. Para ele, o debate avançou, mas ainda a passos lentos. “Esses dias vi uma publicação mostrando quantas vezes ‘como matar uma mulher’ foi buscado no Google. É muito assustador.”

E a discussão não é abstrata. Protagonista, ao lado de Camila Morgado e Tainá Müller, da primeira temporada de Bom Dia, Verônica, sucesso internacional da Netflix em 2020, Du interpretou talvez seu personagem mais violento, um policial

“Como representar um homem ético sem que ele seja visto como o chato da história?

Estamos dando pouco valor a homens com caráter. E isso diz muito sobre a nossa sociedade”

que abusava, torturava e pendurava, em ganchos, suas vítimas, na presença de sua mulher, vivida por Camila. “Só de ouvi-lo falando ‘passarinha’ me causava arrepios”, desabafou alguém da equipe, entre uma foto e outra, sobre a forma como a personagem era chamada pelo marido.

Entrar na pele daquele homem não foi simples. Du conta que estudou, leu, buscou referências, mas ainda assim encontrava resistência interna. “Você precisa acessar um lugar seu, porque, no fim das contas, é você quem pratica.” Ele lembra que, nos bastidores, muitas mulheres da equipe se sentiam profundamente incomodadas com as cenas, e não só pelo grau de brutalidade, mas por

perceberem, e finalmente nomearem, que elas próprias eram vítimas de violência em casa.

DA PRAIA À FAMA NACIONAL

Nascido em uma família de classe média de Copacabana e criado no Leblon, no Rio, entre sol, futebol e surfe, Carlos Eduardo Andrade só se tornaria Eduardo Moscovis –sobrenome herdado da mãe, de origem grega – quando precisou escolher um nome artístico. Àquela altura, já havia desistido da faculdade de Administração e da ideia de seguir no ramo do pai, descendente de alemães, no setor de materiais de construção. Aos 24 anos, aceitou o convite de uma amiga para assistir a uma aula de teatro – e nunca mais saiu. Estudou no Tablado e na CAL (Casa das Artes de Laranjeiras) e, após três anos em montagens teatrais, foi selecionado para a Oficina de Atores da TV Globo. Vieram Mulheres de Areia, A Madona de Cedro e As Pupilas do Senhor Reitor, mas foi em Por Amor, em 1997, que ganhou projeção nacional. Seu personagem, Nando, um piloto de helicóptero, roubou a cena ao formar um par cheio de química com Milena, vivida por Carolina Ferraz. “O Nando foi o crush da nossa geração”, entoaram as mulheres, em coro, durante o ensaio das fotos desta reportagem.

Du concorda que o casal mexia bastante com a imaginação do público.

“Eles viajavam para lugares paradisíacos, praias desertas, cachoeiras, sob chuva… Quem não queria aquilo? Era puro fetiche.”

O sucesso se consolidou com O Cravo e a Rosa, de 2000, quando interpretou o rude fazendeiro Petruchio, fazendo uma dupla cômica ao lado de Adriana Esteves; e em Alma Gêmea, no papel de Rafael, que encontrava sua ex-mulher reencarnada na pele de Serena, personagem de Priscila Fantin, em 2005. Ao final da novela, Moscovis decidiu não renovar seu contrato com a Globo. “Na engrenagem da fábrica, é mais confortável, pelo lado do empregador, manter o que deu certo. Mas queria experimentar, fazer cinema, teatro, que era onde eu tinha começado, e que me dava um exercício diferente do ao vivo. Precisava sair da minha zona de conforto.”

Sobre a figura do galã, Du avalia que o arquétipo, do modo como costuma ser construído, perdeu apelo. “Como representar um homem ético sem que ele seja visto como o chato da história? Estamos dando pouco valor a homens com caráter. E isso diz muito sobre a nossa sociedade”, provoca. Para ele, o desafio está em sustentar a complexidade: “É muito legal fazer um cara bom, bacana, humano – mas sem cair na caricatura da bondade, porque aí fica desinteressante. Não é porque o personagem é correto que ele precisa ser frouxo, sem punch”.

Talvez por isso, arrisca, o público hoje demonstre mais fascínio pelos vilões, como indicam fenômenos recentes do true crime, a exemplo da série Tremembé, que coloca os crimes e zonas cinzentas no centro da narrativa.

ENTRE O LUTO E O SONHO

Em 2019, Du perdeu o irmão, três anos mais velho, Luiz Vicente, vítima de um ataque cardíaco, no dia do Natal.

Ele era administrador e trabalhava na empresa do pai. Sua mãe, Sevasti, havia feito aniversário no dia anterior. “A gente tinha perdido meu pai [Wernor] cinco anos antes. Ele foi o único relacionamento da minha mãe. Foram casados a vida inteira. Havia uma tensão muito grande em imaginar como minha mãe sairia disso, porque meu irmão morava com ela. Mas minha mãe é uma figura muito, muito resistente. Ela perdeu o pai quando tinha um ano e a mãe, aos 11. E sempre encontrou um jeito de lidar com as dificuldades.”

No último aniversário dela, em dezembro, Du realizou um antigo desejo da matriarca: conhecer Symi, na Grécia, ilha de origem de parte da família materna, que também tem ascendência polonesa. Publicou no Instagram um vídeo da família tomando café da manhã à beira-mar, cantando Ave Maria. Na legenda, escreveu: “Sonhos existem para serem realizados.”

A viagem serviu como um break, já que desde a estreia de O Motociclista no Globo da Morte, Du passa os fins de semana em São Paulo, com apresentações às sextas, aos sábados e aos domingos. Durante a semana, cumpre uma agenda cheia com as gravações da novela das nove da Globo, Três Graças. Na trama, ele ressurge após a dupla de vilões interpretada por Grazi Massafera e Murilo Benício terem tentado matá-lo. Sem intervalos, contou que pretendia aproveitar a folga do Carnaval, na semana seguinte à entrevista, para recarregar as energias. “Bloco de Carnaval só se for no meu quarto de hotel”, brinca.

Em cartaz em São Paulo até final de março, o monólogo segue depois em turnê nacional, junto com a volta da comédia Duetos, ao lado de Patricya Travassos. Moscovis também estará nos longas Cyclone, de Flávia Castro,

Querido Mundo, de Miguel Falabella, além da série Fúria, da Netflix, na qual interpreta um ex-lutador de MMA. Para o papel, passou a treinar mais e fazer dieta, perdendo 15 quilos. “A série trouxe esse pacote: preparador físico, coach, nutricionista e rotina regrada. Aproveitei e limpei excessos.” Entre eles, o álcool. “O álcool mina muita coisa – cognitivamente, fisicamente. A gente normaliza demais. É uma hipocrisia absurda. Tem gente que é completamente contra a maconha, por exemplo, mas enche a cara na frente dos filhos”, critica.

RECATADO E DO LAR

Du foi casado por oito anos com Roberta Richard e, depois, por 15, com Cynthia Howlett. Hoje mantém um relacionamento discreto com uma profissional da área farmacêutica. “Sempre gostei de relacionamentos longos. Casamento é uma experiência diária, evolutiva. A gente tem que estar atento no dia a dia. Como é que a gente namora, depois dos filhos? Para onde vai a atenção? Como manter a libido, os passeios, as viagens, sem abrir mão dos interesses pessoais?” Hoje diz não se imaginar necessariamente casado, embora não descarte a hipótese. “O que é casamento? Pode ser em casas separadas? Monogâmico, aberto? Existem muitas formas.”

Entre um projeto e outro, Du ama ir à praia, mergulhar, correr, jogar futebol e surfar – quando o corpo e a agenda permitem –, além de praticar movimentos primordiais, espécie de pilates. Mas também adora curtir sua casa, em São Conrado, cercado dos filhos, dos cachorros, Clara e Tião, e das árvores frutíferas do quintal, como jabuticabeira, limoeiro, mamoeiro, coqueiro, bananeira, laranjeira e pitangueira. “É o meu maior luxo”, confessa.

De volta ao topo

Entre rankings, distância e disciplina mental, o mesa-tenista carioca Hugo Calderano reflete sobre o que significa pertencer à elite de um esporte global

O nome de Hugo Calderano tem estampado insistentemente o noticiário esportivo nos últimos tempos. Não é para menos. Entre o título histórico no Singapore Smash e a campanha sólida no WTT Champions de Chongqing, na China, o mesa-tenista carioca voltou a orbitar o topo do ranking mundial, reafirmando uma presença que já não soa episódica. Mesmo em derrotas apertadas, como na recente disputa contra o francês Félix Lebrun, uma das novas forças do circuito, Calderano parece confirmar algo mais duradouro do que resultados isolados: a transformação de sua trajetória em permanência competitiva.

Semanas antes, Calderano, vegetariano, fluente em sete línguas e dono de uma coleção com 70 cubos daqueles de montar, já havia protagonizado outro capítulo decisivo dessa fase, quando conquistou o título de duplas mistas no Singapore Smash ao lado de Bruna Takahashi. A vitória reforçou a impressão de que sua presença entre a elite deixou de ser exceção para se tornar constante. Agora, o atleta de 29 anos – que começou no esporte aos oito – conseguiu uma trégua na rotina marcada por treinos, viagens e disputas para conversar conosco sobre os desafios da profissão, na mesa e nos bastidores.

Primeiros saltos

“Eu nunca senti que estava ali por acaso. Sempre acreditei que podia competir de igual para igual com os melhores do mundo. Claro que existe um processo até você provar isso em resultados, mas internamente essa sensação já existia antes.”

Distância

“Desde muito novo eu vivi fora do Brasil para conseguir evoluir. No começo é difícil, porque você está longe da família e dos amigos, mas entende que faz parte do caminho para competir no mais alto nível.”

Além da mesa

“As pessoas veem o jogo, mas não veem o dia a dia. A maior parte do trabalho acontece longe das competições. São treinos repetitivos, ajustes pequenos, coisas que parecem mínimas, mas que fazem diferença em longo prazo.”

Aqui e agora

“O tênis de mesa é muito mental. Muitas vezes o jogo é decidido antes mesmo de começar, pela forma como você entra, como pensa nas situações e como reage aos momentos difíceis. É preciso estar presente o tempo todo, porque qualquer distração muda completamente a partida.”

Sob pressão

“Com o tempo aprendemos que a pressão sempre vai existir. Quando você é jovem, quer chegar lá. Quando chega, a expectativa muda. As pessoas passam a esperar resultados o tempo todo, e você precisa aprender a lidar com isso de forma natural.”

Evolução

“Hoje eu me conheço muito melhor como atleta e como pessoa. Entendo melhor meus momentos dentro do jogo, minhas emoções e como reagir a elas. Isso vem com a experiência.”

Motivação

“Nos grandes torneios a motivação vem naturalmente. O desafio é manter o mesmo nível de concentração e dedicação nos períodos entre competições, quando não existe tanta adrenalina.”

Daqui pra frente

“Eu fico feliz quando vejo crianças começando a jogar tênis de mesa e dizendo que acompanham minha carreira. Não foi algo que planejei, mas é especial perceber que você pode inspirar outras pessoas.”

Hugo Calderano, no WTT Champions Doha e no WTT Star Contender Doha

Felipe Bronze

Carbono Minds
“Sempre tratei as cozinhas por onde passei como se fossem minhas. A melhor maneira de você gerenciar os negócios é ter cabeça de dono”

Com 25 anos de carreira, Felipe Bronze não para de inovar. Sua mais nova empreitada é uma plataforma que impulsiona outros nomes da gastronomia

Por Luisa Alcantara e Silva Retrato Thays Bittar

Dono de duas estrelas Michelin com seu restaurante Oro, no Rio de Janeiro, o chef carioca Felipe Bronze não para. Com 25 anos de carreira, ele acaba de abrir em São Paulo mais uma casa, Lina, em parceria com a chef Bia Limoni. Na cidade, ele já era dono do Pipo e do Taraz, no hotel Rosewood. E vem mais por aí. Seus próximos sócios devem ser Paul Cho e Fred Caffarena.

Essa união com outros nomes da gastronomia faz parte do Bronze+, plataforma de negócios pensada por Bronze para impulsionar outros chefs em diferentes negócios e projetos, não só em novos restaurantes. A iniciativa começou com profissionais já conhecidos, mas a ideia também é trazer cozinheiros superqualificados, com menos destaque. Além de comandar o Bronze+ e seus restaurantes, Felipe continua com projetos na televisão. Depois de fazer fama como apresentador de reality shows como The Taste Brasil e Que Seja Doce, ele deve voltar às telas em maio no canal GNT com No Fogo com Bronze. “Minha cabeça é muito atormentada. Estou sempre criando coisas diferentes”, diz Bronze, reconhecido por seu trabalho com brasa.

No novo programa, ele vai enfrentar assadores, churrasqueiros e grelhadores. “Não vou julgar mais. Estou passando para o outro lado da bancada”, brinca. A verdade é que, seja qual for o lado, Bronze seguirá criando e colocando seu tempero em prática. Veja mais a seguir.

MAIS E MAIS “Aprendi muito ao trabalhar na TV com jovens chefs. Ver a transformação deles sempre foi uma injeção de ânimo. Foi esse um dos motivos que me levou a criar o Bronze+, para unir o meu trabalho ao de outros profissionais, conhecidos ou não. Será um negócio colaborativo, em que eu vou melhorar a cozinha de outras pessoas e elas vão melhorar a minha, porque também estarei aprendendo.”

JUNTOS SOMOS FORTES “A ideia é abrir novos restaurantes com essas parcerias, inclusive já inaugurei o Lina, em São Paulo. Mas o Bronze+ vai além disso. Hoje, se eu quiser fazer um evento, eu preciso estar presente. Mais para frente esses outros profissionais poderão

comandar o evento. Assim, cresceremos juntos.”

TOMA LÁ, DÁ CÁ “Hoje, tem uma rixa de chef de um lado e influenciador do outro. Do meu lado, a gente pensa: ‘Nossa, o cara que nunca fritou um ovo está ganhando fortunas com vídeos para marcas e, quem está na gastronomia, não’. E o influenciador fica chateado por não ter o reconhecimento de um chef. Sem querer impor regras, mas a gente pode olhar tudo na vida pela perspectiva do copo meio cheio ou meio vazio. Então, dentro do Bronze+, pensei em unir essas duas forças criando um negócio de audiência, em que a gente pega emprestada a audiência de influenciadores e coloca junto com o prestígio dos chefs em restaurantes pop-ups, por exemplo.”

ORIGEM “No começo da minha carreira, o maior desafio que enfrentei foi não ser estrangeiro. Comecei há 25 anos. Não era moda ser chef, como agora. Os brasileiros não eram reconhecidos e qualquer um que chegava com sotaque europeu, principalmente francês, levava vantagem. É ruim falar de si mesmo, mas, com 25 anos de carreira, acho que posso dizer que contribuí para uma mudança nesse sentido.”

NO COMANDO “Sempre tratei as cozinhas por onde passei como se fossem minhas, mesmo no início da carreira, quando não eram. A melhor maneira de gerenciar os negócios é ter cabeça de dono e, no fim do dia, o chef é um gestor de time.”

SEM PARAR “O movimento me inspira. Gosto de me movimentar. Há muitos anos, vi o documentário Jiro Dreams of Sushi, do chef que faz o mesmo sushi há vários anos. O filme é lindo, e eu fui ao restaurante dele. Espetacular. Mas me fez pensar sobre como as pessoas são diferentes. E que bom que é assim. Porque Deus me livre de ficar fazendo a mesma coisa, no mesmo lugar, a vida inteira. Eu não conseguiria. A minha disciplina está no movimento. Gosto de criar. Preciso disso.”

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Estilo pessoal

Meu estilo olha muito para o clássico, com um pouco de old school, retrô e até um certo ar formal, meio preppy. Estou sempre tentando trazer minha própria individualidade, fugir do óbvio e não parecer igual a todo mundo. É essa mistura entre uma base clássica e um olhar pessoal que busca criar algo diferente.

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Toque de cor

A moda masculina ainda é muito uniforme, especialmente no Brasil, e os homens costumam se arriscar pouco. Para mim, o lenço surgiu como uma forma de trazer cor e personalidade para o look. É sempre um detalhe que se destaca e me diferencia.

MEU ESTILO

GUILHERME RAINER

INFLUENCIADOR

@THEGUIPIREVIEW

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Bela cerâmica

Minha coleção de xícaras vem do meu amor pela cerâmica. Sempre gostei muito e estou constantemente descobrindo novos ceramistas, pessoas que estão fazendo coisas diferentes e bonitas. A beleza é uma força muito presente na minha vida, e a cerâmica carrega muito disso. A caneca acaba sendo uma forma simples de colecionar essas descobertas – além de ter uma informalidade que permite misturar várias estéticas. Gosto também de pedir para as visitas escolherem a xícara quando vão tomar café; é curioso ver como cada pessoa se sente atraída por uma diferente. É uma coleção de objetos feitos para serem usados.

Fotos João Bertholini

Força emocional

Adoro a biografia do Mike Nichols. Ele me conecta com o universo do cinema, que foi o que eu estudei em NYC e é uma arte que sempre me moveu muito. O cinema reúne história, som e imagem, mas, para mim, o que mais importa é o apelo emocional – e o trabalho do Nichols sempre foi muito guiado por isso.

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Cenas guardadas

Morei sete anos em Nova York e sempre amei teatro e musicais. Fui guardando os programas de tudo a que assisti. É uma forma de materializar uma experiência que é essencialmente efêmera: o teatro acontece naquele momento e depois desaparece! Gosto de manter essa coleção de Playbills porque ela me conecta com algo que sempre foi muito importante para mim.

Árvore da vida

Essa pedra com a pintura de uma árvore foi feita pela Susana Gasparian, uma amiga da minha família que mora no interior e pinta rochas que encontra na própria fazenda. Quando vi pela primeira vez, me surpreendeu muito. Tem uma rusticidade, mas também algo muito bonito e pacífico.

5 Pré-história

Essa mala foi um achado de garimpo numa feira. Eu adoro procurar objetos que já têm uma história antes de chegar até mim. Acho que isso também aparece muito no meu interesse por moda e mobiliário vintage. Gosto de coisas que carregam memória e que já viveram outras vidas.

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Sweet love

Minha relação com a arte ainda é de interesse e descoberta; estou no início dessa jornada e tenho gostado muito de conhecer artistas novos. Essa obra é do Gabriel Bacchi, um artista muito jovem do Sul que está começando agora. Ele expressa a arte homoafetiva de um jeito muito doce. Existe quase uma contraposição com a cultura gay que muitas vezes é representada de forma mais carnal, mais ligada ao corpo e à sexualidade. No trabalho dele, sinto algo mais terno, mais amoroso. Foi isso que me tocou e me fez escolher essa obra.

Entre as imagens, o amplo galpão ocupado pela Verniz no bairro Barra Funda. As colaborações com artistas estão sempre presentes, como na escultura de Yohannah de Oliveira (acima) e no vaso de pneu de Tiago Tormin (no topo da página). Ao lado, os sócios Luciano, Paulo e Fábio.

MATÉRIA VIVA

Três sócios, três olhares e uma curadoria sem fórmula. A Verniz transforma descarte em design e aposta no reaproveitamento como caminho para o mobiliário contemporâneo brasileiro

Verniz

Com 12 anos de estrada, a Galeria Verniz (@vernizsp) se consolidou como um dos endereços mais autênticos do design em São Paulo. O que começou no Centro da cidade, e que também passou pelos Jardins, hoje ocupa um galpão de 800 m² na Barra Funda. Sob o comando de três sócios — Fábio Matheiski, Paulo Bega e Luciano Tartália —, a galeria opera sob o conceito de “três olhares, uma história”, em que a convergência de gostos distintos cria uma identidade que foge de fórmulas prontas e aposta no instinto.

Especializada em móveis e objetos de arte, a Verniz segue três linhas principais: a vintage, a colaboração com artistas atuais e as criações autorais. O mobiliário é, em grande parte, das décadas de 1950, 1960 e 1970, além do garimpo do anônimo. “Basicamente, nós compramos, restauramos e revendemos, mas o trabalho autoral sempre esteve no nosso DNA. Nós mesmos colocamos a mão na massa para transformar o que seria ‘lixo’ em design, reaproveitando materiais. Agora, o plano é profissionalizar isso com o lançamento de uma linha própria. Nosso foco para este ano”, conta Paulo Bega.

A galeria testemunhou a evolução do mercado brasileiro. Se antes o foco era o rigor do modernismo assinado, hoje a Verniz observa a ascensão dos anos 1970 e a valorização do “mobiliário colecionável”. Segundo Paulo, o cenário mudou. Boa parte do que ele chama de “filé-mignon” do design assinado (como peças de Lina Bo Bardi, Joaquim Tenreiro e Jorge Zalszupin) acabou indo para o exterior. Por isso, encontrar valor no exótico e no anônimo pode ser um caminho a ser seguido. “Resgatamos o potencial de peças que muitos considerariam descartáveis, transformando, por exemplo, uma janela antiga em mesa ou sobras de tapetes em estofados de poltronas”, diz Paulo.

Trabalho em conjunto

As colaborações com artistas também são valorizadas pela Verniz. Os nomes são escolhidos de forma intuitiva, como a própria curadoria da casa. Alguns exemplos são

Tiago Tormin, responsável por trazer vida nova a itens parados no acervo com inspiração na natureza brasileira, e Yohannah de Oliveira, que apresentou pinturas, esculturas e peças que integram materiais como resina, cerâmica e madeira.

Essa nova fase busca não apenas oferecer peças à pronta-entrega a um público de arquitetos e decoradores, mas também democratizar o acesso ao design de qualidade com materiais sustentáveis. Como se vê, a Verniz se prepara para os próximos anos como um laboratório onde o vintage serve de matéria-prima para o mobiliário contemporâneo brasileiro.

OS ARTÍFICES

Entre madeira de reúso, técnicas tradicionais e processos autorais, esses marceneiros reafirmam o valor e a importância de se trabalhar com as mãos

AMILCAR OLIVEIRA • AM.O ATELIER @am.o_atelier

Amilcar é neto e filho de marceneiros. Seu avô português chegou ao Brasil já com o ofício nas mãos, junto às ferramentas que ele ainda guarda com carinho, como um formão de entalhe. Embora tenha seguido carreira como diretor de cinema e televisão, a madeira sempre esteve por perto. Na infância, se divertia na marcenaria da fábrica de materiais de construção de seu pai e, em 2018, construiu uma casa em uma árvore para os filhos, em Gonçalves (MG). Durante a pandemia, dedicou-se às primeiras cadeiras, influenciadas por Joaquim Tenreiro. Hoje mantém um showroom em Pinheiros, com peças vendidas no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos, em especial as escrivaninhas, que são as mais procuradas.

Madeiras mais usadas: freijó, sucupira, taquari, jequitibá, marfim e roxinho

PEDRO JAGUARIBE • ABAETÉ MARCENARIA

@abaete_marcenaria

Baterista desde a infância, Pedro estudou Economia antes de se dedicar à música nos Estados Unidos. De volta ao Brasil, passou anos trabalhando com trilhas para publicidade e cinema, até que o interesse pela madeira falou mais alto. Mudou-se para Portugal, onde se aprofundou na Fundação Ricardo Espírito Santo, em Lisboa, referência na marcenaria clássica europeia e na carpintaria de encaixes. Quando voltou a São Paulo, há cerca de um ano, fundou, ao lado do amigo Marcos Reis, a Abaeté, marcenaria artesanal que privilegia experimentação e mistura de madeiras. “A marcenaria tem um paralelo com a música. Tem que praticar. Se fico sem fazer nada, já volto esquisito, assim como na bateria. É uma lição de humildade dia a dia.”

Madeiras mais usadas: freijó, jequitibá, sucupira, muiracatiara e jatobá

PIERRE-YVES GUY • ATELIER JURÁ

@atelier.jura

Nascido na França e radicado no Rio, Pierre cresceu cercado de madeira: seus avós paternos e maternos tinham a marcenaria como hobby e gostavam de presentear os netos com pequenos móveis feitos por eles. Formado em engenharia aeroespacial, Pierre se mudou para o Brasil em 2014 para trabalhar com máquinas agrícolas. Em paralelo, montou uma oficina de marcenaria em casa, em São Paulo, fazendo projetos para amigos. Com a pandemia, decidiu apostar no seu desejo e abriu, em 2021, um galpão no Rio de Janeiro, hoje em Santo Cristo. “Trabalhar com madeira é muito bonito porque ela tem cheiro, toque... E eu sempre gostei de poder criar coisas.” Os itens mais pedidos são móveis planejados, camas e mesas.

Madeiras mais usadas: tauari, cumaru, ipê e freijó

FERNANDO MENDES • FERNANDO MENDES ATELIER

@fernandomendesdesigner

Instigado pelo tio, que mantinha uma pequena oficina em casa – onde treinava com aeromodelos e maquetes de trem –, Fernando passou a se interessar pela marcenaria nos anos 1990, quando a internet tornou possível adquirir livros estrangeiros com mais facilidade. Entre as primeiras compras estavam dois títulos de James Krenov, referência no tema. Apaixonado pelo fazer manual, o arquiteto e designer instalou-se inicialmente em uma pequena oficina em Laranjeiras, no Rio, passou pelo estúdio de Sérgio Rodrigues e, hoje tem produções espalhadas em 40 lojas no Brasil e cinco no exterior. “A marcenaria é muito tentadora para quem gosta de trabalhar com as mãos. A madeira é um material generoso: com poucos recursos é possível criar algo.” Entre as peças prediletas estão poltronas e bancos, cujos protótipos desenvolve pessoalmente.

Madeiras mais usadas: peroba-rosa, peroba-do-campo, freijó e jequitibá

JOÃO FRAGA • JUREMA MARCENARIA

@jurema.marcenaria

À frente de uma loja de artigos para festas em Salvador, onde alugava mesas e cadeiras, João descobriu o gosto pela marcenaria quase por acaso. Ao começar a reformar essas peças, passou a se interessar pela produção dos próprios móveis e, pouco a pouco, a oficina foi tomando forma. Iniciou atendendo encomendas para restaurantes, lojas e arquitetos, até desenvolver uma linha mais autoral, marcada pelo uso de madeiras de reúso. “Temos muito acesso a madeiras históricas de Salvador, uma cidade antiga, de épocas em que telhados eram feitos de jacarandá e peroba – materiais que hoje não estão mais no mercado.” Ex-estudante de geografia, ele conta que a disciplina ampliou seu olhar sobre a sustentabilidade e os processos naturais. Sua linha autoral aposta na marcenaria de encaixe, sem pregos ou parafusos, inspirada em técnicas japonesas.

Madeiras mais usadas: peroba, jacarandá, cedro, freijó, imbuia

LUIZ VICENTE • LV ATELIÊ @luizvicente

Ao precisar de uma arara para expor sua coleção de camisetas, criada após cinco anos atuando com branding, Luiz se aproximou da marcenaria. Em 2015, descobriu um atelier compartilhado com uma oficina na Vila Madalena e passou a frequentar o espaço, aprendendo a prática no dia a dia. Com as sobras de madeira descartadas pelos colegas e interessado em upcycling, Luiz começou sua primeira coleção de luminárias. As peças maiores surgiram para a própria casa: mesa de jantar e cama, combinando madeira de demolição e estrutura de aço. Hoje, em Pinheiros, desenvolve principalmente estantes, além de mesas e bancos que unem madeira de demolição a estruturas de vergalhão. “Gosto de encontrar matéria-prima em caçambas de obras e de trabalhar com materiais que já tiveram outra vida. Adoro a ideia de cada peça ser diferente da outra e não algo em série.”

Madeiras mais usadas: madeira de demolição, ipê, peroba-rosa, compensado

ESTEBAN MATEU @esteban.mateu

Formado em marcenaria em uma escola técnica no Uruguai, Esteban Mateu abriu seu primeiro atelier ainda jovem. Depois de alguns anos decidiu mudar de rota: migrou para a gastronomia, especializou-se na Espanha e construiu carreira internacional, passando por Chile, México, Europa e Brasil. No Rio de Janeiro, participou da abertura de hotéis e foi reconhecido como chef revelação, em 2018, à frente do Térèze. Na pandemia, comprou um sítio em Nova Friburgo, reconectou-se às origens rurais da família e voltou à madeira. No Brasil, impressionou-se com a diversidade de espécies. “Tive acesso a 50 ou 60 madeiras que nunca tinha visto. Ando gostando de trabalhar com madeira de poda que encontro por aqui, como goiabeira e jabuticabeira. Isso me trouxe um novo olhar. A marcenaria nos conecta profundamente com a nossa essência. É um trabalho milenar, terapêutico e prazeroso.”

Madeiras mais usadas: ipê, peroba, imbuia, madeira de demolição e madeiras de poda

A FORÇA DA LEVEZA

O balé entrou naturalmente na vida de Abraão Fidelis. Com esperança e clareza sobre aonde quer chegar, ele agora vê as possibilidades se abrirem

Abraão (@abraao.fp.bale) tem só 14 anos e uma história de superação que daria um livro – daquelas narrativas que, no Brasil, viram “produto tipo exportação”: um garoto preto que viveu em abrigo até os quatro anos e, depois de adotado, teve a vida transformada pelo balé. Mas isso seria reduzi-lo a apenas mais um vencedor. E antes de ser exemplo de resiliência, Abraão é um artista em evolução, com espírito de esperança e talento que têm chamado a atenção de grandes bailarinos.

A expectativa é de que, em julho deste ano, ele esteja em Nova Jersey (EUA). Em 2025, depois de participar de uma audição na EDASP (Escola de Dança de São Paulo, onde cursa o quarto ano de balé clássico), Abraão foi contemplado com uma bolsa integral para uma imersão que será ministrada pelo bailarino brasileiro Aldeir Monteiro na Princeton Ballet School. Por meio do projeto LAWT (Latin America Workshop Tour), Aldeir tem conectado bailarinos latino-americanos por meio de oportunidades de carreira e treinamentos internacionais em instituições renomadas, como a própria Princeton Ballet School, em

Nova Jersey, justamente onde Abraão sonha estar daqui a alguns meses. “Quero viver novas experiências, fazer amizades, ouvir o que os professores têm a dizer… Enfim, evoluir”, enumera. Para Abraão ingressar no próximo Summer Training Program da Princeton, no entanto, ele ainda precisa que seu visto para os Estados Unidos saia e de, aproximadamente, R$ 20 mil –quantia necessária para custear sua estadia lá. A família tenta arrecadar o valor por meio de uma campanha de doação no Instagram. “Fizemos um ‘trato’ com Deus: vamos à missa toda segunda-feira até eu conseguir viajar”, explica. A mãe, Cláudia – que, ao lado do pai, Luis, sempre apoiou as escolhas do filho – continua: “Este é o nosso voto, e, se o Abraão conseguir viajar, continuarei indo à igreja – nem que chova canivete – até ele voltar.”

A fé sempre caminhou ao lado de Abraão. Um mês antes de ser adotado pela família que se tornaria a sua, ele viveu uma experiência que colocou em xeque sua capacidade de acreditar nas pessoas. Poucas semanas depois de ter sido acolhido em um novo lar, acabou sendo devolvido ao abrigo. O motivo:

ciúme da filha mais velha do casal. “Descobri que eu não pude ficar com eles porque eu era muito legal”, lembra hoje, com leveza. Na época, a filha do casal teve dificuldade em lidar com a chegada do novo irmão e com a atenção compartilhada. Mas isso são águas passadas. E poucos dias depois do impasse, lá estava Abraão de volta ao seu quarto no abrigo, brincando de teatro, sem saber que, naquela plateia improvisada, estavam seus futuros pais.

ARTE NA VEIA

Se há jovens que encontram na arte uma oportunidade, há os que veem nela um sentido de pertencimento para levar durante a vida toda. Abraão é desse time. Quando Cláudia o viu pela primeira vez, sugeriu jogar bola ou brincar no quintal naquele dia de sol. Mas o menino de quatro anos tinha outra ideia: pegou uma moldura velha, reuniu seus bonequinhos e apresentou um número de fantoches. “É assim que se brinca de teatro”, explicou aos pais.

Receber visitas em casa também era motivo de espetáculo. Abraão combinava com a mãe sempre uma entrada

“Quero viver novas experiências, ouvir o que os professores têm a dizer... Enfim, evoluir”

triunfal: ficava escondido atrás da cortina e, no momento certo, era anunciado. Não era timidez, era atuação totalmente intuitiva. Ao surgir, abria um sorriso, fazendo uma reverência espontânea, como se já entendesse os movimentos do balé e um pouco do ritual do palco.

Ao ver o balé pela primeira vez, ele teve certeza de que era aquilo que queria. “Nunca me imaginei fazendo algo que não fosse relacionado à arte”, diz. Ama teatro, música e já até arriscou umas aulas de violão. Mas ao descobrir que havia aulas de balé na escola, o desejo pela dança foi mais forte. Infelizmente, os horários não se encaixaram e, mais uma vez, viu seu sonho ser adiado. A solução foi partir para o judô. E assim Abraão passou dois anos no tatame.

A arte marcial lhe trouxe aprendizados importantes, como consciência corporal, disciplina e respeito.

Mesmo sem saber, ele já preparava o corpo para o que viria em seguida.

Um belo dia, Cláudia perguntou se o filho ainda tinha vontade de fazer balé, já que surgira um espaço na grade escolar. Abraão apenas chorou – de emoção e alívio ao ver que o seu momento tinha chegado. E no dia seguinte começou a dar os primeiros passos.

Além do talento, Abraão tem doçura nos gestos. Ele, por exemplo, cumprimenta com um abraço – não importa se já tem intimidade ou se está conhecendo a pessoa. Na dança, transmite a mesma sensibilidade. O fotógrafo não precisou dar nenhuma instrução para captar as imagens desta matéria. Fechado em seu mundo, Abraão começa a se aquecer com movimentos leves. Faz reverências simples, mas executadas com perfeição, e alonga-se na barra. Só então parte para os giros, amplia as

passadas e, por fim, arrisca alguns saltos. A mãe lembra que ele não precisa se entregar tanto – é uma sessão de fotos, não uma audição. Ele corresponde com um sorriso, como que agradecendo o cuidado. Mas, no fundo, só sabe estar por inteiro no que faz.

Fora do palco, leva a vida com a mesma leveza de seu ofício. Ri dos próprios erros e evita se frustrar, guiado por uma espécie de mantra: “Mesmo quando algo dá errado, está tudo certo”.

Em sete anos no balé, Abraão já conquistou a admiração de nomes importantes. O bailarino cubano Carlos Acosta, diretor do Birmingham Royal Ballet, no Reino Unido – referência absoluta para o brasileiro – já curtiu algumas publicações nas redes sociais de Abraão. E o premiado bailarino brasileiro Jeison Lopes enxerga no menino um reflexo da própria história.

Abraão, em sua rotina de ensaios e em alguns momentos marcantes da sua história no balé
“Ele carrega uma doçura e uma maturidade que vêm desse amor genuíno pelo que faz”

“Eu me vejo nele quando me lembro do meu começo: essa vontade, essa força e esse amor pela dança, além da disciplina”, diz Jeison. “Ao mesmo tempo, ele carrega uma doçura e uma maturidade que vêm desse amor genuíno pelo que faz. É como se o instinto já mostrasse o caminho que ele quer seguir. Eu era assim também.”

Abraão já praticou, ensaiou e se apresentou em praticamente todas as variações do balé. Sua favorita é o pas de deux — o famoso “padedê”. Nem tudo, porém, é tão perfeito como quem vê de fora imagina. Melhorar a flexibilidade e conviver com o TDA (Transtorno do Déficit de Atenção) são desafios que pedem empenho diário. Além dos exercícios puxados de alongamento, Abraão lida com a desatenção, característica do TDA, e trabalha para que ela não interfira nos

ensaios ou nas apresentações. Uma das estratégias é transformar o hiperfoco – também associado ao transtorno – em aliado, quase um superpoder a serviço da dança. “Eu me esforço muito, mas posso falhar. É fácil me distrair.”

Abraão mal sabia que teria que focar 100% em uma dolorosa recuperação depois de romper um ligamento na virilha durante uma aula de dança contemporânea. Foi um mês de afastamento total do balé e uma volta ao zero, acompanhada de muita fisioterapia, cautela e consciência corporal. “Foi um momento difícil”, recorda. “Mas também de aprendizado. Passei a prestar mais atenção no meu corpo.”

PRÓXIMOS CAPÍTULOS

Já que parar nunca foi opção, é assim, transformando tropeços em fôlego novo, que ele segue. Para Abraão,

sonhar é algo tão natural que ele nem sabe explicar de onde vem essa sua vontade incontrolável de ir a Paris. Estar na “Cidade Luz” povoa seus pensamentos desde a infância. Aos quatro anos, anunciou à mãe que iria embora. Apavorada, ela perguntou para onde. Ele não hesitou: “Paris”. Segundo ele, “é onde estão as estrelas – artistas de todos os lugares, gente que brilha no que faz”. Talvez ali já nascesse o desejo de ser quem é: um artista que sonha alto, mas sabe exatamente onde quer chegar. Hoje, vendo com clareza o caminho que se abre à sua frente, Abraão compreende o lugar que quer ocupar no mundo. Uma frase da qual gosta faz cada vez mais sentido: “Quem eu sou, de onde vim e para onde vou”. Se depender de sua determinação, o próximo destino já está traçado: Nova Jersey – talvez seja só a escala antes de Paris.

Marcelo Schaffer
Carbono Minds
“Estamos ocupando a terra para realmente poder mantê-la”

Um dos fundadores da Pata, projeto de conservação dedicado à criação de reservas na Patagônia chilena, Marcelo Schaffer compartilha sua visão em busca de um mundo com mais propósito

Há 12 anos, quatro casais brasileiros decidiram mudar radicalmente suas vidas. O grupo de amigos comprou um pedaço de terra na Patagônia chilena e decidiu fundar a Pata (@pata.patagonia), projeto de conservação dedicado à criação de reservas e sua consequente regeneração.

Os 102 hectares iniciais foram aumentados gradualmente e, hoje, a Pata protege quase mil hectares de terra na região do Futaleufú, um rio na fronteira entre a Patagônia chilena e o lado argentino. Surgiram também novos negócios, como um lodge imerso em uma fazenda orgânica, uma escola e experiências em torno do turismo de aventura. Trata-se de um oásis “de natureza intocada”, afirma Marcelo Schaffer, um dos sócios da Pata.

A inspiração veio dos filantropos americanos Douglas Tompkins e Yvon Chouinard. Hippies na década de 1960, integrantes da contracultura californiana, escaladores, surfistas e esquiadores, eles se encantaram com a Patagônia chilena e dedicaram a vida a conservá-la.

Não à toa, a Pata ganhou o coração de seus hóspedes por sua tranquilidade e seu isolamento, mas o propósito fundamental é abrir os olhos das pessoas diante dos excessos da vida contemporânea. “Quem chega aqui tem preocupações como ‘trocar de carro’, mas são pessoas que deveriam olhar para a abundância que é a nossa vida e fazer alguma coisa a respeito”, pondera Marcelo. Essa e outras reflexões você lê a seguir.

PROPÓSITO “Para nós, o luxo é a experiência mais simples e verdadeira, em um lugar completamente prístino e quase intocado. Estamos ocupando a terra para realmente poder mantê-la. Quando vendo um lote, explico que estou usando o dinheiro para a conservação do todo. É um legado conjunto. Com o valor pago aqui nossos clientes poderiam comprar mais hectares em outro lugar, mas, hoje, quem está na Pata tem mil hectares a menos para se preocupar no planeta. Usamos o capitalismo para que seja regenerativo, criando um modelo de vida que seja sustentável e que impacte o que está a sua volta.”

CONSERVAÇÃO “Criamos um modelo de real estate em que a ocupação da terra adquirida é limitada a apenas 0,5%, sob um regulamento severo e autoimposto. E isso garante dinheiro suficiente para criar uma grande reserva nos

outros 99,5%. Começamos em 2013 com 102 hectares, criamos 17 pequenos lotes e essa grande reserva ad aeternum. Usamos a Pata como uma ferramenta para que as pessoas se conectem com a natureza, se percebam como os mais afortunados e voltem para casa com a vontade de fazer diferente.”

CIRCULAR “Tivemos uma escola durante sete anos. Hoje, ela está no vilarejo. Foi uma das formas que encontramos de devolver para a comunidade local. Além disso, produzimos alimentos orgânicos. Também não estamos conectados à rede. Toda a produção de energia é feita aqui, por meio de painéis solares e bancos de bateria; fazemos tratamento de água, lixo, compostagem, tentando ser o mais circular possível.”

RESPONSABILIDADE “Muitas famílias têm dinheiro infinito e o sistema é muito extrativista. Na nossa visão, elas deveriam ajudar. Precisamos usar o dinheiro de quem tem. Porque quem tem dinheiro tem abrangência. Quem tem abrangência pode mudar muito mais do que um cara que precisa pegar cinco horas de ônibus todos os dias. Quem tem dinheiro deve gerar um impacto para quem não tem. Para a Terra e para o lado humano das coisas.”

QUANTO VALOR “Nós criamos nossos próprios problemas. O cara anda de carro blindado por quê? Porque esse elástico da desigualdade está cada vez mais esticado, mas, as pessoas continuam correndo atrás do rabo. Se eu ganho um pouco mais, já preciso de coisas novas. Esse olhar tem que mudar com muita urgência. Nossa filosofia de reconexão é baseada em duas palavras centrais: amor, que é sinergia, conexão, comunidade e empatia; e renúncia, que é abrir mão daquilo que não é fundamental além do amor. Nós nos desconectamos e as pessoas não conseguem parar de viver correndo atrás do dinheiro, porque, no sistema, para ter sucesso, você precisa juntar o máximo que puder. A hora que você percebe a improbabilidade que é ter ganhado a sua existência e, totalmente por acaso, ter nascido no lugar certo, com a quinta marcha engatada, com a saúde perfeita e com possibilidades quase infinitas, sua existência passa a ter uma questão moral e ética, que é a de que devemos esclarecer o que precisamos renunciar e devolver. O projeto da Pata é essa ferramenta que está aí para inspirar e ver que, sim, é possível fazer diferente.”

TELA EM AZUL

Os aquários – marinhos ou de água doce – evoluíram e hoje não são casas apenas de peixes. Entre plantas amazônicas e corais indonésios, descubra dicas e detalhes do hobby em seus novos tempos

Quando

tinha apenas dois anos de idade, Marcos Zucker passeava com sua babá na Praça Buenos Aires, no bairro paulistano Higienópolis, quando um amigo o empurrou no lago montado ali: “Eu estava vendo os peixes, de fralda, e quando caí enxerguei tudo verde”. O acontecimento poderia ter se tornado um trauma na vida de Zucker, hoje sócio da incorporadora Planta.Inc e empresário no ramo de real estate, mas teve o efeito contrário. “Aquilo me fascinou”.

Enquanto crescia, temas como água, areia, peixes, algas e musgos se tornaram cotidianos ainda na infância. Não demorou para começar a ganhar peixinhos de aniversário, mas o primeiro aquário mesmo só veio aos 13 anos. “Meu pai topou,

mas apenas se construíssemos um.” Depois de dois meses e meio de muita vidraçaria, vazamentos e impermeabilizações, Marcos Zucker finalmente realizou seu sonho. “Isso me marcou muito e, desde então, mantenho o hobby.”

O primeiro aquário plantado de Zucker veio uma década depois. “No comecinho, não havia tecnologia para manter as plantas vivas nos aquários. Isso foi se desenvolvendo, principalmente na Holanda e no Japão. Decidi que era hora de tentar quando fui morar sozinho.” A experiência durou cinco anos e só terminou porque ele se casou e se mudou para a casa onde está atualmente, mas isso não significa que deixou o hobby de lado.

Hoje, Zucker é dono de um

impressionante aquário de peixes amazônicos e plantas originárias da África e da Ásia, com 1.200 litros de água e mais de dois metros de comprimento, montado no centro de sua sala de estar. Literalmente tudo gira em torno dele. Há tubulações que cortam o cômodo, os tanques de filtragem e de gás carbônico ficam expostos e poltronas estão dispostas em posições privilegiadas para contemplação. “A primeira palavra que Ariel [um dos seus três filhos] falou foi ‘peixe’”, ele confessa. Os acarás-bandeira são as grandes estrelas do aquário, convivendo com cardumes de outras espécies menores, um casal de peixes betta e crustáceos, como camarões e moluscos, que ajudam a arejar o substrato e melhorar a microvida do ambiente em geral.

Tecnologicamente, o avanço que permitiu o desenvolvimento e a popularização do aquapaisagismo foi o uso de lâmpadas de LED contemporâneas. Antes delas, era muito difícil disponibilizar todo o espectro de luz para as plantas. No caso dos aquários marinhos, isso permitiu garantir vida de algumas das espécies mais exóticas da natureza: os corais. “Quem busca a versão marinha está pensando nas cores dos peixes e dos corais, seus formatos e detalhes lindos, maravilhosos”, diz Antonio Freitas, dono da loja Planeta Marinho, referência paulistana em aquários de água salgada. “Na água doce, você tem mais peixes, mas pouquíssimos invertebrados e algumas plantas – sempre tons de verde e alguns de vermelho. No marinho, o leque de cores é maior, com verde, azul, vermelho, amarelo, roxo, laranja, além de peixes de cores mais raras como rosa e dourado.”

Desde o lançamento do filme Procurando Nemo, os peixes-palhaço são astros dos aquários marinhos. A facilidade com que se reproduzem em cativeiro e a simbiose que têm com as anêmonas fazem deles figurinha carimbada entre os entusiastas do assunto. Eles convivem harmoniosamente com outras espécies de peixes e com crustáceos, corais, estrelas, ouriços, moluscos, camarões, às vezes até caranguejos. O ecossistema marinho pode ser vasto, mas muito mais delicado. “Nos aquários de coral, tudo o que vive lá dentro produz poluentes. No aquário plantado é o contrário”, explica André Luiz Longarço, da Aqua Base, especializada em aquapaisagismo. “As plantas absorvem poluentes. Portanto, quanto mais planta você tem, mais estável é o ambiente.”

Para se ter ideia de como são universos opostos, “o Brasil é o maior celeiro, tem a maior bacia hidrográfica do mundo – a Bacia Amazônica – com uma infinidade de plantas. São mais de 150 espécies sendo comercializadas para água doce”, explica Longarço.

“Quem busca a versão marinha de um aquário está pensando nas cores dos peixes e dos corais, seus formatos lindos e detalhes maravilhosos”

ONDE PROCURAR

AQUAPAISAGISMO: Aquabase @aquabaseaquapaisagismo São Paulo

AQUÁRIO MARINHO: Planeta Marinho Aquários @planetamarinho São Paulo

No entanto, aqui no País, a coleta de corais é proibida, “provavelmente por um atraso dos nossos órgãos reguladores. Temos espécies invasoras que causam um estrago gigantesco, e talvez a coleta ajudasse a diminuir essa população”, diz Antonio Freitas. Portanto, as variações que chegam aqui vêm da região do Indo-Pacífico, de países como a Austrália e a Indonésia.

No aquário de água doce, a longevidade dos peixes é menor: uma média de 15 anos, com espécies vivendo três, oito, dez anos. No de água salgada há os que chegam aos 50 anos. “A não ser que aconteça algum problema com relação à química da água ou alguma doença, os corais são basicamente imortais, porque vão se propagando, aumentando, crescendo em tamanho. Não é à toa que estão aí há milhões de anos”, afirma Freitas.

PARA SABER

AQUÁTICAS MESMO?

“Mais de 90% das plantas usadas em aquários não são estritamente aquáticas. São do tipo palustres, hidróflas, que podem ter uma vida terrestre e também podem ser submersas. Existem poucas plantas que são 100% aquáticas, como a cabomba e a vallisneria”, explica André Luiz Longarço.

O QUE COMEM?

“A maioria dos peixes é onívora. Eles comem um pouco de alga, outro tanto de peixes menores e crustáceos, zooplâncton e fitoplâncton também. As rações disponíveis no mercado são feitas levando em consideração toda essa nutrição. Há também peixes e outros animais que não se alimentam de ração, apenas da microvida que existe dentro do aquário”, diz Antonio Freitas. “Para se desenvolverem, os corais e as plantas consomem microelementos e elementos-traço presentes na água, como cálcio, magnésio, zinco, molibdênio, iodo, ferro, níquel, além da dureza carbonatada. Eles favorecem o crescimento e a coloração”, completa.

“Existem duas maneiras de você utilizar água salgada. Uma delas é comprando água natural. Mas, no meu ponto de vista, a água natural do nosso oceano não é adequada para os corais, não tem a mesma mineralidade da água encontrada naquela região do Indo-Pacífico. A outra opção é comprar um filtro de osmose reversa, para você eliminar tudo além do H2O da água que vem da torneira. E aí se mistura com sal de várias marcas muito bem conceituadas no mercado”, afirma Antonio Freitas.

COMO SE REPRODUZEM?

É muito complicado reproduzir peixes em aquários e isso se dá por diversos fatores, que vão desde a temperatura da água à compatibilidade entre o casal, passando pelo canibalismo dos próprios pais, que precisam ser separados dos ovos logo após a desova – situação complicada no ambiente restrito do aquário. E, mais importante, a dificuldade de alimentar os filhotes, que em seus habitats comem alimentos vivos muito pequenos, como protozoários, ciliados e nematoides, caso dos microvermes.

No entanto, a reprodução em cativeiro tem cada vez mais se tornado uma realidade, já que muitos animais desaparecem por causa da destruição de seus ecossistemas, e não pela captura sistêmica até o último espécime. Além disso, “existem peixes hoje que são extintos – ou quase –na natureza, mas abundantes no aquarismo, como o Labeo frenatus (tubarão-arco-íris) e o Labeo bicolor (tubarão-pretode-cauda-vermelha)”, explica André Luiz Longarço.

SAL MARINHO
Labeo bicolor
Labeo frenatus

Embora sejam o grande pulmão do mundo, as algas em excesso são indesejáveis nos aquários – além de um indicador importante para desequilíbrios de nutrição ou falta de limpeza. Com uma taxa de proliferação alta, elas podem colonizar rapidamente esses espaços, competindo com outras plantas e animais por nutrientes, o que pode eventualmente acabar com a vida ao seu redor.

BENEFÍCIOS

Do mindfulness ao wabi sabi, os aquaristas garantem que os benefícios de cultivar esses espaços são muitos

Todo dia quando chega a sua casa, vindo do trabalho, Marcos Zucker encontra as luzes de seu aquário ligadas. Os peixes estão acordando com o aumento gradativo da luminosidade – uma programação dos painéis de LED – ao mesmo tempo que pequenas bolhas de oxigênio começam a sair das folhas das plantas submersas, uma constatação visual da fotossíntese acontecendo. “Acompanho cada folha que nasce aqui dentro. É uma observação profunda, é respeito e amor pela natureza, e também educação para as crianças, preservação do meio ambiente”, ele afirma. “É expandir a fundo seus conhecimentos sobre química, física e biologia. É leitura, cultura, geografia.”

Para Antonio Freitas, o maior benefício de um aquário é o mindfulness: ”O aquarismo vai trazer um pedacinho do mar para casa. E também algo que a pessoa só descobre anos depois: a saúde mental. Ajuda-nos a ficar mais calmos, porque nos desligamos

do mundo quando cuidamos de um aquário. A gente esquece todo o resto que está acontecendo fora e foca naquilo ali dentro. Então, o aquarismo deveria ser mais incentivado, porque é um investimento em saúde mental.”

Longarço concorda: “Quanto maior a contemplação, a conexão com a natureza, maior o entendimento sobre aquarismo e a possibilidade de reproduzir essa natureza. E a partir do momento que conseguimos fazer isso por meio da nossa observação, nossa experiência, nossa contemplação, melhoramos como seres humanos. Assim, quando compreendemos a nossa grandeza, a nossa insignificância, o nosso tamanho perante a natureza, passamos a valorizar muito mais isso. Enxergamos a beleza e o wabi sabi, o conceito japonês de que tudo está em constante evolução, e que temos que entender e valorizar a imperfeição das pessoas e das coisas.”

Marcos Zucker e seu aquário
Os aquários de André Luiz Longarço

UM RETORNO

A joalheria masculina reivindica seu lugar no guarda-roupa do homem contemporâneo, cruzando moda, história e valor patrimonial

Àprimeiravista, elas talvez pareçam inusitadas de serem vistas no corpo masculino, mas a verdade é que as joias sempre o enfeitaram. Hoje, entretanto, elas deixaram de ser exceção e se tornaram acessórios fundamentais para a moda e a expressão pessoal do homem. Harry Styles, Bad Bunny, Shawn Mendes e Tiago Iorc são exemplos da cultura pop que mostram isso. Eles aderiram à construção de novas formas de masculinidade e incorporaram a seus figurinos pérolas, correntes e peças conceituais.

Para o estilista e professor de moda Lorenzo Merlino, da FAAP, esse movimento faz parte de uma transformação estrutural da moda masculina. “Ela está incorporando códigos que antes eram associados ao feminino, como cores, decorações, bolsas e joias”, afirma. Segundo Lorenzo, esse processo deve se consolidar nas próximas décadas, até deixar de ser visto como algo inusitado.

As passarelas internacionais vêm atestando isso há tempos. Na estreia de Pharrell Williams na Louis Vuitton, em 2023, modelos desfilaram com colares de pérolas, correntes oversized e broches aplicados a jaquetas de alfaiataria. Em Paris, marcas autorais como Auralee e Lemaire apresentaram colares finos de prata, anéis minimalistas e detalhes metálicos integrados ao vestuário, evidenciando como esse repertório se espalha tanto entre maisons quanto entre grifes de estética mais intelectualizada.

Já no Brasil, o estilista Igor Dadona, especializado em alfaiataria, apresentou coleções masculinas na São Paulo Fashion Week com cristais Swarovski nas peças. O adorno deixa de ser complemento para fazer parte da construção da roupa. Para Merlino, essa integração acompanha também o retorno da alfaiataria. “A alfaiataria sempre esteve ligada a poder e status, porque vem da armadura medieval.

Old Siller

“De um lado, a estética hipermasculina da cultura do rap e do luxo ostentatório; de outro, os códigos mais fluidos e performativos de gênero, comuns ao pop e às passarelas contemporâneas”

Hoje, ela convive com a informalização da moda, mas continua sendo um código de distinção”, diz. A presença de joias sobre paletós e casacos estruturados atualiza esse vocabulário visual.

Código universal

Enquanto as grandes marcas internacionais seguem como laboratórios estéticos, lojas contemporâneas ocupam um espaço intermediário entre a alta joalheria e um mercado mais acessível. A Bormam, fundada em 2023, é uma marca de alta joalheria exclusivamente masculina, com peças em ouro 18 quilates e gemas

naturais. Segundo seu cofundador, Matheus Martins, o projeto responde a uma demanda reprimida. “Aquele homem de camiseta preta e calça jeans está morrendo. Existe uma busca por elegância e por peças que posicionem”, assegura.

Já a Old Siller, criada em 2019, encontrou espaço entre jovens em início de consolidação profissional, diz o cofundador Victor Cordeiro. A marca transita entre a alta joalheria e o segmento premium acessível. “Nosso papel é reinterpretar essas referências e transformá-las em peças que façam

sentido no cotidiano, com qualidade, identidade e um preço mais possível”, afirma. A professora de design de joias Miriam Farah, da Escola Panamericana, nota que o homem se tornou um comprador direto desse produto. “A partir de 2020, o mercado, a moda e a cultura reconheceram um novo comportamento masculino em relação à joia, que agora marca uma identidade”, atesta. Ela aponta mudanças nos materiais e na estética. “Nos anos 1970 e 1980, as peças eram pesadas, com um código de masculinidade muito marcado. Hoje, são mais leves, de ouro, prata ou titânio,

Bormam
Igor Dadona
Lemaire
Tiago Iorc, de Bvlgari

renunciam à vaidade explícita e passam aos detalhes, diz Álamo Bandeira, professor de história da moda masculina na UFPE (Universidade Federal de Pernambuco).

do gângster e do rapper retornam as correntes no peitoral e os grillz nos dentes. Em paralelo, os homens se tornaram mais seguros e menos machistas: hoje eles adquirem peças para si”, diz Bandeira.

com pedras escolhidas para definir uma identidade.” Para Farah, a joia segue como objeto narrativo. “Elas sempre contam uma história, trazem simbologia e memória. Uma peça personalizada considera as aspirações do cliente e pode atravessar gerações.”

Sempre presentes

O uso de joias por homens não é algo novo, claro. Faraós egípcios usavam ouro e pedras, como lápis-lazúli; reis europeus exibiam coroas, broches e colares como insígnias de poder; marajás indianos mantiveram o hábito até o século 20, mesmo após a ocidentalização do vestuário. A virada aconteceu no final do século 18, quando o guarda-roupa masculino se tornou mais sóbrio e funcional – um processo conhecido como a “Grande Renúncia Masculina”, em referência ao abandono da exuberância aristocrática por uma estética associada à racionalidade burguesa. Nesse período, as joias não desaparecem, mas se tornam discretas, com a popularização de abotoaduras, correntes de relógio de bolso, broches de lapela e alfinetes de gravata.

“A diferenciação masculina passou a estar nos detalhes, não na exuberância”, diz Merlino. “Homens usaram joias importantes até o final do século XVIII. A volta dessa joalheria exuberante é uma atualização desses códigos.” As joias eram uma forma de a nobreza demonstrar status. Com a burguesia, os homens

Peças maiores, pedras e colares aparentes retornam ao cotidiano masculino, em diálogo com essa herança histórica – a diferença é que, no século 21, o gesto participa de uma discussão cultural sobre novas masculinidades.

Atualmente, o retorno de joias exuberantes dialoga com duas forças simultâneas: de um lado, a estética hipermasculina da cultura do rap e do luxo ostentatório; de outro, os códigos mais fluidos e performativos de gênero, comuns ao pop e às passarelas contemporâneas. “Com as figuras

Além do valor simbólico, a joia também carrega valor enquanto patrimônio. Segundo o World Gold Council, o mercado global de joalheria de ouro movimenta centenas de bilhões de dólares por ano, com a categoria representando historicamente mais de 40% da demanda total de ouro no mundo, o que ajuda a explicar sua centralidade no universo do luxo. Em 2025, segundo um relatório do banco UBS, o ouro foi a classe de ativos de melhor desempenho no mundo, com alta de cerca de 29% no acumulado do ano – uma alta impulsionada por consumidores jovens e pela ampliação do consumo masculino.

Para Álamo Bandeira, ter uma joia é uma forma de reter sobre o corpo um grande volume financeiro. “É um ciclo virtuoso: moda, patrimônio e herança como informação estética”, diz. “Tudo isso condensado em uma única superfície brilhante.”

ANO A ANO

Relembre momentos-chave dessa visão mais pop em torno da joalheria masculina

1970

Artistas disco e soul, como James Brown, Marvin Gaye e Prince, assim como nomes do rock e do glam, caso de David Bowie, Elton John e Mick Jagger, popularizam colares, anéis, pulseiras e brincos entre homens, associando joias à performance, androginia e espetáculo. No papel do temido mafioso Don Corleone, Marlon Brando usa um anel no filme O Poderoso Chefão

Estilo | JOIAS
Acima, máscara mortuária de Tutankhamon; joias da coroa inglesa; e colar Cartier feito especialmente para o Marajá de Patiala
A$AP Rocky de grillz

1980

O hip-hop transforma correntes de ouro em símbolo de ascensão social. Run-DMC, LL Cool J, Slick Rick e Rakim exibem correntes oversized, anéis e relógios

2000

Rappers entram no circuito da alta joalheria, com peças de maisons europeias. Jay-Z, Kanye West e Pharrell Williams passam a usar peças de marcas como Cartier, Jacob & Co., Bvlgari, aproximando esse universo do streetwear

2010

Passarelas e campanhas de luxo incorporam joias masculinas de forma sistemática. Designers como Hedi Slimane, na Saint Laurent e Alessandro Michele, na Gucci, exploram colares, broches e anéis em coleções masculinas, enquanto marcas de joalheria lançam linhas dedicadas ao homem.

1990

O cinema e a cultura pop reforçam o imaginário do anel e da corrente como signos de poder. O Gangsta rap, com Tupac Shakur, Notorious B.I.G. e Jay-Z, consolida o uso de joias como capital simbólico, enquanto filmes e videoclipes difundem a estética no mainstream

2020

Artistas pop consolidam pérolas, colares conceituais e peças autorais no mainstream. Harry Styles, Bad Bunny, Shawn Mendes, Timothée Chalamet e artistas do K-pop normalizam o ornamento como parte central do styling masculino, cruzando gênero, moda e performance.

RADAR CARBONO

Tradicionais ou contemporâneas, confira as marcas de joalheria com propostas masculinas que estamos de olho

CARTIER

Poucas casas moldaram tanto o imaginário da joalheria masculina. De anéis e pulseiras a relógios icônicos, a marca francesa transformou joias em símbolos duradouros de poder, herança e sofisticação, atravessando gerações sem perder relevância estética. @cartier

BVLGARI

A Bvlgari traduz a joalheria masculina sob uma ótica italiana: volumes generosos, presença visual forte e uma relação direta com virilidade e exuberância. Suas peças combinam metais robustos e design marcante. @bvlgari

PIAGET

Conhecida pela alta relojoaria, a Piaget desenvolveu uma joalheria masculina pautada na leveza visual e no refinamento técnico. Suas criações unem precisão, sofisticação e design elegante, pensadas para homens que buscam luxo sem ostentação explícita. @piaget

GUERREIRO

Trabalha a joalheria masculina a partir de símbolos visualmente fortes. Suas peças têm presença e identidade própria, dialogando com tradição, espiritualidade e uma estética de poder contemporâneo. @guerreirojoias

LIBERTY ART BROTHERS

Marca brasileira de linguagem urbana, a Liberty Art Brothers aposta em joias masculinas diretas e expressivas. Com forte presença visual e acabamento artesanal, suas peças dialogam com o estilo de rua e uma noção moderna de expressão pessoal. @liberty_art_brothers

CASA LEÃO

Tradicional joalheria brasileira, a Casa Leão mantém uma produção masculina marcada pela sobriedade e pelo rigor técnico. Suas peças priorizam o desenho clássico e os materiais nobres, pensadas para atravessar o tempo e acompanhar diferentes gerações. @casaleaojoalheria

SAUER

Referência brasileira em alta joalheria, a Sauer trabalha gemas excepcionais e design atemporal. Na linha masculina, aposta em peças discretas e sofisticadas, que valorizam materiais nobres e acabamento preciso, dialogando com tradição, patrimônio e elegância duradoura. @sauer

TIFFANY & CO.

Ícone do luxo americano, a Tiffany & Co. consolidou ao longo do século 20 uma linguagem própria para a joalheria masculina, unindo rigor gráfico, metais nobres e a ideia de elegância sem excessos. @tiffanyandco

ZAYAT

Com estética arquitetônica e contemporânea, a Zayat desenvolve joias masculinas de forte apelo gráfico. As peças exploram forma, textura e minimalismo, propondo um luxo discreto e atual, alinhado a um homem que valoriza design e identidade visual. @zayat_artjewellery

FRATTINA

Com forte ligação à tradição, a Frattina construiu sua reputação em joias masculinas clássicas, associadas a herança, formalidade e permanência. Suas peças dialogam com um homem que valoriza códigos históricos do luxo e a ideia de joia como legado. @frattina

Um radar do design autoral na Itália e no Brasil, por Beto Cocenza, criador do BOOMSPDESIGN

Por Adriana Nazarian

Há mais de duas décadas, o consultor Beto Cocenza é figura central do design brasileiro, fomentando o processo autoral e a inovação. Responsável por estabelecer importantes conexões no setor, ele também é criador do BOOMSPDESIGN (@boomspdesign), um dos principais fóruns criativos do Brasil, e colecionador de arte desde os 12 anos.

Com o radar sempre ligado para criadores, arquitetos, artistas e marcas que renovam nosso olhar para o design, Beto indica aqui alguns nomes que têm povoado seu imaginário. Da Itália – já que a produção do país europeu ganhou papel de destaque na curadoria do BOOM nos últimos anos – e do Brasil, com promessas expostas no BOOMPOPSHOP, um showroom artsy armado no QG do BOOMSPDESIGN, no Edifício Itália.

Francesco Maccapani Missoni

Neto dos fundadores da Missoni, Francesco é formado em arquitetura, mas é o cruzamento de diferentes linguagens que marcam sua obra. Com uma grande pesquisa em torno da cor, ele é autor de telas e peças que transitam entre o pontilhismo, a abstração e a geometria. @fmaccapani

Designer do ano na mais recente edição da BOOMSPDESIGN, ela faz parte da geração de italianos que está mudando a forma como enxergamos o design por meio de um trabalho bastante autoral. Das instalações aos produtos, Sara faz uso de cores exuberantes e formas elegantes. @sara___ricciardi

Aos 14 anos, esse pintor brasileiro deixou São Paulo para viver nos Estados Unidos e criou uma série de quadros que retratam a cidade da sua infância, mas com novas cores e proporções. Uma volta para casa inventiva e inspiradora. @joao_ansarah

Sara Ricciardi
João Ansarah

Artista multidisciplinar, Zeus integra teatro, cinema, dança Butoh e drag em suas criações. As máscaras marcadas por sombras, um dos destaques de seu trabalho, exploram temas como diversidade e identidade. @zeusachetti

O designer do Morro do Alemão usa o papel machê para criar esculturas e luminárias que misturam surrealismo, kitsch e cultura popular. @osandrovieira

Marcantonio

O designer, que já trabalhou com teatro e arquitetura, cria peças com toque artístico e com temáticas como a conexão entre o homem e a natureza. Como inspiração, ele usa a infância e sua lembrança de brincar com tudo o que encontrava. @marcantonio

Sandro Vieira

Antonio Aricò

Nascido na Calábria, sua missão é contar histórias a partir dos objetos que desenha ao lado de artesãos, de grandes indústrias ou até da própria família. Mais do que funcionais, suas peças flertam com o fantástico e o romântico. @antonioarico

Inovador, o artista cria objetos com formas lúdicas e irreverentes, combinando luxo e funcionalidade. Dos pequenos artesãos às grandes indústrias, ele faz diferentes colaborações na hora de criar. @matteocibic

Matteo Cibic

Yuri Gricheno

Carbono Minds
“A sinergia entre os cérebros qualitativo e quantitativo é muito forte. São coisas complementares, não contraditórias”

Yuri Gricheno, cofundador da Insider Store, mostra como lições de disciplina ajudaram a construir um dos grandes cases de sucesso da moda nacional

O guarda-roupa masculino está em revisão. E a ascensão da Insider Store (@insiderstore) pode ajudar a explicar esse fenômeno. No Brasil, a marca é uma das protagonistas de um movimento cada vez mais presente entre os consumidores: ampliar os limites da estética em busca de roupas que não se somem aos problemas do cotidiano. Yuri Gricheno, cofundador da marca ao lado de Carol Matsuse, percebeu isso em 2017, depois de viver uma temporada nos Estados Unidos, onde estudou Relações Internacionais na Fairleigh Dickinson University.

De volta ao Brasil, entendeu a necessidade de produzir, entre outras exigências contemporâneas, tecidos que respiram melhor, roupas que dispensam passadoria e camisetas capazes de atravessar um dia inteiro de compromissos. Como ideia inicial, uma undershirt tecnológica, que não mostrava marcas de suor.

Deu tão certo que o negócio, nascido 100% online, é hoje destaque do ecossistema da moda direta ao consumidor no País e encerrou 2024 com faturamento de cerca de R$ 400 milhões.

Aos 34 anos, o empresário, que foi profissional de tênis antes de entrar no universo fashion, aplica até hoje aprendizados das quadras à gestão da empresa. À Carbono Uomo, ele fala sobre disciplina, criatividade e qualidade.

DAS QUADRAS PARA A VIDA “O impacto do tênis sobre minha vida ainda é muito alto. São lições que você carrega para sempre. Eu viajava sozinho com 14 anos e tinha que fazer as coisas por conta própria: gerir dinheiro, cuidar do hotel, das malas. É um esporte individual em que você passa muito perrengue e vive grandes desafios com pouca idade. Isso forma caráter, nos dá disciplina e resiliência para outros desafios.”

ACE “Pessoas de sucesso, independentemente do que façam, precisam ter um nível de exposição muito alto. Quando a gente contrata alguém na Insider, tenta entender o que essa pessoa já fez de especial. Para mim, o tênis foi essa experiência. Se você perde um jogo, está eliminado do campeonato. Não tem repescagem.”

SEXTO SENTIDO “Há uma série de decisões contraintuitivas ao longo da jornada de um empreendedor. Muitas vezes elas envolvem escolher entre curto e longo prazo. Você pode precisar de resultados e resoluções urgentes, mas não dá para sacrificar o médio e o longo prazo da organização. Não adianta contratar alguém na urgência, por exemplo, que não esteja alinhado à cultura da empresa. Isso pode custar muito caro no futuro.”

AMBIDESTRIA “Existe esse conceito que a gente chama de “ambidestria”: o cérebro criativo e o cérebro quantitativo. Essas coisas precisam ser ‘e’, não ‘ou’. Olhamos para isso no perfil das pessoas que contratamos, na forma como tomamos decisões e na maneira como construímos produtos. Algumas pessoas têm mais peso de um lado, mas no final essa sinergia é muito forte. São coisas complementares, não contraditórias.”

OUTSIDER “Eu não era um insider da moda, mas alguém de fora, um outsider que não conhecia esse mercado. Não tinha tanta visibilidade das segmentações, dos lifestyles e da complexidade que existe dentro desse universo. Foi um processo muito rico de aprender como a moda é feita, quais são os tecidos, as matérias-primas e como criar produtos. E esse olhar de fora fez com que a gente tivesse uma perspectiva fresca. Ganhamos conhecimento enquanto construíamos a empresa.”

AO VIVO “Até 2025 a Insider era 100% on-line, mas construímos a loja pensando nas necessidades dos clientes e em como eles poderiam conhecer melhor os tecidos. Roupa é um produto vivo. Existe uma diferença entre interagir digitalmente e presencialmente.”

PARTE DO JOGO “A Insider tem um papel de pioneirismo e inovação e, quando uma proposta de valor funciona, ela naturalmente vira referência. A gente vê imitações do nosso trabalho, mas é normal que exista concorrência e que ideias sejam replicadas. Faz parte do processo de influenciar a indústria. Nosso foco é continuar inovando, trabalhar com os melhores materiais e desenvolver produtos cada vez mais diferenciados.”

1

Estilo próprio

Meu estilo nasce de uma combinação muito pessoal: uma espécie de curadoria de peças com elementos naturais e uma paleta de cores mais neutras – preto, cinza, azul-marinho, verde-musgo, bege, branco e caramelo. O kimono e outras peças com influência japonesa aparecem com frequência e, quando misturados a criações autorais, acabam construindo uma estética que, para mim, fala muito sobre liberdade. Entre as designers de que mais gosto estão Tata Melgaço, Fernanda Yamamoto, Alina Amaral e Monica Pondé.

2

Badulaques

Acessórios, para mim, são aqueles que carregam propósito, peças cujo design e cuja história eu conheço. Gosto muito do trabalho da minha querida Beatriz Carvalhaes, do Virgílio, da Lúcia Guache e do pessoal do Atitocou – mulheres que desenvolvem projetos junto a comunidades. São criações que trazem consigo intenção, heranças ancestrais ou um fazer ligado a ações sociais. Hoje, tudo isso faz parte do repertório das minhas escolhas.

MEU ESTILO

CELSO RAYOL

ARQUITETO E PROFESSOR

@CELSORAYOL

3

Peixe é

Esse vaso de cerâmica do povo Waurá, do Alto Xingu (MT), foi comprado na Dois Trópicos e carrega um significado especial. Essas peças são feitas para celebrar períodos de abundância, como uma boa pesca ou uma colheita.

Fotos Lucas Bori

A decoração da minha casa aconteceu de forma natural. No início, defini apenas os espaços principais, como o estar, a mesa de jantar e a pista de dança, depois a posição dos elementos maiores. O restante foi surgindo com o tempo, em camadas. Aos poucos, fui mudando um quadro de lugar, testando novas combinações e deixando as coisas se organizarem de forma orgânica. Preferi permitir que muitas decisões viessem do acaso e da emoção.

4

Pintando o sete

As tintas fazem parte da minha vida desde muito cedo. Pinto desde os cinco anos, fiz cursos na adolescência e, mais tarde, me dediquei de forma mais profissional, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, entre 1998 e 2004. Em casa, guardo essa caixa de tintas que simboliza essa trajetória: minha mãe preservou minha primeira caixinha de guache, que hoje carrega um pedaço vivo da minha história.

Saberes manuais

O artesanato entrou na minha vida a partir de duas experiências muito marcantes: primeiro, meu contato com a designer Janete Costa; depois, uma viagem à Ilha do Ferro com uma amiga, Dany Corrêa, que acabou reforçando ainda mais esse interesse. Desde então, o artesanato passou a ocupar um lugar central na minha busca. É sobre conhecer a origem da peça, conversar com quem a fez e entender, de verdade, tudo o que existe por trás desse fazer.

5

Sagrado

Esse manto verde foi criado por Tata Rodrigues, uma ex-aluna, a partir de um projeto sobre a Copa do Mundo. A ideia era fugir do clichê do verde-amarelo, buscando inspiração nos parangolés de Hélio Oiticica e nos mantos de Arthur Bispo do Rosário. Assim nasceu o “manto da sorte”, que reúne figas, trevos de quatro folhas, fitas do Senhor do Bonfim, pimenteiras e símbolos religiosos. Uma composição de elementos que carregam diferentes referências e proteções.

6

Cabeça boa

Guardo algumas máscaras que marcaram minha trajetória. As primeiras comprei em 1994, em Paraty, como essa de onça. Depois vieram as cabeças, do Julião das Máscaras, da La Ursa, além de outras peças, incluindo uma trazida do Xingu. De certa forma, essas máscaras evocam memórias de quem viveu em cidade do interior, porque lembram espantalhos, figuras que parecem existir para afastar maus espíritos.

7

Cabeceira

Minhas leituras recentes giram em torno de uma investigação sobre nossas raízes e sobre o sentir. Tenho me interessado por livros indígenas e textos de Ailton Krenak, além de autores como Juhani Pallasmaa, que falam de uma arquitetura pensada não só para ser vista, mas sentida. Também tenho lido sobre sonhos nas civilizações indígenas, como Sonho para os Yanomamis e Oráculo do Sonho. Essas leituras refletem um momento de olhar mais profundo para as origens, para o corpo, o tato e para uma compreensão mais sensível de mim mesmo.

Casa viva

Na página ao lado: Trampolim - banhista | 2019 | óleo sobre

Wade in the water (after Adriana Varejão) | 2019 | óleo sobre linho
Banhistas nº 3 - espreita | 2020 | óleo sobre tela
Wade in the water II | 2020 | óleo sobre tela
Eucalipto - corpo elétrico | 2020 | óleo sobre tela
Fabulação I | 2021 | óleo sobre tela
tela

Para o brasiliense Antonio Obá, cada trabalho é visto como uma luta que não sabe como vai terminar. E é assim, sem tantas certezas, que ele vem ocupando espaços como a Tate Modern e o Reina Sofía

Antonio Obá INCERTEZAS

A vida de Antonio Obá teve, como ele conta, um momento daqueles divisores de águas. Aluno do ensino médio em uma escola pública em Ceilândia (DF), onde nasceu, ele foi convidado para participar de um programa para estudantes com alguma habilidade especial em diferentes áreas. No seu caso, um desenho apresentado na aula de educação artística resultou na oportunidade. Foi ali que Obá descobriu que algo que lhe era comum – desenhar – emocionava as pessoas. “Vi que a expressão artística poderia ser meu ofício”, diz. Obá acabou entrando na faculdade de Publicidade, mas era na Casa da Mão, um laboratório de pesquisa com produções focadas no trabalho manual, que ele realmente se encontrava. No último ano da graduação, outro momento o marcou. Em uma reportagem na revista da universidade, Antonio foi citado como “artista”, algo que não esperava. Ficou animado, mas o professor Newton Scheufler, hoje um amigo, provocou uma reflexão. “Ele disse que, para eu ser artista, deveria me dedicar seriamente, o que não estava fazendo naquele momento”, lembra Obá. Já desmotivado com a publicidade, trancou a matrícula e foi para a graduação em Artes Visuais.

A GRANDE VIRADA

Ainda que considere essas passagens marcantes, Obá não sabe em que momento se tornou artista. “As escolhas que você faz na vida são indicativos do que você é. Então foi algo que foi acontecendo.” Muitas vezes, quando não conseguia participar de um projeto que se inscrevia, vinha um incômodo, mas não a ponto de neutralizá-lo. “Apareceu muita gente que confiou no meu trabalho, mas a primeira pessoa tem que ser você mesmo. E eu sou o meu maior crítico.”

Confiante em seu processo de criação, Obá – o nome artístico vem do iorubá e se refere a uma guerreira – vê cada trabalho como uma luta. “A pintura é muito fabulosa porque não nos proporciona nenhuma certeza. Fiz isso em uma tela. Vou repetir na outra? Não funciona assim.”

A humildade, segundo ele, faz parte de um processo que não mede tentativas em busca de acertos. Antes de molhar o pincel, por exemplo, ele prefere aguardar para deixar a tinta secar mais um pouco. “Acredito que a humildade neutraliza certos ímpetos e potencializa outros.”

E é assim, entre tentativas repletas de tato, que ele trabalha de segunda a sábado, oito horas por dia, em seu atelier no Distrito Federal. Uma rotina solitária, em que olhos, mente e mãos orquestram obras em parceria.

Explorador, gosta de representar tradições e rituais, como fez em sua mostra mais recente, Nascimento, em cartaz até poucos dias na Mendes Wood DM, em São Paulo. “Eu me considero um pesquisador de símbolos, arranjando e rearranjando a memória simbólica que a gente carrega”, afirma.

Em uma das obras, por exemplo, o artista recriou um tarô de Marselha, de origem europeia, com elementos do jogo de búzios, africano. Seu intuito é extrapolar os limites das referências culturais.

Os do Brasil, onde ele tem obra no Masp, ele certamente extrapolou. Suas criações já estiveram em Nova York e em instituições como a Tate Modern, em Londres, o museu Reina Sofía, em Madri, e a coleção Pinault, exibida principalmente em Paris. “Nem sei mensurar direito o que isso significa”, diz Obá. Pode ser que um dia descubra – ou não –, mas certamente sua mente criativa seguirá extrapolando limites.

Tênis de aquário

Jogado entre quatro paredes – normalmente de vidro –, o padel vive um momento marcante no Brasil

As regras se parecem com as do tênis, mas a quadra é menor, normalmente de grama sintética e cercada por paredes de vidro – daí o apelido de “tênis de aquário”. Assim é o padel, esporte que chegou ao Brasil no fim dos anos 1980 e agora vive um novo momento. Um dos responsáveis por trazê-lo para cá foi o argentino Marcelo Jensen. Em 1990, ele era professor de tênis em São Paulo e, durante uma viagem ao seu País, conheceu o esporte e se apaixonou. De volta, abriu com um amigo a primeira quadra de padel da capital paulista. Provavelmente, uma das primeiras do Brasil. “Era diferente do que é hoje, com piso de cimento e paredes de concreto, mas rapidamente fez muito sucesso”,

lembra Marcelo, proprietário do Padel Beach, com algumas unidades na capital paulista. Ele estava entre os praticantes assíduos, tornando-se campeão de torneios internos. “É um esporte fácil de se jogar e muita gente se animou”, afirma.

Uma pequena pausa

Nos anos seguintes, o esporte viveu um momento estável por aqui e, mais recentemente, voltou a cair nas graças dos entusiastas das raquetes – os novos endereços sendo inaugurados em diferentes estados comprovam. Marcelo mesmo espera abrir, neste ano, a terceira unidade de sua escola, com dez quadras novas.

“O padel está crescendo mundialmente; e o Brasil acompanha o movimento”, afirma o empresário Alexandre Castanha, sócio da Santo Padel, também em São Paulo. Por mês, ele recebe, em suas três unidades, mais de 800 pessoas. “São praticantes que veem, além dos benefícios para a saúde, o lado social, porque o padel só pode ser jogado em duplas”, diz.

A maioria dos entusiastas está na região Sul, onde o esporte é mais conhecido, mas, segundo Maycon Muniz, membro da Confederação Brasileira de Padel (Cobrapa), o cenário está prestes a mudar. “O padel vem se fortalecendo no Sudeste e a tendência é que cresça cada vez mais no País todo.”

EM JOGO

Algumas regras do padel

Pontuação

Semelhante à do tênis (15, 30, 40, game)

Saque

Deve ser feito abaixo da cintura. A bola precisa quicar na área de saque diagonal adversária

Jogadas

Após quicar no solo, a bolinha pode tocar nas paredes.

SÃO PAULO

Padel Beach @padelbeach_

Valor: R$ 250 a hora (locação ou aula)

• Avenida Mofarrej, 205 B. Vila Leopoldina

• Praça Arcipreste Anselmo de Oliveira, s/nº. Alto de Pinheiros

Santo Padel @santopadel

Valor: a partir de R$ 220 (locação) e R$ 225 (aula)

• Avenida Marquês de São Vicente, 2477. Barra Funda

• Rua Constantino de Sousa, 1279. Campo Belo

• Avenida Major Sylvio de Magalhães Padilha, 16741. Vila Andrade

Arena Emporium @arenaemporium

Valor: a partir de R$ 200 (locação) e R$ 290 (aula)

• Avenida Jurema, 271. Moema

Arena Ibirapuera @arenaibirapuera

Valor: R$ 250 a hora (locação)

• Avenida Doutor Dante Pazzanese, 421. Vila Mariana

PEGUE SUA RAQUETE

Nossa seleção de endereços para quem deseja aderir à prática

RIO DE JANEIRO

Ponto Padel @pontopadel

Valor: a partir de R$ 200 (locação) e R$ 300 (aula)

• Avenida das Américas, 8585. Barra da Tijuca

Padel RJ @padel.rj

Valor: a partir de R$ 125 (locação) e R$ 275 (aula)

• Avenida Raul de Oliveira Rodrigues, 1288. Niterói

CURITIBA

Padel Set @padel_set

Valor: R$ 150 a hora (locação) e a partir de R$ 130 (aula)

• Rua Virgínia Dalabona, 413. Orleans

Sunset Padel @sunset_padel

Valor: R$ 120 a hora (locação)

• Avenida Visconde do Rio Grande, 01. Rio Grande

Curitiba Padel @curitiba_padel_oficial

Valor: a partir de R$ 100 a hora (locação) e a partir de R$ 150 (aula)

• Rua Manoel Hygino dos Santos, 157. Guaíra

Onde

os sonhos crescem

Muito além de mais um destino dos sonhos no litoral do Ceará, Fortim reúne histórias e personagens raros, que fazem de tudo para preservar sua autenticidade. Em especial, uma albanesa que adotou o local como casa

O Sol ainda espreguiçava vagarosamente naquele setembro em Pontal de Maceió, no litoral de Fortim, Ceará. Consultado, o relógio de um dos pescadores que rolavam toras para mover a jangada da areia até o mar marcava 5h10. Dali em diante, não demorou nem quatro minutos para que a alvorada, acompanhada de um alaranjado ainda tímido, se descortinasse e a natureza apresentasse suas credenciais. A maré branda sob o azul hipnotizante do céu se impunha. Entre os pescadores havia uma mulher que não nascera ali. Era Albana Karakushi. Albanesa de Kukës, Albana aportou em Fortim em 2003 e, desde então, vem movimentando a cidade com uma empresa imobiliária, a Alba Imóveis, um restaurante e algumas iniciativas sociais.

Sua história no Brasil começou quando ainda trabalhava em uma imobiliária em Nova York. Uma cliente austríaca a convidou para passar férias no Ceará e, mais do que isso, sugeriu que ela comprasse uma casa em Beberibe, no litoral Leste do estado. Em contraste com Manhattan, não havia energia elétrica, água encanada, nem ruas pavimentadas. Só jangadas. “Um dia, olhando o céu à noite, percebi pela primeira vez que a Terra existia. Mirando as estrelas, senti o céu se movimentar junto com o meu corpo. E me apaixonei de vez.” Em 2004, então, comprou a tal casa, perto da praia, com três quartos e um jardim, por 22 mil dólares.

Não pensava em morar ali, mas não arredou pé ao perceber que o clima mais quente ajudava a aliviar dores físicas que a acompanhavam havia anos. Mais ainda: ali

Rodrigo Grilo e Mariana Ribeiro Fotos Caio Victor
A linda praia de Canoé, adorada pelos fãs do kitesurf

Os pescadores, em mais um dia de trabalho na praia de Pontal de Maceió. A albanesa Albana no lugar que escolheu para fincar raízes

“Um dia, olhando o céu de Fortim à noite, percebi pela primeira vez que a Terra existia. E me apaixonei de vez”

tornou-se mãe de Ilíria, hoje com 9 anos. Albana acabou deixando para trás definitivamente sua história em Nova York, que começou aos 18 anos, quando recebeu um green card para morar e estudar nos Estados Unidos. Com a ajuda dos pais, que tiveram que vender o apartamento da família, ela desembarcou na América valendo-se de uma política do governo estadunidense voltada à diversificação de imigrantes. Para se manter, trabalhou como babá, assistente pessoal, camareira, faxineira e, anos mais tarde, funcionária do Departamento de Estado americano.

Estudou inglês, russo, ciências políticas e diplomacia, na City University of New York, além de acumular estágios em Paris e um máster na Colômbia, onde viveu por um ano. Foi ali, ao ter um problema de saúde, que precisou refazer a rota.

No ano seguinte, Albana conheceu Fortim e outra propriedade, onde começaria a tomar forma a Vila Alba, uma casa com quatro suítes, piscina e vista do mar, que ela aluga para viajantes.

ÚNICA E PLURAL

Outra iniciativa de Albana na região é o Festival Internacional de Gastronomia de Fortim, organizado para impulsionar a cena local. Em 2025, a abertura contou com a

presença do chef Érick Jacquin, que fez questão de provar muitas receitas locais à base de um de seus ingredientes favoritos, o peixe. “Muita gente não trabalha mais para os clientes, e sim para o guia Michelin. Eu abri agora um restaurante que serve só peixe. E a gente trata o peixe como uma joia”, contou o chef.

Essa lógica encontra eco em Fortim. O pescador fortinense Valdeci da Silva, 61, concorda com o francês. “A gente come peixe aqui na praia, como a mariquita, pescado ali mesmo. Eu não troco um peixe desses por um carro. O peixe é mais sadio e faz bem para a memória.”

Celiana Araújo, 25, conhecida como Ana, também valoriza o mar. Ela e o marido, Leonardo Souza, trabalham como roladeiros. Morando num barracão, eles acordam às 3 horas da manhã para rolar os barcos dos pescadores até o mar e, assim, ganhar alguns peixes – parte para comer, parte para vender.

Vindo de um continente mais distante, Emmanuel Ruz é outro exemplo de um estrangeiro que se encantou por Fortim, a ponto de se mudar para a cidade. Com um par de Havaianas nos pés, ele deu aulas de cozinha italiana durante o Festival e serviu sua comida estrelada em uma barraca. E a mistura de culturas não surge em Fortim só em eventos importantes. Em Pontal do Maceió, uma das ruas

deixa isso claro: de um lado, uma loja de açaí e, do outro, uma boulangerie francesa. Não raras vezes, é possível ver alguém saindo de um mercadinho que fica no início da via e passando na padaria. Em direção ao mar, a mão direita segura uma cajuína gelada e a esquerda, um croissant quentinho. Bodes atravessam a rua e o cheiro de jasmim coroa a cena de cinema.

TODAS AS LÍNGUAS

Em muitos pontos da cidade, a mesma placa bilíngue se apresenta: “Land for rent – Terreno para aluguel. Alba Imóveis. Albana Karakushi”. Albana não é mais visitante, mas segue acreditando que, quando uma pessoa de fora chega,

a população tem de fazer parte do processo. “Eu nunca compro um terreno barato de nativos. Eu sempre vou oferecer mais do que ele acredita que vale a propriedade”, afirma.

No Centro de Fortim, em frente à Paróquia de Nossa Senhora do Amparo, a placa de Albana divide espaço com outra com os seguintes dizeres: “A calçada das cascavéis”. A brincadeira foi fixada numa residência comum, onde hoje mora a professora aposentada Josilene Simões Barbosa, 67 anos. Ela cresceu vendo as mulheres da vizinhança se encontrando com sua mãe, Josélia, para conversar sobre a vida. O título ácido veio depois que uma empresária de Fortaleza não foi aceita pelo grupo.

As rodas de conversa foram, aos

poucos, acompanhando o progresso da comunidade. Nas primeiras, a frente da casa era só areia. Depois, surgiu o calçamento e, por fim, o asfalto. Mas o que sempre esteve ali, a poucos metros da famosa calçada, foi o exuberante rio Jaguaribe, um dos protagonistas de Fortim e de todo o Ceará.

Adentrar o rio a bordo de um barco, em alta temporada, revela um paradoxo encantador. Nos bancos de areia, turistas se perdem entre a paisagem e a cerveja, enquanto, nos canais cercados pelo mangue, reina um silêncio interrompido apenas pela presença da natureza. O barqueiro Mário Junior desliza lentamente sua voadora, e pássaros pousam sobre raízes aéreas que buscam oxigênio fora da Terra. Irmão de Josilene,

Albana não é mais visitante, mas segue acreditando que, quando uma pessoa de fora chega, a população tem de fazer parte do processo
A praia Canto da Barra vista a partir da Pedra do Pôr do Sol. Ao lado, o dia a dia e a fachada da Associação dos Moradores de Pontal de Maceió, um dos projetos que contou com o apoio da Alba Imóveis
Se a vida de quem mora em Fortim é marcada pela travessia do rio, a trajetória de Albana se desenrola em travessias muito acima do Atlântico

ele não vive do rio, mas o respeita profundamente, fazendo dele uma fonte secundária de renda e de sorte.

Se a vida de quem mora em Fortim é marcada pela travessia do rio, a trajetória de Albana se desenrola em travessias muito acima do Atlântico. Afinal, crescer como mulher na Albânia, um país com tradição patriarcal muito forte, não foi fácil, nem tampouco chegar aos Estados Unidos.

ENTRE SONHOS E PROJETOS

São lembranças de outros tempos, como essas, que despertaram em Albana a vontade de pensar em ações coletivas. Apoiado por ela, o Programa Agrinho é um bom exemplo: a iniciativa promove educação, cidadania e sustentabilidade nas escolas. Alunos e professores dialogam com a comunidade, como quando fazem visitas aos pescadores, acompanham o cotidiano do trabalho no mar, vão a casas de farinha e roçados, aprendendo os processos da mandioca, do beiju e da tapioca.

Albana sabia que a cidade também carecia de atenção aos espaços comunitários e apoiou duas sedes, a Associação dos Moradores de Pontal de Maceió e a Associação de Jovens de Pontal de Maceió. Sua empresa atuou como patrocinadora

principal e mobilizou outros investidores para renovar estruturas, estimular atividades sociais e criar espaços de convivência e desenvolvimento.

No início de janeiro, uma regata (também custeada por ela) tomou conta da orla. Artesão conhecido por transformar a madeira em barcos, paquetes e jangadas, o senhor Raimundo Expedito foi homenageado ao dar o nome ao evento, como forma de reconhecimento por sua trajetória. “Sei, por experiência própria, que ele muitas vezes esperava o tempo que fosse necessário para receber, respeitando o ritmo dos pescadores. Para Raimundo, ajudar sempre veio antes de qualquer lucro”, afirma Albana, lançando luz sobre uma cidade e seus cidadãos.

Agora, além de um café-restaurante recém-lançado, Albana se prepara para mais um passo: investir cerca de R$ 10 milhões na construção de um hotel na Praia das Agulhas.

Assim como no mar, onde o que se lança um dia volta à costa, seus investimentos seguem o mesmo fluxo: geram lucro, mas devolvem à cidade trabalho, movimento e pertencimento. É um ciclo em que o desenvolvimento não afasta, aproxima – e no qual o mar, que abriu esta história, segue sendo horizonte e destino.

COLÔMBIA VIAGEM

Princesinha colombiana

Revitalizada, hospitaleira e encantadora, Medellín se converte em um dos grandes destinos gastronômicos de 2026

Com olhos atentos, movimentos precisos e silenciosos, quase coreografados, o chef Adolfo Cavalie e sua equipe posicionam cuidadosa e milimetricamente cada item no prato, quase como se estivessem lidando com pedras preciosas. Do outro lado do balcão da cozinha aberta, o pequeno restaurante se enche de conversas animadas que parecem acompanhar as batidas da playlist ambiente.

No TEST Kitchen Lab, a informalidade do ambiente para poucos comensais é quase uma fachada para a alta gastronomia e as muitas histórias por trás de cada receita apresentada. Queridinha da nova safra gastronômica de Medellín, a casa sintetiza bem a nova fase cool da cidade colombiana que, sem pudores, tornou-se um excitante epicentro de cultura e gastronomia.

O passado turbulento dos megacartéis dos tempos de Escobar definitivamente ficou para trás. Foram necessários anos e anos de profundas mudanças sociais, mas, hoje, a chamada “Cidade da Eterna Primavera” (são mais de 500 anos de tradição no cultivo de flores) se revela uma

metrópole hospitaleira, tranquila e extremamente sedutora.

A lenta e planejada transformação resultou em uma mistura muito peculiar de restauração de patrimônio e criação de novos espaços públicos e negócios que estimularam a valorização e o orgulho de tudo que é local e regional.

A metamorfose foi tão significativa que Medellín chegou a ser eleita “o município mais inovador do mundo” pela Urban Land, com teleféricos e até impressionantes escadas rolantes conectando com naturalidade um terreno geograficamente montanhoso e densamente povoado.

A Comuna 13, bairro antes considerado um dos mais perigosos do mundo, se converteu em uma das principais atrações turísticas da cidade, focado em preservação cultural e arte de rua. Um antigo lixão foi genialmente transformado em museu interativo de ciência e tecnologia (Parque Explora), o refúgio de Pablo Escobar deu lugar a um belo monumento às vítimas da violência urbana e o gótico Palácio de Cultura Rafael Uribe virou um misto delicioso de biblioteca, galeria de arte e café.

Algumas das 23 esculturas de Botero que deixam a praça com seu nome, no Centro, mais fascinante

O maior chamariz

da renovada

Medellín é sua evolução gastronômica

O chef Adolfo Cavalie em ação e algumas de suas criações servidas no seu TEST Kitchen Lab

FOME DE QUÊ

Fernando Botero, o filho mais ilustre de Medellín, doou nada menos que 23 de suas inconfundíveis esculturas rechonchudas para serem expostas, gratuita e permanentemente, ao ar livre, em uma espetacular praça que leva seu nome no Centro do destino.

Agora, a cidade esparramada entre as montanhas do Vale de Aburrá vê o arborizado bairro El Poblado virar vedete: uma profusão de livrarias, galerias de arte, cafés, bares, restaurantes e lojas cheias de bossa, que viram bom programa até mesmo a pé, à noite, com tranquilidade.

Não à toa, foram mais de dois milhões de turistas estrangeiros visitando a cidade só no ano passado. Um recorde e tanto para o destino. E, honestamente, é mesmo impossível não se deixar seduzir.

O maior chamariz dessa renovada Medellín é sua evolução gastronômica, em um movimento rápido e dinâmico semelhante ao que tomou Buenos Aires no final da primeira década dos anos 2000. Investimentos polpudos no setor garantem a multiplicação de bares e restaurantes em vários cantos da cidade.

Não é de se estranhar, portanto, que Medellín esteja se tornando o novo hotspot gastronômico das Américas. No ano passado, garfou o terceiro lugar no ranking da Time Out das melhores cidades do mundo onde se alimentar. A mesma publicação batizou a Via Provenza, rua repleta de restaurantes e bares que deu nome à música de Karol G (outra filha ilustre de Medellín), como uma das mais cool do planeta.

Foi logo depois do plano pacificador de 2016 que, pouco a pouco, a cara de Medellín foi mudando. Primeiro, vieram programas de incentivo à substituição de plantações ilegais pelo cultivo de alimentos nativos. Depois, foram oferecidos cursos de formação culinária no campo.

A paixão pelos ingredientes nacionais então chegou com tudo. Surgiram novos restaurantes resgatando receitas tradicionais e criando menus que valorizam a biodiversidade colombiana. Muitos deles passaram a desempenhar papel social importante, trabalhando diretamente com comunidades locais e cooperativas, como os ótimos Sambombi, do chef Jhon Zárate, e Carmen, da precursora Carmen Ángel.

Mais recentemente, o empresário

Juan Pablo Mayorga, apaixonado pela cidade e pela Colômbia, engrossou esse coro. É ele o investidor por trás do TEST Kitchen Lab e de diversas outras iniciativas gastronômicas e de hospitalidade na cidade – do pequeno e descolado restaurante de peixes e frutos do mar Krudo Viches y Vinilos à luxuosa Casa Uribe, villa privativa de quatro suítes no badalado bairro El Poblado (com piscina, jacuzzi e serviço completo de hotelaria, inclusive personal chef preparando o café da manhã dos hóspedes todos os dias).

Para comandar o TEST, escalou o chef peruano Adolfo Cavalie (que está também à frente da cozinha do excelente Casa Barranco, cujo menu peruano é uma homenagem ao caderninho de receitas que o chef herdou

da avó), radicado há mais de dez anos na Colômbia.

Cavalie fez do TEST também um laboratório criativo de pesquisa e inovação gastronômica, em uma cozinha com zero desperdício. Ele e sua equipe viajam periodicamente a outros cantos do país – da Amazônia ao Pacífico, dos arredores de Medellín às montanhas andinas – para conhecer o que há de mais fresco e endêmico em cada canto, e entender como transformar cada ingrediente 100% colombiano em pratos cheios de cor e sabor.

Seu menu degustação no TEST reproduz, com a excelência da alta gastronomia, a herança culinária colombiana, traçando um elo direto e profundamente sustentável com pequenos produtores do país.

Foram necessários anos de profundas mudanças sociais, mas hoje Medellín se revela uma metrópole hospitaleira e extremamente sedutora

Cada jantar ali, impecavelmente harmonizado com uma sequência de coquetéis autorais (com destilados típicos da Colômbia, licores artesanais, kombucha e até chicha), percorre o território colombiano por meio de seus peixes, frutas, ervas, folhas, algas, legumes. O gran finale da refeição traz amostras diferentes do chocolate que produzem ali mesmo, mesclando cacau colombiano com ingredientes amazônicos, como cupuaçu e tucupi. Uma verdadeira viagem pelo país.

Medellín

LA MOVIDA COLOMBIANA

Com Medellín alçada à condição de cidade mais “descolada” da Colômbia, a buena onda chegou também à sua vida noturna, é claro. Depois do reinado das badaladas casas noturnas de nomes como Karol G e Maluma, agora são os bons drinks que dominam a cena.

Vários bares da cidade passaram a desenvolver trabalhos de pesquisa e valorização de ingredientes tradicionais tão significativos quanto nos restaurantes. Como resultado, agora aparecem em listas e rankings internacionais, como o próprio 50Best.

Diversas novas casas surgiram, abocanhando inclusive outros nichos, e o exemplo mais contundente da nova mixologia de Medellín é, sem dúvidas, o rooftop bar Mamba Negra, instalado no topo de um dos edifícios mais altos da cidade. Com paredes envidraçadas e convidativas varandas, as vistas

panorâmicas dividem o protagonismo com os coquetéis. Recentemente criaram um espaço “secreto” dentro do próprio bar, que só atende a partir de reservas. Batizado de Mamba Negra Lab., é liderado pelo mixologista Juan David Zapata e simula um laboratório químico de ares futuristas. Uma sinuosa mesa central recebe apenas dez clientes por noite para um “menu degustação” de coquetéis. A experiência (cerca de R$ 550 por pessoa) é composta de uma jornada de oito pequenos drinks elaborados com fermentados e destilados 100% colombianos, que propõem uma viagem pelas diferentes regiões do país por meio de seus ingredientes-base. Tudo servido com um mise-en-scène quase cinematográfico, que inclui efeitos de luz, fumaças e trilha sonora composta pela Filarmônica de Medellín especialmente para o bar. Imperdível!

Na página anterior, a villa privativa Casa Uribe, no badalado bairro El Poblado. Acima, delícias servidas no Krudo, pequeno – e descolado – restaurante de frutos do mar e, abaixo, cenas do bar Mamba Negra

VIAGEM

Nas entrelinhas

O país no Oceano Índico não ocupava o primeiro lugar da bucket list do arquiteto Sarkis Semerdjian, mas acabou se revelando uma grata surpresa, marcada por praias, florestas e experiências culturais

Visitei o Sri Lanka logo após uma tentativa frustrada de chegar à remota Socotra, no Iêmen.

Foram cerca de 15 dias de uma viagem que combinou, com surpreendente harmonia, história, templos, safáris, jungle lodges e praia. Nada ali permitia monotonia, e talvez esse seja justamente o maior charme da ilha: ela nunca se deixa resumir.

Como tudo foi organizado quase de última hora, tracei um roteiro enxuto e optei por confiar o transporte a uma agência local. A decisão se revelou acertada já nos primeiros dias: depois de observar a naturalidade com que ultrapassagens em curvas cegas e pelos acostamentos acontecem, entendi que dirigir não seria uma experiência prazerosa.

Há, claro, os clássicos obrigatórios. Sigiriya, antiga capital erguida sobre uma rocha monumental, impressiona não só pela escala, mas pela sensação de conquista ao alcançar o topo. Lá de cima, a vista parece suspender o tempo e justifica cada degrau. O mar de montanhas “pontudas” chama muito a atenção, diferindo das nossas, com topos arredondados.

Já o Templo da Caverna de Dambulla oferece um contraste quase meditativo: cavernas esculpidas na rocha, repletas de estátuas e pinturas budistas, onde o ar é denso, quieto e carregado de história.

As interações com os locais são frequentes e, em geral, marcadas por uma curiosidade genuína e uma simpatia imediata. Perguntas surgem com naturalidade, muitas vezes acompanhadas de uma disposição espontânea para ajudar, o que torna os deslocamentos mais leves. Os pedidos por selfies também são comuns, ainda que, em alguns casos, possam carregar uma insistência despretensiosa, especialmente quando direcionados a mulheres viajando com roupas mais leves. Nada que comprometa a viagem, mas o suficiente para exigir certo jogo de cintura.

FORA DA ROTA

As maiores surpresas dessa viagem vieram a partir de desvios de rota. Foi o caso do Gal Oya, um lodge isolado no meio da floresta e deliberadamente desconectado – sem Wi-Fi, para alívio de alguns e leve abstinência de outros –, ofereceu uma experiência imersiva. Nas caminhadas, guias naturalistas revelavam, com entusiasmo contagiante,

“Nada ali permitia monotonia, e talvez esse seja o maior charme da ilha: ela nunca se deixa resumir”

detalhes da fauna e da flora. E, entre elas, pausas estratégicas para um drink à beira da piscina em meio à mata. Nos safáris, grandes manadas de elefantes eram presença constante, quase como se tivessem combinado um encontro. Já com os leopardos a história foi outra. Mesmo no Parque Nacional Yala, famoso por concentrar uma das maiores densidades desses felinos no mundo, não tivemos exatamente sucesso. Para ser preciso, houve um avistamento: uma mancha distante no horizonte, identificada com a ajuda de binóculos.

Encerramos a viagem com três dias de praia em uma região costeira ao Sul. No caminho, cruzamos com os icônicos pescadores equilibrados sobre estacas fincadas no mar, uma cena que parece saída de um editorial fotográfico da National Geographic. Hoje, no entanto, a prática é mais performática do que funcional: a pesca real já não acontece ali, e o espetáculo é, em grande parte, encenado para os visitantes.

Mas a praia sugerida não correspondeu exatamente ao imaginário. Lotada e um tanto caótica, parecia operar sob

Na página anterior, vista do topo de Sigiriya. Nesta página, elefantes na reserva de Senanayake Samudraya e a ponte Nine Arch

um conceito de “paraíso” bastante mais flexível do que o nosso, acostumados às faixas de areia da Bahia. Foi o único momento da viagem em que o roteiro pediu revisão emergencial.

Em um movimento quase instintivo de fuga (e um leve desespero silencioso, já que era a primeira viagem que fazia com minha namorada), partimos em busca de um plano B que acabou se revelando um dos grandes acertos da viagem. Encontramos o The Fortress Resort & Spa, na cidade de Galle. Um refúgio à beira-mar em que a tranquilidade finalmente fazia jus ao cenário. Quartos elegantes, serviço impecável e uma piscina voltada para o oceano compunham o ambiente perfeito para encerrar a jornada – dessa vez, com a sensação de que o Sri Lanka havia, discretamente, guardado o melhor para o final.

Nesta página: templo da caverna de Dambulla; meninos em Rankoth Vehera; homem nos trilhos do trem, na rota entre Kandy e Ella; e complexo arqueológico de Polonnaruwa. Na página ao lado: vista da piscina do hotel The Fortress; templo Koneswaram (também chamado de Parevi Duwa); e pescador em estaca

Sri Lanka

“Uma viagem que combinou, com surpreendente harmonia, história, templos, safáris, jungle lodges e praia”

CARBONO ZERO

FRANÇA À BRASILEIRA

A chegada da Maison Verot ao Brasil aposta em uma produção local que valoriza o terroir e os ingredientes brasileiros. A charcutaria é feita em São Paulo, utilizando fornecedores locais e insumos regionais, o que reduz deslocamentos na cadeia produtiva e fortalece produtores do País. Ao adaptar receitas tradicionais francesas com ingredientes tropicais, como o patê en croûte de pato e manga (foto), a marca busca unir o savoirfaire artesanal francês com aquilo que a terra brasileira oferece de melhor, promovendo uma gastronomia mais conectada ao território e à origem dos produtos. @maisonverot.br

RÉGUA

Quem é pai ou mãe sabe o quão rápido as crianças perdem suas roupas. Foi pensando nisso que um designer francês criou a Petit Pli, com peças que crescem junto com os pequenos. Como? Feitas a partir de garrafas PET recicladas, as roupas usam princípios da engenharia aeroespacial e do origami para se expandirem em até sete tamanhos distintos. @petit.pli

CURIOSIDADE VERDE RECENTEMENTE, O GRUPO HOTELEIRO AMAN PASSOU A USAR APENAS OVOS CAGE-FREE EM TODOS OS SEUS HOTÉIS. @AMAN

TERRA VIVA

Em um jardim regenerativo, o tempo parece correr de outro jeito. A ideia, desenvolvida pelo jardineiro João Queiroz, parte de um princípio simples: recuperar a vida do solo para que o jardim volte a funcionar como um ecossistema. Em alguns casos, a terra pode alcançar até três vezes mais matéria orgânica do que um solo convencional. Acompanhar o processo do solo se recompondo, das plantas crescendo e da biodiversidade retornando, muda também a nossa percepção de tempo e bem-estar. “A saúde do jardim é a nossa saúde”, afirma João. @joaoafq

À FRENTE

Você sabia que a Gucci possui um laboratório de materiais do futuro? Localizado na Toscana, o local é um centro de pesquisa para alternativas sustentáveis ao couro. @gucci

ACELERA

Já imaginou ter seu negócio impulsionado pela L’Oréal? Pois a marca escolheu há pouco as 13 startups que participarão do seu programa de aceleração de inovação sustentável, o L’AcceleratOR . Em parceria com o Instituto de Liderança em Sustentabilidade da Universidade de Cambridge (CISL), o projeto selecionou ideias que apostam em iniciativas para o clima, a circularidade e a biotecnologia. O objetivo é ser um catalisador de soluções para o futuro. @lorealparis

MAIS UM CAPÍTULO

A Dior renovou sua parceria Women@Dior com a UNESCO. Duas ideias simples e fortes: formar mulheres líderes e preservar o savoir-faire. Desde o início, o programa já apoiou mais de 2.800 jovens, de áreas que vão do business à engenharia, passando por arte, moda e hospitalidade. E o interesse só cresce: foram cerca de 12 mil inscrições para a turma 2026/2027, com 300 mentoradas selecionadas. @dior | @unesco

CURIOSIDADE VERDE

É A PRIMEIRA VEZ NA HISTÓRIA QUE A VENDA DE CARROS ELÉTRICOS CHEGA A 25% NO MUNDO, SENDO A CHINA A LÍDER DO MERCADO, COM 50% DO CONSUMO.

1+1 = MUITOS

Mais legal do que ver uma empresa adotar ações pela sustentabilidade é ver duas gigantes juntas por uma causa. A PepsiCo e a Leroy Merlin fizeram uma parceria inédita para compartilhar suas rotas entre São Paulo e Curitiba, reduzindo as emissões de CO2 em 23% nos primeiros meses de operação. @pepsi | @leroymerlin

RECICLAGEM FASHION

Sempre à frente quando o assunto é sustentabilidade, a Suécia inaugurou há pouco um espaço onde nada do que encontramos à venda é… novo! Dos móveis às roupas, todos os produtos expostos nas lojas do ReTuna são de segunda mão, reciclados ou fruto de upcycling. | retuna.se

PELA PRESERVAÇÃO

Você já ouviu falar em Albardão? É lá, no Rio Grande do Sul, que ficam as duas novas Unidades de Conservação do Brasil: o Parque Nacional Marinho do Albardão e a Área de Proteção Ambiental (APA) do Albardão. A ideia é que tais áreas – que somam mais de 1,06 milhão de hectares – garantam a preservação ambiental, a pesquisa científica e o ecoturismo.

RECOMEÇOS

O Projeto Mama Minha, idealizado pelo cirurgião plástico Dr. Fernando Amato, já realizou mais de 140 cirurgias de reconstrução mamária, beneficiando mais de 90 mulheres que aguardavam atendimento pelo SUS – apesar de o procedimento ser garantido por lei. A iniciativa começou com recursos próprios do médico para estruturar e validar um modelo assistencial seguro e eficiente. Com os resultados consolidados, passou a contar com outros investimentos, o que levou à criação do Instituto de Reconstrução das Mamas (IRMAMAS), organização sem fins lucrativos voltada à profissionalização da gestão e à ampliação do modelo, com foco em torná-lo escalável e replicável. O projeto busca reduzir filas do SUS e ampliar o acesso à reconstrução mamária, impactando diretamente a qualidade de vida das pacientes. @meu.plastico.pro | +mamas.org.br

COMPROMISSO

A Associação De Olho no Material Escolar é uma organização sem fins lucrativos que atua pela melhoria da educação brasileira com foco em ensino baseado em evidências científicas, atualização de materiais didáticos e conexão entre teoria e prática. A entidade realiza parcerias com editoras, capacita professores, promove programas imersivos para estudantes e participa do debate de políticas públicas, incluindo propostas para o PNE 2025–2035. Também desenvolve o painel Olhar EDU, ferramenta que reúne dados educacionais para apoiar decisões e monitoramento. O objetivo é elevar a qualidade do ensino e o desempenho dos alunos em avaliações nacionais e internacionais. Carbono apoia. @deolhonomaterialescolar

ALERTA: EM 2025, O CALOR NOS OCEANOS

ATINGIU RECORDE PELO 9º ANO CONSECUTIVO.

ELAS NA DIREÇÃO

Você já ouviu falar do programa Escola de Motoristas? Apoiado pela Suzano, o projeto foi criado para formar mulheres para o setor de transporte florestal na região de Três Lagoas, visando à geração de trabalho e renda, além da igualdade de gênero no setor. Desde 2024, já são 42 profissionais, sendo 19 delas contratadas pela Suzano ou empresas parceiras em 2025. @suzano_oficial

Collab eco que estamos de olho: Agolde + Maria McManus , duas marcas americanas supercool. Com uma proposta sustentável, a coleção limitada trabalha com algodão regenerativo, tingimento eco e outros recursos com menor impacto ambiental. +agolde.com/collections

PARCERIA BOA

PÁGINAS AMARELAS

Tendências para fcar de olho: um guia inteligente por Carbono Uomo

ELES MERECEM

Um mapa afetivo da charutaria no Brasil e no mundo, por André Caruso, autoridade no tema

AU AU RAIO-X

Apoiadora da causa animal, Marcele Becker compartilha lugares onde os pets são bem-vindos – além de marcas incríveis desse universo

Dicas preciosas sobre a culinária em que os vegetais são o centro do prato. Quem conta é Gabriel Haddad, chef do Tau Cozinha

CONCEITO

Mundo afora, o designer Jay Boggo elege espaços que vão muito além do consumo, unindo moda, arte, design e cultura

Apaixonado por óculos, o publicitário Erh Ray indica as marcas que não fcam de fora do seu radar apurado

PELA ESTRADA

Fotógrafo e entusiasta das altas velocidades, Ike Levy indica suas motos favoritas, assim como relógios que são a cara desse segmento

Uma lista de endereços imperdíveis mundo afora para quem tem a alma boêmia e aprecia boa música. Por Facundo Guerra, referência na noite paulistana NOITE ADENTRO

TIM-TIM! Referência em coquetelaria, Alê D’Agostino sugere combinações repletas de sabor – e frescor – de drinks e pratos

Páginas amarelas

ATLAS DO TABACO

André Caruso traça um mapa afetivo e preciso dos rituais, marcas e espaços dedicados à charutaria Brasil afora

Por André Caruso

André Caruso é empresário e curador de experiências de alto padrão no universo do luxo contemporâneo. À frente da Caruso, marca com herança desde 1885, atua na interseção entre charutos premium, hospitalidade, lifestyle e experiências exclusivas no Brasil e no exterior. Com trajetória marcada por viagens a polos históricos do tabaco – como Cuba, República Dominicana e Nicarágua –, André construiu uma rede global de relações com produtores, casas

icônicas e especialistas. A partir desse repertório, traz ao mercado brasileiro não apenas produtos, mas também narrativas, rituais e experiências. Seu trabalho se destaca pela curadoria refinada, pelo olhar cultural e pela capacidade de transformar o charuto em um elemento central de conexão, celebração e pertencimento. Para a Carbono, o expert fez uma seleção afiada de casas e marcas de charutos ao redor do mundo. @carusolounge

SELEÇÃO DAS MELHORES MARCAS DE CHARUTOS

O ápice da tradição cubana. Complexidade, história e reconhecimento global.

Força, profundidade e identidade. Um charuto para quem aprecia intensidade com equilíbrio.

Precisão, elegância e blends pensados como obras de engenharia sensorial.

Uma marca familiar que traduz consistência, respeito ao tempo e excelência artesanal.

COHIBA (CUBA)
PADRON (NICARÁGUA)
ARTURO FUENTE (REPÚBLICA DOMINICANA)
DAVIDOFF (REPÚBLICA DOMINICANA)

AS CASAS DE CHARUTOS PREFERIDAS

LA CASA DEL HABANO – HAVANA, CUBA

Mais que uma loja, um templo. É onde tradição, ritual e tempo caminham juntos.

Cada visita funciona como uma aula viva sobre a história e a identidade do charuto cubano.

ARTURO FUENTE CIGAR CLUB

SANTO DOMINGO, REPÚBLICA DOMINICANA

Ícone da família Fuente. Luxo clássico, serviço irrepreensível e um clima que combina espetáculo, tradição e exclusividade.

PASIÓN HABANOS CLUB

MADRID, ESPANHA

Clube íntimo e sofisticado, onde o ritual do charuto se encontra com a elegância espanhola. Ambiente acolhedor, curadoria precisa e atmosfera pensada para conversas longas e sem pressa.

THE HOUSE OF GRAUER – GENEBRA, SUÍÇA

Elegância absoluta. Um espaço que reúne uma das seleções mais exclusivas de charutos do mundo, e hospitalidade impecável.

Páginas amarelas

REINO VEGETAL

Gabriel Haddad propõe, no Tau Cozinha, uma leitura sensível e técnica da culinária contemporânea, onde os vegetais deixam de ser coadjuvantes para ocupar o centro do prato

O chef Gabriel Haddad, 29, é formado em Psicologia na PUC-SP, área que deixou para seguir sua verdadeira vocação: a gastronomia. Em 2020, iniciou seus estudos no Le Cordon Bleu São Paulo e, poucos meses após se formar, passou a integrar a equipe da própria instituição, onde atuou por um ano. No final de 2022, deu início ao projeto Tau Cozinha, onde desenvolve – ao lado do sócio Fabio Battistella – uma cozinha autoral com foco nos vegetais e construída a partir de estudo, experimentação e técnica. O espaço começou a atender o público em 2023, ocupando um casarão, e, no ano seguinte, se consolidou como restaurante, no formato em que existe até hoje. É a partir dessa trajetória – marcada por mudanças, escolhas conscientes e uma relação próxima com os ingredientes – que Gabriel constrói sua visão sobre a cozinha contemporânea. Para a Carbono, ele compartilha reflexões e aprendizados sobre um dos movimentos mais relevantes da gastronomia atual: a valorização dos vegetais. @taucozinha

Quando falamos de tendências, no Brasil e no mundo, é quase impossível não esbarrar em temas como mudanças climáticas e sustentabilidade. Esses assuntos se tornaram o ponto de partida de um movimento global que propõe olhar para os vegetais com mais atenção – e, em muitos casos, trazê-los para o centro do prato.

Nos últimos anos, restaurantes de alta gastronomia passaram a repensar seus cardápios, transformando-os em propostas mais inclusivas e conscientes. Isso acontece tanto pelo uso reduzido e mais inteligente das proteínas animais quanto, principalmente, pela mudança na proporção entre pratos vegetais e preparações carnívoras. Mas como fazer essa transição? Embora recentemente alguns restaurantes de renome que seguiam esse caminho tenham voltado a servir carne – como o Eleven Madison Park, em Nova York –, hoje entende-se que a escolha por uma cozinha mais vegetal não se trata apenas de um estilo gastronômico, como “sushi” ou “comida italiana”. Trata-se, antes de tudo, de um posicionamento político e cultural. Ainda assim, há um amplo espaço no mercado e um longo caminho a percorrer para que as refeições se tornem mais sustentáveis, equilibradas e inteligentes.

A seguir, algumas reflexões e aprendizados da minha experiência de trabalhar exclusivamente com vegetais.

THE GREENER THE BETTER

COZINHAR COM VEGETAIS DÁ MAIS TRABALHO

“Quando saímos da estrutura tradicional de ‘proteína, acompanhamento e molho’ e passamos a trabalhar apenas com vegetais, a atenção precisa ser redobrada. Texturas variadas, equilíbrio entre gordura e acidez – especialmente considerando que, nesse caso, a gordura costuma ser adicionada e não proveniente do ingrediente – e intensidade de sabor tornam-se pontos centrais da criação.”

O ESTIGMA AINDA EXISTE

“Refeições vegetarianas e veganas carregam um preconceito antigo. Popularizada de forma não religiosa por movimentos como o dos hippies, muitas vezes sem base técnica ou estudo gastronômico, essa cozinha segue sendo vista com desconfiança. Em um mundo cada vez mais polarizado, talvez o melhor caminho não seja uma militância impositiva. O objetivo aqui é outro: convidar os onívoros a experimentarem, oferecendo apenas mais uma refeição – boa, interessante e saborosa.”

O SABOR NASCE DAS RELAÇÕES

“Construir sabor vai além de repetir ingredientes ou aplicar técnicas diferentes sobre o mesmo vegetal. Trata-se de entender como cada elemento se relaciona dentro do prato e também fora dele. O reino vegetal oferece uma diversidade quase infinita de perfis aromáticos, o que torna possível criar combinações precisas, profundas e inesperadas – entre ingredientes e até bebidas. Com o apoio de estudos e técnicas disponíveis hoje, esse entendimento amplia o repertório e abre espaço para experiências sensoriais mais complexas e nada convencionais.”

VEGANOS NÃO SUSTENTAM O MERCADO SOZINHOS

“Apesar do crescimento do movimento, esperar que apenas o público vegano mantenha um negócio é um risco considerável. A realidade é que ainda se trata de um nicho pequeno, mesmo em cidades cosmopolitas como São Paulo.”

VEGETAIS NÃO SÃO GUARNIÇÕES

“Essa dica vale para todo o mercado de alimentos e bebidas. Tratar vegetais como simples acompanhamentos é um erro comum. Ninguém se anima com legumes no vapor – no máximo, se conforma. Acompanhamentos devem receber o mesmo cuidado que o prato principal. Assim, a experiência se mantém interessante da primeira à última garfada. E se um vegetal bem trabalhado pode ser tão saboroso quanto uma proteína, por que não colocá-lo no centro do prato?”

A FORÇA DO PREPARO

“Um dos meus vegetais preferidos para trabalhar é a beterraba. Dependendo do preparo, ela muda completamente seus aromas e as possibilidades de harmonização. Assada, desenvolve notas de caramelo e até um toque amendoado; os açúcares se intensificam e ela combina muito bem com oleaginosas. Quando está crua ela tem uma textura totalmente diferente: fresca, crocante e vai muito bem com cítricos, ervas e elementos ácidos. Cozida, mantém seu aroma terroso, mas perde um pouco do frescor, o que me remete a ingredientes do Mediterrâneo para os pareamentos. Já na brasa, com o defumado, a beterraba se transforma em um vegetal intenso e marcante, capaz de ser protagonista de um prato ou de dialogar com combinações tradicionalmente associadas à carne – como vinho tinto, caldos e cogumelos –, evocando aquele clássico ‘aroma de terra e fazenda’. Mas, confesso: meu vegetal favorito é o brócolis ramoso. Preparado de qualquer forma ele é sempre delicioso: assado, cozido ou na brasa. Brócolis é simplesmente tudo de bom!”

A LENTE DO OLHAR CRIATIVO

O publicitário Erh Ray indica marcas de óculos que traduzem sua estética pessoal: minimalista, fun e autoral

O publicitário e diretor criativo Erh Ray é reconhecido por sua atuação estratégica na construção de marcas e narrativas no mercado brasileiro. Apesar da carreira sólida, marcada por projetos que transitam entre comunicação, branding e conteúdo, não é apenas isso que desperta a atenção. Assim como seus trabalhos – que unem visão autoral, repertório cultural e apuro estético –, seu estilo pessoal traduz frescor, elegância e um toque divertido. Para a Carbono, Erh indica marcas de óculos, acessório indispensável em seu dia a dia e parte fundamental na construção de sua imagem moderna e minimalista. @erh.ray

Começo pela Musgu, marca autoral do designer Yanly Erh com olhar contemporâneo. Tem personalidade, foge do óbvio e mistura referências urbanas com acabamento refinado. É o tipo de óculos que vira assinatura de estilo. @musgu_inc

Atemporal, a Oliver Peoples é referência quando o assunto é sofisticação discreta. Modelos minimalistas, materiais nobres e aquele luxo silencioso que nunca sai de moda. @oliverpeoples

MUSGU
OLIVER PEOPLES

GENTLE MONSTER

Mais fashion-forward e experimental. A Gentle Monster brinca com formas, volumes e proporções. É quase uma peça de arte no rosto – ótima para quem gosta de ousar. @gentlemonster_sunglasses

MYKITA

Design alemão, direto de Berlim. Extremamente leve, preciso e com visual minimalista. Une engenharia e elegância de forma muito contemporânea. @mykitaofficial

MATSUDA

Luxo japonês em estado puro. Acabamentos minuciosos, detalhes metálicos quase de joalheria e uma estética que mistura tradição artesanal com modernidade. Você percebe a qualidade antes mesmo de colocá-los. @matsudaeyewear

CUTLER

AND

GROSS

Herança britânica forte, muito artesanal. Óculos com presença, estrutura marcante e um toque retrô sofisticado que funciona tanto no casual quanto no formal. @cutlerandgross

Aqui entra a tecnologia. Une o design da Ray-Ban com recursos inteligentes: câmera, áudio e conectividade. É o encontro do clássico com o futuro, sem perder estilo. @raybanmeta

Páginas amarelas

ONDE ADOTAR

ONDE ELES SÃO BEM-VINDOS

A apresentadora e apoiadora da causa animal, Marcele Becker, indica hotéis, restaurantes, passeios e marcas para viver a cidade com seu pet

Nascida no Rio Grande do Sul, Marcele Becker mudou-se para São Paulo aos 17 anos para iniciar a carreira como modelo. Trabalhou em campanhas e desfiles na Itália, na França, nos Estados Unidos e na Alemanha e ficou nacionalmente conhecida pela abertura da novela Beleza Pura. Hoje, porém, também tem grande destaque em outra área. A apresentadora e jornalista da 89FM – A Rádio Rock – é fundadora, vice-presidente e voluntária do Instituto AMPARA Animal, dedicado ao cuidado de cães, gatos e animais silvestres. Nesta edição, a apaixonada pela causa compartilha dicas pet friendly para quem não deixa seu amigão de lado. @marcelebecker | @amparanimal

HYPPET

Aplicativo que funciona como um facilitador para encontrar pets disponíveis para adoção próximos à sua localização, conectando adotantes a animais resgatados. Uma espécie de “Tinder” das adoções responsáveis.

CASA ADOTE

Inspirado em modelos dos Estados Unidos, o primeiro espaço permanente de adoção de São Paulo ocupa um prédio de quatro andares na Vila Madalena. Logo na entrada, o destaque é o charmoso Unique Garden Petcafé, que recebe visitantes – pets e humanos – com bolo e café fresquinhos, além de outras delícias do menu assinado pelo chef Daniel Aquino. O espaço conta ainda com a AMPARA Store, loja exclusiva com produtos 100% revertidos para a causa animal. O segundo andar é destinado aos cães e o terceiro, aos gatos. É possível apenas visitar e interagir com os animais, mas, se o coração estiver preparado para a adoção, esse é o lugar! @casadoteoficial | @uniquegardenpetcafe

Páginas

ALMA HOTEL – CAMPOS DO JORDÃO

Hotel boutique super aconchegante, que demonstra um cuidado especial ao receber os pets de seus hóspedes. A ampla área verde da propriedade é um convite para quem ama brincar e passear com seu cachorrinho. @almahotelcamposdojordao

HOUHOUSE DOG CLUB

Localizado no estacionamento do Parque Burle Marx, o dog club tem mais de dois mil metros quadrados de área verde, piscina para pets , brinquedos, chafariz e até piscina de bolinhas –um verdadeiro paraíso para gastar energia. Funciona como creche durante a semana e oferece day use nos fins de semana (R$ 85 por dia, com dois humanos inclusos). O diferencial é o bar, para que os tutores acompanhem a diversão. @houhouse.sp

DICA IMPORTANTE PARA OS CACHORREIROS!

Coleiras presas ao pescoço podem fazer mal à saúde do pet. A pressão repetitiva pode causar lesões na traqueia, laringe e até na coluna cervical. A coleira peitoral é uma opção mais segura, pois distribui melhor a força pelo peito e tronco.

UNIQUE GARDEN – MAIRIPORÃ

Um verdadeiro oásis perto de São Paulo, com um dos melhores spas do país e uma culinária única. Naturalmente pet friendly , o hotel também desenvolve diversos projetos ambientais. @uniquegarden

RESTAURANTES

PASSEIOS

Um dos melhores lugares da cidade para passear com seu cachorro. O parque conta com um cachorródromo de 9 mil m², com bebedouros e obstáculos, dividido por porte (pequeno e grande), com acesso gratuito pelos portões 5 e 6. @ibirapueraoficial

WOOLIE PET

Marca brasileira de design para gatos e seus humanos. Produz arranhadores, fontes de água, comedouros, brinquedos e móveis autorais, sofisticados e funcionais – peças lindas que combinam com a decoração da casa e fazem sucesso com os felinos. @woolie.pet

BOSKE PET

Marca premium focada em respeitar os instintos naturais dos animais, com forte compromisso com sustentabilidade e bem-estar. O lema é Mind Your Pet. Os produtos vão além do básico, com foco em biomimetismo, materiais atóxicos, seguros e duráveis. @boske.pet

BRADO RESTAURANTE

Famoso por receber muito bem os pets . Cerca de 90% da casa aceita cachorros, inclusive a área interna coberta. Oferecem água e bifinho de cortesia e, se o animal se comportar direitinho, ainda ganha uma medalhinha de “bom cãoportamento”. Aceitam cães de todos os portes, desde que estejam na guia. @bradorestaurante

Clássico italiano conhecido pelas massas artesanais, ambiente charmoso e, na unidade de Pinheiros, área externa ideal para pets. Recebem cães de todos os portes, oferecem água fresquinha e biscoitinhos de cortesia. Aos fins de semana, o restaurante costuma ficar cheio de peludos acompanhando seus tutores no almoço. @lebotteghedileonardobrasil

PARQUE IBIRAPUERA
LE BOTTEGHE DI LEONARDO
COOL SHOP

Páginas amarelas

NOVOS TERRITÓRIOS DO DESIGN

O artista e designer Jay Boggo constrói pontes entre moda, arte e sustentabilidade. Nesta edição, ele aponta espaços onde estética e experiência se encontram – e consumir é apenas parte da história

Jay Boggo é um artista visual, estilista e designer brasileiro com mais de 25 anos de trajetória, reconhecido por integrar moda, arte e design autoral com forte compromisso sustentável. Fundador e diretor criativo da marca J.Boggo+, desenvolve moda sem gênero, esculturas-móveis e pinturas que valorizam materiais naturais, produção artesanal e referências à natureza e à memória cultural brasileira. Para esta Carbono, convidamos o artista multifacetado para mapear espaços curatoriais ao redor do mundo onde moda, mobiliário, arte e design coexistem. Mais do que lojas, são pontos de encontro para quem busca experiências, e não apenas o ato de comprar. @jayboggo | @j.boggo

MARKET – LONDRES,

A Dover Street Market é o que mais se aproxima de uma loja que funciona como dispositivo curatorial. Fundado por Rei Kawakubo, da Comme des Garçons, o espaço muda o tempo todo e opera quase como uma instalação habitável. Marcas de luxo dividem o plano com skatewear e designers emergentes, sem hierarquia aparente. O resultado é menos uma experiência de consumo e mais um ambiente onde moda, objeto e imagem são tratados como linguagem. @doverstreetmarketlondon

MERCI – PARIS, FRANÇA

A Merci ocupa um lugar raro entre a loja de design e a casa vivida. Herdou o lado doméstico-intelectual que a Colette deixou em aberto, mas sem a urgência do hype. É o tipo de espaço onde você entende como o design se infiltra na rotina: do linho à papelaria, dos utensílios à seleção editorial. Um lembrete de que estilo também é uma forma de habitar. @merciparis

10 CORSO COMO – MILÃO, ITÁLIA

Criada por Carla Sozzani, a 10 Corso Como é menos uma concept store e mais um ecossistema. Galeria, livraria, moda e café coexistem como se fossem partes de uma mesma exposição em fluxo contínuo. O consumo parece quase acidental, consequência de um percurso que começa pela contemplação da imagem e termina, eventualmente, na aquisição. @10corsocomo

DOVER STREET
NOVA YORK, PARIS

Em Hong Kong, me interessa mais olhar para cenas do que para lojas isoladas. O bairro Sheung Wan concentra designers independentes, com uma produção mais autoral e muito interessante. É um lugar onde moda, objeto e processo ainda aparecem de forma mais crua, próxima da origem das ideias. Tem uma energia de descoberta, de coisa em construção, que me interessa mais do que o acabamento final.

No Porto, a Wrong Weather apresenta moda com o mesmo rigor espacial de uma galeria de design contemporâneo. A seleção privilegia matéria, corte e permanência, e o ambiente silencioso convida a uma leitura mais lenta das peças. Um espaço que interessa particularmente a quem transita entre o vestível e o objetual. @wrongweather

Fundada em 1843 e reinterpretada com arquitetura contemporânea, a Santa Eulalia equilibra tradição sartorial e curadoria atual. A alfaiataria histórica convive com novas marcas tratadas com a mesma dignidade, sem nostalgia. Um clássico que entendeu como se atualizar sem perder o eixo. @santaeulalia1843

Mais que uma department store, a Lane Crawford opera como uma plataforma cultural híbrida entre moda, design e arte contemporânea. Peças de passarela, design colecionável e colaborações com artistas emergentes são apresentados em layouts que se aproximam de exposições. Um modelo que dissolve as fronteiras entre consumo e contemplação. @lanecrawford

SHEUNG WAN – HONG KONG, CHINA
WRONG WEATHER – PORTO, PORTUGAL
SANTA EULALIA – BARCELONA, ESPANHA
LANE CRAWFORD – HONG KONG, CHINA

OLHAR, ESTILO E ESTRADA

O fotógrafo e piloto Ike Levy indica motos que admira: máquinas que unem design, personalidade e o prazer de pilotar

Fotógrafo há mais de 30 anos, Ike Levy é movido pelo universo masculino contemporâneo: estilo, motos, relógios, viagens e família. Ao longo da carreira, realizou dezenas de exposições individuais, publicou trabalhos em livros e assinou capas de CDs de grandes nomes da música brasileira. Apaixonado por motos e experiências fora do óbvio, criou o Let’s – um clube de experiências sensoriais onde o destino é surpresa e o caminho faz parte da história. “As pessoas me encontram sem saber para onde vão, e as surpresas acontecem no percurso.” Para homens e mulheres que topam viver o inesperado. Hoje, também compartilha seu olhar em workshops de fotografia criativa com o celular, inspirando pessoas a enxergarem poesia no cotidiano e a transformarem cenas simples em imagens cheias de personalidade. Para Carbono indica modelos sob duas rodas que combinam com seu olhar apurado e criterioso. @ikelevy | @letsikelevy

A Ducati Scrambler é versátil, urbana e feita para pilotar no on e off-road. Vai bem na cidade, encara terra sem drama e mistura robustez com leveza de um jeito natural. É para quem vive em movimento –no asfalto ou fora dele. @ducatibrasil

A BMW R12 carrega história no tanque. O clássico motor boxer imprime tradição, enquanto a tecnologia entrega precisão e segurança. Tem alma sessentista e cabeça superatual. @bmwmotorradbrasil

DUCATI SCRAMBLER
BMW R12

COMBO

Ike gosta de criar conexões de estilo: máquina no asfalto, personalidade no pulso. Aqui, sugere algumas combinações que falam a mesma língua

A Harley-Davidson Deluxe é puro estilo retrô com presença imponente. Cromados, linhas minimalistas e aquele charme especial. Vintage na essência, elegante na atitude. @harleydavidsondobrasil

A Triumph Thruxton R traz elegância e esportividade no melhor estilo Café Racer. Herança britânica com performance afiada. No pulso, o Tissot PRX acompanha: design icônico dos anos 1970, linhas limpas e precisão suíça. @triumphbr | @tissot_official

A Ducati Panigale 959 é adrenalina pura. Engenharia, potência e resposta imediata. Assim como o Tissot T-Race, com referências diretas ao MotoGP. @ducatibrasil | @tissot_official

A Triumph Bobber é minimalista e cheia de atitude. Forte, direta, sem excessos. Combina com o Tissot V8, inspirado no universo da velocidade. @triumphbr | @tissot_official

DUCATI PANIGALE 959 + TISSOT T-RACE
HARLEY-DAVIDSON DELUXE
TRIUMPH THRUXTON R + TISSOT PRX
TRIUMPH BOBBER + TISSOT V8

Páginas amarelas

NOITE ESTRELADA

Empreendedor que transformou a noite paulistana, Facundo Guerra compartilha seus endereços favoritos no mundo e revela o que faz um lugar ter alma boêmia

Facundo Guerra é engenheiro de alimentos, jornalista e doutor em Ciência Política pela PUC-SP. Desde 2005, quando deixou a vida corporativa, tornou-se um dos principais nomes da revitalização cultural e noturna do Centro de São Paulo. Criador de espaços icônicos como Vegas, Z Carniceria, Lions Nightclub, Cine Joia, Riviera, Mirante 9 de Julho, Bar dos Arcos, Blue Note São Paulo e Love Cabaret, acumula prêmios, livros e participações na TV, como no Shark Tank Brasil, além do programa Divã de CNPJ, no UOL. Seu trabalho, que une empreendedorismo, cultura e ocupação criativa, lhe rendeu títulos como Cidadão de São Paulo (Catraca Livre), Os 100 Empreendedores Mais Influentes do Mundo (Good Magazine) e Homem do Ano (Revista VIP). Nesta edição, o ícone da boemia paulistana aponta os melhores endereços mundo afora para quem vive e valoriza o espírito da noite. @facundoguerra

RECORD BAR 33 1/3RPM – SHIBUYA, TÓQUIO

Um dos melhores listening bar para ouvir vinil em Tóquio. Ideal para quem quer escolher discos e ouvir com atenção. Um espaço onde usar o celular e falar alto não é recomendado.

Um alquimista atrás do balcão e você como cobaia voluntária. Cada drink parece ter sido destilado de um segredo.

FORMOSA HI-FI – CENTRO, SÃO PAULO

Aqui o volume não grita, é suave, convincente. É a boemia adulta: som como protagonista, pista como consequência.

O tempo passa devagar e a elegância é natural. Beber ali é participar de um capítulo da literatura europeia.

BAR BENFIDDICH – SHINJUKU, TÓQUIO
HARRY’S BAR – SAN MARCO, VENEZA

& PONY – TANJONG PAGAR, SINGAPURA

Disciplina asiática com alma de festa. Técnica impecável que transforma cada drink em um espetáculo.

BERGHAIN – FRIEDRICHSHAIN, BERLIM

Não é um clube, é um filtro existencial. Se você entra, já não é mais o mesmo: é a catedral industrial da música eletrônica.

LA CATEDRAL – ALMAGRO, BUENOS AIRES

Nada de glamour artificial: piso gasto, abraço apertado e tango de verdade. A noite ali tem história.

CAFÉ DE FLORE – SAINT-GERMAIN-DES-PRÉS, PARIS

Se as mesas falassem, citariam Sartre entre um café e outro. A boemia intelectual ainda respira nas entrelinhas.

DOWN SALOON – PARADISE, LAS VEGAS

Nada da estética glam da Strip. Ali a madrugada é crua. Punk, suor e drinks sem filtro. É o verdadeiro subsolo de Vegas.

JIGGER
DOUBLE

Páginas amarelas

ENCONTROS DE SABOR

O empresário Alê D’Agostino indica para a Carbono combinações bem pensadas que mostram como o drink pode ir além do copo e transformar a experiência à mesa. Entre clássicos e autorais, propostas que refinam o paladar com leveza e contrastes

Alê D’Agostino é um dos principais nomes da coquetelaria brasileira. Passou cerca de 18 anos como head bartender no Spot, na Avenida Paulista, em São Paulo, ajudando a consolidar a cultura da coquetelaria clássica na cidade. Em 2016, deixou o balcão para investir em drinks engarrafados, cofundando a Apothek Cocktails & Co. Em 2025, expandiu sua trajetória ao fundar o Coda Bar, projeto que reforça seu papel como referência em experiências com drinks. Hoje, atua como empresário, consultor de cartas e jurado em competições de coquetelaria. Para a Carbono, ele indica harmonizações especiais entre drinks – todos servidos no Coda – e deliciosos aperitivos. @_codabar | @apothekcocktails

CLEMENTE + PATÊ DE FOIE

O martini à base de tangerina, com leve amargor, contrasta com a untuosidade do foie e cria uma verdadeira bomba de sabores!

TINA TINI + TUCA SANDO

Martini de lichia – leve e refrescante – com sanduíche de atum e wasabi. Funcionam muito bem juntos.

POMELO + BOLINHO DE PUPUNHA

O Pomelo é um drink à base de bourbon e grapefruit. É muito refrescante e harmoniza perfeitamente com o toque de acidez do bolinho.

NEGRONI FLORAL + HAMBÚRGUER

Por ser mais leve, o Negroni floral ajuda a quebrar a gordura do hambúrguer, equilibrando os sabores e deixando o conjunto mais interessante.

MARTINI + BATATAS FRITAS

Um clássico, sem erros.

Fotos Gustavo Arrais, Ike Levy, Rodolfo Regini, Will de Carvalho e divulgação. Ilustrações Mona Conectada
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Sujeito a análise.

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