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SEM REV ESTIMENTO . junho de 2010 . ano 5 . # 8 .

. jornal do centro acadêmico livre de arquitetura e urbanismo .

Brasília. .50 anos e ainda:

. www.cala.ufsc.br .

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O que que a Rádio Tarrafa está fazendo no CALA ?

Plano Diretor sem diagnóstico?

Que pensam os gringos da nossa capital Concurso do mercado público CineARQ no ar...


. ficha técnica .

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Tiragem: 300 cópias Impresso na Imprensa Universitária da UFSC Foto da capa: disponível em http://www.papode arquiteto.com/wpcontent/uploads/2 009/06/a.jpeg Envie material (o que for) para: cala2010.ufsc@gma il.com

Veja no próximo número do Sem Revestimento: Centro de convivência da UFSC será reformado com projeto do AMA.

. sem . SEM lenço, LENÇO, sem SEMrevestimento REVESTIMENTO .

A arquitetura é um processo, não um desenho João Filgueiras Lima - Lelé

qui estamos nós, sem revestimento outra vez. Aquele jornaleco, acanhado, que surgiu em 2006, chega a sua oitava edição com mais páginas e com a pretensão de tornar-se, enfim, periódico. Sim. Não sei se você percebeu, mas faz apenas dois meses que saiu o último, e não deve tardar para sair o próximo. Porque, afinal de contas, se tem algo de que nós terráqueos sentimos falta no planeta azul é de meios para nos contrapor a tanta bobagem que insistem em nos enfiar crânio adentro. Falar das coisas como elas são, sem revestimento, sem ideologias (o bom e velho Marx não falhava: ideologia é “falsa consciência”, reboco) é a missão deste jornal. Por isso, desfrutelo, seja lendo ou escrevendo para ele. Ele é nosso! Sobre este oitavo número: tem tema central (Brasília), tem texto e poesia de alunos e tem também texto de professor. Tem lista com os novos livros do LDA e tem notícias sobre como anda a luta pelo transporte em Floripa. Não bastasse, tem ainda notícias de como andava esta luta na década de 60, é mole? E tem também um e-mail pra você enviar o material que quiser publicar: cala2010.ufsc@gmail.com

Mas e não é que, mesmo tendo tudo isso, o que mais tem é coisa que era para ter que não teve?!? Pois é. E é bem por isso que o nosso jornal quer tornar-se mais periódico e maior, porque quanto mais nos mexemos no mundo, mais ele mostra o quanto há para se mexer. Dizia Rosa Luxemburgo: “Quem não se movimenta, não sente as correntes que o prendem”, sábia Rosa. E olha que tem motivo para nos mexermos: O prefeito quer nos fazer descer uma tarifa de 2,95 sobre o deslocamento pela cidade e, de quebra, um plano diretor que atropela a participação popular. O governo federal e o reitor querem espremer em cada sala de aula mais de 120 alunos, e salve-se quem puder. Mas nós também temos nossas pretensões: queremos o LDA aberto pelo menos 8 horas por dia, com servidor para catalogar os livros (os novos e os velhos), queremos menos catraca e mais liberdade de expressão, queremos discutir o modo de se produzir o urbanismo e a arquitetura (desde Brasília até Floripa, ou ao contrário), queremos um movimento estudantil tão ou mais organizado que o da década de 60. Queremos mudar o mundo! Queremos sim...tem gente que não acredita, faz pouco caso (”isso foi no meu tempo”). Enganam-se, estamos submergindo, subvertendo.

RESPEITÁV EL PÚ BLICO Agora vamos indo O show vai começar Entraram no debate De sapato e terno Subiram na mesa Pisaram na tábua Camuflando as folhas

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Protesto no TAC - Plano Diretor Participativo Foto: Marcelo Cabral

por Franciele - 6º semestre

por José - 9º semestre

. lairotide .


. novas .

.. O o QUE queQUE queAaRÁDIO rádioTARRAFA tarrafa está ESTÁfazendo FAZENDO no NO cala CALA?? .. por Daniel - Coletivo Rádio Tarrafa

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Rádio Tarrafa é um coletivo de rádio livre que surgiu com uma vontade comum: colocar uma rádio no ar, com nossas próprias pernas, braços, mentes e corações. Isto significa que todos nossos movimentos foram e serão feitos por cada um@ de nós. É diante da necessidade e desejo de lançarmos nossas próprias “tarrafas” que nos organizamos em coletivo que se lançará não só ao mar, mas também às ondas do ar para tomar um espaço que é nosso: o da comunicação aberta, participativa e popular. No atual momento estamos com problemas relacionados ao nosso espaço físico, por isso estamos provisoriamente no CALA até que nosso Estúdio esteja pronto. Antes do CALA, estávamos no Centro de convivência em um espaço cedido pela APG.

Estamos a serviço das comunidades em torno da UFSC e outras interessadas, de coletivos e organizações sociais e políticas, movimentos culturais e de sujeitos dispost@s a construir coletivamente e participar de todas as esferas que formam a rádio: os programas, a manutenção dos aparelhos, a limpeza e organização do local, a divulgação e fortalecimento do nosso projeto. Por isso seja Bem vind@!!!!!

Também na internet no: radiotarrafa.libertar.org O Coletivo Rádio Tarrafa existe como alternativa de comunicação e informação fora da grande mídia. Construa você também essa idéia!

104.7 FM Livre! A voz sem correntes! Nas ondas do ar, rompendo com as redes convencionais!

Debate sobre a presença da rádio tarrafa no CALA Quinta-feira 12h no pavilhinho

http://borboletras.tk

Cuidado, eles vem vindo E vão te pegar Como seu sonho é forte Já vieram uns cinco, Cavalo, bomba e cão, Choque, pimenta, em vão Ninguém vai te derrubar

Agora veja só O circo começou Vieram com as placas Construindo a terra Destruindo sonhos Brincando de Deus

Protesto contra a tarifa de ônibus de Florianópolis Foto: Juliana Kroeger

Debate na UFSC - Plano Diretor Participativo Foto: Marcelo Cabral

Agora já vou indo Também posso sonhar Tecer a minha rede Tapeando a morte Sem ela notar.

fran

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impossibilitou o fluxo de veículos nos arredores do campus, apesar de alegarem que estavam “garantindo a ordem e o direito de ir e vir”. Apesar da tentativa de alguns professores de cessar o confronto, os policiais seguiram com a repressão. É importante lembrar que a Universidade é um local democrático e de diálogo. Desde a Ditadura Militar não houve um ataque tão opressivo aos estudantes universitários em Florianópolis. Apesar dos esforços dos empresários de transporte público de desmobilizar o movimento popular contra o aumento da tarifa, seja através da repressão policial ou da mídia, não devemos nos deixar calar. Devemos tomar como exemplos manifestações populares ou mesmo as manifestações anteriores contra o aumento da tarifa,

que, em todos os anos, conseguiu reverter o aumento através de muita luta e persistência. Por isso, é preciso continuar na luta! Para nós, futuros arquitetos e urbanistas, esse aumento deve ser estudado e avaliado. Afinal, ele interfere diretamente na mobilidade urbana, que afeta a todos, não só a nós. Além do aumento no preço do transporte público, os veículos de todas as empresas são sucateados, vandalizados, sujos e muitas vezes estragam no meio do percurso . Todos esses fatores levam a população a adquirir carros, que além de obviamente mais confortáveis, acabam se tornando mais baratos. Isso faz com que os engarrafamentos se tornem insuportáveis e é por esse motivo que vemos tantas veículos com apenas uma pessoa dentro.

por Ana Cartana - 2º semestre

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á cinco semanas a atenção de muitos estudantes se voltou para mais um aumento abusivo da tarifa do transporte público. No primeiro Grande Ato contra esse aumento, a voz de quatro mil estudantes tomou força nas principais ruas do centro da cidade. Como nos anos anteriores, um cinturão de policiais, que deveriam fazer a segurança da população, reprimia a liberdade de expressão dos cidadãos de Florianópolis além de defender os bolsos dos empresários do transporte público. No entanto essa força vista desde o ano de 2005 vem diminuindo e facilitando a ação policial. No último dia 31 de Maio, durante uma manifestação de estudantes da UDESC, a Polícia Militar repreendeu os manifestantes com violência e

. a luta pelo transporte é . A LUTA PELO TRANSPORTE É E SEGUE ADIANTE .. antigaANTIGA e segue adiante

Curioso para ler mais reportagens de 1964? Acesse www.cala.ufsc.br

. etropsnart .


. palavra de professor . . diagnóstico: o grande . DIAGNÓSTICO: O GRANDE ausente doDO plano AUSENTE PLANOdiretor DIRETOR ..

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ara quem participou do Seminário Interuniversitário foi ficando evidente, ao longo do dia, que não deve haver uma separação, ou melhor, ruptura, entre o diagnóstico e a proposta. Aliás, no mesmo ato em que se vai construindo um (o diagnóstico) o outro (a proposta) vai se configurando e ganhando corpo. Assim, quando as imagens e as falas sobre as áreas de risco assinalavam de maneira inapelável, a fragilidade do solo, o mecanismo de deslizamentos dos morros, de imediato, engendrava a necessidade de uma política para limitar a ocupação ou mesmo de remanejar essa ou aquela parte da população. O mesmo aconteceu em relação às áreas verdes, à mobilidade urbana e aos possíveis adensamentos. Tal qual um profissional de medicina canhestro, os autores do Plano Diretor não auscultaram o corpo da cidade. Não perceberam ou desconsideraram as suas veias entupidas pelo trânsito, assim como não consideraram seus órgãos vitais adoecidos e sequer equacionaram o crescimento desmesurado e informe, análogo ao gigantismo do corpo humano. Não por acaso, o que receitam como remédio através do Plano Diretor não é outra coisa senão ... um veneno. Como se isso não fosse suficiente, eles foram além: da mesma maneira que o corpo humano tem ou cria os anticorpos para se proteger dos agentes nocivos, a cidade também criou uma série de instrumentos para fazer frente à especulação imobiliária, à deterioração de um ou outro de seus espaços etc, mas no caso do Plano Diretor apresentado pelo prefeito, o que seriam anticorpos, os instrumentos urbanísticos (imposto progressivo, outorga onerosa etc) passam a atuar muito mais contra a própria cidade do que em seu favor. Assim, por exemplo, as chamadas Operações Urbanas Consorciadas que é um mecanismo a ser acionado para revitalizar ou recuperar áreas urbanas degradadas (como tem sido feito em algumas cidades européias), na proposta em pauta apenas garante a legalidade de empreendimentos cujos desdobramentos encontravam obstáculos tanto pela ação dos moradores como na

por própria legislação vigente, que com o novo plano tornará sem efeito. A pergunta que se faz, então, é se houve, efetivamente, uma técne (do grego saber fazer) na elaboração desse plano, já que ele prescindiu dos diagnósticos. A resposta é NÃO, mesmo porque o processo - já que no caso não cabe falar em método – parte do ponto que seria o de chegada, ou seja, as áreas a serem urbanizadas, ou verticalizadas, ou mesmo, por assim dizer, franqueadas para outros ainda não pensados empreendimentos, foram previamente estabelecidas. Tanto é que algumas já se encontram a algum tempo cercadas e anunciadas como l u g a r e s p a r a loteamentos (veja o caso do Pântano do Sul) ou estavam em stand by em função das dificuldades intransponíveis imposta pela legislação de até então (prédios na Lagoa ou resort no Matadero) e ainda outros, cujos protagonistas haviam ocupado as páginas policiais na chamada Operação Moeda Verde da polícia federal, para quem o plano servirá como aforria. Todas essas iniciativas poderão então ganhar a luz do dia. Aliás, é justamente por isso que não cabia fazer diagnósticos. Eles poderiam deixar os autores em má situação ou, no mínimo em contradição, já que os diagnósticos - desde que c o r r e t a m e n t e construídos - poderiam conduzir os autores à formularem propostas muito diferentes daquelas previamente estabelecidas. Basta imaginar um estudo sério sobre as Unidades de Conservação (UC): como ficaria frente às áreas de amortecimentos tal qual foram propostas no Plano? Sustentabilidade, reserva urbana da biosfera, estrutura em H, policentralidade, transporte marítimo, VLT, são apenas palavras que não conseguem obliterar a verdade nua e crua de um plano que olha e opera com a cidade apenas como valor de troca. É como se aquele médico canhestro, depois de ministrado o veneno, começasse a apelar para a pajelança, ou benzesse o doente,

Américo - professor de projeto saindo totalmente da própria sua lógica ... Através desse plano, os autores, tanto os que fizeram (causa eficiente) como para quem foi feito (causa final), disseram a que vieram: a cidade é um negócio. Para aqueles que pensam e operam a cidade como valor de uso, como lugar de encontro, como ágora, como arte, o Seminário Interuniversitário mostrou que o Plano Diretor não expressa um trabalho técnico, apenas uma política, de bastidores é verdade, mas política, ou seja, exatamente o contrário do que prometeram quando retiraram a comunidade da elaboração do plano, em nome da técnica. Por outro lado, se é verdade que os problemas ambientais, de mobilidade, de saneamento, são graves na cidade, ou melhor, na região metropolitana, o S e m i n á r i o Interuniversitário também mostrou que há um conhecimento acumulado nas Instituições de Ensino Superior da própria região. Aliás, olimpicamente ignorado pelos autores do Plano Diretor. Pesquisas sobre o solo e subsolo, possibilidade de simulações em termos de sombreamento dos virtuais adensamentos urbanos, estudos sobre a permeabilidade do solo, levantamentos sobre a fauna e flora existente etc certamente resultaria num plano muito mais sofisticado e tecnicamente mais adequado. Assim, se há um descompasso entre o que tecnicamente seria possível construir em termos de plano diretor e o que o Plano da prefeitura apresentou,mais do que um descompasso, foi criado um abismo entre o que a comunidade quer para a cidade e o que o Plano quer DA cidade. E para finalizar, uma vez mais a população, sábia e pragmática como é, já havia dado o seu veredicto com um sonoro NÃO ao Plano, enquanto nós (no Seminário) para chegarmos com segurança à mesma conclusão, tivemos que verificar o vazio e a insignificância das palavras como “vocação natural desta ou daquela área” às quais os autores do Plano apelam para justificar o injustificável, isto é, o adensamento e verticalização da Lagoa ou do Jurerê.

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. apac . “Encantou-me o céu de Brasília de grandes contrastes de nuvens e azuis vivos” A entrevista com os colegas portugueses que estão em intercâmbio em nossa faculdade foi elaborada pensando-se como um complemento para o tema central abordado por essa edição, ou seja, os 50 anos de Brasília. Porém, como o período de final de semestre é sempre muito

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les são muito atenciosos e comprometidos com aquilo que lhes é proposto. São, ainda, muito pontuais e essa certamente, em minha opinião, não é uma característica que levarão em suas impressões sobre o povo brasileiro. Simpáticos, aceitaram responder a estas breves perguntas sobre nossa Capital Federal, em uma entrevista feita via e-mail, mas de forma alguma toparam em ilustrar a entrevista com uma foto sua, o que me despertou certa curiosidade em sua discrição e simplicidade. 1. Antes de vir ao Brasil, qual era seu domínio a respeito de Brasília, quero dizer, em sua Faculdade é discutida a arquitetura e o urbanismo dessa cidade? Nomes como Lúcio Costa, Oscar Niemeyer e Juscelino Kubitschek já eram de seu conhecimento?

turbulento, e às pressas a coleta de material às vezes torna-se frustrante, esta entrevista torna-se agora corpo central do jornal. Estávamos contando com um artigo mais específico, que abordasse um paralelo entre o crescimento incontrolável e não previsto da

cidade de Brasília com as atuais discussões do Plano Diretor de Florianópolis, mas nossa falta de organização em termos de compromissos ficou um pouco aquém do esperado. Mas os resultados continuam sendo positivos, e tornar-se-ão ainda melhores.

Em uma visita de uma semana a Brasília realizada pelo departamento de Arquitetura da UFSC (17 a 23 de Abril), os estudantes portugueses Patricia Alexandra Curto Reis (estudante de Lisboa; ficou no Brasil pelo período de 1 ano), Maria Luís Gonçalves e Gonçalo Nuno Pereira Nina Xavier da Costa (ambos estudantes da cidade de Covilhã; estão aqui para o período de 1 semestre), puderam sentir os “os edifícios monumentais”, as “grandes avenidas para carros” e o “clima seco, semelhante ao de Lisboa”, em plenas festividades de aniversário da cidade.

Maria Rute de Arouca Teixeira Pereira da Costa, estudante da cidade do Porto e no país por um período de 1 ano e meio, esteve na cidade por dois dias. Alojou-se no apartamento de amigos em uma das superquadras brasilienses, e suas considerações sobre essa experiência são de grande relevância.

ML - Sim, o Plano de Brasília é divulgado no curso de arquitectura. Nesse aspecto, nomes como Lúcio Costa e Oscar Niemeyer são conhecidos, no entanto, o de Juscelino Kubitschek não é mencionado. Penso que, dado a informação que é passada de se focar muito em questões técnicas e projectuais da cidade, o nome de Kubitschek, que era político, não é divulgado como o dos demais. MR - Sim, Brasília é conhecida como cidade modelo de organização urbanística. Lúcio Costa e Oscar Niemeyer são personalidades de que já tinha ouvido falar em Portugal, mas vim a conhecer melhor aqui no Brasil mesmo, nas aulas de urbanismo. (Note que o meu curso original em Portugal é Arquitetura Paisagista, não a Arquitetura Civil).

5. Brasília impõe uma atitude de respeito por parte do visitante de primeira viagem, ou sua impressão foi a de estar em uma cidade comum, com os benefícios e malefícios que esse termo trás, sendo habitada e utilizada da forma mais natural e orgânica possível?

A ortografia das respostas, meio que à portuguesa, meio que à brasileira foi mantida, de modo que a mistura das culturas se evidencie ainda mais.

2. Em tempos de acesso a informação em apenas um clique, o fato de estar no Brasil lhe proporcionou maior facilidade na busca de material (em nossa Universidade e em Bibliotecas) sobre as personagens citadas na pergunta anterior (como o arquiteto Oscar Niemeyer, por exemplo), ou você sentiu uma certa apatia e até um desinteresse, ou ainda menosprezo - na pior das hipóteses - por parte dos professores e estudantes de Arquitetura sobre o assunto?


. capa .

por Luã - 5º semestre

3. Confesso que ainda não conheço Brasília, mas o fato de estar em latitudes menores e no interior do Brasil faz com que suas características sejam muito distintas de Florianópolis. Quais foram suas primeiras impressões sobre o clima e a geografia da Capital? 4. Qual foi o meio de locomoção utilizado por você em Brasília? Você fez uso do transporte coletivo? Caminhar pela cidade é uma atividade prática e agradável?

6. Há pobreza em Brasília?

G - É um clima mais quente e seco. MR - Realmente, Brasília e Florianópolis são cidades muito diferentes, começando pela localização geográfica como aponta na questão e as bases biofísicas. Brasília situa-se num grande planalto do cerrado Brasileiro, em contraste com a natureza acidentada e verdejante da ilha de Florianópolis. A paisagem de Brasília deu-me uma sensação de seco, quente, terra vermelha, e horizontes longínquos, por onde se espalha a capital sem grandes dificuldades topográficas. Naturalmente o lugar escolhido terá considerado essa vantagem. Encantou-me o céu de Brasília de grandes contrastes de nuvens e azuis vivos. P - Comparando com Florianópolis, é bastante diferente e acredito que vocês [ilhéus] sintam uma diferença de clima enorme. Mas comparando com Lisboa ou Portugal não é tão diferente assim, é mais seco, mas para mim é suportável. Tenho mais dificuldade em habituar-me ao clima de Floripa, por exemplo, porque tem altas percentagens de umidade. Quanto à geografia, e uma vez que fizémos a viagem de ônibus, achei que estava bastante isolado de outra grande cidade, é meio como que caminhar no deserto e de repente chega-se à cidade.

G - Fiz uso do transporte colectivo, como o ônibus e o metrô. Em dias de muito calor não é muito agradável, mas não muito diferente de uma outra cidade com um clima semelhante. Ao contrário do que pensava, não tive muita dificuldade em circular a pé, embora em alguns pontos os acessos não fossem os melhores. ML - Pelas informações que tinha pensei que fosse pior. Que não houvesse mesmo forma de poder andar a pé de forma cómoda. P - Basicamente nós andávamos de ônibus (da universidade), também andámos de metrô (muito bom). No entanto, caminhar em Brasília foi a parte mais desagradável, acho que não é de todo uma cidade para andar a pé. MR - Não andei de transporte público. Apenas a pé e de carro particular de amigos. Mas pareceu-me uma cidade pensada e construída para o carro, mais do que para as pessoas. Enquanto andei a pé, dentro das quadras residenciais, achei o ambiente e o espaço entre os blocos agradável com alguns serviços bastante acessíveis, como um supermercado, uma farmácia, um bar para encontrar os amigos, e gostei dos caminhos verdes ao longo desses percursos. No entanto, fora dessa dimensão achei a cidade de dimensões gigantescas, avenidas infindáveis, de várias faixas intransponíveis, obrigando o pedestre a subir e a descer vários vãos de escadas e a percorrer viadutos desproporcionais à escala humana. As pessoas locais que conheci me confirmaram que e difícil viver em Brasília sem carro.

ML - Sim há, vi pessoas de todas as classes sociais como em qualquer cidade. P - Sim! Não estava à espera de encontrar tão facilmente, mas encontrei alguma e uma certa decadência à noite. MR - Certamente que sim, mas eu não

7. Você visitou alguma cidade dos arredores de Brasília, as chamadas "cidadessatélites"? Se sim, quais?

MR - Não as visitei. G - Sim, duas. Candangolândia e Guará. ML - Nas cidades satélites, a pobreza de Brasilia é mais notória, para responder à questão acima. Caricatura de Lucio Costa

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. ervil .

. tati .

por Maiári - 11º semestre

.O TATI .

filme Playtime realizado por Jacques Tati surge em 1967 como grande crítica à sociedade moderna e ao modernismo no geral. A crítica especializada não gostou nada do filme. Há quem ame e quem odeie, mas fato é: Playtime retrata uma parte da história mundial da arquitetura. Essa película de mais de duas horas, mesmo sendo arrastado em alguns momentos, vale uma espiada. O filme organiza-se por sequências onde o personagem principal perambula pela cidade de Paris em enormes quadras, com seu veículo individual supervalorizado. A capital francesa aparece transformada para entrar na “modernidade”, assim se assemelhando a qualquer grande cidade do mundo. Mas ao contrário de Brasília é construída por cima de uma cidade existente. Representa satiricamente o expoente máximo do movimento moderno, de funcionalidade e racionalização do espaço. O longa é o segundo de sua trilogia sobre o tema (“Meu tio”, “Playtime” e “Trafic”). O primeiro filme trata de uma escala mais intimista da casa “máquina de viver”, já em Playtime segue para a escala da cidade seguindo a mesma lógica. Uma cena clássica do urbano funcionando como uma máquina mostra o trânsito de carros ao som de um carrossel enquanto tudo se movimenta numa coreografia ensaiada como parte de uma engrenagem, inclusive as pessoas. Uma curiosidade do filme são os movimentos das personagens, sempre em ângulos retos em suas caminhadas e marcações de cena.

Ficha Técnica Duração:155 minutos Gênero: Comédia, Ficção Direção: Jacques Tati Roteiro: Jacques Lagrange, Jacques Tati Elenco: Michel Francini, Reinhard Kolldehoff, Georges Montant , Yves Barsacq, Billy Kearns, Jacques Tati, Henri Piccoli

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Os tesouros da cidade, tais como a Torre Eiffel e o Arco do Triunfo, entre outros ícones da cultura Francesa, surgem como reflexos em portas de vidro transparente. Como lembrança de outros tempos, mostrando traços ainda remanescentes na velha Paris, suas novas largas avenidas preenchidas por altos edifícios de concreto, ferro e vidro. Apresenta assim todos os elementos mais difundidos por esta arquitetura: volumes cúbicos com linhas ortogonais e amplo uso dos materiais símbolo deste movimento. Estes edifícios se multiplicam por toda a cidade, mostrando uma paisagem homogênea e repetitiva dentro da qual se distribuem diversas atividades meramente funcionais. A arquitetura apresenta um papel determinante ao longo de toda a película. Durante todo o filme é ressaltada a repetição e multiplicação – dos carros no estacionamento, postes de luz, prédios e cadeiras –, acontecimento recorrente na arquitetura funcionalista com o uso de materiais industrializados, modulados e produzidos em série. Essa repetição e padronização são mostradas de modo satírico por Tati nos pôsteres da agência de viagem, quando cada destino é representado pelo “prédio-padrão” mais algum elemento característico do país, onde Londres é identificada pelo Big Ben, Estocolmo por um homem esquiando e o Havaí por uma paisagem praiana. Na chegada ao edifício de escritórios temos uma visão aérea, ampla, procurando sempre a envolvente como elemento de contraste em relação à personagem principal. A visão aérea permite-nos identificar um conjunto de escritórios cúbicos separados por uma

malha ortogonal de corredores. A cena mostra a seguir um pouco do que se passa lá em baixo, tudo parece muito organizado e lógico. No entanto, ao se aproximar gradualmente da personagem, perde-se a percepção do todo do espaço. Tati acabara de retratar um pedaço de cidade modernista, dentro de um edifício modernista! Cada acontecimento em Playtime começa por surgir mecanicamente encadeado com o anterior, onde surgem algumas surpresas cômicas que mostram que, na opinião do autor, “a máquina” não funciona. Até que os acontecimentos têm lugar em simultâneo, no caos e na desordem. O edifício, que Corbusier trata como “máquina de viver”, e a própria cidade não funcionam sem o suporte social. O momento final do filme tem lugar na abertura de um restaurante, que é caracterizado pela sobreposição de acontecimentos, o frenesi e a intensificação do ruído. As pessoas libertam-se do modernismo e de suas regras e têm comportamentos selvagens. Jacques Tati nos encoraja observar mais intencionalmente e refletir mais acerca das preocupações sociais através de uma sátira e estudada cenografia. A cidade perfeita, planeada e desenhada à régua e esquadro, que resulta de um processo lógico é apresentada como perfeito fracasso. Uma crítica ao modelo de Brasília logo em seu início, quando todos ainda viam na nova capital do Brasil uma grande promessa e referência.


. projetos .

por Luã - 5º semestre

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http://concursosdeprojeto.org/2010/06/07/largo-do-mercado-publico-de-florianopolis-01/

imetria, continuidade urbana, memória e referência aos “faróis” construções feitas para auxiliar os navegadores no mar noturno - foram alguns conceitos explorados pelo escritório paulista. “A estratégia desta intervenção foi concebida como uma fresta escavada no solo, de geometria simétrica à praça interna do mercado, configurando-se como uma “A construção da fresta proposta recupera rebaixamento do plano urbano”. No subsolo extensão natural da mesma. o antigo traçado da borda do cais e restabelece alguns dos serviços concentrados são: Desta forma não se cria uma um suporte visual da fachada oitocentista, camelódromo, estacionamento, serviços de outra arquitetura, a g o r a t o t a l m e n t e e v i d e n c i a d a p e l o táxi, vans de turismo, lojas e sanitários. independente, a ser acrescida ao conjunto. O ACESSE WWW.CALA.UFSC.BR PARA CONFERIR novo espaço não existe como Veja no MAIS FOTOS E O MEMORIAL DESCRITIVO COMPLETO volume sólido, é um espaço próximo número que se caracteriza como um do Sem grande hall urbano Revestimento: rebaixado, integrando todo o os projetos conjunto através de dos alunos do interfaces de acessos de arqUFSC que escala metropolitana”. participaram desse concurso

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. sedadivita .

. .cinearq: arte e CINEARQ: ARTE E informação INFORMAÇÃO .. A

lém de ser um meio de democratizar a informação e impulsionar o direito de livre expressão, o cinema se relaciona intimamente com muitas outras artes, entre elas, a Arquitetura e Urbanismo. Como forma de melhor contextualizar um filme em uma época ou local, cultura ou tradição, a ambientação é parte essencial da produção cinematográfica. Por ser um meio dinâmico e de fácil diálogo com o espectador, o cinema cria uma vivência espacial ilusória que, muitas vezes, interfere na visão realista do espaço. Dessa maneira, ele pode se tornar um canal de alerta para a sociedade e para possíveis conseqüências de um mau planejamento urbano ou descuido com o patrimônio público, por exemplo.

O CINEARQ vem com a proposta de, não só promover e discutir esse contato entre arquitetura e cinema, mas debater diversos outros assuntos que dizem respeito não só a nós, acadêmicos, mas a toda sociedade. Com esse intuito foram passados na semana passada documentários relacionados aos movimentos sociais em Santa Catarina. A sessão contou com o filme “Amanhã vai ser maior”, que trata da resistência ao aumento da tarifa do transporte público na cidade de Florianópolis em 2005, e “Democracia Militar”, filme que denuncia a violação dos direitos humanos em três episódios recentes, entre eles a “Revolta da Catraca”.

por Camila - 1º semestre

Seguindo o tema dessa edição do jornal, o CINEARQ apresenta duas produções que retratam de forma diferente os aspectos urbanos, arquitetônicos e sociais da capital brasileira. “Brasília: contradições de uma cidade nova” mostra a cidade em seu sexto ano e relata a vida de diferentes pessoas, através de entrevistas com diferentes categorias de moradores da cidade. Todo o filme segue um paralelo entre a realidade dos habitantes e a cidade planejada e voltada para o desenvolvimento nacional. “Arquitetura do mundo – Brasília” segue um olhar menos crítico e direcionado para a análise dos monumentos da cidade. Yannis

Tsiomis, professor da École d'Architecture de Paris La Villete e da UFRJ, coordena esse estudo e apresenta as maravilhas e curiosidades de Brasília. Por último, o filme “Conterrâneos Velhos de Guerra”, de Vladimir Carvalho é um clássico do cinema nacional que mostra o lado obscuro da construção da capital, que inclui o massacre de candangos e forma desumana como é construída a nossa arquitetura. Participe das próximas sessões e vá além dos conhecimentos adquiridos em sala de aula!

Acesse também o sítio do CALA

www.cala.ufsc.br 10


. cultura .

. aquisições do . AQUISIÇÕES DOlda LDA .. destaque:

por Rovy - 7º semestre

. livros .

A experiência da FAU/USP traz muitas idéias interessantes, inspiradoras. Porém o mais importante não está nas soluções, e sim nas perguntas. Por quê um canteiro experimental? O que eu tenho a ver com isso? Como futuros arquitetos, precisamos levantar essas questões. A arquitetura não se limita a um papel ou à tela de um computador. Também não basta estar na obra para ver a arquitetura. Não se trata de aprender técnicas construtivas. Se trata de realizar o desenho, edificar idéias. Arquitetura é síntese, é dialogo entre as partes complementares de um sistema. Precisamos conectar a teoria à pratica. Experimentar. O conhecimento não se recebe, se constrói, e ninguém irá construi-lo além de nos mesmos. Por que esperar para materializar nossas idéias?

e ainda: Quaroni, Ludovico. La torre de Barcelona [Espanha]: G. Gili, 1972.

Textos Fundamentais sobre a História da Arquitetura Moderna Brasileira: v.1 / org. Abílio Guerra – São Paulo: Romano Guerra, 2010.

Babel.

Frederick, Matthew. 101 Lições que aprendi na Escola de Arquitetura. Martins Fontes, 2009.

Reissman, L. El processo urbano; las ciudades en las sociedades industriales. Barcelona [Espanha]: G. Gili, 1972.

Duarte, Cristiane Rose. O Lugar do projeto : no ensino e na pesquisa em arquitetura e urbanismo / Cristiane Rose Duarte ... [et al.]. Rio de Janeiro : Contra Capa, 2007.

Castells, M. Imperialismo y urbanizacion en America Latina. Barcelona [Espanha]: G. Gili, 1973. Freyre, Gilberto, 1900-1987. Casa-grande & senzala/ Gilberto Freyre. 12. ed. bras. ; 13. ed. em lingua portuguesa.- [Brasilia]: Ed. Universidade de Brasilia, 1963. Castells, M. Estructura de Classes y política urbana en América Latina. Buenos Aires [Argentina]. Ediciones S.I.A.P., 1974.

Patrimonio Cultural en los Países Andinos: Perspectivas a Nivel Regional y de Cooperacion. Roma [Itália]: Cuadernos IILA, 2005. Curso de Capacitacion y Transferencia de Tecnologia para la Conservacion de Edificios de Valor Historico Monumental. Roma [Itália]: Cuadernos IILA, 2002 La Revitalizacion Urbana en America Latina y Europa. El caso de Montevideo. Roma [Itália]: Cuadernos IILA, 2002.

. revistas . Arquitetura & Construção (junho/2010 – ano 26 – n.02) – R$11,00 Madeira – Consórcio imobiliário – Bloco cerâmico X bloco de concreto – Arthur Casas Lareiras AU (junho/2010 – ano25 – n.195) – R$26,00 Piratininga Arquitetos – Design + Arquitetura – Gebara Conde Sinisgalli – Escritório FGMF – Maurício Karam – Escritório SOM – Retrofit dos escritórios da Europa

Finestra (maio/abril 2010 – ano 15 – n.61) – R$ Aeroporto de Carrasco – Estruturas tensionadas – Fachadas do Eco Bermini – Ecoeficiência) DISPONÍVEL NO LDA Projeto Design (junho/2010 – n.364) – R$20,00 Estádios da África do Sul e ateliês em São Paulo – Museu em Minas – Galeria em São Paulo – Ângelo Bucci

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LIÇÕES DA ARQUITETURA Para Oscar Niemeyer No ombro do planeta (em Caracas) Oscar depositou para sempre uma ave em flor

(ele não faz de pedra nossas casas: faz de asa) No coração de Argel sofrida fez aterrizar uma tarde uma nave estelar e linda como ainda há de ser a vida (com seu traço futuro Oscar nos ensina que o sonho é popular)

nos ensina a viver no que ele transfigura: no açúcar da pedra no sonho do ovo na argila da aurora na pluma da neve na alvura do novo Oscar nos ensina que a beleza é leve Ferreira Gullar

Nos ensina a sonhar mesmo se lidamos com matéria dura: o ferro o cimento a fome da humana arquitetura

“O concreto paira no ar Mais aqui do que em Chandigarh” Humberto Gessinger

Sem Revestimento #8  

Sem Revestimento #8

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