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Desenhos: Carlos Matos Textos: Anselmo Cunha Mapas e GPS: Joaquim Branco Hotelaria: Jaime Matos Caminhantes: Benvinda Monteiro, Carlos Matos, Fernando Gaspar, Fernando Micaelo, Guida Mendes, Anselmo Cunha, Jaime Matos, Joaquim Branco, Luisa, Paula Marques, São Branco, Zé Manel Machado, Piedade Garbriel. Apoio, Piedade Gabriele João José. Castelo Branco Dezembro de 2013


Quem Somos Durante uma caminhada, (2009, 2010?) surgiu uma proposta: Vamos a Santiago de Compostela a pé, de mochila às costas? Não foi preciso muito, para se andar à procura de informação, mochilas, calçado, sabão azul, tudo o que fazia falta para tal empreitada. E, como o logo o assessor militar determinou, e bem: “instrução dura, guerra fácil”, lá metemos as mochilas, a brilhar de novo, às costas, e fizemo-nos ao treino. Todos estavam habituados a grandes caminhadas, mas sempre com carros de apoio por perto, e o peso apenas da roupa que se trás no corpo. Para Santiago seria, completamente diferente: em autonomia. O que se levava a mais, carregava-se “no lombo” fossem bolos, roupas de noite ou desodorizantes. Por uma série de condicionantes, só podíamos fazer quatro etapas, de 10 a 13 de Junho de 2010: Valença-Redondela, 35 Km; Redondela-Briallos, 39 Km; Briallos-Teo, 31 Km; Teo-Santiago, 12 Km. No caminho, logo nos confrontamos com a beleza, a diversidade, a entreajuda, os encontros e conversas com outros peregrinos ou locais, com a dureza por estar a chover e serem muitos quilómetros por dia, com os albergues e as refeições, o estarmos apenas dependentes de nós. O desespero, por cansaço, e querer-se voltar atrás e não se deixar, o não ter lugar num albergue (Teo) O carimbo de Tuy, difícil de obter, mas que mão providencial e curiosa, encon-


trou numa gaveta; Porra para Porriño; Redondela; as fabulosas Rias; as cañas; as borregas em Briallos, onde os homens são todos uns paridos; E o prazer de chegar a Santiago, e tal como tantos e tantos peregrinos em 800 anos partilhar a mesma emoção. No caderno está escrito “quanta memória histórica esta catedral guarda ao longo de tantos séculos” E agora? Agora voltamos para o ano, com mais tempo e procurar andar, sempre que possível, apenas de manhã. Segundo ano, 2011: Valença-Redondela; Redondela-Pontevedra; PontevedraCaldas del Rey; Caldas de Rey-Teo (que não foi); Teo-Santiago Este ano, por não ser Xacobeo, menos gente. Em Redondela, depois de um jantar bem comido e bem bebido, e até com desmaios (o xoaquim empregado do restaurante declarou que a Piedade devia pagar mais para compensar o susto que pregou a quem estava no restaurante) o outro Xquim (o nosso) preparou-se para discursar no auditório do albergue: Temos que nos organizar e constituir uma associação, que tenha por finalidade organizar caminhadas como esta. Ainda hoje não se sabe se foi a qualidade do discurso, os muitos licores de hierbas, ou até os dois juntos, o que é verdade é que todos concordamos. E ali, foi constituída a CONFRARIA DOS CAMINHOS. Como se pode apreciar no desenho que se segue, com hora, texto, assinaturas e tudo.


Paula Marques, Joaquim Branco, Carlos Matos, Benvinda Monteiro, Fernando Gaspar, Piedade Gabriel, Conceição Branco, Jaime Matos, José Manuel Machado. Ficaram estes, como as mães e pais da criança. E este dia, ficou assim registado no caderno: “grande grande dia, um verdadeiro dia de peregrinação. Dureza, desânimo, dor, riso, boa disposição…tudo. Quando no caminho nos questionamos o que estamos ali a fazer, a resposta é fácil: por tudo isto. Por saber que contamos uns com os outros, nos maus e nos bons momentos. E hoje, como seria natural, houve de tudo” Fim de citação. Em 2012, o grupo voltou novamente à Galiza, com menos uns e com mais outros, porque estas coisas são mesmo assim, e desta vez para fazer SantiagoFinisterra-Muxia. Ano de muita chuva e tb muitas histórias que terão de sair de outro caderno. E, finda esta etapa, novamente se põe a questão: e agora? Agora? Vamos da porta da nossa casa até Santiago de Compostela. De Castelo Branco a Santiago. 500 Km para fazer sem pressas! Fazendo jus a um dos seus (muitos) lemas: Não te limites a passar pelo caminho, deixa também que o caminho passe por ti. Castelo Branco, Portugal. Dezembro de 2012


O nosso propósito último é viajar. Caminhando.

Viajar e relato de viagens leva a literatura de viagens. Existiram várias personagens que ficaram para a história como grande relatores de grandes viagens. O primeiro que me vem à memória foi o veneziano Marco Polo, que teve a inovadora ideia (algures no sec.xiii) de ir registando as suas impressões da viagem que fez com o pai e tio ao longo da rota da seda e, com isso, deixar-nos informações preciosas sobre a vida na Àsia medieval; (nota: nunca li, directamente, mas acredito nos estudiosos que garantem que o relato é extraordinário). Outra referência na literatura viagem é o nosso Fernão Mendes Pinto, porque teve a sorte de ter sido feito prisioneiro e vendido a um grego que o passou a um judeu (com lucro, supõe-se), que teve de o libertar (sem lucro) para os amigos lusitanos que o resgataram em Ormuz, nos anos jovens de 1500, gastando os 21 anos seguintes a deambular pelas costas da Birmânia, Tailândia, China, Japão, resumindo depois essa fantástica aventura num relato com o apropriado nome de “Peregrinação”. (Nota: li, e gostei, apesar de, à semelhança de muitos outros e muito mais entendidos do que eu, também ter ficado com a sensação de que o amigo Fernão, nalgumas passagens, regar um bocadinho) Todavia, o maior dos maiores no que a relatos de viagens diz respeito é, inquestionavelmente, o Luís. Vaz. De Camões. Ninguém no mundo inteiro, até agora, conseguiu relatar uma viagem como ele o fez. (Nota: não era preciso ostentá-lo mas, claro que li, não fomos todos obrigados a isso?) Se calhar por influência desses grandes pioneiros, o padrão tradicional da maior parte da literatura de viagens contém sempre a combinação de alguns requisitos que agradam à maioria dos leitores: o destino, ou destinos, são exóticos, situam-se longe, e de difícil acesso. O padrão tem vindo a mudar, é certo: o mercado do turismo impinge qualquer destino desde que possamos pagar. Prossigamos então.


Etapa 01_ Crato_Nisa_Vila Velha de Rod達o


Etapa 02_ Vila Velha de Rod達o_Castelo Branco


Etapa 1 Castelo Branco_Louriรงal do Campo Chuva, chuva e muita chuva, mas jรก estamos70 Km mais perto:


Etapa 2 Louriรงal do Campo_Fundรฃo_Peroviseu


Etapa 3 Peroviseu_Belmonte 12 de Janeiro de 2013


Ao longe, a personagem já aparentava algo incomum: magra, muito magra, vestida de preto da cabeça (coberta com um lenço), até aos pés (enfiados numas pantufas com visíveis sinais de muito uso). Puxado por um baraço, arrastava atrás de si o chassis daquilo que em tempos terá sido um carrinho de bébé, sobre o qual foi colocado um cartão para servir de base. Qualquer criança tenderia a ver naquela figura a personagem maléfica de uma história qualquer. E, se atentasse nos pormenores, fugiria a esconder-se debaixo da cama: a mesma figura apresentava mãos esquálidas a deixar salientar todos os carpos e metacarpos, unhas ligeiramente compridas e sujas; cabelo grisalho e desgrenhado, dentes em falta e nariz adunco numa face que os anos e as agruras enrugaram em excesso; e os olhos… melhor, o olho que não tinha, tapado por uma espécie de cicatriz por baixo da pestana. Definitivamente, uma bruxa. Má, seguramente. A todo o momento sairiam faíscas das suas mãos que transformariam qualquer criança num salta roscas, enquanto soltava risadas histéricas por entre os dentes cariados. De que era preciso fugir e ir rogar à avó que deitasse a pinga do azeite no prato com água e rezasse a mézinha para contrariar o mau olhado. Nós parámos. Saudámos: - Bom dia. Respondeu uma voz com sotaque cigano: - Atão bons dias. Da conversa de circunstância sobre o carrinho e o tempo e o frio que fazia, veio a confissão: - Vou ali a róbér uns gravatitos para me aqueceri. - Faz vomecê muito bem, qu’isto está é para ficarmos quedinhos junto ao lume. Não faça como alguns parvos que andam por aí a caminhar pelos caminhos velhos, de manhãzinha cedo e longe de casa


Etapa 4 Belmonte_Fernão Joanes 13 de Abril de 2013, sábado

Distância percorrida: 24,7 km Tempo total de caminhada: 6:53 horas Tempo a andar: 5:30 horas Tempo parado: 1:23 horas Velocidade média: 4,5 km/h Altitude máxima: 9 96 metros Povoados no percurso: Belmonte, Centum Cellas, Valhelhas, Mosteiro do Bom Jesus, Famalicão da Serra, Santuário da Senhora do Soito, Fernão Joanes.


Etapa 5 Fernão Joanes_Porto da Carne 14 de Abril de 2013, domingo

Distância percorrida: 20,8 km Tempo total de caminhada: 6:15 horas Tempo em movimento: 4:49 horas Tempo parado: 1:26 horas Velocidade média: 4,4 km/h Sítios e povoados no percurso: Fernão Joanes, Meios, Trinta, Barragem do Caldeirão, Miradouro do Mocho Real, Faia, Aldeia Viçosa


Etapa 6 Porto da Carne_Trancoso 29 de Junho de 2013, sábado

Distância percorrida: 26.6 km Tempo total de caminhada: 7:20 horas Tempo a andar: 6:00 horas Tempo parado: 1:20 horas Velocidade média: 4.4 km/h Altitude mínima: 419 metros Altitude máxima: 889 metros (Torre de Menagem de Trancoso) Subida acumulada: 658 metros Descida acumulada: 263 metros Povoados e locais de referência ao longo do percurso: Porto da Carne, Vila Cortês do Mondego, Ponte do Ladrão, Aldeia Rica, Baraçal, Minhocal, Prado, Freches, Alto de S. Marcos, Trancoso. Acumulado: Bacias hidrográficas: Tejo, Zêzere, Mondego. Distritos: Castelo Branco, Guarda. Concelhos: Castelo Branco, Fundão, Covilhã, Belmonte, Manteigas, Guarda, Celorico da Beira, Trancoso


Etapa 7 T rancoso_Ponte do Abade 30 de junho de 2013, domingo

Distância percorrida: 23,2 km Tempo total de caminhada: 6:15 horas Tempo a andar: 5:17 horas Tempo parado: 58 minutos Velocidade média: 4,4 km/h Altitude máxima: 822 metros aos 5Km de percurso Subida acumulada 279 Metros Descida acumulada 531 Metros Povoados e locais de referência ao longo do percurso: Trancoso, Sintrão, Montes, Vila Novinha, Palhais, Benvende, Peroferreiro, Lezírias, Ponte do Abade, rio Távora. Acumulado: Caminho: 180 Km, faltam 378 Km Bacias hidrográficas: Tejo, Zêzere, Mondego, Douro. Distritos: Castelo Branco, Guarda, Viseu. Concelhos: Castelo Branco, Fundão, Covilhã, Belmonte, Manteigas, Guarda, Celorico da Beira, Trancoso, Aguiar da Beira, Sernancelhe


O carro fez-se anunciar com uma batida forte e sincopada, vistoso e potente como todos os que saem da fábrica de motores da Baviera: preto, jantes especiais, tecto de abrir, vidros fumados, bancos em couro, uma volumosa cruz (com o Cristo) cor de prata baloiçava do espelho retrovisor. O condutor não era menos vistoso: cabelo bem penteado para trás a tapar as orelhas, brinco no lóbulo da orelha direita, camisa de seda em roxo clerical, desapertada até ao quarto botão para deixar ver um fio de grossas argolas em ouro terminado numa brilhante cruz (sem o Cristo), calça preta bem vincada e sapatos exageradamenge bicudos e de lustro bem puxado. Travou a fundo junto do Matos que ia isolado na frente do grupo e perguntou, directo: - O que se passa aqui? Explicou-se-lhe de onde vínhamos e para onde íamos. Quando verdadeiramente se apercebeu da nossa intenção de chegar a Santiago de Compostela a pé, a sua reacção foi espontânea e expressiva: - FODA-SE!!! Vou já buscar-vos uma bebida fresca. E foi. Conhecia muito bem Castelo Branco, até lá tinha um grande amigo, quase um irmão, um tal F. Confidenciaria discretamente aos elementos masculinos que o tal F. tinha um “negócio da noite”. Malogradamente ninguém conhecia F., levando-nos mesmo a pedir desculpa por tal falha. Entregou-nos um cartão que ele classificou como “salvo conduto” e recomendou viva e repetidamente para entregarmos um abraço a F. da parte dele. Se calhar, havemos de ter de honrar o compromisso. Uma noite destas…


Etapa 8 Ponte do Abade_Moimenta da Beira 21 de setembro de 2013, sábado Distância percorrida: 27,2 km Tempo total de caminhada: 07:58 horas Tempo a andar: 06:28 horas Tempo parado: 01:30 horas Velocidade média: 4,3 km/h Altitude máxima: 763 metros aos 6,5 Km (Srª das Necessidades) Subida acumulada: 594 metros Descida acumulada: 528 metros

Povoados e locais de referência ao longo do percurso: Ponte do Abade, Sernancelhe, Pelourinho e Igreja Matriz, Solar dos Carvalhos, Casa da Comenda de Malta, Vila da Ponte, Santuário de Nossa Senhora das Necessidades, Capela de Santa Águeda, Penso, A de Barros, Solar dos Noronhas, Capela de Barros, Prados de Baixo, Prados de Cima, Rua, Pelourinho e Vivenda Coelho, Arcozelo da Torre, Arcozelo do Cabo, Moimenta da Beira.


Etapa 9 Moimenta da Beira_Lamego 22 de setembro de 2013, domingos Distância percorrida: 28,8 km Tempo total de caminhada: 08:36 horas Tempo a andar: 06:33 horas Tempo parado: 02:03 minutos Velocidade média: 4,4 km/h Altitude máxima: 842 metros (perto de Sarzedo) Subida acumulada: 694 metros Descida acumulada: 874 metros

Povoados e locais de referência ao longo do percurso:, Moimenta da Beira, Solar dos Guedes/Biblioteca Municipal Aquilino Ribeiro, Beira Valente, Sarzedo, Granja Nova, Ucanha, Ponte e Torre fortificadas sobre o rio Varosa, Mosteiro de Salzedas, Eiras Queimadas, Várzea dos Abrunhais, Lamego, Casa das Brolhas, Sé Catedral de Lamego, Santuário da Senhora dos Remédios. Acumulado: Caminho: 230,7 Km, faltam 326,1 Km Bacias hidrográficas: Tejo, Zêzere, Mondego, Távora, Varosa, Balsemão, Douro. Distritos: Castelo Branco, Guarda, Viseu. Concelhos: Castelo Branco, Fundão, Covilhã, Belmonte, Manteigas, Guarda, Celorico da Beira, Trancoso, Aguiar da Beira, Sernancelhe, Moimenta da Beira, Tarouca, Lamego


O percurso atravessava o subúrbio de uma pequena aldeia por entre quintinhas e vivendas profusamente ornamentadas com bonitas e variadas flores. O sol brilhava num céu limpo, de azul profundo, a temperatura era amena, o ambiente entre os caminhantes peregrinos era descontraído e bem disposto. O tema de conversa desembocou nas mini-férias que o casal Pintassilgo tinha gozado na semana anterior. Os dois, só os dois, sem empecilhos. Foram arrulhar, propôs alguém, foram nidificar, avançou outro alguém, foram dar umas depenicadas, atreveu-se um terceiro alguém. A resposta mantinha-se muda, feita de sorrisos escondidos e olhares cúmplices. O macho Pintassilgo, todavia, não resistiu ao impulso e, entre o provocador e o exibicionista, surripiou 4 pés de hortênsia, compôs um rápido mas formoso ramo e foi oferecê-lo à fêmea Pintassilgo acompanhado de um breve encontro de bicos. O gesto mereceu o aplauso geral. Que devia servir de exemplo e ser seguido por outros machos cujas fêmeas também estavam presentes. O macho Branco foi determinado na recusa: - Nem pensar, eu não ofereço flores nenhumas à minha querida. Provocou espanto e desaprovação geral tamanha desfaçatez, tendo-se mesmo ouvido alguns assobios. Serenados os ânimos, ele explicou: - Eu não ofereço flores à minha amada esposa porque não quero que ela pense que eu a vejo como uma jarra


Etapa 10 e 11 Lamego_Loivos do Monte 19 e 20 de Outubro de 2013, sรกbado e domingo


Etapa 12 Loivos do Monte_Amarante


Etapa 13 Amarante_Felgueiras


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Caderno de Santiago