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FICHA TÉCNICA TÍTULO: Perspetivas de inovação na produção de bovinos de carne AUTORES: Rute Santos, Noémia Farinha, Cheila Granadeiro, Miguel Minas, Mª da Graça Pacheco de Carvalho, Luís Alcino da Conceição EDIÇÃO: Instituto Politécnico de Portalegre ISBN: 978-989-8806-24-6 DATA DE EDIÇÃO: 2018 COFINANCIAMENTO:

PROMOTORES:


ÍNDICE 1. A genética molecular na produção de bovinos de carne ................................ 1 2. Alternativas pratenses para a recria de bovinos de carne ............................ 29 3. Aspetos sanitários relevantes na recria de bovinos de carne ...................... 55 4. Fatores de influência sobre a qualidade das carcaças de bovino e a decisão de compra/consumo ..................................................................................................113 5. Inovação Tecnológica e Pecuária de Precisão em Sistemas de Produção de Bovinos de Carne .......................................................................................................133

ÍNDICE DE FIGURAS Figura 1.1. Fenótipo da dupla musculatura num bovino de raça BBB (retirado de: Wikipedia) ............................................................................................................... 10 Figura 1.2. Representação esquemática do gene da miostatina e localização aproximada de sete mutações mais importantes (retirado de: Mateescu, 2015). ............................................................................................................................... 11 Figura 1.3. Rede genética do rebreeding em novilhas Nelore (Melo et al., 2017). ............................................................................................................................... 15 Figura 1.4. Tabela de efeitos genéticos Igenity ®, que permite o cruzamento dos scores de 1 a 10 para cada característica com os correspondentes Molecular Breeding Values (MBV), ou efeitos esperados. ................................. 19


Figura 1.5. Resultados médios dos principais indicadores produtivos nos efetivos bovinos de carne na República da Irlanda, relativos aos anos 2014 a 2017.................................................................................................................................. 22 Figura 2.1. Bovinos em pastoreio numa pastagem melhorada .......................... 31 Figura 2.2. Encabeçamento observado em cinco explorações agrícolas distribuídas pelo país, quando se comparou uma pastagem natural com uma pastagem semeada, na mesma exploração agrícola, utilizada por bovinos. Fonte: Crespo et al. (2004)........................................................................................ 36 Figura 2.3. Instalação de pastagem permanente de sequeiro com sementeira direta................................................................................................................................ 41 Figura 2.4. Curva de distribuição média anual da produção de uma pastagem permanente em sequeiro. Adaptado de Moreira (2002) ................................... 45 Figura 2.5. Curva de distribuição média anual da produção de uma pastagem de regadio em condições mediterrânicas. Adaptado de Moreira (2002) ...... 47 Figura 3.1. Evolução da produção da carne de bovino em Portugal (Fonte: INE, 2016). ............................................................................................................................... 57 Figura 3.2. Diferenças anatómicas e fisiológicas do sistema respiratório de bovinos e equinos ......................................................................................................... 64 Figura 3.3. Fatores pré e pós desmame que afetam a doença respiratória em bovinos de carne e o impacto final da doença na produção de carne (adaptado de Duff e Galyean, 2007). ........................................................................................... 69 Figura 3.4. Vitelo de engorda com sintomatologia de DRB aguda. ................. 73 Figura 3.5. Matriz de avaliação para o sistema de classificação de DRB......... 75 Figura 3.6. Impacto da pneumonia em vitelos de carne ..................................... 78 Figura 3.7. Doença respiratória nos vitelos na Irlanda: importância, etiologia e epidemiologia ................................................................................................................. 84 Figura 3.8. Apresentação “pós-morte” de enterite necro-hemorrágica num bovino. A – Morte súbita num vitelo Branco Azul Belga, com distensão abdominal e timpanismo marcados. B – Intestino delgado severamente


distendido e congestionado no mesmo caso de enterotoxémias; ao corte/abertura aprecia-se normalmente o aspeto e consistência hemorrágica das fezes (adaptado de Goossens et al., 2017)………………………………87 Figura 3.9. Aspeto do olho esquerdo de um vitelo de carne que foi detetado com blefarospasmo e lacrimejamento numa engorda alentejana durante o Verão. .............................................................................................................................. 92 Figura 3.10. Um caso de QIB, bilateral, em vitelo de carne, recém-desmamado e incluído num grupo de animais a recriar, na região alentejana. .................... 93 Figura 3.11. Urolitíase em bovinos de carne. A: local anatómico mais comum para a cirurgia (uretrostomia), único tratamento em obstruções totais. B: Edema ventral com distensão na região abdominal ao nível de testículos e prepúcio. C: Aspeto à distância de um novilho de engorda com urolitíase. D: Aspeto macroscópico “pós-morte” da bexiga no animal representado em C. ........................................................................................................................................... 98 Figura 3.12. Vitelo cruzado de carne, macho, timpanizado. Note-se a distensão no flanco esquerdo do abdómen. ............................................................................. 99 Figura 3.13. Outro vitelo cruzado de carne timpanizado. Sublinhamos, de novo, a distensão do flanco abdominal esquerdo e o pormenor da presença de conteúdo alimentar nas narinas, consequência de uma sobrecarga alimentar brutal. ..........................................................................................................100 Figura 4.1. Ilustração dos fatores que podem influenciar a qualidade da carne (adaptado de Capelo, 2005). ...................................................................................115 Figura 4.2. Modelo multidisciplinar dos principais fatores que afetam o comportamento do consumidor no setor alimentar (adaptado de Font-iFurnols e Guerrero, 2014). .....................................................................................122 Figura 4.3. Modelo de perceção da qualidade ("a unified quality framework") (Fontes, et al., 2011, adaptado de Caswell et al., 2002). ..................................124 Figura 4.4. Preparação de uma Carnalentejana ...................................................126


Figura 5.1. Evolução percentual do número de utilizadores de internet em Portugal no período de 1997 a 2015 (Grupo Marktest, 2017) ......................135 Figura 5.2. Localização de diferentes tipos de sensores para monitorização in situ num bovino fêmea ..............................................................................................141 Figura 5.3. Exemplos de bastão de leitura (transponder) (à esquerda) e dispositivos eletrónicos de identificação (transciever), brinco e bolus reticular (à direita). .....................................................................................................................143 Figura 5.4. Manga para separação automática de animais, neste caso adaptada a pequenos ruminantes (Pecplus, 2017). ..............................................................145 Figura 5.5. Comedouro com sensor de pesagem (C-Lock, 2017).................145 Figura 5.6. Smart feeder, alimentador automático em função do identificador do animal (C-Lock, 2017). ........................................................................................146 Figura 5.7. Sensor de pesagem em manga de condução de animais com identificador eletrónico (Bosch, 2017). ................................................................146 Figura 5.8. A colocação de um pedómetro nos membros do animal (à esquerda) e o conhecimento da sua informação pode ser determinante para o sucesso da taxa de conceção de uma vacada (à direita). .............................148 Figura 5.9. Integração de tecnologias complementares em pecuária de precisão, monitorização do movimento por acelerómetros, georreferenciação por colares de GPS e deteção remota na gestão de um efetivo pecuário de bovinos em extensivo (Cattlewatch, 2017)....................149 Figura 5.10. Sistema de gravação (A) e análise acústica (B) para detetar, classificar e quantificar automaticamente os eventos de ingestão num animal da espécie bovina (Clapham et al. (2011).............................................................150 Figura 5.11. Sistema de mensuração tridimensional em bovinos com base em sensores Kinect (adaptado de Kawasue et al., 2017) ........................................153 Figura 5.12. Avaliação da temperatura ocular em bovinos com recurso a uma camara termográfica (à esquerda) e Imagem de infravermelhos exibindo os


valores do ponto (carúncula lacrimal), da temperatura do ar e da humidade relativa ...........................................................................................................................156 Figura 5.13. Locais para avaliação das medidas por ultrassom (Ad. Sainz e Araújo, 2002). ..............................................................................................................158 Figura 5.14. Robots pastores, Rover (em cima) e SwagBot (em baixo), ambos desenvolvidos pela Universidade de Sidney na Austrália (Australian Centre for Field Robotics, 2016) .................................................................................................160

ÍNDICE DE QUADROS Quadro 2.1. Comparação da produção em pastagens naturais e pastagens semeadas e fertilizadas, de sequeiro……………………………………...…35 Quadro 3.1. Quadro resumo dos tipos de bactérias, doenças e classe de animais atingidos nas clostridioses bovinas………………………………….96 Quadro 5.1. Tecnologias em 3D segundo diferentes autores para análise morfológica em bovinos……………………………...…………………….152


1. A GENÉTICA MOLECULAR NA PRODUÇÃO DE BOVINOS DE CARNE Rute Guedes dos Santos Instituto Politécnico de Portalegre, Portugal | Instituto de Ciências Agrárias e Ambientais Mediterrânicas

Na exploração pecuária, o potencial produtivo encontra-se limitado a priori pela informação contida no código genético dos animais, sendo a manifestação desse potencial, por sua vez, otimizada ou reduzida pelas condições ambientais, que incluem todos os aspetos relacionados com o maneio reprodutor, nutricional, sanitário, etc. Reconhece-se, portanto, a importância da escolha de animais geneticamente aptos para o fim a que se destinam no rendimento produtivo. Classicamente, os carateres de interesse produtivo foram sendo apurados nos efetivos pecuários com base em programas de seleção que estimavam o valor genético dos reprodutores com base nos resultados produtivos dos seus ascendentes, na manifestação fenotípica das características de interesse no próprio animal (quando possível) e, finalmente, nas características da sua descendência. Este processo de 1


melhoramento genético é moroso e exigente, obrigando ao registo e tratamentos de volumes apreciáveis de informação, e está na base do progresso genético verificado nas espécies de interesse pecuário até ao final do século XX. Mais recentemente, o mapeamento do genoma do Bos taurus possibilitou a identificação de alguns genes que estão envolvidos na manifestação de características produtivas de interesse e que poderão ser importantes para o melhoramento genético, uma vez que permitem uma seleção precoce dos animais, através da análise de genes antes da sua expressão, ou a seleção de características que só são mensuráveis após a morte do animal, como sejam as características associadas à qualidade da carne (Schierholt, 2005, citado por Carolino, 2015). Embora os carateres importantes para a produção de carne sejam influenciados pelo ambiente (por exemplo, pelas condições da exploração, estado nutricional e maneio pré e pósabate), a variação geneticamente controlada (heritabilidade) dos carateres importantes para a produção e a qualidade do produto é relativamente alta, variando entre 0,15 e 0,35 (Wheeler, Cundiff, Shackelford, & Koohmaraie, 2004, citados por Williams, 2008). Isso sugere que uma proporção apreciável da variação está sob controlo genético e, portanto, pode ser melhorada pela seleção. O conhecimento dos genes que controlam a variação de uma característica abre a oportunidade de usar informações genómicas em programas de seleção.

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A seleção com recurso à genética molecular é possível através de dois mecanismos distintos: (1) o conhecimento específico dos genes que afetam diretamente os carateres de interesse, e dos seus polimorfismos; e (2) o conhecimento de sequências do ADN que se encontram associadas aos genes de interesse, e que se designam de marcadores genéticos. Utilizando um número relativamente pequeno de marcadores, foi possível identificar grosseiramente a localização nos cromossomas dos loci de carateres quantitativos (Quantitative Trait Loci, ou QTL) contendo alguns dos principais genes que controlam uma série de características de produção importantes nas espécies pecuárias. Estes marcadores podem ser usados para realizar seleção assistida por marcadores (Williams, 2008). Atualmente existem painéis de testagem de marcadores genéticos disponíveis comercialmente, sendo alguns validados por estudos científicos (Van Eenennaam et al., 2007).

RESISTÊNCIA A DOENÇAS Num cenário em que o produtor de bovinos de carne olha cada vez mais para o mercado global, que é condicionado pelas preocupações sanitárias que o trânsito de animais e produtos cárneos envolve, com os riscos inerentes para a saúde animal e para a própria saúde humana, no caso das zoonoses, a resistência genética a doenças torna-se uma importante área de estudo. Por 3


outro lado, o melhoramento genético da resistência a doenças pode trazer uma vantagem indireta significativa, numa perspetiva de utilização racional dos fármacos em saúde animal, já que a crescente identificação de resistências dos agentes infeciosos e parasitários constitui uma ameaça real, e a preocupação dos consumidores com as consequências da acumulação de resíduos, quer nos produtos de consumo, quer no meio ambiente, é cada vez maior. Há inúmeros estudos que relatam a possibilidade de melhoramento genético da resistência a doenças que afetam os bovinos, enumerando-se aqui, a título de exemplo, alguns relacionados com doenças cujo controlo representa um investimento apreciável nos efetivos bovinos nacionais. A brucelose é uma zoonose provocada por bactérias do género Brucella. Martínez et al. (2010), citados por Ruvinsky & Teale (2015), observaram que a resposta imunitária à infeção dos bovinos classificados como resistentes a Brucella abortus diferiu significativamente (p <0,05) da de animais suscetíveis, tendo estimado a heritabilidade deste caráter em 0,54 ± 0,11. Todos os estudos realizados durante as duas últimas décadas demonstraram possibilidade de seleção para resistência à brucelose nos bovinos e identificaram pelo menos um gene candidato forte (SLC11A1), embora ainda não tenham sido identificados polimorfismos especificamente associados à resistência à brucelose (Ruvinsky & Teale, 2015). O principal agente da tuberculose bovina é o Mycobacterium bovis. Muitos países, incluindo Portugal, não foram ainda capazes 4


de erradicar a tuberculose, que constitui uma causa de consideráveis perdas económicas e, sendo transmissível ao Homem, representa uma ameaça (Humblet et al., 2009, citados por Ruvinsky & Teale, 2015). Bermingham et al. (2010) concluíram que a seleção para o aumento da produção e da condição corporal podem aumentar a suscetibilidade à infeção pelo M. bovis. Recentemente, realizaram-se estudos que demonstraram que a expressão do gene IPR1 (SP110) pode melhorar a atividade anti-Mycobacterium bovis dos macrófagos. Este achado estabelece uma base para a produção potencial de bovinos transgénicos IPR1 para fortalecer a resistência à tuberculose (He et al., 2011, citados por Ruvinsky & Teale, 2015). Outra opção possível é descobrir um polimorfismo no SP110 que posa ser usado para fins de seleção. Uma outra área relevante de pesquisa de resistência são as endoparasitoses, principalmente considerando as diversas evidências de resistências dos parasitas dos bovinos em pastoreio aos fármacos anti-helmínticos (El-Abdellati et al., 2011; Sutherland & Leathwick, 2011; citados por Ruvinsky & Teale, 2015). Os resultados de Araújo et al. (2009), citados por Ruvinsky & Teale (2015), indicam que as respostas imunes contra infeções gastrointestinais de nemátodes nos bovinos envolvem vias de resposta múltipla. Níveis mais elevados de expressão para recetor de IgE, integrinas, complemento, fatores de monócitos/macrófagos e tecidos estão associados à resistência genética às nematodoses. Em contraste, níveis mais elevados de expressão para as cadeias de imunoglobulina e recetores das 5


células T estão associados à suscetibilidade. Este conhecimento acumulado permitiu já a identificação de variabilidade em diversos loci em cromossomas conhecidos em bovinos da raça Angus (Liu et al, 2011, citados por Ruvinsky & Teale, 2015). Estes autores referem que estas regiões variáveis estão particularmente relacionadas com a resposta imune que afeta as atividades dos recetores, transdução de sinais e transcrição. Os autores referem ainda que os fatores de transcrição comuns estão provavelmente envolvidos na resistência parasitária. Para além das endoparasitoses, as ectoparasitoses têm também impactos económicos e sanitários bem conhecidos. As infestações por artópodes hematófagos da família Ixodidae (carraças duras) em particular causam perdas importantes de forma direta, nos casos de infestações massivas (com anemias e redução da taxa de crescimento), e principalmente de forma indireta, enquanto vetores de hemoparasitoses causadas por diferentes protozoários. A evidência científica mostra que a resistência dos bovinos, quer às carraças, quer aos microrganismos por elas transmitidos, é mais frequente em animais nativos das regiões onde estas infeções são tradicionalmente endémicas. Verifica-se, designadamente, uma maior resistência do gado zebuíno (Bos taurus indicus), quando comparado com o godo bovino europeu (Bos taurus taurus) (Dicker & Sutherst, 1981; Rechav et al., 1990; citados por Ruvinsky & Teale, 2015). Num cenário de alterações climáticas, é expectável uma prevalência cada vez maior das patologias classicamente associadas aos ecótipos tropicais e subtropicais 6


nas regiões temperadas como o sul da Europa. Neste âmbito, torna-se relevante uma maior compreensão dos fenómenos de resistência aos ácaros e insetos vetores, assim como às patologias que transmitem. Após a infestação artificial com carraças da espécie Rhipicephalus microplus, bovinos de raça Brahman apresentaram menor carga de infestação do que bovinos Holstein-Friesian. A análise de expressão de genes indica que genes pró-inflamatórios, tais como TLR-5, ligando de quimiocinas -2 e recetor de quimiocinas -1, estão envolvidos nos mecanismos de resistência. Estes genes são expressos num nível mais baixo em locais de ligação no gado Brahman do que no gado Holstein-Friesian. Além disso, estudos subsequentes identificaram QTL candidatos, explicando cerca de 3,3 a 5,9% da variância fenotípica na carga de parasitas. É possível que diferentes QTL possam ser expressos, dependendo dos fatores ambientais. Por exemplo, os QTL localizados nos BTA 2 (Bos taurus chromosome 2) e 10 foram associados à resistência às carraças durante a estação seca, enquanto os QTL localizados nos BTA 5 e 11 foram associados à resistência às carraças durante a estação húmida (Bahbahani & Hanotte, 2015). A theileriose tropical ou mediterrânica é uma doença parasitária causada pelo protozoário Theileria annulata, transmitida por carraças do género Hyalomma. Sabe-se que existe uma elevada prevalência no sul do país, em particular no Alentejo, região onde existem 47% dos bovinos de Portugal continental (Gomes, 2014). A tolerância do hospedeiro à theileriose foi documentada 7


em gado zebuíno de raça Sahiwal, quando comparado com bovinos taurinos europeus. As análises de proteínas realizadas sobre o gado Sahiwal artificialmente desafiado com Theileria annulata mostraram níveis mais baixos da glicoproteína ácida plasmática α1 no soro sanguíneo dos bovinos Sahiwal em comparação com os mais suscetíveis bovinos Holstein-Friesian. A tolerância do gado Sahiwal à theileriose tropical também foi associada a uma menor capacidade de invasão dos leucócitos infetados transformados, isto é, dos macrófagos, uma possível consequência de um menor nível de expressão do fator de crescimento transformante codificado pelo gene TGF-b2 (Bahbahani & Hanotte, 2015).

CRESCIMENTO E ESTATURA ADULTA Foi identificado um QTL forte no cromossoma 14 para a altura aos 18 meses e peso aos 24 meses de idade nas raças HolsteinFriesian e Jersey (Karim et al., 2011, citados por Thoney, 2015). Este QTL explicou 7% e 2% da variação genética para peso vivo em bovinos Holstein-Friesian e Jersey, respetivamente. O QTL foi bialélico, com as vacas QQ apresentando em média mais 20 kg de peso, as vacas Qq sendo médias e as vacas qq sendo 24 kg mais leves aos 24 meses de idade. Na população parental, o alelo q teve uma frequência de 95% em Jersey e o alelo Q apresentou uma frequência de 78% nas vacas Holstein-Friesian. O QTL foi localizado num intervalo de 780 kb que engloba o gene 1 do 8


adenoma pleomórfico (gene PLAG1), sugerindo que o PLAG1 é um importante regulador da estatura nos bovinos. Os autores concluíram que os marcadores PLAG1 poderiam ser usados para selecionar bovinos de carne de crescimento mais rápido e, pelo contrário, bovinos leiteiros com pesos adultos mais leves, para minimizar os custos de manutenção. Embora a evidência do efeito alélico dominante do PLAG1 não tenha sido forte, presumivelmente a seleção do alelo PLAG1 para um crescimento mais rápido no gado bovino seria mais útil em cruzamentos terminais, para evitar aumentar o tamanho do adulto e os custos associados à manutenção do efetivo reprodutor em bovinos de carne (Thoney, 2015).

DESENVOLVIMENTO MUSCULAR E QUALIDADE DA CARNE As mutações que surgem no gene MSTN ou GDF8, que codifica a síntese da miostatina, e que estão associadas à perda de função desta proteína, com o consequente aumento exagerado da massa muscular (hipertrofia muscular - mh), determinando o fenótipo da musculatura dupla (MD-double-muscling) podem traduzir-se em efeitos muito apreciáveis de aumento da massa muscular e ocorrem em diferentes raças bovinas, bem como noutras espécies, com níveis diferentes de intensidade (Carolino, 2015). Nos bovinos de carne, as principais mutações conhecidas 9


deste gene surgem em diferentes raças (Limousin, Maine-Anjou, Charolais, Belgium Blue, Blonde d’Aquitaine, South Devon, Marchigiana, Piedmontese, Asturiana de los Valles), isoladamente ou em combinação (neste caso, com efeitos aditivos), e com efeitos fenotípicos mais ou menos exuberantes (figura 1.1). Ao mesmo tempo que alguns músculos exibem hipertrofia, observase uma diminuição de 3 a 10% no peso do osso e uma redução geral no tamanho esquelético, sendo o resultado líquido uma maior percentagem de peças vendáveis de carne magra nos em indivíduos com musculatura dupla (Mateescu, 2015).

Figura 1.1. Fenótipo da dupla musculatura num bovino de raça BBB (retirado de: Wikipedia)1

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Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:BlancBleuBelge.jpg#/media/File:Blan cBleuBelge.jpg 10


Contudo, a hipertrofia muscular apresenta também desvantagens associadas, como dificuldades reprodutivas, em particular nos partos, malformações, doenças respiratórias, baixa viabilidade dos vitelos e o atraso na maturação sexual (McPherron & Lee, 1997, citados por Carolino, 2015). Esta é provavelmente a principal razão pela qual a musculatura dupla não é sistematicamente selecionada e, principalmente em algumas raças de bovinos europeias, é tolerada em frequências intermédias (Mateescu, 2015). A mutação F94L no MSTN (figura 1.2) é comum nos bovinos Limousin de raça pura e nos seus cruzamentos, como o Lim-Flex (cruzamento de Limousin com Red Angus). Os ensaios de Lee et al. (2015) confirmam que a substituição de aminoácidos nesta posição (F94L) está associada a efeitos fenotípicos dramáticos sobre os carateres de crescimento e desenvolvimento muscular, e a efeitos negativos sobre a infiltração de gordura (marmoreado) do tecido muscular.

Figura 1.2. Representação esquemática do gene da miostatina e localização aproximada de sete mutações mais importantes (retirado de: Mateescu, 2015).

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A ternura é considerada um dos fatores mais importantes na determinação da satisfação do consumidor e da qualidade alimentar, e o processo de maturação após o abate desempenha um papel importante na qualidade alcançada no produto final da carne. O complexo enzimático calpaína-calpastatina regula as taxas de degradação de várias proteínas estruturais no músculo (Koohmaraie et al., 2002, citados por Mateescu, 2015). A proteólise das miofibrilhas mediada pela calpaína foi identificada como responsável pela degradação da proteína, que está associada à melhoria da tenrura da carne durante o armazenamento das carcaças (Ouali & Talmant, 1990; Goll et al., 1992; Huff-Lonergan et al., 1996; citados por Mateescu, 2015). Os marcadores CAST T1 e CAPN 316 tiveram efeitos significativos e consistentes sobre a resistência ao corte em diversas raças e populações estudadas por Von Eenennaam et al. (2007). A leptina é uma hormona produzida predominantemente pelo adipócito, sendo fundamental na regulação da homeostasia energética. Atua como sinalizadora da massa gorda existente no organismo, estando envolvida no controlo e balanço dos lípidos nos tecidos não adiposos, na ingestão alimentar e termogénese, com subsequentes implicações metabólicas. A leptina é genericamente responsável pela inibição da ingestão alimentar e aumento da termogénese, o que contribui para a manutenção de adequadas reservas lipídicas e manutenção do peso corporal (Lau et al. 2014). A leptina é codificada por um gene com 167 aminoácidos, e a sua função é essencialmente hormonal e 12


autócrina. O peso de carcaça, o marmoreado da carne e o próprio rendimento da carcaça estão associados à presença de leptina, como referem Geary et al. (2003), que observaram que as concentrações séricas da leptina se correlacionaram positivamente com estas características em algumas raças, incluindo a Limousin. Existem diversos marcadores genéticos cujos polimorfismos, identificados no gene que codifica a leptina, se associam efeitos sobre características da qualidade da carne e das carcaças bovinas. No âmbito do projeto VITAPEC – Vitela e vitelão da Elipec, cofinanciado pelo PRODER - Programa de Desenvolvimento Rural, Subprograma 4: 4.1. Cooperação para a Inovação, investigaram-se os efeitos dos polimorfismos de dois destes marcadores. A variação UASMS2 C>T na posição 528 do gene da leptina implica substituição de uma Citosina por uma Timina. Nesta posição do gene da leptina, os animais portadores de pelo menos uma Timina (T) foram associados a ingestões de matéria seca e ganhos médios diários superiores, assim como a valores mais elevados de peso ao abate e espessura da gordura dorsal. Adicionalmente, a presença de genótipos com pelo menos uma Timina também se correlacionou positivamente com o marmoreado da carne e com particularidades do comportamento alimentar (Nkrumah et al., 2005). Já Lusk (2007) observou para o genótipo UASMS2-CC o maior peso vivo no início da engorda, mas para o genótipo UASMS2-TT a taxa de crescimento do peso vivo mais elevada.

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A variação Exon2FB C>T na posição 15196 implica substituição de uma Citosina por uma Timina. Nesta posição do gene da leptina, os animais portadores de pelo menos uma Timina (T) foram também associados a carcaças de melhor qualidade (Pinto et al., 2011). Em concreto, Nkrumah et al. (2004) associaram o genótipo TT a maiores taxas de ingestão, frequência e duração da ingestão superiores, maior espessura da gordura dorsal e menor rendimento magro da carcaça. Detetaram ainda uma frequência superior do alelo T nas linhagens de origem britânica (Angus e Hereford) e do alelo C nas linhagens de origem continental (Limousin, Gelbvieh e Charolais).

CARACTERÍSTICAS REPRODUTIVAS As aptidões reprodutivas são características de inegável interesse na produção de bovinos de carne, dado o seu impacto na rentabilidade dos efetivos. Por este motivo, proliferaram os estudos genómicos destinados a identificar as bases genéticas da variabilidade das características reprodutivas nos bovinos. No entanto, continua a existir uma necessidade e um desejo de avançar destes resultados da associação genómica para a compreensão dos genes e polimorfismos específicos, subjacentes à variação genética no nível da população. Este objetivo foi alcançado em relativamente poucos casos até à data (Kirkpatrick, 2015).

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Os estudos demonstram a dificuldade de identificar genes candidatos específicos que atuam sobre as características reprodutivas, em virtude da natureza poligénica complexa da transmissão das mesmas (Buzanskas et al., 2017). A título de exemplo, pode observar-se a rede genética ligada ao nº de inseminações por ciclo em novilhas Nelore, elaborada por Melo et al. (2017) (figura 1.3).

Figura 1.3. Rede genética do rebreeding em novilhas Nelore (Melo et al., 2017).

Apesar destas dificuldades, têm existido desenvolvimentos apreciáveis. Um exemplo recente de avanços na identificação genómica de marcadores da fertilidade nos machos é a patente que identifica 3 SNP no gene bovino MAP1B, um SNP no gene PPP1R11 e um SNP no gene DDX4, que estão associados às taxas de conceção dos touros (Khatib, 2017).

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A procura de indicadores associados ao sucesso reprodutivo nas fêmeas também tem sido alvo de extensa investigação nos últimos anos. Resultados recentes em zebuínos indicam que os genes PAPP-A2, PAPP-A, XKR4, MBL-1 e ESRRG influenciam a precocidade sexual em novilhas (Takada et al., 2018). No seu trabalho desenvolvido em vacas Holstein-Friesian, Chen et al. (2017) sugerem que os polimorfismos nos genes que codificam algumas selectinas (moléculas adesivas que ligam os leucócitos ao endotélio), SELP e SELE, estão associados à probabilidade de uma gravidez com sucesso, potencialmente em virtude de compromissos na implantação e no desenvolvimento placentário. Dickinson et al. (2018) relatam que o perfil de transcriptomas nos leucócitos periféricos, no momento da inseminação artificial, está associado ao potencial de fertilidade das novilhas de bovinos de carne, pelo que os níveis de transcrição de genes específicos podem ser explorados como potenciais classificadores e, portanto, ferramentas de seleção, de fertilidade de vaca. Refira-se, no entanto, que embora a área da genómica dos carateres reprodutivos bovinos tenha já identificadas inúmeras janelas de oportunidade, há ainda muito trabalho que é necessário fazer para poder transformá-las em ferramentas de uso sistemático no melhoramento animal.

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APLICAÇÃO DA GENÓMICA À SELEÇÃO DE BOVINOS DE CARNE O caminho da aplicação da genómica, e do conhecimento adquirido, ao melhoramento da rentabilidade e eficiência da produção de bovinos de carne passa pelo desenvolvimento de painéis de marcadores com associação comprovada aos carateres produtivos, para permitir a testagem sistemática a custos comportáveis dos reprodutores. Esta informação é, sem dúvida, a ferramenta de decisão mais importante para o produtor, e o aumento da fiabilidade da previsão do valor genético aportado pela informação genómica poderá permitir obter progresso genético mais rapidamente do que seria possível mediante a utilização exclusiva dos métodos quantitativos clássicos. Neste campo, os progressos recentes têm sido assinaláveis. Foi, por exemplo, desenvolvido um painel de marcadores SNP, informativo e económico, que previu uma proporção útil de variação em características importantes de eficiência alimentar para os bovinos de carne. O estudo identificou 63 SNP associados a variações substanciais (19,4%) na eficiência alimentar, que posteriormente podem ser utilizadas na prática pela indústria de carne bovina. Alguns dos SNP, nos genes UMPS, SMARCAL, CCSER1 e LMCD1, mostraram efeitos significativos de sobredominância, enquanto outros SNP, localizados nos genes SMARCAL1, ANXA2, CACNA1G e PHYHIPL, mostraram 17


efeitos aditivos sobre a ingestão residual e a ingestão residual ajustada à gordura dorsal (Abo-Ismail el al., 2018). Um aspeto importante para o sucesso da aplicação da genómica neste setor é a produção de resultados que sejam facilmente compreendidos, e portanto, aplicados, pelo produtor, estimulando assim a sua adesão à metodologia. Em países em que a produção de carne bovina é uma indústria com elevada expressão económica, como é o caso da América do Norte (EUA e Canadá), estão já disponíveis comercialmente painéis de testagem de animais que reúnem marcadores associados aos carateres de maior interesse produtivo e convertem os resultados da testagem num score ou índice que se torna inteligível para o produtor, podendo assim assistir à tomada de decisão ao nível da exploração. O grupo empresarial Neogen Corporation, por exemplo, disponibiliza ao produtor resultados de um painel de até 13 carateres produtivos relevantes na seleção das fêmeas reprodutoras (Igenity Gold ®): (1) carateres de capacidade reprodutiva e maternal: peso ao nascimento, facilidade de parto (direta e materna), probabilidade de sucesso da inseminação, precocidade da gestação, docilidade e produção de leite; (2) carateres de desempenho produtivo: eficiência alimentar (ingestão residual de alimento), ganho médio diário; e (3) carateres de características da carcaça: tenrura, marmoreado da carne, área do lombo e espessura da gordura dorsal (Neogen Corporation, 2017). Os resultados são produzidos sob a forma 18


de scores (figura 1.4), que permitem a interpretação pelo produtor e aplicação na seleção dos reprodutores.

Figura 1.4. Tabela de efeitos genéticos Igenity ®, que permite o cruzamento dos scores de 1 a 10 para cada característica com os correspondentes Molecular Breeding Values (MBV), ou efeitos esperados. O MBV é a previsão do desempenho fenotípico esperado da descendência futura de um animal, em comparação com o desempenho da descendência de outros animais testados na população-alvo (adaptado de Neogen Corporation, 2017).

Adicionalmente, o produtor pode associar a este painel testes de paternidade, e identificar assim os touros progenitores (algo útil nas explorações de bovinos de carne, em que o recurso à inseminação artificial não constitui regra, pelo que os progenitores de cada fêmea são, muitas vezes, desconhecidos). O grupo Zoetis oferece um programa de testagem concorrente, designado GeneMax Advantage ®, vocacionado para bovinos da raça Angus. Os scores de pontuação produzidos pelo programa variam entre 1 e 100 (pontuações mais altas são melhores, a 19


pontuação média é de 50) e classificam as fêmeas em função do lucro líquido previsto através do mérito genético combinado para as seguintes etapas da produção (Zoetis Inc., 2016): • Fase Mãe: prevê diferenças na precocidade das novilhas, facilidade de parto (materna e total), produção de leite, crescimento e custos devido ao tamanho da vaca e à produção de leite, assumindo que a descendência seja vendida ao, ou logo após o desmame. • Fase Crescimento: prevê diferenças no retorno líquido dos bezerros produzidos, devido à genética transmitida para crescimento após desmame, consumo de alimento, peso da carcaça e classificação da carcaça (marmoreado e carateres de qualidade e rendimento do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos). • Fase Total: prevê diferenças na rentabilidade do mérito genético em todos os carateres economicamente relevantes analisados nas duas fases acima referidas. Nos Estados Unidos, o peso económico do setor da produção de carne bovina levou ao interesse destas corporações privadas na área da saúde animal no desenvolvimento destes programas de testagem genética. Outro aspeto crítico para o sucesso da aplicação da genómica ao melhoramento dos bovinos de carne é a constituição de bases 20


de dados representativas das populações-alvo, que reúnam a informação genética e os dados fenotípicos e permitam, assim, melhorar a fiabilidade das previsões e o progresso genético efetivo. Neste aspeto, o envolvimento das associações de criadores e do próprio estado tem uma enorme importância. A única produção dos efetivos bovinos de carne é o bezerro, o que resulta numa elevada pegada ambiental por produto unitário (Wilkinson, 2011, citado por Berry, García & Garrick, 2016). Melhorar a eficiência da produção de carne de bovino, através da utilização da genómica, por exemplo, é, portanto, um bem público. Esta realidade já é reconhecida na Irlanda (Beef Data & Genomics Programme, promovido pela Irish Cattle Breeding Federation (ICBF); mais informação em: https://www.icbf.com) onde os produtores de bovinos de carne são financeiramente incentivados a realizar análises genéticas dos animais nos efetivos, contribuindo assim para a reunião de informação sobre uma população de referência para a seleção genómica. Os produtores de carne irlandeses também são financeiramente incentivados a manter as fêmeas que apresentam índices elevados nos testes genómicos na reposição do efetivo. O objetivo desta iniciativa é aumentar a eficiência do efetivo nacional de bovinos de carne. Neste sentido, a ICBF divulga os resultados estatísticos nacionais, relativos a um conjunto de carateres produtivos nos efetivos bovinos de carne (figura 1.5).

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Figura 1.5. Resultados médios dos principais indicadores produtivos nos efetivos bovinos de carne na República da Irlanda, relativos aos anos 2014 a 2017.2

Uma iniciativa semelhante, com financiamento público, já começou a ser implementada na Escócia (Berry, García & Garrick, 2016).

CONSIDERAÇÕES FINAIS Vários foram os fatores que provocaram um atraso na adoção da genómica como instrumento de seleção em bovinos de carne, comparativamente à seleção em bovinos leiteiros, de entre os quais se destacam a diversidade de raças e cruzamentos utilizados, o recurso menos frequente a tecnologias de 2

Fonte: https://www.icbf.com/wp/wp-content/uploads/2013/07/Beef-CalvingTrends-2017.pdf, acedido a 10/03/2018. 22


reprodução assistida, a menor disponibilidade de registos genealógicos e dados fenotípicos sobre os carateres de interesse produtivo e, finalmente, as reduzidas margens de lucro do modelo de negócio (Berry et al., 2016). Ainda assim, muito foi o trabalho desenvolvido nas duas últimas décadas, e atualmente há muita informação disponível sobre genes candidatos a influenciar a expressão dos principais carateres produtivos, e existem já alguns exemplos da aplicação sistemática de painéis de testagem genética na seleção assistida por marcadores. Adicionalmente, o custo dos procedimentos de genotipagem tende a decrescer, pelo que previsivelmente deixará de ser um obstáculo à implementação da testagem. O impacto ambiental da produção de ruminantes, por um lado, e a tendência crescente para os níveis de consumo a nível mundial, por outro, fazem recair sobre toda a fileira uma responsabilidade acrescida para aumentar a eficiência produtiva. A curto prazo, só a incorporação das mais modernas ferramentas de seleção permitirá aos produtores assegurar o seu rendimento num mercado progressivamente mais competitivo.

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2. ALTERNATIVAS PRATENSES PARA A RECRIA DE BOVINOS DE CARNE Noémia Machado Farinha e Cheila David Granadeiro Instituto Politécnico de Portalegre, Portugal

INTRODUÇÃO Portugal depende duplamente das importações para satisfazer as necessidades de consumo interno de carne de bovino: por um lado importa-se mais de 40% da carne de bovino que os portugueses consomem, por outro, os alimentos concentrados utilizados pelos produtores nacionais na recria e engorda dos animais são maioritariamente importados. Portugal tem, contudo, aumentado nos últimos anos a produção de carne de bovino, tendo atingido as 91 mil toneladas em 2016 (89 mil toneladas em 2015). O autoaprovisionamento de carne de bovino, também tem aumentado, o qual foi de 56,9% em 2016, 53,8% em 2015 e 47% em 2014 (INE, 2016, 2017). Em 2016 29


observou-se uma maior produção da carne de vitelo (+6,1%), para a qual terá contribuído a saída de animais vivos para países terceiros, maioritariamente animais com mais de 300 kg de peso vivo, o que levou ao aumento do abate de animais mais jovens para o mercado interno (INE, 2017). No que respeita aos alimentos concentrados, os dados mostram que a autossuficiência na produção de cereais foi em 2015/2016 de apenas 23%, sabendo-se que 61% dos cereais consumidos se destinaram à alimentação animal (INE, 2017). Os produtores pecuários poderão contribuir para reduzir esta dependência do exterior se aumentarem o contributo das pastagens e forragens para a produção de carne de bovino. A recria de bovinos deveria, de preferência, ocupar os regadios mais eficientes, onde pastagens temporárias ou permanentes de regadio, complementadas com culturas forrageiras mais intensivas (prados anuais ou temporários ricos em leguminosas, em rotação com milho ou sorgo para silagem) possibilitariam tais operações a baixo custo. Uma unidade forrageira (UF) obtida em erva pastada custa apenas 15 a 20 % da mesma UF obtida a partir de alimento concentrado (Crespo, 2011). Nas culturas pratenses e forrageiras ricas em leguminosas podese considerar que, nas condições mediterrânicas, a produções de erva de 4 a 8 t MS/ ha/ano em sequeiro, ou de 12 a 20 t MS/ha/ano em regadio, contendo na sua composição 50% de leguminosas, correspondem níveis de fixação de azoto simbiótico de 60 a 160 kg/ha/ano em sequeiro e de 180 a 400 kg/ha/ano em regadio (Crespo, 2011). 30


Para além de servirem de suporte à produção pecuária, as pastagens tem interesse na proteção do ambiente pela conservação da biodiversidade, prevenção de fogos florestais, combate à erosão do solo e sequestro de CO2; na melhoria da paisagem, na saúde (existem espécies nas pastagens que têm fins terapêuticos) e no bem-estar animal (figura 2.1); na melhoria das características sensoriais dos seus produtos e na saúde dos consumidores.

Figura 2.1. Bovinos em pastoreio numa pastagem melhorada

Relativamente a estes últimos aspetos, existem trabalhos científicos que demonstram que, quando comparada com a carne produzida à base de concentrados, a carne produzida com elevada proporção de forragens e pastagens, e em particular forragens e pastagens com elevada diversidade botânica, é mais 31


rica em ácidos gordos polinsaturados e em antioxidantes, considerados benéficos para a saúde humana. Isto deve não só aumentar a atratividade por estes produtos, junto dos consumidores, mas também permitir o desenvolvimento de novos alimentos funcionais (Lourenço et al., 2009). No presente documento faremos referência às pastagens de sequeiro e de regadio enquanto recurso alimentar na produção de bovinos de carne. Apesar de a recria de bovinos exigir pastagens mais produtivas complementadas com forragens nos períodos mais exigentes ou de menor produção/qualidade das pastagens, iniciaremos a abordagem pelas pastagens de sequeiro, dado que, por um lado, são em geral a base da alimentação do efetivo reprodutor aleitante e, por outro, porque a produção de Primavera poderá, em anos de elevada produção de erva de elevada qualidade, servir de base de alimentação dos bovinos jovens nesse período.

AS PASTAGENS E FORRAGENS NO CONTEXTO DA AGRICULTURA NACIONAL Importa esclarecer que se consideram como culturas forrageiras, as culturas destinadas ao corte para dar aos animais e que são colhidas antes de completarem o seu ciclo vegetativo (maturação), de modo a serem melhor digeridas pelos animais. Podem ser consumidas pelo gado em verde, depois de 32


conservadas como feno, silagem ou desidratadas artificialmente. As plantas pratenses são plantas, semeadas ou espontâneas, em geral herbáceas, destinadas a serem comidas pelo gado no local em que vegetam, mas que acessoriamente podem ser cortadas em determinados períodos do ano (Moreira, 2002; INE, 2017). Segundo o último recenseamento agrícola (INE, 2011), as pastagens permanentes (ocupam o solo por um período superior a 5 anos) representam 1,83 milhões de hectares, o que corresponde a 50% da Superfície Agrícola Utilizada (SAU), sendo desta forma a ocupação cultural predominante no nosso país. A superfície de prados e pastagens permanentes aumentou de 856 423 ha em 1989 para 1 827 899 ha em 2009, ou seja, mais do que duplicaram a sua área (INE, 2011) nestes 20 anos. Contudo, 75% desta superfície são pastagens pobres que não sofreram qualquer tipo de intervenção de carater técnico (sementeira, fertilização, rega ou drenagem), o que fornece boas perspetivas para o aumento da produtividade das pastagens em Portugal. As pastagens temporárias e as culturas forrageiras têm menor expressão. Quando às pastagens permanentes adicionamos as pastagens temporárias e a produção de forragens, obtém-se assim a superfície forrageira total que ocupa 63,3% da SAU do país. O Alentejo é a região que concentra a maior área de pastagens permanentes, cerca de 63% do total nacional. A produção bovina tem a sua maior expressão também no Alentejo, que representa 39% do efetivo total nacional, maioritariamente dirigido para a 33


produção de carne. Desta conjugação de fatores resulta que o Alentejo tem condições propícias para a produção extensiva de bovinos, tendo-se registado entre 1999 e 2009 um aumento considerável desta produção, em parte consequência da conjuntura favorável da PAC, tal como evidencia Madeira (2008). Este autor comparou os valores das margens brutas, para os anos de 1992 a 2004, da produção de carne de ovinos e bovinos e concluiu que, embora ambas tenham vindo a decrescer naquele intervalo de tempo, foram sempre favoráveis à produção de bovinos (Belo et al., 2013).

A IMPORTÂNCIA DO MELHORAMENTO DAS PASTAGENS

PASTAGENS NATURAIS E PASTAGENS MELHORADAS Em muitas condições de pastagens naturais de sequeiro a constituição florística é pobre, verificando-se um efeito positivo quando se procede ao melhoramento da pastagem por sementeira de espécies e variedades melhoradas (Carneiro e Barradas, 2008). Diversos autores referem um aumento da produção das pastagens permanentes de sequeiro, sobretudo quando a intervenção se faz pela introdução de espécies/variedades 34


melhoradas em conjunto com fertilização e por vezes correção do pH do solo (quadro 2.1). Passa-se de uma produção média de 1800 kgMS/ha para cerca de 3500 kgMS/ha, ou mais, se o maneio da pastagem for adequado e as condições edafoclimáticas forem favoráveis. Do quadro 2.1 transparece a grande irregularidade na produção das pastagens permanentes de sequeiro. Quadro 2.1. Comparação da produção em pastagens naturais e pastagens semeadas e fertilizadas, de sequeiro

Autores

Produção de pastagem natural (kg MS/ha)

Produção de pastagem semeada (kg MS/ha)

Crespo et al. (1984)

920-2080

1680-4840

Olea et al. (1987)

960-1850

2093-3790

Infante et al. (1984)

550-1600

1381-3976

Carneiro e Barradas (2008)

1000-6000

3000-8500

Valores médios

850-2900

2050-5300

Quando se observa a conversão destas pastagens em produto animal, podemos verificar na figura 2.2 que, para os casos em análise, o encabeçamento médio na pastagem utilizada por bovinos, passou de 0,46 CN/ano para 1,21 CN/ano (Crespo et al., 2004). O produtor deverá então contabilizar o custo anual da instalação e amortização da pastagem e comparar com o resultado obtido na exploração com a venda dos animais que

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produz em resultado da melhoria das condições de alimentação proporcionadas pela pastagem melhorada. Pastagem natural

cabeças normais/ha

1,6

Pastagem semeada

1,2 0,8 0,4 0 Covilhã Monforte Elvas Coruche Cercal Localização das explorações (concelhos)

Figura 2.2. Encabeçamento observado em cinco explorações agrícolas distribuídas pelo país, quando se comparou uma pastagem natural com uma pastagem semeada, na mesma exploração agrícola, utilizada por bovinos. Fonte: Crespo et al. (2004)

ESPÉCIES A INTRODUZIR NAS PASTAGENS DE SEQUEIRO E DE REGADIO

No caso de pastagens de sequeiro, a escolha das espécies e variedades terá de ser feita em função de dois principais fatores: a natureza do solo e a pluviosidade. No que se refere à pluviosidade, nas variedades a escolher deverá ter-se sempre em 36


atenção que quanto menor for a pluviosidade anual e a capacidade do solo disponibilizar água às plantas, mais curto deverá ser o ciclo fenológico da variedade, ou seja, maior é a necessidade de ter variedades precoces. De um modo geral as espécies perenes, devido ao facto de, a partir do segundo ano, serem mais rápidas no estabelecimento após as primeiras chuvas, deverão ser preferencialmente escolhidas sempre que as condições o permitam (elevada pluviosidade ou regadio), principalmente no caso das leguminosas. No caso das gramíneas perenes, existem algumas espécies e variedades bem adaptadas às condições de sequeiro (Simões e Carneiro, 2014). Deste modo, nas condições mediterrânicas, as espécies anuais devem dominar na sementeira de pastagens de sequeiro, enquanto as espécies perenes devem dominar nas pastagens de regadio. Nas pastagens de sequeiro, as espécies de leguminosas devem produzir elevada quantidade de sementes, devendo a maior parte desta semente possuir tegumento impermeável à água (sementes duras), de modo a garantir a permanência da pastagem mesmo em anos com baixa produção de semente (por exemplo por falta de água durante o período reprodutivo da planta) ou em que a germinação da semente ocorreu demasiado cedo no final do Verão ou início do Outono, com posterior período seco e em que as plântulas que emergiram morram por falta de água. Nestas condições, a permanência da pastagem é assegurada pelo banco de sementes no solo (sementes duras formadas em anos anteriores e que se mantém viáveis no solo). As espécies anuais 37


de leguminosas mais frequentemente utilizadas em pastagens mediterrânicas de sequeiro são, entre outras, o trevo subterrâneo (Trifolium subterraneum L. ssp. subterraneum L., ssp brachycalycinum Katz. & Morley, ssp. yanninicum Katz. & Morley), trevo vesiculoso (T. vesiculosum Savi), trevo resupinado (T. resupinatum L. ssp. resupinatum), trevo de S. Miguel (T. michelianum Savi), trevo rosa (T. hirtum All.), trevo entaçado (T. cherleri L.), trevo glandulifero (T. glanduliferum Boiss.), luzernas anuais (Medicago polymorpha L., M. sphaerocarpos Bertol., M. murex Willd, M. truncatula Gaertn., M. tornata (L.) Mill., M. scutellata (L.) Mill.), biserrula (Biserrula pelecinus L.), serradelas (Ornithopus sativus Brot. e O. compressus L.). No comércio, existem mais de sessenta cultivares disponíveis destas espécies, as quais podem diferir entre si pela duração do ciclo de vida, adaptação a condições de clima e de solo, resistência a doenças, hábitos de crescimento, etc. (Crespo, 2006; Simões e Carneiro, 2014). Das espécies de gramíneas a serem associadas com as leguminosas, nas pastagens de sequeiro, destacam-se as espécies de azevém anual, sobretudo variedades anuais de azevém italiano (Lolium multiflorum), podendo-se usar em alguns casos azevém bastardo (Lolium rigidum), e cultivares de dormência facultativa durante a época seca de espécies perenes, sobretudo panasco ou dáctilo (Dactylis glomerata), falaris (Phalaris aquatica) e azevém perene (Lolium perenne) (Crespo, 2006). Nas pastagens de regadio, ou em zonas com elevada e regular distribuição da precipitação, dominam as plantas vivazes, que se 38


mantém vivas durante todo o ano, com crescimentos mais baixos na época fria ou nas semanas com temperaturas elevadas, superiores a 32ºC. Sendo a principal limitação as temperaturas baixas durante o Inverno, a produção é mais regular do que nas pastagens de sequeiro, sendo por isso estas pastagens mais adequadas para manter o efetivo pecuário jovem em crescimento. O número de espécies com interesse e adaptabilidade é menor do que no sequeiro. De entre as leguminosas perenes, destacam-se o trevo branco (Trifolium repens) e o trevo violeta (Trifolium pratense). Com estas leguminosas podem-se consociar as seguintes gramíneas: azevém perene (Lolium perenne), panasco (Dactylis glomerata), festuca alta (Festuca arundinacea), alpista tuberosa (Phalaris tuberosa) e em casos de prados temporários, também variedades bianuais de azevém italiano (Lolium multiflorum) (Simões e Carneiro, 2014).

INSTALAÇÃO E MANEIO DAS PASTAGENS Para que as pastagens cumpram a sua função produtiva, dando origem a elevadas produções, com elevada qualidade nutricional (nomeadamente energia, proteína e digestibilidade), devem-se tomar alguns cuidados na instalação, utilização e maneio. Com base em Freire (2011) e em Moreira (2002), apresentam-se, resumidamente, os principais aspetos a tomar em consideração.

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INSTALAÇÃO Quando se tratam de misturas com leguminosas, a época de sementeira é preferencialmente realizada em setembro/outubro, na altura das primeiras chuvas, sempre com a temperatura do solo superior a 16 ºC. No caso das pastagens de regadio, devido à disponibilidade de água, pode-se também semear no final do Inverno/início da Primavera (março/abril). Na preparação do solo não são necessárias mobilizações muito profundas; deve-se no entanto garantir que a camada superficial fica suficientemente plana e livre de torrões. A sementeira deve preferencialmente ser efetuada com um semeador de rolos, próprio para sementes miúdas. Na ausência deste semeador pode usar-se outro semeador, inclusivamente um distribuidor centrífugo, tendo o cuidado de rolar após a sementeira. Devemos garantir que a semente não fica enterrada a mais que 1 – 1,5 cm de profundidade, devendo preferencialmente ficar a 0,5 a 1 cm, por se tratarem de sementes com poucas reservas, devido ao seu reduzido tamanho. As pastagens podem ser semeadas com sementeira direta, desde que se consiga garantir uma sementeira muito superficial e um bom contacto solo-semente. Isto normalmente consegue-se semeando com o solo com pouca humidade (ou mesmo seco) (figura 2.3).

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Figura 2.3. Instalação de pastagem permanente de sequeiro com sementeira direta

A rolagem, idealmente com um rolo de bicos ou anéis, é fundamental para garantir o bom contacto da semente com o solo. Pode ser utilizado um rolo liso desde que não exista risco de compactar excessivamente o solo e/ou de criar crosta superficial, o que impediria a germinação das sementes. Em solos húmidos com algum teor de argila, não se devem efetuar a rolagem.

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ADUBAÇÃO Para uma adubação correta, devem-se efetuar análises de solo e tomar em consideração os seus resultados. Na adubação de fundo, o fósforo é o macronutriente mais importante. Normalmente as misturas ricas em leguminosas fixam azoto mais do que suficiente para garantir o bom desenvolvimento da cultura. É comum utilizar adubos simples só com fósforo, no entanto em sementeiras mais tardias, anos mais frios, ou solos com muito baixa fertilidade poderemos utilizar adubos binários ou ternários com algum azoto que garantam o arranque da cultura. Nas pastagens devemos realizar adubações de cobertura com adubos fosfatados, consoante as necessidades da cultura e a disponibilidade deste nutriente no solo. Recomenda-se que se realizem análises de solo de dois em dois anos. Esta adubação pode ser realizada no final do Verão, princípio do Outono.

MANEIO DAS PASTAGENS PERMANENTES DE SEQUEIRO Nas pastagens permanentes de sequeiro, no ano da instalação, é obrigatório que se reserve a pastagem a partir do início da diferenciação floral e até ao momento em que a pastagem se encontre completamente seca. Desta forma garantimos a formação de um bom reservatório de sementes, que garante a longevidade da pastagem. 42


No entanto, também é importante que antes da floração se realize um aproveitamento com uma elevada carga animal, para realizar um corte de limpeza. Este pastoreio não seletivo permite eliminar as infestantes, melhorando a composição da pastagem. No Verão é fundamental que se consuma a pastagem na totalidade, garantindo que o solo fique quase descoberto de resíduos vegetais. Este pastoreio assegura a ressementeira do prado e cria condições ótimas para as novas germinações. Nos anos seguintes, as cargas pecuárias devem ser ajustadas à produção do prado. É mais fácil que uma pastagem se degrade por subpastoreio do que por sobrepastoreio.

MANEIO DAS PASTAGENS PERMANENTES DE REGADIO Na composição das pastagens de regadio entram espécies perenes, pelo que não é necessário reservar a floração na Primavera. Por serem perenes, o desenvolvimento inicial destas plantas é mais lento, assim é normal que no início os níveis de infestação sejam muito elevados. Cortes de limpeza com elevadas cargas animais em curtos períodos são a solução para estas infestações. Este corte de limpeza também pode ser utilizado para silagem ou fenossilagem.

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Os prados de regadio são frequentemente utilizados com pastoreio rotacional, em que o prado é dividido em parcelas e os animais pastoreiam uma de cada vez. Estes prados podem contudo ser pastoreados de forma contínua (com os animais).

PRODUÇÃO E VALOR NUTRITIVO DAS PASTAGENS Há grande variabilidade de produção de uma pastagem, sobretudo quando se trata de uma pastagem permanente de sequeiro. A produção está muito dependente das características do solo e do clima, do melhoramento da pastagem (natural ou semeada), bem como da sua gestão. Em termos médios a produção de erva atinge o máximo na Primavera (figura 2.4) podendo ter um outro pico de produção no Outono, ainda que muito menor que o anterior e muito dependente das condições de clima e de solo, mas sobretudo da precipitação, não só em quantidade mas também na sua distribuição ao longo do ano. A principal limitação à produção nas pastagens de sequeiro é a falta de água no final da Primavera e durante o Verão, já que a vegetação seca e só volta a crescer no fim do Verão/início do Outono seguinte, após o início efetivo das chuvas (setembro ou início de outubro nas regiões ou nos anos de maior precipitação; fins de outubro ou novembro, ou ainda mais tarde, nos anos ou regiões mais secas) (Moreira, 2002; Serrano, 2006). 44


120 100 80 60 40 20 0

Set Out Nov Dez Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago

crescimento diário (kgMSha-1dia-1)

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Figura 2.4. Curva de distribuição média anual da produção de uma pastagem permanente em sequeiro. Adaptado de Moreira (2002)

O crescimento de Outono pode ser apreciável se as primeiras chuvas ocorrerem cedo. As temperaturas favoráveis permitem uma rápida germinação das sementes e crescimento das plantas conduzindo a um pico de produção de erva. Se o início das chuvas ocorrer tarde, a produção de Outono é muito reduzida, podendo nem se verificar. As temperaturas baixas no final do Outono e primeira metade do Inverno (dezembro e janeiro) limitam o crescimento da pastagem, conduzindo à necessidade de fornecimento de suplementos alimentares aos animais. Se as primeiras chuvas ocorrerem tarde, esta necessidade aumenta. Nesta época do ano, a suplementação faz-se normalmente à base de feno, palha, pastoreio de bolota, ou eventualmente silagem. A partir de fevereiro ou março, dependendo das regiões e dos anos, há um progressivo aumento do crescimento, atingindo-se 45


o pico da produção à volta do mês de abril, sendo rapidamente interrompido pela falta de água no final da Primavera. Devido a este pico de produção, há normalmente uma produção de erva excedentária, relativamente às necessidades dos animais, ficando parte dessa erva seca, que os animais pastoreiam durante o Verão. Em anos de elevada produção de biomassa, os bovinos jovens em crescimento podem utilizar estas pastagens, reduzindo assim o excesso de erva seca. No final do Verão, com a escassez de pasto seco, é geralmente necessária alimentação suplementar, que pode ser constituída por fenos, silagem (ou feno-silagem), pastoreio de restolhos, fornecimento de palhas, vegetação arbustiva ou eventualmente pastagem de regadio. Desta forma as pastagens de sequeiro apresentam uma curva de produção com elevadas flutuações não só ao longo do ano, como entre anos, o que dificulta a planificação do fornecimento de alimento na exploração. Do ponto vista nutritivo, as pastagens de sequeiro apresentam três períodos distintos ao longo do ano. Num primeiro período de erva jovem, que se inicia após o começo da época das chuvas (entre setembro e novembro) e termina na altura da floração média, a digestibilidade e a proteína bruta são elevadas (cerca de 80% e 20 a 26%, respetivamente), com baixo ter em fibra. No segundo período, entre a floração média e a senescência das plantas (em média entre março e junho), a qualidade diminui, sendo que a digestibilidade desce para valores próximos de 65 a 60% e a proteína bruta para 16 a 12%, com o aumento do teor em fibra. No último período, correspondente ao pasto seco, o 46


valor nutritivo continua a reduzir-se por aumento do teor em fibra, com a digestibilidade a atingir valores de cerca de 50% e teores de proteína de 5 a 8% (Moreira, 2002).

140 120 100 80 60 40 20 0

Set Out Nov Dez Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago

crescimento diário (kgMSha-1dia-1)

Comparadas com as pastagens de sequeiro, as pastagens de regadio, dão origem a maiores e mais regulares produções de biomassa (figura 2.5), bem como a melhor e mais regular valor nutritivo, pelo que são as mais adequadas para a recria de bovinos de carne, mais exigentes em quantidade e regularidade de nutrientes, enquanto o efetivo reprodutor suporta maior variação alimentar e de nutrientes.

Figura 2.5. Curva de distribuição média anual da produção de uma pastagem de regadio em condições mediterrânicas. Adaptado de Moreira (2002)

Nas pastagens de regadio, as condições mais desfavoráveis à produção de biomassa são as baixas temperaturas entre o fim do 47


Outono e parte do Inverno (dezembro a fevereiro), variável com os anos e com a região, mas em geral mais limitante nas regiões do interior e nos Invernos secos e com geadas. Neste período os animais terão obrigatoriamente que ser suplementados/alimentados com forragem conservada (feno, silagem ou fenossilagem) de elevada qualidade, ou ainda com alimento concentrado. Este período é comparativamente menos desfavorável para as gramíneas, pelo que estas têm tendência a dominar na pastagem. Segue-se um período de rápido aumento da produção até atingir um pico no final da Primavera (entre Maio e Junho) favorável ao crescimento de gramíneas e leguminosas. Durante o Verão, devido às elevadas temperaturas, o crescimento reduz-se, sendo mais elevada a contribuição relativa das leguminosas. No início do Outono, a produção diminui e a temperatura volta a ser mais favorável às gramíneas. Os trabalhos realizados por Crespo et al. (1980), com bovinos da raça Holstein Frísia entre os 6 e os 12 meses e com encabeçamentos de 4, 6 e 8 bovinos por ha, numa pastagem de regadio composta de trevo branco (Trifolium repens) x festuca alta (Festuca arundinacea), obtiveram uma produção média da pastagem entre 13 e 15 t MS/ha/ano. As melhores reposições diárias por cabeça foram obtidas no encabeçamento mais baixo (4 animais/ha), com um ganho médio diário de 0,784 kg/animal, enquanto as mais altas produções por ha foram obtidas no encabeçamento mais elevado (8 animais/ha) com produção de 1141 kg de peso vivo/ha (média de 3 anos). Pardo e Garcia (1991) apresentam valores médios de produção de pastagem de regadio 48


de cerca de 15 t MS/ha/ano, com Ganhos Médios Diários (GMD) de 0,6 a 0,9 kg/dia em bovinos com um peso vivo inicial de 200 a 300 kg sem utilização de concentrado. A partir dos 300 kg de peso vivo, os GMD podem oscilar entre 1,1 e 1,4 kg/dias se a pastagem é abundante e se a utilização de concentrado se aproxima de 2 a 3 kg/dia/animal. O valor nutritivo das pastagens de regadio é influenciado por muitos fatores, de que se destaca a contribuição relativa de gramíneas e leguminosas. As diferenças são ainda atribuíveis às espécies, cultivares, frequência e altura da desfoliação, temperatura e estado de desenvolvimento. O trevo branco destaca-se pela elevada digestibilidade, palatibilidade e teor proteico. A festuca alta, o panasco e o azevém perene apresentam, por esta ordem, valores crescentes de digestibilidade para idêntico estado de desenvolvimento. Uma pastagem deste tipo, com boa gestão do pastoreio, apresenta bons ou elevados valores de digestibilidade e teor proteico ao longo de todo o ano (Moreira, 2002). Num exercício prático com um programa de arraçoamento (ISAcarne da ISAGRI), estimámos que um bovino cruzado com 7 meses e 250 kg de peso vivo, com um GMD de 1kg/dia, consome 5kg de MS/dia de uma pastagem de boa qualidade com 16,6% MS, 0,92 UFV, PDIN (proteína digestível no intestino permitida pelo azoto) = 114 e PDIE (proteína digestível no intestino permitida pela energia) = 99.

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CONCLUSÃO Em Portugal, fruto sobretudo das últimas diretrizes da PAC, a área de pastagens tem vindo a aumentar, o que constitui um excelente incentivo para o aumento da produção animal e redução da nossa dependência externa, não só em produtos cárnicos, como também nas matéria primas para a produção de carne, em particular de bovino. As pastagens de sequeiro, são claramente dominantes, mas na sua maioria são pastagens pobres, pelo que urge melhorar a sua produção, o que permitirá um aumento do efetivo reprodutor nos sistemas de produção de bovinos de carne. A produção de carne de vitela, com tendência para aumento na estrutura de consumo de carne em Portugal, poderá ser obtida com base em sistemas de produção de erva mais intensivos, em que devido às maiores exigências em regularidade da produção e da qualidade da produção, necessitam de maior disponibilidade de pastagem (preferencialmente pastagem de regadio), de elevada qualidade nutritiva e/ou forragem, sendo que devem ter à sua disposição suplementos minerais. Pela sua multifuncionalidade, justificam-se programas de apoio às pastagens e forragens de modo a: (1) beneficiar a fertilidade do solo com redução no consumo de fertilizantes e na mobilização do solo; (2) promover a manutenção da biodiversidade; (3) valorizar os produtos obtidos dada a sua qualidade específica, o seu contributo para a saúde dos consumidores, para a

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conservação do meio ambiente e da paisagem e para reduzir o êxodo rural pela criação de condições de fixação das populações.

PERSPETIVAS FUTURAS Dada a tendência para o aumento do efetivo de bovinos de carne, estima-se que continue a existir incentivos à produção de pastagens e forragens como base da produção, bem como o acompanhamento por parte da investigação para a pesquisa de novas e melhores soluções nesta área. Se por um lado a função produtiva das pastagens deve ser melhorada, por outro muito há a explorar na multifuncionalidade das pastagens. Quanto à função produtiva, importa por um lado melhorar a produtividade das pastagens, sempre que técnica, ambiental e economicamente viável, reduzindo a percentagem de pastagens pobres, aumentando o rendimento dos agricultores e reduzindo a dependência do exterior relativamente ao consumo de carne de bovino em Portugal. São necessários estudos para diversificar a produção pratense e forrageira, tendo em consideração o atual cenário de alterações climáticas, pelo que se deverá investir no estudo e adaptação de outras espécies como por exemplo a figueira-da-índia (Opuntia ficus indica) com potencial interesse em anos com reduzida disponibilidade de água, incluindo água para rega.

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A tendência dos consumidores por privilegiarem o bem-estar animal e a redução de resíduos de produtos sanitários na carne e no meio ambiente, deverá aumentar o interesse pelo aumento da biodiversidade nas pastagens (e nas forragens), incluindo a utilização de plantas medicinais que permitam prevenir o aparecimento de doenças e reduzir os tratamentos sanitários e eventualmente o aparecimento de resistências.

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3. ASPETOS SANITÁRIOS RELEVANTES NA RECRIA DE BOVINOS DE CARNE Miguel da Gama Minas Instituto Politécnico de Portalegre, Portugal

INTRODUÇÃO A produção de carne nas recrias de bovinos é muito mais que alimentar animais até ao ponto ótimo para abate e transformação. Existem muitas considerações a ter em conta, entre elas as de natureza económica, sanitária, nutricional e do bem-estar animal, que contribuem para a obtenção de um produto cárnico seguro e saudável. Como qualquer empresa cotada no mercado, a recria de vitelos apresenta despesas e receitas e assume um nível de produção e um risco de mercado. Para minimizar o risco e maximizar a produtividade, os “engordadores” utilizam projeções para o retorno dos seus investimentos, e desta forma estabelecem objetivos de produção e de mercado.

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A doença respiratória bovina é na atualidade o problema de saúde mais devastador na indústria da produção de carne. O principal objetivo de um programa de saúde animal é minimizar a incidência e os custos associados com a morbilidade e mortalidade da doença, através do delineamento e execução de um programa de medicina preventiva, maximizando desta forma a performance produtiva e a valorização da carcaça. Os primeiros 45 dias da recria tem sido identificados como os mais críticos para o estabelecimento e desenvolvimento de doença respiratória, facto associado à imunossupressão secundária ao desmame, transporte, alteração nutricional e de maneio dos animais que entram no parque de engorda (Edwards, 2010). O controlo e maneio da doença pode e deve ser executado através do seguimento de um plano de biossegurança previamente estudado e idealizado. Em Portugal, no ano de 2016 a produção de carne de bovino aumentou 2,3%, em relação a 2015, tendo atingido as 91 mil toneladas (89 mil toneladas em 2015). Observou- -se uma maior produção da carne de vitelo (+6,1%), para a qual terá contribuído a saída de animais vivos para países terceiros, maioritariamente animais com mais de 300 kg de peso vivo (novilhos), o que levou ao aumento do abate de animais mais jovens para o mercado interno (figura 3.1) (Estatísticas Agrícolas 2016, INE).

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Figura 3.1. Evolução da produção da carne de bovino em Portugal (Fonte: INE, 2016).

A influência do clima na produção de forragens, aliada ao elevado preço das matérias-primas para a alimentação animal e à incerteza quanto à sua evolução, conduzem a uma menor disponibilidade dos produtores de bovinos para assumir o risco de engordar vitelos e produzir “vitelões” ou novilhos, tendo como consequência um acréscimo no número de bovinos jovens abatidos para consumo, ou então uma maior saída de vitelos vivos para Espanha, para aí serem recriados. Portugal é deficitário em todos os tipos de carne, e quase metade do consumo de carne de bovino está dependente do exterior (grau de autoaprovisionamento de 52% no período de 20002012). Atualmente o país tem a necessidade de importar cerca 57


de 217 milhões de euros em animais vivos (57000 toneladas aproximadamente), sendo que exporta 67 milhões de euros (INE, 2016). Ainda que nos próximos 10 anos a tendência de consumo de carnes vermelhas seja de diminuição na Europa e nos EUA, em países com mercados mais pequenos, mas em expansão, como Líbano, Turquia ou Argélia, esta tendência será de aumento. Assim, Portugal pode ganhar capacidade de exportação e marcar presença em mercados deste tipo com produtos de nicho diferenciados para comercializar, como, por exemplo, as carnes DOP. Em consequência de uma série de condicionalismos de mercado, o produtor de carne tem assistido a um aumento significativo do risco na recria dos seus animais, ou seja, as margens são cada vez mais apertadas e urge otimizar recursos para maximizar o lucro, caso contrário não será rentável engordar bovinos. No contexto atual de crise económica, aliado ao facto dos fatores de produção terem um custo cada vez mais elevado, verifica-se a necessidade da otimização de recursos produtivos. Dos vários investimentos que são necessários fazer numa exploração pecuária, as opções escolhidas devem ser avaliadas seguindo a lógica da obtenção de retorno produtivo, e consequentemente retorno económico. Os objetivos principais de uma recria de bovinos podem resumir-se a 2 pontos fulcrais e vitais para o sucesso desta fase produtiva: diminuir a incidência e custos associados com morbilidade e mortalidade de patologias típicas desta fase da produção (sendo a doença respiratória a mais frequente, mas 58


assinalaremos outras também importantes), e maximizar a performance alimentar e a qualidade das carcaças. O primeiro objetivo consegue-se controlar minimamente com a implementação de um correto maneio higiossanitário dos animais recriados. De facto, a doença respiratória bovina é o problema de saúde mais devastador na indústria da carne, sendo a principal causa de morbilidade (70-80%) e mortalidade (40-50%) dos feedlots americanos (Edwards, 2010). Para além da mortalidade que provoca, origina também perdas substanciais na saúde e performance das recrias de vitelos e na qualidade das suas carcaças. Os animais que tenham sofrido de doença respiratória durante a recria manifestam claramente atrasos de crescimento relativamente a animais saudáveis, para além dos custos associados ao tratamento, o que se traduz em perda económica para o produtor, e não abona nada em favor da maximização do lucro, num cenário onde as margens são cada vez mais reduzidas. Vários estudos experimentais reforçam a importância da doença respiratória nas engordas de bovinos: custos médios de tratamento de 9,6 euros/animal (USDA, 1999); custo da doença de 7,5-12,5 euros/vitelo não desmamado e 1,6-1,95 euros/vitelo desmamado (Kaneene e Hurd, 1990; Weigler et al. 1990); redução de peso de vitelos ao desmame de 15,87 kg /animal, em média (Stokka, 2010); 6,75 euros/animal sobrevivente - custo médio da doença imputado a cada animal recriado (Stokka, 2010); 10 euros de impacto económico anual por vitelo recriado 59


(Stilwell, 2008); menores índices de conversão (ganho médio diário) em animais que apresentem lesões pulmonares no exame post-mortem, independentemente de manifestarem ou não sintomatologia em vida (Stilwell, 2103); menos 700 g de ganho médio diário em animais tratados para doença respiratória (Stilwell, 2008); maior probabilidade de morte (6 vezes mais provável) para animais sujeitos a múltiplos tratamentos para doença respiratória (Stilwell, 2008); diferenças médias de 65 euros/animal, quando comparamos animais doentes com animais saudáveis numa engorda (Speer, 2013), etc. Efetivamente, um vitelo doente proporciona ao seu produtor um retorno económico muito mais baixo que um animal saudável. Um vitelo doente representa para quem o produz um menor ganho médio diário, uma menor eficiência produtiva, um custo acrescido e uma má performance de grupo. Atualmente não é de todo descabido assumir que existe uma diferença económica bastante significativa (cerca de 145 euros/cabeça) na recria de um animal saudável, quando comparada à engorda de um animal que requer tratamento (Speer, 2013). O cálculo do retorno do investimento pode, e deve, ser um aliado do produtor de bovinos de carne, no sentido de justificar numericamente a profilaxia sanitária como um fator de produção agropecuário. A necessidade de um programa sanitário preventivo na recria de bovinos de carne justifica-se pelas inúmeras vantagens que apresenta face a um programa terapêutico. Na realidade, quando tentamos comparar o 60


tratamento à profilaxia, depressa nos apercebemos que é pouco eficaz, mais caro, apresenta uma elevada probabilidade de conduzir à cronicidade do problema, reduz a performance produtiva, aumenta substancialmente o risco de resíduos na carne, conduz a perda de qualidade da carne e ao desenvolvimento de resistências aos antibióticos (Stilwell, 2008). Há muitos anos que está demonstrada a validade científica das estratégias de prevenção, nomeadamente a profilaxia médica. Na nossa opinião, o engordador de bovinos deve tirar o máximo partido desse tipo de estratégia, que passa sobretudo pela prevenção da doença respiratória bovina e das enterotoxémias (clostridioses) e pela monitorização do estado parasitário do grupo de animais em recria. Tradicionalmente, uma boa parte dos animais recriados são sujeitos a determinadas intervenções sanitárias que incluem desparasitações sistémicas e imunoprofilaxia contra enterotoxémias. Noutros casos, os bovinos são engordados sem cumprir um plano de medicina preventiva previamente delineado e ajustado ao feedlot em causa. Com a importância da doença na recria de bovinos de carne e com a criação de novos nichos de mercado na comercialização de carne de bovino (vitela e vitelão) urge colocar à disposição dos produtores informação fidedigna, do ponto de vista científico e prático, sobre maneio sanitário, para que a possam utilizar como ferramenta de maximização do lucro das suas empresas,

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numa conjuntura que não é de todo favorável para este ramo da produção pecuária. Os objetivos de um programa de medicina preventiva em feedlots passam pela redução da morbilidade (quantidade de doença no grupo), mortalidade e taxa de refugo dos animais, maximização da eficiência alimentar e otimização das despesas com produtos biológicos e farmacológicos. Concretamente, um programa desta natureza deve otimizar a performance animal e reduzir a perda de lucro líquido, secundária aos efeitos diretos da doença e à utilização de medidas sanitárias preventivas ineficientes, desnecessárias ou excessivas.

PRINCIPAIS PROBLEMAS SANITÁRIOS DAS ENGORDAS

O COMPLEXO RESPIRATÓRIO BOVINO A doença respiratória bovina (DRB), comumente conhecida como febre do transporte nos feedlots e pneumonia enzoótica dos vitelos nas explorações de leite, é um termo vago usado para descrever um complexo de pneumonia infeciosa em bovinos. Trata-se da patologia mais prevalente e com maior impacto económico na indústria de bovinos de carne em todo o mundo.

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A doença respiratória deve-se a complexas interações entre fatores físicos, ambientais e epidemiológicos, incluindo ambos agentes patogénicos, vírus e bactérias (Yates, 1982). A sua natureza multifacetada aumenta a complexidade da prevenção e maneio, assim como a incidência da doença respiratória não pode ser atribuída a um agente causal único. O nível de interação entre aspetos físicos como instalações, ambiente e exposição a agentes patogénicos (vírus e bactérias) determina a ocorrência e severidade da incidência DRB dentro de uma dada população, o que altera depois também a probabilidade de exposição aos agentes patogénicos. Os pulmões dos bovinos são particularmente vulneráveis a infeção, e no decurso de algumas horas a doença respiratória bovina pode causar lesões irreversíveis no tecido pulmonar, podendo mesmo resultar na morte rápida do animal afetado ou interferir no seu crescimento ulterior, e na qualidade da sua carcaça. As razões desta predisposição bovina para infeção pulmonar são anatómicas e fisiológicas. Comparando com os equinos, a capacidade dos pulmões bovinos é bastante mais pequena (cerca de 70% menos). Por outro lado, quando comparamos um bovino com um equídeo do mesmo tamanho, o consumo de oxigénio é 2,5 vezes superior (figura 3.2).

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Figura 3.2. Diferenças anatómicas e fisiológicas do sistema respiratório de bovinos 3 e equinos

Para satisfazer estas necessidades particulares, o pulmão bovino trabalha com uma intensidade bastante superior, o que condiciona e define as suas principais particularidades: alto nível de segmentação pulmonar, falta de ventilação colateral e grande quantidade de tecido conjuntivo. Todas estas circunstâncias reduzem a capacidade dos pulmões para lidar com agentes patogénicos invasores, resultando em inflamação. Quando o pulmão está infetado, a inflamação e as toxinas bacterianas causam desenvolvimento de lesões, que podem ser severas e muitas vezes irreversíveis, comprometendo desta 3

Adaptado de: Bovine Respiratory Disease, (https://www.youtube.com/watch?v=_nWAP-G8phU&t=12s) 64

Merck


forma a função pulmonar do animal. O resultado é o aparecimento de sintomas clínicos de DRB: dificuldade respiratória (falta de ar), febre, perda de apetite e depressão. O impacto económico de DRB é enorme: a performance produtiva é afetada e drasticamente reduzida, tais como o peso e a qualidade da carcaça. Além disso a progressão fatal da doença não só é possível como uma realidade, caso não seja diagnosticada precocemente ou permanecer por tratar.

AGENTES CAUSAIS DA DOENÇA RESPIRATÓRIA BOVINA A DRB pode acometer animais de qualquer idade em qualquer fase do seu ciclo produtivo, afetando maioritariamente vitelos jovens (até aos 2 meses de idade), principalmente de aptidão leiteira, por condicionalismos do seu ciclo produtivo, e bovinos de carne que experienciam transições ao longo do seu ciclo produtivo, tais como desmame e/ou entrada em feedlots, engordas ou recrias. A ocorrência de DRB não é mais que o resultado de um efeito sinérgico de uma multitude de agentes causais e predisponentes, incluindo epidemiológicos, físicos e ambientais. Os fatores epidemiológicos que afetam a incidência de DRB incluem agentes microbianos, o seu modo de transmissão, a densidade animal nos parques de engorda, os períodos infeciosos e de latência, e a virulência dos vários agentes infeciosos que 65


fazem parte deste complexo respiratório nos bovinos (Callan e Garry, 2002). Os agentes patogénicos mais frequentemente associados com a DRB são Mannheimia haemolytica (antigamente conhecida como Pasteurella haemolytica), Pasteurella multocida e Haemophilus somnus (Cusack et al., 2003; Plummer et al., 2004). Todos estes agentes patogénicos têm a particularidade de ser ubiquitários em populações de bovinos clinicamente normais. As bactérias associadas com DRB são consideradas flora normal na nasofaringe de certos animais, mas podem não ser isoladas de todos os indivíduos dentro de uma dada população. A infeção bacteriana não ocorre até haver um comprometimento imunológico no animal em causa, permitindo a estes agentes oportunistas (porque se encontram na nasofaringe de animais saudáveis sem causar doença) instalarem-se, progredirem, colonizarem o trato respiratório inferior incluindo a traqueia, brônquios e pulmões. As infeções bacterianas do trato respiratório inferior culminam normalmente em broncopneumonias, resultando em lesões pulmonares mais ou menos graves que podem conduzir à morte do animal. Na maioria dos casos, a pneumonia bacteriana é uma infeção secundária, frequentemente antecedida por infeções virais no trato respiratório superior. Os vírus normalmente envolvidos e que “abrem a porta” para a entrada das bactérias são o herpesvírus bovino tipo I (HVB1), o agente causal da rinotraqueite infeciosa bovina (RIB, vulgo IBR, da nomenclatura 66


anglo-saxónica), da diarreia vírica bovina (DVB, comumente conhecida como BVD, do inglês), o vírus respiratório sincicial bovino (VRSB, ou BRSV do inglês) e o vírus da Parainfluenza tipo 3 (PI-3) (McAllister, 2010, citando Ellis, 2001; Callan e Garry, 2002; Cusack et al., 2003; Plummer et al., 2004). Esta panóplia de vírus infeta o trato respiratório superior conduzindo a rinite, traqueite e bronquite, mas têm muito pouca relação direta com a doença pulmonar (Callan e Garry, 2002). Todos estes agentes patogénicos víricos predispõem os pulmões dos bovinos a infeções bacterianas e broncopneumonia, mas só o VRSB, como agente primário, tem a capacidade de causar danos severos no trato respiratório inferior. O vírus da BVD pode ter um impacto profundo na incidência de DRB dentro de uma população. A prevalência de BVD tem sido associada a surtos de DRB, sobretudo quando falamos de animais persistentemente infetados (PI) com o vírus da BVD (McAllister, 2010), que são a causa principal daqueles surtos. Animais PI de BVD são aqueles que se infetam in utero a partir da sua progenitora nos primeiros 125 dias de gestação, altura em que o feto ainda não possui o seu sistema imunitário completamente desenvolvido e maduro. Tal facto conduz a que o animal se “habitue” a viver com o vírus, uma vez que nunca o reconhece como um agente estranho, e nunca desenvolverá uma resposta imunitária contra aquele agente patogénico. Desta forma, a partir do momento que nasce, o bovino torna-se um disseminador de vírus por onde passa, libertando milhões de partículas virais ao longo de toda a sua vida. 67


Outro aspeto particular, e simultaneamente curioso, relativamente ao vírus da BVD, é a sua ação sobre o sistema imunitário do seu hospedeiro, já que o vírus é imunossupressor e assim predispõe o animal a outro tipo de infeções, como seja o caso das bactérias oportunistas que vivem no trato respiratório superior dos vitelos, e que uma vez que colonizam os pulmões, originam DRB. Por este motivo, a identificação precoce de animais PI é fundamental para prevenir surtos de DRB. McAllister (2010), citando Wittum et al. (2001), refere um estudo em engordas de bovinos em 5 estados americanos onde se estimou que 2,7% das recrias tinha pelo menos um vitelo PI. Esta infeção com vírus da BVD, como resultado da exposição a uma estirpe citopática, pode culminar com a morte do vitelo, e estes raramente atingem as recrias porque morrem antes do desmame. No entanto, Larson et al. (2004) estimam que 17 a 50% de vitelos PI atingem a idade do desmame, e no mesmo sentido Loneragan et al. (2005) estimam que 33% dos vitelos PI sobreviverão até à idade do abate, o que aumenta o risco de exposição de animais saudáveis ao vírus da BVD em 43%, ao longo de toda a sua vida produtiva (McAllister, 2010).

FATORES PREDISPONENTES A DOENÇA RESPIRATÓRIA BOVINA Agentes patogénicos como bactérias, vírus e associações víricobacterianas comprometem as defesas do trato respiratório, conduzindo em última instância a doença pulmonar. A doença pulmonar bovina caracteriza-se assim como uma combinação de 68


requisitos físicos e fatores ambientais que permitem a colonização do trato respiratório inferior por agentes patogénicos comuns. A figura 3.3 ilustra alguns dos fatores associados à incidência de DRB em ambas fases do ciclo produtivo dos bovinos, pré e pós desmame.

Figura 3.3. Fatores pré e pós desmame que afetam a doença respiratória em bovinos de carne e o impacto final da doença na produção de carne (adaptado de Duff e Galyean, 2007).

Os fatores relacionados com a fase antes do desmame prendemse principalmente com a suscetibilidade a DRB centrada no desenvolvimento do sistema imunitário do animal. Neste capítulo, podemos incluir o desenvolvimento neonatal bovino, a nutrição, a exposição a animais persistentemente infetados com 69


BVD e o maneio sanitário da exploração de origem (McAllister, 2010). De forma similar, Callan e Garry (2002) atestam que o background imunitário, a idade e o stress (físico e alimentar/nutricional) jogam um papel importante na incidência de DBR em animais antes do desmame. Depois do desmame dos vitelos, podemos sublinhar e enfatizar fatores stressantes como a manipulação e o transporte, a transição abrupta alimentar e o maneio profilático preventivo a que a que a maioria dos animais é exposta (Duff e Galyean, 2007). A combinação de todos estes fatores, muitos deles com ação cumulativa, joga um papel importantíssimo no futuro sanitário e na performance individual durante todo o seu ciclo produtivo. O desmame e a entrada no parque de engorda são eventos que amplificam as causas predisponentes de DRB. McAllister (2010), citando Edwards (1996), refere que à entrada no parque de recria os animais podem ser classificados em duas categorias, de alto ou baixo risco. Os animais classificados de alto risco incluem os recém-desmamados, os que foram transportados em longas distâncias (pelo menos 20 horas), os que provêm de feiras/mercados/leilões (várias origens e todos reagrupados repentinamente) e os que aparentam estar muito nervosos quando chegam ao seu novo destino. A categoria de vitelos de risco reduzido inclui animais mais velhos (desmamados há mais tempo na exploração de origem), oriundos da mesma fonte, animais que vem de um sistema de produção parecido à engorda

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a que se destinam (instalações e dieta) e vitelos calmos, ainda que tenham sido desmamados há relativamente pouco tempo. É largamente aceite na indústria de produção de carne que os animais de porte mais pequeno que entram num feedlot apresentam um risco sanitário acrescido, quando comparados a animais de maior porte (Edwards, 1996; McAllister et al., 2008; McAllister, 2010). Autores como McAllister et al. (2008) reportam que animais menos pesados que entram nos parques de recria mostram mais sinais clínicos de DRB mais cedo, ainda na fase de receção, associados ao stress, do que aqueles que entram mais pesados. Lekeux (1995) atribui a maior incidência de DRB em vitelos mais novos, e logicamente menos pesados, a sistemas respiratórios subdesenvolvidos presentes em idades mais precoces. Por outro lado, McAllister et al. (2008) encontraram um aumento de 120% na doença crónica em engordas com animais de várias proveniências, quando comparada com recrias em que os animais provêm de uma única origem. De forma similar, Step et al. (2008) demonstram que engordas pré-condicionadas e com origem única dos animais eram mais saudáveis (menores taxas de morbilidade, ou seja, menor quantidade de doença respiratória) e apresentavam melhores performances produtivas do que as que recebiam animais de várias origens, principalmente as que recebiam animais de feiras, mercados ou leilões. Existe também um vasto número de fatores ambientais que predispõem os vitelos antes e depois do desmame a DRB. Neles 71


podem incluir-se o clima, a temperatura ambiente, partículas de pó e densidade dos parques de engorda (maior densidade, maior exposição e maior facilidade de disseminação de agentes patogénicos). Speidel et al. (2008), citados por McAllister (2010), referem que as alterações dramáticas de temperatura, como grandes amplitudes térmicas diárias, aumentam a probabilidade de identificação de animais com doença clínica respiratória durante as primeiras fases da recria.

SINTOMATOLOGIA CLÍNICA E SUBCLÍNICA DE DOENÇA RESPIRATÓRIA BOVINA

A DRB é o resultado de fatores stressantes supressores da imunidade que permitem a colonização do trato respiratório inferior por agentes patogénicos oportunistas comumente encontrados na flora normal do trato respiratório superior. Estes fatores físicos, epidemiológicos e ambientais são exacerbados durante o desmame e as várias fases da engorda, conduzindo a aumento de incidência de doença respiratória clínica. Uma boa parte dos animais diagnosticados com DRB são prontamente tratados, o que realça a importância do diagnóstico precoce da doença nos grupos de animais recriados. De facto, a maioria dos casos de DRB é identificada e tratada antes dos 27 dias da fase inicial da engorda, durante o período de alimentação. Os sinais clínicos mais comuns de DRB incluem dificuldade respiratória (respiração laboriosa ou falta de ar, figura 3.4), tosse, 72


corrimento nasal e ocular, depressão, anorexia (os animais deixam de comer), febre (aumento da temperatura retal, sendo que a temperatura retal normal em vitelos varia entre 38 e 39,5 °C) e morte. A sintomatologia pode variar individualmente, o que representa uma dificuldade acrescida no diagnóstico de DRB. Duff e Galyean (2007) recomendam que a observação de qualquer combinação dos sinais descritos anteriormente, incluindo uma temperatura retal superior a 40 °C (104 ºF), é indicativa de DRB.

Figura 3.4. Vitelo de engorda com sintomatologia de DRB aguda.

Na figura anterior, nota-se a dificuldade respiratória pela postura da cabeça e pescoço (posição ortopneica, favorece a entrada de 73


ar no sistema respiratório), o excesso de salivação e as orelhas caídas, típicas da DRB. Dada a natureza subjetiva do diagnóstico da DRB, a identificação precoce de animais afetados é fundamental para reduzir a quantidade de doença subclínica, zootécnica, económica e epidemiologicamente muito mais importante. É do conhecimento geral que a expressão da doença apresenta sintomatologia clínica nalgumas populações, enquanto outras manifestam alterações subtis que categorizam a patologia como subclínica pela falha na identificação de animais doentes e/ou portadores. Noffsinger e Locatelli (2004) atribuíram esta expressão subclínica da doença a uma resposta presa/predador. Estes autores propuseram que os vitelos não demonstrariam sinais de doença, suprimindo os sintomas clínicos, para não serem detetados como mais fracos na presença de humanos (predadores), e desta forma os sinais passariam despercebidos ao pessoal que se encarregava da deteção de doença na engorda. Dentro de um grupo de animais, podem observar-se indivíduos com variabilidade de estádio e severidade da doença. Como os testes de diagnóstico são caros e não permitem uma resposta imediata ao lado do animal, os cuidadores dos animais deverão ser treinados a avaliar de forma consistente o estatuto sanitário do vitelo. Uma ferramenta simples e útil para avaliar o grau de DRB é um sistema de classificação de doença respiratória para vitelos de explorações de leite (mas que se pode adaptar perfeitamente às nossas engordas), criado por investigadores da 74


Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Davis, na Califórnia, Estados Unidos da América (figura 3.5).

Figura 3.5. Matriz de avaliação para o sistema de classificação de DRB

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O objetivo principal deste “score de doença respiratória”, criado recentemente, é colocar à disposição de produtores, tratadores e veterinários uma ferramenta precisa e simples para diagnosticar a DRB. Baseia-se na avaliação de 6 sinais clínicos: tosse (2 pontos), descarga nasal (2 pontos), febre (temperatura 4

Fonte: http://www.vmtrc.ucdavis.edu/laboratories/epilab/scoringsystem.pdf 75


retal igual ou superior a 39,2 °C), respiração anormal (2 pontos), descarga nasal (4 pontos), grau de “queda” de orelhas e cabeça (5 pontos). Uma das grandes vantagens é não haver a necessidade de medir a temperatura retal a todos os animais, que, além de trabalhosa, tem riscos para vitelos e operadores, porque se considera o valor de 5 pontos como o limite a partir do qual se pode diagnosticar DRB. Por isso, animais com 5 ou mais pontos sem avaliação do parâmetro da temperatura retal já não justificam esta avaliação, porque estão, com toda a certeza, doentes. Na realidade, a deteção de animais com DR subclínica é quase impossível, o que subestima a verdadeira prevalência da doença, assim como a repercussão associada à produtividade e rentabilidade da exploração. Numerosos estudos investigaram a utilização das lesões nos lóbulos pulmonares (cranial, ventral e médio) para estabelecer a verdadeira prevalência de DRB subclínica em recrias de vitelos de carne (McAlliester, 2010). No limite, as lesões pulmonares servem para quantificar de forma mais fidedigna a quantidade de doença respiratória subclínica num grupo de animais engordados, e indiretamente para estimar a redução de performance durante o acabamento dos bovinos, quando comparados com animais identificados com DRB e tratados (McAllister, 2010). Quase todos os estudos são unânimes em concluir que existe uma grande quantidade (38,8 – 60,6%) de animais não tratados para DRB durante a sua vida produtiva que apresentam lesões pulmonares, o que leva a crer que se trata de animais não detetados com DRB durante o 76


período de engorda (McAllister, 2010, citando Wittum et al., 1996; Bryant et al., 1999; Thompson et al., 2006). Na prática, existe uma grande proporção de animais recriados ou engordados que nunca foram tratados e/ou mostraram sinais de DRB. As razões para o não tratamento de animais doentes são resumidas por McAllister (2010): (i) animais que sofreram DRB passam despercebidos aos tratadores; (ii) muitos animais sofrem DRB subclínica; (iii) algumas lesões pulmonares tiveram origem antes da entrada dos animais na engorda; e (iv) uma combinação das 3 hipóteses anteriores. Por outro lado, a maioria dos estudos demonstra também que uma proporção (9,9 – 63%) de animais tratados para DRB na primeira fase da engorda não mostra lesões pulmonares. A explicação para estes resultados, também proposta por McAllister (2010), pode residir em (i) falhas de diagnóstico ou (ii) tratamento efetivo que preveniu o desenvolvimento da infeção e o estabelecimento de lesões pulmonares. A visualização de lesões pulmonares pós-morte é uma forma muito mais fidedigna para estimar a prevalência de DRB do que o registo de tratamento de animais durante a fase deste ciclo produtivo (figura 3.6). Cumulativamente, a inclusão de um score pulmonar para classificação da DRB permite melhorar a estimativa de perda de produção e o acréscimo de dias em engorda, quando comparada com os registos terapêuticos do grupo como única variável.

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Figura 3.6. Impacto da pneumonia em vitelos de carne

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Fonte: http://calfmatters.com/calf-pneumonia/impact-calf-pneumonia-beefenterprise 78


PRÁTICAS DE MANEIO E PREVENÇÃO DA DOENÇA RESPIRATÓRIA NOS BOVINOS

Os métodos correntemente implementados para o controlo da DRB incluem higienização, profilaxia sanitária, quarentena, refugo de animais e medicação terapêutica. A investigação tem sido direcionada para as áreas das práticas de maneio e farmacêutica, uma vez que são os métodos mais fáceis de implementar atualmente na produção de bovinos de carne (Bagley, 1997). As práticas de maneio que reduzem a introdução, exposição e transmissão de agentes patogénicos são passos importantes no maneio da DRB (Snowder et al., 2006). As vacinas podem ser efetivas para a redução, não apenas da suscetibilidade, mas também da disseminação de agentes infeciosos para outros vitelos do grupo. Os consumidores estão cada vez mais sensibilizados para os aspetos de saúde e segurança alimentar, o que se traduz num maior ceticismo relativamente aos resíduos de antimicrobianos, fármacos e hormonas na carne e nos seus produtos. Esta corrente atual exige alterações na produção primária, nomeadamente práticas de maneio alternativas para reduzir a utilização de antibióticos na prevenção e maneio da DRB. McAllister (2010) revela que 99,8% dos feedlots americanos utilizam antimicrobianos injetáveis como primeira escolha para o tratamento de DRB, e curiosamente apenas 40,6% recorrem a vacinas respiratórias (USDA APHIS, 2001).

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A adoção de práticas de pré-condicionamento pela indústria da carne, para reduzir a morbilidade e mortalidade da DRB, tem sido lenta. Trata-se da imunização dos vitelos contra agentes víricos da DRB, e da mitigação das situações de stress durante os processos de transição entre o desmame e o novo período de crescimento. Revisões de vários protocolos de précondicionamento dos vitelos demonstram aumentos de ganhos médios diários em toda a engorda e durante os primeiros 45 dias desta nova fase, além de reduções apreciáveis de morbilidade e mortalidade da DRB, de 23% e 7%, respetivamente (Cole, 1985, citado por McAllister, 2010). A associação americana de clínicos bovinos (AABP) definiu os critérios a incluir num protocolo de pré-condicionamento em vitelos, visando a principal patologia desta fase da vida dos bovinos de carne, a DRB. Este protocolo inclui: (1) desmame de vitelos pelo menos 3 semanas antes da sua venda; (2) treino de alimentação e abeberamento em grupo; (3) desparasitação prévia à venda; (4) vacinação contra DRB (para-influenza 3, IBR, BVD, Pasteurella e Haemophilus somnis) e clostridioses; (5) descorna e castração antes do período do desmame; (6) identificação dos vitelos com marcação auricular (McAllister, 2010). O objetivo é simples e lógico: preparar os vitelos para períodos de transição, num esforço para reforçar a imunidade e os reduzir fatores de stress físicos e psicológicos à entrada da engorda. Para aumentar a aceitação e adoção do pré-condicionamento pela indústria da carne, terão de se por em prática incentivos 80


económicos a quem vende vitelos processados por essa metodologia. Dhuyvetter (2005), citado por McAllister (2010), baseando-se num programa de engorda de 6 semanas, afirma que os produtores podem ter um acréscimo de aproximadamente 12 euros por vitelo pré-condicionado, comparando com animais que não sofreram esse tipo de maneio higiossanitário. Com esta taxa de retorno, os produtores de vitelos que utilizam este tipo de técnica de maneio podem ser premiados na venda dos seus animais, ou seja, vêm o preço de venda dos seus vitelos acrescido entre 0,041 e 0,121 euros/kg (McAllister, 2010). Apesar destas evidências, menos de metade (aproximadamente 40%) dos produtores de carne americanos vacinam contra DRB (USDA APHIS, 2001). Relativamente à realidade nacional, a falta de dados e estudos impedem-nos de quantificar o nosso panorama nesse contexto, mas da experiência que temos nessa área estimamos que a percentagem de produtores que vacinam contra DRB e fazem pré-condicionamento é ainda muito reduzida. As vantagens do pré-condicionamento não se ficam por aqui: estudos americanos referem acréscimos entre 35 e 50 euros por vitelo (Roeber e Umberger, 2002); por outro lado, Faeber et al. (1999), demonstraram que vitelos que não foram desmamados com alguma antecedência relativamente à entrada no feedlot apresentavam 3,4 vezes mais probabilidade de adoecer com DRB do que aqueles que foram desmamados um mês antes da entrada em engorda; similarmente, Roeber e Umberger (2002) encontraram redução de 41,6% na incidência de DRB quando 81


compararam 2 grupos de animais, tendo um deles sido sujeito a pré-condicionamento. Um outro grande problema das recrias de vitelos é a falta de informação sanitária sobre os animais recém-chegados, razão pela qual uma parte dos produtores vacina a maioria dos animais recém-chegados contra agentes víricos da DRB. Grande parte dos produtores atuam quando se manifesta a sintomatologia clínica de DRB, variando os tratamentos com a variedade de fármacos comercialmente disponíveis. A utilização de antimicrobianos pode ser determinada pela avaliação da resposta clínica, achados de necrópsia, estudos de campo e custos de tratamento. Tratamentos com antibióticos e vacinas usam-se essencialmente para reduzir a incidência e severidade de surtos de doença, mas têm uma capacidade limitada para erradicar e prevenir completamente a DRB de populações completas. Existem atualmente diversas vacinas disponíveis no mercado contra DRB, mas nenhuma delas cobre todos os agentes patogénicos responsáveis pela doença do aparelho respiratório dos vitelos. Quando estamos na presença de grupos de animais de alto risco dentro de uma população, é comum a implementação de uma técnica de maneio terapêutica massiva, conhecida por metafilaxia. A medicação em massa de grupos de animais, quando comparados com grupos não tratados, tem demonstrado sucesso na redução das taxas de morbilidade de 60% para 7%, respetivamente (McAllister, 2010). No entanto, isto acarreta 82


grandes problemas de saúde pública, em virtude da eventual presença de resíduos antimicrobianos na carne, algo que o consumidor atual rejeita cada vez mais. Alternativamente, começou a utilizar-se a medicação massiva em animais com temperatura retal acima dos valores de referência (38-39 °C), o que reduz cerca de 60% o número de animais tratados e mitiga a situação da “toxicidade antibiótica” da carne de bovinos (Galyean et al., 1995). Este procedimento minimiza a necessidade de tratamentos desnecessários e reduz os custos totais com produtos farmacológicos, ao mesmo tempo que reduz consideravelmente a morbilidade total da doença. Nos últimos 30 anos, poucos antibióticos novos têm sido desenvolvidos, o que torna de extrema importância os cuidados e a avaliação prévia necessária a este tipo de tratamentos massivos, e limita este tipo de maneio a animais de alto risco extremo. Independentemente do conhecimento da DRB, a sua prevalência na população bovina e nas recrias de vitelos demonstra claramente que os esforços efetuados pela indústria na prevenção e tratamento têm falhado (figura 3.7), e espera-se da investigação e dos investigadores o aparecimento de métodos alternativos para reduzir a incidência da DRB.

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Figura 3.7. Doença respiratória nos vitelos na Irlanda: importância, etiologia e 6 epidemiologia

CLOSTRIDIOSES As clostridioses são doenças que afetam o gado bovino de forma repentina, causando regularmente a morte, sem que se tenha manifestado algum tipo de sintomatologia clínica. As bactérias que causam esta patologia produzem esporos (formas de resistência) muito resistentes, que se encontram disseminados por todo o meio envolvente e que podem entrar facilmente no organismo através de uma ferida ou quando o animal está a pastar (Wright, 2016).

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Fonte: http://www.bovilis.ie/pneumonia 84


As clostridioses, também conhecidas como enterotoxémias ou “septicémias” na gíria agropecuária, são causadas por bactérias do género Clostridium (quadro 3.1). Os clostrídeos estão largamente disseminados por todo o ambiente, e encontram-se normalmente no solo e nas fezes. Para garantirem a sua sobrevivência e permanência no meio ambiente, produzem esporos resistentes, o que lhes confere esta característica de longevidade no meio envolvente. Por outro lado, também existem no tubo digestivo, e sobre a forma de esporos, nos tecidos de animais sãos. Nem todas as espécies de clostrídeos provocam doença, mas as que são patogénicas costumam ser mortais (Wright, 2016). Neste último grupo incluímos as mais prevalentes no nosso sistema produtivo: Clostridium (Cl.) septicum (edema maligno), Cl. chauvoei (carbúnculo sintomático), Cl. sordelli, Cl. haemolyticum, Cl. novy (hepatite necrótica), Cl. perfringens tipos A, B, C e D (enterotoxémia), Cl. tetani (tétano) e Cl. botulinum (botulismo). Animais sãos, sem sinais clínicos de doença, podem com alguma frequência estar infetados. Trata-se de uma patologia que pode aparecer sem aviso prévio, e os fatores que contribuem de forma importante para o aparecimento da doença podem resumir-se do seguinte modo: qualquer situação que crie condições para que as bactérias invadam o organismo e produzam toxinas, ou seja, uma ferida ou um tratamento invasivo (como uma intervenção cirúrgica, um parto ou uma ferida perfurante e profunda), alterações bruscas na dieta, sobrecarga alimentar

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ruminal ou acidose ruminal (aspetos importantes na recria de vitelos de carne).

particularmente

Quadro 3.1. Quadro resumo dos tipos de bactérias, doenças e classe de animais atingidos nas clostridioses bovinas Bactéria

Doença

Clostridium chauvoei

Carbúnculo sintomático

Clostridium haemolyticum

Hemoglobinúria

Clostridium novyi

Hepatite necrótica

Clostridium perfringens (tipos C e D)

Enterotoxémia

Clostridium septicum

Edema maligno

Clostridium sordelli

Síndrome da Morte Súbita

Clostridium tetani

Tétano

Animais mais afetados Animais em crescimento, bem alimentados, entre os 6 meses e os 2 anos de idade Adultos mantidos em áreas alagadas, especialmente quando afetados por lesões hepáticas (como as provocadas pela fasciolose) Animais em crescimento em feedlots Vitelos de todas as idades, especialmente quando submetidos a alterações bruscas na dieta ou regimes com alto nível de concentrados Todas as classes de animais, em particular os que sofreram lesões/feridas Animais em crescimento em feedlots Todas as classes de animais, em particular os que sofreram lesões/feridas

Adaptado de: https://extension.arizona.edu/sites/extension.arizona.edu/files/pubs/az1712-2016.pdf

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Os sinais clínicos de clostridioses podem variar de acordo com o tipo de bactéria implicada, e normalmente variam desde morte súbita de animais aparentemente sãos (o mais frequente) (figura 3.8), letargia ou prostração com morte nas 6-24 horas seguintes, febre alta, falta de apetite, edema da bacia ou ombro com presença de gás a nível subcutâneo, dando a sensação de crepitação ao toque, claudicação aguda, rigidez localizada, espasmos musculares e hematúria (urina de cor vermelha escura, fazendo lembrar “vinho do porto”).

Figura 3.8. Apresentação “pós-morte” de enterite necro-hemorrágica num bovino. A – Morte súbita num vitelo Branco Azul Belga, com distensão abdominal e timpanismo marcados. B – Intestino delgado severamente distendido e congestionado no mesmo caso de enterotoxémias; ao corte/abertura aprecia-se normalmente o aspeto e consistência hemorrágica das fezes (adaptado de Goossens et al., 2017)

O diagnóstico das clostridioses pode estabelecer-se a partir da sintomatologia clínica e da epidemiologia, mas pode ser necessária a execução de uma necrópsia para colheita de material a enviar ao laboratório, para através da microbiologia e

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histopatologia se confirmarem as suspeitas clínicas, pós-morte e epidemiológicas. As clostridioses evoluem tão rapidamente que raramente se podem tratar com recurso a fármacos efetivos contra estas bactérias, como sejam os antibióticos, razão pela qual o tratamento contra esta patologia que acomete bovinos não seja eficaz nem a primeira escolha de combate. Em termos de prevenção, a vacinação é uma estratégia segura, económica e fiável para prevenir este tipo de patologia. Existem diversas combinações de vacinas contra clostrídeos, que ajudam a proteger a população bovina contra estas bactérias mortais. Outra forma eficaz de prevenir clostridioses em vitelos de carne é combater fatores predisponentes, neste caso específico evitar transições alimentares bruscas e sobrecargas alimentares, o que se consegue com o pré-condicionamento alimentar prévio ao desmame. No campo, traduz-se por habituar os animais ao alimento concentrado umas semanas antes de serem efetivamente desmamados, técnica de maneio vulgarmente executada com o recurso a comedouros seletivos para vitelos que pastoreiam com as suas mães. Dado que os clostrídeos costumam atacar os vitelos mais saudáveis e de crescimento mais rápido, o seu impacto económico pode ser devastador numa engorda. O carbúnculo sintomático e as outras clostridioses podem anular de uma assentada o lucro associado à engorda de um grupo de animais

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no caso de surto, provocando a morte de animais com grande potencial de crescimento e prometedores neste ciclo produtivo.

QUERATOCONJUNTIVITE INFECIOSA BOVINA A Queratoconjuntivite Infeciosa Bovina (QIB), também conhecida como “olho cor-de-rosa” (“pink eye”, da nomenclatura anglo-saxónica), é uma doença oftalmológica, muito contagiosa, que afeta sobretudo vitelos e é causado por uma bactéria denominada Moraxella bovis. Em casos mais graves ou tratamentos tardios pode culminar com perda total, uni ou bilateral, da visão. Trata-se de uma opacidade que aparece na córnea dos vitelos, de coloração rosada, e pode evoluir de forma rápida e drástica, originando em casos extremos a perda da capacidade visual do animal. A Moraxella bovis é o agente causal mais frequentemente isolado e responsável por esta doença típica das recrias alentejanas. Também se têm isolado de outros casos clínicos outros cocos Gram negativos “aparentados” com a M. bovis: M. ovis (antigamente conhecida como Branhamella ovis) e M. bovoculi. Existem no entanto outros agentes, como os Mycoplasma spp. (Mycoplasma bovis, também pode provocar infeções oculares similares às que se observam nas causadas por Moraxella), Acholeplasma, Chlamydia, Herpesvírus bovino tipo I e Adenovírus bovino, suspeitos de predispor os bovinos a infeção por M. bovis ou de agravar a patologia por ela originada. Alguns fatores físicos 89


e outros agentes ou elementos irritantes para os olhos, como as moscas, o pó, o vento, o sol, as partículas da palha, predispõem e muito os animais a QIB. As moscas, particularmente, consideram-se os vetores habituais de transmissão de microrganismos relacionados com a QIB entre a população bovina, por isso são frequentes surtos desta doença coincidentes com a temporada de máximo desenvolvimento destes insetos, o Verão. Do ponto de vista clínico, a QIB pode variar desde uma irritação ocular leve a uma inflamação necrotizante grave que provoca uma cicatriz permanente e uma perda de visão. Regra geral, a febre e a dor intensa, com blefarospasmo (contração das pálpebras e encerramento do olho) e lacrimejamento, reduzem o apetite do animal, o que se traduz em piores performances produtivas durante esta fase de crescimento. Existem estirpes de M. bovis menos patogénicas: estirpes com uma menor produção de citoquinas ou com um número limitado de “pillis” têm menor capacidade para provocar doença. O diagnóstico da doença pode estabelecer-se a partir da sintomatologia clínica (inflamação e opacidade da córnea, com lacrimejamento e blefarospasmos em vitelos no Verão) e das características epidemiológicas, mas para confirmar é necessário recorrer a provas complementares, como seja a bacteriologia. Os vitelos com QIB devem tratar-se o quanto antes, para reduzir a probabilidade de transmissão a outros animais e minimizar o aparecimento de possíveis lesões oculares que podem ser mais 90


graves e inclusivamente permanentes e funcionais. Ambas as Moraxellas (bovis e ovis) são sensíveis a diversos antibióticos, razão pela qual vários são utilizados, sistémica e localmente (via intraconjuntival). Também está preconizada a utilização de colírios ou pomadas oftálmicas com antibióticos e antiinflamatórios como forma de tratamento local. Como falamos de uma doença de grupo, a prevenção faz todo o sentido. Entre as medidas preventivas mais eficazes inclui-se o controle de moscas através do uso de brincos impregnados com repelentes de insetos, o corte dos picos e de plantas irritantes no parque onde se encontram os animais, a adoção de medidas que reduzam ao máximo o pó do feno que os animais ingerem, o evitar utilizar comedouros altos e que predisponham à entrada de restos de palha e feno para os olhos do animal, a criação de zonas de sombra nos parques de engorda e, indiretamente, a imunização contra doenças virais, como IBR e BVD, que predispõem os animais a QIB. Ainda que se trate de uma doença não mortal, a QIB é muito contagiosa e constitui um grande problema económico nas recrias alentejanas, ainda que a maioria dos produtores não lhe preste a atenção e importância devidas. Reduz o ganho médio de peso, uma vez que diminui o apetite, aumenta os custos associados a tratamentos numa engorda de vitelos, além de aumentar o tempo despendido com os animais afetados, intensificando o maneio e aumentando diretamente os riscos de

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acidentes; pode também desvalorizar o preço do animal ou da carcaça, já que o seu aspeto pode ver-se alterado. A figura 3.9 mostra um caso de QIB no Alentejo. De salientar a presença de um corpo estranho (barbas de uma “pragana”), uma das principais causas de QIB nesta região e estação. O olho apresenta um edema bastante grave de esclera e conjuntiva, bem como opacidade muito severa da córnea. O comprometimento e funcionalidade do olho são notórios.

Figura 3.9. Aspeto do olho esquerdo de um vitelo de carne que foi detetado com blefarospasmo e lacrimejamento numa engorda alentejana durante o Verão.

A figura 3.10 mostra outro caso de QIB, desta vez bilateral, num vitelo de carne recém-introduzido numa recria no Alentejo. Mais uma vez trata-se de um animal detetado tardiamente e a opacidade, edema, comprometimento e funcionalidade oculares são evidentes.

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Figura 3.10. Um caso de QIB, bilateral, em vitelo de carne, recém-desmamado e incluído num grupo de animais a recriar, na região alentejana.

INFESTAÇÕES PARASITÁRIAS INTERNAS As infestações parasitárias consideram-se como um dos problemas sanitários de maior importância e prevalência em recrias que agregam animais com diferentes proveniências e que vêm de um sistema de alimentação à base de pastagem. As parasitoses internas compreendem basicamente as causadas por nemátodes gastrointestinais e respiratórios, a coccidiose e, 93


nalgumas regiões ou épocas do ano, as infestações por tremátodes (fasciolose e dicroceliose). Dependendo do tipo de parasita, da gravidade da infestação, bem como da idade e nível de stress a que o animal foi submetido, os sintomas podem variar entre subclínicos (perda de produtividade do animal: redução do ganho de peso, alteração da composição da carcaça, depreciação económica do vitelo por mau aspeto geral, etc.) e clínicos (pelo áspero, anemia, edema, diarreia). O diagnóstico de parasitoses pode ser presuntivo, pela história clínica do animal ou pela sua situação epidemiológica, mas terá sempre de ser confirmado pela coprologia e recurso ao laboratório: contagem de ovos nas fezes por microscopia, cultura de fezes para crescimento de larvas, etc. A estratégia mais racional para combater estas endoparasitoses baseia-se num correto maneio do gado bovino, principalmente uma rotação adequada de pastoreio e a utilização de um bom programa de desparasitação com duplo objetivo: tratamento e proteção dos animais e redução da contaminação das pastagens. Um programa de desparasitação adequado é a melhor forma de assegurar a proteção do grupo de vitelos a engordar. Com apenas uma aplicação, alguns fármacos existentes no mercado atuam contra os nematodes gastrointestinais e respiratórios, e permitem ao detentor, assessorado tecnicamente por um veterinário, elaborar um programa de prevenção simples e eficaz. 94


As perdas económicas causadas por parasitas internos nas recrias de vitelos podem ser muito significativas. Os vitelos com menos de um ano são mais sensíveis que os animais adultos, uma vez que os adultos, tendo tido previamente exposição a parasitas, desenvolvem um certo grau de imunidade. Em qualquer unidade de produção com vitelos, os animais necessitam de manter o seu crescimento e índices produtivos, com a finalidade de cumprir os objetivos para venda e maximizar o benefício/lucro nos casos de explorações de bovinos de carne.

UROLITÍASE, OU CÁLCULOS URINÁRIOS Esta afeção do trato urogenital dos bovinos, também comumente conhecida por “pedras na bexiga”, é uma patologia típica e exclusiva das recrias de vitelos de carne. Normalmente associada à alimentação e erros de maneio alimentar, pode ser devastadora porque conduz de forma frequente à cirurgia urogenital (o tratamento médico é pouco ou nada eficaz), que pode ser incomportável em situação de campo, e em casos mais graves à morte do animal (New South Wales Government, s/d). Normalmente, níveis elevados de fósforo no concentrado aumentam a probabilidade de urólitos ou cálculos urinários, que podem obstruir a uretra e impedir a micção. Uma fonte de água de bebida alcalina, ou um excesso de utilização de bicarbonato de sódio na dieta (muitas vezes usado para prevenção de acidose

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metabólica), podem contribuir de foram efetiva para a formação dos cálculos urinários. Clinicamente, a perturbação não manifesta sinais até que a uretra fique obstruída e bloqueada. Os cálculos, ou “pedras”, que se formam na bexiga urinária seguem para a uretra e podem causar obstrução e bloqueio total ou parcial. Os vitelos mostram dificuldade de micção e dor durante o processo, edema prepucial por acumulação de urina, gotejamento contínuo de urina pelo prepúcio, pontapeiam o abdómen como sinal de dor e desconforto, e podem mostrar enrolamento do pénis quando urinam. Em casos mais graves de obstrução total da uretra pode haver rotura da bexiga, ou mesmo da uretra peniana, e nestes casos podemos assistir a um alívio temporário da sintomatologia clínica, mas posteriormente depressão, edema generalizado ventral (“water belly”) perda de apetite, peritonite e morte do vitelo (New South Wales Government, s/d). Normalmente, o abate de emergência é a única alternativa para o animal, já que nenhum tratamento médico é eficaz. No cenário de rotura de bexiga, a carcaça fica contaminada e será alvo de rejeição total no exame pós-morte, ao passo que, quando se trata de uma obstrução parcial ou total, o tratamento de urgência aconselhado, e o único eficaz, é a cirurgia de uretra, especificamente a uretrostomia, o que significa que a uretra é aberta antes da região obstruída e o animal expele a urina por essa “abertura” cirúrgica. No entanto, nas condições das nossas recrias o pós-operatório é complicado e a cirurgia cara, o que 96


agrava o prognóstico e impede muitas vezes que este tratamento seja uma opção na nossa realidade de “engordas” de vitelos. A prevenção será, mais uma vez, a melhor estratégia de combate a esta doença. É importante conhecer e determinar a composição química dos cálculos urinários através da ajuda laboratorial. Só assim se consegue delinear a melhor estratégia para prevenir a sua produção e a instalação da patologia. Em engordas à base de concentrado, os cálculos de fosfato de amónio magnesiano são os mais comuns, e neste caso a utilização de um acidificante urinário na dieta, como o cloreto de amónio ou sulfato de amónio a 1-2%, pode ser uma boa opção preventiva. Os cálculos, ou “pedras”, de cálcio são indissolúveis e, nestes casos, a prevenção baseia-se em encorajar os animais a beberem água ad libitum, de fácil acesso e de elevada qualidade, e assegurar que a suplementação de cálcio na dieta é a adequada e não excessiva. A suplementação adicional de sal aumentará o consumo de água pelos vitelos e diluirá a urina (New South Wales Governement, s/d). A figura 3.11 mostra casos de urolitíase em bovinos de carne. Regra geral este tipo de patologia parece em situações de erros de maneio alimentar e pode ser prevenida na maioria das situações. Na imagem D podem visualizar-se vários cálculos (cuja composição de fosfato de amónio magnesiano foi confirmada posteriormente) e uma inflamação generalizada da mucosa vesical.

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B

A

C

D

Figura 3.11. Urolitíase em bovinos de carne. A: local anatómico mais comum para a cirurgia (uretrostomia), único tratamento em obstruções totais. B: Edema ventral com distensão na região abdominal ao nível de testículos e prepúcio. C: Aspeto à distância de um novilho de engorda com urolitíase. D: Aspeto macroscópico “pósmorte” da bexiga no animal representado em C.

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TIMPANISMO OU INDIGESTÃO RUMINAL Estamos perante outra das patologias mais frequentes das recrias de vitelos de carne, e muito associada a erros de maneio alimentar. Clinicamente falamos de uma distensão anormal do abdómen, particularmente do lado esquerdo (figura 3.12), que está normalmente associada a stress respiratório (dificuldade em respirar) por compressão ruminal do diafragma.

Figura 3.12. Vitelo cruzado de carne, macho, timpanizado. Note-se a distensão no flanco esquerdo do abdómen.

A causa desta distensão da pança do vitelo é a acumulação de gás naquele compartimento, que é incapaz de se “escapar” para o ambiente, usualmente como consequência da presença de espuma ao nível do cárdia (orifício por onde sai o gás que se forma no rúmen). A ingestão de forragens, ou o pastoreio em pastagens, ricas em leguminosas predispõe a timpanismo e, nas engordas de vitelos, uma sobrecarga alimentar por erros de 99


maneio (figura 3.13), como excessiva densidade dos parques ou falta de espaço de comedouro, pode estar na causa desta urgência médico-veterinária.

Figura 3.13. Outro vitelo cruzado de carne timpanizado. Sublinhamos, de novo, a distensão do flanco abdominal esquerdo e o pormenor da presença de conteúdo alimentar nas narinas, consequência de uma sobrecarga alimentar brutal.

O tratamento deve ser o mais urgente possível, porque o animal pode morrer por asfixia. O produtor pode, em casos leves, administrar uma garrafa de óleo vegetal (óleo de girassol, usado na nossa cozinha por exemplo) e exercitar o animal; o óleo reduz a tensão superficial da espuma que impede a saída do gás e pode resolver a situação. Em casos mais graves pode ser necessário a intervenção médico-veterinária: o animal pode ter de ser entubado para descompressão ruminal e, aproveitando a sonda 100


no rúmen, serem administrados pró-ruminatórios por via oral. Casos crónicos persistentes podem requerer a adição de um agente anti-timpanismo misturado na dieta. Um animal que padeça de indigestão crónica e recidivante raramente atinge os índices produtivos exigidos pela indústria da carne, razão pela qual, em nossa opinião, deve ser refugado e abatido precocemente ou antes da data preconizada.

STRESS TÉRMICO O Alentejo é o solar da bovinicultura de carne em Portugal e a região onde é recriada uma boa parte dos animais produzidos nas explorações extensivas. Como é do conhecimento geral, as alterações climáticas e a evolução do aquecimento global propiciam na nossa região Verões cada vez mais quentes e prolongados. Durante os meses mais quentes do ano, os animais recriados nestas condições e mantidos em instalações que não forem desenhadas para o efeito sofrem de uma síndrome que apelidamos de stress por calor. Como o próprio nome indica, por ação das altas temperaturas há implicações negativas nos índices zootécnicos dos vitelos durante a engorda: perdem o apetite, bebem mais água que o normal e o seu crescimento fica aquém do seu potencial genético. Os sinais seguintes podem ser observados numa situação de stress térmico, e em ordem crescente da carga de calor: alinhamento do corpo com o sol, procura de sombra, recusa do 101


vitelo em deitar-se, redução do consumo de alimento, aglomeração dos animais junto das fontes de água, agitação e inquietação, diminuição ou ausência total da ruminação, agrupamento de animais para procurarem as sombras uns dos outros, animais exibindo respiração difícil e de boca aberta com o pescoço estendido (“panting”), salivação excessiva, anafilaxia, relutância em movimentar-se que pode terminar em colapso, convulsões e coma do animal. A principal causa deste quadro nas engordas alentejanas nos meses quentes do ano, que tendem a ser cada vez mais e um período mais prolongado, são as altas temperaturas em dias de humidade alta e sem vento. No caso específico das temperaturas se manterem elevadas durante dias consecutivos, e as noites não arrefecerem, a predisposição dos vitelos a stress por calor aumenta. Carências nutricionais, nomeadamente nas vitaminas E e A, podem ser fatores predisponentes importantes. O tratamento passa por proporcionar sombras aos animais recriados, e em casos mais graves enemas com água muito fria/gelada, sendo mesmo possível o produtor fazê-los com recurso a uma mangueira numa situação de emergência iminente nos animais mais severamente afetados. Provavelmente, e tal como na maioria das patologias, a prevenção é a melhor forma de tratar stress térmico dos vitelos. Quando se projetarem instalações com o objetivo específico da engorda de bovinos, deve ter-se em consideração que tão importante como prever sombras para os animais é assegurar uma boa qualidade e fluxo 102


de ar, por isso em áreas onde o stress térmico seja uma realidade deve evitar-se a construção de paredes sólidas.

DIARREIA A maioria dos casos de diarreias nas engordas está mais associada a problemas nutricionais e de arraçoamento do que a problemas infeciosos propriamente ditos. As diarreias ligadas a causas não alimentares mais comuns nas recrias de vitelos de carne incluem infeções por salmonela e coccídeas. Nestes casos os animais aparentam estar doentes e têm outros sintomas para além da diarreia. No caso da salmonelose, os animais podem apresentar prostração e febre alta, e muitas vezes, mas não sempre, diarreia escura consequência de sangue digerido nas fezes. A cocciodose, patologia causada por um protozoário que acomete o sistema digestivo dos bovinos, também pode cursar com diarreia sanguinolenta, perda de peso rápida, fraqueza generalizada e ataxia (incoordenação de movimentos). A salmonelose é tratada com recurso a antibióticos, enquanto a coccidiose é normalmente tratada com sulfamidas (um tipo de antibiótico específico, embora se trate de um parasita). Trata-se de uma manifestação clínica da fase de doença que pode ter um impacto económico importante nas engordas de vitelos, 103


principalmente se associada a causa infeciosa e contagiosa. Os animais doentes não repõem peso suficiente, podendo inclusivamente perder peso, e uma vez resolvido o problema podem ficar com lesões na mucosa intestinal que poderão limitar futuramente o processo de absorção e comprometer o potencial crescimento do vitelo.

CONCLUSÃO É extensa a lista de patologias típicas das engordas de vitelos e reconhecidos os seus problemas sanitários mais comuns. O controlo e a prevenção da doença nas recrias de carne depende, em primeira instância, da compra de animais saudáveis. A transição ou o transporte dos animais até às novas instalações de destino deve ser efetuada com o máximo cuidado com o objetivo de causar um stress mínimo ao animal e evitar a consequente implicação negativa no sistema imunológico. O ambiente envolvente da recria deve ser agradável e confortável para o vitelo, bem como os sistemas de alimentação e abeberamento devidamente pensados e adaptados para a espécie e densidades em questão. É fundamental a implementação de um bom sistema de vigilância animal, a prevenção dos problemas de saúde dos vitelos através do uso da vacinação para melhorar a imunidade de grupo e, quando estritamente necessário, um uso racional de antibióticos, uma vez que o consumidor exige cada vez mais segurança alimentar. 104


A indústria da recria de vitelos tem lidado nas últimas décadas com os desafios e consequências da doença, nomeadamente a respiratória que é a mais prevalente e a que mais impacto económico tem. A doença respiratória bovina afeta um número bastante significativo de animais na recria, causa avultados prejuízos económicos aos produtores de carne, a maioria ocultos, passando despercebidos e fazendo-se sentir a longo prazo. Independentemente do progresso da medicina animal, o uso de vacinas e o uso de antibióticos são ainda os métodos de eleição para prevenir, tratar e controlar a doença respiratória bovina. No entanto, o sucesso na construção de resistência à doença começa com a seleção genética e continua com um correto maneio do colostro dos vitelos e com uma redução à exposição dos agentes patogénicos que causam doença. Independentemente da existência de um correto programa médico preventivo, indispensável na recria, é importante não esquecer o maneio geral dos vitelos, que começa no ventre das suas progenitoras e termina com a saída dos animais do parque de engorda. A utilização de técnicas de contenção e manipulação de bovinos que minimizem o stress (pré-condicionamento) proporciona defesas imunitárias efetivas contra os principais agentes causadores de doença. O controlo da doença respiratória bovina passa sobretudo pela implementação de um correto programa preventivo de saúde e maneio animal, que aborde eficazmente os desafios das doenças mais comuns da operação (Radostitis et al., 2000; McAllister, 2010).

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Outros problemas sanitários existem nas recrias de vitelos de carne, com impacto e prevalência menores que a DRB, mas que não podem ser esquecidos porque estão igualmente relacionados com baixa performances produtivas e perda de rendimento para o produtor. De salientar os timpanismos ou indigestões, o problema das clostridioses, os cálculos urinários, a QIB, as diarreias e as infestações parasitárias, entre outros. Todos se repercutem na saúde dos animais e no retorno económico que o produtor espera obter do investimento realizado. Muitos destes problemas, senão mesmo a maioria, estão associados a erros de maneio, razão pela qual com um bom planeamento poderão ser evitados. Falamos principalmente de problemas na construção de instalações, no seu dimensionamento, na qualidade e adaptabilidade de comedouros e bebedouros e nas cargas animais “impostas” a cada parque/grupo de animais. A observação próxima de todos os animais diariamente é fundamental para controlar a doença nas engordas. É importantíssimo reconhecer um animal doente, mas para tal, e antes disso, é fundamental conhecer o comportamento da espécie, porque só se reconhecem animais doentes quando se conhece o seu comportamento normal. Os pormenores podem ser a chave na hora de salvar animais e impedir que se dissemine a doença: contar o número de vezes que um vitelo respira por minuto, ou calcular a taxa respiratória olhando para um vitelo durante os meses mais frios ou mais quentes, verificar a existência de descarga ocular, nasal ou mesma a presença de 106


tosse, são sinais importantes que nos podem ajudar a identificar a DRB e a travar a sua evolução e disseminação no grupo. Um nariz com corrimento e uma respiração rápida podem ser o início da DRB, já que a tosse pode aparecer numa fase mais avançada da doença. Na dúvida, não devemos hesitar em medir a temperatura retal do vitelo, que, no caso de estar por cima dos valores de referência, é mais um indicativo de anormalidade. Os vitelos apresentam uma temperatura normal e fisiológica com valores compreendidos entre 38 e 39 °C. É também muito importante e fundamental observar diariamente o comportamento dos animais: animais prostrados, com as orelhas caídas, excesso de salivação, tremores musculares, boca aberta e dificuldade respiratória, afastados do grupo, com relutância ao movimento ou a levantar-se quando o resto do grupo o faz, são animais que devem ser sinalizados e avaliados com alguma urgência. A observação nesta fase produtiva, mais que necessária, é uma ferramenta que se reveste de uma importância extrema. O pessoal encarregado da observação diária dos animais nas engordas deve estar sensibilizado para todos estes aspetos, e neste campo a formação é primordial. O facto de observar um vitelo que se aproxima de um comedouro mas que não ingere alimento, mais do que concentração por parte do observador, exige perspicácia na verdadeira aceção da palavra, já que a redução do apetite e/ou anorexia é o primeiro sinal de doença nos vitelos de carne. Da mesma forma, o detalhe da consistência 107


e aparência das fezes é fulcral para avaliar e detetar possíveis problemas alimentares/nutricionais do grupo. Estamos perante um ramo de atividade com margens muito apertadas e em que o risco pode ser grande. O objetivo principal de uma engorda é o lucro. Controlando a doença e efetuando uma boa gestão alimentar e de maneio do grupo conseguimos atingir o objetivo pretendido, a maximização do lucro.

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4. FATORES DE INFLUÊNCIA SOBRE A QUALIDADE DAS CARCAÇAS DE BOVINO E A DECISÃO DE COMPRA/CONSUMO Maria da Graça Pacheco de Carvalho Instituto Politécnico de Portalegre, Portugal

O setor pecuário sofreu mudanças a um ritmo sem precedentes nas últimas décadas. A elevada procura nas economias mais crescentes do mundo de alimentos derivados de animais, levou a grandes aumentos na produção pecuária, apoiados por importantes inovações tecnológicas e mudanças estruturais no setor. Esta procura crescente foi principalmente suportada pela produção pecuária comercial e pelas cadeias alimentares associadas. A produção pecuária contribui com 40% do valor global da produção agrícola e apoia os meios de subsistência e a segurança alimentar de quase 1,3 bilhões de pessoas. O setor pecuário é um dos setores que mais cresce dentro da denominada economia agrícola mundial e é também o setor que mais utiliza recursos terrestres, com pastagens e terras 113


cultivadas dedicadas à produção de alimentos para animais que representam quase 80% de todas as terras agrícolas, enquanto a área total de terra ocupada por pastagem é equivalente a 26% da superfície terrestre sem gelo. Este crescimento deve-se essencialmente ao aumento do consumo per capita dos países em desenvolvimento. Em contrapartida, os países desenvolvidos têm mantido o seu consumo relativamente estático, verificando-se, contudo, mudanças das preferências alimentares desses consumidores (FAO, 2018). A produção de carne bovina na União Europeia (EU-28) permaneceu relativamente estável a partir de 2015 até 2016 (EUROSTAT, 2017). A carne é o produto pecuário mais valioso. A carne é composta por proteínas e aminoácidos, minerais, gorduras e ácidos gordos, vitaminas e outros componentes bioativos e pequenas quantidades de hidratos de carbono. Do ponto de vista nutricional, a importância da carne é devida à sua proteína de alta qualidade, que contém todos os aminoácidos essenciais, para além de minerais e vitaminas altamente bio disponíveis (FAO, 2018). Sendo um produto alimentar de elevado valor nutricional, o consumo de carne bovina tem-se mantido estável nos países desenvolvidos, aumentando as exigências dos consumidores nestes países. Variados estudos têm sido realizados para identificar quais os fatores que influenciam a qualidade da carne bovina (Guerrero et al., 2013, Viegas et al. 2015, Mendonça et al., 2016, Pighin et al., 2016, Berry et al. 2017).

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FATORES DE INFLUÊNCIA NA QUALIDADE DE CARNE BOVINA Existem inúmeros fatores que influenciam a qualidade da carne bovina (figura 4.1). Esses fatores podem ser intrínsecos (raça, sexo, idade, etc.) ou fatores extrínsecos ou externos (modo de produção, regime alimentar a que estão sujeitos, clima, procedimento de abate, etc.).

Figura 4.1. Ilustração dos fatores que podem influenciar a qualidade da carne (adaptado de Capelo, 2005).

A qualidade da carne é uma característica muito difícil de definir e explicar porque é determinada, em última análise, pela perceção dos consumidores de carne, sabendo-se que tais perceções variam de pessoa para pessoa e também para a mesma pessoa em horários diferentes e em diferentes ocasiões. Purchas 115


(s/d), refere que este problema pode ser minimizado dividindo o conceito geral de qualidade da carne numa série de componentes que podem ser medidos e estudados separadamente, apesar de variarem amplamente de músculo para músculo dentro da mesma carcaça. A aparência, palatabilidade, valor nutritivo, características tecnológicas (capacidade de retenção de água, capacidade ligante) e características sanitárias e de salubridade, são consideradas, pelo mesmo autor, como sendo propriedades intrínsecas. Contudo a perceção da qualidade da carne bovina pelos consumidores, não é determinada totalmente pelas propriedades intrínsecas. As informações sobre a origem da carne, sistemas de produção, maneio dos animais, procedimentos pré-abate e no abate, tornam-se cada vez mais importantes para alguns consumidores. A gestão adequada dos sistemas de produção de carne bovina constitui uma das principais ferramentas para melhorar a qualidade da carne bovina de forma sustentável. Os sistemas de produção podem promover a segurança alimentar através da alimentação animal, principalmente com base em alimentos não utilizados na nutrição humana (Pighin, 2016). Guerrero et al. (2013) estudaram o efeito de diferentes fatores que afetam a qualidade da carne de ruminantes, sobretudo sobre as análises sensoriais, numa perspetiva “do prado ao prato”, ou seja, estudaram alguns fatores ao longo da cadeia da produção de carne, analisando: aqueles que poderiam ser considerados pelos produtores relacionados ao melhoramento da qualidade dos seus produtos e aqueles relacionados aos hábitos e 116


comportamento dos consumidores. Consideraram fatores intrínsecos, a espécie, a raças e os cruzamentos, a genética individual, o género e a idade/ peso ao abate. A idade e o peso, em condições razoáveis aumentarão em paralelo, o que não significa necessariamente que dois animais com o mesmo peso sejam da mesma idade (Purchas, s/d). A qualidade e as características da carne diferem entre as espécies animais, mesmo em grupos mais parecidos ou homogéneos, como em pequenos ruminantes. Sañudo et al. (2012) compararam 4 raças de cabras (carnes, dupla finalidade e lacticínios) e um borrego de raça leiteira. Os resultados mostraram que os produtos de borrego e cabra (mesmo animais muito jovens e alimentados com leite) diferiram nas características das carcaças e nas várias medidas instrumentais de qualidade. As diferenças eram principalmente dependentes da espécie. Os sabores relacionados estão associados ao tecido adiposo dependendo da espécie. No entanto, a aceitabilidade da carne de diferentes espécies também está ligada aos hábitos de consumo da população. A raça é uma fonte clara de variação na morfologia da carcaça relacionada à quantidade de gordura ou à qualidade do músculo. Na verdade, é um fator complexo porque os resultados dependem de quais os critérios de comparação considerados: mesmo peso, idade semelhante ou grau de maturidade similar (peso adulto vivo%) (Guerrero et al. 2013). Contudo, Albertí et al. (2008), embora tenham encontrado diferenças significativas entre as 15 raças europeias que estudaram, concluem que mais do que o peso vivo ou o ganho 117


médio diário, são as medidas do tamanho corporal e as características das carcaças que se mostraram mais úteis para discriminar as raças bovinas em estudo. Reddy et al. (2015) estudaram o efeito do sexo e da idade (novilhas, vacas, novilhos e touros) na qualidade da carne bovina em diferentes regimes alimentares. Grupos genéticos, sistemas de alimentação e género são os principais fatores que afetam as características da carcaça e os perfis de ácidos gordos. Os mesmos autores verificaram que a carne de novilhas apresenta melhores características de qualidade e uma composição mais saudável em ácidos gordos do que a carne de novilhos, vacas e touros. A dieta influencia a variação do perfil em ácidos gordos; particularmente o nível de ácidos gordos poliinsaturados (PUFA) que interage com a raça e o sexo. Segundo os mesmos autores, animais que terminam a engorda em pastagem apresentaram melhores proporções de PUFA/ácidos gordos saturados. As novilhas e as vacas depositam mais gordura do que os novilhos e os touros. Entre os machos, a menor produção de testosterona em novilhos, favorece a maior deposição de gordura em comparação com touros. O marmoreado da carne varia muito entre bovinos de sexos diferentes e, particularmente, as fêmeas têm características genéticas que favorecem o maior controlo da deposição de gordura. Guerrero et al. (2013) corroboram a importância do efeito de género nos ruminantes (masculino, feminino, castrado) especialmente relativamente à quantidade de gordura depositada, ao local de deposição, à taxa de crescimento e ao rendimento da carcaça. Os atributos da carcaça são mais 118


afetados pelo género. Do mesmo modo, as fêmeas são mais afetadas do que os machos devido à sua maior precocidade, enquanto os novilhos mantêm uma posição intermediária. De acordo com Pighin et al. (2016), as características de qualidade da carne de bovino, bem como as suas propriedades nutricionais, dependem da genética animal, da alimentação, das práticas de maneio e dos procedimentos post-mortem. Estes autores referem que os sistemas emergentes de produção de carne são capazes de melhorar tanto a qualidade quanto as características nutricionais da carne de bovino de forma sustentável, maximizando os efeitos benéficos da carne bovina e minimizando o seu impacto negativo na saúde humana, de forma a contribuir para a segurança alimentar global. Efetivamente, a utilização de modos de produção sustentável (biológico/orgânico, biodinâmico, etc.) tem sido promovida na União Europeia através de apoios à produção e o estabelecimento de regras específicas. O referencial europeu da agricultura biológica é constituído pelos Regulamentos (CE) nº 834/2007 e 889/2008 e suas alterações. O método de produção biológica desempenha, um duplo papel societal, visto que, por um lado, abastece um mercado específico que responde à procura de produtos biológicos por parte dos consumidores e, por outro, fornece bens públicos que contribuem para a proteção do ambiente e o bem-estar dos animais, bem como para o desenvolvimento rural (Regulamento CE nº 834/2007). Neste contexto, há atributos dos produtos alimentares que têm ganho relevância, especialmente os que estão relacionados com 119


os métodos de produção. Estes atributos relacionados com as características dos processos de produção e que não afetam necessariamente as características físicas do produto final (Northen, 2000), designam-se por atributos de processo. A maior parte destes atributos de processo são atributos acreditados (Grunert et al., 2004) sobre os quais o consumidor não tem conhecimento, confiando, por isso, na informação que lhe pode ser transmitida pelos rótulos das embalagens e na sua ausência por outro tipo de informação indireta. O desenvolvimento de referenciais de qualidade que esclareçam o consumidor tem sido uma preocupação constante dos produtores destes produtos que, pela sua natureza, se constituem ainda como “nichos” de mercado. À medida que se conhecem mais informações sobre os perfis nutricionais da carne de bovino de diferentes sistemas de produção e raças, maior é o papel de indícios extrínsecos, tais como rótulos associados a esquemas de garantia de qualidade, para transmitir credibilidade. Os atributos que prometem oferecer benefícios para a saúde provavelmente tornar-se-ão ainda mais significativos (Henchion et al., 2017). O bem-estar animal é um dos aspetos relacionados com a produção animal que atualmente é alvo de interesse e preocupação nos diferentes níveis da fileira. Na União Europeia existe um conjunto de normas estabelecidas e que têm vindo a ser transpostas para a legislação nacional dos países membros. Também a indústria alimentar tem manifestado um crescente interesse e envolvimento na garantia do bem-estar dos animais 120


de produção, com o reconhecimento dos stakeholders da influência que o mesmo tem sobre a garantia da qualidade e da segurança dos alimentos, assim como sobre a perceção dos consumidores. Adicionalmente, o bem-estar animal inclui-se também no conjunto de aspetos que deverão ser assegurados numa ótica de responsabilidade social das empresas (Santos et al., 2015). O transporte dos animais até ao matadouro é um dos aspetos importantes a tomar em consideração quando se aborda a questão do bem-estar animal. Mendonça et al. (2016) estudaram as principais causas de contusões em carcaças de bovino durante as etapas pré-abate, concluindo que o maneio inadequado dos animais, problemas no transporte e algumas características peculiares dos próprios animais foram os principais fatores que ocasionam lesões nas carcaças, apenas visíveis após a esfola. Estes resultados reforçam a importância da implementação de melhores práticas de gestão durante o maneio pré-abate. As características comportamentais das raças de bovinos de carne podem ser úteis para prever a adequação dos indivíduos em ambiente confinado e promover a eficiência de grupos socialmente estáveis nesses sistemas de produção (Miranda de La Lama, 2013).

A QUALIDADE DA CARNE E O SEU CONSUMO Os consumidores são o último passo na cadeia de produção e consideram a satisfação das suas expectativas como uma parte 121


importante do seu comportamento no momento da compra. Desta forma, é importante entender os fatores que afetam o comportamento do consumidor.

Figura 4.2. Modelo multidisciplinar dos principais fatores que afetam o comportamento do consumidor no setor alimentar (adaptado de Font-i-Furnols e Guerrero, 2014).

Font-i-Furnols e Guerrero (2014) dividiram os problemas que explicam esses fatores em três tipos: psicológico (fator individual), sensorial (fator específico do produto) e 122


comercialização (fator ambiental) (figura 4.2). Esses aspetos estão inter-relacionados e, por sua vez, dependem de fatores adicionais que afetam a tomada de decisões dos consumidores. A importância dos componentes do modelo dependem do consumidor, contexto, cultura ou informação disponível e pode influenciar o comportamento individual a diferentes níveis. Nas economias desenvolvidas, a segurança dos alimentos, o bemestar animal e o ambiente têm vindo a assumir relevância nas preocupações dos consumidores (Viegas et al., 2015). As perspetivas do consumidor sobre a qualidade da carne são complexas (Grunerth, 2006). Os consumidores de carne são exigentes no que respeita à qualidade da experiência que têm no momento do consumo e se esta corresponde às suas expectativas, particularmente no que diz respeito à tenrura da carne. Henchion et al. (2017) identificaram pontos-chave relativos às perspetivas do consumidor sobre a qualidade da carne bovina, resultante das revisões bibliográficas efetuadas, que incluem: a) Atributos sensoriais (aparência, qualidade alimentar, consistência), saúde, segurança, conveniência, produção animal e características do sistema de produção, origem, informações do rótulo, local de compra e custo, são considerados atributos de qualidade importantes. A inferência de alguns atributos é baseada noutros (por exemplo, cor da carne para a tenrura, produção biológica para o gosto), que às vezes gera incerteza; b) A importância relativa dos atributos varia ao longo do processo de decisão e consumo (por exemplo, antes de provar vs. após degustação, pré-compra vs. no consumo), mas em situações de 123


compra repetida os atributos podem mudar devido a experiências anteriores; c) O que os cidadãos pensam nem sempre se reflete no que os consumidores fazem; d) Os atributos e os sinais (cues) extrínsecos são cada vez mais importantes em relação às características intrínsecas em geral, mas as preocupações variam de acordo com os conhecimentos e as experiências passadas do consumidor (figura 4.3).

Figura 4.3. Modelo de perceção da qualidade ("a unified quality framework") (Fontes, et al., 2011, adaptado de Caswell et al., 2002).

Fontes et al. (2011) referem que os consumidores, com base nos sinais (cues) que observam numa peça de carne, criam uma expectativa (qualidade esperada) relativamente a essa carne. Frequentemente esta qualidade esperada difere da qualidade experimentada ou percecionada. Os mesmos autores referem ainda que o conhecimento antecipado de determinados sinais como, por exemplo, a região de origem, a cor e o teor de gordura como sinais que os consumidores utilizam para inferir acerca da qualidade de uma peça de carne, permitirá aos agentes 124


a montante da cadeia de fornecimento saber a preferência dos seus clientes relativamente a estes atributos e garantir a oferta consistente de um produto com tais características. Isto será tanto mais relevante quanto maior for a relação entre as dimensões que o consumidor procura na peça de carne e as características visíveis por ele utilizadas. Banovic et al. (2009) analisaram a forma como os consumidores portugueses avaliam a qualidade esperada e experimentada no local de compra. Estes autores concluíram que a informação extrínseca do produto, nomeadamente a marca, pode influenciar a avaliação dos consumidores relativamente a atributos intrínsecos, como sejam o teor de gordura e a cor. Verificaram que, no caso de carne de bovino com "selos" de qualidade, os consumidores portugueses percecionam a região de origem como um sinal de qualidade, conduzindo a atributos intrínsecos mais valorizados e, consequentemente, a uma qualidade sensorial esperada superior. Os mesmos autores (Banovic et al., 2010) analisaram as diferenças da perceção dos consumidores relativamente a três tipos de carne: uma carne DOP (Carnalentejana) (figura 4.4), uma carne importada e uma carne indiferenciada nacional (marcas próprias da distribuição). A carne DOP foi percecionada como a de melhor qualidade para todos os atributos e aspetos de qualidade considerados.

125


Figura 4.4. Preparação de uma Carnalentejana7

Feldmann e Hamm (2015) analisaram a literatura científica sobre alimentos locais do ponto de vista do consumidor e avaliaram os resultados através da aplicação da Teoria do alfabeto - um quadro teórico recentemente desenvolvido para avaliar o comportamento do consumidor em relação a escolhas alternativas de alimentos. Verificaram que, à medida que o interesse dos consumidores em alimentos locais aumentou constantemente nos últimos quinze anos, também aumentaram a quantidade de estudos sobre as atitudes e comportamento de compra em relação à comida local. Um dos principais resultados 7

Fonte: http://carnalentejana.pt/2017/12/01/accao-lojas-sonae-2/ 126


foi que, ao contrário dos alimentos biológicos, a comida local não foi considerada cara. No entanto, os consumidores estão dispostos a pagar um valor acrescido pela comida local. Na maioria dos estudos quantitativos, as características do consumidor, as atitudes e os comportamentos de compra em relação aos alimentos locais foram avaliados. Foram identificadas lacunas de pesquisa em várias áreas: comparações transnacionais (culturais), influência de diferentes tipos de produtos (produtos frescos versus não perecíveis, processados versus não processados, ou produtos vegetais versus animais), origem de alimentos utilizados para produzir alimentos locais bem como a influência da formação pessoal e social nas atitudes para com a comida local.

CONSIDERAÇÕES FINAIS O setor da produção de carne continua a ser um dos principais setores e um dos que mais cresce dentro da denominada economia agrícola mundial sendo o consumo dos países em desenvolvimento o principal responsável. O consumo de carne bovina nos países desenvolvidos tem-se mantido estável mas assiste-se a uma mudança nos hábitos de consumo e a uma maior exigência por parte dos consumidores destes países. Exigências que se traduzem em maiores expetativas e numa necessidade de um maior esclarecimento e conhecimento de alguns dos fatores que influenciam a qualidade da carne bovina consumida. 127


A decisão de compra por parte do consumidor está dependente de uma série de fatores (psicológicos, sensoriais, comerciais) interdependentes e como reflexo da ação de outros (expetativas, estilos de vida, crenças, sensações organoléticas, disponibilidade, preço/valor, marca, etc.) mais complexos e que variam de consumidor para consumidor, podendo variar, para o mesmo consumidor, de uma ocasião para outra. Identificar os fatores intrínsecos e extrínsecos que afetam a qualidade da carne bovina bem como conhecer e perceber o comportamento dos consumidores deste produto são essenciais para sensibilizar todos os agentes da cadeia para que se possa produzir um produto que vá ao encontro das expetativas do consumidor, ou seja, um produto de qualidade. A utilização de sistemas de produção sustentáveis é avaliada positivamente pelo consumidor embora essa informação lhe seja transmitida indiretamente ou através de “selos” de qualidade reconhecidos.

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5. INOVAÇÃO TECNOLÓGICA E PECUÁRIA DE PRECISÃO EM SISTEMAS DE PRODUÇÃO DE BOVINOS DE CARNE Luís Alcino Conceição Instituto Politécnico de Portalegre, Portugal | Instituto de Ciências Agrárias e Ambientais Mediterrânicas

Qualquer que seja o setor económico inovar tornou-se hoje um fator determinante da competitividade do mesmo confundindose quase com o próprio processo de produção. 1. Quais são os objetivos e metas do produtor e do investimento? 2. Que recursos estão disponíveis ou podem ser viabilizados para que o plano seja executado? 3. Quais os investimentos a serem conduzidos (cria, recria e engorda ou ciclo completo?) e que valores são esperados para os coeficientes técnicos? 4. Quais são as expectativas de margens dos investimentos? 5. Qual a estratégia a ser adotada para assegurar a execução do plano?

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Estas são as cinco questões que se podem colocar ao gestor de uma exploração pecuária e cujas respostas passam pela valorização bem-sucedida de novas ideias – Inovação. No seculo XIX a Revolução Industrial conduziu a uma profunda mudança tecnológica nos processos de produção de elevado impacte social e económico. Hoje, e nomeadamente a partir da década de 70/80 do século passado, com a miniaturização eletrónica e o desenvolvimento de redes de transmissão de dados, de forma semelhante vive-se a era da informação, digital ou tecnológica, revolucionando o próprio conceito de telemetria, ao permitir a comunicação entre computadores conhecida por Internet, a qual se assume como um importante e indispensável instrumento de apoio à decisão em qualquer processo produtivo. Em Portugal, segundo os dados de 2016 do estudo Bareme Internet da Marktest (Grupo Marktest, 2017), a penetração de Internet atinge os 5,7 milhões de utilizadores, um valor que representa 67% da população (figura 5.1) sendo mais de metade do mesmo relacionado com ligações móveis, 6% por placas e 40% por telemóvel/smartphone (ANACOM, 2015). A mesma fonte refere a tendência crescente de melhoria do serviço oferecido pelos operadores, independentemente da região geográfica e do espaço urbano ou rural.

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Utilizadores de Internet (%)

2015

2014

2013

62,863,3 64 65,4

2012

2011

2010

2009

2008

2007

2006

2005

2004

2003

2002

2001

2000

1999

1998

1997

6,3 10,4 13

57,1 59 53,9 46,648,8 42,4 37,6 32,7 29,9 23,325,4 17,1

Figura 5.1. Evolução percentual do número de utilizadores de internet em Portugal no período de 1997 a 2015 (Grupo Marktest, 2017)

Atualmente é a Internet das Coisas, aquela que permite ligar à Rede muitos dispositivos domésticos, pessoais e objetos do diaa-dia que, quando aplicada em sistemas de produção agropecuária, facilita ao criador informação sobre os parâmetros e condições de exploração dos seus efetivos em tempo real. Sensores, Big Data e Softwares de gestão são hoje instrumentos decisivos para o planeamento e processos de tomada de decisão das explorações agrícolas. Sob esta ótica e ambiente de franca evolução tecnológica inserem-se os conceitos de agricultura e pecuária de precisão. Em agricultura de precisão o processamento de informação digital através de medições térmicas, óticas, mecânicas e 135


químicas, já é hoje uma realidade por muitos agricultores que utilizam uma ampla gama de sensores para captar variações nas propriedades de solos, culturas e clima, sendo que a robotização se perspetiva como o passo seguinte na reconfiguração de muitas tarefas da rotina de uma exploração agrícola. E assim, à semelhança de qualquer outra empresa, a empresa agrícola é um conjunto organizado de recursos económicos, sociais e humanos cujo objetivo final é o lucro. No caso das explorações pecuárias assentes em sistemas de produção de bovinos de carne, dependendo do tipo de sistema de produção ser intensivo ou extensivo, assim pode variar a proporção desses fatores mas, em qualquer das situações, o sucesso de um criador não pode deixar de obedecer a um método de gestão que se baseia num processo em ciclo de Planeamento (Plan) - Execução (Do) - Controlo (Check) - Ações corretivas (Act) (Neto, 2017). A ausência desta metodologia pode conduzir sem rumo uma exploração, nomeadamente em sistemas extensivos onde fatores climáticos ocasionais podem interferir de forma grave no normal percurso dos objetivos traçados. Um sistema extensivo, a céu aberto, torna-se por isso particularmente exigente em maneio, e não deve ser sinónimo de ausência de rigor ou mínimo custo. A título de exemplo, cite-se a perda de produtividade de vacadas por aumento do intervalo entre partos, muitas vezes sinónimo de uma alimentação deficiente e ou de fatores congénitos dos animais que, se não identificados em tempo útil e corrigidos de forma expedita, arrastam de uma forma silenciosa e negativa os

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coeficientes técnicos da exploração e assim a respetiva margem da atividade. Em sistemas extensivos é igualmente importante a avaliação das condições naturais de produção de pastagens e forragens, e do grau de aproveitamento e impacte ambiental causado pelos respetivos efetivos. O aumento das áreas de pastagens e forragens e da sua biodiversidade é um fator determinante para promover a melhoria da eficiência económica das explorações de bovinos de carne, apesar da sua vulnerabilidade decorrente das incertezas climáticas, pelo que a adoção de novas tecnologias na monitorização dos seus ciclos de produção e consequente adoção de novos processos de fertilização e/ou rega diferenciada permite intensificar a produção e aumentar a capacidade de suporte da pastagem, principalmente quando associadas ao maneio do solo sob técnicas de agricultura de conservação. Já em sistemas intensivos, todo o processo de recria e engorda deve estar sob controlo, monitorizado, sob pena de uma qualquer perturbação do sistema originar graves danos na homogeneidade de lotes, tanto em peso como em qualidade da carcaça, sendo este um parâmetro cada vez mais exigido pelos mercados. Assim, o controlo de fatores como as condições de acondicionamento ambiental e o bem-estar animal são determinantes para a homogeneidade do lote e maximização do potencial de produção de animais, muitas das vezes de elevado

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potencial genético e que só assim permitem corresponder à rentabilidade esperada pelo criador (Bernardi et al., 2017). Torna-se, por isso, cada vez mais importante a existência de registos, de fácil e rápida interpretação, que permitam o controlo e a tomada de decisões quando tal se impõe. Neste âmbito, a automação dos sistemas de produção e as tecnologias de informação e comunicação, na ótica do conceito de pecuária de precisão, constituem um passo para a competitividade das explorações. Efetivamente os contributos hoje já alcançados em Produção Animal por áreas como a nanotecnologia, o melhoramento e reprodução assistida ou mesmo a alimentação funcional, os instrumentos e processos empregues em pecuária de precisão permitem dar resposta a formas mais racionais e sustentáveis de produção que atualmente se pretendem mais intensivas, de modo a satisfazer a necessidade de maior produção de alimentos face a um crescente da população mundial. Por exemplo, a adoção de coleiras com identificadores eletrónicos para registo de informação em bovinos de aptidão leiteira, ou a adoção em 2008 de identificação eletrónica em efetivos de pequenos ruminantes no âmbito do Sistema Nacional de Informação e Registo Animal, podem considerar-se marcos de implementação destas tecnologias, por quanto garantem de forma inequívoca a identificação e rastreabilidade do ciclo de produção de cada animal, desde o seu nascimento até ao abate.

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No caso em particular do setor de produção de bovinos de carne, ambos os conceitos de agricultura e pecuária de precisão têm ampla aplicação, já que tanto em operações de maneio alimentar como reprodutivo ou sanitário são inúmeras as oportunidades de recurso a novas tecnologias facilitadoras de informação. À semelhança do referido anteriormente para a atividade agrícola, também em pecuária o desenvolvimento de sensores para monitorização de parâmetros físicos, químicos, biológicos e sistemas de controlo inteligentes associados aos conhecimentos de especialistas, possibilitam uma atividade mais instrumental, menos dependente de mão-de-obra, menos empírica e mais previsível, com menos perdas e melhor qualidade dos produtos e processos e maior sustentabilidade ambiental (Vilela, 2014). Na realidade, e apesar de muitos tratadores conhecerem os seus animais individualmente, o facto de o animal ser um organismo vivo e diferente de todos os outros que estão no seu grupo significa que a sua resposta a um dado estímulo pode ser diferente da de qualquer outro, e por isso a cada instante é gerada uma imensa quantidade de informação, humanamente impossível de gerir de forma manual e a baixo custo (Frost et al., 2003; Ruiz-Garcia, 2011). Automação e robótica podem assim constituir um verdadeiro garante da melhoria da qualidade de vida de quem vive no campo, pelo caráter de vigilância dos seus efetivos pecuários 24 horas sobre 24 horas (Pruitt et al, 2012). Neste capítulo, e pelo interesse que representam para o setor de produção de bovinos de carne, apresentam-se de forma não 139


exaustiva o conceito de pecuária de precisão e um conjunto de novas tecnologias associadas ao mesmo, terminando com uma análise no que respeita aos pros, contras, ameaças e oportunidades da sua implementação.

PECUÁRIA DE PRECISÃO , O CONCEITO Segundo Júnior (2015) atendendo à semântica dos termos Pecuária e Precisão, pode entender-se este conceito como a arte de tratamento do gado sem falhas, com exatidão e regularidade na execução. A operacionalidade do conceito pressupõe diferentes tecnologias, nomeadamente as relacionadas com o processamento e análise de informação digital, conjugadas com diferentes tipos de sensores instalados no próprio animal (figura 5.2) ou na sua envolvente (Banhazi et al., 2012), e quase sempre relacionando o mesmo com a sua localização geográfica. Berckmans (2013) define Pecuária de Precisão como a gestão dos efetivos pecuários de forma contínua e em tempo real, das suas condições de bem-estar, saúde, produção, reprodução e impacte ambiental, significando o termo contínuo que se faz uma monitorização ao segundo, 24 horas por dia e 7 dias por semana, permitindo ao criador intervir de forma rápida e expedita junto do animal que necessita.

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Figura 5.2. Localização de diferentes tipos de sensores para monitorização in situ num bovino fêmea: (1) brinco eletrónico, (2) halter (3) colar de pescoço com contrapeso, (4) bolus reticular), (5) pedómetro da perna traseira, (6) anel da cauda superior, (7) injeção da cabeça da cauda (8) sensor de temperatura vagina (Caja et al, 2016)

De acordo com Steeneveld et al. (2015), as tecnologias de precisão podem ser descritas a partir de quatro níveis de desenvolvimento e utilização: (I) tecnologia (sensor), que avalia algum parâmetro individual do bovino (ex.: consumo de alimento) gerando um conjunto de dados (figura 5.2); (II) interpretação, que resume as alterações observadas no conjunto 141


de dados gerados pelo sensor (ex.: diminuição do consumo) para produção de uma informação sobre o status do animal (ex.: vaca com torção de abomaso); (III) integração dessa informação gerada pelo sensor acrescida a outra informação (ex.: informação de caráter económico) para aconselhamento do criador (ex.: operar ou não a vaca doente); (IV) tomada de decisão pelo criador ou autonomamente pelo sistema de gestão da exploração (ex.: o veterinário é acionado).

INSTRUMENTOS E TECNOLOGIAS EM PECUÁRIA DE PRECISÃO IDENTIFICAÇÃO ELETRÓNICA A tecnologia de identificação eletrónica assenta em sistemas e equipamentos que permitem o registo e a comunicação de informação de cada animal de forma automática e remota por radio frequência através de dispositivos denominados etiquetas RFID (Radio Frequency IDentification). Estas etiquetas constituídas por um chip ou circuito integrado e uma antena (transponder) podem ser colocadas num animal permitindo responder aos sinais de rádio enviados por uma base transmissora (transceiver) ou possuírem uma bateria própria de forma a poderem enviar o seu próprio sinal (figura 5.3). Em pecuária estes dispositivos podem ser de quatro tipos; colares, 142


brincos, injetáveis ou ingeríveis (bolus) sendo que a vantagem dos colares se prende com a sua facilidade de aplicação e transferência entre animais, contrariamente aos dispositivos ingeríveis que, uma vez colocados no animal, permanecem no espaço reticulo-ruminal até ao final da vida do mesmo (Voulodimos et al., 2010). O aparelho de leitura emite um sinal eletromagnético, que ativa o transponder, e este responde com outro sinal, contendo seu número. O leitor então identifica o número do transponder, e passa esse dado para algum tipo de registro (como por exemplo, uma base de dados.

Figura 5.3. Exemplos de bastão de leitura (transponder) (à esquerda) e dispositivos eletrónicos de identificação (transciever), brinco e bolus reticular (à direita). 143


Além do registo de informação possível de associar a cada animal, o princípio de funcionamento destes dispositivos está na origem de sistemas de automação de mangas eletrónicas para separação de animais ou de atuação de dispositivos de alimentação automática. No primeiro caso, torna-se possível a separação automática de animais por grupos de seleção (figura 5.4) em que um sistema de cancelas abre de forma diferenciada, de acordo com os grupos criados, e assim encaminha os animais para parques separados. No segundo exemplo, torna-se possível a criação de programas de distribuição de alimentos em função do objetivo de ganho medio diário que se estabeleça para cada animal. Neste tipo de comedouros seletivos a mesma informação pode estar associada a um sensor dinamométrico do tipo balança e, em função de um algoritmo pré estabelecido, permitir saber o peso do animal cada vez que o mesmo se alimenta ou determinar a quantidade alimento ingerido por cada animal (figuras 5.5, 5.6 e 5.7).

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Figura 5.4. Manga para separação automática de animais, neste caso adaptada a pequenos ruminantes (Pecplus, 2017).

Figura 5.5. Comedouro com sensor de pesagem (C-Lock, 2017).

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Figura 5.6. Smart feeder, alimentador automático em função do identificador do animal (C-Lock, 2017).

Figura 5.7. Sensor de pesagem em manga de condução de animais com identificador eletrónico (Bosch, 2017). 146


SENSORES DE MOVIMENTO OU ACELERÓMETROS O acelerómetro é um tipo de sensor usado para medir a aceleração própria de um sistema, podendo realizá-la sob duas ou três dimensões, e que em espécies pecuárias constitui o princípio de funcionamento de um pedómetro. A conjugação deste tipo de sensores com sensores de georreferenciação e transmissão de dados por radio frequência ou GPRS permite enviar informação à distância da frequência de movimentos de um animal e da sua localização. No caso da espécie bovina, a sua utilização está grandemente relacionada com a monitorização do comportamento alimentar e reprodutivo, nomeadamente a monitorização do ciclo éstrico, já que a um maior número de movimentos num determinado período de tempo está associado a manifestação de cio (O’Driscoll et al., 2008). Desta forma o tratador, mesmo à distância dos animais, consegue ter acesso a este registo e assim planear atempadamente a deslocação de um animal para um parque específico ou simplesmente a sua recolha para aplicação de técnicas de reprodução assistida, nomeadamente inseminação artificial (figura 5.8).

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Figura 5.8. A colocação de um pedómetro nos membros do animal (à esquerda) e o conhecimento da sua informação pode ser determinante para o sucesso da taxa de conceção de uma vacada (à direita).

De forma idêntica, podem ser registados movimentos e trajetos que constituem importantes elementos de rastreabilidade das características comportamentais dos animais, fornecendo informação em tempo real de distâncias percorridas, níveis gerais de atividade, como tempo de repouso e períodos de alimentação, bem como em sistemas extensivos permite a rastreabilidade da presença dos animais nas respetivas áreas de pastoreio (Perez et al., 2010). Em sistemas extensivos, o uso de tecnologia de deteção remota por veículos autónomos aéreos não tripulados permite a vigilância dos animas em tempo real, ajudando à sua rápida localização (figura 5.9).

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Figura 5.9. Integração de tecnologias complementares em pecuária de precisão, monitorização do movimento por acelerómetros, georreferenciação por colares de GPS e deteção remota na gestão de um efetivo pecuário de bovinos em extensivo (Cattlewatch, 2017).

SENSORES ACÚSTICOS São sensores sensíveis às pressões que as ondas acústicas emitem transformando-as em pulsos elétricos e cujo ouvido humano percebe e distingue numa gama de frequências de som entre 20Hz e 20kHz. Em pecuária a telemetria acústica apresenta várias utilizações quer isolada, quer combinada com sensores de áudio 149


nomeadamente na monitorização de comportamentos alimentares de animais em pastoreio, constituindo assim um importante instrumento para entender a ecologia dos sistemas extensivos de produção (Laca, 2009). Clapham et al. (2011) utilizaram um sistema de gravação e análise acústica através de um microfone de grande frequência disposto perto da boca do animal para detetar, classificar e quantificar de forma automática os eventos de ingestão em animais em pastoreio durante longos períodos de tempo (figura 5.10). Através deste sistema foi possível medir os parâmetros acústicos de atos de preensão e mastigação de alimentos, como duração, amplitude, espetro e energia podendo os parâmetros de análise serem reconfigurados para diferentes animais e forragens.

Figura 5.10. Sistema de gravação (A) e análise acústica (B) para detetar, classificar e quantificar automaticamente os eventos de ingestão num animal da espécie bovina (Clapham et al. (2011) 150


De forma idêntica, Galli et al. (2011) procederam à monitorização de ingestão de matéria seca pela sincronização de informação proveniente de sensores de áudio e vídeo instalados na face e nuca dos animais o que lhes permitiu monitorizar a relação de preensão e mastigação dos alimentos em função do seu teor em mateira seca.

VISÃO COMPUTACIONAL E TERMOGRAFIA Visão computacional é a componente da inteligência artificial utilizada na construção de sistemas artificiais que permite a recolha de informação pelo processamento de imagens ou quaisquer outros dados multidimensionais, com o objetivo de controlo de processos , deteção de eventos, organização de informação e ou modelação de objetos ou ambientes de interação homem-máquina (Forsyth e Ponce, 2003). É um tipo de tecnologia possível de utilizar em pecuária de precisão com distintas aplicações, que permitem obtenção de informação que manualmente se tornaria difícil e subjetiva. No caso dos sistemas de produção de bovinos de carne, se as técnicas de avaliação morfológica linear são já um passo significativo na avaliação e classificação morfológica de animais relativamente a métodos tradicionais de observação, carecem contudo de treino exaustivo dos respetivo avaliadores e não são totalmente isentas de erros de aferição. O recurso à visão

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computacional pode constituir uma alternativa assertiva e expedita neste tipo de operações. A utilização de visão computacional na reconstrução 3D de ambientes e objetos recorre a um conjunto de câmaras sincronizadas entre si e a um sistema de luz estruturada ou laser para ressaltar ou determinar a terceira dimensão de um objeto. O método baseia-se em colocar a fonte de luz laser num ângulo conhecido relativamente ao objeto a iluminar e à câmara, para que ao ver a distorção da luz, se possa interpretar a profundidade dos objetos a medir. No quadro 5.1 apresentam-se algumas das técnicas em 3D para análise morfológica em bovinos. Quadro 5.1. Tecnologias em 3D segundo diferentes autores para análise morfológica em bovinos Parâmetro avaliado Forma e temperatura do corpo

Resultado

Tecnologia Termografia e sensor de movimento Kinect Sensor de movimento Kinect

Precisão = 93%

Conformação

Erro = 7%

Condição corporal, peso vivo, produção de leite

R2 = 0,74, 0,84, 0,62 (respetivamente)

(Adaptado de Rahman et al,2017)

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Sensor de movimento Asus Xtion

Referência bibliográfica Kawasue et al., 2017 Kawasue et al., 2013 Kuzuhara et al., 2015


Em qualquer dos casos dos trabalhos referidos, a utilização de sensores Kinect ou Asus assenta em tecnologia de captação de imagem, rastreio e deteção de movimento a partir de informação conjunta de um sensor de profundidade, uma câmara RGB, um acelerómetro, um motor e uma série de 4 microfones. No caso da utilização destes sensores na avaliação do peso, condição corporal e conformação do exterior como método de avaliação morfológica em bovinos, os dados da nuvem numérica digital dos animais observados são obtidos por visão tridimensional a partir de informação de três sensores KINECT (figura 5.11) que, previamente calibrados, definem e reconstroem numa nuvem de pontos a estrutura morfológica de cada animal.

Figura 5.11. Sistema de mensuração tridimensional em bovinos com base em sensores Kinect (adaptado de Kawasue et al., 2017)

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Outra tecnologia amplamente utilizada na monitorização de efetivos pecuários é a termografia. Sendo o infravermelho uma frequência eletromagnética naturalmente emitida por qualquer corpo com intensidade proporcional à sua temperatura, a utilização de câmaras de termografia por infravermelho permitem a obtenção de informação de temperatura de um organismo ou grupo de organismos sem entrar em contacto com os mesmos sendo a radiação capturada num termograma que expressa o gradiente térmico de acordo com um padrão de cores (Eddy et al., 2001). Em espécies pecuárias tem como grande vantagem o facto de, não sendo uma técnica invasiva, permitir a leitura de temperaturas sem a necessidade de captura ou contenção dos animais. Acrescenta a esta vantagem o facto de atualmente os equipamentos de termografia de infravermelhos serem dotados de características que permitem a sua utilização sistemática em contexto de medição, análise e controlo de vários processos, designadamente, a sua portabilidade, funcionamento intuitivo e possibilidade de estabelecimento de interfaces com distintos equipamentos como smartphones, tablets e drones. São várias as aplicações da avaliação termográfica em sistemas de produção de bovinos. Colak et al., (2008) concluíram existir uma forte correlação entre a temperatura termográfica e o teste californiano de mamites, relativamente a diversos graus de infeção da glândula mamária. 154


Rainwater-Lovett et al., (2009) observaram que alterações termográficas dos membros permitem a identificação de febre aftosa antes do aparecimento de sinais clínicos da doença. De acordo com Stewart et al. (2008) a termografia de infravermelhos é um instrumento fiável de medição e registo da temperatura e da sua variação na superfície ocular, bem como um instrumento útil na monitorização do bem-estar animal em bovinos, mais concretamente na avaliação de condições de stress provocadas por práticas de maneio como a descorna e a castração. Santos et al. (2015) numa avaliação da temperatura ocular de 49 bovinos no Parque de Leilões de Gado de Portalegre em três momentos distintos, após o transporte dos animais, antes do leilão e após o leilão; com uma camara termográfica FLIR® E60bx sincronizada com um termo higrómetro do modelo FLIR® MR77, concluíram que a temperatura ocular pode ser um meio válido para monitorização do bem-estar animal nos parques de leilões desde que os equipamentos sejam devidamente calibrados e que sejam tidos em conta os fatores ambientais relevantes (figura 5.12). Neste ensaio, e de acordo com os resultados, foram o transporte e descarga dos animais que potenciaram uma elevação maior da temperatura ocular, deduzindo-se, portanto, que tiveram uma maior influência sobre o bem-estar dos animais.

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Figura 5.12. Avaliação da temperatura ocular em bovinos com recurso a uma camara termográfica (à esquerda) e Imagem de infravermelhos exibindo os valores do ponto (carúncula lacrimal), da temperatura do ar e da humidade relativa

Schaefer et al. (2012) referem a possibilidade de uso de câmaras termográficas no controlo e despiste da doença respiratória bovina em vitelos de carne. Outras aplicações da termografia têm sido ensaiadas, como a sua utilização na avaliação da alteração do estado inerte de forragens ensiladas quando em contacto com o ar no momento da sua abertura, e de pontos de temperatura máximos e mínimos em silos-trincheira para avaliação do seu bom estado de conservação (Abdelhadi et al., 2012).

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ULTRASSONOGRAFIA A ultrassonografia ou ecografia é um método de diagnóstico que utiliza o eco gerado através de ondas ultrassónicas de alta frequência para visualizar, em tempo real, as estruturas internas do organismo. Em bovinicultura há muito que a técnica de ultrassonografia é utilizada para diagnósticos de gestação, possibilitando um reconhecimento precoce e seguro desse estado com reflexos económicos positivos e imediatos. Mas a sua importância pode ser largamente discutida para além da gestão do maneio reprodutivo de uma vacada. Em muitos mercados de comercialização de bovinos de carne para além do peso, também a conformação e características da carcaça são fatores de classificação e valorização dos animais. Por exemplo, no caso do marmoreado da carne além das grandes variações entre raças, são também observadas variações entre indivíduos dentro de uma mesma raça, sendo que a utilização de dados de ultrassonografia foram mais expressivos, quando comparadas aos ganhos proporcionados pelo uso do teste de descendência (American Angus Association, 2012). Face às exigências de qualidade e às novas expectativas de muitos mercados, além de características fenotípicas possíveis de serem observada em campo, a ultrassonografia pode auxiliar os criadores a trabalhar os seus programas de melhoramento genético com outras importantes características relacionadas ao 157


produto final, nomeadamente a composição da carcaça e o seu acabamento final como parâmetros de avaliação da qualidade da carne (Suguisawa et al. 2017). Assim, segundo Sainz e Araújo, (2002) as características da carcaça que podem ser medidas no animal vivo por ultrassonografia (figura 5.13) são área do olho do lombo (AOL), gordura de cobertura (EG), gordura da garupa (P8) e percentagem de gordura intramuscular ou marmoreado da carne.

Figura 5.13. Locais para avaliação das medidas por ultrassom (Ad. Sainz e Araújo, 2002).

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Segundo Faria (2012), outra possibilidade do uso desta tecnologia prende-se com a seleção de animais para reprodutores, já que a seleção para AOL é realizada quando existe interesse no aumento da quantidade de músculo, sendo que a característica está relacionada a um maior rendimento de cortes cárnicos de maior valor comercial e, em contrapartida para selecionar animais com maior grau de acabamento (EGS) permitindo animais de maior precocidade ao abate. Pode assim proceder-se a avaliação de animais mesmo antes de entrarem à cobrição, facilitando a avaliação genética para características de carcaça, sem necessidade de abate e custo da avaliação individual muito inferior ao custo do teste de descendência para resultados equivalentes, dado que as características de carcaça são de heritabilidade média – alta. Neste caso, as imagens recolhidas no campo sofrem um pós processamento em laboratórios credenciados que confirmam as avaliações realizadas e emitem um relatório final, destinado aos criadores assistidos pelos programas de melhoramento animal.

ROBOT PASTOR Com a introdução da robótica nas salas de ordenha de explorações de bovinos de leite no final dos anos 90 do século passado, o conceito tem vindo a ser alargado a outras funções, como a distribuição de alimentos ou monitorização dos animais. Substituindo a mão-de-obra por sistemas autónomos ou pré159


programados, a tecnologia associada à robótica tem tido alguns desenvolvimentos recentes relacionados com o acompanhamento e operações de condução de animais a campo, de que são exemplos 2 protótipos desenvolvidos na Austrália (figura 5.14).

Figura 5.14. Robots pastores, Rover (em cima) e SwagBot (em baixo), ambos desenvolvidos pela Universidade de Sidney na Austrália (Australian Centre for Field Robotics, 2016) 160


Qualquer um dos modelos é construído para trabalho em condições reais de campo, podendo deslocar-se em zonas acidentadas de terreno, sobre troncos de árvores caídos ou cursos de água superficiais, sendo equipados com câmara de RGB e ou termográfica, e compatíveis com o comando e receção de informação a partir de um drone. As suas funções são principalmente permitir a monitorização dos animais durante as vinte e quatro horas do dia, auxiliando na sua condução ao longo das parcelas, permitindo realizar tarefas de separação em grupos, e simultaneamente permitindo controlar parâmetros fisiológicos como alterações da temperatura corporal indicadoras de potenciais estados patológicos ou simplesmente, se o animal apresenta, por exemplo, algum ferimento. Adicionalmente, estão preparados para incorporar sensores para avaliação do índice vegetativo da biomassa da pastagem e podem enviar em tempo real esta informação ao criador, permitindo-lhe uma melhor gestão da pressão do pastoreio e a melhor alimentação em todos os momentos. Outra particularidade dos pastores robóticos é o facto de se movimentarem a um ritmo mais lento e mais regular do que os seus homólogos humanos, reduzindo a pressão da presença humana sobre os animais e podendo manter-se no campo mesmo em condições atmosféricas adversas, oferecendo assim um maior conforto de operação do gado ao criador.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS A evolução tecnológica dos últimos 20 anos e o presente estado de arte da pecuária de precisão constituem pontos fortes como instrumentos de apoio ao criador de bovinos de carne na tomada de decisões mais sólidas e objetivas, facilitando a evolução económica-produtiva do negócio agropecuário face aos constantes desafios que, tanto a nível nacional como internacional lhe são impostos. Atualmente a adoção conjunta de sistemas de identificação eletrónica com outras tecnologias sensoriais permite a gestão de grande quantidade de informação, melhorando as condições de bem-estar dos animais, a rastreabilidade do processo de produção e a sua ligação com o meio envolvente através do uso mais racional dos fatores de produção. Infelizmente, a elevada idade média do produtor agrícola em Portugal é de 64 anos, representando 52 % do total os que têm 65 ou mais anos, e o seu baixo grau de escolaridade assente essencialmente no ensino básico, em que apenas uma pequena minoria possui ensino superior e/ou técnico-profissional são fatores que podem constituir um sério obstáculo à introdução de inovação tecnológica em explorações pecuárias. Da mesma forma pode considerar-se um ponto fraco à inovação e adoção de tecnologias de pecuária de precisão a dimensão média da exploração agrícola em Portugal de 13.8 ha que, quando comparada com os 56.9 ha no Alentejo, origina realidades de gestão totalmente díspares; no caso das pequenas explorações 162


existe baixa capacidade de investimento, dados os parcos recursos económicos normalmente associados a este tipo de exploração. Contudo, as novas empresas que se vão constituindo no setor e a experiência de alguns criadores do setor do leite podem ser mais-valias para oportunidades de transferência de conhecimento à fileira de produção de carne. As novas tecnologias no seio da pecuária de precisão podem, por exemplo, facilitar novos canais de distribuição em ambiente web, facilitando o comércio eletrónico (e-commerce) como forma de integrar a cadeia. A título de exemplo, cite-se o caso de países como o Brasil em que, por via tecnológica, obviaram o transporte de animais a parques de leilões através da sua licitação em leilões virtuais a partir de informação disponibilizada on line a partir da casa dos criadores. Da mesma forma e a montante do criador, surgem oportunidades de formação de novos operadores de pecuária em competências nas áreas de tecnologias de informação e comunicação que venham a ser capazes de implementar as melhores soluções para cada exploração. Os custos ainda elevados de acesso à tecnologia, o conservadorismo ao longo da cadeia e o receio da perda do conhecimento tradicional podem constituir ameaças à sua maior difusão, ainda que o atual desafio que as alterações climáticas 163


impõem ao setor primário e a necessidade de providenciar um abastecimento sustentável e seguro à população crescente criem novas oportunidades à modernização e incentivo às novas tecnologias.

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Perspetivas de inovação da produção de bovinos de carne  

Publicação realizada no âmbito do projeto PRODER 55518 "VITAPEC - Vitela e Vitelão da ELIPEC". COFINANCIADO pelo FEADER: Programa de Desenvo...

Perspetivas de inovação da produção de bovinos de carne  

Publicação realizada no âmbito do projeto PRODER 55518 "VITAPEC - Vitela e Vitelão da ELIPEC". COFINANCIADO pelo FEADER: Programa de Desenvo...

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