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Nasceu no Cadaval em 1936. Filho e neto de médicos, licenciou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina de Lisboa em 1960. Médico militar em Angola entre 1961 e 1963. Fez toda a carreira cirúrgica dos Hospitais Civis de Lisboa (HCL), tendo-se aposentado como Director do Serviço de Cirurgia Geral do Hospital do Desterro em 2006. Foi Presidente da Sociedade Médica dos HCL (2000-2002), e Presidente de Honra do XXIX Congresso da Sociedade Portuguesa de Cirurgia (SPC) (Estoril, 2009). É, desde 2004, Presidente da Comissão do Património Cultural do Centro Hospitalar de Lisboa Central. É um dos três responsáveis pelo Capítulo da História da Cirurgia Portuguesa da SPC. Tem vários artigos publicados sobre História da Cirurgia e é autor do capítulo “História do Hospital do Desterro” publicado no livro Omnia Sanctorum (Ed. By the Book, 2012).

LUIZ DAMAS MORA

Coordenador

E pis ó di o s da V ida M édica

O Espírito dos Hospitais Civis de Lisboa

LU I Z A L B E RTO B A R R E TO DA M A S M O R A

O “Espírito dos Hospitais Civis de Lisboa”

LUIZ DAMAS MORA Coordenador

BY THE

BOOK


©EDIÇÃO TÍTULO

BY THE BOOK, EDIÇÕES ESPECIAIS, LDA

O “ESPÍRITO DOS HOSPITAIS CIVIS DE LISBOA”, EPISÓDIOS DA VIDA MÉDICA

C O O R D E N A D O R D A E D I Ç Ã O LUIZ DAMAS MORA © T E X T O ADOLFO COELHO, ALVES PEREIRA, ANDRADE DA FONSECA, ANTÓNIO ALVELOS, ANTÓNIO DA CRUZ PINHO, ARAGÃO MORAIS, ARMINDO PINTO, ARY CATARINO, BARROS VELOSO, BORGES D’ALMEIDA, CANAS FERREIRA, CANELLAS DA SILVA, CARLOS DE SOUSA, CELESTINO DA COSTA, COSTA QUINTA, COUTINHO DE MIRANDA, DAMAS MORA, DELGADO MARTINS, DINIS DA FONSECA, FERNANDA SAMPAYO, FERNANDO AFONSO, FERNANDO CALAIS, FERNANDO XAVIER, FERREIRA D’ALMEIDA, FRANCISCO GEORGE, FONSECA FERREIRA, GENTIL MARTINS, GOMES ROSA, GUIMARÃES DA ROCHA, JARDIM SIMÕES, JOÃO EURICO LISBOA, JOÃO RODRIGUES PENA, JOSÉ CABRAL BEIRÃO, JOSÉ PRATAS, JOSÉ PRATES, KARIN DIAS, LEONOR FARO, MACHADO LUCIANO, MARIETA SOVERAL RODRIGUES, MARQUES DA COSTA, MATEUS MARQUES, MENDES DE ALMEIDA, RIBEIRO ROSA, ROSA DIAS, ROSADO PINTO, RUI BENTO, SÁ MARQUES, SALETE SILVA, SAMUEL RUAH, SANTOS BESSA, SCHIAPPA DE CARVALHO, SOUSA SAMPAIO, TEIXEIRA DINIZ, TERESA SUSTELO, VASCO TRANCOSO, VITAL CALADO R E V I S Ã O RUI AIRES AUGUSTO T R A T A M E N T O D E I M A G E M MARIA JOÃO DE MORAES PALMEIRO D E S I G N FORMA, DESIGN: MARGARIDA OLIVEIRA | VERONIQUE PIPA C O O R D E N A Ç Ã O E D I T O R I A L E P R O D U Ç Ã O ANA DE ALBUQUERQUE | MARIA JOÃO DE PAIVA BRANDÃO I M P R E S S Ã O PRINTER PORTUGUESA I S B N 978-989-8614-01-8 D E P Ó S I T O L E G A L 357 800/13

Edições Especiais, lda Rua das Pedreiras, 16-4º 1400-271 Lisboa T. + F. (+351) 213 610 997 www.bythebook.pt


In Memoriam José Joyce Damas Mora (1905-1963, Clínico geral) e Octávia Dias Barreto Damas Mora (1909-2004), meus Pais Renato Joyce Damas Mora (1907-1977), meu Tio Cirurgião geral

José Maria Damas Móra (1873-1942), meu Avô Cirurgião dos Hospitais

Sérgio Fernando Sabido Ferreira, (1920-2001), meu Mestre Cirurgião dos Hospitais


11 AGRADECIMENTOS 13 PREFÁCIO

LUIZ DAMAS MORA

ANTÓNIO JOSÉ DE BARROS VELOSO

19 PALAVRAS PRÉVIAS

TERESA SUSTELO

21 O “ESPÍRITO DOS HOSPITAIS CIVIS DE LISBOA” 25 MAIS ALGUMAS PALAVRAS NECESSÁRIAS 29 AS TOMADAS DE POSSE 59 PASSEIOS, ALMOÇOS E JANTARES 89 GRUPOS 127 OS MÉDICOS DOS HCL E O PODER POLÍTICO 147 OS MÉDICOS DOS HCL E A GUERRA 179 OS CONCURSOS HOSPITALARES 203 REUNIÕES CIENTÍFICAS 231 NO BANCO DO HOSPITAL DE S. JOSÉ 263 AS OPERAÇÕES 293 AS DESPEDIDAS 321 AS FOTOGRAFIAS DE VASCO TRANCOSO


TEXTOS DE ADOLFO COELHO 38

JARDIM SIMÕES 183

ALVES PEREIRA 44

JOÃO EURICO LISBOA 185

ANDRADE DA FONSECA 49

JOÃO RODRIGUES PENA 187

ANTÓNIO ALVELOS 51

JOSÉ CABRAL BEIRÃO 197

ANTÓNIO DA CRUZ PINHO 53

JOSÉ PRATAS 200

ARAGÃO MORAIS 55

JOSÉ PRATES 201

ARMINDO PINTO 72

KARIN DIAS 212

ARY CATARINO 74

LEONOR FARO 214

BORGES D’ALMEIDA 76

MACHADO LUCIANO 216

CANAS FERREIRA 81

MARIETA SOVERAL RODRIGUES 224

CANELLAS DA SILVA 83

MARQUES DA COSTA 226

CARLOS DE SOUSA 86 MATEUS MARQUES 246 CELESTINO DA COSTA 108

MENDES DE ALMEIDA 250

COSTA QUINTA 111

RIBEIRO ROSA 252

COUTINHO DE MIRANDA 115

ROSA DIAS 255

DAMAS MORA 120

ROSADO PINTO 258

DELGADO MARTINS 123 RUI BENTO 272 DINIS DA FONSECA 134

SÁ MARQUES 279

FERNANDA SAMPAYO 136

SALETE SILVA 284

FERNANDO AFONSO 138

SAMUEL RUAH 286

FERNANDO CALAIS 140

SANTOS BESSA 288

FERNANDO XAVIER 142 SCHIAPPA DE CARVALHO 304 FERREIRA D’ALMEIDA 154

SOUSA SAMPAIO 308

FONSECA FERREIRA 159

TEIXEIRA DINIZ 314

FRANCISCO GEORGE 163

VASCO TRANCOSO 316

GENTIL MARTINS 166

VITAL CALADO 318

GOMES ROSA 171 GUIMARÃES DA ROCHA 174


AS TOMADAS DE POSSE

E 1. Este termo aparece pela primeira vez na segunda metade do século XVI, na regência do Cardeal D. Henrique, com o significado de Provedor ou Administrador do Hospital de Todos‑os-Santos, sendo Brás de Albuquerque, filho de Afonso de Albuquerque o primeiro a ocupar o cargo. O primeiro médico a ser nomeado Enfermeiro-Mor foi Tomás de Carvalho, em 1862. (António Matoso, “Hospital de S. José”, in Omnia Sanctorum – Histórias da História do Hospital de Todos-os-Santos e seus sucessores. Ed. By the Book, 2012

M SOCIEDADE, O HOMEM ENVIA CONSTANTEMENTE sinais aos seus semelhantes e cria símbolos para definir situações e estabelecer hierarquias. Após os difíceis concursos hospitalares (dizia-se que só eram comparáveis aos dos juízes) o quadro clínico constituído tinha de dar um sinal de que aceitava um novo membro, de que estava ali um recém-chegado àquele clube elitista, um par inter pares, de que era preciso dar público testemunho, não só da sua admissão, mas também da autoridade que a partir de então lhe era conferida. O quadro hospitalar estava organizado segundo a forma de uma pirâmide cujo vértice era o Enfermeiro-Mor 1, e o novo Assistente (termo então usado para designar os actuais Chefes de Serviço) era um bloco de pedra que vinha reforçar a sua base. Era então da praxe que o Enfermeiro-Mor, em cujo gabinete se procedia à cerimónia, desse as boas-vindas aos nóveis médicos ou cirurgiões, os quais agradeciam com algumas palavras que traduziam as suas boas intenções para melhorar os serviços que iam ocupar. Vinha gente de todos os hospitais do grupo (com menos entusiasmo, os apoiantes dos candidatos que não tinham entrado nas vagas!), pois ninguém queria deixar de cumprimentar o novo médico hospitalar. Com o tempo, com a queda do poder médico, tudo isto acabou, e a ocupação de uma vaga para Chefe de Serviço pode limitar-se hoje a uma troca de papéis (ou de e-mails…) entre secretarias.

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Os Drs. Sérgio Sabido Ferreira e Silva Pereira no dia de tomada de posse do lugar de Assistente de Cirurgia Geral dos HCL (1955). Sabido Ferreira, um dos mais jovens “cirurgiões dos Hospitais” (em 1955, com 35 anos), foi Director do Serviço de Cirurgia e Presidente do Conselho de Administração do Hospital do Desterro e Director do Banco do Hospital de S. José. Com interesse particular pela cirurgia da Doença Inflamatória Intestinal, foi também pioneiro nos HCL da cirurgia conservadora da mama. Silva Pereira dedicou-se especialmente à cirurgia coloproctológica, terminando a sua carreira como Director do Serviço 4 – Cirurgia, do Hospital dos Capuchos. No mesmo dia tomou posse Cândido da Silva, que veio a ser Professor Catedrático da FMUL. Identificados: 1 Emílio Faro (Enfermeiro-Mor), 2 Secretário da Administração, 3 Silva Araújo (Cir.), de quem Sabido Ferreira fora discípulo, 4 Alberto Gomes (Cir.), 5 Sabido Ferreira, 6 Rui Anselmo (Admin.), 7 Carlos George (Int.) e 8 Silva Pereira. (fotografia cedida pelo Prof. Matos Ferreira)


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O Dr. Pitta Negrão no acto de posse do lugar de Director do Banco do Hospital de S. José (Anos 60 do século XX). Pitta Negrão tentou, como Director do Banco do Hospital de S. José, reorganizar o Serviço de Urgência dos HCL. Embora se entregasse a esta missão com empenho e tivesse todo o apoio e colaboração dos Internos, acabou por solicitar a demissão, por se lhe depararem factos inaceitáveis, que aniquilavam toda a sua dedicação, esforço e complacência, e levantavam problemas éticos. O novo Director do Banco tinha-se licenciado pela FM do Porto, mas veio para Lisboa atraído pelo prestígio da escola cirúrgica dos HCL, onde fez toda a carreira hospitalar, tendo conquistado o lugar de Assistente de Clínica Cirúrgica em 1948. Aposentou-se como Director do Serviço de Cirurgia do Hospital Curry Cabral. Identificados: 1 Silva Araújo (Enfermeiro-Mor), 2 Secretário da Administração, 3 Armando Luzes (Cir.), 4 Pitta Negrão (Cir.) e atrás, 5 Gomes de Oliveira (Int.), 7 Sabido Ferreira (Cir.), 8 Lino Ferreira (Ort.), 9 Miranda Rodrigues (Neurol.) e 10 Bello Pereira (Cir.). (fotografia cedida pelo Dr. Sá Marques)


RAFAEL ADOLFO COELHO

Nota do Coordenador da Edição 38

Licenciado pela Faculdade de Medicina de Lisboa. Fez toda a carreira médica hospitalar dos HCL . Assistente de Clínica Médica (“Médico dos Hospitais”) em 1951. Doutorado em Medicina Interna pela FML em 1975. Director do Serviço de Nefrologia do Hospital Curry Cabral em 1976. Professor extraordinário da FCMUNL. Professor Catedrático de Medicina II.

No último quartel do século XX assistiu-se à criação de múltiplas subespecialidades, radicadas quer na Medicina Interna, quer na Cirurgia Geral. O aumento exponencial do conhecimento e a eclosão de novas técnicas a tanto obrigou. Frequentemente, o estabelecimento e desenvolvimento de uma nova especialidade ficaram a dever-se à determinação e capacidade de realização de uma só pessoa, que, para além dessas qualidades, sabia juntar à sua volta um grupo de colaboradores interessados. Foi o caso da Nefrologia nos HCL, cujos fundamentos foram lançados em 1962 pelo Prof. Adolfo Coelho. A leitura do curriculum vitae do Prof. Adolfo Coelho permite-nos conhecer a história da criação e desenvolvimento deste importante ramo da Medicina Interna.

A NEFROLOGIA NOS HCL

Resumo Curricular. Licenciatura na Faculdade de Medicina de Lisboa, com a média final de 18,2 valores. Carreira hospitalar no Internato Médico dos HCL e concurso para Médico dos Hospitais em 1951, obtendo o 1.º lugar. Inicia então uma actividade como Internista, formando internos e publicando vários trabalhos. Em 1962 inicia um novo ramo da Medicina Interna: a Nefrologia, e realiza no Hospital de S. José a primeira biópsia percutânea do rim. A produção científica nesta área é distinguida várias vezes com prémios da Sociedade Médica dos HCL . Em 1975 presta provas de Doutoramento em Medicina Interna na Faculdade de Medicina de Lisboa, sendo aprovado com louvor e distinção, com uma dissertação: Significado e valor da histologia bióptica nas nefropatias glomerulares. Em 1976 é nomeado Director do Serviço de Nefrologia do Hospital Curry Cabral e em 1979 é convidado para integrar a comissão instaladora da nova Escola Médica: a Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa.


Pouco depois presta provas públicas para Professor Extraordinário na nova Faculdade, sendo aprovado por unanimidade; mais tarde é nomeado Professor Catedrático de Medicina II . No Serviço de Nefrologia organiza um Laboratório de Morfologia Renal, que se tornou um centro de referência. A qualidade do Laboratório faz com que seja procurado por anátomo-patologistas de carreira para aí fazerem o seu aperfeiçoamento na área da Histopatologia do rim, e por nefrologistas que pretendem conhecer “no terreno” o papel desta biópsia no diagnóstico clínico e perto de dez doutorandos que ali fizeram parte do programa de investigação das suas teses. É a disponibilidade e qualidade desta valência que permitem ao Dr. J. Rodrigues Pena avançar em 1989 com o seu programa de transplante renal no Hospital Curry Cabral. Na homenagem da sua aposentação, a Administração do Hospital de Curry Cabral dá o seu nome ao Laboratório de Morfologia Renal, assinalado por uma placa, sendo concedida a medalha de prata por serviços distintos. É de referir a dimensão produtiva deste laboratório, que até meados de Junho de 2006 tinha estudado: 5.284 biópsias do rim (muitas enviadas de outros hospitais), 1.466 biópsias de enxertos renais, 1.807 biópsias da pele (pesquisa de amilóide, lúpus, etc.), 458 biópsias do osso. Desde sempre esteve ligado a problemas da Farmácia Hospitalar, de forma episódica até à nomeação, há perto de sete anos, para Presidente da Comissão do Formulário Nacional Hospitalar, que tem assento no INFARMED. Em Junho de 2007 é agraciado com a Ordem do Infante D. Henrique (Grande Oficial).

Início da Nefrologia nos Hospitais Civis de Lisboa. Após dez anos de trabalho clínico intenso, verifica que a extensão rapidamente crescente do âmbito da Medicina Interna já não é abarcável por um só indivíduo, e que em breve esta disciplina que fora integrativa e fecunda na primeira metade do século, será substituída por agregados de sub-especialidades, cada uma delas, então, à dimensão da capacidade de estudo e execução de um só médico, ainda que necessariamente apoiado por uma equipa. Não é demais salientar que há nestas sub-especialidades grandes progressos nos meios de diagnóstico, pelo que numerosas técnicas entraram na prática corrente. Escolhe então a Nefrologia, que se pode definir como “o estudo da estrutura e função do rim são e doente, incluindo a prevenção e tratamento das doenças que atingem os rins, em todas as idades” (Royal College of Physicians of London em 1967). De início, aborda a Nefrologia pelo lado histopatológico, pois possui uma sólida base de Anatomia Patológica e, a conselho de Horácio Menano, começa a treinar-se na biópsia renal, técnica moderna de diagnóstico quase não praticada entre nós. Para melhor realizar a sua preparação pede uma equiparação a bolseiro no país, que lhe é concedida pelo Instituto de Alta Cultura, em 1962, a fim de estagiar no Instituto de Anatomia Patológica da Faculdade de Medicina de Lisboa, sob a direcção do Prof. Jorge Horta, que, em ofício ao Secretário do Instituto para a Alta Cultura, afirmou: “O Dr. Rafael Adolfo Coelho que colabora comigo há anos e tem tomado parte nas reuniões do meu Instituto, possui já nesta altura uma importante cultura morfológica. É uma pessoa muito inteligente e com vastos conhecimentos. Na realidade a biópsia renal é um método novo e o trabalho que deseja realizar tem largo alcance”. Em 1964 e 1965, já com domínio das técnicas operacional e histológica da biópsia renal, faz estágios em Paris com a Dr.ª R. Habib, Directora da Secção de Anatomia Patológica do Centre d’ Études sur les Maladies du Métabolisme chez l’ Enfant.

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Com base na experiência pessoal apresenta os seguintes trabalhos: •A  spectos técnicos e significado da biópsia renal Obteve o 1.º Prémio Cancela de Abreu de 1965 da Sociedade Médica dos Hospitais Civis de Lisboa. •C  aso de insuficiência renal aguda por tóxico vegetal – aspectos morfológicos e fisiopatológicos Apresentado numa sessão da Sociedade Médica dos HCL em 1965. •B  iópsia renal em Pediatria Trabalho num simpósio sobre biópsias em Pediatria, organizado pela Sociedade Portuguesa de Pediatria em Dezembro 1965. •O  papel da biópsia renal na interpretação das situações chamadas de glomerulonefrite prolongada Conferência feita na Clínica Pediátrica Universitária do Hospital de Santa Maria, a convite do Prof. Salazar de Sousa em Janeiro de 1966. • S obre a interpretação da biópsia renal Conferência feita no Instituto de Anatomia Patológica da Faculdade de Medicina de Coimbra, a convite do Prof. Trincão em Abril 1966. •E  stado actual do conceito de nefrose lipóide Conferência inaugural do ano académico 1966-67 da Sociedade Médica dos HCL . •A  nefropatia da púrpura de Schönlein-Henoch. Considerações sobre a clínica e a terapêutica (em colaboração com VaIadas Preto e Ferreira de Almeida). Obteve o 1.º Prémio Cancela de Abreu de 1968 da Sociedade Médica dos HCL . Em 1964 começa a trabalhar sistematicamente os problemas da função renal, montando com o seu colaborador Filipe da Cunha grande número de técnicas: clearance da creatinina endógena, clearances da inulina e do para-aminohipurato; provas de sobrecarga: cloreto de amónia (Wrong), diversos catiões (Na+, Ca++) e aniões (-HC03, SO4 -); electroforese das proteínas urinárias; estudo da citologia do sedimento urinário; osmometria do plasma e da urina; parâmetros do equilíbrio ácido-básico (Astrup).

Neste grupo de trabalho ingressa mais tarde Martins Prata, interno dos HCL e bolseiro no Laboratório de Fisiologia do Centro de Biologia Calouste Gulbenkian. No campo terapêutico são feitas diálises peritoneais (com condições óptimas de controlo bioquímico), especialmente em formas graves de insuficiência renal crónica. No campo científico são elaborados os seguintes trabalhos, em colaboração com Filipe da Cunha e Martins Prata: • S obre o valor da depuração da creatinina endógena como prova de função renal (estudo crítico e experimental baseado em 350 provas) Obteve o 1.º Prémio Cancela de Abreu de 1967 da Sociedade Médica dos HCL . •Efeito de dose única intravenosa de Furosemida em doentes com insuficiência renal crónica Obteve o Prémio Cancela de Abreu de 1969 da Sociedade Médica dos HCL . Para a sua formação de especialista de doenças renais contribuiu de forma importante a participação nos Cursos de Aperfeiçoamento de Nefrologia do Hospital Necker, desde 1964 a 1967, inclusive, e em 1971 e 1974, mas sobretudo os estágios na Unité de Recherches sur la Pathologie Rénale, no Centro Médico-Cirúrgico Foch (Suresnes), sob a direcção do Prof. M. Legrain. A seu respeito escreveu Legrain em Maio de 1967: “Au cours des trois années écoulées, nous avons eu l’honneur et le plaisir d’entrer en relation avec le Docteur Adolfo Coelho qui a fait plusieurs séjours dans notre Service clinique à l’Hôpital Foch et dans notre Unité de Recherches. Nous avons pu apprecier à ces diverses occasions les qualités scientifiques et humaines du Docteur Coelho, sa haute compétence en néphrologie; nous souhaitons qu’il puisse trouver au Portugal les moyens de développer une recherche néphrologique active.”


Em Maio de 1966 é eleito sócio titular da Société de Néphrologie por proposta do Prof. P. Royer e em Outubro do mesmo ano é aceite como membro da International Society of Nephrology. O Chefe de Internos, Dr. Alfredo Franco, encarrega-o de organizar e dirigir uma série de lições sobre Nefrologia, integradas no Curso de Aperfeiçoamento para Internos de 1967, e já no ano anterior o convidara para proferir uma lição que teve por título: •O  rientação terapêutica na Insuficiência Renal Aguda. Desde 1967 até fins de 1973 a sua actividade define-se pela realização de numerosas palestras e conferências para as quais pôde utilizar larga percentagem de material e experiência pessoais, e ser reconhecido como consultor de Nefrologia, pelo que é solicitada a sua opinião para um número crescente de doentes dos HCL e da clínica privada. Em Dezembro de 1973 é nomeado para presidir à Comissão elaboradora dos temas para o primeiro concurso para médicos especialistas de Nefrologia dos Hospitais Centrais que se realiza no nosso país. A maioria das técnicas de diagnóstico na Nefrologia atinge então a perfeição e reproductibilidade que as transformam em simples rotina a partir desta época (1968); tal representou trabalho árduo e paciente de três grandes amigos e colaboradores, a que presto homenagem: António Filipe da Cunha na Bioquímica; Idálio de Oliveira na Radiologia; Alberto Matos Ferreira na Urologia e Angiografia Renal.

• Coloração de Papanicolaou aplicada directamente sobre uma placa de Milipore com porosidade escolhida para filtrar a urina e reter as células do sedimento; • Fluorescência intravital, em microscópio de luz ultravioleta, tendo os doentes tomado previamente atebrina.

Foi altamente formativa e estimulante a frequência durante alguns meses do Laboratório de Citologia Exfoliativa do IPO sob a orientação do Dr. Armando Bastos; aí foram estudados os sedimentos urinários de três dezenas de doentes de diversos campos da Patologia Renal, utilizando duas técnicas originais de A. Bastos:

Os anos de 1969/70 correspondem à disposição de um rico material clínico e ao domínio completo da técnica e interpretação histológicas, bem como dos estudos funcionais das nefropatias. Assim, é possível a apresentação de casos clínicos pouco vulgares, com estudo pormenorizado: • Síndrome nefrótico por Probenecide (4.º caso da literatura mundial);

O ano de 1968 foi dedicado a um estudo monográfico sobre tema aliciante pelas dificuldades operacionais e projecção na prática clínica. Tratava-se do problema do equilíbrio ácido-básico nas doenças renais. Com forte apoio bibliográfico, com os conselhos e críticas do Prof. M. Legrain e com as excepcionais dedicação e perícia de Filipe da Cunha encetou-se um trabalho, longo de meses. Além do apoio económico de amigos generosos, obtém-se um subsídio dos Hospitais Civis de Lisboa, dentro do esquema de Apoio à Investigação através da Sociedade Médica dos HCL . Os resultados foram altamente concretos e permitiram a redacção de três trabalhos: • Sobre a acidose metabólica e seus tipos, nas doenças renais crónicas; • A lguns aspectos das provas de sobrecarga ácida em doentes renais; • Resultados de uma sobrecarga alcalina em insuficientes renais crónicos. Sob a designação conjunta de Ciclo de estudos sobre problemas do metabolismo ácido-básico em Nefrologia foi atribuído a estes trabalhos o Prémio Cancela de Abreu de 1970 da Sociedade Médica dos HCL .

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• Síndrome de Fanconi do adulto por amiloidose renal; • Diabetes insípida com estudo funcional; • Púrpura hiperglobulinémica de Waldenström com nefrite interstical e acidose tubular; • Síndrome de Sjögren com acidose tubular incompleta; e de mais dois trabalhos originais: • I mportância das biópsias renal e rectal na identificação da amiloidose generalizada; • Apreciação anátomo-clínica de 70 casos de síndromea nefrótico no adulto. Ao último trabalho referido foi atribuído o 1.º Prémio Cancela de Abreu de 1971 da Sociedade Médica dos HCL . O ano de 1971, além da colaboração em comunicações científicas ou da apresentação de casos clínicos, representou uma experiência ímpar pela organização de um curso de Nefrologia para pós-graduados por incumbência da Sociedade Médica dos HCL . O curso, com o título Bases da Nefrologia Clínica, constou de 18 lições, duas das quais a cargo de prelectores estrangeiros, e de uma mesa-redonda em que intervieram médicos dos HCL e nefrologistas do Hospital de Santo António do Porto. Verificaram-se 366 inscrições, mas o número de assistentes foi menor. Deliberou-se atribuir um diploma de presença aos médicos que assistissem a um mínimo de 10 sessões, sendo distribuídos 162 diplomas. Além da direcção do Curso, tomou a seu cargo a realização de quatro lições: • Esquema geral da estrutura e função renais; • Provas de função renal; • Valor clínico da biópsia renal. Classificação morfológica das nefropatias bilaterais; • Patogenia da acidose nas doenças renais. Noção de tubulopatia. No ano de 1972 inicia os trabalhos para a dissertação de doutoramento, com predomínio da avaliação do material acumulado durante anos e sua revisão crítica. Surge então a necessidade de uma codifica-

ção reprodutível dos dados morfológicos, de uma comparação a mais isenta possível de subjectividade, pelo que, pouco a pouco, entra na esfera do pensamento matemático aplicado à Biologia. Toma conhecimento da literatura fundamental sobre a análise lógica dos métodos de diagnóstico, sobre teorias e resultados da classificação automática de estados patológicos, das bases da Taxonomia Numérica. Daqui resultou necessariamente um contacto prolongado com matemáticos, taxonomistas e técnicos de informática, que foi altamente formativo. No começo de 1973 faz, por incumbência da Administração dos Hospitais Civis de Lisboa, um pequeno curso de Nefrologia destinado ao Internato Policlínico, dentro do esquema de actividades de formação do pessoal médico dos HCL , inaugurado então. Em 1972/73 são feitas conferências de revisão sobre temas de farmacoterápia em doenças renais, a convite de diversos Serviços. Também é chamado a intervir em duas mesas redondas tratando assuntos de Educação Médica. No segundo semestre de 1973 fica concluída a dissertação de doutoramento e em Dezembro é entregue um original ao Conselho da Faculdade de Medicina de Lisboa. Em 1974, quando se verifica a extensão do ensino médico pré-graduado aos Hospitais Civis de Lisboa, é nomeado membro do Conselho Pedagógico e incluído no grupo de docentes da Patologia Médica. Ao fazer a história da Nefrologia dos HCL é indispensável o pólo de Nefrologia infantil que surge no Hospital Dona Estefânia graças ao empenhamento do Dr. Mateus Marques e do Cirurgião António Gentil Martins, que começou a praticar as biópsias percutâneas nas crianças, com o meu apoio para o processamento histológico, seguindo-se a discussão anátomo-clínica. Dada a frequência das nefropatias na idade infantil, foi um importante progresso.


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Sessão sobre Os efeitos dos contrastes iodados no rim (Anfiteatro do Serviço de Radiologia do Hospital Curry Cabral. Início dos anos 70 do século XX). Da esquerda para a direita, primeira fila: Martins Prata (antigo interno dos HCL e depois Assistente e Professor da FMUL), Alberto Matos Ferreira (Chefe de Serviço e mais tarde Director de Urologia e Professor da FCMUNL), Castel-Branco Mota (Chefe de Serviço e depois Director da Medicina Interna) e Adolfo Coelho. Segunda fila, à esquerda: J. Ribeiro dos Santos, mais tarde Director de Nefrologia e, na extremidade direita: Emília Caetano (Anest.). (fotografia cedida pelo autor do texto)

O "Espírito dos Hospitais Civis de Lisboa"  

Este livro reúne cerca de meia centena de histórias escritas por médicos sobejamente conhecidos, umas alegres outras trágicas, mas todas en...

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