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PA L ÁCIO DOS CONDES D’ ÓBIDOS

Sede Nacional da Cruz Vermelha Portuguesa National Headquarters of the Portuguese Red Cross

PA L Á C I O DOSC O N D E S D’Ó B I D O S H I S T Ó R I A E PAT R I M Ó N I O HISTORY AND HERITAGE

BY THE

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BY THE

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© EDIÇÃO EDITION CRUZ VERMELHA PORTUGUESA | BY THE BOOK, EDIÇÕES ESPECIAIS TÍTULO TITLE PALÁCIO DOS CONDES D’ÓBIDOS SEDE NACIONAL DA CRUZ VERMELHA PORTUGUESA HISTÓRIA E PATRIMÓNIO NATIONAL HEADQUARTERS OF THE PORTUGUESE RED CROSS HISTORY AND HERITAGE DIREÇÃO DIRECTION AUGUSTO MOUTINHO BORGES C O O R D E N A Ç Ã O C O O R D I N AT I O N LUÍS BARBOSA C O O R D E N A Ç Ã O PA R A A C O M E M O R A Ç Ã O D O S 150 A N O S DA C R U Z V E R M E L H A P O RT U G U E S A C O O R D I N AT I O N F O R T H E C O M M E M O R AT I O N S O F T H E 1 5 0 T H A N N I V E R S A RY O F T H E P O RT U G U E S E R E D C R O S S FERNANDO GOVERNO MAIA © T E X TO T E X T ADELAIDE NABAIS (Jurista) | ALDINA GONÇALVES (Cruz Vermelha Portuguesa) | ALEXANDRA GAGO DA CÂMARA (Universidade Aberta | CHAIA) | ANA MOÁS (FCSH-UNL) | ANDREIA DINIS (FCSH-UNL) | AUGUSTO MOUTINHO BORGES (CLEPUL | Academia Portuguesa da História) | CRISTINA LOURO (Cruz Vermelha Portuguesa) | DULCE SIMÕES (Cruz Vermelha Portuguesa) | FERNANDO GOVERNO MAIA (Cruz Vermelha Portuguesa) | FILIPA MACHÁS (Cruz Vermelha Portuguesa) | ISABEL VASCONCELOS (Cruz Vermelha Portuguesa) | JOÃO JOSÉ P. EDWARD CLODE (Associação Portuguesa de Photographia Histórica, APPH) | JOSÉ ANTÓNIO PROENÇA (Museu Condes de Castro Guimarães) | JOSÉ MECO (Academia Nacional de Belas Artes) | LUÍS COUTO SOARES (Academia de Marinha) | LUÍSA NOBRE (Cruz Vermelha Portuguesa) | LUIZ GONZAGA RIBEIRO (Academia de Marinha) | MANUELA SANTANA (Palácio Nacional da Ajuda) | MARIA JOÃO BURNAY (Palácio Nacional da Ajuda) | PAULO JORGE ESTRELA (Academia Falerística de Portugal) | PEDRO FLOR (Universidade Aberta | Instituto de História da Arte – FCSH/NOVA) | ROGÉRIO GUILHERME (Cruz Vermelha Portuguesa) | SUSANA VARELA FLOR (Instituto de História da Arte – FCSH/NOVA – SFRH/BPD/102652/2014) T R A D U Ç Ã O T R A N S L AT I O N JOHN ELLIOTT | MIGUEL DE CASTRO HENRIQUES REVISÃO PROOFRE ADING ISABEL SANTA-BÁRBARA © F OTO G R A F I A P H OTO G R A P H Y CRUZ VERMELHA PORTUGUESA (p.212, p.215 sup./up e inf. esq./above left, p.223) | ADELAIDE NABAIS (p.20, p.134 dir./right) | ANTÓNIO HOMEM CARDOSO (p.21, p.37, p.38 sup./up, p.46 sup./up, pp.53-54, p.56 sup. dir./up right e inf. dir./above right, p.57, p.59, p.60 sup. dir./up right, p.62 2.ª e 3.ª inf./2.nd and 3.rd from bottom, p.63, p.64 esq./left, p.65, pp.71-72, p.74, pp.78-79, p.80 sup. esq./up left e inf. dir./above right, p.90, p.95, p.97, p.130, p.171, p.177, p.179 dir./right, pp.184-185, p.188, p.194, p.197 meio/middle e inf./above, p.200, p.218 sup./up, p.228) | AUGUSTO MOUTINHO BORGES (p.8, p.84 inf./above, p.168, pp.172-173, p.198) | FLORENTINO FRANCO (p.31, p.33 dir./right, p.38 inf./above, pp.39-40, pp.42-43, pp.47-48, p.50, p.56 inf. esq./above left, p.64 sup. dir./up right, p.67, p.69 dir./right, p.75, p.77 sup. esq./up. left, p.80 2.ª e 3.ª sup./2.nd and 3.rd from top, pp.81-82, p.84 sup./up, pp.85-86, pp.92-93, p.96, p. 102 sup./up e inf./above, p.103 sup./up, p.105 inf./above, p.106, p.107 esq./left e sup. dir./up right, p.108 sup./up, pp.109-110, p.113 2.ª e 3.ª sup./2.nd and 3.rd from top, p.116, pp.118-122, p.127, p.129, p.133, p.134 esq./left, pp.135-136, p.144, p.150, pp.182-183, p.186, p.191, p.197 sup./up, p.199, pp.204-206, p.210, pp.220-222) | JOÃO JOSÉ P. EDWARD CLODE (pp.208-209, p.214) | PAULO JORGE ESTRELA (p.30, p.33 esq./left) | PEDRO BRÁS (capa e todas as restantes/cover and all other) T R ATA M E N TO D E I M A G E M P H OTO G R A P H Y P O ST P R O D U C T I O N MARIA JOÃO DE MORAES PALMEIRO DESIGN FORMA, DESIGN: VERONIQUE PIPA | MARGARIDA OLIVEIRA C O O R D E N A Ç Ã O E D I TO R I A L E P R O D U Ç Ã O E D I TO R I A L C O O R D I N AT I O N A N D P R O D U C T I O N ANA DE ALBUQUERQUE | MARIA JOÃO DE PAIVA BRANDÃO IMPRESSÃO PRINTING PRINTER PORTUGUESA ISBN 978-989-8614-28-5 D E P Ó S I TO L E G A L L EG A L D E P O S I T 391738/15

BY THE BOOK Edições Especiais, lda Rua das Pedreiras, 16-4º 1400-271 Lisboa T. + F. (+351) 213 610 997 www.bythebook.pt


07 PALAVRAS PRÉVIAS FOREWORD 09 DE PALÁCIO DOS CONDES D’ÓBIDOS A PALÁCIO DA CRUZ VERMELHA PORTUGUESA FROM PALACE OF THE COUNTS OF ÓBIDOS TO PALACE OF THE PORTUGUESE RED CROSS

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História History      Bandeira da Cruz Vermelha Portuguesa Portuguese Red Cross Flag    A Falerística e a Cruz Vermelha Portuguesa Phaleristics and the Portuguese Red Cross   Galeria dos Presidentes da Cruz Vermelha Portuguesa The Gallery of the Presidents of the Portuguese Red Cross 

49 O PALÁCIO DOS CONDES D’ÓBIDOS, SÉCULOS XVII A XXI PALACE OF THE COUNTS OF ÓBIDOS, 17TH-21ST CENTURIES

51 Palácio Palace  73 Capela de Nossa Senhora da Conceição Chapel of Our Lady of the Conception  83 Heráldica no Palácio dos Condes d’Óbidos Heraldry at the Palace of the Counts of Óbidos 87 ARTES DECORATIVAS NO PALÁCIO DOS CONDES D’ÓBIDOS DECORATIVE ARTS AT THE PALACE OF THE COUNTS OF ÓBIDOS  

89 131 139 157 169 175 181

Azulejaria Tiles Escultura Sculpture   Mobiliário Furniture Relógios Clocks Cerâmica Ceramics Luminária e Núcleo de vidros The Collection of lighting pieces and Glassware      Têxteis Textiles  

187 PRESERVAR O PASSADO PRESERVING THE PAST

189 Património Museológico Museological Heritage   195 Património Documental Documentary Heritage 201 Património Fotográfico Photographic Heritage 211 EVENTOS NO PALÁCIO EVENTS AT THE PALACE

213 Festas e Cerimónias Festivities and Ceremonies 217 219 224 227

Cronologia Geral da Cruz Vermelha Portuguesa General Chronology of the Portuguese Red Cross Cronologia Breve da Cruz Vermelha Portuguesa Brief Chronology of the Portuguese Red Cross Cronologia Breve do Palácio dos Condes d’Óbidos Brief Chronology of the Palace of the Counts of Óbidos Condecorações e Reconhecimento pela Ação da Cruz Vermelha Portuguesa Decorations and Recognition of the Action of the Portuguese Red Cross

229 BIBLIOGRAFIA BIBLIOGRAPHY


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PA L Á C I O DOS C O N D E S D’Ó B I D O S

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PA L Á C I O DA CRUZ VERMELHA P O RT U G U E S A From Palace of the Counts of Óbidos to Palace of the Portuguese Red Cross


História History AUGUSTO MOUTINHO BORGES

O Palácio dos Condes d’Óbidos está diretamente relacionado com a construção do Convento-Hospital de S. João de Deus, em Lisboa, à Pampulha, edifício projetado a partir de 1630, por vontade do Deão D. António Mascarenhas (c.1565-1637), Comissário-Geral da Bula das Cruzadas em Portugal (CHORÃO, 2009:79). Procurava o fundador, que o referido convento apoiasse os fidalgos, os clérigos e chefias militares regressados do Oriente, prestando-lhes solidariedade social em algum momento económico desfavorável à sua dignidade de classe e funções. O Convento-Hospital foi construído em casas que tinham pertencido aos Carmelitas Descalços, reservando D. António Mascarenhas para si umas dependências, que mais tarde deram origem ao atual Palácio, sobranceiro a um promontório rochoso, o qual passou a ser denominado como Rocha do Conde d’Óbidos.

The Palace of the Counts of Óbidos is directly linked to the construction of the Convent-Hospital of São João de Deus, in the district of Pampulha in Lisbon, a building that began to be designed in 1630, commissioned by Dom António Mascarenhas (c.1565-1637), the Dean and Commissioner-General of the Bull of the Crusades in Portugal (CHORÃO, 2009:79). The founder’s intention was that this convent would serve the noblemen, clergymen and military leaders that had returned from the East, providing them with social support whenever they were faced with economic difficulties unbefitting to their status and position in society. The Convent-Hospital was built from houses that had formerly belonged to the Barefoot Carmelites, with Dom António Mascarenhas reserving for himself some of the outbuildings that later gave rise to the present-day palace, placed atop a rocky promontory, and which came to be known as the Rocha do Conde d’Óbidos (the Rock of the Count of Óbidos).

No areal desta rocha foi construído, em meados de 1645, um forte de cariz abaluartado, integrado na defesa da barra do Tejo, invocado ao português S. João de Deus (1495-1550) (BORGES, 2009). Eram seus governadores os

In mid-1645, a fortress was built on the beach in front of this rock, which formed part of the line of defences protecting the entry to the estuary of the River Tagus, dedicated to the memory of the Portuguese St. John of God (1495-1550) (BORGES,

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Condes d’Óbidos, destituídos destas funções após o “Aterro” da fortificação em 1875, para dar lugar à Rua, hoje Avenida 24 de Julho (CASTILHO, 1944). O Palácio, tal como hoje o vemos, é um vasto conjunto de construções que se ergueram desde o século XVII até ao presente, constituídas por casa de habitação com sua capela, cavalariças, lojas e casas de arrendamento. Todo o espaço estava organizado em torno de um pátio carral gradeado com portão brasonado e de uma grande cerca, com suas árvores (FOLQUE, 2000:planta 57), comunicando diretamente para a Igreja do Convento-Hospital de S. João de Deus, onde os Condes d’Óbidos tinham seu panteão. 2009). Its governors were the Counts of Óbidos, who were relieved of their duties after the fortress was used to form an embankment in 1875, giving way to the street that is now the present-day Avenida 24 de Julho (CASTILHO, 1944). The Palace, as we now see it today, is a vast group of different constructions that were erected from the 17th century to the present day, consisting of the main residence with its chapel, stables, shops and rented houses. The whole complex was organised around a central courtyard fenced with iron railings and a main gate displaying the family’s coat of arms, as well as a line of trees (FOLQUE, 2000:planta 57). This courtyard was the entrance for vehicles arriving at the palace and led directly to the church of the Convent-Hospital of São João de Deus, where the Counts of Óbidos had their pantheon.

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Planta do Palácio no século XVIII Plan of the Palace in the 18th century

Planta do Palácio no século XX Plan of the Palace in the 20 th century

1. Livraria Library 2. Casa do Mar Sea House 3. Tinelo Servants’ Dining-Room 4. Copa Scullery 5. Cozinha Kitchen 6. Átrio de entrada Entrance Hall 7. Salão Nobre Great Hall 8. Sala de Diana Diana’s Room 9. Varanda Balcony 10. Sala das Parábolas Parables Room 11. Casa das Armas Weapons’ Room 12. Quarto Bedroom 13. Casa de Jantar Dining Room 14. Aparador Sideboard 15. Sala de Dança Dance Room 16. Corredor do Andar Nobre Corridor of the main floor 17. Capela Chapel 18. Sacristia Sacristy 19. Átrio Nobre Main Hall 20. Gabinete Office 21. Pátio Carral Main courtyard

A. Gabinetes Offices B. Gabinete da Presidência President’s Office C. Sala de Reuniões de Direção Board Room D. Salas Rooms E. I.S. Toilet F. Sala de Formação Training Room G. Átrio de entrada Entrance Hall H. Sala de espera Waiting room I. Biblioteca Library J. Sala do Conselho Supremo (Sala de Diana) Room of the Council Supreme (Diana’s Room) K. Varanda Balcony L. Sala das Parábolas Parables Room M. Sala Dom João de Castro Dom João de Castro Room N. Sala das Grinaldas Garlands’ Room O. Sala da Mitologia Mythology Room P. Casa de Jantar Dining House Q. Corredor do Andar Nobre Corridor of the main floor R. Capela Chapel S. Sacristia Sacristy T. Saleta Sitting-room U. Vestiário Cloakroom V. Átrio Nobre Main Hall X. Pátio da Oliveira Courtyard


A poderosa família Mascarenhas foi proprietária das casas e Palácio desde 1629 até 1919, ano da sua venda à Cruz Vermelha Portuguesa. Mesmo durante o período em que os Condes exerciam funções governativas e militares no Brasil ou na Índia, este Palácio era a base celular do núcleo familiar, regressando sempre a esta nobre casa e nela habitando. Sabemos que os Condes d’Óbidos eram proprietários de outros palácios e quintas em Lisboa e seu termo, como a Quinta de Nossa Senhora da Ajuda, atual Jardim Botânico da Ajuda (Casa de Santa Iria, Cx. 12, doc. 114), mas o que se manteve mais tempo nas mãos da família, foi precisamente o Palácio que é objeto do nosso estudo. Durante séculos foram desenvolvidas inúmeras ações de valorização patrimonial, arquitetónicas e artísticas, constituindo-se como um elemento marcante na paisagem da cidade de Lisboa, com realce para o conjunto da fachada voltada para o rio Tejo. Do todo, sobressaem os corpos laterais dos salões com varandas simétricas que fecham o terraço sustentado por arcaria granítica, formando um “U”. A construção, desnivelada, não excede os três pisos que, no total edificado, podemos definir como andar nobre, com 14


Salões e Salas de aparato (piso 0), andar privado, destinado aos aposentos de dormir (piso 1) e os serviços, onde estavam a Cozinha, Copa, Despensas e outras dependências de apoio ao quotidiano (piso -1). A frontaria principal do Palácio está voltada para o pátio carral, realçada pela singela volumetria onde sobressai o pórtico nobre, enaltecido pela heráldica condal dos Mascarenhas e Lancastres, sustentada por dois putti. Na sequência arquitetónica da fachada, chama a atenção um pórtico de feição religiosa, que nos faz antever estarmos perante a entrada da Capela privativa do Palácio, de invocação a Nossa Senhora da Conceição, padroeira do reino desde 1646. Em 1866 D. Luís António d’Assis Mascarenhas (1844-1880), 8.º Conde d’Óbidos, 9.º Conde de Palma e 8.º Conde de Sabugal, promoveu obras no Palácio, mas em 1874 vendeu-o por 12 contos de reis, o qual foi adquirido pelo Rei D. Luís (1838-1889). O Monarca ofereceu-o à irmã do titular, D. Maria Teresa d’Assis Mascarenhas (1842-1878) por ter sido dama camarista da Rainha D. Maria Pia (1847-1911) e aia dos Infantes D. Carlos (1863-1908) e

The powerful Mascarenhas family owned both the houses and the palace from 1629 until 1919, when it was sold to the Portuguese Red Cross. Even during the period when the Counts performed military and governmental duties in Brazil and India, this palace remained as the family seat, and they always returned here to live. We know that the Counts of Óbidos also owned other palaces and estates in Lisbon and its surrounding area, such as the Quinta da Nossa Senhora da Ajuda, which is now the Ajuda Botanical Garden (Casa de Santa Iria, Cx. 12, doc. 114), but the one that remained longest in the family’s possession was precisely the palace that is the subject of our study here. Countless building works designed to safeguard and improve the building’s architectural and artistic heritage were undertaken over the centuries, helping it to become a landmark in the Lisbon landscape, with its most striking feature being the façade overlooking the River Tagus. What now stands out when we look at the whole building are the side wings with their rooms with symmetrical balconies that form the ends of the terrace standing upon a series of U-shaped granite arches. Although it is built upon several levels, the palace has

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Palácio Palace AUGUSTO MOUTINHO BORGES

O Palácio que hoje conhecemos começou por ser “umas casas” herdadas pelo Conde Parente D. Vasco Mascarenhas. Após o legado na Rua Direita de S. Francisco de Paula, deu-se início à construção da casa nobre, com sucessivas obras de empreendimentos variados, principalmente os ocorridos entre 1653 e 1663, anos que mediaram o 27.º Vice-reinado na Índia (1652-1653) e o desempenho das funções de 2.º Vice-rei do Brasil (1663-1667). Quem lhe deu a fisionomia atual foi o 2.º Conde d’Óbidos D. Fernão Martins Mascarenhas, com a grande empreitada realizada de 1704 a 1711.

The palace as we know it today started out as “some houses” inherited by the Count Dom Vasco Mascarenhas. Immediately after he had taken possession of his inheritance in Rua Direita de São Francisco de Paula, work began on the building of the palace, involving successive campaigns with different purposes, the most significant being the ones that took place in the period between 1653 and 1663, ranging from the time when its owner was the 27th Viceroy of India (1652-1653) to his time as the second Viceroy of Brazil (1663-1667). The palace’s present-day appearance dates from the time of the second Count of Óbidos, Dom Fernão Martins Mascarenhas, who undertook major building works in the period from 1704 to 1711.

O contrato para o empreendimento final do Palácio foi celebrado a 28 de outubro em 1704, sendo realizado entre o Conde de Sabugal (também Conde d’Óbidos e Conde de Palma), o mestre pedreiro João Rodrigues e o mestre carpinteiro Manuel Gonçalves, ambos moradores no lugar da Charneca (Casa Santa Iria, Cx. 11, doc. 65). As obras estenderam-se por sete anos, embora em 1706 os mesmos empreiteiros celebrassem novo contrato para obras de umas casas no centro de Lisboa, pertencentes ao mesmo Conde.

The contract for this last set of building works was signed on 28 October, 1704, between the Count of Sabugal (also the Count of Óbidos and the Count of Palma), the master stonemason João Rodrigues and the master carpenter Manuel Gonçalves, both of whom were resident in Charneca (Casa Santa Iria, Cx. 11, doc. 65). The works lasted for a period of seven years, although in 1706 the same contractors signed a new contract to undertake work on some houses in the centre of Lisbon, belonging to the same count. The contract for the building

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Constava a empreitada na Rocha d’Óbidos para fazerem obra nos Quartos (salas), Casa das Armas e Cozinha do Palácio, junto a S. João de Deus e que “As obras deveriam ser feitas com muita segurança e perfeição e de boa pedraria e arte e que seria acompanhada por outros dois mestres que entendam de obra. E que a nova obra deve ficar igual ao que já existe, com guarnições e pedra semelhante com capitéis e grinaldas. A cal deve ser de boa qualidade”. Relativamente aos custos, temos ideia personalizada de cada braça de parede guarnecida a três mil e trezentos reis, cada braça de telhado nove mil e seiscentos reis e a braça de lajeado a trezentos e cinquenta reis, cada grinalda das janelas a cinco mil e quinhentos reis e cada gárgula, as mesmas que ainda lá se encontram, a quatro mil e quinhentos reis. Toda a carpintaria com ferragens e pregaria estava incluída nos custos apresentados pelos empreiteiros. Em 1711 foi feita a vistoria de conclusão das obras de pedreiro, carpintaria e decoração, finalizando-se a orgânica espacial do Palácio, tal como hoje o conhecemos (Casa de Santa Iria, Cx. 11, doc. 124). Desde esta altura até ao Terramoto de 1755 o Palácio não conheceu novas empreitadas, exceto as decorativas, com especial incidência a dos ladrilhadores, que foram chamados para decorar algumas salas e espaços de serviço. Após o Terramoto mencionado procederam os Condes ao reforço das estruturas edificadas, nomeadamente da muralha vertical que sustém a parede sul, introduzindo alguns elementos de conforto, como fogões de aquecimento no Salão Nobre, na Sala de Diana e na Sala das Parábolas, como se atesta pela “colocação de uma pedra preta para uma chaminé de regalo” (Casa Santa Iria, Cx. 14, doc. 26, 30 março 1840). Durante o século XIX poucas ocorrências construtivas ou de melhoramento foram desenvolvidas, realçando a construção de novas dependências fechando o pátio carral e a colocação de dois portões gradeados encimados com símbolos heráldicos da nobre Casa d’Óbidos, também titulares das Casas de Sabugal e de Palma. É no século XX , a partir de 1924 até 1937, com a instalação da Direção Nacional da Cruz Vermelha, que vemos novo incremento estrutural arquitetónico e decorativo no Palácio, tendo por responsável o Secretário-Geral Coronel Affonso de Dornellas, dando ao edifício a personalidade que hoje tem. Das obras desenvolvidas realçamos as duas novas entradas que foram abertas

work at Rocha d’Óbidos stated that building work was to be carried out on the Bedrooms (rooms), the Weapons’ Room and the Palace Kitchen, adjacent to the Convent of São João de Deus, and it was agreed that the “works should be done with great care and perfection and with good stonework and craftsmanship, and that they would be accompanied by two other master builders who understood the nature of the work. And the new work should be the same as that which already exists, with similar decorations and stonework, with capitals and garlands. The lime must also be of good quality”. As far as the costs are concerned, it was stated that each braça (an old measure equivalent to 2.2 metres) of decorated wall will cost three thousand and three hundred réis, each braça of the roof nine thousand and six hundred réis and each braça of paving stones three hundred and fifty réis, each garland decorating the windows five thousand and five hundred réis and each gargoyle (the same ones that are still there today) four thousand and five hundred réis. All the carpentry, ironwork and nails were included in the costs presented by the contractors. In 1711, an inspection was made of the finished masonry, carpentry and decorative work, and the organisation of the different spaces was completed, resulting in what is now the palace’s present-day layout. (Casa de Santa Iria, Cx. 11, doc. 124) From then until the 1755 earthquake, no further works were undertaken at the palace, except for some decorative work, most notably the tiled decorations of some rooms and service areas. After the earthquake, the Counts ordered the reinforcement of the existing structures, in particular the vertical wall that supports the palace’s south façade, and some comforts were introduced, such as fireplaces for the heating of the Great Hall, Diana’s Room and the Parables Room as is borne out by the “placement of a black stone for a luxury hearth” (Casa Santa Iria, Cx. 14, doc. 26, 30 March, 1840). During the 19th century, there were few new additions or improvements made to the building, although attention is drawn to the building of some new annexes that closed off the main courtyard and the placement of two iron gates surmounted by the heraldic symbols of the noble House of Óbidos, also representing the Houses of Sabugal and Palma. In the 20th century, from 1924 until 1937, the installation in the palace of the National Directorate of the Portuguese Red Cross brought some new additions to the building’s architectural structure and decorations. This work was 52


no muro da cerca voltado para o Jardim 9 de Abril, com portões de ferro enriquecidos pela simbólica da Cruz Vermelha, o restauro das fachadas e sua pintura em cor-de-rosa velho, construção de novas dependências sobre o primitivo vestíbulo nobre, renovação de todas as salas e Capela, consistindo na pintura e substituição de madeiras e azulejos, sendo alguns restaurados, ou totalmente feitos de novo. Envolvendo o Palácio destaca-se a grande obra de valorização da Rocha Conde d’Óbidos, com projeto de 1935, consistindo na escadaria monumental que liga a Avenida 24 de Julho ao Jardim 9 de Abril, da autoria do arquiteto Guilherme Rebelo de Andrade (1891-1969). O Palácio foi, ao longo dos séculos, conhecido da seguinte forma “Palácio dos Condes d’Óbidos” (Casa Santa Iria, Cx. 3, doc. 47, 1663), “Palácio de S. João de Deus, a S. Francisco de Paula” (Casa Santa Iria, Cx. 11, doc. 111, 1733), “Palácio do Conde de Sabugal, à Rocha do Conde d’Óbidos” (Casa Santa Iria, Cx. 3, doc. 70, 1852), “Palácio da Rocha” (Casa Santa Iria, Cx. 3, doc. 54, 1856), “Palácio do Conde d’Óbidos” (século XX) e “Palácio da Cruz Vermelha Portuguesa” (desde 1924 ao presente). commissioned by the Secretary-General Colonel Affonso de Dornellas, who is responsible for the building’s present-day appearance. The alterations included the opening of two new entrances in the perimeter wall facing the Jardim 9 de Abril, together with the insertion of iron gates decorated with the Red Cross symbol, the restoration of the façades, which were painted dark pink, the building of new annexes over the former main entrance hall, the renovation of all the rooms and the chapel, involving the painting and replacement of the woodwork and tiles. Some of the tiles were restored, while others were entirely new. In the area surrounding the palace, major improvement works were made to the rock of Rocha Conde de Óbidos. Dating from 1935, this work involved the building of the monumental stairway that joined Avenida 24 de Julho to the Jardim 9 de Abril and which was designed by the architect Guilherme Rebelo de Andrade (1891-1969). Over the centuries, the Palace has been known by a series of different names: “Palace of the Counts of Óbidos” (Casa Santa Iria, Cx. 3, doc. 47, 1633), “Palace of São João de Deus, at São Francisco de Paula” (Casa Santa Iria, Cx. 11, doc. 111, 53


O Palácio é desenvolvido em grande construção horizontal, escalonado em três andares, aproveitando o íngreme desnível voltado a sul, havendo um compactado pátio carral voltado a norte. Durante séculos o edifício esteve emparedado com o Convento-Hospital de S. João de Deus, onde os Condes d’Óbidos tinham panteão na cripta da Igreja Conventual, e paredes meias com o Convento das Albertas, da Ordem das Carmelitas Descalças, estabelecidas no local em 1584, sob influência do Conde de Sabugal Meirinho-mor, D. Duarte de Castelo Branco (c.1540-1619), título criado em 1582 e que depois entrou na Casa d’Óbidos. O muro da cerca do Convento das Albertas só foi construído em 1669 (Casa de Santa Iria, Cx. 11, doc. 69), delimitando o caminho de acesso à rocha. Ainda hoje, sentimos uma escala palaciana neste edifício, que serviu de casa à mesma família durante 10 gerações titulares, até ser vendido, em 1919, à Cruz Vermelha Portuguesa. O vestíbulo (alt.: 3,20 x larg.: 8.80 x compr.: 8,70m), embora tenha perdido a grandiosidade inicial, permite a redistribuição orgânica dos espaços. Daqui se passava ao pequeno gabinete de trabalho, hoje readaptado com escadaria de dois lances para o piso térreo, forrado com azulejaria do século XX de figura avulsa. As salas nobres dispõem-se a sul, compreendendo o antigo Salão Nobre, atual Biblioteca (larg.: 7,80 x compr.: 13,30m), ricamente decorada com estantes sobrepostas e teto policromado; a Sala de Diana, ou do Conselho Supremo (larg.: 7,05 x compr.: 12,70m), com silhares de azulejo predominantemente dos séculos XVII, XVIII e XX; a Sala das Parábolas (larg.: 7,05 x compr.: 13,10m), com silhares de azulejo do século XX; a antiga Casa das Armas, atual Sala Dom João de Castro (larg.: 7,50 x compr.: 13,30m), com azulejos reproduzindo as Tapeçarias de D. João de Castro; o Quarto, atualmente Sala das Grinaldas (larg.: 5,30 x compr.: 8m), assim designado pela pintura no teto; e o grande terraço aberto ao rio Tejo (larg.: 5,70 x compr.: 26,40m) formando um “U”.

1733), “Palace of the Count of Sabugal at Rocha do Conde d’Óbidos” (Casa Santa Iria, Cx. 3, doc. 70, 1852), “Palace of the Rock” (Casa Santa Iria, Cx. 3, doc. 54, 1856), “Palace of the Count of Óbidos” (20th century) and the “Palace of the Portuguese Red Cross” (from 1924 until the present day). The palace has largely been constructed horizontally, although the building has three storeys, taking advantage of the difference in levels on the steep southern face of the rock, with a compact main courtyard facing north. For several centuries, the building was adjacent to the Convent-Hospital of São João de Deus, where the Counts of Óbidos had their pantheon in the crypt of the church, and close to the Convento das Albertas of the Order of the Discalced Carmelites, who settled here in 1584, under the influence of the Count of Sabugal and High Bailiff, Dom Duarte de Castelo Branco (c.1540-1619), a title created in 1582, who later entered the House of Óbidos. The perimeter wall of the Convento das Albertas was only built in 1669 (Casa de Santa Iria, Cx. 11, doc. 69), marking the edge of the pathway leading to the rock. This building has maintained its palatial scale until the present day, having served as the home of the same family for ten generations, until it was sold to the Portuguese Red Cross in 1919. Although the entrance hall (H.: 3.20 x W. 8.80 x L. 8.70m) has lost much of its former grandeur, it has still made it possible for the distribution of the palace’s different spaces to be remodelled. Previously, this hall provided access to the small office, which has now been redesigned with the addition of a staircase of two flights leading to the ground floor, the walls of which are lined with 20th century single motif tiles. The stately rooms are to be found in the palace’s south wing and include the former Great Hall, now the Library (W.: 7.80 x L.: 13.30m), richly decorated with overlapping bookshelves and a polychrome ceiling, Diana’s Room or the Room of the Supreme Council (W.: 7.05 x L.: 12.70m), with tile panels mainly from the 17th-18th and 20th centuries, the Parables Room (W.: 7.05 x L.: 13.10m), with 20th century tile panels; the former Weapons’ Room, now the Dom João de Castro Room (W.: 7.50 x L.: 13.30m), with tile panels reproducing the Tapestries of 55


A norte encontram-se a antiga Sala de Jantar, atualmente Sala da Mitologia (larg.: 7 x compr.: 9m), com silhares do século XVIII; a Sala da Lareira, atualmente Sala de Jantar (larg.: 5,90 x compr.: 9m), com silhares de azulejos dos séculos XVIII e XX; e o complexo ocupado pela Capela, constituído pela nave, capela-mor, nártex, sacristia, batistério e vestíbulo (larg.: 7,05 x compr.: 9,30m), ricamente decorada com azulejaria desde o século XVII a XX . Nestas duas últimas dependências, Sala de Jantar e Capela, realçam as paredes pintadas a imitar adamascado, motivo que se repete noutros espaços do Palácio.

Dom João de Castro; the Bedroom, now the Garlands’ Room (W.: 5.30 x L.: 8m), so-called because of the painting on the ceiling; and the large U-shaped terrace overlooking the River Tagus (W.: 5.70 x L.: 26.40m). In the north wing are the former Dining Room, now the Mythology Room (W.: 7 x L.: 9m), decorated with 18th century tile panels; the Hearth Room, now the Dining Room (W.: 5.90 x L.: 9m), with tile panels from the 18th and 20th centuries; and the complex occupied by the Chapel, composed of the nave, chancel, narthex, sacristy, baptistery and vestibule (W.: 7.05 x L.: 9.30m), richly decorated with tiles from the 17th to the 20th century. In these last two rooms, the Chapel and the Dining Room, attention is drawn to the walls painted in imitation of damask patterns, a motif that is repeated in other rooms of the palace. 57


Azulejaria Tiles JOSÉ MECO | AUGUSTO MOUTINHO BORGES | ALEXANDRA GAGO DA CÂMARA | LUIZ GONZAGA RIBEIRO

JOSÉ MECO

A azulejaria existente no antigo Palácio dos Condes d’Óbidos apresenta um interesse considerável, dentro do panorama do azulejo português, mas levanta igualmente diversos problemas de identificação e de interpretação, em parte causados pela extensa recriação revivalista empreendida no século XX, destinada a devolver ao edifício o esplendor barroco inicial.

The tiles of the old Palace of the Counts of Óbidos are of considerable interest to those who study the art of Portuguese tile-making, although they also raise several problems of identification and interpretation, partly caused by the extensive revivalist work undertaken in the 20th century, which sought to recreate the building’s tiles in order to restore the palace to its original baroque splendour.

Apesar da escassez de informações seguras sobre as campanhas artísticas mais antigas, é possível identificar duas fases principais, uma seiscentista, circunscrita à Capela, e outra nas duas primeiras décadas do século XVIII, incluindo a sacristia e algumas salas, para além da extensa intervenção efetuada pela Cruz Vermelha Portuguesa, nos anos 1930-1940, incluindo a criação da Biblioteca, da Sala de Dom João de Castro e do revestimento de azulejos da fachada principal, a remodelação integral da Capela, a recuperação dos silhares barrocos de algumas salas e o reaproveitamento de azulejos seriados antigos (albarradas, figura avulsa) em dependências remodeladas. Diversos azulejos antigos que sobejaram destas obras foram usados no revestimento integral das paredes de uma dependência interna do andar inferior.

Despite the lack of reliable information about the earlier artistic campaigns, it is possible to identify two main phases: one that took place in the 17 th century and was limited to the Chapel, and the other in the first two decades of the 18th century, which involved decorative work in the sacristy and some of the rooms. And there was also the extensive restoration work carried out by the Portuguese Red Cross, in 1930-1940, which included the creation of the Library and the Dom João de Castro Room, as well as the covering of the main façade in tiles, the complete refurbishment of the Chapel, the restoration of the baroque tile panels in some of the rooms and the reuse of old series of tiles (flower vases, single motif tiles) in the newly refurbished rooms. Several old tiles that were left over from this work were used for the complete covering of the walls of an interior room on the lower floor. 89

Palácio dos Condes d'Óbidos  

Este título, profusamente ilustrado e bilingue, pretende alcançar o propósito de dar a conhecer ao público nacional e estrangeiro, a grandez...

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