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nova etapa de vida – o regresso à terra natal – com um gesto marcante, Fátima Rodrigues decide percorrer a pé o Caminho de Santiago desde Zurique, onde viveu durante 30 anos, até Santiago de Compostela. Foram 2.281km recheados de peripécias, encontros, aventuras, deslumbramentos, introspecção e conversas que partilhou num registo de diário ilustrado com belas fotografias.

O caminho de Santiago em 81 dias Fátima Rodrigues

Fruto de um desejo antigo e a vontade de iniciar uma

O caminho de Santiago em 81 dias

ZuR i que S an t i ag o d e Com poSt e l a

Fátima Rodrigues


© auTOR

Fátima rodrigues © Ediç ãO

By the Book, edições especiais impREssãO E ac abamEnTO

real Base isbn

978-989-8614-64-3 dEpósiTO lEgal

439368/18

Edições Especiais, lda Rua das pedreiras, 16-4º 1400-271 lisboa 2T. 213 | s610 uiç a 997 www.bythebook.pt


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há muito que tinha o sonho de poder pôr-me a caminho em direcção a Santiago de compostela. passou muito tempo e como a vida quotidiana nem sempre foi fácil, não havia meios, fosse pelo tempo necessário ou pelo esforço financeiro para enfrentar essa aventura. no entanto, a esperança permanecia, de um dia, em boa ocasião, poder fazê-lo. o meu interesse e curiosidade faziam com que me informasse sobre tudo o que se relacionasse com este projecto. lia livros de outras pessoas que tinham feito essa viagem, artigos de jornais, reportagens…tudo o que se relacionasse com o caminho de Santiago me fascinava. tendo emigrado para a Suíça aos 18 anos de idade, sem nunca sair da minha pequena aldeia não muito longe de Viseu, fiz nessa altura a minha primeira longa viagem de avião. depois de ter vivido exatamente 30 anos na Suíça – com muitas complicações ao início e enfrentando grandes dificuldades na vida – tornou-se, no decorrer do tempo, o país onde me senti bem. adquiri muito gosto pelas suas montanhas, vegetação e por toda a gente que me rodeava, de tal forma que até a nacionalidade me foi atribuída. Quis o destino que conhecesse e casasse com um maravilhoso homem suíço, que tanto gostou de portugal que foi o primeiro a me convencer a regressarmos juntos. isto não estava nos meus planos. a vida na Suíça tornou-se demasiado exigente para ambos. depois de pensar numa mudança durante muito, muito tempo, acabei por concordar com recomeçarmos juntos outro tipo de vida. diga-se de passagem, que sempre fui uma pessoa muito activa, tanto no trabalho como nos tempos livres. gostava e gosto de fazer grandes corridas. Fiz, entre muitas outras, algumas dignas de mencionar. suiça | 5


a par de várias maratonas, umas outras nos alpes onde chegávamos a 2.200m de altitude percorrendo uma distância de 78km em corta-mato. o meu record em distância foram 111km, investindo para tal muitas horas de treino, sendo algumas sessões de 5 horas consecutivas. tudo tem de ser muito bem preparado para conseguir que no dia tal se consiga chegar sem danos físicos e psíquicos à meta em 15 horas e pouco… isto para dizer que tenho uma certa resistência física e mental, tal como consciência e sentido de organização, o que se viria a revelar indispensável na próxima aventura a caminho de Santiago. Foi então que tomei a decisão de ”poupar” um bilhete de avião e voltar para portugal a pé. durante algum tempo era nosso plano fazermos o caminho juntos. acontece que nos últimos dois anos Urs deparou-se com alguns problemas de saúde, especialmente nos joelhos. decidimos que não era favorável nem seguro que ele se metesse nessa viagem. porém, sempre me encorajou a fazê-lo, pois sabia bem o valor que isso tinha para a minha vida. estavam assim os planos traçados e as decisões tomadas. a nossa casa em mãnnedorf foi vendida em dezembro 2014, o que não nos deu muito jeito, por ser inverno profundo. não queríamos deixar de trabalhar nessa altura, pois o mau tempo não me permitia iniciar o caminho antes da primavera. resolvemos então que Urs trabalharia até ao fim de Janeiro e eu até fim de março. Urs alugou um estúdio em Kloten, muito perto do aeroporto e também do seu posto de trabalho. para mim ficava muito longe e não tinha comboio às 5 da manhã para o meu trabalho em meilen. Fiquei então em casa de minha irmã Sofia em Küsnacht onde passei os últimos três meses na Suíça. não sabíamos muito bem como superar esse tempo longe um do outro, pois desde então só nos encontrávamos aos fins de semana, 6 | suiça


ou uma vez por outra se havia algo a resolver. Quando Urs deixou de trabalhar no fim de Janeiro ficou na Suíça durante mais um mês para tratar de documentos e para não ser tão longo o tempo que iríamos passar longe um do outro. em finais de Fevereiro partiu para portugal com o carro e alguns haveres e claro… a separação foi muito dolorosa. por outro lado, este momento dava-me um cheirinho da aproximação da minha partida. eu fiquei a trabalhar até finais de março na perspectiva de deixar chegar a primavera, ou pelo menos os dias um pouco mais longos e algo mais quentes. continuei atenta à minha condição física, fazendo o caminho para o trabalho todos os dias de bicicleta, quaisquer que fossem as condições meteorológicas, o que me dava uns 14km por dia e nos fins de semana sempre um pouco de jogging. tanta ansiedade tinha, de terminar de trabalhar para me pôr a caminho, que o tempo parecia estar parado. a mochila estava preparada há pelo menos um mês e todos os dias olhava para ela. enchi-a e despejei-a varias vezes para encontrar a melhor posição e acomodar os diversos objectos, que se devem reduzir ao mínimo indispensável. contudo, continuava a pesar cerca de 14kg, ainda sem contar com a água. chegou finalmente 19 de março, o meu último dia de trabalho na midor meilen. tinha trabalhado 4 séries de 9 meses numa boa e simpática família no restaurante Schlüssel einsideln. depois de mais de 26 anos a produzir biscoitos saborosos com bom chocolate e gelados de todos os sabores e formas possíveis, chegava o momento de fazer a curva e começar outro tipo de vida. como é obvio, durante todos estes anos, conheci muitos amigos, colegas, vizinhos e seus familiares, e toda esta gente me custou muito deixar. na firma deram-me o dia livre para me despedir dos colegas, que no total eram quase 600 pessoas. naturalmente não tinha com todos a suiça | 7


mesma confiança e amizade, mas consegui-me despedir, nas varias secções, de todos os que me tocaram o coração. Foi um dia de lágrimas, pois era tremendamente emocionante ver as colegas já a chorar quando me aproximava, sabendo que me vinha despedir. logo eu, que me emociono facilmente… Ficou o contacto com muita gente e deixa-me muito feliz quando nos vêm visitar! de regresso a casa da minha irmã, o ar fresco andando na bicicleta fez-me muito bem. Uma vez em casa, olhei para a mochila e senti-me feliz. tinha agora uma semana livre para mim. tratei de alguns documentos, visitei e despedi-me de mais alguns amigos fora do trabalho e – muito importante – precisava de descansar e relaxar. a minha irmã mais nova, goreti, resolveu partir comigo para caminharmos juntas durante três semanas. era o tempo que ela tinha de férias e tencionávamos, dentro dos possíveis, chegar a geneva. combinámos uma data favorável às duas e decidimos partir no dia 29 de março de 2015. oficialmente, o caminho de Santiago para nós começaria em rapperswil, mas decidimos partir da casa onde eu estava com minha irmã Sofia em Küsnacht (Zürich). assim, fizemos mais essa etapa até rapperswil de cerca de 28km para começar a esticar as pernas. Quero referir, antes de mais, que o que estou a escrever são puras impressões pessoais do antes e durante o caminho, e não um guia de viagem. como tal, as distâncias diárias percorridas são mencionadas de forma relativa, consoante as informações dos guias do caminhante. os últimos 4 dias passei-os sozinha, ansiosa que passassem. na noite de 28 para 29 não dormi bem, era a última em casa. domingo partiríamos finalmente! combinámos sair pelas 10h, o que viemos a constatar que foi algo tarde. era preciso manter a cabeça fresca e não deixar nada em casa que viesse a ser necessário; depois de fechar a porta, a chave ficaria na caixa do correio, onde Sofia a iria recolher no seu regresso. 8 | suiça


temos tudo? a mochila com os seus 14kg puxa-me para trás… mas eu quero seguir em frente. levo dois sticks de caminhante comigo, farnel, água e chapéu de sol, se bem que penso que hoje enfrentaremos chuva. estamos de bom humor e confiantes de que é o dia certo para partir. depois de tirar as primeiras fotografias à saída da porta, deixo as chaves na caixa do correio, que soam como o tiro de partida e finalmente… começamos.

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A mochila: deve ser escolhida consoante a medida do corpo do caminhante. largas e almofadadas correias que assentem bem nos ombros e ancas, de preferência que circule o ar entre a mochila e as costas. a altura da mochila não deve incomodar a cabeça ou o pescoço. Bastantes bolsos por fora, para ter o necessário para o dia sempre à mão (farnel, água, guia). capa de resguardo para a chuva fraca.

Conteúdo • Saco de dormir • abrigo para a chuva (calças, casaco com capuz impermeáveis) • pelerina (por experiência o melhor são calças e pelerina juntas; assim está tudo resguardado, inclusivamente a mochila) • Boas botas de montanha ou de trecking, já habituadas aos pés • leves sandálias ou ténis de descanso • chinelos para entrar no duche • dois pares de meias de montanha • três pares de cuecas (de preferência sintéticas, para secarem mais depressa) • calças de caminhada (das que se pode retirar a parte inferior das pernas consoante o tempo) • três t-shirts ou blusa/camisa de montanha (sintéticas, secam mais rapidamente e não se colam ao corpo) • pullover (de preferência de gola alta, com fecho, sintético. pense no volume e peso) 10 | s u i ç a

• casaco quente com capuz (de preferência impermeável, dá para o frio e chuva) • duas peças de vestuário confortável (para depois do duche ou para ir à cidade) • chapéu de sol que dê também para chuva fraca • Óculos de sol • artigos de higiene pessoal (porções pequenas, pode comprar sempre, para não aumentar o peso) • protecção solar (creme) • toalha de duche (sintética) • toalhinha pequena (sintética) • medicamentos pessoais (para todo o trajecto!) • outros medicamentos (aspirina, repelente de mosquitos, material de desinfeção de bolhas, pensos rápidos e higiénicos) • Sabão líquido para a roupa (pequeno tubo)


eu viajei com uma mochila de 35l o que requer muita ordem e por vezes traz dificuldades quando se compram mantimentos demais. Uma mochila de 50l dá uma certa liberdade na colocação dos conteúdos, mas ter mais espaço não quer dizer que se possa levar mais, por causa do peso.

Conteúdo facultativo • toalhitas húmidas • meias finas de descanso • t-shirt de algodão para dormir • tampões para os ouvidos • pequeno secador de cabelo • Bengalas de caminhada (para mim indispensáveis) • guia do percurso (indispensável) • máquina fotográfica • Bolsa para usar à cintura

Farnel • Sempre um litro de água (reforçar no decorrer do dia) • Barras de cereais e frutos secos • Banana, maçã, cenoura, pepino • chocolate (enquanto não faz muito calor) • pão, queijo, chá em saquinhos individuais, café (consoante os gostos) evitar carregar mais do que o necessário para o dia.

Documentos (os mais importantes não pôr no porta-moedas) • B.i. • cartão de crédito • credencial de peregrino (se for peregrino) • carta de seguro • lista com números de telefone importantes (para o caso do telemóvel ficar sem bateria) • algum dinheiro líquido • nº Banco para eventual cancelamento do cartão (roubo, perda) suiça | 11


28 km

Domingo, 29.03.2015 Küsnacht > Rapperswil | cerca de 28km partimos pelas 10h como combinado, de bom humor, acompanhadas pela minha irmã prazeres e seu marido ricki – que tinham trazido goreti –, sempre subindo ligeiramente, muito tempo junto do riacho de Küsnacht, onde várias vezes andei a correr acima e abaixo. Seguimos muito lentamente, pois devemos acostumar o corpo e as pernas ao esforço e ao peso do saco nas costas. goreti também tem boa condição física e está animada por poder partir comigo, ainda que seja “só” até geneva. prazeres e ricki seguem connosco até ao cimo de meilen e regressam caminhando até casa de Sofia, tomando assim o cheirinho da nossa partida. goreti e eu continuamos calmamente até perto de Bergheim-Uetikon, local onde ela trabalhou um par de anos. aí começa a chover e aproveitamos para fazer uma pequena pausa e tomar um café na cafetaria onde ela ainda conhece colegas com quem troca algumas palavras. para mim tudo neste dia, e à minha volta, é normalidade, pois esta zona onde vamos caminhando é como casa, tantas vezes por aqui andei correndo. dentro em pouco vamos passar mesmo perto de uma casa que foi minha, entretanto vendida. esta era a minha área de treinos e eu não tinha a mínima impressão de estar a afastar-me de “casa”. chegamos a rapperswil, a nossa meta deste dia, pelas 6h da tarde. tinham já passado umas horas de chuva e estávamos naturalmente cansadas, pois na verdade, éramos, de mochila às costas, puras principiantes. a procura de quarto torna-se algo complicada, pois a casa dos peregrinos só abrirá no dia seguinte e o tourist office, onde queríamos recolher informações sobre condições e preços nos hotéis, está já 12 | s u i ç a


encerrado. andamos então pelas ruas à procura de um albergue que nos convenha, quando uma senhora que passa em bicicleta nos pergunta se vamos a caminho de Santiago e se procuramos alojamento. indica-nos o albergue de peregrinos, mas também ela ignora que ainda está fechado. durante os meses de inverno não passam, por norma, peregrinos, por isso só abre em abril. isto significa que estamos a partir mesmo cedo na época de caminhadas! a senhora faz tantas perguntas sobre nós que me começa a fartar. neste momento só quero encontrar onde poisar a mochila e dormir. o inquérito afinal serve apenas para nos conhecer um pouco, porque acaba por dizer: “Venham comigo. tenho um quarto de casal livre onde vão ficar esta noite”. nós ficamos de boca aberta sem saber se aceitar ou rejeitar! dizemos sim à senhora, que se apresenta como hanna, e que por acaso já tinha, ela própria, andado a caminho de Santiago e como recebera ajuda de tanta gente, queria recompensar e retribuir o bem a outros peregrinos. no restaurante ao lado, apresentou-nos a sua família e pagou-nos uma bebida. depois seguimos para sua casa, onde nos alojou num estúdio com duche e cozinha só para nós. digam lá que não é o nosso dia de sorte! penso que com um começo bom como este, Santiago está connosco e vai ajudar-nos durante a viagem. À noite, Francesco, o companheiro de minha irmã, junta-se a nós para comer uma pizza e marcar, de certa forma, a despedida. trago umas sandálias vermelhas muito cómodas que me vão acompanhar nas horas de descanso, e toda orgulhosa do meu investimento, mostro-as a ambos. o garçon, ao ver-nos a todos a olhar para uma coisa vermelha no chão, vem ter connosco pensando que a pizza caíra do prato… Que risada damos todos! o pior foi quando me quis levantar, quase caí da cadeira, de tal forma estão doridas as pernas, que mal seguram o corpo. suiça | 13


44 km

Só ao fim de alguns passos, consigo caminhar um pouco mais normalmente. como vamos nós poder fazer esta viagem? Uma vez no quarto, esfregamos bem os músculos com uma pomada anti-inflamatória e vamos tentar dormir. a primeira noite fora de casa não se dormiu de jeito e será então a segunda mal dormida.

Segunda-feira, 30.03.15 Rapperswil > Einsiedeln | cerca de 16km acordamos pelas 8h com uma chuva torrencial. o começo da nossa viagem parece ter boas e más surpresas. depois de termos sido acolhidas tão carinhosamente em casa de hanna, enfrentamos hoje esta chuvada. os abrigos que temos para as mochilas não valem muito, ainda bem que nesta cidade há um grande centro comercial com uma loja de artigos de desporto onde vamos comprar uma pelerina que nos cobre as mochilas e o corpo todo. Foi cara, mas abençoado dinheiro, foi um salva vidas durante muitas ocasiões na minha viagem. aproveitamos para tomar o pequeno almoço e comprar algo para o farnel. nesta primeira semana de marcha tínhamos combinado que Karin, irmã de Urs, nos acompanharia. encontramo-nos às 10h na estação, também ela toda equipada com abrigos de chuva… estamos um pouco decepcionadas com o tempo, mas mantemos o bom humor. tínhamos esquecido em casa de hanna as bolsas de empacotar as pelerinas e lá vem herbert, o companheiro de hanna, que fazia nesse dia 75 anos, de bicicleta com toda aquela chuva, trazer-nos as bolsas à estação. isto é que é gente bondosa! começamos então hoje oficialmente o caminho de Santiago. passámos pela conhecida ponte de madeira por cima do lago Zurich, onde se encontra também uma capelinha com partes da ponte original que 14 | s u i ç a


fora construída cerca de 1500. É a ponte de madeira mais longa da Suíça com 841m de comprimento, sendo segura por 233 postes de carvalho. É uma zona muito frequentada por nós, em toda a nossa estadia na Suíça. Urs para ali ia muitas vezes pescar, enquanto eu corria até lá quando fazia treinos intensivos para alguma maratona. outras vezes fui ter com ele de bicicleta. levava pão quente, café no termo, eram assim lindos, os nossos fins de semana. com tudo isto, tenho a impressão que continuo em casa. É tudo conhecido à minha volta. Vamo-nos afastando de rapperswil e subindo a encosta em direção a pfäffikon, passando pelo ponto mais alto da marcha de hoje – o monte etzel, com cerca de 1.090m de altitude. lá no cimo, a capela de São meinrad, onde fazemos uma pausa no interior, pois continua a chover. o meu ex-chefe, que também se chama meinrad, é que de santo não tinha nada! está um frio tremendo dentro da capela e como parámos, começamos a tiritar. Vamos ao café ao lado (são as únicas duas casas ali) e com uma bebida quente estamos prontas para continuar o nosso percurso. chegamos a boa hora a einsiedeln, onde vamos pernoitar. Queríamos tanto ficar no mosteiro de nossa Senhora negra, mas já estava ocupado por um grupo de seminaristas. informam-nos que na casa dos jovens estudantes estagiários temos um quarto com três camas. a minha ideia era ainda ir de autocarro até Willerzell, onde trabalhei os primeiros quatro anos. não fica longe de onde estamos, mas com o mau tempo e o cair da noite, opto por telefonar à filha mais velha da família e assim me despeço. a concha que tinha para pôr na sepultura da minha chefe – que fora para mim como uma segunda mãe –, decidi levá-la comigo, pedindo-lhe que me acompanhasse e me livrasse de possíveis perigos. Jantamos as três num restaurante chinês e também aqui em einsiedeln me continuo a sentir em casa. suiça | 15


64 km

Terça-feira, 31.03.15 Einsiedeln > Schwiz | cerca de 20km dormimos bem e estamos prontas para enfrentar uma nova etapa que, como previa, acabou por se mostrar um pouco mais difícil. ao fim de um bom pequeno almoço metemo-nos a caminho. ainda bem que hoje não chove grande coisa, mas a seco também não vamos. Karin tem dores de garganta. Vamos à cidade a uma farmácia comprar algo para ela. depois de três horas de marcha, o caminho começa a complicar-se, sempre a subir, até a altitude de 1.414m. lá no topo encontra-se uma casa de acolhimento. Fazemos um grande esforço para chegar, pois ainda há muita neve, o que nos dificulta o reconhecimento do caminho, e as rajadas de vento são muito fortes. entre o cansaço e Karin que não se sente muito bem, sinto muito nervosismo. decidimos não fazer a etapa completa e ficar nesse refúgio lá no alto, em haggeneg, mas finalmente, ao chegar, uma grande decepção… está fechado! Só abrirá duas semanas mais tarde. definitivamente, começo a pensar que nos metemos muito cedo ao caminho. desta forma não nos resta alternativa senão continuar a marcha. o caminho oficial não se vê, com tanta neve, e agora é a descer, sempre a descer. com estas roupas sintéticas e a pelerina, se escorregamos, nunca mais ninguém nos agarra, sei lá o que pode acontecer. goreti quer arriscar, eu digo que não. optamos pela estrada, embora seja dura por ser tudo alcatrão e com imensas curvas até chegar lá abaixo. parece estarmos tão perto da próxima cidade Schwyz, mas nunca mais chegamos… numa distância de 7km enfrentamos 1.600m de descida. Brutal! Já não sabemos como mover as pernas nem como aguentar as dores nas costas… experimentamos com bengalas, sem bengalas e, extraordinariamente, Karin – que não se sente bem – é quem vai sempre na frente, chegando em primeiro lugar à entrada 16 | s u i ç a


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79 km

da cidade. Senta-se na primeira paragem de autocarro que encontra. estamos as três exaustas e nenhuma se recusa a entrar no autocarro. andamos cerca de 500m e logo descemos para entrar num café onde tomamos algo quente e procuramos abrigo. encontramos um hotel barato que acolhe peregrinos. depois de pagar uma noite sem pequeno almoço, a senhora mete-nos a roupa das camas nas mãos e junta-lhe tampões para os ouvidos, pois a partir das 21h vai haver música no restaurante… tudo indica que não é esta noite que vamos descansar. tomamos um duche e depois de fazer as camas, descemos para comer qualquer coisa. a música e festa destinam-se a um grupo de deficientes acompanhado pelos seus responsáveis. Karin sente-se tão mal que não comeu quase nada e não suporta aquele barulho. por sorte, no quarto não se ouve muito. Foi o primeiro dia em que não chegámos ao fim da nossa etapa. tínhamos ainda cerca de 5km até chegar a Brunnen, o que era o nosso plano inicial, mas dadas as circunstâncias, fica para amanhã. agora vamos dormir e logo se verá como se sente Karin e como está o tempo.

Quarta-feira, 01.04.15 Schwyz > Emmetten | cerca de 15km olhando o céu parece não estar muito seguro, mas pelo menos de momento não chove. tomamos o pequeno almoço no café ao lado e seguimos tranquilas para perfazer o resto do percurso que pertencia ao dia de ontem. chegando a Brunnen temos de seguir de barco para a outra margem onde prossegue o caminho. É o tão conhecido Vierwaldstätersee (lago lucerna), que faz parte de quatro cantões. Vamos atravessá-lo de Brunnen até treib, onde continuamos a pé. Quando chegamos ao cais em Brunnen verificamos que o barco partiu há 15 minutos e temos de esperar duas horas para apanhar 18 | s u i ç a


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O caminho de Santiago em 81 dias  

Fruto de um desejo antigo e a vontade de iniciar uma nova etapa de vida – o regresso a Portugal – com um gesto marcante, Fátima Rodrigues de...

O caminho de Santiago em 81 dias  

Fruto de um desejo antigo e a vontade de iniciar uma nova etapa de vida – o regresso a Portugal – com um gesto marcante, Fátima Rodrigues de...

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