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Simón Bolívar

Libertador de naçons, criador da Pátria Grande


Simón Bolívar Libertador de naçons, criador da Pátria Grande Edita: Associaçom Galega de Amizade com a Revoluçom Bolivariana Telefone: 622 740 066 www.agarb.blogspot.com Colabora: Consulado Geral da República Bolivariana da Venezuela em Vigo Maquetaçom: Opai Desenho Gráfico (698 139 595) Imprime:Tórculo Tiragem: 700 exemplares DL: Data de Impressom: Maio de 2010


Simón Bolívar

Libertador de naçons, criador da Pátria Grande

- Apresentaçom de Xavier Moreda


Simón Bolívar Libertador de naçons, criador da Pátria Grande

Apresentaçom “Acordo cada cem anos quando acorda o povo” Pablo Neruda, Canto Geral, 1950

também no campo jurídico, é o direito e o dever à resistência armada aos regimes autoritários. A vital importáncia dos movimentos que constroem as luitas, eis o valor da Memória colectiva, os valores de cada facto para a construçom de, e para umha mentalidade emancipadora, a determinaçom política das naçons sem estado, a independência.

“Eu conhecim o Bolívar” nas minhas leituras, quando tinha apenas 12 anos. Fiquei para sempre seduzido polo seu solene juramento no Monte Sacro: "Juro perante você; juro polo Deus dos meus pais; juro por eles; juro pola minha honra, e juro pola minha Pátria, que nom darei descanso ao meu braço, nem repouso à minha alma, até que tenha quebrado as cadeias que nos oprimem por vontade do poder espanhol!". Os relatos e a memória desenham a cartografia sentimental e política das nossas vidas.

Bolívar nom foi a figura de opereta que os seqüestradores da sua figura vendêrom ou tentárom vender-nos. Quando alguns criticam o que semelha umha espécie de santificaçom laica do Libertador, cumpre que saibam que este caderno é também a nossa pequena contribuiçom ao mundo (povo) trabalhador e ao comandante Chávez nessa comissom presidencial para achar a verdade, talvez construçom subjectiva, mas nom múltipla, nem pretensiosa, para libertá-lo do seqüestro a que foi submetido para ser desnaturalizado. Mitificado até tal ponto que já nom o reconheceriam nem os seus próprios coetáneos, nem a mesma Manuelita Saenz. Foi seqüestrado aos poucos anos da sua morte polos inventores da história oficial, convertido em semideus pátrio contra a coroa espanhola, despojado dos valores reais. A sua pessoa foi deturpada. A sua imagem foi deformada interessadamente polas elites: filhos e filhas dos que no final da sua vida permitiram que o Libertador morrera proscrito e assassinado. Um magnicídio que nom logrou acabar com o símbolo: Simón vive como o Che, Ernesto vive como Bolívar!

Quando se celebram os duzentos anos da independência das repúblicas da Nossa América, a AGARB decide editar esta publicaçom sobre o Libertador. Pertencer a Associaçom Galega de Amizade com a Revoluçom Bolivariana é também militar na Memória para recompor a história, porque sabemos que para construir o futuro devemos preservar, recuperar a Memória dos povos. Isto é, em parte o que se pretende com este novo caderno, o segundo que a AGARB edita sobre o Libertador, um pequeno, mas valioso contributo da Galiza que luita. Reescritura, resumo conciso do passado para que ganhe e recupere todos os seus significados: a vigência plena do seu discurso precursor e anti-imperialista e o direito dos povos à soberania: “Os EUA parecem ter sido criados pola natureza para encher de calamidades a América em nome da liberdade”.

Xavier Moreda Galiza, Maio de 2010

Precisamos lembrar que um dos princípios mais consagrados,

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Batalha de Carabobo (detalhe) Martín Tovar y Tovar, Paris, 1888. Óleo sobre tela

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Introduçom Mais do que um valioso símbolo histórico americano, é quem mudou o rumo da nossa; é o caraquenho cuja glória está imortalizada em cada umha das praças maiores da Venezuela e de alguns outros países. Eqüestre, em busto ou de pé, ele olha para o Norte por norma, sem perder de vista a vitória; vivo na memória da República Bolivariana da Venezuela, Quinta República que dignifica a memória e leva à prática o pensamento de Simón Bolívar, O Libertador.

e louças com o seu rosto; chapéus e botas à usança dele; publicaçons que dam conta da sua vida e façanhas, como o resumo que se inclui, apenas em 1816, no jornal The Colúmbia de Nova York. Mas é significativamente mais importante o seu legado de pensamento, com respeito à agitaçom que causou naquela sociedade. É por isso que neste momento histórico, o povo venezuelano fai honra ao Libertador, nom só chamando-se a si mesmo bolivariano, mas dando continuidade à sua luita antiimperialista, a sua luita pola integraçom e a reivindicaçom dos povos. Simón Bolívar nos seus últimos dias de vida foi vítima de repúdio e maltratos. Venezuelanos ou colombianos, homens conduzidos pola cobiça, a inveja e a ánsia de poder -que noutros tempos tinham coincidido com o chamado patriota para quebrar o exército realista e o jugo monárquico espanhol-, umha vez aberto o caminho acusárom, vilipendiárom e tentárom vulnerar a glória do caraquenho. Aqueles insensatos -como Francisco de Paula Santander quem fraguou um plano para assassiná-lo em Setembro de 1828 em Bogotá, ou como José Antonio Páez, quem depois de jurar lealdade sustentando a espada do mesmíssimo Bolívar voltou o seu fio contra ele para evitar mesmo que morresse na terra que o viu nascer-; aqueles, nom só rompêrom o sonho de Bolívar, de construir um titám americano, umha só terra sem fronteiras, umha formaçom de países ricos, organizados e imbatíveis; senom que rompêrom também a possibilidade irrepetível de juntar às pátrias nascentes e sem vícios numha só.

Fôrom mal quarenta e sete anos que pode contar o seu corpo, mas o seu génio conseguiu transcender a história: mais de duzentos anos depois do seu natalício honramos quem levou o nome de Simón José Antonio de la Santísima Trinidad. Aquele homem seria atingido por um destino único e a sua glória precederia-o em séculos. A montanha mais alta da Venezuela ainda leva o seu nome, o Pico Bolívar de 5.007 metros de altura, coberto de neve, sendo o lar dum busto e umha placa que permite ler: "Libertador: a cimeira mais alta dos Andes é ainda pequeno pedestal para a tua glória". As naçons homenageiam a sua figura: em Nova Iorque, Paris, Hamburgo, Roma, Londres, Vigo e Buenos Aires, entre outros, os monumentos recordam a sua gesta. Em todo mundo e no universo há barcos, estrelas, montanhas, rios, povos e cidades chamados Bolívar; até Estados Unidos tem quinze localidades com o nome do caraquenho imortal. No seu tempo gozou de fama e notoriedade. Resumos da época falam da existência em Europa de leques, placas de marfim, pans

Que diferente seria a história de nom ter ganhado a cobiça

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naqueles coraçons! O nosso povo com a Grande Colômbia viva, irmá do Brasil, seria parte da resposta à grandiloqüência do imperialismo, que entom era um neno que devorava feroz toda oferenda, e assim cresceu. Pola sua vez, América Latina continuou contestatária, tentando manter-se soberana; sempre remexendo-se para romper as correntes sobre a sua pele. Cada vez estamos mais perto desta meta bolivariana, que é a autonomia dos nossos povos. Trabalhemos por isso! Bolívar, um grande guerreiro que ostentava um título nunca antes outorgado a nengum americano, que recusou umha coroaçom imperial, que dedicou as suas forças à liberdade de outros, que amou profundamente esta terra; isso merece umha homenagem sincera do seu povo: um fazer honesto e libertário, sempre em pró e em defesa da soberania.

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Batalha de Junín Antonio Herrera Toro, 1904. Óleo sobre tela

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Simón, o moço A família Bolívar é herdeira de largos bens, com a sua necessária gota americana indígena. O coronel Juan Vicente Bolívar e Ponce, terratenente dos campos de Aragua e aristocrata da cidade dos tectos vermelhos -Caracas-, proprietário de minas em Cocorote e em Aroa; dos Hatos "El Totumo" e "El Limón". Tinha estadias na Guaira, Caracas e San Mateo; semeadoiros de cacau em San José de Miranda e nos Vales do Tuy em Yare; e para atender todas estas propriedades tinha numerosos escravos, originários de terras afastadas. Dom Juan Vicente desposou, aos quarenta e sete anos, a jovem María da Concepçom Palacios y Blanco, com quem teria quatro filhos: María Antonia (1777), Juana Nepomucena (1779), Juan Vicente (1781), e Simón José Antonio de la Santísima Trinidad (1783).

Aos poucos dias o neno foi baptizado na Catedral, na Cúpula da Santíssima Trinidade, propriedade da família Bolívar. Como padrinho do neno está o seu avó materno: Dom Feliciano Palacios e Sojo, e oficia o primo cónego Juan Félix Jerez de Aristiguieta. O neno ia chamar-se Pedro José Antonio de la Santísima Trinidad; mas no momento de pôr-lhe a água, o cónego Jerez de Aristiguieda mudou-lhe o nome de Pedro polo de Simón. O cónego pensou que o neno seria "O Simón Macabeo das Américas", referindo-se a aquele que fora "grande pontífice, general e caudilho dos judeus" (Mac. 13:43) A Negra Hipólita criou o Simonzinho como se fosse o seu próprio filho. Foi todo um afecto de mae que o próprio Libertador reconheceria anos depois, pois a saúde da sua mae piorava cada vez mais e nom lhe permitia ocupar-se dos seus filhos. Além disso, com a triste circunstáncia da morte de Don Juan Vicente Bolívar e Ponce, pai de Simón, em 19 de Janeiro de 1786, a esposa, María da Concepción ficou a cargo dos filhos, os negócios e os assuntos familiares. Simón apesar de ser o menor sempre era o líder. Preferiria ir com os escravos e mestiços que trabalhavam nas plantaçons da família.

Na noite de 24 para 25 de Junho de 1783, em palavras do historiador Telmo Manacorda, "vem ao mundo em Caracas, na casa solarenga dos seus avós bascos, sobre cujo portal campeia o escudo da estirpe, esculpido em rocha de Biscaia, um neno frágil que chora, como todos os nenos quando nascem". Pola sua vez, o investigador Jorge Mier Hoffman conta que no momento de nascer Simón, a sua mae padecia "seqüelas de umha tuberculose que a impediu amamentá-lo; para fortuna do destino de América, a vizinha Inés Mancebo de Miyares, de origem cubana, recém tinha dado à luz recentemente, e pode partilhar o seu leite materno com Simonzinho, como carinhosamente o chamavam os escravos, enquanto chegava da fazenda de San Mateo, umha vigorosa escrava de nome Hipólita, de trinta anos, que estava próxima a dar a luz, e que se converteria na ama-de-leite do Libertador".

A mae faleceu em 6 de Julho de 1792, aos 34 anos, deixando os seus quatro filhos órfaos por causa da tuberculose. Por conseguinte, Simón quase nom tinha dous anos e meio de idade quando perdeu o seu pai e nove ao perder a sua mae. Maria Concepçom deixou ao seu pai Dom Feliciano a administraçom dos bens da família Bolívar e Palacios, e este pujo em maos do advogado Dom Miguel José Sanz o cuidado do seu neto menor. A partir deste momento, Simoncito começa umha peregrinagem

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por diferentes lares. A sua infáncia escapa-se-lhe de umha casa a outra, diferentes parentes fam-se cargo do menor, e alguns deles -como é o caso de seu tio Carlos- só anseiam o controlo da apetitosa herdança. Aqueles que queriam o seu bem-estar e a sua felicidade, ainda no meio da adversidade da perda dos pais, eram separados do pequeno; como era o caso das suas irmás Juana e María Antonia, que casárom ainda antes de fazer os quinze anos. Rufino Blanco Fombona, escreveu muitos episódios da infáncia de Simoncito. Na casa do Bacharel Sanz, o pequeno demonstrava a sua precocidade freqüentemente. Conta Branco: "Um dia na mesa, o neno quer misturar-se na conversa dos maiores; 'cale você e nom abra a boca', respondeu-lhe Sanz. O neno cessa de comer; um momento depois, o licenciado repara e pergunta: 'Por que nom come você?'. Ao que o neno responde: 'Porque me dixo que nom abra a boca…'". Umha vez chamou-no Sanz "barrilinho de pólvora" e Simón respondeu-lhe: "Tenha cuidado, nom se me acerque, podo estourar".

o tempo, encerra-o num colégio". Mesmo um pleito judicial tivo lugar entre Carlos Palacios e o casal Clemente Bolívar, integrado pola irmá maior de Simón, María Antonia e Pablo Clemente, quem constantemente recebiam o neno, que já se convertera num adolescente e fugia; umha das ocasions foi no seu décimo segundo aniversário. O casal reclamou a custódia do neno; mas nada funcionou. No entanto, esta situaçom reverteria a favor de Simón. O tio irresponsável pujo-o ao cuidado de Dom Simón Rodríguez, quem fora conhecido polas suas ideias liberais e recordado por Bolívar por ter-lhe ensinado o pensamento de homens como Rousseau. Bolívar dixo mais tarde sobre este último: "Você formou o meu coraçom para a liberdade, para a grandeza, para o formoso. Eu seguim o caminho que você me assinalou". Fôrom mestres do jovem Bolívar, o célebre humanista Andrés Bello; Serafín Carrasco, José Antonio Negrete e Guillermo Pelgrón; além de Rodríguez, que reunia a um grupo de moços na Quinta Anauco ou em San Mateo, casas de Simón, para estudar em grupo.

Sanz tentou que Simoncito recebesse umha formaçom adequada, superior à das escolas de Caracas. O advogado conseguiu que um respeitado pai capuchinho de sobrenome Andujar se encarregasse do moço. Sobre Andujar di-se que "era um dos poucos religiosos com umha mentalidade modernista e um método pedagógico diferente ao dos ortodoxos, que se dedicavam a impor a doutrina religiosa, e utilizavam o maltrato para amedrontar o aluno", além de ser admirado profundamente por Alexandre von Humbold. Sobre a primeira liçom que o pai Andujar deu a Simoncito, o primeiro escreveu: "O neno burlou-se das minhas liçons, prendeu lume a uns papéis, que se calhar eram do Bacharel Sanz… Gritava que o torturassem antes de continuar a classe, e tentou sair pola janela".

Eduardo Galeano, conta na sua obra Memórias do Fogo que Simón Rodríguez sustenta "que as escolas deveriam abrir-se ao povo, às gentes de sangue misturada; que nenas e nenos teriam que partilhar as salas de aula e que mais útil ao país seria criar pedreiros, ferreiros e carpinteiros que cavaleiros e frades". E continua relatando: "Simón o mestre e Simón o aluno. Vinte e cinco anos tem Simón Rodríguez e treze Simón Bolívar, o órfao mais rico de Venezuela, herdeiro de mansons e plantaçons, dono de mil escravos pretos. Longe de Caracas, o preceptor inicia o moço nos segredos do universo e fala-lhe de liberdade, igualdade, fraternidade; descobre-lhe a dura vida dos escravos que trabalham para ele e conta-lhe que a nom-te-esqueças-de-mim também se chama myosotis palustres. Mostra-lhe como nasce o potrinho do ventre da égua e como cumprem os seus ciclos o cacau e o café. Bolívar fai-se nadador, caminhante e ginete; aprende a sementar, a construir umha cadeira e a nomear as estrelas do céu de Aragua.

Jorge Mier aponta que à morte do avó de Simoncito, Dom Feliciano, os tutores do neno -Carlos e Esteban- nom tinham maior interesse em criar o neno bem. Esteban Palacios, escreveu ao seu irmao Carlos, desde Espanha: "Destrói primeiro as rendas do pupilo antes de fazer valer os teus direitos. Se te fazer perder

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Mestre e aluno atravessam Venezuela, acampando onde seja, e conhecem juntos a terra que os fijo. À luz de um farol, lem e discutem Robinson Crusoe e as Vidas de Plutarco". Segue narrando o uruguaio que umha vez descoberta a conspiraçom independentista em que se vê implicado o Mestre de Bolívar, este foge da Venezuela para Jamaica e passa a chamar-se Samuel Robinson.

agora volta para entregar-lhe as relíquias de amor da jovem María Teresa. Depois, em Paris, roído polo infortúnio e imerso numha funda afliçom moral e física que apagava o seu espírito chegou-lhe o apoio que tanto precisava. O mestre Simón Rodríguez, chegou ao hotel chamado polo gerente. Encontrou-se com um Bolívar abatido, que lhe dixo ao seu Mestre: "prefiro morrer a suportar esta imensa carga de tristeza" e suplicou-lhe que o deixasse morrer em soidade. Rodríguez reconfortou-no com sábias palavras que o figérom entender que ele e só ele, tinha umha missom que cedo teria que empreender; mas polos momentos, devia mitigar a sua dor, reunir-se com pessoas da sua idade, divertir-se e viver a vida…

Também conta o argentino Telmo Manacorda, que quando chegar ao seu fim as reunions de estudos, Bolívar ingressou como cadete nas milícias de Aragua até se fazer subtenente. Posteriormente, em 1799, por decisom do seu tio Esteban Palacios foi enviado a Europa a continuar os seus estudos. Em Madrid aprendeu esgrima, dança e equitaçom, residindo no palácio do Marqués de Uztáriz; onde conhece a dom Bernardo Rodríguez de Toro, pai de quem seria a primeira e única esposa do moço Bolívar. Mas antes de contrair núpcias, viaja a Bilbo, Barcelona, Marselha e Paris; ouve continuamente de um personagem chamado Francisco de Miranda. Este recorrido ofereceu-lhe um cúmulo de conhecimentos sobre os valores culturais, sistemas políticos, critérios ideológicos, potencial humano e situaçons económicas daqueles países. Permitiu-lhe ademais o poder actuar e falar de acordo às circunstáncias nom em forma superficial mas precisa e objectivamente. Converteuse no ávido leitor que seria polo resto da sua vida.

Bolívar obedeceu ao seu mestre. Entendeu que talvez devia divertir-se. Dar outra oportunidade ao coraçom. E reuniu-se com umha mulher que lhe dedicaria as seguintes linhas: "Todo mundo o proclamará como o homem do século. Só me falta suplicar-lhe que se conserve para cumprir o seu belo destino e para fazer que algum dia tenha eu mais umha vez a felicidade de dizer-lhe de viva voz, que ninguém o amou tanto nem lhe é tam carinhosamente afecta como a sua prima, Fanny Duvillar". Precisamente foi ela quem o acompanhou na sua estadia na França, numha segunda viagem a Europa, onde chegou justo a tempo para presenciar a proclamaçom de Napoleom como Emperador, no dia 18 de Maio de 1804 . Eduardo Galeano relata sobre esta passagem: "Os convidados extravasam a catedral de Notre-Dá-me. Entre eles, um jovem venezuelano estica o pescoço para nom perder nem um detalhe. Aos vinte anos, Simón Bolívar assiste, alucinado, ao nascimento da monarquia napoleónica: 'Nom som mais do que um brilhante do punho da espada de Napoleom' -pensa o jovem-. Nestes dias, num salom dourado de Paris, Bolívar conheceu a Alexandre von Humboldt. O sábio aventureiro, recém-chegado de América, dixo-lhe: 'Julgo que o seu país está maduro para a independência, mas nom vejo o homem que poda ...”.

Em 1802 casou com María Teresa e passárom uns dias no paço de Penarredonda, em Elvinha, a casa da família galega de Bolívar antes de colher no porto de Corunha o "San Idelfonso" que os levaria de volta a Caracas, aos jardins perfumados, às estadias que vírom crescer o moço que agora regressava. Mas a felicidade duraria pouco, depois de oito meses de vida feliz em casal, o dia 22 de Janeiro de 1803 morre a mulher de Simón Bolívar, vítima da febre amarela. O casal durou escassamente oito meses. Aos vinte anos volta a ver a Dom Bernardo Rodríguez de Toro em Espanha, nom com o mesmo regocijo que a primeira vez, pois

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A seguir, Bolívar empreende com Simón Rodríguez, umha viagem que o levaria a pronunciar as palavra definitórias da sua vida. Passam por Turim, Milám, Florença, Veneza, Nápoles e Roma. Segundo Telmo Manacorda: "Em Roma, Bolívar estreita a mao de Sismondi, o historiador; de Rauch, o grande escultor alemám; de Madame Staël, e até chega ao Vaticano a visitar a Pio VII, ante quem se nega a beijar-lhe a sandália".

Estados da terra em arrabaldes tributários; mulheres para fazer passar as rodas sacrílegas da sua carruagem sobre o tronco destroçado dos seus pais; oradores para comover, como Cícero; poetas para seduzir com o seu canto, como Virgílio; satíricos, como Juvenal e Lucrécio; filósofos débeis, como Séneca; e cidadaos inteiros, como Cato. Este povo deu para todo, menos para a causa da humanidade: Messalinas corrompidas, Agripinas sem entranhas, grandes historiadores, naturalistas insignes, guerreiros ilustres, procónsules rapazes, sibaritas desenfreados, aquilatadas virtudes e crimes grosseiros; mas para a emancipaçom do espírito, para a extirpaçom das preocupaçons, para o enaltecimento do homem e para a perfeiçom definitiva da sua razom, bem pouco, por nom dizer nada. A civilizaçom que soprou do Oriente, tem mostrado aqui todas as suas fases, figérom ver todos os seus elementos; mas enquanto a resolver o grande problema do homem em liberdade, parece que o assunto foi desconhecido e que o isolamento dessa misteriosa incógnita nom tem de verificar-se senom no Novo Mundo. "Juro perante você; juro polo Deus dos meus pais; juro por eles; juro pola minha honra, e juro pola minha Pátria, que nom darei descanso ao meu braço, nem repouso à minha alma, até que tenha quebrado as cadeias que nos oprimem por vontade do poder espanhol!".

Umha tarde, 15 de Agosto de 1805, continua Manacorda, "Simón Rodríguez, o antigo mestre, anima-se lentamente, evocando a história do Monte Sacro com os plebeus de Menénio sublevados contra a tirania dos patrícios. De palavra em palavra seguiu falando da impaciência dos povos de América sem tribunos nem caudilhos que os levassem a libertar-se dos opressores. E em isto estám, quando de repente, Simón Bolívar, o antigo discípulo, anima-se a pronunciar o que se converteria no imortal Juramento do Monte Sacro, que após duzentos anos, segue a ser umha peça inestimável da nossa história e dos factos que se desencadeárom nos seguintes vinte e cinco anos”. Estas fôrom as palavras de Bolívar: "Com que este é o povo de Rómulo e Numa, dos Gracos e os Horácios, de Augusto e de Nerom, de César e de Bruto, de Tibério e de Trajano? Aqui todas as grandezas tivérom o seu tipo e todas as misérias o seu berço. Octávio disfarça-se com o manto da piedade pública para ocultar a suspicácia do seu carácter e os seus arroubos sanguinários; Bruto crava o punhal no coraçom do seu protector para substituir a tirania de César com a sua própria; António renuncia aos direitos da sua glória para embarcar-se nas galeras de umha meretriz; sem projectos de reforma, Sila degola aos seus compatriotas, e Tibério, sombrio como a noite e depravado como o crime, divide o seu tempo entre a concupiscência e a matança. Por um Cincinato houvo cem Caracalas, por um Trajano cem Calígulas e por um Vespasiano cem Claudios. Este povo deu para todo; severidade para os velhos tempos; austeridade para a República; depravaçom para os Emperadores; catacumbas para os cristaos; valor para conquistar o mundo inteiro; ambiçom para converter todos os

Conclui Telmo Manacorda, de maneira magistral: "O génio encontrou o seu acendedor, a sua inspiraçom, a sua eternidade. De agora em diante, o lume sagrado da liberdade conduziu-no". Voltou a Paris e uniu-se a umha Lógia Masónica, e decidiu voltar a América com um novo amor em mente: a Liberdade.

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Entrevista de Bolívar e Sucre no Desaguadeiro dos Andes Manuel Otero, 1883. Óleo sobre tela

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Simón, o homem Depois da experiência no Monte Sacro, Simón Bolívar nom achava paz nos seus dias, queria sobre todas as cousas regressar a sua Pátria amada. Na volta passou por Estados Unidos. Posteriormente, ao chegar ao porto de La Guaira que tinha deixado atrás à morte de María Teresa, pareceu-lhe diferente, nom detestado nem representando mais lembranças, ao invés, era um renascer; as suas vontades genuínas de dar liberdade a Venezuela eram mostra da mudança. Era outro, o seu coraçom já nom estava cheio de amargura, nem da dor polas perdas que acompanhárom toda a sua juventude. Agora o seu consolo era a obriga indeclinável de fazer a Pátria Livre, e mais do que um consolo, o destino à glória. Em 1807 já estava em Venezuela e embora seguisse sendo um crioulo mantuano, com umha boa vida invejável, começárom-se a notar nele as ideias liberais que caracterizárom também o seu pai Juan Vicente.

Álamo, entre outros- agora conspiravam contra o domínio espanhol na Quadra de Bolívar; enquanto Napoleom ocupava Portugal e o Estado espanhol; passava a coroa do Rei Carlos IV ao seu filho Fernando VII e deste -muito ao seu pesar- ao irmao de Bonaparte, José Napoleom. O momento perfeito para sublevar à aristocracia caraquenha e ao povo; e assim se rega a semente da revoluçom e as ánsias de emancipaçom. Espanha envia a Vicente Emparan para tratar de controlar a situaçom. Foi entom 19 de Abril de 1810, o primeiro passo firme para a liberdade venezuelana; Quinta-Feira Santa em que um povo dominado reconheceu-se luitador, indómito e exigiu a renúncia de Emparan. Aquele seria o primeiro referendo popular na história venezuelana. Emparan entregou o governo à Junta Patriótica nomeada polo Concelho. Mas aquele seria só um primeiro movimento para a Independência; faltavam muitos anos para ver a essa terra livre do jugo realista.

Simón Bolívar já deixava entrever as suas diferenças com a monarquia espanhola. Numha ocasiom, ao brindar com o governador de Caracas dixo: "Levanto o cálice pola felicidade do Rei de Espanha, mas elevo-a mais alto pola Liberdade de América". Má senha para os realistas, que temiam umha nova conjura independentista, que tinha como antecedentes os movimentos de José Leonardo Chirino, Manuel Gual, José María España e Francisco de Miranda.

Depois deste episódio, Bolívar partiu a Inglaterra numha missom diplomática, em companhia de dom Andrés Bello e Luis López Méndez. Estando em Inglaterra, produziu-se o encontro com Francisco de Miranda, quem entom carregava sobre os seus ombros a fama de ter participado na Revoluçom Francesa. Ao seu regresso à Pátria, Bolívar fijo parte da Sociedade Patriótica junto a Miranda, e propugérom-se umha luita pola soberania. A Independência em Venezuela proclamou-se em 5 de Julho de 1811. Germán Carreira Damas conta este episódio: "A declaraçom de

Bolívar e os seus próximos -Andrés Bello, José Félix Ribas, Martín Tovar, Guillermo Pelgrón, Germán Roscio, Lino de Clemente, Mariano Montilla, Juan Vicente Bolívar, Dionisio Sojo, o cónego José Cortés de Madariaga, Vicente Salias, José Ángel

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Independência abriu para Bolívar as portas da história. Até esse momento a sua actuaçom tinha sido equiparável à de outros ardentes jovens que abraçárom com verdadeira paixom a nova causa. A reacçom das forças que representavam a continuidade do estatus colonial, as dificuldades inerentes ao estabelecimento do novo poder e a tremenda carga de tensons sociais acumuladas, que em essência enfrentava a escravos e pardos com os terratenentes escravagistas crioulos, desembocárom numha situaçom de guerra interna na qual Bolívar se viu chamado a desempenhar um papel de importáncia que correspondia à sua demonstrada decisom pola causa republicana: foi destinado em 1812 a comandar a praça de Porto Cabelo, ponto chave do dispositivo estratégico estabelecido por Miranda, nomeado Generalíssimo com encomenda de salvar a República”.

e políticas. E terminou dizendo: "Se a natureza se opom aos nossos desígnios, luitaremos contra ela e faremos que nos obedeça". Ante a derrota em Porto Cabello, Bolívar deve partir do país, pois a sua presença nom é mui bem vista, ainda que conserva a liberdade graças às suas amizades. Vai-se a Curaçao e dali a Cartagena de Índias, onde proclama o seu Manifesto de Cartagena, e expressa umha profunda dor pola perda da primeira república venezuelana e a necessidade de intervir com os exércitos neogranadinos. Já Bolívar neste discurso chama à unidade e solidez na América, explicando também as causas da queda da primeira república; que em parte se deveu à impunidade ante as conspiraçons, a inexperiência dos exércitos, a burocracia e a ambiçom de poder: "A nossa divisom e nom as armas espanholas, devolvêrom-nos a escravatura", dixo e continuou: "A Nova Granada viu sucumbir a Venezuela, portanto deve evitar os escolhos que tenhem destroçado a aquela. A este efeito apresento como umha medida indispensável para a segurança da Nova Granada a reconquista de Caracas. A primeira vista parecerá este projecto inconducente, custoso e se calhar impraticável; mas examinando com atençom, e umha meditaçom profunda, é impossível desconhecer a sua necessidade, como deixar de pó-lo em execuçom provada a utilidade".

Continua Carreira Damas: "Em circunstáncias nom bem esclarecidas Bolívar perdeu a praça por obra dumha traiçom, mas conseguiu chegar a Caracas para dar parte a Miranda, quem de repente se vê abocado a tratar umha capitulaçom que restabelece o poder real em Venezuela”. "Tivo lugar entom um dos momentos mais confusos da vida de Bolívar: participou numha conjura com o objecto de impedir a fugida de Miranda, de cuja fidelidade e firmeza pola causa da Independência se duvidava, e entregá-lo às forças do Rei". Depois daquele facto Miranda perderia a sua liberdade irrevogavelmente.

Com este magistral discurso Simón Bolívar convenceria ao Congresso de outorgar-lhe meios para umha Campanha que se chamaria Admirável; sem poder prevê-lo assim se encaminhava Bolívar à meta de libertar a sua Pátria, que mais tarde se uniria à segunda e irmá. Poucos apoiárom a Bolívar de maneira incondicional; só o presidente do Congresso de Nova Granada, José Camilo Torres e o prócer local Antonio Nariño. Os seus próprios compatriotas acusava-no de propor-se umha "aventura quimérica", fruto dumha "cabeça delirante"; entre eles, o coronel Manuel Castillo pensava assim, além de opinar que Bolívar era um jovem "demente" que nom entendia a arte da guerra.

Enquanto isso, 26 de Março de 1812, um fenómeno natural sacudiu a cidade de Caracas, Barquisimeto, Mérida, El Tocuyo e San Felipe, províncias que apoiavam a gesta patriota. Os realistas aproveitárom a oportunidade para vociferar que o terramoto era um castigo do céu. Na praça de San Jacinto, em Caracas, Bolívar escuitou os frades pregando frente ao povo assustado, a teoria do "castigo divino", por tentar separar-se da autoridade do Rei de Espanha. O jovem Simón pronunciou um veemente discurso em que explicou que aquele lamentável fenómeno sísmico era natural, além de alheio às ideias religiosas

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Depois do pronunciamento do Manifesto de Cartagena de Índias, o caraquenho foi enviado ao Baixo Magdalena, para deixá-lo numha posiçom neutral com umha companhia de setenta homens, cujo trabalho era só vigiar. Mas Bolívar nom ficou ali de braços cruzados enquanto se sabia rodeado de forças realistas. Limpou em dezassete dias o Baixo Magdalena de forças espanholas; em Barraca unírom-se-lhe 130 homens para enfrentar-se mais tarde a 500 espanhóis; passando por Plato unírom-se-lhe 300 voluntários mais.

O exército realista espanhol, comandado por Domingo Monteverde, contava com 16 mil homens e excelente artilharia. Mesmo assim no dia 14 de Maio de 1813, Bolívar saiu com a sua humilde tropa de San José de Cúcuta. Passou por La Grita derrotando os ataques realistas: depois Bolívar chegou com os seus homens a Mérida, e ali recebeu apoio material e a incorporaçom de quinhentos homens.

Nova Granada, véu libertar-vos, e já o tendes no meio de vocês, depois de ter expulso os opressores das Províncias de Mérida e Trujillo. (…) A nossa missom só se dirige a romper as cadeias da servidume que ainda pressionam a alguns de nossos povos, sem pretender dar leis nem exercer actos de domínio que o direito da guerra poderia autorizar-nos”. "Apesar dos nossos justos ressentimentos contra os iníquos espanhóis, o nosso magnánimo coraçom digna-se, ainda, a abrirlhes por última vez umha via à conciliaçom e à amizade; ainda se lhes convida a viver entre nós pacificamente, se detestando os seus crimes e convertendo-se de boa fé, cooperam com nós à destruiçom do governo intruso da Espanha e ao reestabelecimento da República de Venezuela. (…) Vocês, americanos, que o erro ou a perfídia vos extraviou da senda da justiça, sabei que vossos irmaos vos perdoam e lamentam sinceramente os vossos descaminhos, na íntima persuasom de que vocês nom podem ser culpados e que só a cegueira e ignoráncia em que vos tivérom até o presente os autores dos vossos crimes, puderom induzir-vos a eles. Nom temades a espada que vem a vingar-vos e a cortar os laços ignominiosos que vos unem à sua sorte os vossos carrascos. Contai com umha imunidade absoluta na vossa honra, vida e propriedades; o só título de Americanos será a vossa garantia e salvaguarda. As nossas armas vinhérom proteger-vos, e nom se empregarám jamais contra um só dos vossos irmaos. (…) Espanhóis e canários, contai com a morte, ainda sendo indiferentes, se nom actuades activamente em obséquio da liberdade da América. Americanos, contai com a vida, ainda que sejades culpáveis".

Mas entre os mais importantes acontecimentos políticos desta Campanha contra, unírom-se a proclama popular de 26 de Maio, quando foi conferido a Bolívar o título de Libertador na Prefeitura de Mérida. Mais tarde atingiu outra vitória em Trujillo, onde os realistas empreendêrom a retirada. No dia 15 do mesmo mês, desde a pequena cidade andina, Bolívar ditou o Decreto de Guerra a Morte, em que exprimiu: "Um exército de irmaos, enviado polo Soberano Congresso da

Depois de que estas palavras percorressem o país, em 29 de Julho sucedeu a vitória dos patriotas em Taguanes contra o atemorizado coronel realista Julián Izquierdo, que tentou a retirada mas que Bolívar atacou com infantaria à frente e cavalaria na ala direita, provocando o desbordamento do franco contrário. Depois desta estrondosa derrota, o mesmíssimo Monteverde retirou-se a Porto Cabello. Com a via livre para Caracas, Bolívar ocupou Valencia e dous

Avançou polas populaçons abrindo caminhos, engordando as suas filas de voluntários e tomando fortes realistas, para finalmente vencer os realistas em Cúcuta; já com um exército de 700 homens. A sua vontade de aço e o seu indubitável carisma com as tropas permitírom-lhe esta façanha que ainda começava. Esperava em Cúcuta a autorizaçom do Poder Federal Legislativo do Congresso de Nova Granada, para avançar para Venezuela. E mais umha vez José Camilo Torres auxiliou a Bolívar; a licença para prosseguir a marcha para território venezuelano foi concedido e assim começaria a gesta libertadora de Venezuela: a Campanha Admirável.

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dias depois levou a cabo umha capitulaçom com os realistas em La Victoria. O dia 6 de Agosto de 1813 entrou na cidade de Caracas, o pequeno exército que tinha percorrido os agrestes Andes venezuelanos, parte dos Llanos, onde tantas vidas se perdêrom, para que os sobreviventes, os caraquenhos e caraquenhas vissem o final de umha Campanha Admirável. Nom é certo que com a Campanha Admirável finalizasse a dominaçom e a opressom, pois meses depois desta primeira gesta libertadora em Venezuela, umha vez terminada a guerra entre a França e Espanha, a Península Ibérica voltou a sua atençom às Índias e enviou quinze mil veteranos a estas terras a retomar novamente o controlo da situaçom.

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Entrega da Bandeira Vitoriosa de Numáncia Arturo Michelena, 1883. Óleo sobre tela

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Simón, o Libertador O mérito recolhido pola gesta da Campanha Admirável é indubitável, pois permitiu ao jovem Bolívar conhecer melhor os territórios nacionais, dar-se a conhecer como estratega e receber do povo o título de "O Libertador".

acordar consciências, que ainda hoje, 192 anos mais tarde, seguem despertas e atentas às ideias de Bolívar que nunca morrêrom. Aquela concepçom de unidade latinoamericana bolivariana, segue sendo um projecto possível. Botar abaixo os privilégios da mao estrangeira que se apropria da terra americana, desencadear as almas que aqui nascêrom eliminando toda forma de opressom, e entregar nas maos dos americanos e americanas a dignidade desconhecida, som as inquietudes resgatadas que hoje guiam à República Bolivariana da Venezuela.

Comenta Telmo Manacorda: "Esta exaltaçom dourada da glória, como nom a tivo jamais nengum americano, colma o coraçom -a Bolívar-, embora o porvir obscurecido afunde-lhe o pensamento e a olhada". Além das armas espanholas, Bolívar tivo outros inimigos na luita pola Independência e a Unidade em América, como a oligarquia e a Igreja Católica que nom aceitavam o seu interesse integrador e popular. Com sorna chamavam-lhe "o caudilho dos descamisados", "o tirano libertador de escravos". Também o governo de Washington recusava as acçons revolucionárias e em defesa dos oprimidos e oprimidas, por parte do caraquenho Simón Bolívar. Os presidentes James Monroe e John Quincy Adams chamárom-no "déspota militar com talento" e "o louco da Colômbia". O mesmo Francisco de Paula Santander, irmao colombiano que tivo contacto directo com Bolívar e igual que Bolívar pertencia a umha classe bastante favorecida economicamente, nom pudo desprender-se da sua afeiçom polo poder e os bens, para caminhar para a grandeza; Santander acusou ao Libertador de querer provocar "umha guerra interior em que ganhem os que nada tenhem, que sempre som muitos, e que perdemos os que temos, que somos poucos".

Apesar das vitórias anteriores, a firme campanha realista para recuperar o controlo, e a inesperada derrota na batalha de La Puerta, o dia 15 de Junho de 1814, obrigam a Bolívar e a boa parte do povo caraquenho a abandonar a cidade capital, chamada La Emigración a Oriente de 1814, ante a ameaça de temerários caudilhos espanhóis como José Tomás Boves e Manuel de Cajigal. Ante este desesperado cenário, O Libertador lança a sua proclamaçom de Carúpano: "Eu juro-vos, amados compatriotas, que este augusto título que a vossa gratitude me tributou quando vim arrancar-vos as cadeias, nom será em vao. Eu juro-vos que, Libertador ou morto, merecerei sempre a honra que me figestes, sem que tenha potestade humana sobre a terra que detenha o curso que me propugem seguir… Deus concede a vitória à constáncia". Muito ao seu pesar deve deixar momentaneamente a Pátria, pois a ameaça é grande. Parte passando por Curaçao, Cartagena, Ocaña, e finalmente detém-se em Tunja, onde está reunido o

O desenlace daquela Campanha Admirável foi o desejado;

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Congresso neogranadino. Ali recebe-o cordialmente o seu amigo, o presidente do Congresso, Camilo Torres; mas Bolívar sente que falhou em parte. Enquanto as batalhas estavam perdidas na Venezuela, Bolívar aplicou umha Campanha similar à Admirável na Nova Granada, libertando assim Bogotá dos espanhóis; mas segundo Juvenal Herrera Torres "fijo-se inevitável o conflito com muitos dos seus generais e os defensores de um parlamentarismo de fachada formalmente inspirado em modelos europeus”. "Para as oligarquias locais, que já possuíam o poder económico, a Independência deveria garantir-lhes o poder político. Opunham-se a mudanças de fundo nas estruturas sociais e económicas herdadas do império espanhol”. "Bolívar concluiu que a vitória militar séria inútil socialmente se nom adoptava umha política que permitisse a reconstruçom do Estado em benefício das grandes maiorias. As suas ideias universais chocavam com o regionalismo conservador, os egoísmos de classe, a arrogáncia e as invejas mesquinhas da nova aristocracia militar e terratenente. A Igreja excomungou a Bolívar, comparou-no ao mesmo Satanás".

sem temor a ser tomado por quimérico, como figeram tantas vezes alguns militares e políticos, mais por considerá-lo umha ameaça que por louco. Tanto é assim que por aqueles dias tentárom assassiná-lo. Na Carta de Jamaica Bolívar expressa a sua inquietude de unir a Venezuela com a Nova Granada numha só república federal ou central, cuja capital poderia ser Maracaibo; o país teria um executivo electivo, longe da monarquia, possivelmente com umha cámara. Di: "Eu direi a você o que pode pôr-nos em atitude de expulsar os espanhóis e de fundar um governo livre: é a uniom, certamente; mais esta uniom nom nos virá por prodígios divinos, senom por efeitos sensíveis e esforços bem dirigidos. A América está encontrada entre si, porque se acha abandonada de todas as naçons; isolada no meio do universo, sem relaçons diplomáticas nem auxílios militares, e combatida por Espanha, que possui mais elementos para a guerra que quantos nós furtivamente podemos adquirir”. "Quando os acontecimentos nom estám assegurados, quando o Estado é débil e quando as empresas som remotas, todos os homens vacilam, as opinions dividem-se, as paixons agitam-se e os inimigos animam-nas para triunfar por este fácil meio. Depois de que sejamos fortes, sob os auspícios de umha naçom liberal que nos empreste a sua protecçom, verá-se-nos de acordo em cultivar as virtudes e os talentos que conduzem à glória; entom seguiremos a marcha majestosa para as grandes prosperidades a que está destinada a América meridional; entom as ciências e as artes que nascêrom no Oriente e ilustrárom a Europa, voarám à Colômbia livre, que as convidará com um asilo".

Ante a ingratidom, a incompreensom, o fortalecimento do exército espanhol nas Índias em 1815 devido à derrota de Napoleom em Europa -e portanto a queda do seu irmao José em Espanha-, vê-se obrigado a deixar Nova Granada também. Translada-se a Jamaica e ali, em 6 de Dezembro de 1815, escreve um dos documentos mais proeminentes da sua carreira política. "Eu desejo mais do que outro algum ver formar em América a maior Naçom do mundo, nom tanto pola sua extensom e riquezas como pola sua liberdade e glória, ainda que aspiro a que seja polo momento regido por umha grande república como é impossível, nom me atrevo a desejá-lo, e menos desejo umha monarquia universal de América porque este projecto, sem ser útil, é também impossível. Os abusos que actualmente existem nom se reformariam e a nossa regeneraçom seria infrutuosa".

Herrera Torres continua: “Bolívar libertou os escravos, determinou que as terras fossem restituídas aos índios, instituiu a educaçom gratuita, criou hospitais, protegeu a produçom nacional da concorrência com as mercadorias importadas, incentivou a indústria e o comércio, nacionalizou as minas e decretou o monopólio estatal de todas as riquezas do subsolo, combateu a corrupçom, defendeu a soberania nacional no diálogo com os Estados Unidos e Inglaterra. (…) A sua ditadura

Esta citaçom pertence ao documento chamado "A Carta de Jamaica", onde O Libertador expressa com palavras visionárias,

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do ano 1828, tam caluniada polas forças da direita, foi, pola sua concepçom e fins, umha antecipo da ditadura do proletariado, tal como a definiria Lenine quase um século depois".

conselho de Estado e um conselho de governo. Ainda quando mantinha diferenças com Mariño, Bermúdez e Piar, naquela ocasiom Bolívar luita pau a pau com os dous primeiros para conseguir estabelecer-se em Angostura; mas nom há modo de terminar com as rivalidades e confrontos internos e cedo a situaçom deriva no julgamento a Piar e o seu fuzilamento em 16 de Outubro de 1817 . Bolívar fai um apelo a José Antonio Páez, quem comandava um exército de llaneros, a que se lhe una. Em companhia de Anzoátegui, Cedeño, Monagas, Soublette e Santander, vencem novamente os realistas em Fevereiro de 1818, perto de Calabozo. No centro do país Bolívar foi derrotado duas vezes pois Páez nega-se a sair do seu território de Los Llanos. Mais tarde em Abril do mesmo ano, tentam assassinar a Bolívar no Rincón de los Toros. Regressa a Angostura e convoca um Congresso para estabelecer as bases da nascente República.

Este sobrevoo que fai Herrera adianta-nos que a carreira militar e política de Bolívar, as suas acçons e o seu pensamento serám antecipados à sua época, visionários e quase constantemente incompreendidos. Mas ainda faltava para que Bolívar fosse ditador da Grande Colômbia. Em 1816, de Jamaica O Libertador passou para Haiti onde o presidente da ilha, Alexandre Petión, lhe brindou o seu apoio moral e económico -seis mil espingardas, víveres, umha tipografia completa e sete goletas- para cargar novamente contra a monarquia que se acomodava na Venezuela. Enquanto Francisco de Miranda morria no cárcere da Carraca em Cádiz, na Venezuela alguns heróis da Campanha Admirável, juntavamse no Oriente do país. Santiago Mariño, Manuel Piar, Luis Brión, José Francisco Bermúdez, Bartolomé Salón, Gregor Mac Gregor, Carlos Soublette e Juan Bautista Arismendi, entre outros, tivérom diferentes papéis numha nova experiência libertadora do Oriente do país, que se chamaria A Expediçom de Los Cayos. Nesta produziu-se o combate naval de Los Frailes e ao chegar a terra firme umha assembleia encabeçada por Arismendi concede poderes especiais ao Libertador para emancipar Venezuela. Chegando a Carúpano, Bolívar proclamou a aboliçom da escravatura, mas em Ocumare de la Costa foi vencido polo exército espanhol e deve fugir novamente a Haiti.

Em 17 de Fevereiro de 1819 instala-se o Congresso de Angostura. Eduardo Galeano ilustra o momento: "Sob o toldo, numha barca que navega polo Orinoco, Bolívar dita aos secretários o seu projecto de Constituiçom. Escuita, corrige e volta a ditar no acampamento, enquanto a fumaça da fogueira o defende dos mosquitos. Outras barcas trazem deputados desde Caracas, Barcelona, Cumaná, Barinas, Guayana e a ilha Margarita. De repente mudárom os ventos da guerra, se calhar em homenagem à obstinaçom de Bolívar, e em súbita rajada a metade de Venezuela voltou a maos dos patriotas”. "Os delegados ao Congresso desembarcam no porto de Angostura, povo de casinhas desenhadas por um neno. Em imprensa de brinquedo -aquela obsequiada por Petiónimprime-se aqui, semana após semana, -desde 27 de Junho de 1818- El Correo del Orinoco. Desde a selva, o porta-voz do pensamento republicano difunde os artigos dos doutores crioulos e avisos que anunciam a chegada da cerveja, canivetes, arreios e soldados voluntários desde Londres. "Três salvas de canhom saudam a Bolívar e ao seu Estado Maior. Fogem os pássaros, mas umha arará caminha, indiferente, com

Em Dezembro do mesmo ano, em 1816, Bolívar volta à costa venezuelana na Segunda Expediçom de Los Cayos, que lhe permitiu a Conquista de Guayana. Com o apoio de Manuel Piar e Manuel Cedeño sitiam Angostura, hoje Cidade Bolívar. Os patriotas vencêrom em 11 de Abril de 1817 na batalha de San Félix aos realistas e o mesmo sucedeu na Batalha Naval do Orinoco. Umha vez tomada a cidade, Simón Bolívar nomeia-a capital provisória da República; cria umha corte de justiça, um

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andares de valentom. Os deputados sobem a escadaria de pedra. Francisco Antonio Zea, prefeito de Angostura, abre a sessom. O seu discurso compara a esta patriótica vila com Menfis, Tebas, Alexandria e Roma. O Congresso confirma a Bolívar como chefe do exército e presidente de plenos poderes. Designa-se o gabinete. "Depois Bolívar ocupa a tribuna. 'Os ignorantes', adverte, 'confundem a realidade com a imaginaçom e a justiça com a vingança'… E fundamenta o seu projecto de Constituiçom, elaborado sobre a base da Carta Magna dos ingleses". Num discurso imponente, Simón Bolívar dirige-se aos deputados dizendo: "Ditoso o cidadao que sob o escudo das armas do seu mando convocou a soberania nacional para que exerça a sua vontade absoluta! Eu, pois, conto-me entre os seres mais favorecidos da Divina Providência, já que tivem a honra de reunir aos representantes do povo da Venezuela neste augusto Congresso, fonte da autoridade legítima, depósito da vontade soberana e árbitra do destino da naçom. "Ao transmitir aos representantes do povo o Poder Supremo que se me tinha confiado, colmo os votos do meu coraçom, os dos meus concidadaos e os das nossas futuras geraçons, que todo o esperam da vossa sabedoria, rectitude e prudência. Quando cumpro com este doce dever, liberto-me da imensa autoridade que me pressionava, como da responsabilidade ilimitada que pesava sobre as minhas débeis forças. Somente umha necessidade forçada, unida à vontade imperiosa do povo, teriame submetido à terrível e perigosa encomenda de Ditador Chefe Supremo da República. Mas já respiro devolvendo-vos esta autoridade, que com tanto risco, dificuldade e pena conseguim manter no meio das tribulaçons mais horrorosas que podem afligir a um corpo social! "(…) No meio deste pélago de angústias nom fum mais do que um vil brinquedo do furacám revolucionário que me arrebatava como umha débil palha. Eu nom pudem fazer nem bem nem mal; forças irresistíveis dirigírom a marcha do nossos acontecimentos; atribuir-mo nom seria justo e seria dar-me umha importáncia que nom mereço. Queredes conhecer os autores dos acontecimentos passados e da ordem actual?

Consultai os anais de Espanha, de América, da Venezuela; examinai as Leis das Índias, o regime dos antigos mandatários, a influência da religiom e do domínio estrangeiro; observai os primeiros actos do governo republicano, a ferocidade dos nossos inimigos e o carácter nacional. Nom me perguntedes sobre os efeitos destes transtornos para sempre lamentáveis; mal se me pode supor simples instrumento dos grandes móveis que figérom sobre Venezuela; no entanto, a minha vida, a minha conduta, todas as minhas acçons públicas e privadas estám sujeitas à censura do povo. Representantes! Vocês devem julgálas. Eu submeto a história do meu mando à vossa imparcial decisom; nada adicionarei para escusá-la; já dixem quanto pode fazer a minha apologia. Se mereço a vossa aprovaçom, terei atingido o sublime título de bom cidadao, preferível para mim do de Libertador que me deu Venezuela, do de Pacificador que me deu Cundinamarca, e dos que o mundo inteiro pode dar". E afinal assinala que "A reuniom de Nova Granada e Venezuela num grande Estado foi o voto uniforme dos povos e governos destas Repúblicas. A sorte da guerra verificou este enlace tam almejado por todos os colombianos; de facto estamos incorporados. Estes povos irmaos já vos confiárom os seus interesses, os seus direitos, os seus destinos. Ao contemplar a reuniom desta imensa comarca, a minha alma remonta-se à eminência que exige a perspectiva colossal, que oferece um quadro tam assombroso. Voando por entre as próximas idades, a minha imaginaçom fixa-se nos séculos futuros, e observando desde lá, com admiraçom e pasmo, a prosperidade, o esplendor, a vida que recebeu esta vasta regiom, sendo-me arrebatado e me parece que já a vejo no coraçom do universo, estendendo-se sobre as suas dilatadas costas, entre esses oceanos, que a natureza tinha separado, e que a nossa pátria reune com prolongados e largos canais. Já a vejo servir de laço, de centro, de empório à família humana; já a vejo enviando a todos os recintos da terra os tesouros que abrigam as suas montanhas de prata e de ouro; já a vejo distribuindo polas suas divinas plantas a saúde e a vida aos homens doentes do antigo universo; já a vejo comunicando os seus preciosos segredos aos sábios que

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ignoram quam superior é a soma das luzes, da soma das riquezas, que esbanjou à natureza. Já a vejo sentada sobre o trono da liberdade, empunhando o ceptro da justiça, coroada pola glória, mostrar ao mundo antigo a majestade do mundo moderno”.

espécies, como as vicunhas. Mas sobretodo, e um dos mais exemplares, em matéria da soberania e independência, é o decreto de Bolívar sobre minas. De um carácter revolucionário indubitável, este decreto nacionalizador de recursos nom renováveis estabelece que "as minas de qualquer classe pertencem à República", pois "a riqueza nacional da República está quase toda nas suas minas". Muitos nom entendêrom o seu pensamento; outros entendêrom muito bem e por tanto vírom nele umha ameaça aos seus interesses, e tentárom assassiná-lo, caluniá-lo, como se verá mais adiante, enquanto tratava de unir os países do Sul com a Grande Colômbia.

"Dignai-vos, legisladores, a acolher com indulgências a profissom da minha consciência política, os últimos votos do meu coraçom e os rogos fervorosos que em nome do povo me atrevo a dirigir-vos. Dignai-vos a conceder a Venezuela um Governo eminentemente popular, eminentemente justo, eminentemente moral, que encadeie a opressom, a anarquia e a culpa. Um Governo que faga reinar a inocência, a humanidade e a paz. Um Governo que faga triunfar sob o império de leis inexoráveis, a igualdade e a liberdade".

Efectivamente, depois do discurso de Angostura, cria-se a Grande Colômbia e Bolívar parte a Nova Granada, onde também é nomeado presidente; sucedem umha série de encontros bélicos pola liberdade de Nova Granada, agora um só país com Venezuela. Em Gameza o dia 11 de Julho de 1819 os patriotas vencêrom, igual que em Vargas em 25 de Julho e finalmente na gloriosa Batalha de Boyacá, 7 de Agosto de 1819; cuja vitória fai a Bolívar o líder indiscutível do exército e do governo neogranadino. Mas Bolívar também deve ocupar-se de terminar a mesma tarefa na sua pátria; em 24 de Junho 1821 livra-se a grande Batalha de Carabobo, onde finalmente Venezuela se emancipa das últimas frestas do poder espanhol. Entom começaria a Campanha do Sul, na qual O Libertador se lança à enorme tarefa de dar este bem tam precioso, que já dera a Venezuela e Nova Granada, aos países do Sul, Equador, Peru e Alto Peru; este último chamariase posteriormente Bolívia, na sua honra.

Bolívar neste discurso deixa entrever as suas mais sinceras intençons para com essa Pátria Grande que estava por nascer; o que anelava Bolívar era dar justiça a umha terra onde a iniquidade tinha reinado nos últimos trezentos anos. O seu maior objectivo era sementar o amor à pátria e às leis; e dar ao povo o que lhe correspondia. Propom a educaçom popular: "moral e luzes som os pólos da República"; para que a educaçom servisse como instrumento para acusar a corrupçom, a negligência, a ingratidom, a frialdade e indiferença para a pátria, o egoísmo e o lazer. "Eu nom falaria dos actos mais notáveis de meu mando se estes nom incumbissem à maioria dos venezuelanos", dixo. Assim mesmo, entendia desde o princípio desta luita que a Unidade era o único caminho para se encaminhar à paz verdadeira: "Todas as nossas faculdades morais nom serám bastante, se nom fundimos a massa do povo num todo". E assim o fijo; entendeu que a força dum titám continental seria muito maior, como a de Estados Unidos mas com um governo justo e popular. Bolívar lançou decretos sobre direitos indígenas, aboliçom da escravatura, a prol da igualdade, sobre protecçom à infáncia, sobre moral, sobre protecçom ambiental e preservaçom de

A Campanha inicia-se com a vitória de Bomboná em 7 de Abril de 1822. E à sua vez o braço direito de Bolívar, o jovem Antonio José de Sucre completa a libertaçom de Equador com a Batalha de Pichincha 24 de Maio. Sucre, jovem estrategista e talentoso militar, cumanês de nascimento, ganhou-se a admiraçom e o carinho do caraquenho imortal. Durante a entrada triunfal de Bolívar a Quito, chovêrom os

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loureiros e foi momento de celebraçom, conheceu num baile a quem seria nomeada pelo Libertador, como "A Caballeresa do Sol", "A Quitenha Imortal", ou "A Libertadora do Libertador"; a inigualável Manuela Sáenz. Esta fascinante personagem entrou na vida pessoal e amorosa de Simón Bolívar; conhecêrom-se dele outros amores, mas nengum outro tam constante e profundo, ao que lhe dedicasse as linhas mais apaixonadas e acendidas: "Tu estarás só, Manuela. E eu estarei só no meio do mundo. Nom terá mais consolo do que a glória de ter-nos vencido". Manuela acompanhara-o em viagens, no cuidado do seu arquivo pessoal, nas suas decisons mais difíceis, nas cumplicidades e na intimidade.

sustentar em comum, defensiva e ofensivamente se fosse necessário, a soberania e independência de todas e cada umha das potências confederadas de América contra toda dominaçom estrangeira; e assegurar-se desde agora para sempre os gozes de umha paz inalterável e promover para efeito a melhor harmonia e boa inteligência, assim entre os seus povos, cidadaos e súbditos, respectivamente, como com as demais potências com quem devem manter ou entrar em relaçons amistosas". O grande mérito de Simón Bolívar a este respeito, por ter sido o artífice deste evento no Convento de Sam Francisco em Panamá, é ter sido o primeiro Chefe de Estado interessado em reunir também, pola primeira vez, a um grupo de naçons livres a dialogar em torno aos seus interesses comuns, os seus problemas e soluçons. No entanto, nesse momento já os separatistas faziam dano por todos os lados. O sonho de Bolívar nom duraria tanto tempo flutuando, pois a cobiça, os interesses pessoais e as ambiçons de poder apoderárom-se dos dous vice-presidentes a quem tinha encarregado o cuidado da Nova Granada e Venezuela. Páez e Santander nom entendiam de unidade, nem se travárom em escrúpulos para desarmar a Grande Colômbia.

Mais tarde, umha importante cimeira sucederia na vida de Bolívar. Um abraço selou a reuniom entre José de San Martín e Bolívar em Guayaquil numha célebre entrevista, decorrida em 26 de Junho de 1822; San Martín deixou a Bolívar a missom de luitar pola Independência do Peru. Peru ficou libertada com as Batalhas de Junín o dia 6 de Agosto de 1824, e a vitória do Grande Marechal Sucre, cargo que lhe foi atribuído a partir deste encontro- a Batalha de Ayacucho, 9 de Dezembro de 1824. Do território do Alto Peru nasceu o primeiro país em homenagem a Simón Bolívar, chamado Bolívia, cujo presidente foi Sucre.

Bolívar fazia grandes esforços e nom via a ameaça directamente em nengum deles. De facto, enquanto estivo na Venezuela em 1827 tivo que entregar os poderes civis totais a José Antonio Páez. Realiza-se a Convençom de Ocaña e resulta em diferentes enfrentamentos partidários e personalistas; o que finalmente termina na Ditadura do Libertador, que lhe ofereceu o povo. Nom resultava fácil para O Libertador trabalhar pola paz da Grande Colômbia, pois a cada momento se toma conhecimento dumha nova traiçom, umha nova rebeliom. Em 1829 houvo duas tentativas de magnicídio, dirigidos a Bolívar. Dos dous salvou-no Manuela Sáenz. O primeiro foi numha festa de disfarces; Manuela disfarçou-se de homem e fijo um escándalo para que Bolívar saísse do lugar. O segundo, sem querer acreditar o que se gestava na sua contra, Bolívar dormia no seu quarto em Bogotá com Manuela, quem já tinha referências do atentado. Ela

Umha vez culminada a Campanha do Sul, Bolívar deu-se à tarefa de organizar e realizar o Congresso Anfictiónico de Panamá, realizado em 22 de Junho de 1826, onde os representantes da Grande Colômbia, Guatemala, México e Peru (que actualmente som Colômbia, Venezuela, Equador, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua, México e Peru) criarom um tratado de uniom, umha confederaçom perpétua; umha convençom de contingentes navais e terrestres; um exército e armada comum, e um acordo para retomar em 1827 as sessons no México. A declaraçom dizia: "O objecto deste pacto perpetuo será

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escuitou ruídos e indicou que se lançara pola janela. O mesmo homem que libertou meia América da Espanha opressora, deveu ocultar-se debaixo dumha ponte nas proximidades do rio San Agustín. O Libertador tinha herdado a tísica que tinha matado à sua mae. As viagens polos Andes majestosos, as chuvas inclementes dos países tropicais, a humidade, as condiçons inumanas em que viveu boa parte dos seus dias, no campo, na selva, declarariamlhe a guerra esta vez e começariam a prestar contas. Depois desta tentativa de assassinato, nada voltou a ser igual para Bolívar. Muitas das suas esperanças e a sua confiança nos homens que agora o atraiçoavam, todo se rompia. Ainda estando doente viaja a Guayaquil para tentar deter as tendências separatistas. À sua vez em 1829 recusa um projecto para estabelecer a monarquia na Colômbia: "Eu nom som Napoleom nem quero sé-lo; também nom quero imitar ao César; ainda menos a Iturbide. Tais exemplos parecem-me indignos de minha glória: O título de Libertador é superior a todos os quais recebeu o orgulho humano, Portanto, é impossível degradá-lo", escreveu sobre isto. Em Janeiro de 1830, apresenta a sua renúncia ao Congresso de Bogotá. O seu estado de saúde piora e translada-se a Cartagena. Enquanto em Bogotá, Manuela Sáenz acompanhada de alguns bolivarianos tentam um golpe de estado que tivo sucesso em princípio, mas posteriormente lhe mereceria um triste exílio à quitenha. Um dos factos que rompeu a vontade do Libertador foi o vil assassinato do Grande Marechal de Ayacucho, Antonio José de Sucre. A manhá de 4 de Junho de 1830, na montanha de Berruecos, quatro disparos tirárom a vida ao jovem que pensava dedicar-se à vida familiar. Ao saber disto Bolívar dixo com os olhos cheios de lágrimas: "Derramárom o sangue de Abel!".

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Bolívar corre polas nossas veias Inti Maleywa, 2004. Lápizes de cores

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Simón Bolívar Libertador de naçons, criador da Pátria Grande

A sua morte continua cargada de enigmas e mistérios Até há poucos anos existia umha prática unanimidade historiográfica à hora de datar a morte do libertador em 17 de Dezembro de 1830 por causa de tuberculose, rodeado do seu estado maior, na quinta Sam Pedro Alejandrino, perto de Santa Marta, na actual costa caribenha colombiana. Porém o historiador Jorge Mier Hoffmam questiona esta tese nos três tomos do seu bem documentado e rigoroso livro La Carta, cujo primeiro volume foi publicado em Caracas em 2008. Bolívar nom morreu por causas naturais, nem por envenenamento, nem por má praxe. Todo quanto tem sido escrito até a data sobre a morte do Libertador nom é mais que umha falácia. Houvo umha conspiraçom promovida polas potências imperialistas em que colaborárom aqueles que se diziam leais e que o acompanhárom até os seus últimos dias em Santa Marta.

plano que tinha traçado. O Libertador nom esquecera a sarcástica frase do marechal Sucre: “Meu general, semelha que sementamos tam fundo o ideal da independência que agora todos querem independizarse, os uns dos outros ...”. Assassinar Sucre e Bolívar convertera-se numha obsessom para os seus inimigos. Era a única forma de enterrar a glória da liberdade e o projecto integrador e anti-imperialista que encarnavam. Os espanhóis, ingleses e norteamericanos sabiamno, os seus detractores conspiravam e os seus inimigos faziam o possível para atingi-lo. Bolívar nom só luitava em inferioridade contra os mais poderosos exércitos do mundo, mas também devia vencer a natureza, enterrar os detractores políticos, derrotar as conspiraçons, e sair ileso dos assassinos que emboscavam. Participara em 450 sangrentas batalhas na primeira linha de fogo e nunca sofrera umha ferida ... Rejeitava as armas de pólvora e as pistolas por considerá-las indignas do valor que exigem os duros combates corpo a corpo ... A cavalo percorrera o equivalente a duas vezes e meia a volta ao mundo, combatendo em todos os terrenos: fortes, praias, desertos, cidades, barcos, planícies, rios, selvas, montanhas, mares e até cimeiras nevadas... Sempre dava o primeiro passo quando havia que incitar a tropa nas tarefas difíceis de atingir.

Bolívar quando abandona Bogotá o dia 8 de Maio de 1830, contrariamente à versom até agora indiscutível de que estava triste, melancólico, vilipendiado, doente e agonizante, sai com energia acompanhado do seu séqüito e do Primeiro Batalhom de Caçadores, a elite do seu exército libertador. Frente ao que narra García Márquez em “O general no seu labirinto” nom estava procurando o exílio europeu nem renunciando toda umha vida de combate pola unidade latinoamericana. Pretendia reagrupar as suas forças para evitar a desintegraçom separatista da Grande Colômbia polos caudilhos locais sob a batuta dos Estados Unidos, Inglaterra e Espanha. Aquelas cartas em que lamenta o seu precário estado de saúde som umha inteligente estratagema para confundir inimigos, evitar suspeitas, e assim poder implementar com sucesso o

Agora sabemos que umha concatenaçom de falsidades reproduzidas nos últimos 180 anos tam só pretende perpetuar a falácia sobre o seu final. Em Novembro de 1830 quando tinha abandonado o porto de Sabanilla no barco Manuel para ir ao encontro das suas tropas

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foi abordado e feito prisioneiro polo navio da armada norteamericana Grampus quem “escoltou” o Libertador até Santa Marta onde foi posteriormente assassinado nas propriedades de Joaquín de Mier, um rico crioulo fiel à monarquia espanhola de Fernando VII.

perto de Santa Marta, onde permaneceu enterrada, escondida por décadas após grossas paredes de adobe, como para que nom fosse encontrada nunca jamais. Tal como manifesta a insurgência colombiana “a sua folha é de aço, afiada ainda, preparada para o combate, e a sua empunhadura umha conjugaçom de bronze e um mogno claro com rebites de cobre. Resistiu incólume o passo do tempo e o salitre para ser causa de glória e triunfo dos povos do continente”.

Em 1962 o embaixador gringo em Bogotá, num acto televisado, entregou a Academia de História colombiana cópias fotostáticas do caderno de Bitácora do Grampus confirmando estes factos. Mas a prova fundamental desta tese que está revolucionando a história da América Latina e as Caraíbas, e fortalecendo o movimento bolivariano, é umha carta que como última vontade permitem os seus carrascos escrever a Fanny Duvillar, a sua prima francesa com a qual tinha tido um romance em 1804. Umha aparentemente inocente carta de amor a umha antiga namorada é um transcendental documento histórico dirigido aos povos da Grande Colômbia a prol da unidade, onde empregando os códigos cifrados da massonaria identifica os seus assassinos, denuncia a conspiraçom, como foi atraiçoado e seqüestrado e onde está enterrado.

Afortunadamente “som uns imperialistas fracassados” tal como manifestou o grande patriota galego Daniel Castelao referindose aos espanhóis. Hoje, novamente a espada desembainhada de Simón Bolívar percorre América Latina e as Caraíbas, do Rio Grande à Terra de Fogo, combatendo o imperialismo, as oligarquias e burguesias colaboracionistas, agora na procura da segunda e definitiva Independência e o Socialismo. Pátria, Socialismo ou morte!

Embora a carta tinha sido publicada em 23 de Abril de 1925 no jornal El comercio de Barranquilla, após ter sido comprada a antiquários desta cidade, nom se pudo conhecer o seu verdadeiro conteúdo até que um familiar de Joaquín de Mier entrega ao historiador 2.000 documentos e objectos inéditos do Libertador que tinham sido custodiados e ocultos pola família Devengoechea de Mier. Deste jeito foi possível decifrar a carta que desmente as mentiras do falso médico francês Alexandre Próspero Révërend e de Joaquín Posada Gutierrez, presuntos testemunhos das últimas semanas de agonia de Bolívar. Esta revelaçom nom só questiona que os seus restos estejam no Panteom Nacional da Venezuela pois Bolívar nom faleceu em Sam Pedro Alejandrino, mas também tem permitido que a sua espada de combate tenha sido resgatada polas FARC-EP das entranhas de umhas catacumbas coloniais, na beira do mar,

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Bolívar no Continente Inti Maleywa, 2004. Lápizes de cores

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Consulado General de la República Bolivariana de Venezuela en Vigo


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