6 meses de Ásia
BRUNO SALMONI

CAPÍTULO 2B
SAMPHANTHAWONG
A Chinatown de Bangkok

Homem transporta mercadorias em uma viela estreita onde não passam carros. Nas laterais, as portas e janelas de madeira com formas retangulares e coloridas, muito características.
Em alguns lugares do movimentado bairro chinês de Bangkok, é possível encontrar paz e serenidade.

Samphan thawong
O distrito chinês de Bangkok, com várias faces e muita história



Bangkok tem uma das maiores comunidades de imigrantes chineses do mundo. O bairro de Samphanthawang ainda preserva muito das características provenientes da cultura chinesa de séculos atrás.

Uma das vielas principais do distrito, com mercados movimentados.
Quando eu era pequeno, lá pela década de 90, saíram alguns filmes esquisitos que retratavam os bairros chineses (Chinatowns) americanos de uma maneira bastante caricata, que hoje em dia teriam sérios problemas pelo caráter racista e estereotipado.
Nesses filmes, havia sempre algo em comum – os bairros chineses eram representados como labirintos de vielas estreitas, repletas de pessoas andando para lá e para cá, diversas barracas de comida e pessoas vendendo quinquilharias diversas, muito vapor, calor, suor, prédios com letreiros com ideogramas, e uns senhores fumando e que não conseguiam falar a língua do protagonista estadunidense.
As representações geralmente são muito problemáticas. As Chinatowns são sempre mostradas como lugares sujos e moralmente decadentes. O
ambiente, exótico e sempre distante da realidade dos protagonistas, é apenas uma ferramenta de cenário, lido como utilitário para o homem branco consumir comida ou comprar bugigangas.
Tem uma certa desumanização em tudo isso. Desde pequeno eu fui influenciado por essas imagens, e fiquei curioso de saber o quanto era verdade. Ir para Bangkok foi uma oportunidade de conhecer uma Chinatown autêntica, e um mergulho no bairro ajudou a trazer mais realidade para tanta mistificação.
O distrito de Samphanthawong é a Chinatown de Bangkok e, apesar de ser o menor bairro da cidade em área, ainda é um dos maiores distritos chineses do mundo.
A história da comunidade chinesa em Bangkok data desde o final do século 18, quando os reis tailandeses contaram com o apoio de imigrantes das etnias Teochew e Hokkien para o abastecimento da recém-fundada cidade com arroz e outras provisões e, em troca, cederam-lhes terras próximas ao palácio real às margens do Rio Chao Phraya.
Ao longo dos séculos seguintes, a região prosperou com os comerciantes chineses, que passaram a crescer em número e atraíram também outras etnias.
No fim do século 20 e início do século 21, no entanto, as mudanças nas características de comércio e a expansão rápida de Bangkok fizeram com que Samphanthawong sofresse certo declínio, mas o bairro permanece como um centro de cultura e tradições dos imigrantes chineses.
Os guias e roteiros direcionados aos turistas ocidentais vão caracterizar o bairro como um ambiente ótimo para comer pad thai e outras comidas de rua, ou tomar chá e comer bolinhos em uma larga avenida cheia de lojas com letreiros de ideogramas chineses. Não deixa de ser verdade, e o turista pode aproveitar tudo isso se estiver disposto a encarar filas de pé na rua, mas isso é apenas o aspecto turístico de lá.
O miolo do bairro tem ares reclusos, misteriosos e até mesmo serenos.
Samphantwhawong é um bairro onde pessoas reais vivem, integradas mais ou menos à cultura tailandesa há séculos. As pequenas travessas que saem da grande avenida principal são labirintos estreitos que permeiam residências e locais de convivência e cultos religiosos.
Andar por essas vielas pode trazer surpresas. Nas vielas principais, o comércio é intensamente movimentado, marcando a característica histórica fundamental do bairro. Há mercados e feiras fervilhantes onde os locais compram mantimentos e fazem refeições, dividindo o espaço com centenas (ou milhares) de pedestres, scooters e até mesmo tuk-tuks passando para cá e para lá.
Mas há vielas tranquilas e silenciosas (na medida do possível), onde podemos encontrar homens sentados lendo jornal ou assistindo algo no celular. Um gato aqui, outro ali, andam sorrateiramente até um homem passar carregando caixas de um depósito até o mercado. Nas primeiras horas da manhã, monges budistas circulam coletando doações no ritual da ronda das almas – mostrando que a cultura tailandesa também faz parte da vida dessas pessoas.
O caos impera em todos os centímetros do alcance visual. Paredes descascadas revelando tijolos, bicicletas encostadas ou amontoadas, entulho largado, cadeiras velhas abandonadas, extintores de incêndio, plantas diversas. Até mesmo algumas casas com portas abertas deixando ver uma família almoçando ou pessoas sentadas no sofá assistindo televisão. Elementos da cultura chinesa estão desde pequenos selos estampados nas entradas nas casas, até pela presença de casas de chá centenárias e altares taoístas.
Estranhamente, tudo isso junto tem uma certa harmonia, e é exatamente essa bagunça que faz do bairro ser o que ele é.
Direita
Homem transportando caixas de um depósito até um dos vários mercados locais.
Abaixo
O bairro também abriga residências como esta, que muitas vezes ficam com janelas e portas abertas direto para as vielas.



Ao final do século 20, a modernização de Bangkok e o declínio da importância comercial de Samphanthawong fizeram com que algumas partes do bairro ficassem “abandonadas”. Principalmente os depósitos e píeres junto ao Rio Chao Phraya, ao longo de uma longa rua retilínea chamada Song Wat.
Seguindo a tendência de vários lugares do mundo, movimentos recentes tomaram esses prédios ora caídos e os transformaram em lugares descolados.
Hoje, ao longo dessa rua é possível encontrar galerias de arte, diversas lojas de design e cafés –passando a atrair milhares de pessoas, não apenas turistas estrangeiros, mas também toda uma geração jovem de tailandeses que gosta de se inserir nesses espaços de cultura e de exposição “instagramável”.
Nessa tocada, a rua Song Wat foi colocada na lista dos 40 lugares mais bacanas do mundo - segundo a revista Time Out - trazendo ainda mais visibilidade e interesse turístico para a Chinatown de Bangkok.
Naturalmente, com esse novo panorama, existe a preocupação com a gentrificação e o futuro do bairro, tão tradicional.
Por mais que haja um aumento na ideia de uso do bairro como ambeinte de consumo, ainda são as pessoas, os habitantes do bairro que constroem a vida e todo o ambiente de Samphanthawong. São as pessoas que mantêm vivas as tradições trazidas pelos ancestrais Teochew e Hokkien, tão fundamentais na construção da própria Bangkok.
A existência das pessoas é o que faz o bairro ter a sua alma, sua vida, e ser tão distinto de todos os outros.



Talvez esse já tenha sido um espaço de vivência, mas hoje está cheio de entulho. Na placa se lê “centro de vigilância às drogas da comunidade do distrito de Samphanthawong”.

Porta parcialmente murada.

Todas as manhãs, os monges passam para recolher doações de alimentos na cerimônia de ronda das almas, um ritual tradicional do budismo theravada tailandês, o que mostra assimilação dos imigrantes chineses à cultura local.


Uma das vielas estreitas vai dar nos fundos de um mercado, onde esta cozinha prepara ativamente dezenas de bolinhos fritos.


Esquerda - mulher cozinhando em uma cozinha improvisada em uma das várias travessas de Samphanthawong.

Frangos assados esperando para serem vendidos.


Carros não passam pelas vielas estreitas, mas os tuk-tuks sim. Neste caso, não são turísticos, mas servem como “carros de carga”, veículos motorizados que permitem o transporte rápido de algumas mercadorias.



... e fala com vários residentes locais. O que será que ela faz?


Nos últimos tempos tem sido comum a cena de antigas casas e galpões na rua Song Wat passando por reformas e reestruturação, ganhando ares descolados mas mantendo um pouco da natureza tradicional de Samphanthawong, especialmente na arquitetura - as portas com esses temas retangulares.

Esses edifícios passam a abrigar cafés, galerias e lojas de design, garantindo com que o distrito de Song Wat seja hoje considerado um dos lugares mais “bacanas” do mundo.

Uma das vias comerciais principais do bairro, mantendo uma certa serenidade e tradição em meio ao caos e modernização.
