

6 meses de Ásia
BRUNO SALMONI

INTRODUÇÃO
Viagem

Este sou eu, fotografando em uma viela estreita de Bangkok, na Tailândia. Durante 6 meses, a rotina foi andar todos os dias com minha câmera a tira-colo, pronto para registrar o que me chamasse a atenção.
Em um albergue movimentado no centro de Hangzhou, uma das cidades mais importantes da fervorosa economia chinesa, um grupo de jovens promissores se reúne em uma bancada ao redor de dois estrangeiros. Estamos em 2018, eu e minha companheira estávamos há 8 meses em nossa primeira longa viagem - que iria se completar no ano seguinte, totalizando um ano na estrada.
O clima estava interessante. Os jovens estavam muito animados em saber mais sobre nós. Falamos de onde viemos, que havíamos largado tudo e estávamos em uma longa viagem ao redor do mundo. A conversa, aos trancos e barrancos por causa da língua, vai se desenrolando até o momento em que um deles faz uma pergunta por meio de um sticker. “WHY IMPORTANT?”.
Foi muito curioso alguém fazer essa pergunta. Até então, por meses a fio encontrando pessoas de diversas origens em diversos lugares, ninguém tinha questionado o porquê de uma viagem. Essa foi a primeira vez que precisamos parar para pensar em como explicar o significado real de desapegar de tudo para ir explorar o mundo, algo que sempre nos pareceu muito óbvio. Então por alguns instantes nos entreolhamos sem saber muito bem por onde começar.
Existem diversos motivos para sair em uma viagem. Mas eles podem se resumir em dois: o primeiro é conseguir ter experiências diferentes das que vivemos no dia-a-dia, então poder ir para lugares novos, ver paisagens exuberantes e exóticas, conhecer pessoas novas, comer comidas típicas, enfim, ter a experiência sensorial completa com visões, barulhos, cheiros, sabores, que não é possível numa “viagem através da tela”. O segundo é viver pelo menos por um tempo livre de rótulos e obrigações definidos socialmente e que nos pressionam o tempo inteiro, mas que achamos ser naturais. Se temos a oportunidade para sair - pelo menos por um tempo - dessa zona de conforto, conseguimos criar a nossa própria realidade, e fazer coisas que são nossas decisões nos dá sensação de liberdade, o que para nós está muito ligado a “ser feliz”.
Esse segundo motivo é um jeito muito ocidental de ver o mundo, e tem a ver com o modo como idealizamos os exploradores como pessoas livres e, portanto, felizes.
Voltando ao jovem chinês, a estranheza causada por sua pergunta nos fez perceber que a ideia de prazer em exploração e aventura não é universal. Há um choque de culturas.
Se pararmos para pensar, na verdade em todos os albergues e centros onde se aglomeram turistas e “aventureiros”, predominam jovens brancos, em sua maioria europeus ou estadunidenses, alguns latinos, e quase nenhum asiático - embora em anos recentes tenha aumentado o número de chineses e sul-coreanos.
Existe uma diferença cultural entre o ocidente e o oriente em relação a viajar. Algumas vertentes budistas pregam que não há necessidade de viajar, uma vez que tudo o que alguém precisa se encontra em sua própria casa, e que viajar para encontrar qualquer coisa que seja é apenas uma grande ilusão: o próprio Buda conseguiu a iluminação enquanto parado em um único lugar.
Por outro lado, mesmo esse encontro e a pergunta inusitada são exatamente os motivos que nos levaram a viajar, em primeiro lugar. Conhecer diferentes lugares, pessoas e culturas, cada um com suas características muito particulares, é estar exposto a um monte de experiências que jamais teríamos se ficássemos plantados em casa. Encarar diferentes maneiras de pensar, de se comportar, de ver o mundo, de ver realidades que não são as nossas, de estar em contato com problemas reais do mundo real. E o impacto que isso nos traz acaba sendo, no fim das contas, uma enorme viagem para dentro de nós mesmos.
Quem somos fora da nossa própria bolha de realidade? Como o mundo real nos afeta? Essas perguntas só podem ser respondidas fora de casa. E quanto mais diferente o lugar, melhor.
Direita
Eu e minha companheira Fernanda esperando o trem passar. Em algum lugar de Seoul, Coréia.
Abaixo
Posando para o dono de uma cafeteria em Melaka, Malásia. E eu nem gosto de café.



Mas existem dois riscos quando se viaja, especialmente para lugares menos desenvolvidos, ou “exóticos” (para os olhos dos ocidentais).
O primeiro é achar que você, turista, tem todas as respostas para os problemas e que o modo como sua civilização se comporta é o ideal para todos os lugares. Não. Como forasteiros, devemos nos recolher a escutar, compreender, aprender.
O segundo é o oposto: romantizar pobreza e subdesenvolvimento, principalmente quando botamos os pés em comunidades e vilarejos pré-industriais. Eu sei que estamos cansados de como a humanidade tem castigado o planeta com um sistema de produção em massa super destrutivo. Mas pobreza e subdesenvolvimento não são aspectos a serem exaltados.
Mesmo assim, é inegável que estar em viagem necessariamente causa um impacto em nós. Faz
com que possamos refletir sobre esses riscos, e perceber como nos portamos em relação a eles. Isto é, se estivermos abertos a isso (nem sempre as pessoas estão dispostas a fazer algum tipo de reflexão).
Ao final, sabendo como uma viagem nos afeta positivamente, partimos então para uma segunda temporada de longa duração longe de casa, e retornamos à Ásia. Novamente com uma câmera na mão, fui documentar diversos aspectos da vida local por onde estive. Cidades, campo, fotos nas ruas, fotos nos interiores, fotos de lugares, fotos de pessoas. Acredito que voltei enriquecido por este novo conjunto de experiências. Nos capítulos que se seguem, apresento um recorte pessoal de seis meses, onde procuro mostrar um universo diferente do nosso (às vezes nem tanto), com seus problemas e também muita beleza.
Uma reflexão sobre o encontro com cenas da Ásia
Existe um modo distinto de enxergar as coisas e as experiências quando a gente viaja com uma câmera na mão e busca mostrar essas experiências por meio de imagens e composições instigantes.
Os tempos atuais são tempos em que o impacto visual e semântico da cena são importantes para o consumo da imagem. Isto é, o interesse que conhecidos ou desconhecidos terão, na forma de likes ou reacts, sobre a imagem.
A Ásia é um continente com coisas muito diferentes do que presenciamos por aqui, ao mesmo tempo em que muitas coisas são parecidas.
Aspectos tradicionais, indumentária folclórica, arquitetura, templos, comidas, certos rituais. Tudo diferente, tudo exótico. Em alguns cantos, dá a impressão que tudo é fotogênico. Que não precisamos nem nos esforçar para compor direito, que a cena ou o sujeito da foto já resolve o impacto visual.
Por outro lado, muitos lugares apresentam aspectos vistos por aqui: centros urbanos desenvolvidos, tecnologia, carros modernos, ou o oposto como favelas, cortiços, desigualdade e pessoas morando nas ruas.
Parte da minha experiência como um viajante e explorador com uma câmera em mãos consiste em observar cenas cotidianas dos diversos lugares por onde eu passo. Isso inclui atravessar periferias, vilarejos e comunidades muito pobres, atrasados, ainda com vidas pré-industriais (ver capítulo Campo). Vejo pessoas trabalhando muitas vezes em condições precárias, incluindo crianças junto das famílias em um ambiente de trabalho (ver capítulo do Maeklong Market). E todas essas cenas carregam um forte apelo visual. Por mais que os lugares e pessoas estejam de certa maneiras condicionadas a serem fotografadas por conta de sua imersão no contexto turístico - como é o caso, por exemplo, de algumas comunidades de minorias étnicas nas montanhas (ver o capítulo dos Hmong do Vietnã), ou em favelas abertas a turismo (ver o capítulo dos Clan Jetties).
O turismo para esses lugares que exploram as condições de grave desigualdade, pobreza e vida arcaica tem crescido. Uma parte, acredito, seja pela romantização que fazemos acerca desse estilo de vida. Outra parte, porque são lugares onde
Mulher trabalhando em confecção de tecidos em uma aldeia de minoria étnica Hmong, no Vietnã. Nesses lugares, nos deparamos com cenas e condições de vida que são fáceis de romantizar.
Qual o limite para explorar esse tipo de situação?

as pessoas que visitam pensam conseguir “se desconstruir”. Ou, ainda, para explorar a imagética potente do “exótico”, de pessoas em situações caóticas, casas mal acabadas, ruas não pavimentadas.
Mesmo em grandes centros urbanos como Bangkok ou Kuala Lumpur, ver a modernidade dar ares ocidentais a áreas antes “tão tradicionais” em certos momentos causa uma sensação de melancolia pela perda de algo que é pasteurizada com o rolo compressor do progresso - embora o “tradicional” seja estilo de vida arcaico e condições precárias de subsistência.
Mas o que é o certo e o errado nesses casos?
Independente do que a gente ache a priori, acredito que o importante seja ser capaz de olhar para tudo isso e refletir, e principalmente ser crítico sobre os nossos preconceitos.
Por que as coisas são desse jeito? Como fun-

cionam as relações entre as pessoas? Como o modo de funcionamento atende (ou não) às necessidades das pessoas? Quem se beneficia com manutenção ou mudanças?
Em tempos de redes sociais em que o consumo de experiências é massificado e mercantilizado, somos instigados a vivenciar ao máximo as situações assim como os outros as vivenciam. Mas não temos o direito de cobrar que lugares e pessoas tenham sempre um impacto “surpreendente” sobre nós. Não temos o direito de invadir vidas estrangeiras e achar que elas vivem de acordo com nossa ótica.
As situações que observamos são resultados de processos históricos complexos, muitas vezes distintos daqueles que vivenciamos nós mesmos. Por isso, é importante entender que tudo o que “acharmos” sobre os lugares, sem entender essa
bagagem, será preconceito e não seremos nós ocidentais, com nossa bagagem histórica particular, que teremos as respostas para seus problemas.
Faz falta assumir essa humildade de ser capaz de sentar e contemplar coisas fundamentais e simples, e compreender que muitas vezes não entendemos o que vemos.
Tudo isso para dizer que meu esforço como fotógrafo viajante encontra continuamente essas questões. Não quero que meu desenvolvimento técnico seja galgado em explorar situações de vulnerabilidade - embora vez ou outra eu esteja perambulando sobre esse limite. Para mim, a experiência de viajar como fotógrafo vai além da técnica, inclui também meu desenvolvimento como ser humano, de compreender minhas limitações e aprender muito com o que os outros tem a me mostrar.
Por Que Ásia?
Culturas milenares, tradições muito interessantes e povos de características e visões de mundo muito distintas das nossas. Estar na Ásia é uma oportunidade para aprender muito sobre diferentes aspectos da vida humana.
SUdeste ASiático
Muito calor, monções, mas com com povos enérgicos e muito caos nas ruas, e culturas riquíssimas, histórias milenares e, claro, muita pimenta na comida.

China
O gigante que já é um universo à parte do resto do mundo, mas ainda apresenta tradições enraizadas na sua história milenar.
Singapura
Tailândia
Bangkok
Chiang Mai
Mae Hong Son
Ban Rak Thai
Ha Giang Dong Van
Kuala Lumpur
Singapura
George Town
Cameron Highlands
Melaka
Hanoi
China
Guangzhou
Extremo Oriente
Onde tudo parece muito certinho mas essa ordem esconde muito calor humano

A rota deste livro
Os 6 meses de experiência deste livro foram vivenciados desde as cidades grandes até os vilarejos interioranos, indicados no mapa.
Cidade principal ou capital
Cidade local ou vila
Japão
coréia do sul
Seoul
Kyoto Osaka
Wenzhou