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ÍNDICE CALIGRAFIA Joaquim José Ventura da Silva

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JOSÉ CARRANCA REDONDO O Pai de Publicidade e do “Licor de Portugal”

JORNAIS DE RÓDÃO De 1845 e 1907

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CALIGRAFIA Joaquim José Ventura da Silva

JOSÉ CARRANCA REDONDO O Pai de Publicidade e do “Licor de Portugal”

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JORNAIS DE RÓDÃO De 1845 e 1907

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CALI C CA AL GRA G GR RA FIA FIA 2

Apontamentos para a Hist贸ria do Design


Apontamentos para a História do Design

Joaquim José Ventura da Silva

BRUNO RODRIGUES

CALIGRAFIA1 A caligrafia é um registo gráfico, uma arte da escrita, possuindo um estilo próprio de quem a escreve, fazendo dela uma marca indelével feita á mão. Devido aos avanços tecnológicos, a caligrafia é uma matéria praticamente esquecida na actualidade. Ao longo da história da caligrafia observamos várias variações pessoais e artísticas, isso deve-se às mudanças das emoções humanas, bem como as suas formas de expressão. Ventura da Silva (1819, p. 40)2 afirma, também que é necessário estar ciente sobre as regras desta arte: “A prática ensina a formar as letras, suposto o conhecimento da especulativa, pois o entendimento deve primeiro estar informado das regras da arte, para as exemplificar com a corresponde direcção.” A velocidade de produção é um dos principais factores que levaram à transformação total dos traçados artísticos, fazendo com que eles se tornassem menos perfeitos. No entanto a caligrafia continua a ser identificada pela beleza proveniente dos componentes gráficos.No período medieval, vários textos caligrafados foram produzidos em ordens religiosas mas também por muitas outras classes sociais como os escrivães públicos, criados e artesãos em geral, que se ocupavam exclusivamente neste tipo de trabalho. Se uma pessoa demonstrasse aptidão para este tipo de arte, era imediatamente afastado das suas funções do quotidiano, de modo a que pudesse dedicar o seu tempo apenas ao estudo e exercício da caligrafia, com o propósito de desenvolver o seu dom e graças a isso a sua vida social e financeira cresciam. Com o tempo tornavam-se mestres calígrafos, mestres esses que dedicavam-se apenas a documentos e textos importantes, deixando os outros com os mais simples. Com a chegada da Renascimento na Europa, a caligrafia sofreu fortes mudanças, sendo apenas a Alemanha, o

único país a resistir a essas alterações e é com isso que a caligrafia gótica alemã começa a destacar. No século XV, a caligrafia era desenvolvida pelo clero, com o intuito de propagação das artes e das ciências, tornando se uma herança cultural e artística da Igreja. A Curia Romana3 sustentava um grupo de artistas, conhecidos como Chancelaria Apostólica, que tinha como objectivo a redação dos documentos do Papa. Em 1431 é designado um calígrafo especial para o Papa Eugênio IV, em que a sua caligrafia era executada rápida e sem efeitos, mas mesmo assim, muito bonita, ficando conhecida como Manuscrita Cursiva4. Em 1463 Feliciano 5 escreve o mais extenso tratado das variadas formas de caligrafia, sendo o primeiro a facultar informações como desenvolver a forma das letras maiúsculas romanas. Em 1509 frei e matemático Pacioli 6, fez um tratado sobre a geometria da construção de letras. Em 1514 é apresentado o primeiro método de ensino das formas geométricas das letras góticas por Sigismondo Fanti7, onde estavam representado as maiúsculas romanas, juntamente com letras semigóticas. Em 1522, foi publicado um livro que ostentava uma belíssima combinação de letras minúsculas com uma ligeira inclinação e as maiúsculas eram retas e com pequenos adornos. Em 1590, Manuel Barata divulga a letra Italiana e a Bastarda no primeiro tratados em que se preceituam e exemplificam as regras de caligrafia em Portugal. Além de Manuel Barata outros calígrafos foram importantes na cultura do desenho da escrita em Portugal, tais como Manuel de Andrade de Figueiredo, António Jacinto de Araújo e Joaquim José Ventura da Silva. Com o passar do tempo a caligrafia deixou de ser uma arte e passou a ser um meio de educação e uma das principais responsável da divulgação da arte e da cultura.

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J. J. VENTURA DA SILVA Joaquim José Ventura da Silva nasceu em Lisboa a 14 de Março de 1777 e faleceu na mesma cidade em 5 de Setembro de 1849, professor de instrução primária e secundária, foi considerado um dos melhores calígrafos portugueses. Ventura da Silva surge no primeiro quarteirão do século XIX, com a possibilidade de analisar e tirar conclusões dos manuais de caligrafia de autores anteriores (1819, p. 5): “memória das Pessoas de distinção, é quem nos dá o conhecimento do passado, e que fará conhecer o presente aos séculos vindouros; é quem nos instrui, do que se passa sobre a terra, e sobre o mar, e que

fará passar nossas resoluções até às extremidades do mundo: é quem entretém as alianças entre os Reis pela segurança da paz, e das correspondências dos povos mais afastados” dando continuidade à escola de Manuel Andrade de Figueiredo, expressando um novo impulso naquela que é considerada a mais notável peça de caligrafia em Portugal, as Regras Methodicas. A sua obra é constituída por três edições das Regras Methodicas, o primeiro em 1803, denominado Regras Methodicas para se Aprender a Escrever o Caracter da Letra Ingleza, a segunda é impressa em 1819, dezasseis anos depois e é intitulada Regras Methodicas para se Aprender a Escrever o Caracter da Letra Ingleza, Por-


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tugueza, Aldina, Romana, Gotica-Italica e Gotica-Germanica e para finalizar, a terceira em 1841, que se chama da mesma maneira que a versão anterior, Regras Methodicas para se Aprender a Escrever o Carácter da Letra Ingleza, Portugueza, Aldina, Romana, Gotica-Italica e Gotica-Germanica, mas à exceção da anterior esta não tem o atlas caligráfico. Antes da terceira e ultima publicação das Regras Methodicas de Ventura da Silva, há registos biográficos de uma obra de ensino das primeiras letras que fez, chamado Orthographia da Língua Portuguesa, publicada em 1834. Em 1899, já depois da sua morte, fui publicada O Calligrapho Ventura da Silva sendo um monumento à sua memora. Esta obra é apenas um reforço da ideia deixada por Ventura da Silva (1819, p. 5): “Sendo a educação da mocidade hum dos maiores, e mais importante objecto, e em que mais se deve interessar a nação, particularmente os pais de famílias, pois della resultão bens incalculáveis, não só ao estado; (...) He pois a educação a arte de forma homens, e a instrucção de fazellos sábios.” que era mais que um calígrafo, era um verdadeiro letrado, um professor dos portugueses.

Italica e Gotica Germanica; Acompanhada de hum Tratado Complecto de Arithmetica. Oferecidas ao Augustissimo senhor D. Pedro Principe Real do Reino Unido de Portugal, Brazil, E Argarves. Compostas Por Joaquim José Ventura da Silva Professor de Escrita e Arithmetica. Lisboa: Imprensa Régia, 1819. 3 Cúria Romana é o órgão administrativo da Santa Sé, constituído pelas autoridades que coordenam e organizam o funcionamento da Igreja Católica. É geralmente visto como o governo da Igreja. Curia no latim medieval significa “corte” no sentido de “corte real”, pelo que a Cúria Romana é a corte papal, que assiste o Papa nas suas funções. 4 Manuscrita Cursiva é forma de letra manuscrita, miúda, ligeira e executado sem esforço. 5 Feliciano Felice (Verona 1433 – Roma 1479) calígrafo, compositor da alquimia sonetos, e especialista em Antiguidade romana, especialmente na inscrição em pedra. Ele viveu o tempo suficiente para ver a impressão na Itália. Ele foi o primeiro a recriar geometricamente o alfabeto de inscrições romanas, em 1463. 6 Luca Bartolomeo de Pacioli (Toscana 1445 – Toscana 19 de junho de 1517), monge franciscano, foi um famoso matemático italiano. É considerado o pai da contabilidade moderna. 7 Sigismondo Fanti foi tratadista das ciências e artes da Renascença italiana. Matemático e astrónomo, oriundo de Ferrara. O matemático Fanti foi o autor de uma importante obra pedagógica sobre tipografia e composição.

NOTAS BIBLIOGRAFIA 1 Caligrafia ������������������������������������������������������� corresponde ao registo gráfico do ato de escrever depois de vencidas as várias etapas que dizem respeito à aprendizagem da leitura e da escrita. Sendo um código visual de comunicação que tem que ser aprendido, o seu domínio é fundamental para adquirir competências de literacia e práticas de cidadania. A caligrafia pode ser abordada sob duas perspectivas: como escrita corrente automatizada no quotidiano e como prática artística que encontra nos calígrafos os seus maiores intérpretes. 2 VENTURA ��������������������������������������������� DA SILVA , Joaquim José - Regras Methodicas Para se Aprender a Escrever os Characteres das Letras Ingleza, Portugueza, Aldina, Romana, Gotica-

– ����������������������������������������������� VENTURA DA SILVA , Joaquim José – Atlas Calligraphico: Homenagem a ventura da Silva. Editores Lopes Lª., 1899 – TAVARES DUARTE, Jorge Manuel dos Reis – Três Movimentos da Letra, O Desenho da Escrita Em Portugal. Lisboa: 2008. Tese de Doutoramento em Design de Comunicação na Universidade de Lisboa, Faculdade de Belas-Artes – HEITHINGER, Paulo – Typografia: J.J. Ventuara da Silva, caligrafia em Portugal. 2007 (acedido: 14 de Janeiro de 2011) Disponível em: http://tipografos.net/historia/ventura-da-silva.html

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JOSÉ CARRANCA REDONDO


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O Pai da Publicidade e do “Licor de Portugal”

O Fundador do Licor Beirão nasceu na Lousã em 1916, crescendo no seio de uma família humilde. Em 1940, após o falecimento do dono da empresa de licores onde trabalhava, “A Lousanense”, com medo de perder o emprego e devido a crise que se fazia sentir na época, Carranca Redondo comprou com doze contos a fabrica de licores, onde foi concebido e produzido o seu licor. Este envolveu-se em todas as áreas da empresa desde a produção, gestão, publicidade e marketing, conceito ainda não conhecido na época. Determinado e empreendedor, o pai do Licor Beirão investiu também noutras áreas como empresas de sinalização, brinquedos e publicidade. Carranca Redondo, foi não só o pai do Licor Beirão, como foi considerado também o pai dos outdoors em Portugal, dando-se aqui o grande auge das campanhas publicitárias do “Licor de Portugal”. Foi um dos grandes revolucionários, se não O Revolucionário da publicidade em campo nacional, lutando inúmeras vezes pela em pleno regime dirigido por António Oliveira Salazar, regime este de cariz antiliberal, antiparlamentarista e anticomunista. Morreu em 2005 aos 89 anos, nunca deixando de estar presente até à data na fábrica da Quinta do Meirial, deixando consigo um Licor e uma propaganda repletos de história. A INFLUENCIA POP AMERICANA José Carranca Redondo bebeu influencias vindas dos Estados Unidos da América onde estava bastante presente o movimento Pop, um movimento pós-guerra fortemente dominado por símbolos de consumismo, surgindo aqui o conceito de Comunicação para massas. O cartaz, a televisão, a banda desenhada e o cinema foram a forte inspiração para os artistas do movimento, criando um novo ideal estético.

TÂNIA FREIRE

Este novo meio de expressão realça os prazeres da vida, buscando inspiração a movimentos artísticos vividos anteriormente. O erotismo foi dos pontos que veio revolucionar o movimento Pop, uma maneira subtil de direccionar a atenção do publico para um produto comercial em especifico. A complexidade dos cartazes foi um indicio de uma resultante sensibilidade artista que marcou a cultura visual em décadas posteriores. “Mudança constante, variedade interminável, escolha do consumidor, escapismo e hedonismo eram algumas das promessas da publicidade e publicações de grande tiragem americana”1 O movimento foi cuidadosamente estudado, e o termo “Pop” ou “Popular” significa a produção em massa e acessível à sociedade. Existia uma grande curiosidade em explorar a transmissão da fantasia e do desejo, dois elementos bem manifestados na atracção da Pop-art pelo consumismo. O estilo deste movimento artístico começava aqui a envolver o Design e a Publicidade, mostrando a profusão de bens materiais e comerciais disponíveis no decorrer dos anos 50. Os objectos representados nas obras, eram alcançáveis à maioria das pessoas, envolvendo todas as classes da sociedade, pinturas que se vieram a revelar completamente alcançáveis, produzindo a obra em cartazes, postais e até mesmo em estampados. O objectivo principal deste movimento era o desejo insaciável do consumo. UMA PUBLICIDADE IRREVERENTE, UMA LUTA CONSTANTE O Licor Beirão teve o seu auge nas décadas de 40 e 50 graças à revolucionária campanha que fez com que a marca ficasse conhecida por grande parte do público,

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mas já antes o nome do Licor andava nas bocas dos proprietários de cafés. Existe um mito na Lousã, que diz que José Carranca Redondo contratou várias pessoas na Capital para entrarem em cafés perguntando se tinham Licor Beirão, no qual a resposta era “não conhecemos”, os proprietários indignados, ganharam grande curiosidade em relação a tão afamado licor que começaram a encomendar em grandes quantidades. Foi deste modo que o licor passou a ser já fortemente comercializado. Ainda não se conheciam os termos grafitti2 e marketing3, e já Carranca Redondo corria as ruas com latas de tinta, pintado o nome do seu produto em paredes. Mais à frente, querendo abranger mais público, independentemente de classes sociais, foi lançado o primeiro cartaz do licor, e se não, dos primeiros cartazes lançados em Portugal. A distribuição em massa dos cartazes torna-se símbolo do licor e da publicidade de época que decorria. O cartaz mais célebre tem influencias nos filmes western4 , onde encontramos uma placa de ripas de madeira, destacando-se a marca, seguida do slogan 5 “O Licor de Portugal”, que até aos dias de hoje se encontra inscrito nos rótulos das garrafas.

FOI DADA À PUBLICIDADE UMA NOVA TEMÁTICA EM RELAÇÃO AO CORPO, À SUA EXPRESSÃO E REPRESENTAÇÃO. Os slogans foram elementos fundamentais para reforçar a mensagem que Carranca Redondo queria transmitir, ficando no ouvido e na memoria dos portugueses, revelando sempre um quanto de sarcasmo entre as “meras” palavras. Carranca Redondo nada faz ao acaso, com este slogan de lançamento “Licor Beirão, o Licor de Portugal”, podemos ver aqui de forma subtil uma frente ao vinho mais conhecido a nível nacional e internacional, o “Vinho do Porto”, no qual diz a história que este teve a mão de ingleses na sua concepção. Com este slogan, Carranca Redondo pretende mostrar a raiz 100% portuguesa do seu licor, e superiorizando o nome de Portugal abrangendo toda a nação.

Figura 1 Loja Licor Beirão. Rótulo Licor Beirão. “Peça em toda a parte!... O beirão que todos gostam”, foi outro dos slogans bastante badalados da altura. Este aparentemente simpático e inofensivo slogan, fazia alusão ao governador de estado António Oliveira Salazar, e as suas origens beirãs, assim como “Que Licor... Sr. Doutor”. Confessa Carranca Redondo a uma atrevista “O senhor Salazar achou muita piada!”6 A irreverência deste mestre da comunicação não ficou por aqui, o grande escândalo ocorreu em 1951, com o ainda hoje famoso cartaz da Majorette7 vestida de vermelho. Disse Carranca Redondo, “As pessoas reagiram mal por a rapariga estar pouco vestida...” Neste cartaz são bem evidentes as influências Americanas. Este cartaz, utilizando o método da Litografia, apresentava uma pin-up, bem ao estilo Rockwell, reforçando com slogan “É de bom gosto servi-lo... É de bom gosto bebê-lo”. O corpo na altura, recentemente comercializado e sexualizado, fez com que as Pin-ups virassem moda no período Pós-Guerra, e Carranca Redondo não se deixou ficar para traz. Foi dada à publicidade uma nova temática em relação ao corpo, à sua expressão e representação.


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Figura 2 Loja Licor Beirão. “A Majorette”. O cartaz que mais escândalo criou na sociedade portuguesa

Figura 3 Loja Licor Beirão. Primeiro cartaz distribuído a nível nacional. “Licor Beirão. O Licor de Portugal.

As pin-ups8 estavam aliadas ao mercado para cativar e atrair o consumidor, produto de intensa fantasia heterossexual. Pode considerar-se que foi aqui que se deu a liberdade sexual dos tempos modernos. Vivendo em plena ditadura este cartaz não foi bem aceite, chegando a ser censurado por toda esta ousadia nele envolvente.

e Mabor. Mesmo fazendo publicidade para outras marcas, nunca esqueceu o seu produto aproveitando deste modo as viagens de trabalho que realizava para fixar por todo o país os cartazes do se Licor.

José Carranca Redondo não se deixou ficar só pelos cartazes, ele veio também revolucionar as estradas portuguesas, e assim foram lançados os primeiros outdoors9 em Portugal. Os outdoors foram estrategicamente pensados e colocados em curvas perigosas. Atingiu tal fama, que o volume das vendas aumentaram, o que o levou a abrir uma empresa de publicidade, sendo contratado por outras marcas como a Philips, Nitratos de Chile, Autosil

Em 1959, foi proibida qualquer fixação de cartazes nas estradas portuguesas, com base em estudos realizados em França e na Inglaterra, defendendo que a causa dos acidentes rodoviários eram devido à distracção dos condutores ao olhar para os outdoors. E foi assim que começaram as constantes lutas jurídicas de Carranca Redondo, respondendo quase centenas de vezes em tribunal. Ameaçado pela Direcção das Estradas do Distrito de Coimbra para retirar painéis, Carranca Redondo recusou

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faze-lo, o que teve como consequência a penhora de várias caixas de Licor Beirão. Tantas vezes respondeu a tribunal e tantas vezes foi autuado com coimas bastante pesadas, que resolveu despedir o seu advogado, aprendendo e conseguindo defender-se sozinho, provando o seu ponto de vista perante a justiça.

Ganhar dinheiro é uma arte, trabalhar é uma arte e fazer bons negócios é a melhor de todas as artes” Andy Warhol.

Como referiu Carranca Redondo, “Nunca tive medo de ninguém nem de nada, nem mesmo do momento politico que então se vivia”. E como dizia Salazar “ Aquele que não defende o seu direito já desistiu dele a favor de quem pretende tomar-lho, e no intimo confessa que duvida da sua legitimidade.” Este foi o lema que passou a acompanhar todas as cartas dirigidas às autoridades e jornais.

1 MCCARTHY, David, Movimentos de Arte Contemporânea – Pop Art. Lisboa: Editorial Presença, 2002. ISBN: 857 503 0647. 2 Inscrições caligráficas ou gráficas feitas em paredes. 3 (palavra inglesa) s. m. Estudo das actividades comerciais que, a partir do conhecimento das necessidades e da psicologia do consumidor, tende a dirigir os produtos, adaptando-os, para o seu melhor mercado; estudo de mercado. 4 (palavra inglesa que significa “oeste”) s. m. Filme com peripécias movimentadas cujo género foi criado na América do Norte e que narra as aventuras dos pioneiros e dos cowboys no Oeste norte-americano, no séc. XIX. 5 s.m. Frase publicitária curta e convincente. 6 MADAÍL, Fernando. Nacional / Negócios. Diário de Noticias. (26 de Agosto de 1996). Fonte: Loja Licor Beirão. 7 (palavra francesa) s. f. Jovem em uniforme de fantasia que se exibe nas festas. 8 Imagens de modelos sensuais produzidas em grande escala, exercendo grande atractivo na cultura Pop. 9 (palavra inglesa)s. m. Cartaz ou painel publicitário de grandes dimensões, normalmente mais largo do que alto e colocado geralmente em locais de muito movimento.

A história do Licor Beirão e sua Publicidade viveu de sentimentos que se meditaram em vários meios de suporte, chamando os admiradores aos pontos de venda. A eficácia das campanhas criadas por Carranca Redondo foi sempre um elemento fulcral, o que o fez ganhar prémios de excelência, pela história publicitária criada pela marca no século XX.

“NUNCA TIVE MEDO DE NINGUÉM NEM DE NADA, NEM MESMO DO MOMENTO POLITICO QUE ENTÃO SE VIVIA”. Carranca Redondo criou uma imagem tão forte que completou a iconografia nacional, e como referiu o grande mestre da propaganda “é preciso insistir sempre.” E persistência foi algo que nunca faltou a este grande impulsionador da publicidade e do marketing.

NOTAS

BIVLIOGRAFIA

Numa época conturbada passando pela 2ª Grande Guerra, a crise mundial e o regime que se vivia em Portugal, todos estes aspectos assinalaram uma reconstrução difícil, mas José Carranca Redondo sempre lutou e ganhou frutos com todo o esforço e ideias revolucionarias para época.

– DE SÁ, Elisabete. O Homem do Licor Beirão. A Capital (27 de

Carranca Redondo nunca se deixou ficar atrás das grandes centros mundiais, trazendo as ideias vindas dos Estados Unidos da América, lutando contra todas as ideias anacrónicas e enfrentando mesmo a própria lei a favor da sua obra e do seu negocio.

– ARTESANATO EM REDE - J. Carranca Redondo lda [em linha) – 2011. Disponível em: http://www.dueceira.pt/artesanatorede/

Novembro de 1998). Fonte: Loja Licor Beirão.

– Loja Licor Beirão. Catálogo Licor Beirão 2010. Lousã, 2010. Fonte: Loja Licor Beirão.

– LÉON, Pierre. História económica e social do mundo. Guerras e Crises, vol.V, Tomo I. Lisboa: Sá da Costa Editora 1982.

“Ser bom no negocio é a mais fascinaste espécie de arte...

main_artrede.php?prod=1&cat=7&id=133&lingua=pt

– FREITAS, Ana Rita Corte Real - Curiosidade e Actualidade do Licor Beirão, 2010 [em linha] - 2011. Disponível em: http://digartmedia.wordpress.com/2010/03/08/curiosidade-e-actualidadedo-licor-beirao/


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JORNAIS DE RÓDÃO De 1895 e 1907

Este artigo pretende ser, sobretudo, um levantamento sobre os jornais de meados de 1895 até ao início de 19 07, centrando a pesquisa nos jornais da região de Vila Velha de Ródão, que na altura se intitulava de Rodam. Foram analisados graficamente cinco jornais, identificando quem neles trabalhava e quais os cargos ou funções que existiam nos mesmos, quais a tipografias onde eram impressos, estrutura gráfica e curiosidades coincidentes, laçando um olhar sobre a evolução pelo tempo. Um forte agradecimento à biblioteca de Vila Velha de Ródão, que abriu excepcionalmente o acesso restrito a alguns números originais. “O RODENSE” - 1895 Este jornal data de 1895 e 1896, era apelidado na altura de Folha quinzenal, original de Villa Velha de Rodam, existem apenas 10 exemplares nos registos da biblioteca de vila velha de Ródão, sendo que as folhas estão bastante degradadas. O primeiro número desta folha data de 3 de Dezembro de 1895. De notar que este jornal vivia praticamente de uma forma exclusiva de Euzebio Pereira Pinto, que era o seu único Redactor, administrador, Editor e Proprietário. Não existe junto ao título alusão a qualquer gráfica onde seria impressa a folha quinzenal. O Título do jornal era apenas tipográfico, com a uma das principais características notadas nas letras serem as serifas bastante bicudas, sendo que no caso da letra S, as mesmas serifas em forma de triângulo fazem claramente lembrar o rabo do diabo, desconhecendo se seria uma alusão clara, ou apenas pura coincidência. Não existiu a nível de capa, alterações na estrutura gráfica do jornal. Na capa, apresenta o título, que trás sempre junto a si o Sr Euzebio, tal como a designação de folha quinzenal e a data acima do título. A Estrutura das notícias consistia sempre em 4 colunas

RUI MOURA

com notícias, pedidos, alertas e informações à população. Na segunda página da folha, a estrutura aplicada era a mesma, com 4 colunas de notícias. Nas páginas interiores do jornal podíamos encontrar sempre o “Folhetim”, disponível na segunda página do jornal e por vezes nas segunda e terceira, sempre distinguido com o mesmo tipo de letra que era apenas utilizado para o título do “folhetim”. A curiosidade do “folhetim”, para além de ser uma rubrica com permanência constante, era contada uma história, como um livro e curiosamente continuava na quinzena seguinte, como se estivéssemos a ler um livro e parássemos para ler a continuação quinze dias depois. Já na 3ª página do jornal, era usual colocar versos de autorias diversas, sendo enviados para a redacção, sendo os autores mais publicados Costa e J. Rocha. Na quarta página surgia sempre a publicidade, existindo sempre pelo menos metade da folha na vertical dedicada à publicidade, sendo que nem sempre era possível completar a mesma apenas com publicidade. De notar que praticamente toda a publicidade tinha o seu titulo escrito com uma fonte distinta, fazendo assim a diferença entre as várias publicidades. No entanto, não parece existir uma razão pela qual cada tipo de letra seja atribuído a cada publicidade, tirando apenas o facto de ser diferente. No entanto, cada publicidade em causa, se publicada em números diferentes do jornal, mantém apesar de tudo a mesma fonte para criar uma associação da marca à mesma. Relativamente a artigos sobre a área no jornal, apenas podemos mencionar a publicidade à Typografia Sanches sob a gerência de Fragozo & Leonardo. Esta publicidade deixa claro que esta seria tipografia onde seria impressa a folha, dado que na capa não existe qualquer menção ao local onde era impresso o jornal. Este jornal ter-seá extinto no ano seguinte ao que começou a sua publicação, terminando em 1896.

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“O NOVO RODENSE” - 1899 Antes de mais, este jornal tem uma particularidade que salta à vista, o nome, sendo como uma sequela da folha quinzenal “o Rodense”, embora querendo mostrar também uma evolução relativamente ao antecessor, introduzindo a palavra “novo” no seu nome. Se bem que apesar de facilmente fazermos esta analogia, não há dados certos que indiquem a sua relação, até porque a única referencia no antigo rodense, trata-se do Sr Euzebio, que não consta do novo rodense. Este jornal teve a sua origem em 1899, com o seu primeiro número a sair com os seguintes dados, Villa Velha de Rodam 15 de Outubro de 1899. Este jornal trazia também uma nova designação, auto-titulando-se como um semanário regenerador, sendo então publicado semanalmente. Relativamente ao título, e contrastando com o titulo do Rodense, aqui temos um título também apenas tipográfico, se bem que as suas letras são um pouco mais fortes, comparando com a tipografia mais fina que era usada no rodense. As letras eram também letras com serifas, também fortes, com as características de serem curtas na horizontal mas bastante longas na sua vertical, como podemos ver no “E”, no “R” e no “S”. Sob a Direcção de Armenio da Costa Monteiro, este jornal tinha como subtítulo “jornal regenerador”, tendo por isso ligações ao partido regenerador na região de vila velha de Ródão. Para além de Director, Amenio da Costa Monteiro era também o Editor e proprietário aquando a saída do primeiro número do Novo Rodense, tendo também indicação dos seguintes colaboradores: José Tavares da Rocha; em Castello Branco: Hypolito Madeira; em Oeste: M. C. d’A. (Wagonete), tendo como sua sede de Administração a Rua de Santo António em Rodam. Este jornal começou por ser impresso na Typografia Geraldes, que existiu em Castello Branco nesta altura na Rua de Pina Nº 16. Tinha Como não podia deixar de ser, publicidade à mesma na pagina dedicada à publicidade, na página 4 podíamos então ler, para além dos trabalhos que esta fazia, a indicação da agência em Villa Velha, que se tratava da “Pharmacia Passos”, que servia então de representante da typografia Geraldes em Rodam. No entanto, ainda nem a meio da sua existência ia,

“O Novo Rodense” conhece uma alteração de typografia acompanhada com o aparecimento de novos nomes associados ao jornal. O Semanário passou então a ser impresso na Typografia do comércio no Fundão, deixando automaticamente de trazer publicidade à anterior typografia Geraldes, passando a constar a typografia do Comércio na publicidade. Começando aqui a ser possível verificar que na última página dos jornais viria a publicidade à typografia onde era impresso o mesmo e nunca a outra. A acompanhar este alteração, o colab-


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orador José Tavares da Rocha passava agora a ser indicado como Redactor, passando a ser indicado também um Editor: Manuel D’Oliveira. Os colaboradores indicados passaram automaticamente também a ser mais, referindo: Alberto Ramos S. Dias (Malaguêta); P.M.D (Barão das Camélias); D. Maria Emília Louraça, M.C.d’A. (Wagonete); J. Victoria (Ezao). Não só os colaboradores aumentaram, como passou a existir uma indicação das alcunhas dos mesmos, situação bastante curiosa, mostrando que as pessoas eram conhecidas pelas alcunhas e assim facilitava a identificação das mesmas.

No que toca à sua estrutura, o semanário era bastante simples em todas as suas quatro páginas. A primeira, segunda e terceira página obedeciam todas à mesma regra, cinco colunas verticais sendo que raramente existiam “infracções” nesta regra, havendo uma ou outra publicação em que a segunda página vinha com quatro colunas em vez de cinco. Nas raras vezes em que podíamos ver as quatro colunas, de notar que não mudava o tamanho de todas as colunas, interessante verificar que a primeira, segunda e quinta coluna mantinham o tamanho, sendo que a terceira e quarta coluna, passavam a ser uma coluna só, mostrando claramente a dificuldade que ainda existia para compor de forma diferente o texto do jornal. Relativamente à quarta página do jornal, era composta por três colunas, sendo que a primeira coluna mantinha o tamanho das páginas anteriores, sendo que as duas colunas restantes, passavam a ser do tamanho da segunda e terceira coluna, e quarta e quinta coluna, respectivamente, deixando patente mais uma vez que este jornal obedecia a regras muito específicas no que toca à composição das suas páginas. Relativamente à tipografia usada nas três primeiras páginas do jornal, o tipo usado para o texto era serifado, sendo que a única variante para o texto seria o itálico, usado regularmente sempre que existia um “Pedido” efectuado pelo jornal. No que toca aos títulos dos artigos, raramente eram repetidos, havendo uma preocupação em colocar quase sempre uma tipografia distinta no início de todos os artigos. Na página quatro do jornal, aquela dedicada na sua maioria a publicidade, observava-se uma situação interessante, dado que para se manter fiel à sua rígida estrutura de três colunas, as publicidades eram colocadas na vertical, sendo que todos os textos estavam feitos na horizontal, aproveitando assim o espaço, e ao mesmo tempo, mantendo encaixando as publicidades de maior dimensão nas duas colunas que estavam destinadas. De referir ainda alguns detalhes deste jornal que apesar de não serem relevantes são curiosidades interessantes; na edição de 7 de Outubro de 1900, no seu Nº 41, já perto do seu fim, o jornal viria a apresentar uma variante na sua primeira página, tratou-se apenas de uma Barra preta introduzida antes do título e também no final da pá-

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gina. A justificação é simples, tratava-se da opção gráfica para quando o jornal se encontrava de luto. Não se tratou de ninguém que colabora-se com o jornal mas de alguém querido da sociedade.

nos jornais estudados até aqui. Desde o seu início e praticamente até ao seu fim, a folha quinzenal tinha sua impressão e composição na Typografia Minerva Centro 7 Bairro Alto – 7 em Portalegre.

Outra questão curiosa é relativa ao marketing utilizado pelo jornal, com um “Brinde”, passando a citar: todos os Srs assinantes que satisfaçam a sua assinatura por un anno, têm direito á publicação, na secção respectiva e em quatro números, de um annuncio seu, que deve enviar á administração junto com os 40 réis para sello. Querendo a continuação paga pela taxa das repetições com o bónus respectivo. “O Novo Rodense” viria a terminar a sua publicação a 2 de Outubro de 1900.

Interessante constatar que até pleno ano de 1907, ou seja, no terceiro ano de existência da folha, era impressa na typografia Minerva Central, como ostentava a publicidade da mesma na sua página dedicada à publicidade. Em 1907, a folha deixa de ser impressa na Minerva Central e passa a ter impressão e composição nos Ateliers Graphicos Brito Nogueira, Sucessor, que estava localizado na Rua d’Alcantara em Lisboa. Sendo que a publicidade à Minerva Central acaba neste momento, existindo a partir daqui a publicidade aos Atellers Graphicos Brito Nogueira, Sucessor. Esta situação vem reforçar a ideia que “o rodense” que não tem qualquer

“NOTÍCIAS DE RODAM” - 1905 Mais uma folha quinzenal com nome directamente ligado a Vila Velha de Ródão surge em 1905, vindo a durar até 1907, com o seu número 1 a surgir a 8 de Janeiro de 1905. A grande inovação salta à vista vendo a edição mais recente disponível nos arquivos da biblioteca de Ródão, uma fotogravura com uma qualidade apreciável toma conta praticamente por completo da página principal, uma homenagem clara a Ernesto Rodolpho Hintze Ribeiro que havia falecido e era homenageado na edição número 51 das notícias de Rodam. Esta primeira página mostra desde logo uma capacidade desta folha quinzenal que não havia sido ainda constatada antes, uma capacidade para quebrar com a primeira página modelo, onde estavam contidas sempre as quatro ou cinco colunas com as notícias ou artigos mais importantes, exibindo assim uma capacidade de inovar no que toca à geometria da primeira página. O título deste jornal era também ele tipográfico, com letras fortes como era apanágio dos jornais da zona, com serifas curtas mas bastante fortes e com uma característica interessante nas curvas das letras, onde estas eram cortadas literalmente, fazendo as curvas das mesmas com uma diagonal, parecendo que a letra era recta e foi cortado aquele bico. Relativamente à tipografia onde era impresso o jornal vemos uma troca a ocorrer, situação já antes verificada


Apontamentos para a História do Design

indicação da typografia onde era impresso, fosse impresso na Typografia Sanches sob a gerência de Fragozo & Leonardo, sendo que a publicidade a esta sempre existiu na sua quarta página. Com a nova ligação alteraram os dados junto do título do jornal, sendo que mais nomes entraram em cena e ganharam importância no jornal. Enquanto o jornal foi impresso na typografia Minerva Central existia apenas menção ao Editor José Valério Nave, havendo também lugar a outras duas indicações, que a correspondência deveria ser enviado ao Sr António Fortunato de Moraes e que a Administração se localizava em “Portas de Rodam – Arneiro (Niza)”. Com a mudança para os “Ateliers Graphicos Brito Nogueira, Sucessor”, aconteceram também algumas alterações, o até então editor José Valério Nave, passou a ser mencionado como Director e Proprietário, apareciam agora também o Administrador José Passos e o Redactor José Tavares da Rocha, que até então não constavam na capa do jornal. Apesar de conseguir reinventar a sua estrutura de página como já foi referido, a folha usava preferencial e normalmente uma geometria que costumava ser comum à primeira, segunda e terceira páginas, onde eram usadas cinco colunas verticais com notícias ou artigos. Nos títulos dos mesmos artigos, eram usadas letras em maior tamanho e por vezes com tipo de letra diferentes, sem no entanto se poder chamar de panóplia ao número de tipos usados. De reforçar que na primeira página, a aposta em fotogravuras era notória, sendo recorrente o uso da mesma, quebrando assim com a estética de cinco colunas como era normal. Já nas páginas dois e três, os elementos gráficos a que se recorria eram pequenos elementos, como pássaros num galho, um gato sentado na lua, borboletas, que apareciam intermediando os artigos das colunas. Vindo por vezes substituir os poucos separadores que eram usados já há muito tempo para separar os artigos. Na sua quarta página dedicada por inteiro à publicidade, onde o grande destaque ia quase sempre para a tipografia onde era impresso o jornal. Era aqui que se podiam constatar o maior número de tipos de letra dentro de todo o jornal. De destacar que a publicidade vinha tanto de Vila

Velha de Rodam, como de Niza ou de Gavião, localidade que fica ainda um pouco mais distante, mostrando que o jornal já tinha uma certa projecção a nível regional, o que faz com que seja ainda mais curioso o facto de não possuir qualquer publicidade de Castelo Branco. Este jornal seria extinto em 1907. CONCLUSÃO Desde a forma como eram encarados os tipos de letra até às estruturas gráficas usadas, por opção ou limitação na maior parte dos casos, a grande lufada de ar fresco que veio trazer a fotogravura, dinamizando completamente os grafismos do jornal mais recente que foi estudado. Podem-se constatar as tendências nesta zona, como a naturalidade com que na zona estudada, a imprensa já teve poder e influência de forma muito mais efectiva.

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"O QUE?"