Brexit afugenta brasileiros no Reino Unido / Brexit makes Brazilians want to leave the UK

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14 / O POPULAR GOIÂNIA, quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Wildes Barbosa

Brexitafugenta brasileirosdo ReinoUnido MIGRAÇÃO Possibilidade de a terra da rainha deixar a União Europeia aumenta fiscalização de vistos e goianos retornam ao Brasil MaluLongo malu.longo@opopular.com.br

Umaparceriadogovernobritânico com a Casa do Brasil, organização não governamental queprestaassistênciaaimigrantes no Reino Unido, possibilitou desde 2017 o retorno voluntário para o Brasil demais de 700 pessoas, migrantes que viviam na ilegalidade em solo britânico. Notopodestalistaestão235goianos que partiram em busca de melhores condições de vida. O Brexit, movimento de saída da Grã-Bretanha da União Europeia, está forçando os brasileiros a voltar para casa. O Reino Unidopossuiamaiorcomunidade de brasileiros na Europa, entre250 mila 300mil pessoas. Alguns fatores levaram os brasileiros a buscar o programa de retorno gratuito ao Brasil. A partir de 2016, quando 52% dos cidadãos britânicos disseram sim num plebiscito à saída do Reino Unido do bloco europeu, aumentou o cerco dos serviços de imigração do Reino Unido às pessoas indocumentadas. Por outro lado, com a certeza de que uma das economias mais fortes da Europa fecharia suas portas, cidadãos europeus começaram a chegar à Inglaterra ocupando vagas de subempregos antes buscadasporbrasileiros.Asdescobertasdequadrilhasespecializadas em confeccionar passaportes europeus falsos também geraraminstabilidade. Ocaminhoneirogoiano Marcos Antônio Duarte Pedroso, de 49 anos, e o irmão Carlos, de 51, ficaram 50 dias na Inglaterra. “Fomos em busca de trabalho.

Tivemos a promessa de que trabalharíamos num restaurante de brasileiros, que receberíamos passaporte português, mas não foi nada disso, o tempo todo corremos risco de ser presos”. Além dos irmãos, outro homem de Goiânia também caiu na lábia de um integrante de quadrilhadefalsificadoresdepassaportes. “Eles buscam pessoas em situaçãoruim e prometem conseguirdocumentos.”Quandochegaram no Reino Unido, os goianosforamtrabalharemserviços delimpezaembaresehotéis. “Na realidade, o que eles fazem é um tráfico de pessoas”, afirma Marcos Antônio, que como o irmão, deixou mulher e filhos por aqui. Ele não esconde a mágoa por terem sido enganadosporalguémpróximo àfamíliaqueagoraestá namirado Home Office, o serviço de controle de migração no Reino Unido. Instalados numa pequena cidade britânica, souberam do programadaCasadoBrasiledecidiram arriscar. “Fomos muito bem atendidos, em três dias estávamos com a passagem de retorno ao Brasil nas mãos. E tudo por conta da rainha”, brinca. Eles aterrisaram em Goiânia no dia4deoutubro.

VISITA

Os detalhes do programa da Casa do Brasil em parceria com o Home Office serão apresentados em Goiânia na próxima semana, dias 13 e 14, por sua diretora, a advogada Vitoria Nabas. A brasileira, que vive há quase 18 anos no Reino Unido e desde fevereiroestáàfrentedainstituição, fará uma série de visitas ao

Marcos Antônio Pedroso voltou ao Brasil após 50 dias na Inglaterra. Sem documentação, ele temia ser preso

Osgoianosestãoaqui emgrandenúmero. Osempregos diminuíramecomo Brexitatolerânciaà imigraçãoestácaindo sensivelmente” Vitoria Nabas, diretora da Casa do Brasil

interior de São Paulo e do Paraná, vai se reunir com representantes do governo brasileiro, em Brasília e com parceiros em Goiás. “Trata-se de um trabalho de bastidores para conter a ação de coiotes (quadrilhas de tráfico de pessoas) e orientar para que as pessoasnãovenham enganadas. Os goianos estão aqui em grande número. Os empregos diminuíram e com o Brexit a tolerância à imigração está caindo sensivelmente”, diz a advogada,deLondres. Paulista de Presidente Prudente e cidadã italiana, Vitoria Nabas tem uma longa história no mundo jurídico, em especial na área bancária e no mercado de capitais. Em 2004, depois de uma passagem por Nova York,

Mudança exige adaptação O Brexit é a saída do Reino Unido (Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte) da União Européia (UE). A palavra foi criada a partir da junção das palavras British e exit (saída). No dia 23 de junho de 2016, durante um plesbiscito, 52% dos cidadãos britânicos decidiram pela saída do Reino Unido do bloco europeu que reúne 28 países. O “divórcio” ficou agendado para 29 de março de 2019, mas os termos da saída precisam ser aprovados pelo parlamento britânico, o que não ocorreu em três tentativas. O prazo foi dilatado para 31 de outubro deste ano e agora para 31 de janeiro de 2020. O bloco possibilitou a forma-

ção de um mercado comum europeu, acordo de livre circulação de pessoas e até a unificação monetária. Hoje o Euro é a moeda oficial de 19 países. O Reino Unido integra a UE desde 1973, mas parte de seus cidadãos se sentem prejudicados com a chegada de milhares de imigrantes, principalmente da África e do Oriente Médio, e acreditam que o país, por ser forte economicamente, ajuda a sustentar os mais fracos do bloco. A UE conta com um Conselho, uma Comissão e um Parlamento, todos com sede em Bruxelas, na Bélgica, e também com um Banco Central da União, que fica em Frankfurt, na Alemanha.

ALTERAÇÃO

Com a saída do Reino Unido do bloco europeu, não apenas os britânicos terão de se adaptar ao novo momento, mas também os brasileiros com passaportes europeus que vivem na Inglaterra terão de se reorganizar. Para continuar vivendo no país essas pessoas terão de se registrar junto às autoridades de imigração até 31 de dezembro de 2020. “Na Casa do Brasil já estamos fazendo esses registros”, afirma Vitoria Nabas. A partir de 2021, aqueles que não contar com visto de residência na Grã Bretanha poderão ser deportados ao país de origem.

fundou em Londres o Nabas International Lawyers e continua sendo a única brasileira a instalarumescritórionacapitalinglesa. Mais tarde se associou ao escritório britânico Gunnercooke. Desde 2009, quando a Casa do Brasil foi criada, ela presta assistência jurídica à ONG e tornouse uma referência em temas migratórios. Segundo ela, o maior problema são brasileiros com passaporteseuropeusfalsos. Desde que assumiu a direção da Casa do Brasil, Vitoria Nabas tem se dedicado a orientar e atender brasileiros em situação vulnerável no Reino Unido. A organização não governamental recebeu do Home Office o prêmiode primeiro lugarem facilitadora de retorno voluntário ao Brasil. Somente no ano fiscal britânico de 2018/2019 (de abril a abril), 303 brasileiros voltaram ao Brasil pelo programa, 110 deles de Goiás. Em seis meses, os números superaram a meta prevista pela Casa do Brasilparaum ano. Vitoria Nabas exemplifica situaçõesenfrentadasporbrasileirosnoReinoUnido.“Estáhavendo uma invasão de europeus. O salário mínimo de Portugal é de 600 euros, o que não dápara pagar um aluguel, hoje em torno de 1,6 mil euros. Aqui no Reino Unido trabalhando em subempregos, portugueses conseguem tirar 1,5 mil euros por

mês. A construção civil está dominada por romenos e poloneses. Por isso o Brexit é ruim para os brasileiros sem documentos. Eles estão perdendo a chance de trabalhar, mesmo em funções queosbritânicosnão querem.” O paulista Diego Junior Viana, 33 anos, de Limeira, utilizou o programa da Casa do Brasil juntamente com toda a família, mulher e dois filhos. “Ficamos em Londres 2 anos e sete meses, mas é muito difícil viver lá sem documento.Alémde nãoternenhumbenefíciodogoverno,vocêécaçadotodososdiaspelamigração.”Paratrabalhar,elecontou com a ajuda de um amigo que abriu uma conta numa empresade transporteporaplicativo para fazer entregas. “Não indico para ninguém mudar para lá sem documento. A única pessoa que indiquei ficou três mesese foideportada.” PeloacordocomoHomeOffice, qualquer cidadão brasileiro que não possua cidadania europeia e esteja em situação irregular - com visto de turista e trabalhando -, pode buscar ajuda na Casa do Brasil, cuja sede fica no bairrodeKilburn,nacapitallondrina. O programa é gratuito. Alémde passagensaéreas parao Brasil, o governo britânico paga serviços complementares como aconselhamento psicológico, auxílio para acomodação emergencialetáxi paraoaeroporto.

4Perguntas para VitoriaNabas

3- Seentrar noprograma, a pessoapodevisitar oReino Unido? Sim, depois de dois anos e meio.

Diretorada Casa doBrasil,em Londres falasobretrabalhoda instituição 1-Quem podebuscar o programaderetorno voluntário? Qualquer pessoa que não tenha visto de residência (ou documentação) ou aqueles que estejam trabalhando no Reino Unido com visto de turistas. 2- Qual ocusto parao beneficiário? Oprogramade retornoé totalmentegratuitoe voluntário.Todosos custossão arcadospelo governobritânico.

4- Háriscodo candidato ao programaserdetido? O atendimento é feito no escritório da Casa do Brasil, um local seguro, e não no Home Office. Ninguém é forçado a nada. Se a pessoa mudar de ideia no último minuto, poderá fazê-lo.

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de dezembro de 2020 é o último dia para que brasileiros se registrem junto às autoridades de imigração