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passeio público

Dora Assis jornalista

É jornalista e consultor em novos media e TIC. É também autor de vários livros e projectos, como o Certamente!, o seu webzine. Já está na net desde 1989. Um pioneiro, portanto. A tecnologia fascina-o, gosta de perceber como funcionam os webservices, fazer alguns e o digital é a paixão que trata por tu. Numa conversa real a proposta é um passeio pelo mundo virtual de Paulo Querido

Querido digital

Paulo Querido tem 51 anos. Exerceu a profissão de jornalista por quase três décadas, até 2009. Desde então mantém actividade nos jornais, tanto como articulista, como produzindo aplicações web e produtos de data journalism para as redacções. Nasceu e cresceu em Faro e foi aos 18 anos, quando veio trabalhar para Lisboa, que entrou pela 26

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As grandes diferenças que assinala são mais ao nível do perfil sociológico de quem faz jornalismo

primeira vez num jornal. “Comecei no Nação, dirigido pelo Carlos Pina e que tinha o José Manuel Teixeira como chefe de redacção”, relembra. Muito embora fosse também no Nação que publicaria os seus primeiros textos, na altura entrou para estafeta. “Comecei por baixo, aliás como o Paulo Jorge Dentinho, actualmente correspondente da RTP em Madrid, e o seu irmão. O novo agregador das comunicações


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Entrámos na mesma altura os três e todos como estafetas! Era o percurso normal na época.” Mas não se pense, por isso, que o encontro com as letras e com o jornalismo foi acidental. Já vinha de miúdo “o sonho de ser escritor” e é com um sorriso que recorda que se preparava para esse dito futuro “escrevendo imenso numa máquina antiga que tinha, uma Royal!”. Contudo, depressa percebeu que aquela talvez não fosse a melhor opção. Tinha um primo que era jornalista e, pela proximidade com o Carlos Pina e com o Paulo Dentinho, a ideia de desenvolver uma actividade também ligada à escrita, mas como jornalista, começou a ganhar forma e depois corpo. A veia de escritor estava lá e os livros acabariam por chegar, sim, é verdade, mas muitos anos depois. A evolução tecnológica, em especial na última década, tem sido espantosa, na sociedade em geral e no jornalismo em particular. E o nosso interlocutor recorda que, antes do offset, ainda chegou a trabalhar no chumbo. Era o tempo em que o telex era uma tecnologia moderna e ainda nem se falava em telefax. “Fazíamos as peças por telex e por telefone! Depois veio o fax, que foi a primeira grande revolução, mais tarde o desktop publishing, a entrada dos primeiros computadores nas redacções e, de então para cá, a evolução tem sido imparável”. Provavelmente até Gutemberg ficou surpreendido com as mudanças na velhinha Imprensa quando começou a ouvir palavrões como web journalism e web publishing! Mas nada disto surpreende Paulo Querido. Reconhece que as coisas mudaram muito, mas isso “é normal, é a evolução”. “E a evolução acontece em todas as épocas”, enfatiza. O ritmo a que tudo acontece é que é muito mais acelerado. As grandes diferenças que assinala são mais ao nível do perfil sociológico de quem faz jornalismo: a formação universitária superior, que na O novo agregador das comunicações

“Hoje, faz muito mais sentido falar de transparência. Contudo, parece-me que no plano ético não se evoluiu. E isso não se ensina na escola, aprende-se no dia-a-dia, no terreno, por osmose. Como se vive num ambiente extremamente concorrencial há muito menos tempo para essas questões, que de alguma forma têm vindo a diluir-se na última década”

época era inexistente, a entrada posterior das mulheres nas redacções, então uma imensa minoria, o início da personalização do jornalismo, quase inexistente nos anos 70... “O que o jornalismo ocidental ganhou aqui, acabou por perder noutras coisas”, nomeadamente um certo espírito comunitário e até mesmo gregário. Objectividade e independência eram valores muito importantes na altura. “Hoje, faz muito mais sentido falar de transparência, por exemplo. Contudo, parece-me que no plano ético não se evoluiu. E isso não se ensina na escola, aprende-se no dia-a-dia, no terreno, por osmose. Como se vive num ambiente extremamente concorrencial há muito menos tempo para essas questões, que de alguma forma têm vindo a diluir-se na última década. Em contrapartida, há uma pressão sobre a produtividade - hoje tudo se mede - que na época não existia”. Queremos saber o que faz nos tempos livres. Mas a verdade é que não se lhe conhecem hobbies. O portátil, o iPhone e

Não se pense que o encontro com as letras e com o jornalismo foi acidental. Já vinha de miúdo “o sonho de ser escritor” e é com um sorriso que recorda que se preparava para esse dito futuro “escrevendo imenso numa máquina antiga que tinha, uma Royal

PERFIL

O fio condutor Quando e como foi o primeiro encontro com a sua paixão? Onde é que tudo começou? Na década de 70 o computador era comummente encarado com desconfiança, sentido como uma ameaça que se aproximava e Paulo Querido também pensava assim. Com os Spectrum e a evolução da micro-informática interessou-se pelo tema, que tinha tudo a ver com informação. Comprou um Spectrum, aprendeu Basic, a linguagem de programação, e nunca mais parou. A integração plena no seu trabalho aconteceria ainda na “Gazeta dos Desportos”, onde estava na altura. Com um amigo desenvolveu um programa no Spectrum para fazer a classificação das equipas de futebol, um processo ainda manual. Em meia hora tinham aquilo que até então levava seis horas a fazer: a classificação da jor-

nada de todas as equipas nacionais de futebol. A internet veio mais tarde, mas muito mais cedo do que para a maioria dos portugueses. Talvez pelo seu espírito empreendedor e pelo seu carácter de pioneiro. No final dos anos 80 tem pela primeira vez na mão um modem. Na altura era preciso ligar à Compuserve, nos Estados Unidos. Foi marcante a entrevista que fez na altura em alto mar a João Cabeçadas, que estava a participar numa regata de volta ao mundo. Tratar a tecnologia e o digital por tu passou a ser natural na vida de Paulo Querido, que também, pelo seu espírito arguto e curioso, sempre esteve um pouco mais à frente, iniciando percursos inexplorados ainda pela maioria. Não sabemos, nem Paulo Querido sabe, o destino desta viagem.

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“Fazíamos as peças por telex e por telefone! Depois veio o fax, que foi a primeira grande revolução, mais tarde o desktop publishing, a entrada dos primeiros computadores nas redacções e, de então para cá, a evolução tem sido imparável”

o iPad que estão em cima da mesa da sua sala, onde visivelmente se encontrava a trabalhar, dizem tudo. A paixão é mesmo aquela! O visível e o que lhe está subjacente. A vontade de ser escritor continuava lá. A uma primeira aventura em livro no início dos anos 90, um manual de CorelDRAW, seguiram-se outros sobre a Sociedade da Informação. “Homo Conexus” foi na época de lançamento, há mais de uma década, uma obra singular. “A minha bola de cristal brilhava muito mais na altura do que hoje”. Concretizou a intenção: fazer o leitor mergulhar no futuro, maravilhar-se com as possibilidades, reflectir sobre 28

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“Homo Conexus” foi na época de lançamento, há mais de uma década, uma obra singular. “A minha bola de cristal brilhava muito mais na altura do que hoje”

“Homo Conexus” foi na época de lançamento, há mais de uma década, uma obra singular. “A minha bola de cristal brilhava muito mais na altura do que hoje”. Concretizou a intenção: fazer o leitor mergulhar no futuro, maravilhar-se com as possibilidades, reflectir sobre as mudanças que aí vinham”

“Amizades virtuais, paixões reais” antecipou o que veio a ser o dia-a-dia dos cibercidadãos na web social. Um livro que deu muito trabalho a escrever”

as mudanças que aí vinham”. Em 1999, Paulo Querido escrevia sobre o “O futuro da Internet”, uma obra que inaugurou em Portugal a venda de livros digitais através da net, sendo o primeiro adquirível em formato pdf. Seguiu-se “Blogs”: “Foi um livro divertido de fazer” e a “reaproximação de dois amigos que não se viam há mais de 20 anos”. “O Luís Ene é um dos pioneiros da blogosfera e decidimos ver se éramos capazes de escrever o primeiro livro português sobre blogues. Isto em 2003. Foi, aliás, na sequência da recolha de material para o livro que surgiu o weblog.com.pt, o primeiro alojador português de blogues

aberto ao público, que lancei em Junho de 2003. Foi vendido ao AEIOU em Fevereiro de 2006, sendo hoje parte do grupo Impresa”, lembra. “Amizades virtuais, paixões reais” antecipou o que veio a ser o dia-a-dia dos cibercidadãos na web social. Um livro que deu muito trabalho a escrever”, como salienta. E agora? E o futuro? Próximos desenvolvimentos e projectos? Se os lábios ameaçaram uma resposta, as palavras não foram cúmplices. Vingou o silêncio da reflexão. Paulo Querido não tem resposta. Mas tem tido sempre a atitude certa. Alimentada a curiosidade, nunca fica sereno o seu pensamento. Vai um tweet? O novo agregador das comunicações


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