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A televisão

O atual contexto das televisões em Portugal é “muito agressivo” e existe uma “rarefação da publicidade” mas para a TVI isso é “um estímulo à criatividade e à eficiência”, afirma José Fragoso, diretor de conteúdos da estação de televisão que é líder em Portugal. A ficção em português “de Portugal” tem sido uma das traves-mestras do sucesso e no último ano apostou fortemente na renovação da informação

José Fragoso, diretor de conteúdos da TVI

Eduardo Ribeiro

Ficção é o grande ativo

Briefing | Quais os objetivos da criação da TVI Ficção e da + TVI, no MEO e ZON, respetivamente? José Fragoso | Corresponde a uma ideia que temos de que a TVI é o maior produtor de conteúdos de televisão em língua portuguesa de Portugal no mundo. Temos diariamente na nossa grelha praticamente só conteúdos que nós produzimos. Esse é um dos fatores que nos orgulha enquanto empresa portuguesa da área dos media. Desde as seis da manhã até à meia-noite e meia todos os conteúdos que produzimos são em língua portuguesa. É raro ver-se uma legenda na TVI, é raro ter-se o português do Brasil. A TVI e a nossa 8

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produtora, a Plural, trabalham para conseguir responder ao longo do ano aquilo que, do nosso ponto de vista, o povo português mais aprecia que é melhor ficção, o melhor entretenimento e o melhor desporto. Neste contexto, e como o consumo da televisão também se tem vindo a alterar com o digital, considerámos que faria todo o sentido que a TVI se envolvesse em mais projetos no cabo, onde estamos presentes atualmente com um canal, a TVI 24. Apareceu, naturalmente, a ideia de fazer um canal virado para a ficção e outro para o entretenimento. São projetos que temos para lançar ainda este ano e que correspondem ao nosso desejo

de estarmos ligados ao público de forma mais complementar. Briefing | Como é que está a correr a experiência da TVI 24? JF | Está a correr muito bem, quer do ponto de vista de audiência, que cresceu, quer do ponto de vista do conforto que temos hoje quando olhamos para o canal e vemos que está claramente perfilado como um canal de informação que tem capacidade de estar ligado aos eventos, aos acontecimentos e ao que se vai passando em Portugal e no mundo de uma forma direta. Os dois novos canais vêm abrir para a TVI uma nova perspetiva de ligação ao público através de canais

de cabo que permitem desenvolver projetos que já são conhecidos e outros novos desenvolvidos especificamente para cada um dos canais e que nós vamos desenvolver com as nossas equipas, quer na área da ficção quer na área do entretenimento. Briefing | A ficção tem sido fundamental para consolidar a liderança da TVI entre os canais generalistas portugueses? JF | A ficção em português é o conteúdo forte e é nela que a TVI tem alicerçado a sua liderança. Estamos a falar em ficção feita em português, pensada por portugueses, escrita por autores www.briefing.pt


portugueses, realizada por equipas técnicas portuguesas e com atores portugueses como protagonistas. Temos quatro novelas em antena que sustentam neste momento o prime time da TVI mas esta linha vem de há muitos anos e foi-se consolidando. Foi uma linha fundamental para a TVI ganhar a posição que tem hoje junto do público mas foi também fundamental para a criação, em Portugal, de uma indústria audiovisual que hoje é das mais fortes de todas, mesmo em comparação com outros países da Europa. Trata-se de um investimento significativo e também um ganho muito significativo para um país como Portugal. O nosso centro de produção é exemplar, mesmo à escala europeia e internacional.

“A Plural é a nossa produtora integrada, tem também uma atividade na área da produção com meios exteriores e uma capacidade de construção de cenografias”

Briefing | É por isso que a Plural é tão importante para a TVI? JF | A Plural é a nossa produtora integrada, tem também uma atividade na área da produção com meios exteriores e uma capacidade de construção de cenografias. Tem um conjunto de valências que são importantes na ficção, até para a indústria em Portugal, não apenas para a TVI. A Plural entra aqui como a grande produtora destes conteúdos e fundamental na nossa manobra. Briefing | Esses conteúdos na ficção têm feito sucesso em mercados de língua portuguesa? JF | Aí e não só. Os “Morangos com Açúcar”, por exemplo, estão a passar em Israel. Há produções da TVI e da Plural que estão em 25 países. Algumas delas no Brasil, onde passou recentemente o “Equador”. Hoje existem muitos canais de televisão pelo mundo inteiro o que facilita, de alguma maneira, a distribuição pois há uma necessidade de conteúdos e a ficção é um conteúdo rico. O facto de a TVI ter recentemente ganho um Emmy projetou as nossas ficções internacionalmente e uma das nossas

vontades é manter esse eixo de distribuição para outros mercados.

“Desde as seis da manhã até à meia-noite e meia todos os conteúdos que produzimos são em língua portuguesa. É raro ver-se uma legenda na TVI, é raro ter-se o português do Brasil”

Briefing | Ao contrário do que acontecia anteriormente, a TVI é hoje uma televisão “transversal”. Tem essa ideia? Como é que isso se conseguiu? JF | Não queria ser eu a fazer essa avaliação mas a TVI tem de ser um canal capaz de responder em cada momento à forma como as pessoas olham para uma televisão. Temos que ter claramente quatro vetores num canal generalista: o melhor entretenimento (e nós temo-lo), a informação (a TVI tem uma oferta de informação muito credível e que deu ao público um sinal de que tinha capacidade de se revitalizar nessa área – o José Alberto Carvalho e a Judite de Sousa conseguiram transmitir, neste último ano, essa ideia de que a TVI podia ser líder na informação e hoje somos líderes) e a ficção (o nosso grande ativo, sendo a TVI a única estrutura capaz de produzir ao mesmo tempo uma quantidade de horas de ficção em português de Portugal com uma qualidade assinalável). >>>

Desde 1992 que nos orgulhamos de fazer da vida das empresas um grande evento. www.briefing.pt

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A estas três áreas juntamos ainda o desporto e este ano fizemos uma aposta na Champions League, que é a maior competição de futebol do mundo.

“O facto de a TVI ter recentemente ganho um Emmy projetou as nossas ficções internacionalmente e uma das nossas vontades é manter esse eixo de distribuição para outros mercados”

Briefing | Não vai estar é na Liga portuguesa… JF | É uma questão de opção. A TVI teve a Liga portuguesa nos últimos anos e quando começámos a desenhar as opções para esta altura a nossa opção foi ir à procura da melhor competição de clubes. Só podia ser a Champions, onde temos o Benfica, o Porto e o Braga, as principais equipas da Europa e treinadores e jogadores portugueses a competir em diversos clubes. Do meu ponto de vista fazia todo o sentido que a TVI optasse por esse investimento. Briefing | As alterações introduzidas na área da informação também contribuíram para alterar o perfil do espetador? JF | O que queremos é que os novos espetadores tenham a melhor oferta e a TVI, na área da informação, tem agora uma oferta muito clara. Por aqui passam os principais protagonistas das várias áreas. Temos formatos de entrevista, de debates, uma informação alinhada com aquilo que deve ser uma informação televisiva de referência em Portugal. Julgo que os resultados também estão à vista pois neste último ano conseguimos, quer na TVI, com os noticiários do almoço e do jantar, quer com a mudança estrutural da TVI 24, que mudou completamente desde fevereiro, garantir para o nosso lado essa perceção de que a informação da TVI é de referência na área televisiva. Eu diria que nesta área o trabalho feito no último ano tem sido fantástico. Briefing | Em relação às audimetrias a TVI tem adotado uma postura um pouco ziguezagueante: contestou a Marktest, depois contestou a GfK. Porque é que agiu desta forma? Qual a posição atual? JF | A nossa preocupação é que o sistema seja credível e a nossa po-

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“Neste último ano conseguimos, quer na TVI, com os noticiários do almoço e do jantar, quer com a mudança estrutural da TVI 24, que mudou completamente desde fevereiro, garantir para o nosso lado essa perceção de que a informação da TVI é de referência na área televisiva”

sição tem sido, ao longo do tempo, garantir que o seja. É credível se as pessoas que no mercado utilizam as audiências, e que são os profissionais de televisão, os anunciantes e as agências, acreditarem nesse trabalho. O que temos dito sempre é que é absolutamente essencial que esse processo seja desenhado da forma mais profissional e credível possível. Para que essa mensagem passe é preciso, em alguns momentos, tomar determinadas posições e a TVI tem-no feito quando considera que isso é importante. O objetivo é garantir que o sistema de audiências usado em Portugal é absolutamente credível. Houve, no último ano, uma mudança nesse sistema. Estas alterações, quando são feitas e em vários países do mundo, têm sempre uma fase de adaptação e há, normalmente, algumas dificuldades de adaptação. O que queremos garantir, e é isso que continuamos a dizer de uma forma muito clara dentro da CAEM, a entidade onde estes assuntos devem ser discutidos e debatidos e devem evoluir, é que o trabalho nesta área é credível e que toda a gente, quando recebe os dados, acredita neles. Briefing | E estamos a caminhar para isso? JF | Esse é o objetivo e é esse trabalho que a TVI tem acompanhado de uma forma muito direta e presente dentro da CAEM, que é a entidade que tem de garantir que é assim que vai ter de se fazer.

“A TVI teve a Liga portuguesa nos últimos anos e quando começámos a desenhar as opções para esta altura a nossa opção foi ir à procura da melhor competição de clubes. Só podia ser a Champions”

Briefing | Como é que vai evoluir o mercado da televisão em Portugal? Vão as generalistas perder cada vez mais quota de mercado para o cabo? JF | Há uma realidade nova que tem a ver com o facto de a distribuição de conteúdos de televisão ser hoje muito diversa e no futuro vamos ter ainda mais formas de distribuição. Hoje podemos ver televisão nos telemóveis e nos tablets, gravar programas e vê-los mais tarde, construir os nossos próprios canais e produzir conteúdos. Tudo isto é verdade mas quando olhamos para a realidade dos factos a verdade é que, em Portugal, >>>

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JORNALISMO

“Há hoje uma maior dificuldade de acesso à informação” Briefing | Começou o seu percurso profissional no jornalismo. Como é que olha para o jornalismo português atual e vê a sua evolução?

“A ficção em português é o conteúdo forte e é nela que a TVI tem alicerçado a sua liderança”

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temos uma oferta de televisão que, somados os quatro canais generalistas, têm hoje uma percentagem do mercado ainda muito significativa e os conteúdos mais vistos. A televisão em Portugal, e ao contrário do que muitas vezes se pensa, é muito rica pois somos um País muito pequeno e temos três canais de notícias. Se formos a França, Espanha e Alemanha não existem canais de notícias como em Portugal. Os canais de informação portugueses fazem um esforço significativo para acompanhar aquilo que se passa no mundo. Há um olhar português que as televisões continuam ainda a garantir, seja no Médio Oriente, seja na América Latina, nos EUA ou no resto da Europa. A forma como em Portugal a TVI construiu o edifício da ficção nacional é também muito relevante. Não encontramos paralelo para isto noutros países. Briefing | Como é possível manter esse edifício com o investimento publicitário em queda e, com a privatização de um canal da RTP, o aparecimento de mais um player no sector? JF | É verdade que o contexto é muito agressivo e que muitas vezes 12

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“Os canais de informação portugueses fazem um esforço significativo para acompanhar aquilo que se passa no mundo. Há um olhar português que as televisões continuam ainda a garantir, seja no Médio Oriente, seja na América Latina, nos EUA ou no resto da Europa”

JF | É um tema sobre o qual tenho ideias diferentes em dias diferentes…Acho que a tarefa do jornalista é hoje muito facilitada por um conjunto de oportunidades que a tecnologia e as comunicações e o contacto muito fácil vieram oferecer. Quando comecei a trabalhar na rádio, em 1987/88, na TSF, não havia telemóveis e fazíamos um direto a partir da cabine telefónica mais próxima. Quando comecei a trabalhar na SIC, e quando fizemos a primeira Volta a Portugal, tínhamos de ir enviar as peças às torres que existiam em Montejunto, no Mendro, na Fóia e noutros locais. Hoje não é assim e temos uma grande facilidade de entrega de conteúdos. Atualmente basta ir à internet e podemos recolher informação sobre qualquer parte do mundo. Isto há 20 anos não era possível. Por outro lado, do ponto de vista jornalístico, há hoje uma maior dificuldade de

a tentação até seria comprar novelas já feitas noutros países e por um décimo do preço do que custam em Portugal. É verdade que há uma rarefação da publicidade e que há um mercado cada vez mais competitivo mas isso, para nós, deve ser um estímulo à criatividade e à eficiência. Somos hoje mais eficientes a fazer algumas coisas do que fazíamos há uns alguns anos. Daqui a alguns anos certamente que vamos procurar ser ainda mais eficientes. Isso consegue-se com

acesso à informação pois as organizações defendem-se mais, existem muitas barreiras para conseguir chegar às fontes diretas e há mais contra informação e desinformação. É mais difícil fazer a triagem da informação verdadeira e da que é falsa. Sinto que há uma “nuvem” que existe e que não tem nada a ver com informação e isso acentuou-se nos últimos anos. Mas acho que quem continua a trabalhar na profissão com gosto e rigor consegue diferenciar-se. Temos em Portugal excelentes jornalistas nas televisões, nas rádios e na imprensa escrita e o jornalismo tem de continuar a ser encarado como uma paixão, como era no meu tempo. Os jornalistas têm de saber que com esta profissão estão a contribuir para a transformação da sociedade, das pessoas e de um conjunto de situações que muitas vezes podem ser injustas e devem ser corrigidas pela sociedade. O trabalho do jornalista deve ter esse vínculo, esse compromisso. Quando ele é assumido pelos meios de comunicação temos bom jornalismo. Fico muito triste quando vejo o contrário.

grande envolvimento das equipas e com a capacidade de alterar até métodos de trabalho de acordo com as circunstâncias sem perder o objetivo central que é garantir que os nossos espetadores continuam a ter os melhores conteúdos. Mas a verdade é que é uma tarefa extremamente difícil e hoje em dia há uma crise dos media que tem a ver com questões mais antigas do que com a atual crise económica, com a entrada da internet e das multiplataformas. www.briefing.pt


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