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Suprimento de Humor

Edição #3 Porto Alegre Novembro 2020

A gente procura sarna pra se divertir

Foto: Tânia Meinerz

ENTREVISTAÇO EDGAR VASQUES:

A U O S S A P E S O Ã “N E A R U D A T I D A O P M LI ” O D U T M O C U O T L ELA VO i do Live exclusiva com o pa fome a d l a n io c a n i ró e h o , o g n Ra

Leia e espalhe nossa 3a edição SAUDADES DO HENFIL MANUAL DO ELEITOR

BRASIL REFÉM DO CENTRÃO NOVA QUERELA GRÁFICA TRUMPTEADA NO TRUMP Jornal impagável e maior: 20 páginas

arai ORDER Adão Iturrusg M DE RA PA ÃO N M AÇO E O MICUI | Carlos Castelo M tt TI ne NO Be | S o UE en AQ nt CR Ce S on NOVO | Ayrt des er | Alisson | Aroeira eb Si n la Al | bio Zimbres | Fernan ck Fa | Be a e on dr ng La e Alexan an bi | Fa Vasques | Ernani Ssó arko | Kayser | Laerte M tia Ka | o el m Daniel Kondo | Edgar Ca ta | Jo rrêa | Hals | Helô D´Angelo io Goulart | Rafael Co ár M | o im ss ri Ve Fraga | Gilmar Fraga do rnan nte | Luciano Lima | Luis Fe | Uberti | VeceMICUIM r rz ke ne ae ei M em a he ni sc #1 Tâ | De r c ôo Lu ro | Samanta Fl et Pi | o os dr Pe do an Rafael Sica | Orl


EDITORIAL

O HUMOR CONTRA O HORROR Este editorial é desaconselhável para pessoas impressionáveis, portadores da marca-passo e apavorados em geral. Quem achava que a situação já era aquela em que jacaré nada de costas, prepare-se para o pior. Como medida de precaução, sugere-se às almas democráticas que, antes dos próximos parágrafos, dêem uma alongada nos 24 músculos da face que usamos para rir e ataquem o restante da edição. Riam, gargalhem, divirtam-se. Depois, apertem os cintos, trinquem os dentes e venham pra cá. Ah, já voltaram? É o seguinte: o número de candidatos militares, da reserva ou da ativa, saltou em mais de 300% entre os prefeitos que concorrem às eleições deste mês. E aumentou 56% entre os vereadores. É mole? Não, não é. Sabem por quê? Porque o número absoluto é muito mais eloquente. São 8.730 candidaturas para prefeito e vereador. Somente os PMs respondem por 41% deste total. Delas, 5.165 carregam antes da graça do pretendente termos como “coronel”, “comandante”, “sargento” e “delegado”. Também querem uma vaga de vereador sete caras que se chamam “Espingarda” e cinco que atendem por “Pistola”. O campeão dos quartéis é o PSL. O ex-partido do inacreditável que nos governa arregimentou 810 milicos e policiais. (Pausa para o Isordil) Mas tem mais. Os pastores e outros aspirantes religiosos cresceram 40%. É uma horda de 4.500 abnegados. O bambambã dos templos é o Republicanos que arrebanhou 367. Como acontece com os partidos no Brasil, o nome Republicanos é uma pegadinha. Tem tanto de republicano quanto o Alexandre de Moraes tem de cabelo. É simplesmente o partido da Igreja Universal do Reino de Deus. A quantidade de militares, tiras e pastores que estão largando os quartéis, delegacias e igrejas para abocanhar uma boquinha nas prefas e câmaras é um negócio assustador. Para quem vive de rir dos costumes antigos, como a rachadinha, e dos novos, como a acomodação de dinheiro no rabo, é uma notícia ainda pior. Esses candidatos aí cultivam um péssimo humor. Mas, querem saber de uma coisa? Azar deles! Fanáticos são ridículos e nossa missão é expor seu imenso ridículo. Sim, vamos trabalhar mais. Mas é o trabalho que a gente gosta. Então, vai um aviso aos milicos e aos crentes: não se elejam. Vocês vão se arrepender.

É preciso amar as pessoas como se não houvesse eleições. (@casteladas)

A FALTA QUE FAZ Henfil foi um dos três gênios daquela família maravilhosa. Herbert, Henrique e o Francisco Mário. Ô saudade de tudo o que eles fizeram... (Aroeira)

H

Todo humorista é irreverente. No Brasil, porém, nenhum foi mais do que o Henfil. Nenhum humorista tinha feito, por exemplo, um frade peidar na sua tira. E o Henfil não era daqueles humoristas que costeiam o alambrado. Embora mineiro, colocou a seca, a pobreza e a injustiça social do Nordeste nas suas tirinhas. Foi a primeira vez que a região apareceu assim nos quadrinhos. (Ayrton Centeno)

E N

O Fradim fazendo ‘top-top’, deu um toque na minha cuca. Ver aquelas tirinhas me ajudou a querer fazer humor também. Tutameia, Henfil foi mil. (Carlos Castelo)

A inteligência de Henfil transformou a fragilidade da hemofilia em mais uma arma contra a violência da ditadura, como quem diz: “se me tocarem, viro mártir”. Assim, bateu forte, com seu sarcasmo e grafismo direto, através de alguns dos personagens mais populares do cartum brasileiro. Ave, ave Graúna! (Edgar Vasques)

F

O Henfil era o mais radical entre os cartunistas do Pasquim. E era também o mais popular. Ele incitava as massas como quem conversa com a mãe e não é só metáfora, ele realmente fazia isso. (Fabio Zimbres)

I

No dia que conheci Henfil, ele estava acamado. Mesmo assim nos recebeu, eu e o Edgar Vasques, e topou participar da Antologia Brasileira de Humor. Na última vez que nos vimos, num cinema no Rio, conversamos na entrada. Quando a sala abriu, pra preservar a privacidade do casal, fui sentar longe. Apesar de usar muleta, andou até mim e me convidou pra sentar com ele e a namorada. Na saída, cafezinho e papo. Admirável vitalidade, que só mesmo uma transfusão traiçoeira poderia pôr fim. (Fraga)

L

Certa vez hospedamos o Henfil na nossa casa. Ele era hemofílico, e qual é a última coisa que você quer que aconteça com um hemofílico na sua casa? Que ele se corte, claro. Foi o que aconteceu. Entramos em pânico, mas o próprio Henfil manteve a calma e controlou a situação. Até hoje não tenho dúvida que ele resolveu o problema sozinho para não nos embaraçar. O Henfil tinha muitas maneiras de ser amigo. E foi o grande nome daquele período duro em que ninguém mais do que ele soube driblar a repressão e desafiar a ditadura. (Luis Fernando Verissimo)

ECCE MICUIM

Carrapato é a vovozinha. Só porque são confundidos com os filhotes dele não quer dizer que sejam da turma dos ixodídeos e argasídeos, reles ectoparasitas. Micuins são do clã trombiculídeo. Como a própria palavra indica, também não são parentes da anta nem do elefante: não é o nariz deles que tem a forma de tromba. São conhecidos ainda como vermelhinhos ou amarelos, mas sem ter olho puxado ou sofrer de esquerdopatia, pelo menos em grau muito avançado. Se você gosta de piquenique em capoeiras e de rolar na grama com sua gata, em épocas secas, cuidado. Os micuins estão atrás de sua pele – e andam aos milhares. Os micuins dão nome a este suprimento porque, como os humoristas, são seres quase microscópicos e suas picadas causam coceiras tenebrosamente ardidas. Agora, ao contrário dos picados pelos micuins, os poderosos podem até achar graça na picada dos humoristas e, como Freud explica, sentir algum prazer obscuro. Por isso a ideia dos trombiculídeos da casa é outra: causar coceira em você. Sim, você. Pra que se mexa, porra. O Micuim, símbolo deste incômodo jornal, precisava duma cara. Graças ao Uberti, sagaz cartunista do nosso time, o Micuim ganhou o retrato-falado mais expressivo que o bicho poderia ter.

Micuim – Suprimento de Humor do jornal Brasil de Fato RS - Edição #3 Porto Alegre Uma publicação mensal movida a maus ventos, piores eventos e baixos proventos. CONSELHO EDITORIAL Katia Marko, Fraga, Ayrton Centeno, Carlos Castelo, Hals EDITORES Katia Marko e Fraga REDATORES Ayrton Centeno, Carlos Castelo, Fraga, Ernani Só, Mario Goulart, Katia Marko FOTOGRAFIA Tânia Meinerz PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO Marcelo Souza

COLABORADORES Alisson, Edgar Vasques, Fabio Zimbres, Gilmar Fraga, Hals, Kayser, Luciano Lima, Luis Fernando Verissimo, Rafael Corrêa, Rafael Sica, Uberti, Vecente CONVIDADOS Adão Iturrusgarai, Alexandre Beck, Allan Sieber, Aroeira, Benett, Daniel Kondo, Fabiane Langona, Fernandes, Helô D´Angelo, Jota Camelo, Laerte, Luc Descheemaeker, Orlando Pedroso, Pietro, Samanta Flôor

www.facebook.com/Jornal_Micuim | www.instagram.com/Micuimhumor | Twitter: @MicuimHumor | www.brasildefators.com.br Jornalista responsável: Katia Marko (DRTRS7969) | Todos os direitos reservados © 2020

#2 MICUIM

Onde há fumaça, há Salles. (@casteladas)


CHARGE

A boa notícia é que teremos eleições livres, a má é que os eleitos vão acabar com o país. (@casteladas)

RISCO NACIONAL

Aroeira

Chargistas: o exército que usa armas de uso exclusivo das forças de inteligência.

Laerte

Prêmio Vladimir Herzog 2020

Rafael Corrêa

Alisson

Adão

Jota Camelo

Benett

Kayser

Allan Sieber

Nosso destino deve estar escrito nas estrelas de algum general. (@casteladas)

Pietro

MICUIM #3


PAUTAS

Aquele tipo de eleição que devia ter prorrogação e cobrança de pênaltis. (@casteladas)

TEXTOU dinos, meio Meio latinos, meio la estiver certa. paladinos. Se a conta

Ayrton Centeno

O IMPOSTO DA MERDA

Aluno da escola de Chicago com estágio no açougue Pinochet, o ministro Paulo Guedes chamou a CPMF de “imposto de merda”. Mas quer recriá-lo. Na falta de solução melhor, prefere “esse imposto de merda”. Foi o que disse na XP Investimentos, dia 16/10. Agoniado, um amigo entendeu que Guedes tributará a merda. Como seus intestinos funcionam lindamente, preocupou-se. - Oh, Deus! Vou ficar endividado! Procurei tranquilizá-lo. Falei que Guedes não vai extrair guarás do nosso rabo como a PF fez com aquele senador. Ele se contenta com o nosso sangue. Não adiantou. - Nem vem. Já tá no nosso grupo do uátis. Vão botar um chip no fiofó da gente. Ele vai informar a central toda vez que o sujeito fizer cocô. Pesa o produto e já lança na conta. Diante da esbórnia atual, pensei que ele não deveria falar muito alto. - Não dá ideia, retruquei. - Ideia, nada. Tá definido. E quem tem diarréia por qualquer coisinha. E os caras que fazem colonoscopia? E cagam 25 vezes por dia? Vão arruinar a família! Vão ser odiados pelos filhos e netos. Pior vai acontecer com os remédios tranca-rabo. Imosec só no câmbio negro, chá de camomila mais caro que maconha... Enquanto ele falava, comecei a pensar onde ficava a farmácia mais perto... - Fala! Ficou mudo, é? Então me veio a luz. - Isso não vai rolar nunca. Sabe porquê? Porque o Bolsonaro vai ter que gastar seus 30 anos de rachadinhas, cara. Não tem quem faça mais cagada do que ele nesse país... Dei tchau e saí assobiando

#4 MICUIM

quando, ao longe, ele gritou. - Vai sonhando, otário. Bozo vai baixar uma MP para isentar ele, os filhos, os ministros, o centrão e os milicos. Apressei o passo na direção daquela farmácia. *Jornalista

Carlos Castelo

SE FOGO FOR ÁGUA

Se o Ustra respeitava os direitos humanos, se a corrupção acabou, se incitar a violência é saudável, se milicos nos ministérios é produtivo, se macaquear os EUA é o que há, se negar a Ciência é clareza, se Covid19 é gripezinha, se incinerar a Amazônia for bom para o planeta, se minar o Estado laico é razoável, se Olavo tiver razão, se tratar a Cultura como acessório é o principal, se criar máfias for tendência, se virar ogro é o novo normal, se governar é dar canetada, se Jesus subiu na goiabeira, se usar máscara é fraqueza, se a Terra for plana, se a imprensa é o Demo, se cocaína em avião da FAB for legal, se descobrir quem matou Marielle é besteira, se respeito aos mortos é “e daí?” se disparo em massa é do jogo, se mentir sobre o currículo faz parte, se isolamento social é coisa de comunista, se Educação é uma excrescência, se 150 mil mortos é uma coisa que acontece, se arminha de mão é uma ideia feliz, se coronavírus é invenção de chinês, se o Centrão é a solução, se taxar e privatizar é só co-

meçar, se os professores são uns fracassados, se nazismo for de esquerda, se o Veio da Havan é self made man, se tutelar familiares criminosos é aceitável, então é preciso admitir: Jair é mesmo o Messias. *Jornalista e humorista

Ernani Ssó

O MUNDO BOZO

Li que vários candidatos acrescentaram Bozo ao sobrenome. Que gênio satírico teria pensado nisso? Cervantes? Swift? Voltaire? Mark Twain? Eu confesso minha indigência humorística. Pior: confesso que a coisa me pareceu lógica, nada inesperada. Sentiu o horror que o Bananão está fazendo com a gente? Quantas décadas de reeducação, de psicanálise, de literatura, de escalda-pés, de caldo de galinha e compressas frias nas têmporas serão necessárias para voltarmos a ser razoavelmente humanos? Vai dar tempo? Valerá a pena? A ficção científica nos deu muitos fins de mundo. Superpopulação, guerra nuclear, invasão alienígena, o que mais? Um gênero que aposta na imaginação sem fronteiras mostrou que a fronteira da nossa imaginação fica a um palmo do nosso nariz. O poeta disse que o mundo não vai acabar com um estrondo, mas com um suspiro. Sei não. Pelo visto, vai acabar com o uivo das hordas. As discussões de um autointitulado filósofo não têm argumentos – não se diferenciam de brigas no trânsito. Os juízes abandonaram a discrição de capangas da elite do atraso e desfilam em carros alegóricos, com fantasias tipo catedrais sub-

mersas ou tirolesas estilizadas. A liberdade de expressão é sagrada, desde que na defesa do poder – Ustra expressava com ênfase seu descontentamento com a esquerda, isto é, torturando esquerdistas diante de seus filhos pequenos. A corrupção miúda, mas folclórica, tem grande cobertura da imprensa. Os crimes do mercado passam incólumes – ninguém viu, claro, foi feito com mão invisível. Apenas a polícia continua a mesma de sempre – matando em legítima defesa imaginária. Isso é só o começo. O Bananão estará pronto e acabado quando até você registrar o filho com Bozo no sobrenome. As eleições serão fáceis: os Bozos votarão nos Bozos. A situação será de Bozos e a oposição também. Os Bozos dividirão as rachadinhas com os Bozos e estuprarão as que merecem ser estupradas. Mas não esqueça: os Bozos gostam de armas. Vai chegar uma hora em que os Bozos vão começar a atirar nos Bozos. *Escritor e tradutor

Fraga

NÃO DÊ COMIDA AO HOMO SAPIENS

Em matéria de sexo, os primatas pelados se dividem em ciosos e ociosos. Preste atenção, por exemplo, no cio das espécies: as feras se reproduzem; só o homem prolifera. E ao contrário da maioria dos bichos, que não se multiplicam em zôos, o ser humano é o único animal que procura o cativeiro para procriar. Note bem a especialização carnívora: há animais que caçam carne fresca, alguns preferem carniça, só o macaco nu se farta com carnificina. Repare nas garras e nas presas dos predadores: não disfarçam

com manicure, muito menos com jaquetas de porcelana. Observe a rapinagem no reino alado: as aves fazem isso com plumas, o homem faz sem pena. Cuidado com víboras, lacraias, aranhas, escorpiões: extremamente venenosos a maioria das vezes, porém nem de longe chegam a ser como nós, sem cedilha, pessonhentos. Enfim, a julgar pelos civilizados de hoje, o berço da civilização deve ter sido uma jaula. * Jornalista e humorista

Mário Goulart

ERA UMA VEZ

Era uma vez um urubu. Não, era uma vez quatro urubus, contando a família. Ou melhor, era uma vez 17 urubus, considerando o entorno. Hi, era uma vez um bando de urubus. Eram tantos que perdi a conta, nem sei se haverá espaço para esta história. Era uma vez uma arara. Não, era uma vez muitas araras, muitos tatus, macacos, onças, tartarugas, jacarés, garças, Cerrado, Pantanal, Amazônia. Havia harmonia e felicidade, até chegarem os homens. Eram muitos e gananciosos, e logo chegou o mais insano. E ninguém mais foi feliz nesta história. Era uma vez uma Justiça. Não, era uma vez várias Justiças. As palavras valiam muito: viravam fatos que viravam provas que remetiam à prisão. “Ele não tem provas, mas tem convicções”, dizia-se. Às vezes, havia provas, mas faltavam convicções. Um dia, o rei anunciou o fim da corrupção. Ia já haver festa no reino, com desfiles do Exército, Aeronáutica e Marinha. Mas, um pouquinho antes, no cercadinho da corte, um cidadão perguntou: “Excelência, por que a rainha recebeu R$ 89 mil do Mágico de Oz?” *Jornalista e escritor

Seria ótimo se o presidente da República conseguisse explicar as suas explicações. (@casteladas)


Candidatos: se ganharem a eleição, distribuam pão. Circo já temos. (@casteladas) Foto: Wagner Avancinni

HOMENAGEM

SAUDADES Há 42 anos a gente sente falta de 4 Henfil: o humorista genial, o jornalista inquieto, o ativista combativo, o humanista solidário.

Se Henfil fosse vivo, imaginem as charges que ele faria, o inimigo que o Bozo teria,

Aroeira

as ações e provocações que promoveria. Mesmo ausente, esta seleção de desenhos realça a incrível atualidade da sua visão

democrática. Não são 42 anos sem Henfil:

Vecente

ele continua atuante e relevante até hoje.

DO HENFIL Quando tudo é opinião, nada é opinião. (@casteladas)

MICUIM #5


HOMENAGEM DOSSIÊ

Uma eleição tão infernal que até os santinhos sumiram das zonas eleitorais. (@casteladas)

(1944-

#6 MICUIM

Até março desfrutamos da civilização. Desde lá, a barbárie nos desfruta. (@casteladas)


Na escolinha da minha sobrinha fizeram uma eleição de animais e venceu o gorila. Se a tendência se mantiver, é preocupante. (@casteladas)

HOMENAGEM DOSSIÊ

-1988)

É como dizia o gigante Golias: família não se encolhe. (@casteladas)

MICUIM #7


DESTAQUE DISFUNCIONAL DO MÊS

Para militares, próxima eleição presidencial será vencida no primeiro coturno. (@casteladas)

Vecente

Jota Camelo

Nome: Ricardo Salles Nascimento: 1755 Natural: Terra do Fogo Atividade: Ministro do Medo Ambiente

Rafael Sica

Salles se enfureceu e ameaçou processar o Micuim por não ter recebido a comenda de Disfuncional do Mês. “Deram pro Mário Frias, aquele bobão, e pra Sara Giromini, aquela sirigaita, e me deixaram de fora!”, enervou-se. “Só porque eu não sei quem foi Chico Mendes? Ou porque eu queria gastar 100 milhões num satélite que já tinha? Vou mandar a AGU pra cima de vocês. Me aguardem!”, prometeu. Covardes que somos, valentemente decidimos homenageá-lo. Uma questão de justiça, após sua obra magna de destruição de 3,4 milhões de hectares de Pantanal. Gente, ele torrou 3,4 milhões de campos de futebol! Só mesmo um piromaníaco aprovado com louvor na escola Nero de Labaredas seria capaz. De quebra, outorgamos-lhe ainda o troféu Tocha Humana. O cara é fogo.

Benett

Daniel Kondo Aroeira

#8 MICUIM

Enquanto houver botão de desligar no computador, a humanidade tem salvação. (@casteladas)


Nós aprendemos com as eleições presidenciais que não aprendemos com as eleições presidenciais. (@casteladas) No Brasil, a pior das hipóteses nunca é hipotética. (Fraga) quao dos personagens de Quando o mais famint rrileta meio século de ba drinhos, Rango, comp ianentrevista o pai da cr ga roncando, Micuim s não quer nem ancheta, Edgar Vasque pr de os an 53 m Co . ça quer er lhe paguem ou não, qu s, dia os s do to a nh saber: dese , um deles ro livros em produção at qu m Te o. nã ou m lhe edite nto nunca pandemia. Se o pagame da se ne gê a do lan cu espe conversa. Por conconsagração é outra foi lá essas coisas, a sué simo o comparou a Jo ris Ve ico Er , me fo da e ta do Rango ta-se o que trago no peito”, jac lha da me a um “É . ro de Cast a e ilustrador adrinista, caricaturist qu , ta nis rtu ca a, st gi char há 71 anos Simch Vasques da Silva que nasceu Edgar Luiz sem o 17 livros publicados, sã o ng Ra do Só . re eg em Porto Al uro gráfico. máticas e de grande ap te s tra ou de s HQ as contar alços na dita, ele trata de seus perc im icu M do a rm tu a Com bolsonarismo, da avidão na gestação do dura, do peso da escr fome e ronegócio, da volta da ag do e nt dia dia mí bajulação da mais fraco. do humor que bate no

Foto: Tania Meinerz

M E T R O M U H “O QUE PEGAR NO PÉ DOS PODEROSOS”

Katia - Como está nesse momento de pandemia fazer humor? Edgar Vasques - No momento de pandemia estou mal, mas acostumado. O humor está no ambiente todo, basta pinçar algum tema e que ele já vem ridículo do jeito que as coisas estão. Fraga - Eu queria saber do Edgar o seguinte: em Porto Alegre, o livre espaço de

Uberti

expressão de bons chargistas, cartunistas e humoristas, é o jornal Extraclasse. Não por acaso ele reúne o Edgar, o Santiago, o Rafael Côrrea, o Sica, o Verissimo e eu. Então por que o mercado enxugou tanto? Edgar Vasques - Sempre foi problemático. A perda de espaço do chargista corresponde à perda de espaço da imprensa como um todo. Estou fazendo 53 anos de carreira profissional. E o que assisti nesse tempo todo foi uma monopolização e uma diminuição dos espaços do jornalismo em geral. Centeno - O teu personagem, o Rango, está completando 50 anos na pindaíba. Vivia numa lixeira catando coisas para comer e tal. Como o Rango sobrevive hoje com a disparada do feijão, do arroz e dos produtos da cesta básica?

Edgar Vasques - É, o lixo alimentar está rareando também. O Rango talvez seja o personagem mais antigo do cartum brasileiro ainda em atividade e isso é sintomático. Algumas pessoas, ali pelos anos 1980, começaram a refugar o Rango: “Ah, isso aí já passou, não existe mais espaço para tu ficar denunciando a fome”. Bom, infelizmente existe espaço. Centeno - Ele causa mal estar? Edgar Vasques - Causa. A ideia desde o início foi essa: causar um mal estar. Na época em que comecei com o Rango, a fome era um caso de polícia. O miserável que ia reclamar tomava pau. Me criei vendo a marginália no centro. É o substrato da criação do Rango. No começo, eu falava da fome. Infelizmente, 50 anos depois, o Brasil volta para o mapa da fome. Então, o Rango continua se justificando, e não só para falar

O pensamento foi definitivamente substituído pelo celular. (@casteladas)

ENTREVISTAÇO

“Fui acusado de estar a serviço de potências estrangeiras” da fome. Por trás da fome, tinha as causas do fenômeno que residem na própria composição social e política do país. Comecei a falar disso. O Rango não trata mais só do estômago roncando. Trata da política, da sociologia, do país. Katia - Em 1974, no prefácio do teu livro, o Erico Verissimo te comparou ao Josué de Castro. No humorismo, serias o que Josué de Castro era na sociologia. Como recebestes esse elogio? Edgar Vasques - O Erico estava dando um recado sobre a ditadura, a censura, a repressão. É uma medalha que trago no peito. Eu lia o Josué de Castro. Foi um cara que pegou o problema da fome e jogou um foco científico em cima. Mostrou que fome é essa, o que a carência alimentar faz em

termos de saúde pública e individual. Stela – O Rango também te levou para a Polícia Federal... Edgar Vasques - O Ziraldo me convidou para publicar no Pasquim. Comecei a fazer semanalmente para o Pasquim seis tiras. Foi quando chegou a semana da pátria de 1977. A ditadura criou uma imagem de três pombinhas, cada uma com uma cor da bandeira do Brasil. É a época do “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Fez essas pombinhas e eu via a fome na rua todo dia. Aí eu fiz o Rango churrasqueando as pombinhas (risos)... Fomos acusados de estar a serviço de potências estrangeiras. E os caras do Pasquim de receber dinheiro para denegrir a imagem do Brasil. O pessoal do

MICUIM #9


ENTREVISTAÇO DOSSIÊ Fernandes

É preciso dar cabo dos que usam a religião como cabo eleitoral. (@casteladas) “Não mete o bedelho, Machado” (risadas). O promotor que deveria oferecer a denúncia tinha duas possibilidades: a Lei de Imprensa ou a Lei de Segurança Nacional. Chegou no promotor da lei de imprensa, o cara olhou e disse: “Pô, isso aqui é uma besteira!” Aí, foi pra Lei de Segurança Nacional. E o cara: “Pô, mandaram para mim esse abacaxi”. Ninguém ofereceu a denúncia. Não tinha os malandros da Lava-Jato para inventar uma denúncia. Os caras ainda eram ingênuos.

Pasquim tirava sarro: “É o ouro de Uganda, o Idi Amin está nos comprando”. Centeno - No caso do Pasquim devia ser uísque pelo que entornavam. Devia ser (o ouro) da Escócia... Edgar Vasques - O ouro líquido da Escócia. Foram indiciados o Jaguar como editor e eu como autor. O (advogado) Eloar Guazzelli era o defensor dos censurados. Fui com a sócia dele para depor. Aí ela disse: “Vai começar o teu interrogatório e vou embora”... Eu disse não, pera aí (risos). “É uma estratégia. Se acontecer alguma coisa, vou alegar que não estava presente” (risos). Daí chega a dupla Bessa e Machado. Bessa era um baixote, sem pescoço, orelhas enormes, braços compridos. Uma figura caricatural. E o Machado era o contrário. Era um velhinho de bigode branco, sandália, camisa para fora da calça, muito à vontade. E o Bessa era sério. Aí começou o interrogatório. Ele folhava o Pasquim e me perguntava “Esse Geraldo, o senhor conhece?” Geraldo? Era o Ziraldo. O Pasquim tinha uma sessão, a Ping-Pong. Ping era o desenho original, Pong era o plágio, uma sessão que dedava os plágios. “E esse Ping o senhor conhece?” Ping? Ele achou que era um chinês infiltrado, sei lá... “O senhor não acha que o Pasquim é prejudicial à juventude?” Olha, delegado, não saberia dizer, porque eu não tenho dados para responder. Aí, o Machado diz: “O senhor vê delegado, a gente passa a bola para ele e ele não pega”, querendo enrabar o Pasquim (risos). E o delegado:

“Não existe povo mais novidadeiro que o brasileiro. Agora, lá em baixo, ele é conservador” Stela – Tu e o Rango imaginavam chegar nesse momento em que a gente se encontra no Brasil? Edgar Vasques - Ninguém esperava. Foi uma grande mancada da direita. Acabou abrindo a brecha para a extrema-direita. Mas, na época, não se podia saber que aquela iniciativa safada do Aécio Neves de denunciar a eleição da Dilma ia acabar em uma queda de dominó. E chegando no Bolsonaro, uma figura obscura encapsulada no Congresso, dizendo as besteiras dele. O que a gente aprendeu com isso foi uma lição muito dura, mas útil como toda lição. Anos de subalternidade, tanto da população, quanto das elites, a um sistema estupidamente injusto, não podem criar um povo consciente. As pessoas que se identificam com o Bolsonaro se identificam da forma mais rasa. O Brasil é um país acostumado a subalternidade desde o processo da escravidão. E não é só isso. O brasileiro foi criado pisoteado. Sempre tinha um senhor de baraço e cutelo, de forca e espada na mão sobre nós. A gente aprendeu a ser sutil, disfarçado. O brasileiro não diz as coisas diretamente. Quando diz é considerado grosso. O bacana é descobrir sem perguntar. Criou uma dicotomia muito estranha. Não existe povo mais novidadeiro

que o brasileiro. Agora, lá embaixo ele é conservador. Não é evoluído, não é aberto. É homofóbico, racista, misógino. E todas as tentativas para educá-lo tem tido um sucesso muito relativo. Assim é que chegamos nesse ponto. Castelo - Os historiadores dizem que o período com menos humor da história foi a idade medieval. Como a gente aqui no Brasil aparentemente está voltando à idade média, você acredita que os humoristas têm alguma chance de extinção? Edgar Vasques - Não sei se a idade média foi tão séria assim. Tem grandes autores que são dessa época, como o (Giovanni) Boccaccio, que tiraram seu sarro. Castelo - Eu me referia não propriamente a autores - tem o Bo-

“Quem acostumou o brasileiro a aceitar fake news foram as grandes mídias” começou a funcionar todo esse fundamentalismo fascista aliado à questão de fake news. Edgar Vasques - A diferença entre as fake news toscas da mamadeira de piroca e a Rede Globo, por exemplo, é que a Globo é profissional da fake news e esses caras são amadores. Quem acostumou o brasileiro a aceitar fake news foram as grandes mídias. Mas, sim, tenho esperança. Porque a gente fez aqui uma narrativa sobre o povo brasileiro que apontou defeitos estruturais, mas o povo brasileiro tem

“QUANTO MA MAIS A GENTE

cage, que é de um humor incrível - mas mais em relação à igreja que considerava a comédia, como tem lá em O Nome da Rosa, um elemento diabólico. Associava o humor a essa coisa dos infernos. Edgar Vasques - Estamos correndo o risco do pensamento religioso se tornar hegemônico novamente. Aquela igreja que vendia indulgências e que causou a reforma, hoje está vendendo tudo e ninguém vem fazer a reforma. Os reformados é que estão fazendo isso. As igrejas de confissão pentecostal e protestante, em princípio, é que estão vendendo tudo e tirando a grana da população. Corremos esse risco, mas (nós) os humoristas, quanto mais merda, mais a gente chafurda. Hals - Temos chance de sair desse buraco? Esse nosso período de trevas começa com o golpe contra a Dilma porque

#10 MICUIM Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera fake news. (@casteladas)

A


Esclarecimento fundamental: em qualquer pesquisa política, a margem de erro é de alguns tontos percentuais. (@F_R_A_G_A) qualidades estruturais. Tem criado uma cultura de altíssima qualidade, estudada e imitada por artistas de primeiro mundo. Antes dessa reação bárbara, tivemos um momento iluminado em que o Brasil começou a dar lições para o mundo. O que a direita fez para tentar deslocar a centro-esquerda, que vinha em muitos aspectos redimindo o Brasil - isso é inegável para quem desapaixonadamente olha os fatos históricos - foi o que esses fazendeiros estão fazendo no Pantanal. Atearam um incêndio que agora não conseguem controlar. Fraga - Com toda essa plataforma das redes sociais, por que tu és tímido dentro disso? Tens uma capacidade de influir imensa e não está sendo usada. Por que não atuas nas redes? Edgar Vasques - A resposta humorística seria que sou como um juiz das antigas, eu me manifesto

Vecente

As redações deixaram de se comover com a injustiça? Edgar Vasques - No que diz respeito às redações, existe (aquele) ponto de inflexão, quando a RBS criou os replicantes. Pegava os jovens que tinham saído da faculdade,

AIS MERDA, E CHAFURDA”

Alisson

nos autos, ou seja, nas charges. A resposta real é que sou uma pessoa tímida. Essa carranca é uma fachada. Tudo que faço é quando não aguento mais ficar quieto. Quando vejo grandes injustiças eu reajo. Fraga - Mas quando eu me refiro a tua ação, é sobre expor as tuas charges em uma rede. Não é falar, atuar. É o teu trabalho ter uma vitrine.

Edgar Vasques - Não sei se teria paciência. Não vou passar o resto do meu tempo respondendo cada asneira que vai vir pela rede. Centeno - Falastes como a injustiça te move e te comove. A injustiça, que levou muitos a essa profissão, parece hoje completamente alheia.

“Este é o motivo profundo do golpe: a retirada de todos os direitos trabalhistas”

ENTREVISTAÇO DOSSIÊ

onde tinham uma formação crítica, e formatava-os para seu uso. Foi ensinado nas últimas décadas pela hegemonia do neoliberalismo, onde o capital tem todos os direitos e o trabalho nenhum. Estamos vivendo nesse momento no Brasil e este é o motivo profundo do golpe: a retirada vertiginosa de todos os direitos trabalhistas. Kátia - Dentro dessa questão das redações, queria que resgatasses a tua história com o Coojornal, uma cooperativa de jornalistas, na década de 1970, durante a ditadura militar. Foi um espaço também desse jornalismo combativo que a gente está tentando fazer com o Brasil de Fato, com o Micuim também. Parece que os jornalistas estão desempregados e não sabem o que fazer a não ser trabalhar em uma redação. Não tem a ousadia de criar um veículo de comunicação...

se tu estás partindo do zero. O CooJornal nasce na Folha da Manhã, de jornalistas que participaram de um esforço antissistema. A Folha da Manhã era um jornal que furava a unanimidade da grande mídia. O pessoal que saiu dali teve a ousadia de pensar uma estrutura diferente, um jornal que não tivesse um patrão, baseado em experiências como a do Le Monde, na França. A estrutura cooperativa é uma alternativa ao capitalismo, porque na assembleia cada participante é um voto, independente do capital que ele tenha colocado no empreendimento, ao contrário da sociedade e ações capitalistas. Castelo - Queria te perguntar usando aquele famoso questionário Proust, o que mais você valoriza em um ser humano?

“As redes da grande mídia estão babando o ovo, sem trocadilho, do agronegócio” Gilmar Fraga

Edgar Vasques - É muito mais difícil criar uma estrutura como o CooJornal

Pesquisa indica que, se as eleições fossem hoje, o desespero seria eleito no primeiro turno. (@F_R_A_G_A)

Edgar Vasques - Talvez o que seja mais importante no ser humano para mim seja o conjunto das suas aptidões. Acho que a poesia e o humor têm muito a ver tanto é que a linguagem do humor está muito ligada a certas produções poéticas e, às vezes, o humorista faz uma coisa lírica sem querer. O Mario Quintana era um grande humorista. Resolveram fazer um busto para ele de bronze lá no Alegrete, terra dele, e perguntaram o que ele achava. E ele disse: “Um erro em bronze é um erro eterno”. Ali ele funcionou como um humorista... Hals - O teu trabalho tem que estar sim online. Qual a perspectiva de vir para rede? Venha para rede você também, vem. Edgar Vasques - Não sou um completo eremita. Mando toda semana um desenho para 250 pessoas. E várias dessas pessoas me fazem o favor de replicar isso e colocar nas redes. Meu plano é continuar desenhando quando não aguento mais as barbaridades e colocando para essa rede pessoal. Uma coisa que preocupa muito é essa lavagem cerebral que o agronegócio tem feito. Todas as redes da grande mídia estão babando o ovo, sem trocadilho, do agronegócio. A Globo está agarrada no agronegócio porque o dinheiro do governo secou. Agro é pop, agro é tudo. Entretanto, o agronegócio só é bom para aquela minoria que exporta em dólar. Quem alimenta o país é o pequeno e médio agricultor. Nenhuma mídia deu a notícia, a não ser o Sul 21, uma mídia alternativa, que o MST está distribuindo toneladas de alimentos gratuitamente para parcelas da população. A Globo tem um quadro no Jornal Nacional que são as empresas colaborando com a população durante a pandemia. Não se dignaram a fazer essa matéria (a da iniciativa do MST), porque essa matéria é o anti-agronegócio. É a história de quem realmente alimenta a população. Centeno - Só para fazer um reparo no que dissestes: o Brasil de Fato tem dado muitas matérias sobre isso (a partilha dos alimentos pelos assentados da reforma agrária). Na verdade, a Globo criou um espaço para seus anunciantes mostrarem

MICUIM #11


ENTREVISTAÇO DOSSIÊ

Não acredito em pesquisas que não tenham consultado pessoas sensatas. (@F_R_A_G_A) Fotos: Tania Meinerz

como suas empresas são legais, bacanas... O general Alberto Heleno andou se queixando das ONGs que estariam “manchando a imagem no Brasil no exterior”. Não tens uma sensação de déjà vu? É o que diziam os militares sobre quem questionava a tortura, os assassinatos... Edgar Vasques - Esses caras ficaram no passado. Não se passou a limpo a ditadura. Aí, ela voltou com tudo, inclusive com as teses. Só que as teses são problemáticas. Não temos mais a guerra fria. E o competidor do capitalismo é o maior importador do produto brasileiro. Não podem esculhambar a China, como esculhambavam a União Soviética, porque a exportação para a Chi-

Luciano Lima

#12 MICUIM

na é duas vezes a exportação para os Estados Unidos. Fraga – Para o público do Micuim que não sabe bem quem é o Edgar: como é um dia típico teu na prancheta, quais as tarefas que te dão maior prazer e quais te trazem maior compensação financeira? Edgar Vasques - Que me traz compensação financeira é o INSS. Sou um aposentado do salário mínimo. Vou desenhar se me pagarem ou não. É assim que eu tenho vivido. Meu método de trabalho é na caixa preta. Pego um papel qualquer, vou rabiscando as ideias que me vêm e atento a qualquer dica que o ambiente me forneça.

Katia - Tu nos contou uma história que acho bacana, que é a tua participação no início do projeto Tamar... Edgar Vasques - O projeto Tamar, que protege as tartarugas marinhas é extremamente bem sucedido. Teve o apoio da Marinha e hoje tem da Petrobras. Começa com uma turma de estudantes de oceanologia de Rio Grande, nos anos 1970, que em uma viagem descobriram o Atol das Rocas. É o único atol, recife circular de coral, do Atlântico Sul. Fizeram um grupo e me convidaram para ir junto porque era amigo deles. Falei para o meu pai e ele se apavorou. “Os tubarões estão de guardanapinho para te almoçar”. A minha mãe só disse assim “Te cuida, meu filho”. Eu fui.

“O humor brasileiro é muito bullying. Goza o português, a sogra, o viado, o baixinho, o gago” relato desse episódio para o qual eu inclusive já fiz o cartaz. Stela - O que fazer já que há muita dificuldade em conscientizar o sapiens de que ele está matando a si mesmo e não está fazendo muita coisa para preservar essa sua casa?

Edgar Vasques - Somos uma espécie que está no planeta como as outras. Se a gente Eram dez rapazes e oito criar condições para desapamoças, fora a tripulação do recer como espécie, a natubarco que nos levou, que eram pescadores. Uma noite reza vai adiante. Estou na 17ª começa uma gritaria de “So- página em nível de esboço de uma história chamada O corro, assassino!” Era uma das gurias da expedição que Chamado, que trata disso. Dois cientistas se internam vira os pescadores, virannos Andes para achar a do as tartarugas gigantes e resposta sobre o motivo da degolando. E as tartarugas pandemia. São conduzidos estavam ali porque tinham por um índio quéchua que, ido desovar. Das dez que além de guia, é um xamã. eles tinham virado, sete a gente salvou. Ninguém sabia Vão conversar com a natureza e descobrir porque está que as tartarugas marirolando tudo isso. nhas desovavam no Brasil. Aprendiam na faculdade que desovavam na Flórida. Alguém teve a ideia de criar Castelo - Qual conselho um programa que proteges- você daria para um cartuse a desova. Porque ali apa- nista que está começando agora? receu não só a desova, mas a predação. As duas ideias Edgar Vasques – Ele não juntas geraram o projeto pode desprezar o acúmulo Tamar, que só se estabelece humano na atividade. Ando em 1980. No ano que vem, sempre com um caderem fevereiro, vai ter uma no, sempre desenhando, comemoração chamada Ma- sempre olhando, sempre drugada Iluminada. Vai ser o coletando tipos, expres-

sões, movimentos. Também recomendo isso. A linguagem humorística tem uma vantagem sobre as outras narrativas: é extremamente popular. Mas a gente tem que ter a consciência da força dessa linguagem e não usá-la para bater no caído, no mais fraco. O humor brasileiro é muito bullying. Goza o português, a sogra, o viado, o baixinho, o gago. Vai estigmatizar por uma condição, uma carência. É uma forma infantil, meio covarde. Existem duas maneiras de usar o humor. Pode-se usar para manter o status quo. É isso que faz a piada de boteco. Mantém o racismo, a homofobia, o machismo, a misoginia, o conservadorismo. E tem o uso do humor para esclarecer. Pega no pé do poderoso, cobra, esculhamba o safado que está te roubando etc. É a melhor forma do humor servir ao meio social.

O problema central de todas as pesquisas é que os pesquisadores só pesquisam entre pessoas de opinião mediana. (@F_R_A_G_A)


Chamam de pesquisa de opinião sobretudo quando os entrevistados não são opinativos. (@F_R_A_G_A)

VALORES DOSSIÊ

(Texto Fraga / Arte Hals) De acordo com certas pesquisas eleitorais, a margem de erro pode ser um litoral de má fé. (@F_R_A_G_A)

MICUIM #13


ATUAÇÃO

QUERELA#2

Pelo menos num quesito pesquisas mostram empate entre os candidatos: a todos faltam requisitos. (@F_R_A_G_A)

Katia Marko*

Fabiane Langona Cidadã: Fabiane Bento Alves Langona

(seu nome ao O silêncio da nino é cruel. E de Chico Caru Weber, é pouc sado de Patríc Mas os tempo tada e do lar” corre solto. E

Helô D´Angelo Cidadã: Heloísa Pereira D’Angelo

Artista: Fabiane Langona Registro: 36 anos Natural: Porto Alegre/RS Residência: Santos/SP Atuação: cartunista Colaboração: Folha SP, Le Monde Diplomatique Brasil, Courrier International, UOL Notícias, revista Piauí Publicações: Algumas Mulheres do Mundo, Uma Patada com Carinho, A Mediocrização dos Afetos

Artista: Helô D’Angelo Registro: 26 anos Naturalidade: São Paulo/SP Residência: São Paulo/SP Atuação: chargista, cartunista, quadrinista, ilustradora, jornalista Colaboração: Brasil de Fato, Mamilos (podcast), IPEFEM Publicações: Dora e a Gata, Quatro Marias - reportagem em quadrinhos sobre aborto no Brasil

Micuim - Quais suas maiores referências nas artes? Fabiane Langona - São muitas. Comecei influenciada pelas revistas de humor da minha irmã, em 80/90: Dumdum, Animal, Glória Glória Aleluia, Chiclete com Banana etc. Adolescente, passei a me perguntar por que não havia mulheres autoras nas publicações. Comecei a desenhar pra ler o que não encontrava. Tinha esse lado carente, da visão feminina do mundo. Não encontrava autoras que fizessem que eu me visse e sentia falta disso. Fui atrás e conheci a Claire Bretécher, Julie Doucet, Aline Kosminski, Mariza, Vanessa Davies, Ester Pearl Watson, a Revista Clitoris... São as que mais me influenciaram. Micuim - Quais as principais dificuldades para ocupar um mercado ainda dominado pelos machos? Fabiane Langona - Ter que se provar capaz o tempo todo. E sentir-se de fora, pois a camaradagem masculina é impenetrável. Temor que ocupemos seus espaços. Só que as pessoas estão cansadas do ponto de vista masculino enfiado goela abaixo. Sinto muito, amigos. Dessa vez estamos aqui pra ficar e não vamos retroceder. Micuim - A internet facilita para que mais mulheres se assumam cartunistas/quadrinistas/chargistas/ilustradoras?

Micuim - Quais suas maiores referências nas artes?

Helô D’Angelo - Tenho muitas referências. A Laerte é a maior, desde pequena. Gosto muito do Marcelo D’Salete, da Lovelove6, Alison Bechdel, Craig Thompson, Marjane Satrapi, Joe Sacco, Harts Pigma Marina Abramovic, do David Lynch, e do Gabriel García Marques e Murakami na literatura.

Micuim - Quais as principais dificuldades para ocupar um merca ainda dominado pelos machos?

Helô D’Angelo - A maior dificuldade é que, apesar do mercado mudan do, as grandes editoras, os eventos, os prêmios, ainda são organizados por grupos de homens-brancos-héteros de SP e Rio, e ainda a maioria dos indicados e convidados. Do ponto privilegiado de garota branca qu mora em Pinheiros a coisa não é tão difícil quanto pra colegas negras, trans, que não moram em SP ou no Rio. A maior dificuldade é a gente juntar pra driblar esses caras brancos-héteros ainda no poder. Micuim - A internet facilita para que mais mulheres se assumam cartunistas/quadrinistas/chargistas/ilustradoras?

Fabiane Langona - A resposta é sim, claro. Mas, quais os reais valores embutidos nessa “facilidade”? Prefiro que minha tira e meu trabalho tenham espaço num meio em que não precisa estar logo abaixo ou acima de um selfie-cu-artístico. E prefiro estar num ambiente que valorize meu trabalho em forma de pagamento de boletos. No Brasil faltam revistas e jornais que valorizem a opinião ilustrada. O cartunista é um trabalhador invisível. E precisa ser bom marqueteiro. Não quero que meu trabalho seja mais um vácuo entre 5.009.596 de imagens.

Helô D’Angelo - Com certeza. Ela aumenta o acesso ao nosso trabalho, não precisamos de editor pra publicar. E quem não está nos grupos de poder mostre seu trabalho. É mais fácil ter contato com o artistas do Piauí, Bahia, Amazonas. Mas nem todos têm acesso à internet, então artistas muito bons precisam se mudar pro sudeste a maioria dos eventos acontece aqui. A internet ajuda os artistas a s conhecer, ficar amigos e criar consciência de classe.

“A maior dificuldade é a gente se juntar pra driblar es ses caras brancos-héteros ainda no poder.”

“Não quero que meu trabalho seja mais um vácuo entre 5.009.596 de imagens.”

Micuim - Sucesso e/ou prestígio garantem receber mais grana do que os guris?

Micuim - Sucesso e/ou prestígio garantem receber mais grana do que os guris? Fabiane Langona - Depende do que se entende como “sucesso” ou “prestígio”. Não é apenas uma questão monetária. Há um desequilíbrio histórico a ser repensado, juízos de valor de uma sociedade brutalmente patriarcal que quer ditar o quanto somos merecedoras ou não de reconhecimento. Micuim - Quanto tempo levou até você sentir que obteve respeito profissional? Fabiane Langona - Quando comecei a publicar, acharam que eu era um cara disfarçado de mulher, por conta do meu traço. Agora posso até rir, mas aquela de 19 anos ficava magoadíssima. Micuim - Numa entrevista você falou que sempre procurou algum espelho em se tratando de humor. Quais as imagens refletidas no teu trabalho? Fabiane Langona - No sentido de expor minha visão como artista, tentando refletir o meu tempo e questões que são caras a mim. Falo de temas menos “nobres”. Menos nobres para os homens: menstruação, aborto, o ridículo das relações, das ditas obrigações femininas, o instinto materno e cuidador, desse finito universo feminino, que sabe-se lá quem definiu como tão restrito a futilidades. E por que detestar as futilidades? Tudo compõe o todo. Não faço questão de me encaixar em expectativas sociais ou papeis que enquadrem o meu trabalho em deveres. Sou contra pressão externa e moralismos. Não me venham dizer como e quando devo fazer algo que escolhi pra ser livre. Minha única regra é bater no opressor, independente da forma como ele se mostre.

#14 MICUIM

Gargalhar, humor, riso, desenho. São palavras masculinas. Rir destemperadamente era só para mulher vulgar. E vulgaridade não garantia casamento. O que por muito tempo afastou as mulheres do humor. Mas nem todas. Algumas foram vanguarda ao rasgar o Manual da Esposa. Mesmo que sob a proteção do pseudônimo. Como a primeira cartunista no Brasil, Nair de Teffé, nascida em 1886, que assinava seus desenhos como Rian

Helô D’Angelo - Não (risos). Já tive situações, convidada pra fazer tirinha, charge ou ilustração num rolê, e não fui paga, e os homens tinham sido pagos. Por ser mulher preciso justificar meu trabalho. problema é que pra eles nunca há exigência de qualidade, não prec sam ser aprovados. Mulheres e outros grupos minoritários precisa comprovar que o trabalho é bom. E isso justifica que a gente receba menos, ou não receba. Micuim - Quanto tempo levou até você sentir que obteve respeito profissional?

Helô D’Angelo - Acho que não cheguei lá. Sinto, de algumas as pessoas, certa inveja. Sinto que alguns caras mais estabelecidos, ao tro car ideia com eles, querem me rebaixar. Às vezes, em eventos, vêm minha mesa e acham que o meu namorado é o artista. Já tentei troc ideia e me paternalizam. Parece que nunca estou no mesmo patam sendo que meu trabalho tem muita qualidade, sei o quanto trabalh estudei, pra chegar onde cheguei.

Já vi coisas terríveis faladas por editores a mulheres talentosíssima você não serve pra isso. Na bienal de quadrinhos de Curitiba tem uma tradicional batalha de quadrinistas, um negócio que sabia ser sério, apesar de num bar. E nesse ano, vi que as quadrinistas ganhavam, e aí os caras começaram a beber, a fazer de qualquer jeito como se aquilo não fosse importante, só porque eles estavam perdendo. Medo da gente ocupar cada vez mais esse espaço.

Micuim - Tua arte lida com feminismo, direitos humanos, política De quando e de onde veio o interesse por esses temas?

Helô D’Angelo - Comecei a estudar feminismo na faculdade, até então eu era bem de direita. Comecei nas reuniões de feministas d faculdade e desenvolvi interesse natural. Passei a ler livros sobre o tema, e vi que os quadrinhos seriam espaço legal pra juntar as duas coisas e democratizar o que estava aprendendo.

Ainda não havia pesquisas em 1822 mas as margens de erro já existiam, plácidas. (@F_R_A_G_A)


Do jeito que conduzem as pesquisas eleitorais, os institutos acabarão por merecer sua própria audiência - nos tribunais. (@F_R_A_G_A)

o contrário). história em relação ao mundo femiEstranho pensar que contemporâneas ruso e Millôr Fernandes, como Hilde co lembrada. Ou ainda o trabalho oucia Galvão, nossa Pagu. os são outros. E apesar do “bela, recaque assombra nossas cabeças, o traço elas se divertem escancarando toda a

moral que insiste nos relegar o espaço privado. Chega de vassouras, espanadores e colheres de pau. O lápis e o papel são suas armas para ganhar o mundo e contar uma nova história, cheia de graça, cores, odores, sabores e corpos livres. Querela, a nova série do Micuim, vem para romper paredes e mostrar o mundo feminino dos quadrinhos. * Integra o coletivo Querela - Jornalistas Feministas

ATUAÇÃO

HUMOR É COISA

DE MULHER

Samanta Flôor Cidadã: Samanta de Flôor e Silva

Artista: Samanta Flôor Registro: 40 anos Naturalidade: Porto Alegre/RS Residência: Porto Alegre/RS Atuação: Ilustradora, quadrinista, tatuagem Colaboração: nenhuma Publicações: O Astronauta de Pijama, Click, Toscomics Micuim - Quais suas maiores referências nas artes?

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Samanta Flôor - Nos quadrinhos são os clássicos: Laerte, Charles Schulz, Bill Watterson. Cresci lendo turma da Mônica e Menino Maluquinho (assim como vários livros do Ziraldo). Sandman foi muito marcante na minha adolescência. Hoje minha quadrinista preferida é a Eleanor Davis. Eu também amo tudo que o Mutarelli faz. Eu gosto de consumir vários tipos de arte, estudar sobre pintores (Hopper é meu preferido), fotógrafos, cinema, literatura. No meu humor acho que as maiores influências são algumas séries tipo Seinfeld, The office, 30 rock. Tem várias comediantes que eu amo demais, tipo Tina Fey e a Amy Poehler têm uma parceria genial em roteiros, Mariah Bamford, a Maya Rudolph, a Sarah Silverman, e Tata Werneck, entre outras, porque tem muitas mulheres engraçadas produzindo humor de qualidade, é muito inspirador. Micuim - Quais as principais dificuldades para ocupar um mercado ainda dominado pelos machos? Samanta Flôor - Praticamente todo o mercado é dominado por homens, quadrinhos é só mais um. Por isso eu acho tão importante esse monte de mulher produzindo e se apoiando na internet hoje em dia, a gente vai abrindo caminho na marra, hehe. Micuim - A internet facilita para que mais mulheres se assumam cartunistas/quadrinistas/chargistas/ilustradoras? Samanta Flôor - Sim, totalmente. A internet revolucionou a forma como se lê quadrinhos, todo mundo pode publicar. Posso dizer que sem internet eu provavelmente não seria cartunista ou talvez demorasse muito mais pra me descobrir. Ali comecei, achei meu público, fui acolhida. Micuim - Sucesso e/ou prestígio garantem receber mais grana do que os guris? Samanta Flôor - Se for sucesso e prestígio na internet, ou seja, ter muitos seguidores, aí não garante mais grana pra ninguém, só pra influencers. Acho que sucesso na internet pode ajudar, mas não garante que vão apoiar teu trabalho, comprar teus quadrinhos. O seguidor não é necessariamente um fã.

“Praticamente todo o mercado é dominado por homens, quadrinhos é só mais um.” Micuim - Quanto tempo levou até você sentir que obteve respeito profissional? Samanta Flôor - Eu comecei como ilustradora, já trabalhava com desenho alguns anos antes dos quadrinhos. Mas eles sempre estiveram na minha vida: quando criança produzia meus gibis, com meus irmãos. Nunca parei de ler, comprar quadrinhos, mas em algum momento no fim da infância parei de produzir. Só depois de adulta, já com uma carreira em ilustração que voltei a fazer meus próprios quadrinhos. Mas de forma despretensiosa, um hobby. Acho que só quando eu mesma comecei a levar mais à sério que veio o respeito alheio. Precisei vencer alguns bloqueios para conseguir expor meu trabalho, me sentia muito intimidada, não havia muitas gurias produzindo. Micuim - Qual foi o gatilho para você se assumir como artista do traço? Samanta Flôor - Foi quando decidi imprimir meu próprio gibi e levar pra Fiq. Até então me considerava uma desenhista que rabiscava tirinhas de vez em quando. Ver minhas coisas impressas, mesmo que num simples zine, me deu um novo ânimo.

Nas pesquisas, as margens de erro se confirmam bem calculadas. Os erros dos eleitores é que são incalculáveis. (@F_R_A_G_A)

MICUIM #15


MISTUREBA DOSSIÊ

Em pesquisa eleitoral, tabulação e fabulação andam sempre juntas. (@F_R_A_G_A)

Edgar Vasques

@CASTELADAS AS 13 FAMINTAS

1) Não há fome no Brasil. E nem presidente da república. 2) Desse jeito, os roteiristas de filmes de terror vão todos morrer de fome. 3) Aos que reduzem um país apenas a dados econômicos: não se come o mercado, mas as comidas que tem nele. 4) Quando um canibal chega ao poder a primeira coisa que faz é comer a etiqueta. 5) A renda per capita média da cidade dos meus avós no Maranhão é de duas bocadas de farinha por dia. 6) O famélico é um faminto erudito. 7) Se Vossa Excelência gosta tanto de arma distribua uma que mate a fome. 8) Brasil. Da mão dos moradores para a boca dos colonizadores desde 1500. 9) Aos vencedores, as batatas. Aos vencidos, as baratas. 10) Já notou que comida no Brasil não é parte importante de uma dieta equilibrada? 11) Ele tinha um ticket-refeição tão econômico que só conseguia almoçar todo dia um buraco de donut. 12) Saímos da estética da fome para a estética da vontade de comer. 13) Passei a infância no Piauí. Nunca me esqueço, todo Dia da Criança meus pais me davam um copo de água gelada de presente.

Benett

MINUTO JURÍDICO I Ayrton Centeno

(Palmas, sai carregado nos

Olá, está começando mais um Minuto Juríd ico. Hoje, recebemos o doutor Sé rgio Moro. (Palmas) – Doutor, se um vagabun do não é dono de um ap artamento que não é seu e não é dono de uma cas a que não é sua, que crimes pra ticou? – Lavagem de dinheiro , estelionato, formação de quadrilha e estupro de vulneráv el... (Palmas) – ... mas estupro de vulne rável, doutor? – Esse eu inventei agora ...

braços pela platéia) Esse foi o Minuto Juríd ico. Voltaremos a qualq uer momento sempre Habeas Corpus, o pre com o patrocínio de servativo que deixa vo cê livre de encrencas sitório que desperta o e de Cu-Ritiba, o supo seu Eu interior. -

Orlando

#16 MICUIM

Fraga

@F_R_A_G_A

ESFOMEADOS PORÉM MAPEADOS

O Brasil tem problemas gigantescos. O Mapa da Fome, por exemplo: tem 8 milhões de km2. Não é fácil morrer de fome. Precisa manter firme distância de panelas, pratos e talheres, no mínimo 3 vezes ao dia, durante vários anos. Chama-se prato favorito qualquer um que corresponda à gravidade da fome. Fome - a única coisa que não dá pra empurrar com a barriga. Existem razões de sobra para erradicar a fome no mundo. Mas o mais razoável que os miseráveis recebem são sobras. O que é palitar os dentes em público, comparado com passar fome na frente dos outros? A gastronomia aprimorou a comida e a tecnologia aperfeiçoou o fogão. Só a fome continua primitiva. A diferença entre fome e apetite é o tempo que um ou outro permanece em nossos pensamentos. Jejum e regime a gente faz. Fome já vem feita. Quem é capaz de preparar sua própria comida dá mais atenção ao apetite que à fome. Seguidamente os saciados debatem a fome; já os famintos, se debatem. O menu varia, a fome é sempre igual. Ministros são coerentes: o da Pesca não pesca, o da Saúde adoece, o da Justiça não é justo, o da Educação deseduca e o da Fome tem gula.

Pesquisas para verificar tendências geralmente esquecem que elas mesmas são tendenciosas. (@F_R_A_G_A)


Não existe pesquisa grátis. Logo, alguém paga por opiniões compradas. (@F_R_A_G_A)

TRAMPA NO TRAMPO DO TRUMP

MISTUREBA

Ayrton Centeno

Novembro de 2020. Casa Branca. Toca o telefone no gabinete presidencial. A patroa de Donald Trump atende. Melania (para Trump, com esgar de nojo) É o presidente do Brasil... Trump – Hi, Mister Lula da Silva. The most famous president of the world! Except me, of course...I´m very happy to hear you... JB – Aqui é o Bolsonaro... Trump – What a fuck is Bolnossauro?! (Um aspone intervém e cochicha ao ouvido de Trump: “É o Bolsonaro, aquele cara que vive querendo nos dar coisas, como já nos deu o Pré-Sal, a Base de Alcântara...”) Trump – Oh, yeah, Bostonauro. Como esquecerrr você...I beg your pardon. Mas o que querrer nos darr agorra? JB – O que é meu é seu... Mas agora quero dar uma dica... Trump – Wow! What is dica? Que parrte

do Amazonia é dica? JB – Não, é um conselho, talkey? Me disseram que tá com um probrema aí com o balde... Trump – Balde? JB – É o Balde esse daí. O terrorista... Trump – Ah, o Biden... E que dicas você querrer me darr, Bortossáurio? JB – O mister tem que espalhar que o Balde vai dar mamadeira of piroca pras crianças... Trump – Mamadeirrra of pirroca? JB – Sim, eu tenho norrau nisso daí. Se não funcionar tem o kit gay e se isso também não funcionar as pessoas aqui usam o Escritório do Crime. Mas aí já é partir pra a iguinoranssa... Trump – Crime office? This looks good... But, we have the KKK here... JB – Aí o mister tá tirando com a minha

cara... KKK é risadinha de uátisapi...Ou é cacaca? Cocô? Trump – Bongomauro, I think you`re a nice guy, but... JB – Gai? Não sou guei, não! E me chamo Bol-so-na-ro... Trump – Eu querrerr falarrr você aqui no White House, Bostanarro... JB – Vamos fazer assim: me chama de Bolso... Trump – Bozo? Ok, if you prefer... JB – Bozo? Não, não... Mas, quer saber? O mister pode me chamar até de bêibe... Trump – Bêibe? (cantarolando) “Be my, be my baby/ Be my little baby/ My one and only baby...” JB – Bimaibimaibêibe? Taí, gostei dessa... Ôba, vamos explorar a Amazônia juntinhos, os dois só de bermudas petipoá procurando nióbio e depois tomando ba-

nho pelados no rio... Trump – Antes vou mostrrarr o Salão Oval parra você... JB – O Salão Oval? (engasgando) Aquele do Crinto e da estajária? Vai me deixar ver todas as coisas? Trump – Yeah, eu mostrarr o coisa parra você, bêibe... JB – Ai, que emoção! Posso levar o Hélio? Trump – Black lives dont matter here, bêibe. Mas vou te apresentar o Pence. JB – Ih, esse negócio de pensar não é muito a minha praia, não. Deixo pro Olavo... Trump – Depois o gente vai relaxar na West Wing... JB – Cunnilingus? Ui, fiquei todo arrepiado... Trump – Mas o gente vai combinarr um coisa: você trazerrr o Petrobras for me, bêibe...

LUC DESCHEEMAEKER

Visão ácida, crítica cáustica, arte corrosiva: é assim, sem piedad e, que o caricaturista @osekoer trata o imp iedoso presidente americano. Adm irado e premiado mundo afora, esse ex-professor belga de artes tam bém ado ra estraçalhar o estraçalhador Boz onaro.

O VADE DIRETO E RErloTR s Castelo Ca

avelmente já saberemos se ele No dia em que este artiguete sair prov para não querê-lo mais no es razõ eras inúm continuou presidente. Há outras nações. Eu poderia ficar as a and com s mai que o naçã da comando administração. Se é que adsua à ção rela em s horas elencando desgosto pessoal - que deve ter sido nio imô ministrou alguma coisa, além do patr io. alhe oal pess nio imô construído em cima do patr clima temperado para ter clima ter de aram deix p, Trum pós, Os EUA os de do mais desunidos que os neurôni temperamental. E acabaram fican seu mandatário-mór. a p, o que nos complicou da economi Mais: o Mito virou Me Too do Trum predois de ia alhe a onh verg ar enci pres à vacinação, passando por ter que sidentes ao mesmo tempo, todo dia. . or ruivo na cabeça dele é o Maligno Que não siga. Até porque aquele cast

MINUTO JURÍDICO II Ayrton Centeno

. Hoje, recebeOlá, este é mais um Minuto Jurídico lsen, do TRF4. Pau ndro mos o desembargador Lea tério que há mis de gran um dar ven des Ele vai nos três anos intriga o país. (Palmas) inas do processo – Doutor, o senhor leu 250 mil pág ifica que passou Sign . dias daquele Luiz Inácio em seis inas por hora. pág mil 2 o lend ir dorm sem uma semana az de fazer! cap é a Nas da dor Mas isso nem o computa o Judiciário do dan man mos esta que é isso – Sim, por para o espaço. (Palmas, gritos de “Bravo!”)

com o patrocínio de os a qualquer momento sempre lema e de Cu-RitiEsse foi o Minuto Jurídico. Voltarem prob do fora mas tro den deixa você Habeas Corpus, o preservativo que hor de si mesmo. ba, o supositório faz você dar o mel

“Os números não mentem.” Até que sejam torturados numa planilha de pesquisa. (@F_R_A_G_A)

MICUIM #17


MISTUREBA DOSSIÊ

Pesquisa é o encontro entre perguntas sacanas e respostas sacaneadas. (@F_R_A_G_A)

Pietro

Aroeira

NA BOCA DO FOGAREIRO

Miguezim da Princesa

(Paraibano cordelista, radicado em Brasilía) I Antes era no colchão Que se guardava dinheiro, Depois usaram a cueca Como novo mealheiro E agora escondem a grana Na boca do fogareiro. II Quando bateram na porta, O senador se tremeu, Olhou pra achar um buraco, Não achou e resolveu Por três maços de 200 Na porta do camafeu. III Arrumou os três pacotes Dentro do samba-canção, Em seguida abriu a porta Pro Delegado Sansão E disse: “Aqui é limpeza, Não temos corrupção!”. IV Começou por toda a casa A busca e apreensão: Acharam um cofre escondido, Lá por detrás do fogão, Todo socado, entupido, Com mais de meio milhão. V Lá pras tantas, o senador Disse que ia urinar, O Agente Zeferino Resolveu o acompanhar E achou um pouco estranho Aquele jeito de andar. VI Me responda, senador: Você tá entiriçado? O passo está bem miúdo, Parece um pinto piado, Ou o senhor se assou Ou está todo cagado.

VII Foi então que o delegado Resolveu o quiproquó: – Senador, tire essa roupa, Para um exame melhor! Aí acharam os três maços Na boca do fiofó. VIII Em Brasília, Bolsonaro Ficou muito revoltado, Retirou da liderança O senador enrolado E disse: “Além de ladrão, Esse tá afolosado!”. IX A Direção do BC Ficou muito indignada: – Uma nota tão novinha, Bonita, recém-lançada, Agora volta pra cá Amarela e desbotada. X Fizeram o exame da goma No nobre parlamentar: Ele sentou numa bacia E começou a bufar, Mas não restou nenhuma prega Pro perito apreciar. XI A coisa ficou ruim Pra quem gosta de contar Dinheiro passando a mão, Indicador e polegar, Na língua velha estirada Com cheiro de vá lavar. XII Inda ontem no Senado, O líder da oposição Se mostrava impressionado Com a força do Chicão: Ou a nota era pequena Ou ele tem o Centrão!

(Cordel publicado no www.diariodopoder.com.br. Prova que o humor tem o poder de enrabar o Poder.) O Distrito Federal fede de chique! Este deveria ser o slogan da part y em apoio ao senador Chico Rodrigues, no Clube Militar dos Paraquedistas Aposentados do Lago Par anoá. O Golden Room do Club foi totalme nte decorado com cuecas, ceroulas e minhocões, de todos os tipos, gêneros e nacionalidades. Até o pres idente da Hungria, Viktor Orbán, enviou a sua samba-c anção autografada. Ao final do tributo, a peça foi rifada. O milionário valor auferido foi doado ao Reti ro dos Milicianos de Rio das Pedras. Take note: o frisson da noite foi a entrée do senador, ao som de Cueca de Aço, de Wes ley dos Teclados. Rodrigues surgiu de surpresa segu rando um maço de notas de lobo-guará para o delírio da entourage. A Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro nunca esteve tão in. Agora é a vez dos cursos online que começa a promover. O inaugural será ‘Etiq ueta com o Presidente’ e terá o darling Jair Bolsonaro como master. Nosso

#18 MICUIM

Benett

MINUTO JURÍDICO III Ayrton Centeno

Jurídico. Estamos recepcioOlá, bem vindos a mais um Minuto o desembargador Eduardo tos, San nando, direto das areias de . Almeida Prado Rocha de Siqueira (Palmas, gritos de hip hurra) - Doutor.... analfabeto! - Chame-me de Sua Santidade, seu cara e pode ser multado... más sem - Sim, mas Sua Santidade está ta? E a multa rasgo, jogo no - E quem precisa de máscara, seu bos chão e cago em cima!

para defecar sob êxtase da (Imediatamente arreia a bermuda platéia) o chão. Não se esqueçam, se os logo que acabarmos de limpar Esse foi o Minuto Jurídico. Voltarem o supositório que desperta o , itiba argador não teve, usem Cu-R emb des o que de ulda dific a tiverem seu Eu interior.

COLUNA NACIONAL SOCIALISTA Benito Adolfo

Líder dividiu seu speech à audienc e em duas partes: “Não Fode - o uso do palavrão inst itucional” e “Acabou, porra! - os limites na comunicação presidencial”. Run, run, run que são pouquíssimas vaga s! O vice Hamilton Mourão e o enfa nt-terrible do Meio Ambiente, ministro Ricardo Sall es, tiveram uma great idea. Para acertar os pon teiros sobre o que deve ser executado na ecologia brasileira, senta-

ram-se à mesa num friendly chu rrasco pantaneiro. O diferente de tudo é que o barb ecue aproveitou as chamas do Pantanal, poupando a compra de carvão e outros artefatos de acendimento . O ministro Paulo Guedes foi o que mais happy ficou com a atitude consciente de seus colegas de gov erno. Bola branca para a dupla! Fontes desta coluna informaram que está sendo preparado um grande banquete para comemorar a entrada do desembargador piauiense Kássio Nunes Marques no STF. O diner acontecerá em Teresina, cidade natal do new minister. O cardápio temático, segundo o renomado chef contratado pelo Supremo, terá ligação com a gastronomia do Estado do juiz. De entrada, não haverá nada. Como primo piatto, também nada para comer. O prato principal será Calango aux fines herbes. Sobremesa: pain sec avec du sucre jeté sur le dessus. Astonishing! *Benito Adolfo é um pseudônimo.

Assim como as salsichas, não queira saber como são produzidos os resultados das pesquisas. (@F_R_A_G_A)


TIRAS DOSSIÊ

Toda pesquisa é uma sondagem. E todos sabem por onde se enfiam as sondas. (@F_R_A_G_A)

TIRAS

am Eles tiram de letra, tir rro, diariamente, tiram sa tiram álbuns e livros.

Alexandre Beck

Colaborador do jornal Zero Hora

Edgar Vasques

Colaborador do jornal Extra Classe

Laerte

Colaboradora do jornal FolhaSP

Pietro

Colaborador da Revista Trip

Rafael Corrêa

Colaborador do jornal Extra Classe

Você nem suspeita, mas faz parte das estatísticas sobre pessoas alheias a pesquisas. (@F_R_A_G_A)

MICUIM #19


FINALEIRA

MANUAL DO ELEITOR Ao votar, preste atenção: tem candidato que presta e candidato que não presta. Governantes imprestáveis já tem demais.

17 DICAS (E MAIS UMA) PARA SER UM ELEITOR IDEAL

Laerte

Carlos Castelo

1. Não acreditar em candidatos que acreditam que Jesus sobe em goiabeiras. 2. Não queimar seu voto, como aqueles que queimam fauna e flora. 3. Reparar mais na temática dos pleiteantes do que em sua gramática. Revista Piauí #169

O FANTASMA DA FACADA Ernani Ssó

4. Ter em mente que o pastor de ovelhas do comício de hoje poderá ser o lobo sanguinário do governo de amanhã. 5. Assistir aos debates na TV com o som desligado. A linguagem corporal fala mais que a boca. 6. Não usar a cabine eleitoral como fundo instagramável. 7. Nunca se esquecer que, apesar de distribuírem santinhos, a maioria dos políticos é o demo.

Fabio Zimbres

Com a eleição municipal a um palmo da minha máscara, tive um pensamento terrível. Veja, cada vez que o Bozo vê perigar sua popularidade, vocifera: quem mandou o Adélio dar a facada? Se, em 2022, a reeleição não estiver no papo, será possível uma reedição do Adélio?

Agora, se não houve conspiração nenhuma, como afirma a Polícia Federal, só pode ser coisa de Deus. Aí, sinto informar: Deus não é brasileiro. Se é, está americanizado. Sei, tudo isso soa idiota. Mas é exatamente por isso que tenho medo. Nos últimos anos, a marca do Brasil é a idiotia extrema. A idiotia e a truculência. Daí meu alerta à esquerda: e se a nova edição do Adélio for revista e, ai, ai, ai, ampliada?

#20 MICUIM

Ayrton Centeno

Vejo os candidatos no horário eleitoral. Todos sorridentes. É de se pensar por qual motivo sorriem já que sua tarefa é gigantesca. Mas não sorriem apenas. Abraçam cachorros, beijam crianças, abraçam crianças, beijam cachorros. Seus sorrisos são uma tentativa de nos ganhar. Estando na TV, eles têm mais motivos para estarem sorrindo com uma máscara 2.0, inexpugnável, profissional, apta a nos sequestrar o olhar e o coração. Quem quer comprar o produto que querem vender? Penso: com quem pensam que estão falando? Com nós? Com os brasileiros? Com canjicas à mostra, juras de amor cidadão, confissões de devoção ao ambiente natural, fazendo bilu bilu nas criancinhas? Enganaram-se de eleitorado. E de país. Então, caro candidato, peça ao seu marqueteiro para tirar esse sorriso da sua carinha que você quer passar com o seu horror. Mostre-se na sua inteireza. Mergulhe na sua própria caverna e traga-nos o ogro que a habita. O eleitorado anseia conhecer seu ogro. Quer amá-lo. Ele é a sua mais perfeita tradução. Deixe que seu ogro fale. Vamos ouvi-lo no horário eleitoral: - Florestas, passarinhos a cantar, a natureza em festa? Taca fogo, porra! Mato? Mata! Não gostou? Vai te queixar pro Leonardo di Caprio, seu puto! - Saúde? Coronavírus? Ah, tá com medinho... Vai pra rua, porra! A gente vai morrer mesmo, caralho! Você quer o quê? Ficar vivo e fuder a economia?

Um dos sonhos dourados do Bozo é que a facada fosse coisa da esquerda. Mas por que a esquerda, podendo arrumar um atirador de elite – digamos, alguém de Cuba ou da Venezuela, pra ficarmos no imaginário psicótico de sempre – com um fuzil com mira telescópica, ia contratar uma pessoa que, por pouco, não cometeu o atentado com um cortador de unhas? Aí sim a esquerda teria de fazer uma autocrítica de verdade, ajoelhada em grãos de milho. Imagina a baba do Bonner ao dar a notícia. Uma conspiração com Adélio no papel principal só tem lógica se o resultado desejado fosse, ora, ora, exatamente o fiasco que foi. Ou não? Há outra possibilidade mais tétrica ainda: os mandantes foram os Três Patetas. Como estão mortos, não puderam agir pessoalmente. Assim, numa sessão do copo, contrataram o Adélio. O motivo é singelo: devido a uma dessas peripécias muito comuns no pastelão post mortem, os patetas se tornaram defensores dos animais e não gostaram de saber que o Bozo estuprava galinhas na adolescência porque, como confessou num programa de tevê, não era esperto o suficiente pra pegar cabritas.

DE OLHO NO OGRO

- Cultura? Quer gastar dinheiro nessa merda? Tá me encarando? Tá se achando melhor que a gente só porque já leu um livro... Melhor queimar tudo isso daí. Não gostou? Quer que eu te queime também? - Cotas? Pra pobre, negro e índio? Vou dar cota pra eles sim. Cotas de azeitona. Na testa. - Corrupção? Do que você tá falando, esquerdopata? Rachadinha, grana na cueca, cocaína no avião? É isso? Milícia? Agora tu te passou, seu bosta... Lindo, não?

8. Se a política cultural de seu candidato for colocar coronéis como lugar-tenente na Funarte ou Biblioteca Nacional, bata continência e vá procurar outras opções. 9. Veja com quem seu candidato anda e saberás quem ele é. Se for com milicianos, milite a favor de outra candidatura. 10. A especialidade de Deus é criar mundos, não políticas públicas. 11. Não aceitar cestas básicas de quem está atrás de votos. Você vai acabar comendo o pão que o diabo do político amassou. 12. Um candidato coxinha não vira mortadela comendo pastel de feira. 13. A boca de urna é a fenda que pode levar sua intenção de voto ao inferno. Ao penetrá-la, use fones de ouvido. 14. Tente descobrir se o seu político preferido usa cuecas tamanho XXL. 15. Antes de apertar a tecla na cabine eleitoral, aperte ao máximo os seus candidatos. 16. Nunca troque a cédula eleitoral por cédulas de dinheiro. 17. Evite pensar neste número durante todo o processo eleitoral. 18. Esqueça os políticos que querem, além de votos, devotos.

Ah, não achou? Não achou graça? Nem eu. Não é pra rir. É pra reagir. Não deixe que o ogro vire vereador ou prefeito. Se quiser rir, veja e leia o restante do Micuim. Mas sem tirar o olho do ogro.

Jota Camelo

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Jornal Micuim - Edição #3 - Porto Alegre - Novembro 2020  

Suprimento de Humor do jornal Brasil de Fato RS. Uma publicação mensal movida a maus ventos, piores eventos e baixos proventos. A gente proc...

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