Jornal Brasil de Fato / RS - Número 35

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Foto: Antonio Cruz - Agencia Brasil

O QUE É PRECISO PARA FAZER O BRASIL VOLTAR A CRESCER

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RIO GRANDE DO SUL

Foto: Acervo Avesol

VEJA QUEM VOTOU PARA TIRAR OS SEUS DIREITOS E AGORA VAI PEDIR O SEU VOTO

31 de maio de 2022 distribuição gratuita brasildefato.com.br

PÁGIN A 8 /brasildefators

brasildefato.rs

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Ano 3 | Número 35

Foto: Alexandre Garcia

FUTURO ROUBADO QUATRO ANOS DEPOIS DA ELEIÇÃO DE BOLSONARO, TRABALHA-SE CADA VEZ MAIS PARA GANHAR CADA VEZ MENOS. E SUMIU O DIREITO A UMA VIDA MELHOR. VEJA AQUI COMO CHEGAMOS A ESTA SITUAÇÃO.


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EDIÇÃO N O 35 - 31 DE MAIO DE 2022 - W W W.BRASILDEFATORS.COM.BR

CHARGE | Santiago

Opinião

Reforma trabalhista não cumpriu promessas e precisa ser revogada ALEXANDRE HAUBRICH (*)

Editorial

A reforma que não é reforma ▶ Reforma é uma palavra com forte tom positivo. Quando a gente pensa em reforma, pensa que algo vai melhorar. Imaginamos que, se alguém conta que vai fazer uma reforma na casa, é para tornar a casa mais acolhedora e confortável, não é mesmo? Não é o caso da “reforma” trabalhista. Fica assim entre aspas porque o sentido original foi traído pelo emprego que os governos Temer e Bolsonaro deram à palavra. O que esta dupla faz é usar um termo simpático como fachada para ocultar o furto de direitos dos trabalhadores. A reforma não é reforma porque não tornou a vida melhor para a maioria. Ao contrário, facilitou o lado dos patrões. Detonou o salário e o emprego. Há muitas palavras perigosas que os engravatados empregam para ferrar quem vende sua força de trabalho. Por exemplo, quando o assalariado ouve falar em “enxugamento” na empresa deve traduzir por “desemprego em massa”. Já se a palavra for “desregulamentação” que se prepare para perder serviços públicos. Caso alguém lhe diga que passará a cumprir “trabalho intermitente” fique sabendo que vai virar biscateiro. E assim por diante. Torturar as palavras para fazer com que digam coisa diferente do sentido que carregam é até bem antigo. O pessoal que, hoje, está no poder encarna a mesma turma que deu um golpe em 1964. E chamou o golpe de “Revolução Redentora de 31 de Março”. O tempo comprovou que não era “revolução”, tampouco “redentora” e sequer aconteceu naquela data, mas no 1º de abril. O truque não é novo, mas continuam usando-o para nos fazer de bobos. A não ser que a gente perceba a realidade atrás das palavras.

www.brasildefators.com.br (51) 98191 7903 redacaors@brasildefato.com.br /brasildefators @BrasildeFatoRS brasildefato.rs CONSELHO EDITORIAL Saraí Brixner, Sandra Lopes, Enio Santos, Neide Zanon, Ademir Wiederkehr, Luiz Muller, Télia Negrão, Diva da Costa, Grazielli Berticelli, Bernadete Menezes, Gelson José Ferrari, Salete Carollo, Cedenir Oliveira, Lucas Gertz Monteiro, Vito Giannotti (In memoriam) | EDIÇÃO Ayrton Centeno (DRT3314), Katia Marko (DRT7969) REDAÇÃO NESTA EDIÇÃO Ayrton Centeno, Katia Marko, Marcelo Ferreira, Walmaro Paz, Fabiana Reinholz e Pedro Neves Dias | DIAGRAMAÇÃO Marcelo Souza | DISTRIBUIÇÃO Alexandre Garcia e Saraí Brixner | IMPRESSÃO Gazeta do Sul | TIRAGEM 25 mil exemplares.

▶ No final deste ano, completam-se cinco anos desde a aprovação da reforma trabalhista de Michel Temer (MDB). Na época da apresentação do projeto, ainda em 2016, o novo governo recém havia sido empossado após o golpe que destituiu a presidenta Dilma Rousseff (PT). A reforma trabalhista chegou como parte de um “pacote de maldades” conduzido primeiro por Temer e, depois, por Jair Bolsonaro (PL). Cinco anos depois, a reforma não realizou o que o governo prometeu e, pelo contrário, a realidade deu razão aos alertas feitos à época por quem a combateu, piorando a vida dos trabalhadores e das trabalhadoras. Volta à tona, agora, a necessidade de lutar para revogar a reforma e devolver direitos à classe trabalhadora. Temer, com o apoio da grande mídia, vendeu à população a reforma trabalhista como uma máquina geradora de empregos. Mas a mentira não durou: estudos mostram que a reforma não ajudou a gerar empregos. O que temos visto nos últimos anos é a estabilidade da taxa de desemprego nas alturas – temos girado em torno de 11 a 12%, o que significa 12 milhões de brasileiros desempregados –, com redução proporcional dos empregos com carteira assinada e aumento dos postos com menos direitos, além da explosão da informalidade. Também crescem o trabalho por conta própria (com total insegurança do trabalhador, como o caso dos motoristas e entregadores de aplicativo), o desalento (quando o trabalhador desiste de procurar emprego) e a subocupação (pessoas que trabalham menos do que 40 horas semanais, gostariam de trabalhar mais horas e estão

POR TRÁS DO DISCURSO DA GERAÇÃO DE EMPREGOS, O OBJETIVO DA REFORMA TRABALHISTA SEMPRE FOI AUMENTAR O LUCRO DOS GRANDES EMPRESÁRIOS ÀS CUSTAS DA QUALIDADE DE VIDA DOS TRABALHADORES. disponíveis para isso). Por trás do discurso da geração de empregos, o objetivo da reforma trabalhista sempre foi aumentar o lucro dos grandes empresários às custas da qualidade de vida dos trabalhadores. Esse objetivo, sim, vem sendo cumprido, especialmente porque Bolsonaro deu sequência aos ataques de Temer contra os direitos da classe trabalhadora. A renda média vem despencando no país, enquanto a inflação vai às alturas. Assim, cada vez mais os trabalhadores veem-se obrigados a aceitar empregos ruins para garantir o sustento de suas famílias. É urgente a revogação da reforma trabalhista e das outras medidas de Temer e Bolsonaro que tornaram pior a vida da população. Isso só será possível com a organização e a luta coletiva dos trabalhadores. Para impedir essa virada, o governo e a grande mídia atacam movimentos sociais e sindicatos, justamente os espaços onde essa organização deve acontecer. O que os donos do poder temem é o que oferece esperança aos trabalhadores. (*) Jornalista, cientista social e doutor em Comunicação e Informação


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Retrocesso

Flexibilização das leis trabalhistas foi “ponte para o futuro” de um país desempregado MARCELO FERREIRA PORTO ALEGRE

▶ Cinco anos depois da aprovação da reforma trabalhista, trabalhadores perderam direitos, grandes empresários mantêm seus lucros e a taxa de desemprego não caiu, após bater recorde em 2020 e 2021. A análise é de Lucia Garcia, economista do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). “Além disso, o mercado interno foi desintegrado e a renda pública foi colocada em risco, principalmente o orçamento da Previdência Social”, afirma a especialista em mercado de trabalho. “Quem ganhou com as reformas foram os setores exportadores e financeiro, aprofundando nossa vocação de entregar o sangue de povo para luxúria da elite”, complementa. O projeto que alterou ou revogou mais de 100 artigos da CLT foi apresentado, votado e aprovado em menos

Foto: Antonio Cruz - Agencia Brasil

A reforma trabalhista foi vendida como uma modernização da legislação que criaria até seis milhões de novos empregos

de um ano após o golpe que tirou Dilma Rousseff (PT) da presidência, no bojo do programa “Ponte para o futuro” lançado pelo então vice-presidente Michel Temer (MDB).

“PONTE PARA O ABISMO”

Chamado por sindicatos de “Ponte para o abismo”, o projeto foi formulado pelo então PMDB com amplo apoio do setor empresarial brasileiro, a exemplo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Nem mesmo greves gerais e intensos protestos impediram sua implantação. A precarização não parou por aí. Foi aprofundada por Jair Bolsonaro com diversas medidas provisórias. Uma delas, que cria o Programa Nacional de Prestação de Serviço Civil Voluntário, está prestes a virar lei. A MP 1099/22 foi aprovada pelo Senado no dia 25 de maio.

Protesto durante a votação da reforma trabalhista no Congresso Nacional

QUEM VOTOU CONTRA OS TRABALHADORES ▶ Alguns dos deputados e senadores que votaram a favor da reforma trabalhista e contra os trabalhadores serão candidatos nas eleições deste ano. Dois deles concorrem ao governo gaúcho (Ônix Lorenzoni e Luís Carlos Heinze) e outros dois disputam o Senado (Lasier Martins e Ana Amélia Lemos). Confira a nominata:

DEPUTADOS:

Alceu Moreira (MDB) Cajar Nardes (PR) Carlos Gomes (PRB) Covatti Filho (PP) Darnlei (PSD) Darcísio Perondi (MDB) Jerônimo Goergen (PP)

Jones Martins (MDB) Luis Carlos Heinze (PP) Mauro Pereira (MDB) Onyx Lorenzoni (DEM) Renato Molling (PP) Ronaldo Nogueira (PTB) Yeda Crusius (PSDB)

SENADORES: Ana Amélia Lemos (PP)

Lasier Martins (PSD)

GRÁFICO MOSTRA DESEMPREGO DESDE 2016 ATÉ HOJE. Fonte: IBGE

MODELO ESPANHOL QUE INSPIROU REFORMA NO BRASIL NÃO DEU CERTO E FOI REVISTO ▶ Um estudo recente da Universidade de São Paulo (USP), assinado pelos pesquisadores Gustavo Serra, Ana Bottega e Marina da Silva Sanches, concluiu que, ao contrário do que prometiam os defensores da reforma trabalhista, cortar direitos do trabalhador não teve impactos

positivos no mercado de trabalho. A pesquisa cita, ainda, que reformas semelhantes adotadas na Europa também não entregaram o que prometiam. Um exemplo é o da Espanha, que serviu de inspiração para a reforma no Brasil. O estudo “A desregulamentação diminui o

desemprego?: uma análise empírica do mercado de trabalho na Espanha” constata que as alterações de 2010 e 2012, visando flexibilizar as leis trabalhistas e estimular contratos temporários, tiveram efeito zero sobre o desemprego. Acabaram apenas reduzindo a capacidade de

negociação dos trabalhadores. Um terceiro levantamento, abrangendo vários países europeus que desregulamentaram as leis trabalhistas, indicou, em vez de avanços, uma elevação da taxa de desemprego. No início de 2022, a reforma espanhola foi par-

cialmente revogada pelo governo de Pedro Sánchez. Caminho que pode ser seguido no Brasil, a depender do resultado das eleições deste ano. Entre os pré-candidatos, Lula e Ciro propõem rever a legislação, enquanto Bolsonaro defende medidas que favorecem os empresários.


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Trabalho Informal

Na voz das ruas, a expectativa d

Maiores ganhos e menores incertezas são os desejos dos desemp FABIANA REINHOLZ, PEDRO NEVES DIAS E KATIA MARKO

guém, “ser humilhada” e ainda receber um salário baixo.

▶ Nos últimos anos, o país registra o crescimento do trabalho informal, reflexo da ausência de políticas sociais, do desemprego e do arrocho salarial. Mesmo aqueles que há anos trabalham “por conta”, percebem que a situação está cada vez mais complicada. É o caso de Rosa, 38 anos. Há 18 anos, ela trabalha como comerciante nas ruas do Centro Histórico de Porto Alegre. Vendendo cremes, perfumes e outros cosméticos, ela conta que consegue se sustentar "quando a venda tá boa", mas destaca que "ultimamente, tá complicado". Ficou ainda pior com a pandemia. Rosa nunca trabalhou com carteira assinada. Perguntada se gostaria de ter uma renda certa, responde que só se fosse por um valor justo. Não gostaria de ter que trabalhar para al-

MÍNIMO DEVERIA SER CINCO VEZES MAIOR De acordo com o IBGE, o país registrou no último trimestre cerca de 12 milhões de brasileiros sem trabalho. Além da instabilidade no mercado de trabalho, outro fator a ser considerado é o custo de vida, refletido no valor da cesta básica. Porto Alegre registra a terceira cesta básica mais cara entre todas as capitais, fechando o mês de abril custando R$ 780,86. Com base neste valor, o Dieese aponta que um trabalhador que ganha um salário mínimo hoje R$ 1.212,00 - gasta 69,65% do seu rendimento com o básico para sustentar uma família de quatro pessoas. Segundo cálculos do Departamento, o salário mínimo necessário deveria ser de R$ 6.754,33, ou 5,57 vezes o montante atual.

“GANHO HOJE SOMENTE PARA O BÁSICO”

tira um dinheirinho", diz. Ela já trabalhou no mercado formal como empregada doméstica.

"DEVAGARZINHO, A GENTE TIRA UM DINHEIRINHO"

Também entregador de bicicleta, Ezequiel, 53 anos, está na atividade desde o início de 2022. "É um extra. Trabalho com carteira assinada faz 24 anos", relata. Afirma que, se pudesse, gostaria de poder trabalhar em um emprego apenas caso tivesse um salário suficiente para se sustentar. Outra que vive por conta própria é Serli, 60 anos. Ela mantém um brechó na avenida Borges de Medeiros, junto com uma amiga. Trabalha no negócio há mais de cinco anos. "Devagarzinho, a gente

“NA RUA NÃO SE GANHA NADA”

Vivendo na mesma incerteza está Obama, 30 anos, vendedor de rua há pouco mais de um ano. Imigrante, vindo de Angola, tem experiência como auxiliar de cozinha. Mas não consegue emprego na sua área apesar dos muitos currículos

Sem direitos sociais, trabalho d

que espalhou. “Gostaria de ter um trabalho formal, com carteira assinada, pois na rua não se ganha nada", desabafa. Trabalhando diariamente, conta que não consegue ganhar o suficiente para se sustentar e ainda ajudar a família. "Com trampo legal, ninguém fica na rua", afirma.

Foto: Alexandre Garcia

O Brasil de Fato RS conversou com alguns trabalhadores informais de Porto Alegre para saber como está a realidade deles diante deste cenário. Lucas, por exemplo, tem 30 anos e faz curso de tecnologia visando um emprego formal. Há quatro meses, sua principal fonte de renda é como entregador de bicicleta por aplicativos. Antes disso, trabalhava no comércio na área de informática. “Ganho hoje somente para comprar o básico.”

Mariano e Taís vendem doces no Centro de Porto Alegre junto com a filha de 8 meses

Quando foi entrevistado, em torno das 15h, tinha recém comprado um prato de comida, com os R$ 10 que havia ganho até então naquele dia. "A gente tenta ganhar um dinheirinho, mas não ganha o suficiente para viver. Não mesmo."

“POSSO IR NA IGREJA UNIVERSAL”

Há quem pense diferente. “Quando começou a pandemia, fui demitido. Aí, fui trabalhar numa obra, mas não quiseram assinar a minha carteira. Então, comecei a vender doce.” Quem narra esta mudança é Mariano, 28 anos. Mas ele não acha ruim. “Quando trabalhava com carteira assinada, ganhava o mínimo. Agora ganho mais”, explica. Ele e sua esposa Taís, 27 anos, vendem caixinhas de doce na rua, junto com a primeira filha de 8 meses. “Quatro por R$ 10”, anuncia. “Tenho até tempo no fim de semana para ir na minha igreja, que é a Universal”, descreve. Loreni, 42, também está no ramo da doçaria. “Antes vendia roupas e outras coisas”, rememora. Com uma boa féria, consegue até


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de garantias, salário e direitos

pregados e informais que buscam seu sustento nas calçadas Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Foto: Alexandre Garcia

Direitos, como a aposentadoria, ficam a cada dia mais distantes dos trabalhadores informais Foto: Alexandre Garcia

de entrega de mercadorias por aplicativos foi um dos que mais cresceu no país nos últimos anos

Loreni produz seus doces pela manhã e vende à tarde, e à noite cursa faculdade de Psicologia

rio. Só comida e roupa”. Segundo ela, gosta de estar na rua, se relacionando com as pessoas. “Eu produzo os doces pela manhã, vendo à tarde e estudo à noite. E gosto muito do que faço, de estar nas ruas conversando com as pessoas.” “ABRAÇARIA UM EMPREGO COM AS DUAS MÃOS” Aos 39 anos, Israel, casado, duas filhas, pede ajuda nas sinaleiras. Auxiliar de produção em cinco firmas diferentes, está desempregado já faz cinco anos. “Conseguia bicos em obras, mas fui demitido quando aconteceu a pandemia. Agora não me chamam nas obras”, lamenta. A esposa trabalha à noite em um bingo onde recebe R$ 50 a cada oito horas trabalhadas. “Se eu pudesse voltar a trabalhar com carteira assinada iria abraçar com as duas mãos”, diz. Enquanto o emprego não vem, o jeito é levantar sua placa na hora em que o sinal está vermelho e pedir auxílio. “Se a gente não arruma dinheiro, ganha arroz e feijão e já ajuda em casa. Tem gente ruim, mas tem gente muito boa. Que ajuda.”

Foto: Alexandre Garcia

Foto: Alexandre Garcia

cursar a faculdade de Psicologia. “Nunca trabalhei com carteira assinada. Vim do Interior, de Júlio de Castilhos, de família pobre e trabalhava como doméstica”. E quanto ganhava? “Não me pagavam salá-

Israel: “se a gente não arruma dinheiro, ganha arroz e feijão e já ajuda em casa. Tem gente ruim, mas tem gente muito boa. Que ajuda.”


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Fim dos Direitos

Michel Temer, Jair Bolsonaro e o pacote de maldades contra o trabalhador

Reforma trabalhista fragilizou o trabalhador, retirando seus direitos e fazendo-o trabalhar mais para ganhar menos Foto: Alexandre Garcia

AYRTON CENTENO PORTO ALEGRE

lham quatro horas a mais por semana.

▶ Os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro prepararam uma arapuca para os assalariados. Primeiro, Temer alterou mais de 100 artigos da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). E teve o voto do então deputado Jair Bolsonaro. Fragilizou o trabalhador, retirando seus direitos e fazendo-o trabalhar mais para ganhar menos.

DEMISSÕES. O empregador poderá demitir coletivamente sem negociar com o sindicato da categoria.

O SACO DE MALDADES INCLUI, POR EXEMPLO: VIGÊNCIA DO NEGOCIADO SOBRE O LEGISLADO. Em outras palavras, ignora-se a lei que protege o trabalhador, colocando-o a negociar com o patrão como se ambos estivessem no mesmo patamar. É o diálogo da ovelha com o lobo. O BISCATE OU BICO TORNA-SE OFICIAL. O empregado fica à disposição do patrão e só recebe as ho-

Cada vez mais o biscate ou bico torna-se oficial

ras em que trabalhar. Nunca sabe se o que vai ganhar no mês chegará para pagar o aluguel, honrar as prestações e pagar pela comida e o transporte. É o chamado “trabalho intermitente”. FIM DAS HORAS-EXTRAS. O empregado vai

negociar folgas com o empregador. TRINTA MINUTOS PARA O ALMOÇO, regra que compromete a saúde. AMPLIAÇÃO DA TERCEIRIZAÇÃO não apenas para atividades-meio, mas tam-

Piso Regional gaúcho é o menor dos estados do Sul WÁLMARO PAZ PORTO ALEGRE

▶ O Rio Grande do Sul tem o menor salário mínimo regional da Região Sul. Mesmo assim, o governo estadual gaúcho reluta em concordar com os 15,58% de reajuste reivindicados pelas centrais sindicais. É um percentual apenas para repor a inflação dos anos de 2019 e 2021. CUT, CTB, Força Sindical, UGT, Intersindical e CSP-Conlutas estão unidas para conquistar o reajuste. No Rio Grande do Sul, o Piso Regional varia entre R$ 1.305,56 e R$ 1.654,50; em Santa Catarina, entre R$ 1.416, R$ 1.468, R$ 1.551 e R$ 1.621; e no Paraná entre R$ 1.600,00 e R$ 1.870,00.

R$ 1.600,00 PARANÁ

R$ 1.416,00 SANTA CATARINA

RIO GRANDE DO SUL

R$ 1.305,56

bém para atividades-fim. Com a TERCEIRIZAÇÃO EM MASSA perdem os trabalhadores já que os terceirizados trabalham mais e recebem menos. Ganham, em média, salário 25% menor do que os contratados diretos e traba-

O plano de Bolsonaro é aprofundar o ataque aos direitos trabalhistas. Levantou 330 propostas para mudar a legislação. No pacote, estão, por exemplo, a liberação do trabalho aos domingos e o não reconhecimento de vínculo empregatício entre trabalhadores e as empresas de aplicativos, como o Uber, além de atacar a liberdade sindical. Tudo piora ainda mais porque o governo federal cogita reduzir a contribuição mensal dos empresários ao Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, o FGTS, de cada empregado. O depósito cairia de 8% para 2%. Quer também diminuir de 40% para 20% a multa do depósito no FGTS em caso de demissão sem justa causa.

Salário pela metade e risco de mais um “trem da alegria” Trabalhadores contratados não terão direitos trabalhistas nem previdenciários ▶ Salário com valor de menos da metade do piso nacional, sem direitos trabalhistas ou Previdência. É a mais recente obra do governo Bolsonaro. A medida provisória 1099 acaba de ser aprovada pelo Senado. Ela cria o chamado Programa Nacional de Prestação de Serviço Social Voluntário que permite às prefeituras contratarem jovens de 18 a 29 anos ou pessoas com mais de 50 anos sem trabalho formal há mais de 24 meses. “Esse projeto pega os que estão vulneráveis”, apontou a senadora Zenai-

de Maia (Pros/RN), notando que os contratados não têm direito à folga semanal, licença-maternidade ou licença-paternidade. “Não é por aí”, criticou. Outro senador, Jean Paul Prates (PT-RN) alertou que a proposta poderá criar um “trem da alegria” em período eleitoral, já que permite a contratação sem a realização de concurso público. Sua colega Eliziane Gama (Cidadania-MA) lembrou que a MP da precarização é contestada por entidades como a OAB e o Ministério Público do Trabalho (MPT).


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Cultura

Dicas de filmes sobre o mundo do trabalho TEMPOS MODERNOS (1936), CHARLES CHAPLIN - O clássico de Charlie Chaplin mostra a rotina exaustiva e enlouquecedora de um operário numa linha de montagem.

ABC DA GREVE (1979/1980), LEON HIRSZMAN - Documentário de longa-metragem sobre a primeira greve brasileira fora da fábrica. Cobrindo os acontecimentos na região do grande ABC paulista, em 1979, o filme acompanha a trajetória do movimento de 150 mil metalúrgicos em luta por melhores salários e condições de vida, em plena ditadura militar.

BRAÇOS CRUZADOS, MÁQUINAS PARADAS (1979), SÉRGIO TOLEDO E ROBERTO GERVITZ - Documentário que acompanha os principais acontecimentos do movimento operário em São Paulo e na Grande São Paulo, em 1978. Ao mesmo tempo, o filme examina a estrutura sindical do país.

GERMINAL (1993), CLAUDE BERRI - A Revolução Industrial provocou uma série de transformações políticas, econômicas e sociais na história. O escritor francês Émile Zola (1840-1902) representou essas transformações brilhantemente

em uma das suas mais célebres obras, “O Germinal”. Baseado no livro, o filme aborda as relações de trabalho, as lutas de classe existentes na sociedade capitalista, o processo de instalação do capitalismo nas cidades e o ritmo da produção e da exploração dos trabalhadores pelos patrões através do trabalho desumano nas minas de carvão francesas.

PÃO E ROSA S (2000), KEN LOACH – O filme conta a história de uma organização sindical de trabalhadores terceirizados do setor de limpeza nos Estados Unidos. Narra de maneira precisa o espaço de uma precarização extrema do trabalho e apresenta elementos graves de rompimento do tecido social, em contexto muito aproximado ao

proposto pela reforma trabalhista no Brasil.

QUE HOR A S EL A VOLTA? (2015), ANNA MUYL AERT – A história de uma empregada doméstica, Val, e sua relação com os patrões é retratada em um momento emblemático do Brasil. Mostra de maneira realista e crítica a clara herança de um passado colonial e escravocrata.

EU, DANIEL BL AKE (2016), KEN LOACH - Após sofrer um ataque cardíaco e ser desaconselhado pelos médicos a retornar ao trabalho, Daniel Blake busca receber os benefícios concedidos pelo governo a todos que estão nesta situação. Entretanto, ele esbarra na extrema burocracia instalada pelo governo, amplificada pelo fato dele ser um analfabeto digital.

VOCÊ NÃO ESTAVA AQUI (2019), KEN LOACH - “Você não trabalha para nós, você trabalha conosco”. Essa máxima da economia uberizada é o ponto de partida desse filme que conta a exaustiva e difícil rotina de uma família que tenta sobreviver na selva do livre mercado.

ABR AÇO (2020), DF FIUZ A - Produzido pelo Sintese (Sindicato dos Trabalhadores em Educação Básica do Estado de Sergipe), o filme Abraço é uma obra de ficção baseada em fatos reais. Apresenta a luta de professores sergipanos contra a perda de direitos. É nesse contexto que a história da professora Ana Rosa é contada, a qual vive o desafio de uma jornada tripla: ser mãe, mulher e diretora do sindicato dos professores. Diversas cenas despertam o debate sobre o machismo, o racismo, a unidade, a resiliência da categoria.

A rm a ndinho (A l e x a ndre B eck )

A N I A R A É A M A S C O T E DA C A M PA N H A T R IB U TA R O S S U P E R- R I C O S. AC O M PA N H E N O S S A S R E D E S: facebook.com/tributar.os.super.ricos | @OsTributar |

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Economia

Sete medidas para o Brasil voltar a crescer Foto: Alexandre Garcia

O Brasil está parado. A economia não cresce, o emprego some, o salário diminui e o consumo trava. O governo só fala em cortar gastos – menos para policiais e militares, é claro – e vender patrimônio público. O que é preciso fazer para o país voltar a crescer na opinião das centrais sindicais?

V E JA A LGUM A S PROP OS TA S:

contrário do que acontece 3 Valorizar o salário mínimo. 1 Ao agora, o governo precisa invesImplantar uma nova e verdadeira tir. Quando o país ficou esperando 4 reforma trabalhista com negociaque a empresa privada desse a partida na economia, nada aconteceu. Historicamente, o Brasil só anda para a frente quando o Estado empurra a economia. A receita do desenvolvimento é investir em infraestrutura, criar empregos e reativar o consumo.

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Acabar com o teto de gastos. Não é possível congelar as despesas com saúde e educação durante 20 anos como foi aprovado no período Temer.

ção tripartite e dando atenção aos trabalhadores informais e de aplicativos. a dependência do preço 5 Reduzir internacional do petróleo e contro-

lar melhor o preço dos combustíveis.

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Lançar novas políticas para criar trabalho e renda para jovens, mulheres e a população negra.

crédito para os pequenos 7 Mais empreendedores e a economia

solidária.

Desigualdade aumenta com a pandemia ▶ Enquanto para a maioria da humanidade, a pandemia está sendo um momento de dor e sofrimento, de acordo com o relatório “Lucrando com a dor”, produzido pela Oxfam International, esse foi “um dos melhores momentos da história para a classe bilionária” e impulsionou “o maior aumento sistêmico da desigualdade de renda já visto”. O desemprego cresceu, assim como a quantidade dos super-ricos. A lista das pessoas que acu-

mulam nove casas decimais após a vírgula cresce cada vez mais, e mais de 80% dessa lista está aumentando sua fortuna. Existem, hoje, 2.668 bilionários no mundo, 573 a mais do que em 2020, quando a pandemia começou. O estudo também revela que, nos dois últimos anos, a fortuna dos super ricos aumentou o equivalente a 23 anos e, hoje, a riqueza dos 10 homens mais ricos supera as economias dos 40% mais pobres juntos.

Menos emprego, menos direitos geram mais desigualdade

Arapuca

Bolsonaro receitou cortar direitos para ter empregos, mas não há nem um nem outro ▶ Quando Jair Bolsonaro venceu as eleições de 2018 declarou que era melhor ter um emprego e menos direitos do que ter direitos e não ter emprego. Disse que seriam necessárias novas mudanças trabalhistas para haver mais empregos. De lá para cá, porém, o que aconteceu foi que os trabalhadores perderam seus direitos e os novos empregos não apareceram. Pelo contrário, o desemprego aumentou. É um dos maiores do mundo e deixa 12 milhões sem trabalho, sem contar os 4,7 milhões de desa-

lentados, aqueles que não procuram mais uma colocação porque sabem que nada vão encontrar. “É horrível ser patrão no Brasil”, disse na mesma época. Três anos depois, em 2021, quando 19 milhões de brasileiros já haviam entrado no mapa da fome, reiterou sua sensibilidade com as dores patronais. "Como é duro ser patrão no Brasil. Eu sei que o salário é pouco para quem recebe é muito para quem paga", afirmou em evento da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Só temos uma saída

Foto: Acervo Avesol

Um projeto de sociedade que tenha uma economia que seja solidária como fio condutor. A REDE IDEIA REÚNE DEZENAS DE EMPREENDIMENTOS ECONÔMICOS SOLIDÁRIOS, ASSESSORADOS PELA ASSOCIAÇÃO DO VOLUNTARIADO E DA SOLIDARIEDADE – AVESOL. Essas trabalhadoras e trabalhadores da economia solidária se mantinham financeiramente até março de 2020, produzindo e comercializando, mas viram sua realidade totalmente modificada um mês depois, precisando de doações de comida para não passar fome. A pandemia não é só sanitária. Temos um grande problema, a flexibilização do controle ambiental está esgotando fontes naturais de recursos. A economia é voltada para o rico, para o grande empresário, sem preocupar-se com a sus-

tentabilidade. O capitalismo neoliberal não está em crise, as vidas estão. A economia popular solidária é contrária a isso. Os empreendimentos econômicos solidários da Rede Ideia, que ficaram sem trabalho devido a pandemia, resolveram superar com solidariedade qualquer crise enfrentada. O trabalho em rede permitiu que ninguém ficasse sem comida, ninguém ficasse sem máscaras, ajudaram inclusive hospitais nos momentos em que mais precisavam, confeccionando de forma voluntária jalecos e

máscaras. A Campanha Só a Solidariedade Não Pode Parar articulou parceiros, empresas, hospitais, grupos solidários de artesanato, unidades de triagem de resíduos sólidos, organizações sociais e comunitárias. Ninguém ganhou nada sozinho, todas e todos ganharam, pois fizeram do seu trabalho e da coletividade a centralidade para superação. Foi com o desafio da campanha que muitas artesãs aprenderam a confeccionar máscaras, foram se aperfeiçoando e sobrevivendo dessa comer-

Trabalhadores da economia solidária deram-se as mãos para superar problemas na pandemia

cialização durante muitos meses de pandemia. A articulação de uma rede de cooperação é imensurável, pois as conexões possíveis superam qualquer previsibilidade. Realizamos campanhas que foram potentes devido ao engajamento dos grupos

solidários da Rede Ideia, mostrando que essa corrente de solidariedade tem resultados promissores. Se cada um coloca seu pouco que tem em comum, logo teremos muito e poderemos fazer o verdadeiro enfrentamento àqueles que hoje têm muito.

Daniela Van der Straeten Pimentel e Miguel Antonio Orlandi