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Foto: Leonardo Contursi / CMPA

LEGISLATIVO QUATRO MULHERES E UM HOMEM, TODOS NEGROS, ENCARAM O CONSERVADORISMO NA CAPITAL. PÁGIN A 3 RIO GRANDE DO SUL

17 de novembro de 2021 distribuição gratuita brasildefato.com.br

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Ano 3 | Número 31

Foto: Alex Garcia

CONTRA O

RACISMO

NO BRASIL, 77% DAS VÍTIMAS DE HOMICÍDIO SÃO NEGRAS. A CHANCE DE UM NEGRO SER ASSASSINADO É 2,6 VEZES MAIOR DO QUE A DE UM BRANCO. ATRÁS DOS NÚMEROS ESTÃO QUASE QUATRO SÉCULOS DE ESCRAVIDÃO E SEU LEGADO, O RACISMO, COMO ACUSA IYÁ VERA SOARES (FOTO). NESTE 20 DE NOVEMBRO, DIA NACIONAL DA CONSCIÊNCIA NEGRA, É UMA QUESTÃO PARA CONHECER E ENFRENTAR. PÁGS. 2 A 4


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EDIÇÃO N O 31 - 17 DE NOVEMBRO DE 2021 - W W W.BRASILDEFATORS.COM.BR

CHARGE | Santiago

Opinião

Mulheres negras e a ocupação do poder numa boa! ALBA CRISTINA COUTO DOS SANTOS SALATINO **

▶ Vamos dizer o que é, de fato, inaceitável! Na sessão de votação do passaporte vacinal na Casa Parlamentar de Porto Alegre, em outubro de 2021, vereadores foram agredidos por manifestantes contrários à proposta. Insultos racistas foram lançados contra as parlamentares negras Bruna Rodrigues, Daiana Santos, do PCdoB, e Laura Sito, do PT. Uma mulher branca se sentiu confortável para se dirigir a elas, dizendo absurdos deste nível: “Tu é a minha empregada! [...] Tu é lixo!” Isso acontece num momento de ampliação da presença de mulheres negras na política institucional, rompendo o monopólio masculino e branco na elaboração de políticas públicas capazes de promover a democracia. Nas eleições de 2020, as candidaturas de mulheres negras para o Legislativo municipal cresceram 28% em relação a 2016. Aquelas frases expressam, portanto, tentativas de reafirmar um lugar social que historicamente reduziu mulheres negras à subserviência. Eis o que não aceitamos! O incômodo diante de nossa circulação em espaços de poder sem a “suposta permissão” do sujeito que sempre teve o privilégio da cor é crônico! Ver uma mulher negra protagonizando o debate, sendo autora de projetos de intelectualidade e força política, incomoda tanto a branquitude porque subverte essa lógica. Acontece que essa mudança tem potência de continuidade.

AS VOZES FEMININAS NEGRAS QUE SE LEVANTAM PARA DENUNCIAR ESSAS E OUTRAS DESIGUALDADES PERSISTENTES REPRESENTAM 28% DA POPULAÇÃO BRASILEIRA As vozes femininas negras que se levantam para denunciar essas e outras desigualdades persistentes representam 28% da população brasileira, compondo o universo das mulheres que somam 51,4% dos habitantes deste país. Temos, portanto, a legitimidade de ser maioria. Algo que encontra ressonância no que Michele Obama menciona em seu livro: “Eles não sabem como chegaram a esses lugares, mas nós sabemos”. Por isso, neste 20 de Novembro, mais uma vez, como nos ensinou Lélia Gonzalez, “assumimos nossa própria fala. Ou seja, o lixo vai falar, e numa boa”! * Este artigo compõe a Ocupação da Rede de HistoriadorXs NegrXs em veículos de comunicação de todo o Brasil neste 20 de novembro de 2021. ** Rede de HistoriadorXs NegrXs, doutora em História (Unisinos), Assessora de Relações Étnico-Raciais do IFRS.

www.brasildefators.com.br (51) 98191 7903 redacaors@brasildefato.com.br /brasildefators @BrasildeFatoRS brasildefato.rs CONSELHO EDITORIAL Danieli Cazarotto, Cedenir Oliveira, Frei Sergio Görgen, Saraí Brixner, Enio Santos, Neide Zanon, Ademir Wiederkehr, Luiz Muller, Télia Negrão, Diva da Costa, Grazielli Berticelli, Bernadete Menezes, Gelson José Ferrari, Salete Carollo, Ronaldo Schaefer, Vito Giannotti (In memoriam) | EDIÇÃO Ayrton Centeno (DRT3314), Katia Marko (DRT7969) | REDAÇÃO NESTA EDIÇÃO Ayrton Centeno, Fabiana Reinholz e Marcelo Ferreira | DIAGRAMAÇÃO Marcelo Souza | DISTRIBUIÇÃO Ronaldo Schaefer e Saraí Brixner | IMPRESSÃO Gazeta do Sul | TIRAGEM 25 mil exemplares.

Editorial

Os pilares da desigualdade ▶ Esta edição impressa do Brasil de Fato RS celebra a resistência de duas minorias que, de fato, em números absolutos, são maioria: as mulheres e os negros, ambas com mais de 50% da população brasileira. Mas, em termos políticos, são minorias esmagadas pelo assédio, a agressão, o ódio e o preconceito. Novembro é um mês especial para ambas, abrigando tanto o enfrentamento da violência de gênero quanto o combate à violência racista. Uma em cada quatro mulheres foram agredidas física, sexual ou psicologicamente em 2020. A cada minuto, oito mulheres apanharam. Na maioria, os agressores foram companheiros, ex-companheiros, namorados ou ex-namorados. O lar, e não a rua, é onde mora o perigo. E se, além de mulher, for negra, o risco aumenta. É o que diz pesquisa do Forum Brasileiro de Segurança Pública. Os negros, aliás, representam 77% das vítimas de homicídio. Comparados aos brancos, têm mais do dobro de chance de serem assassinados. Com a segunda maior população negra do planeta – atrás somente da Nigéria – o Brasil sempre fugiu desse espelho. Campeão das três Américas na compra de escravos – cinco milhões – negou quase tudo aos seus descendentes. Mulheres e negros sempre pagaram um preço alto por viverem em um país brutal. Hoje, essa brutalidade se exaspera sob o impulso de tempos ainda mais ferozes. À discriminação e à violência juntam-se a fome, o desemprego, o arrocho, a carestia, a doença. O Brasil fechou 2020 como o 7º país mais desigual do mundo. Pior do que nós apenas nações africanas. Se, em 2019, quase a metade da riqueza foi para o 1% mais rico da população, em 2020 esse grupinho faturou ainda mais: 49,6%. É algo que demonstra que, ao lado dessas duas lutas imprescindíveis, existe aquela maior, que une todas as lutas, e nos leva a caminhar juntos para golpear os pilares da desigualdade.


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Bancada negra é resultado do combate antirracista e das políticas de reparação

Foto Leonardo Contursi CMPA

Representatividade

Quatro vereadoras e um vereador, todos negros, da periferia e cotistas da universidade, desafiam o racismo e os privilégios em Porto Alegre A bancada negra da Câmara de Vereadores de Porto Alegre, eleita nas eleições 2020

MARCELO FERREIRA PORTO ALEGRE / RS

▶ O ano de 2021 marca o histórico enegrecimento da Câmara de Vereadores de Porto Alegre. Com a posse de Karen Santos e Matheus Gomes, do PSOL, Laura Sito, do PT, Bruna Rodrigues e Daiana Santos, do PCdoB, formou-se a primeira Bancada Negra da capital, maior fenômeno local das eleições de 2020. Todos jovens e oriundos do movimento negro, fazem parte de uma geração com acesso a uma ferramenta decisiva para ascender em uma sociedade de bases racistas: as cotas universitárias. Eleitos, assumiram a agenda da periferia. Mas os problemas apareceram cedo. Vereadora mais votada da cidade, Karen Santos conta que 2021 tem sido de violência racista institucional dentro e fora do Parlamento. Sua colega, Bruna Rodrigues, também sofreu ataques racistas. “Fomos eleitos durante a ascensão, por um lado, de um lindo levante antirracista, mas, de outro, de uma onda negacionista e de ódio impulsionada pelo governo federal”, pondera. Para Matheus Gomes, o principal desafio é consolidar a presença negra na política. Explica que alguns vereadores não entendem o sentido da eleição da Bancada Negra. “Sentimos o racismo no dia a dia das políticas defendidas pela prefeitura, mas também na relação estabelecida conosco”, pontua. “Nossa eleição foi histórica, mas somos apenas cinco de 36”, pondera Laura Sito. “Sabemos da responsabilidade de representar a comunidade negra, que tem muita expectativa em cima dos resultados que podemos gerar”, diz. Daiana Santos, primeira mulher lésbica assumida na Câmara e que defende também a bandeira da luta LGBTQIA+, acha que o principal desafio dos cinco é desarticular o “sistema racista, branco e hegemônico”.

CONTRIBUIR PARA UMA OUTRA FORMAÇÃO POLÍTICA QUE COLOQUE NO CENTRO A PERIFERIA, OS QUILOMBOS, AS ESCOLAS DE SAMBA, OS CLUBES NEGROS, OS GRUPOS DE CAPOEIRAS, OS ESPAÇOS DE MATRIZ AFRICANA, É DISPUTAR ESSE ESPAÇO AMPLO E FAVORÁVEL QUE EXISTE PARA A NOSSA EXISTÊNCIA COLETIVA, DEMOCRÁTICA E QUE É EXTREMAMENTE POLÍTICA E POTENTE.” KAREN SANTOS/PSOL AS POLÍTICAS DE REPARAÇÃO QUE FORAM CRIADAS NO GOVERNO DO PT SÃO IMPORTANTÍSSIMAS. EU SOU FRUTO DE UMA POLÍTICA DESSAS, TIVE A POSSIBILIDADE DE ACESSAR A UNIVERSIDADE POR CONTA DISSO. O CONHECIMENTO TRANSFORMA, CRIA PROCESSOS IMPORTANTES DE RUPTURA DESSA INVISIBILIDADE, DESSE SILENCIAMENTO.” DAIANA SANTOS/PCDOB

FUI PRESIDENTA DO GRÊMIO DO JULINHO, A MAIOR ESCOLA DO ESTADO, QUANDO A UFRGS DISCUTIA A ADOÇÃO DAS COTAS. NOSSA LUTA FOI FUNDAMENTAL PARA O MODELO QUE A UNIVERSIDADE ADOTOU. O ACESSO À EDUCAÇÃO NO BRASIL AINDA É UM PRIVILÉGIO. O ACESSO AO ESPAÇO DO SABER E DO PENSAR NOS CAPACITA AINDA MAIS PARA CHEGAR TAMBÉM NO ESPAÇO INSTITUCIONAL.” LAURA SITO/PT SOMOS RESULTADO DE UM REPOSICIONAMENTO ESTRUTURAL DA LUTA ANTIRRACISTA, QUE SE DESENVOLVE DE MANEIRA MAIS VISÍVEL DESDE A CONQUISTA DAS AÇÕES AFIRMATIVAS, MAS TEM AS SUAS ORIGENS NA CONSTITUIÇÃO DO NOVO MOVIMENTO NEGRO NA DÉCADA DE 1970. VIEMOS PARA FICAR E QUEREMOS ACELERAR A MUDANÇA DE CONSCIÊNCIA DA CLASSE TRABALHADORA SOBRE A CENTRALIDADE DO RACISMO.” MATHEUS GOMES/PSOL

ESSA BANCADA É UM ENCONTRO DE HISTÓRIAS, PERCURSOS E CONCEPÇÕES DE MUNDO QUE SE MOBILIZAM JUNTAS E JUNTOS POR UMA TRANSFORMAÇÃO CONCRETA DA REALIDADE DA NOSSA GENTE. É POR ISSO QUE A GENTE SEGUE, É POR ISSO QUE EU SIGO.” BRUNA RODRIGUES/PCDOB


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Entrevista - Iyá Vera Soares

“O nome dos negros no Brasil é resistência”

Fotos: Alex Garcia

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IYÁ VERA SOARES É UMA IALORIX Á. É ELA QUEM CONSULTA OS ORIX ÁS, OS DEUSES DA RELIGIÃO IORUBÁ, REPRESENTADOS PELO FOGO, A CHUVA, O VENTO E OUTROS ELEMENTOS DA NATUREZA. É A IALORIX Á DO CENTRO MEMORIAL DE MATRIZ AFRICANA 13 DE AGOSTO, DE PORTO ALEGRE. INTEGRA TAMBÉM O FÓRUM NACIONAL DE SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL DOS POVOS TRADICIONAIS DE MATRIZ AFRICANA (FONSANPOTMA). ELA ENCARNA A “MATRIPOTÊNCIA”, O PAPEL DA MATRIARCA, DA MÃE QUE ENSINA, ACOLHE, CURA, ALIMENTA E GUERREIA. LEMBRANDO O DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA, IYÁ VERA FALA SOBRE O RACISMO QUE SE ABATE SOBRE OS AFRICANOS, IMIGRANTES A CONTRAGOSTO, QUE AQUI CHEGARAM ESCRAVIZADOS PARA TRABALHAR ATÉ MORRER, E DA LUTA DIÁRIA CONTRA O PRECONCEITO. AYRTON CENTENO PORTO ALEGRE / RS Brasil de Fato RS - Nos Estados Unidos do século 19, o escravo libertado recebia 18 hectares e uma mula para arar a terra. No Brasil, não recebia nada. Acha que esse ponto de partida teve influência importante na situação atual em uma e outra sociedade? Iyá Vera - Quando a compensação nos Estados Unidos dá terra, já dá uma qualidade de vida diferenciada. No Brasil, o povo oriundo do continente africano foi tratado como animal. Nunca teve um pedaço de terra. O processo que mais demorou para terminar com a escravidão foi o do Brasil, o mais violento de todos. BdF RS - Jair Bolsonaro, mais de uma vez, já menosprezou negros e quilombolas. Como é ser negro (a) em

um país no qual o presidente despreza ou tenta ridicularizar a população afrodescendente? Iyá Vera - Ser negro no Brasil é ser resistente. Nosso nome é resistência. Resistir na cultura, que vem do continente africano, trazida através dos navios negreiros. Bolsonaro repete o olhar do colonizador. É tudo aquilo que o Brasil não precisa, que desagrega e descrimina. BdF RS - Dois pontos fortes na difusão do legado negro no Brasil são a cultura e as religiões de matriz africana. Em que medida a força destes dois elementos ajuda ou pode ajudar na transformação do quadro atual? Iyá Vera - A cultura é a força que nos mantém vivos. Não importa se o nome é Jesus ou Olodumarê. Não importa se é Nossa Senhora Aparecida ou Oxum porque o sincretismo fez essa diversidade. A natureza é o nosso

Foto: Leonardo Contursi/CMPA

Incitação ao crime, falta de decoro

Para a ialorixá, Bolsonaro “é tudo aquilo que o Brasil não precisa”.

grande altar. As águas, as terras, as matas, todo o natural, nós mesmos, somos o Ori, que habita dentro de cada um, o Orixá, o Inquice, o Vodum. BdF RS - Como interpreta a rejeição de boa parte da sociedade brasileira às ações afirmativas, sobretudo às cotas para negros e pardos nas universidades? Iyá Vera - Esse racismo separa, divide, não aproveita os valores civilizatórios. É uma discriminação da sociedade branca, racista e elitista que coloca esses povos que construíram esse país na base da pirâmide social sempre. BdF RS - O Brasil nunca teve um presidente negro, todos os ministros do Supremo Tribunal Federal são brancos e apenas 77 dos 1.790 políticos eleitos em 2018 para os executi-

“Voto não tem preço, tem consequências”, diz Iyá Vera

CULTURA É A FORÇA QUE NOS MANTÉM VIVOS

VIVER SEM ESPERANÇA É MORRER ANTES vos ou legislativos estaduais ou nacional se declararam negros. No entanto, 50,7% dos brasileiros e brasileiras são negros (as) ou pardos (as). O que fazer para mudar isto? Iyá Vera - Que pena que levamos alguns séculos para entender que temos que estar brigando pela política. Voto não tem preço, tem consequências. E essas consequências estão colocadas hoje neste governo de retrocesso, de discriminação. BdF RS - Você tem esperança de ver ainda um Brasil menos preconceituoso, racista e desigual? Iyá Vera - Viver sem esperança é morrer antes. Talvez eu não esteja mais aqui, mas os meus sucessores, meus netos, meus filhos, meus bisnetos, hoje já tataraneto, possam levar o fruto da luta desta que vos fala. Porque enquanto houver luta nós vamos lutar e não vamos chorar o luto. Então a esperança é essa: lutar, lutar, lutar sempre. Os nossos ancestrais nos deixaram esse legado.


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Entrevista – Carol Santos

Foto: Alan Santos / PR

e prevaricação e mais seis delitos. É Bolsonaro na visão da comissão do Senado

Para Carol, é preciso sair da vergonha e “romper o ciclo da violência”

AYRTON CENTENO PORTO ALEGRE / RS BdF RS - Do ponto de vista de uma mulher que sofreu violência extrema, o que as mulheres ainda não entenderam sobre violência doméstica e precisam aprender logo para continuar vivendo? Carol Santos - Desconstruir um papel social ancorado no patriarcado e no machismo ainda é um desafio que coloca as mulheres em relacionamentos abusivos e a se manterem neles. Sair da vergonha e da culpa para romper o ciclo da violência são os primeiros passos. A vítima nunca não é culpada. Somente a educação com igualdade mudará está realidade. Somos educadas para aceitar viver sob a violência. Difícil romper com preceitos religiosos, sociais e políticos. BdF RS - Pesquisa feita pelo Forum Brasileiro de Segurança Pública, indica que somente 26% das mulheres denunciaram à polícia as agressões sofridas do companheiro durante a pandemia. Das restantes, 32,8% não registraram ocorrência afirmando ter resolvido sozinhas os conflitos, 16,8% julgaram não ser importante noticiar à polícia, 15,3% não quiseram envolver a polícia e 13,4% tiveram medo de repre-

sálias por parte do autor da violência. Estes números não te desanimam? Carol - A falta de políticas de enfrentamento coloca a vida das mulheres em risco neste período de isolamento. Há falta de redes efetivas, casas abrigos e estruturas de acessibilidade que protejam a vida das mulheres. Para mim, é desanimador o período político em que nossas vidas não são prioridade desses governos. BdF RS - De acordo com o mesmo levantamento do Fórum, uma em cada quatro mulheres brasileiras acima de 16 anos – ou seja, 17 milhões - afirmam ter sofrido alguma forma de violência durante a pandemia... Carol - Esse aumento se dá por conta das mulheres estarem vivendo em isolamento mais tempo com seus agressores. A pandemia tem gênero e tem atingido as mulheres. Muitas mulheres com deficiência estão o tempo todo ao lado de seus agressores sendo impedidas de buscarem ajuda ou saírem de casa.

A PANDEMIA TEM GÊNERO E TEM ATINGIDO AS MULHERES

“Não podemos romantizar qualquer ato de violência” CAROL TINHA 18 ANOS QUANDO SEU EX-NAMORADO CHEGOU A SUA CASA, APONTOU-LHE A ARMA E DISSE QUE IRIA MATÁ-LA. CAROL CORREU. A ARMA DISPAROU, CAROL CAIU E DEIXOU DE SENTIR AS PERNAS NAQUELE MOMENTO. O AGRESSOR DIRIGIU SUA ATENÇÃO PARA MARCELO, AQUELE QUE ERA ENTÃO O COMPANHEIRO DE CAROL, E MATOU-O COM DOIS TIROS. ATO CONTÍNUO, SUICIDOU-SE. VINTE E UM ANOS DEPOIS DAQUELE TRÁGICO DOMINGO, CAROL SANTOS É FUNDADORA E UMA DAS COORDENADORAS DO MOVIMENTO FEMINISTA INCLUSIVASS, DE PORTO ALEGRE, E BATALHA PELOS DIREITOS DAS MULHERES COM DEFICIÊNCIA E CONTRA A VIOLÊNCIA DE GÊNERO. ANTES, MUNIU-SE DE CORAGEM PARA ENCARAR A RUA EM CADEIRA DE RODAS. VOLTOU A ESTUDAR, CONSTRUIU UMA NOVA VIDA, ENCONTROU OUTRO COMPANHEIRO, ENFRENTOU DUAS GRAVIDEZ DE ALTO RISCO, TEVE O FILHO ROBERTH, COM 8 ANOS, E HANNA, QUE COMPLETOU 1 ANO. REDESCOBRIU-SE ATIVISTA E CONVERTEU-SE EM TEMA DE FILME – CAROL, DE MIRELA KRUEL – ONDE REPETE, NA CADEIRA DE RODAS, A COREOGRAFIA DE FLASHDANCE, SUA MÚSICA PREFERIDA QUANDO MENINA. ELA DEIX A UM AVISO ÀS MULHERES: NÃO ROMANTIZEM A VIOLÊNCIA E NÃO VEJAM CUIDADO NAQUILO QUE É POSSESSÃO. BdF RS - Muitas mulheres percebem a violência apenas como a violência física do seu companheiro. Mas na lei Maria da Penha estão previstos mais quatro tipos de violência além da física, as de ordem psicológica, moral, sexual e patrimonial. O que se poderia dizer sobre estas violências menos letais mas também importantes? Carol - A relação que vivi nunca teve a agressão. A possessão e os ciúmes eu via como cuidado. Este cenário marca a vida das mulheres: achar que estão sendo cuidadas ou que aquela atitude acon-

EU VIA OS CIÚMES COMO CUIDADO teceu só uma vez. E que o agressor vai mudar. Qualquer ato que cause dano físico ou psicológico é violência. Não podemos romantizar qualquer ato de violência. Precisamos romper relacionamentos que nos trazem danos irreversíveis ou até a morte. Mulheres, busquem por ajuda e denunciem. Eu continuarei lutando por todas nós.

Carol com os filhos Roberth e Hanna


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Feminicídio

A cada seis horas e meia uma mulher morre no Brasil, vítima da violência de gênero Foto: Divulgação

País teve 1.350 casos de feminicídio apenas no ano passado. No Rio Grande do Sul, a situação é também preocupante em 2021 FABIANA REINHOLZ NOVO HAMBURGO/ RS

▶ As notícias não são boas neste novembro que marca mais um Dia Mundial pelo Fim da Violência Contra as Mulheres. Os dados da violência de gênero seguem em alta em todo o país, especialmente em relação ao feminicídio, situação agravada durante a pandemia. Em 2020, segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, houve 1.350 casos de feminicídio, um a cada seis horas e meia. Então, no próprio dia 25, a data que denuncia a violência, a julgar pela média constatada pelo Fórum, mais três mulheres poderão ser assassinadas no Brasil. No Rio Grande do Sul, a situação segue o panorama. Nos nove primeiros meses de 2021, o estado registrou 23.425 registros de ameaça, 12.664 ocorrências de lesão corporal, 1.462 situações de estupro (contabilizados os casos de pessoas vulneráveis), 78 feminicídios e 185 tentativas de feminicídio. A coordenadora da Força-Tarefa Interinstitucional de Combate aos Feminicídios, Ariane Leitão, vê uma espécie de incentivo ao

avanço desses números. “Todo esse processo de violência que é reafirmado pelo governo Bolsonaro, pelos apoiadores de Bolsonaro dentro das instituições e a repercussão que esse movimento causa é fundamental para que a violência contra a mulher venha crescendo”, interpreta. Para a jornalista Télia Negrão, da Rede de Saúde das Mulheres Latinoamericanas e do Caribe/RSMLAC e do Levante Feminista contra o Feminicídio, os índices refletem retrocessos no ambiente político nacional. “A vida das mulheres perdeu relevância”, afirma. “Trata-se de um projeto político deixar mulheres nas mãos de agressores, prover-lhes de armas cada dia mais potentes para eliminá-las, na medida em que o modelo é de mulheres que se submetem e/ou colaboram para um projeto ultraconservador e machista”, detalha. Elas criticam o desmonte das políticas públicas, agravado desde o golpe de 2016. Citam como exemplo, a extinção, na prática, do Conselho dos Direitos da Mulher/RS e da Rede Lilás, além da Secretaria de Mulheres/RS e do Ministério das Mulheres.

ONDE DENUNCIAR Brigada Militar – Disque 190 Delegacia da Mulher (DEAM) ou, na sua ausência, a qualquer delegacia de polícia. PARA FAZER O BOLETIM DE OCORRÊNCIA (BO) E SOLICITAR AS MEDIDAS PROTETIVAS. Delegacia Online - A delegaciaonline.rs.gov.br é uma plataforma digital criada pela Polícia Civil/RS onde as vítimas relatam a agressão sofrida sem ter que ir até a delegacia. Central de Atendimento à Mulher 24 Horas – Disque 180 Defensoria Pública – Disque 0800-644-5556 Para orientação quanto aos seus direitos e deveres, a vítima poderá procurar a Defensoria Pública, na sua cidade ou, se for o caso, consultar advogada(o). Centros de Referência de Atendimento à Mulher - Os cartórios também estão liberados para registro de denúncia.

Nos nove primeiros meses de 2021, o Rio Grande já registrou 78 feminicídios

BOLSONARO E LEITE FALHAM NA PROTEÇÃO ÀS MULHERES ▶ O governo Bolsonaro usou menos de 1/3 da verba destinada às políticas para

as mulheres desde que tomou posse, em 2019. É o que aponta análise do site AzMina (https://azmina.com.br). Deixou de aplicar R$ 400 milhões. E o governo estadual não tem reserva de recursos para o tema. O que atingiu em cheio a rede de atendimento à mulher. Télia nota que as redes existentes além de insuficientes, são serviços com baixa capacidade de intervir e proteger. Com 497 cidades, o Rio Grande conta com apenas 17 delegacias da mulher. “Este ano teremos mais feminicídios do que no ano passado, de mulheres que nunca conseguiram chegar aos serviços ou ter um atendimento”, prevê.

VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER NO RIO GRANDE DO SUL NOS NOVE PRIMEIROS MESES DE 2021, O ESTADO REGISTROU

23.425 REGISTROS DE AMEAÇA

1.462

SITUAÇÕES DE ESTUPRO CONTABILIZADOS OS CASOS DE PESSOAS VULNERÁVEIS)

12.664

OCORRÊNCIAS DE LESÃO CORPORAL

78

FEMINICÍDIOS

185

TENTATIVAS DE FEMINICÍDIO


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Conscientização

Conheça ações que ajudam a combater a violência contra a mulher Movimento ElesPorElas e Campanha Máscara Roxa são exemplos de importantes iniciativas FABIANA REINHOLZ PORTO ALEGRE / RS

▶ Na luta contra o fim da violência contra a mulher, entre os esforços indispensáveis, além de efetivas políticas públicas, estão as campanhas de conscientização e movimentos sociais. No Rio Grande do Sul, como exemplo, há o Movimento HeforShe (ElesporElas), e mais recentemente, por conta da pandemia, a Campanha Máscara Roxa. “Se existe violência de gênero contra as mulheres, ela é causada pelos homens. Mas existe uma massa de homens que não aceitam nenhum tipo de violência contra as mulheres, que são contra esse tipo de compor-

tamento machista. Esses homens, nós precisamos ter como aliados da luta feminista, da luta pelo fim da violência e da igualdade de gênero”, afirma o deputado estadual Edegar Pretto, coordenador do Comitê Gaúcho Impulsor ElesPorElas HeForShe. Com esse objetivo, em 2014 foi criado pela ONU Mulheres o Movimento HeforShe (Eles Por Elas) para difundir a conscientização e promover a responsabilidade de homens e meninos para a eliminação de todas as formas de discriminação e violência contra as mulheres e meninas. O RS foi o primeiro estado do país a aderir ao ElesPorElas, em 2015. O Comitê Gaúcho ElesPorElas foi lan-

çado em 2017. É composto por empresas, universidades, instituições públicas, prefeituras, artistas, os clubes de futebol da dupla Grenal e agora a Escola de Samba Imperadores do Samba.

CAMPANHA MÁSCARA ROX A FOI CRIADA NA PANDEMIA ▶ Com o objetivo de reduzir os casos de violência

decorrentes do isolamento pela pandemia, em junho de 2020, foi criada a Campanha Máscara Roxa, que posteriormente virou lei no RS. De autoria do deputado Edegar Pretto, o projeto foi aprovado na Assembleia Legislativa e sancionado pelo governo em agosto de 2020. A campanha permite às mulheres vítimas de violência doméstica fazerem denúncias em farmácias credenciadas como "amiga das mulheres". Nessas farmácias, os atendentes recebem treinamento formativo para garantir a segurança da vítimas. Ao chegar na farmácia a mulher deve pedir a máscara roxa, que é a senha para que o atendente saiba que se trata de um pedido de ajuda. O profissional dirá que o produto está em falta e pegará alguns dados para avisá-la quando chegar. Após, o atendente da farmácia passará à Polícia Civil as informações coletadas, via WhatsApp, para que o órgão tome as medidas necessárias. Cerca de 1.500 farmácias em todo o estado estão envolvidas na campanha. Os estabelecimentos credenciados como "Farmácia Amiga das Mulheres" são locais seguros e alternativos. A campanha segue em andamento e recebe denúncias de mulheres vítimas de violência doméstica. Todas as farmácias participantes estão com o selo “Farmácia Amiga das Mulheres” em suas vitrines e portas, para que as vítimas as identifiquem. Em um ano de atuação houve mais de 120 denúncias registradas a partir da campanha e duas prisões em flagrante no estado. A N I A R A É A M A S C O T E DA C A M PA N H A T R IB U TA R O S S U P E R- R I C O S. AC O M PA N H E N O S S A S R E D E S: facebook.com/tributar.os.super.ricos | @OsTributar |

@tributar.os.super.ricos

www.ijf.org.br/tributar.os.super.ricos/

Interessados em participar da campanha no Rio Grande do Sul devem entrar em contato com o Comitê Gaúcho ElesPorElas, através do número 051991993641 (WhatsApp) ou pelo email comite.gaucho.elesporelas@gmail.com.

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Foto: Paulo Pinto / AGPT

RIO GRANDE DO SUL

ELESPORELAS: HOMENS SE JUNTAM À LUTA DAS MULHERES CONTRA A VIOLÊNCIA DE GÊNERO PÁGIN A 7

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Foto: Leandro Molina

EM APENAS UM ANO, PAÍS TEVE 1.350 CASOS DE FEMINICÍDIO PÁGIN A 6

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Foto: Alex Garcia

Ano 3 | Número 31

CONTRA O MACHISMO TRÊS MULHERES ASSASSINADAS A CADA 24 HORAS. OITO AGREDIDAS COM SOCOS, TAPAS OU PONTAPÉS A CADA MINUTO. É O BRASIL BRUTAL QUE CAROL SANTOS (FOTO) DESAFIA TODOS OS DIAS. NESTE 25 WDE NOVEMBRO, DIA INTERNACIONAL DE COMBATE À VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER, É UMA QUESTÃO PARA CONHECER E ENFRENTAR. PÁGS 5 A 7


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