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Foto: Katia Marko

RIO GRANDE DO SUL

DIRIGENTE DO MAB, GILBERTO CERVINSKI FALA SOBRE A ESCALADA DE AUMENTOS NA CONTA DE LUZ EM 2021 PÁGIN A CENTR A L

04 de outubro de 2021 distribuição gratuita brasildefato.com.br

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Foto: Joka Madruga

FEIRA DE ECONOMIA SOLIDÁRIA E COOPERATIVISMO ACONTECE ENTRE OS DIAS 3 E 10 DE OUTUBRO PÁGIN A 8

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Ano 3 | Número 28

CARESTIA ALÉM DA CONTA DA LUZ E OS COMBUSTÍVEIS, A DISPARADA NO PREÇO DOS ALIMENTOS ACELERA A FOME E A SUBNUTRIÇÃO DOS BRASILEIROS

Foto: Roberto Parizotti


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EDIÇÃO N O 28 - 04 DE OUTUBRO DE 2021 - W W W.BRASILDEFATORS.COM.BR

Opinião

A eleição de nossas vidas

CHARGE | Santiago

Governo propaga a ideia de que servidores são privilegiados e pouco eficientes SÉRGIO ANTÔNIO GÖRGEN *

Duzentos anos depois da dita Proclamação da Independência, mais proclamação que independência, teremos em 2022, eleições gerais no Brasil. E não será qualquer eleição, até porque, estamos cada vez mais longe de um Brasil Soberano e Independente. Será também a eleição pós-pandemia, pós-golpe institucional e pós estranha eleição de 2018. Nesta eleição teremos um país destroçado pelo desemprego, pela fome, pela inflação, pelo baixo crescimento econômico, com as desigualdades se ampliando, com amplos setores da economia privatizados, com a agenda neoliberal em pleno andamento e uma grande parte da população cooptada pelas ideias e práticas fascistas. Será uma eleição definidora de rumos estratégicos em nosso país. Não vamos simplesmente votar em candidatos, mas em projetos de futuro. Vamos aprofundar o neoliberalismo ou retomar os rumos de uma economia para superar as desigualdades. Vamos aprofundar o autoritarismo ou retomar o rumo da construção democrática e da participação popular. Vamos ampliar a manipulação ou construir cidadania ativa. Vamos produzir alimentos de qualidade e saciar a fome do nosso povo ou continuar produzindo só soja para tratar animais em outros países. Vamos cuidar do meio ambiente ou destruir o que resta de nossos biomas para beneficiar meia dúzia de exploradores e aventureiros.

Vamos aprofundar a submissão e a dependência ao capitalismo internacional ou retomar o caminho da construção da Soberania Nacional. Vamos continuar entregando nossas riquezas a meia dúzia de empresas internacionais ou retomar o uso dos bens comuns da Nação - água, energia, florestas, solos, minérios, biodiversidade, microrganismos - para alicerçar um projeto de vida digna para o nosso povo. Existem raros momentos na história em que a tática e a estratégia se fundem. É quando os objetivos imediatos e os objetivos nacionais de médio e longo prazo se decidem em um mesmo momento histórico. Assim será a eleição de 2022. As forças populares da nação se defrontarão com as elites trogloditas e carcomidas, corruptas e concentradoras de riquezas, anti-povo e anti-nação, sem projeto nacional, de costas para as maiorias do povo, num momento decisivo para definição de rumos futuros. Não será uma simples eleição. Será a decisão sobre os destinos de gerações inteiras. * Frei franciscano, militante do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA)

NÃO VAMOS SIMPLESMENTE VOTAR EM CANDIDATOS, MAS EM PROJETOS DE FUTURO

www.brasildefators.com.br (51) 98191 7903 redacaors@brasildefato.com.br /brasildefators @BrasildeFatoRS brasildefato.rs CONSELHO EDITORIAL Danieli Cazarotto, Cedenir Oliveira, Frei Sergio Görgen, Saraí Brixner, Enio Santos, Neide Zanon, Ademir Wiederkehr, Luiz Muller, Télia Negrão, Diva da Costa, Grazielli Berticelli, Bernadete Menezes, Gerson José Ferrari, Salete Carollo, Ronaldo Schaefer, Vito Giannotti (In memoriam) | EDIÇÃO Ayrton Centeno (DRT3314), Katia Marko (DRT7969) | REDAÇÃO NESTA EDIÇÃO Ayrton Centeno, Fabiana Reinholz, Katia Marko, Marcelo Ferreira, Marcos Corbari e Walmaro Paz. | DIAGRAMAÇÃO Marcelo Souza | DISTRIBUIÇÃO Ronaldo Schaefer e Saraí Brixner | IMPRESSÃO Gazeta do Sul | TIRAGEM 25 mil exemplares.

Editorial

Brasil, país de sobras “SE SOBRAR A GENTE COME”. A frase do entrevistado desta edição do Brasil de Fato é uma síntese do país desesperançado que se impôs aos brasileiros após o golpe parlamentar-jurídico-midiático de 2016. Desde então, o Brasil desceu a ladeira de modo impressionante. A velocidade desse mergulho no abismo só aumentou após a posse de Jair Bolsonaro, o falso Messias convertido em jagunço do latifúndio, das federações empresariais, dos bancos, da Bovespa e dos picaretas de todos os naipes.

“SE SOBRAR A GENTE COME”. É disso que se trata: de sobras. Viramos um país de sobras. Não é mais aquele das três refeições por dia. É o país da fila do osso, da disputa por carcaças, da gastronomia de pés de frango. É um país em que homens e mulheres comem a comida que antes iria para os bichos.

“SE SOBRAR A GENTE COME”. Mil dias de destruição bolsonarista não resultaram só em menos comida. Também em menos emprego, menos salário, menos direitos, menos meio ambiente, menos cultura, menos saúde, menos educação, menos empatia, menos respeito. Um respeito, aliás, que o mundo perdeu pelo Brasil como atesta a troça que os jornais de todo o planeta fazem do governo perverso e mambembe que nos avilta e humilha dia sim outro também.

“SE SOBRAR A GENTE COME”. Para peitar este estado de coisas que esbofeteia a nação é bom que nos sobre, na falta de tudo, muita indignação. E que essa indignação se transforme em mar revolto para se erguer, encrespar e varrer do mapa quem nos impôs a fome, a miséria, o desemprego, a ruína, a doença e a morte como maldições renovadas a cada dia.


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Desigualdade

Brasil vive crescimento em “K”, com ricos cada vez mais ricos e pobres cada vez mais pobres Foto: Leandro Molina

Economista explica que, no conceito, a perna de cima da letra representa os ricos enriquecendo e a de baixo os pobres empobrecendo WÁLMARO PAZ PORTO ALEGRE / RS

▶ A falta de uma política de segurança alimentar e de controle de preços desde o golpe de 2016 levou a inflação a patamares quase esquecidos nos últimos 20 anos. Os salários começaram a perder o poder de compra e a carestia se instalou novamente. A explicação é do coordenador do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos do Rio Grande do Sul (DIEESE/RS), Ricardo Franzoi. Ele cita o conceito em voga entre os economistas, o do crescimento em “K”. Nele, “a perna de cima representa os ri-

cos que ficam cada vez mais ricos e a perna de baixo representa os pobres que ficam cada vez mais pobres”.

MÍNIMO DE V ERI A SER DE R$ 5,6 MIL

No RS, a carestia fica evidente com o preço da cesta básica nas alturas. Pesquisada pelo DIEESE, a cesta chegou a R$ 664,67 em agosto na Capital. Franzoi explica que a soma se refere ao que gasta em alimentos básicos uma só pessoa. Mas para uma família de dois adultos e duas crianças, o número deve ser multiplicado por três chegando perto de R$ 2 mil.

Em meio à crise agravada pela pandemia da covid-19, quase 60% da população sofre com insegurança alimentar

Por isso, a defasagem do salário-mínimo está cada vez maior. Hoje, o mínimo deveria de ser de R$ 5,6 mil em vez dos minguados R$ 1,1 mil que os trabalhadores recebem. A pesquisa feita men-

salmente pelo DIEESE desde 1955 é baseada numa tabela de produtos consumidos por famílias de renda baixa, incluindo carne, leite, feijão, arroz, farinha, batata, legumes, pão, café, frutas, açúcar,

“Se sobrar, a gente come”

óleo e manteiga. Na pesquisa do Centro de Estudos e Pesquisas Econômicas (IEPE), da UFRGS, os 51 produtos analisados passaram a custar R$ 1.070,84, avanço de 19,1% nos últimos 12 meses.

Foto: Maria Venância Farias

Houve redução de quase 30% na oferta diversificada de alimentos no Sul, uma das regiões mais privilegiadas do país AYRTON CENTENO PORTO ALEGRE / RS

▶ No seu aniversário de 45 anos, Mário Roni não tinha a menor expectativa de qualquer coisa parecida com festa. “Não vai ter nada”, resumiu. Naquele dia sombrio, o almoço seria feijão e arroz “e umas pombinhas que um caçador me deu”. É a carne que, vez em quando, consegue. Não era ruim considerando-se que todos na casa – além dele, a mulher Ana Paula, 40, e as filhas Renata, 20, e Ana Cláudia,

15 – sentariam à mesa e comeriam. Nem sempre é assim. E quando não é assim, o que acontece? “Eu me limito”, resumiu. Na verdade, ele não está sozinho nessa limitação. “Eu e a minha esposa só comemos depois das crianças”, como chama as filhas, uma adulta e a outra adolescente.

CA FÉ PRE TO ENGROS S A DO COM FA RINH A

“Se sobrar, a gente come. Se não, vamos pro

Mário Roni e a família vivem em um distrito de Pelotas, na Metade Sul do estado, região mais pobre do RS

mato procurar bergamotas”, conta. Se não achar a fruta, apela para o café preto engrossado com farinha de milho. Mário Roni Siqueira Marques é morador de Cerrito Alegre, 3º distrito de Pelotas, com 345 mil habitantes, a maior cidade da Metade Sul. Por ironia, o Rio Grande já foi chamado, em um passado distante, de “Celeiro do Brasil”.

MENOS COMIDA N A ME S A DOS GAÚCHOS

“A oferta de alimentos sem milho e soja nos anos 1970 era de 4,6 quilos por pessoa/dia, mas, após 45 anos, é de 3,28 kg por pessoa/dia”, nota a pesquisadora Gabriela Coelho de Souza, da UFRGS, uma das autoras do estudo Fome RS, em andamento. Houve redução de qua-

se 30% na oferta diversificada de alimentos no estado. O quadro é mais perverso na Metade Sul, o que ajuda a explicar parte dos problemas de Mário Roni e de sua família. Menor diversidade alimentar reduz a segurança nutricional. Na comparação de 1970 com 2020, caiu a produção gaúcha de feijão, batata, mandioca, trigo, centeio, frango, bovinos, hortigranjeiros e frutas.


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Entrevista – Gilberto Cervinski

“Há risco de uma onda de apagões e novos aumentos na conta de luz” Para o dirigente do MAB, a culpa é do caos do governo Bolsonaro que pode fazer a tarifa da energia elétrica explodir nos próximos anos

AYRTON CENTENO PORTO ALEGRE / RS

A escalada de aumentos na conta de luz em 2021 já é três vezes maior do que a inflação do período. E isso que o índice inflacionário deste ano já ultrapassou os 7%. Para se ter uma ideia, os últimos números do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA-15) mostram a inflação mais alta para setembro dos últimos 27 anos. E junto com a disparada da conta da luz, vem a dos combustíveis, do transporte e da alimentação em geral. Enquanto Jair Bolsonaro faz o consumidor pagar mais caro pela energia elétrica, seu ministro da Economia, Paulo Guedes, diz que “não há problema” se a conta ficar um pouco mais cara. E outro ministro, Bento Albuquerque, de Minas e Energia, manda os brasileiros tomarem menos banho... Os três jogam o peso da culpa na escassez das chuvas. Mas isso é mesmo verdade? Brasil de Fato RS conversou com Gilberto Cervinski sobre este assunto. Ele é um dos dirigentes nacionais do Movimento de Atingidos por Barragens (MAB), que faz um debate diário e permanente da questão. Cervinski acha que essa história está muito mal contada. Veja como ele explica os números assustadores que estão aparecendo aí na sua conta de luz:

BdF RS – Por que a energia elétrica do Brasil é uma das mais caras do mundo? Estudo recente da Federação das Indústrias/RJ (Firjan) indicou o custo do país para a energia como o quarto mais alto entre 27 países pesquisados. No Brasil, o megawatt/ hora custa R$ 329, enquanto que, por exemplo, na nossa vizinha, a Argentina, sai por R$ 88,10... Gilberto Cervinski - A principal causa de se pagar tão caro pela energia elétrica brasileira é a privatização, que transferiu a propriedade das usinas, linhas de transmissão e distribuidoras para agentes empresariais particulares que têm como donos principais bancos e grupos (fundos) internacionais em aliança com a burguesia brasileira. Com a privatização passaram a estabelecer como padrão o preço internacional de energia, ou seja, cobram como se o Brasil produzisse eletricidade por meio de usinas térmicas a carvão, gás e óleo diesel. Porém, nosso país gera energia à base de água, que é uma das mais baratas do mundo. Por

exemplo, na usina de Jacuí da CEEE o custo de produção (O&M) é de R$ 20,00/1.000 kWh, mas o povo em Porto Alegre paga ao final R$ 900,00 pela mesma energia. Com isso ganham lucros extraordinários. BdF RS - A tarifa da luz já subiu quase três vezes o índice da inflação neste ano. Está em 7% arrochando o orçamento das famílias mais pobres. Mas o ministro da Economia, Paulo Guedes, diz que “não adianta ficar chorando”... O que diz sobre isso? Cervinski - Só este ano o governo Bolsonaro criou a taxa da “bandeira da escassez” que representa para os gaúchos um aumento de cerca de 22% na conta de luz, mas a CEEE teve ainda no último “reajuste” mais 8% de aumento, a RGE Sul teve 10%. Em menos de 12 meses, o aumento acumulado é superior a 30% na conta de luz, mas o salário-mínimo teve apenas parte da correção da inflação. Assim também tem sido com o preço do gás, feijão, arroz, carne, combustí-

ESTÁ HAVENDO O PRIVILEGIAMENTO DOS PRIVILEGIADOS

O coordenador do

EM CINCO ANOS, AS EMPRESAS EMBOLSARAM R$ 140 BILHÕES veis, água, etc. Se tá caro, a culpa é da política do governo Bolsonaro. BdF RS - Se o consumidor sai perdendo, quem está levando vantagem? São, a exemplo do que ocorre com os combustíveis, os acionistas das empresas privatizadas? Cervinski - O povo é a grande vítima. É quem está pagando a conta. Os acionistas dessas empresas são os beneficiados. Florestan Fernandes caracterizava esse tipo de política como política de “privilegiamento dos privilegiados”. BdF RS - Enquanto o Brasil perdia vidas e empregos na pandemia, os acionistas das empresas elétricas não tinham do que reclamar. Consta que, em 2020, eles embolsaram R$ 14 bilhões em dividendos... Cervinski - Os lucros são abusivos. Descontados todos os custos e impostos, em cinco anos essas

empresas (do setor elétrico) embolsaram R$ 140 bilhões por meio das contas de luz, na forma de lucro líquido e juros da dívida. Isso equivale, em média, a R$ 1.600,00 por consumidor. BdF RS - Nos anos 1990, no período FHC, começou a privatização do setor elétrico sob o argumento que a energia iria ficar mais barata. Mas, desde então, além de encarecer a tarifa, houve apagões. O que aconteceu? Cervinski - O argumento de que ficaria mais barata é discurso ideológico para manipular os ingênuos. A piora na qualidade da energia (energia fraca e oscilante) e perda de qualidade no atendimento é resultado da demissão de trabalhadores, precarização do trabalho e diminuição dos investimentos em manutenção das estruturas. Os racionamentos e apagões são consequências dessa lógica privada que só quer o lucro máximo.


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EDIÇÃO N O 28 - 04 DE OUTUBRO DE 2021 - W W W.BRASILDEFATORS.COM.BR Foto: Joka Madruga

o Movimento dos Atingidos por Barragens, Gilberto Cervinski, analisa impacto do aumento da tarifa de energia na vida dos brasileiros

BdF RS - Os reservatórios das hidrelétricas no Sudeste e no Sul estão abaixo do patamar de 2001, quando o país foi obrigado a racionar energia. Racionamento é o que vem pela frente de novo? Cervinski - O esvaziamento dos reservatórios aconteceu antes da seca do Sudeste. É a farsa da crise hídrica. Esvaziaram antes as usinas para gerar aumento das tarifas agora e aumentar o lucro por longos anos. Mas o governo perdeu o controle e virou um caos. Pela incompetência deste governo militarizado, há o risco de haver uma onda de apagões regionais nos horários de maior consumo, além de novos e grandes aumentos nas contas de luz nos próximos cinco anos. BdF RS - A prática do governo Bolsonaro tem sido sempre a de transferir suas responsabilidades. Foi as-

sim com os 600 mil mortos da pandemia, o desemprego, a inflação, etc. Como o governo se agarra na falta de chuva para ocultar sua paralisia na crise energética, a conta vai ficar para São Pedro? Cervinski - O governo tenta culpabilizar o clima e as pessoas. Mas a responsabilidade é do governo que operou as hidrelétricas desse jeito. Nossas hidrelétricas têm um enorme tanque de reserva. Quando cheios, podem fornecer energia 24 horas por dia ao longo de quatro meses sem entrar neste tempo nenhuma gota de chuva e nenhuma gota de água em nenhum dos rios do país.

esperar nesse sentido? Cervinski - Os dados da CONAB (Companhia Nacional de Abastecimento) mostram que, nestes três anos, o feijão de cor aumentou 138%, o arroz fino T1 90%, a carne de boi (agulha) 140%. E isso porque acabaram com os “estoques públicos de alimentos” que permitiam ao governo controlar os preços. E abriram as fronteiras com a desvalorização do real para exportação com zero taxa de tributos e os alimentos assumiram o preço internacional. Assim é com os derivados do petróleo como gás de cozinha, gasolina e diesel. O governo privatizou as empresas de ponta que controlavam os preços como Liquigás (gás de cozinha) e BR Distribuidora (combustíveis). Privatizou as empresas de produção de insumos agrícolas, além de reduzir a produção interna de combustíveis, adotando a política de preço internacional baseada na variação do dólar. Ou seja, favoreceu o interesse das petroleiras

A QUESTÃO CENTRAL É A POLÍTICA ENERGÉTICA QUE PRIORIZA O MODELO DE MERCADO internacionais. E ao subir o preço dos combustíveis, de certa forma cria-se uma inflação dos preços em cadeia. BdF RS - Como se explica que o Brasil não tenha apostado mais fortemente em energias alternativas como a solar, a eólica e a das marés? Cervinski - O problema não é de tecnologia. A questão central é a política energética que prioriza o chamado “modelo de mercado”. Que é caracterizado por controle privado internacional, lógica de financeirização, regime de preço de tarifa internacional, precarização do trabalho e uso de matriz vantajosa para gerar o chamado “lucro extra”. São as causas do problema.

APAGÕES SÃO CONSEQUÊNCIA DA LÓGICA PRIVADA DO LUCRO MÁ XIMO

BdF RS – Seis anos após o rompimento da barragem do Fundão, da Samarco, e três anos depois do desastre da barragem de Brumadinho, da Vale, ambas somando centenas de mortes, contaminação e destruição ambiental, o que o Brasil aprendeu? Cervinski - Os governos e empresas aprenderam pouco ou nada. Os atingidos seguem até hoje em luta pelos seus direitos. Não há até hoje uma política de segurança de barragens adequada. Vejam, o governador do Rio Grande do Sul revogou a única lei que garantia direitos aos atingidos por barragens neste estado. Isso vai na contramão das lições que deveriam ser tiradas. Mas o MAB e os atingidos seguem organizando o povo. A luta dos atingidos por barragens é justa e necessária.

Foto: Coletivo de Comunicação do MAB RS

BdF RS - Às vezes, até se esquece, mas o alto custo da energia elétrica – assim como o dos combustíveis – tem um forte impacto no preço dos alimentos, cujos preços não param de subir no Brasil. O que podemos

O GOVERNO TENTA CULPABILIZAR O CLIMA E AS PESSOAS

MAB distribui panfletos no centro de Porto Alegre para alertar a população sobre os motivos da alta das tarifas


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Adiando o problema

Teto de gastos estadual é a próxima jogada de Leite para adesão ao Regime de Recuperação Fiscal Foto: Joel Vargas | Agência ALRS

Vendida como a única saída para acertar as contas do Rio Grande do Sul, a adesão ao Regime de Recuperação Fiscal (RRF) é a cereja do bolo do projeto de governo de Eduardo Leite (PSDB). Para isso, falta limitar investimentos públicos no Estado por 10 anos MARCELO FERREIRA PORTO ALEGRE / RS

▶ “Isso representa a ideologia da redução do Estado, dos serviços públicos, privatização, desresponsabilização do setor público sobre a manutenção da vida, da saúde, da educação e do desenvolvimento social”, entende o economista Jorge Maia Ussan. O RRF é um programa federal que permite aos estados refinanciar suas dívidas com a União desde que cortem gastos públicos. Segundo dados do Tribunal de Contas do Estado, o RS já pagou 3,9 vezes o valor da dívida original e ainda deve sete vezes o valor. A

dívida estadual, hoje, é de cerca de R$ 70 bilhões. Com a adesão, explica Ussan, a dívida não será diminuída, apenas empurra o problema para próximos governos. “O RRF é solução apenas para o governo Leite. A partir de 2027, pagaremos muito mais. Evidentemente isso não será sustentável”, pontua.

TE TO DE GA S TOS E S TA DUA L: A CA R TA DA FIN A L

Desde o início do seu governo, Leite trabalha para efetivar a adesão ao programa do governo Bolsonaro: privatiza estatais

Projeto foi aprovado após mais de seis horas de sessão plenária da Assembleia Legislativa no dia 14 de setembro com as galerias da Casa vazias

lucrativas, corta direitos dos trabalhadores que prestam serviços à sociedade e conclui a reforma da Previdência estadual. Em setembro deste ano, aprovou junto aos deputados o projeto que abre caminho

“Brasil é o único país do mundo que faz ajuste fiscal na pandemia” ▶ “A possibilidade de adesão a essa proposta, que pretende diminuir as políticas públicas no momento pandêmico em que mais precisamos da presença do Estado na vida das pessoas, é terrível”, ressalta Fabiano Zalazar, coordenador-geral do Sindicato dos Servidores da Justiça do Estado do RS (Sindjus-RS) e integrante da Frente dos Servidores Públicos do RS. O Brasil é o único país do mundo que promove um ajuste fiscal em plena pandemia, na contramão do mundo. “No plano econômico, os governos Leite e Bolsonaro são iguais”, opina o servidor. “Sua política econômica é austericida e conservadora”, completa. “O exclusivo e único enfoque do governo Leite é o corte de gastos e as privatizações”, lamenta Ussan. “O resultado é conhecido, a economia gaúcha patina e os serviços públicos são precarizados, o que atinge especialmente as camadas mais pobres da população.” Zalazar pontua que, enquanto o go-

verno repete que os servidores públicos são o problema, “não se combate efetivamente a sonegação e os incentivos fiscais bilionários que aprofundam as desigualdades sociais”.

P ODE PIOR A R

Para Zalazar, o teto de gastos estadual não deve preocupar apenas servidores, mas toda a coletividade. Exemplifica com os últimos cinco anos no país que, mesmo com a PEC federal do teto de gastos, privatizações e reformas previdenciária e trabalhista, vê o aumento da inflação, da miséria e das desigualdades sociais. “A conjuntura é de milhões de brasileiros e brasileiras vivendo em insegurança alimentar, desemprego e subemprego, fruto dessas políticas predatórias e da extinção de direitos sociais”, assinala. Com a adesão do RS ao RRF, “esse quadro que já vivenciamos no Brasil tende a se intensificar no estado”.

para adesão ao RRF. Entre as medidas que o governo federal obriga os estados a implementarem para a adesão ao regime está a criação de um teto de gastos, que limita por 10 anos o crescimento de investimen-

tos públicos. Leite já enviou Proposta de Emenda à Constituição (PECs) à Assembleia, mas como encontra dificuldades, trabalha para enviar um Projeto de Lei Complementar, de mais fácil aprovação.

Adesão ao RRF enterra renegociação ▶ O contrato original da dívida gaúcha com a União foi muito prejudicial ao estado, afirma Ussan, que também é mestre em Administração pela UFRGS. “Na prática tornou-a impagável”, assegura. Tal situação levou o RS a liderar um acordo com governo federal que renegociou a dívida em 2014, durante o governo Tarso Genro. Desde 2017, o estado não paga suas parcelas por força de liminar junto ao STF. Para o economista, outra renegociação, ou mesmo ações judiciais, seriam necessárias. Porém a adesão ao RRF enterra a possibilidade de uma renegociação. Na sessão da Assembleia gaúcha que aprovou a adesão, a deputada Juliana Brizola (PDT) frisou que o projeto obriga o estado a abrir mão das ações judiciais que tratam da questão.

O RS JÁ PAGOU 3,9 VEZES O VALOR DA DÍVIDA ORIGINAL E AINDA DEVE SETE VEZES O VALOR


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Campanha

Movimento viabiliza verba para questionar a violência contra as mulheres

O Levante Feminista contra o Feminicídio promove a campanha “Nem Pense Em Me Matar, Quem Mata Uma Mulher, Mata a Humanidade" que vai se estender pelos próximos dois anos

FABIANA REINHOLZ NOVO HAMBURGO / RS

▶ Por meio do edital de pequenos projetos da Coordenação Ecumênica de Serviços (CESE), o Levante Feminista RS obteve uma verba para aquecer a campanha "Nem Pense Em Me Matar, Quem Mata Uma Mulher, Mata a Humanidade". O Rio Grande do Sul é um dos 20 estados brasileiros com grupo de trabalho de articulação e de ações da campanha. O projeto tem três eixos: a lupa feminista; mídias/design e engajamento; e uma mostra com artistas ativistas. A mostra é direcionada a artistas da dança, circo, teatro, música, artes visu-

ais, performance e literatura. O projeto do Levante segue com inscrições abertas até 6 de outubro. Podem se inscrever criações protagonizadas, criadas, escritas, dirigidas por mulheres cis e trans de todo o estado.

PRIM AV ER A DO LE VA NTE FEMINIS TA

Batizada como "O Corpo é meu - primavera do Levante RS", o evento tem convocatória pública e seleção de criações artísticas que deem visibilidade à campanha nacional. "Essa mostra é imprescindível para gerar material estético e imagético, documentos e registros dessa cam-

panha protagonizada por mulheres", argumenta Juçara Gaspar. Uma das articuladoras do Levante RS, ela prossegue: "A cada dia uma de nós se levanta e permanece de pé, de mãos dadas, combatendo em suas casas, em suas comunidades". As inscrições podem ser feitas no Instagram do Levante RS. As criações selecionadas participarão da ocupação cultural das mídias do Levante RS, durante os 16 dias de ativismo contra a violência em novembro. Os 16 dias de ativismo começam no Dia da Consciência Negra, 20 de Novembro, e fazem parte da agenda feminista nacional.

RO L E

L A R U T L U C

DO FOGO QUE ARDE EM NÓS ▶ “O projeto "Do fogo que arde em nós" vai divulgar e fomentar a produção literária de autoras negras do Rio Grande do Sul em um livro virtual (e-book) que conta com quatro poetas selecionadas a partir de uma chamada pública. Com previsão de lançamento para o final de setembro, a coletânea busca destacar a forte presença de autoras negras no campo da literatura. As quatro selecionadas trazem diversidade em suas escritas: Agnes Mariá é artivista, escritora, educadora, musicista, produtora, compositora e slammer. Claudia Daiane Garcia Molet é sambista, compositora, enredista, professora e pesquisadora. Eliana Marah é poeta, professora Doutora em Letras. Pérola Negra é artista independente e rapper. Autoras negras do Sul que quiserem enviar suas poesias e escrevivências podem mandar para o e-mail: dofogoquearde@gmail.com.

CANÇÕES PARA TEMPOS DE CÓLERA

A NI A R A É A M A S C O T E DA C A MPA NH A T R IBU TA R O S S U P E R-R I C O S. AC O MPA NHE N O S S A S R E D E S: facebook.com/tributar.os.super.ricos | @tributar.os.super.ricos @OsTributar |

www.ijf.org.br/tributar.os.super.ricos/

▶ Ao completar 38 anos, no início de dezembro, o Grupo Unamérica lança o álbum Canções para Tempos de Cólera nas principais plataformas digitais. Mas o projeto que vem sendo produzido desde o ano passado, será apresentado em etapas ao público. O primeiro EP foi lançado dia 1 de outubro, com as músicas Festa da Colheita, Mutirão, Canção Campesina e João de Tal. O show pode ser conferido em www.facebook.com.br/ brasildefators. Também foi apresentado o clipe da música Canção Campesina, uma homenagem ao Movimento de Mulheres Camponesas (MMC). Confira em www.facebook.com/grupounamerica e www.unamerica.com.br


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Outro mundo possível

Feicoop retorna em formato híbrido entre 3 e 10 de outubro Foto: Katia Marko

PARTICIPE DA PRIMAVERA DA DEMOCRACIA MUTIRÃO ESTADUAL

No final de semana de 9 e 10 de outubro tem mutirão de panfletagem do Plebiscito Popular sobre as Privatizações, organizada pelos 28 comitês regionais. Para este mutirão, estão disponíveis o panfleto sobre o plebiscito e o gibi sobre as privatizações. Os comitês municipais, movimentos e entidades podem solicitar material através do email plebiscitopopularrs@gmail.com

PLEBISCITO NA FEICOOP

Feicoop retoma atividades presenciais entre 8 e 10 de outubro, seguindo todos os protocolos sanitários

Economia solidária e cooperativismo estarão em destaque na programação que se dividirá de modo virtual e presencial MARCOS CORBARI SANTA MARIA / RS

▶ A célebre palavra de ordem que preconiza que outro mundo é possível e outra economia já acontece volta a ser enunciada a partir da Feicoop, a Feira Internacional de Economia Solidária e Cooperativismo, que mantém vivas as sementes plantadas no Fórum Social Mundial. A 27ª edição ocorrerá de forma híbrida entre os dias 3 e 10 de outubro. Parte da programação vai acontecer de modo virtual e outra de maneira presencial. Organizada pelo Projeto Esperança/Cooesperança e Banco da Esperança, braços da Arquidiocese de Santa Maria, e contando com a participação da Cáritas Brasileira, Cáritas Regional Rio Grande do Sul, Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Instituto Federal Farroupilha (IFFar) e Prefeitura Municipal de Santa Maria, a Feicoop é uma grande escola de organização, formação de convivência, do voluntariado e dos movimentos so-

ciais e da economia solidária.

COMÉRCIO JUS TO E CONSUMO É TICO E SOLIDÁ RIO

“São 28 anos de construção coletiva e interativa”, destaca a coordenadora, Irmã Lourdes Dill. Segundo ela, o evento viabiliza práticas do comércio justo e consumo ético e solidário, trocas solidárias com moeda social e atividades culturais, de formação e interação com debates sobre organização social, educação alimentar, sustentabilidade, reforma agrária, cooperativismo, agroecologia, entre outros. Ela reafirma ainda o caráter “aprendente e ensinante” da feira de Santa Maria, como um momento coletivo que “nos anima a seguir as orientações do Papa Francisco com uma ecologia integral, tomando todo cuidado consigo, cuidando do outro e em consequência reconfigurando nossas relações para com a Casa Comum”. A abertura será realizada no dia 3, das 19h às 20h, de forma exclusivamente online, a partir do estúdio do H20, com retransmissão confirmada dos canais do Brasil de Fato RS e da Rede Soberania. “Todos estamos muito felizes pela oportunidade de realizar a Feicoop. Seguimos refletindo o tema lançado no ano passado que

nos desafia a construir a sociedade do bem-viver, por uma ética planetária”, relata a coordenadora.

PROGR A M AÇÃO HÍBRIDA

Entre os dias 3 e 7 de outubro a Feicoop ocorrerá on-line, em modelo semelhante ao realizado na edição especial de 2020. Os eventos autogestionários (palestras, oficinas, seminários...) terão público reduzido e alguns deverão ser transmitidos pelas redes sociais. Já entre 8 e 10 de outubro, as atividades serão presenciais, seguindo todos os protocolos sanitários contra a disseminação da covid-19 e ficando limitadas aos turnos da manhã e tarde. Realizado no Centro de Referência de Economia Solidária Dom Ivo Lorscheiter, o evento terá comércio de produtos da agricultura familiar e realização de atividades autogestionárias. Devido aos protocolos de segurança, não haverá presença de expositores de fora do Rio Grande do Sul. “Mesmo com o avanço da vacinação, ainda estamos preocupados com o coronavírus, mas entendemos que poderemos realizar parte da Feicoop de forma presencial seguindo os protocolos sanitários e tomando todos os cuidados", explica Irmã Lourdes.

A tenda da Primavera da Democracia estará presente na 27ª FEICOOP, que terá uma etapa presencial, de caráter estadual, nos dias 9 e 10 de outubro. A atividade de lançamento do plebiscito na feira será no dia 9/10 às 9h.

VOTE NO PLEBISCITO P OPUL A R ENTRE 16 E 24 DE OUTUBRO PARA VOTAR ONLINE

O que é necessário para votar? Se cadastrar via o link https://decidimrs.com.br - Após clica no botão “INSCREVER-SE” - No cadastro preencher seu nome; apelido (ao lado do @) seu nome e sobrenome, sem espaço, sem acento ou cedilha; e-mail; senha e confirmação; aceitar os termos de serviços e confirma; para sua segurança será enviado um e-mail de confirmação de cadastro; confirmar no seu e-mail pessoal e você poderá participar da votação.

PARA VOTAR PRESENCIAL

- Os locais de votação na sua cidade serão divulgados com antecedência através dos veículos de imprensa, das redes sociais e do serviço de carro de som. Terão locais fixos e urnas itinerantes. Os locais de votação também podem ser consultados no site www.plebiscitopopular.com.

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Jornal Brasil de Fato / RS - Número 28  

ornal Brasil de Fato Rio Grande do Sul - 04 de outubro de 2021

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