Brasil de Fato / RS - Número 06

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Eleições 2018

Veja se seu candidato votou contra você. Confira no Caderno de Eleições se o seu candidato a deputado, senador ou presidente votou contra a democracia, pela entrega do patrimônio nacional aos estrangeiros e para retirar os direitos do trabalhador. Aproveite e descubra quem votou para livrar Temer da denúncia. ENCARTE ESPECIAL

RIO GRANDE DO SUL

Moradia Ocupações, uma forma de luta por algo para chamar de lar Trezentas mil famílias precisam de um lugar para morar no Rio Grande do Sul. No país, são mais de sete milhões. PAG 6 e 7

1 a 15 de outubro de 2018 distribuição gratuita brasildefato.com.br

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Ano 1 | edição 06

Mulheres, a força que desafia o fascismo

Foto: Luiza Dorneles

Fotos: Fabiana Reinholz

#EleNão

ENCARTE ESPECIAL Quem são e o que pensam os candidatos à presidência

Edgar Vasques: 50 anos de cartuns combatentes. PÁGINA 11

DIVERSIDADE

“Futebol é coisa de veado”. LGBTs entram em campo contra o preconceito. PÁGINA 12

Foto: Jônatha Bittencourt

CULTURA


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OPINIÃO

PORTO ALEGRE, 1 A 15 DE OUTUBRO DE 2018

A rebelião das mulheres

O voto do medo

EDITORIAL |

ARTIGO |

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Maria Helena Weber - Pesquisadora e professora do Curso de Comunicação da UFRGS

onia foi estuprada com um cassetete, teve os seios amputados e morreu na tortura. Como acabara de dar à luz, Rose era chamada de “vaca” e ameaçavam quebrar uma perna do seu bebê. Massacrada na cadeira do dragão, Maria foi posta a marchar na masmorra. “Ô negra feia! Isto aí devia estar é no fogão!”, debochavam os carrascos. Grávida de cinco meses, Hecilda foi atacada com socos e pontapés. “Filho dessa raça não deve nascer!”, gritavam. Após tomar choques nos seios, foi atirada no chão de uma cela escura. Estava infestada de baratas que começaram a roê-la. Marise, nua e encapuçada, sofreu espancamentos. Amamentando, o leite escorria-lhe pelo corpo. Lúcia teve baratas introduzidas na vagina e no ânus. Murros destroçaram os dentes de Damaris deixando sua boca inchada sem poder mastigar. Sua refeição vinha enfeitada com palitos e baganas de cigarro. Os algozes de Elza a tratavam por “puta” enquanto molhavam seu corpo com água fria para deixar

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o choque elétrico ainda mais brutal. Despida, Eleonora era torturada sob berros de “vaca”, “puta”, “galinha”. Maria Amélia recebia choques na vagina, no ânus, nos ouvidos, na boca e nos seios enquanto os torturadores se masturbavam sobre ela. Sedenta, implorava por água e recebia salmoura, tornando a sede ainda mais terrível. As mulheres que se rebelavam contra a ditadura de 1964 – a segunda mais longa da história da América do Sul - eram tratadas assim. O fato de serem antifascistas gerava raiva. Não mais, porém, do que o fato de serem mulheres que desprezavam o modelo feminino dos porões: recatadas, submissas e do lar. Agora, 33 anos após o ocaso daquela tirania, as mulheres avisam que não vão tolerar a intolerância. Que não aceitam o regresso do horror. Que não pode haver contemplações com a besta que se arrasta para nascer. Desde já, 2018 é um marco. É a eleição que as mulheres vão decidir. As mulheres que dizem Não.

marca das eleições de 2018 no Brasil é o medo. Presente em partidos, internet, campanhas e imprensa, o medo amplia nossas dúvidas e contextualiza este peculiar momento histórico. O PT, Lula, militância e candidatos foram escolhidos como inimigos comuns da política nacional e, assim, foi criada uma polarização agressiva entre direita e esquerda. O medo e o silêncio impostos a Lula não o calaram, assim como é citado nos discursos dos principais candidatos à presidência, como aquele que honrou o Brasil, ou aquele que o destruiu. De qualquer modo, seu legado e votos são disputados, mesmo que a volta do seu projeto político amedronte àqueles que desejam um país pobre e dependente do capitalismo internacional. A disputa eleitoral está na violência das palavras e das imagens; na propaganda e nas notícias; até nas entrevistas da Rede Globo, onde os candidatos são acuados. O ápice dessa violência foi a tentativa de assassinato do candidato à presidência, Jair. A tensão desequilibra o debate político enquanto a ameaça de morte amedronta as campanhas de rua. Desde 2014, as crises políticas colocaram em dúvida o equilíbrio dos poderes da república e atiçaram medos públicos e privados, com a visibilidade da corrupção; o impeachment da presidenta Dilma; a injusta prisão do ex-presidente Lula; o declínio econômico e a dúvida sobre a verdade própria das organizações midiáticas e instituições jurídicas. À deriva, os bra-

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CONSELHO EDITORIAL Danieli Cazarotto, Cedenir Oliveira, Fernando Fernandes, Ezequiela Scapini, Ronaldo Schaefer, Milton Viário, Frei Sérgio Görgen, Ênio Santos, Isnar Borges, Cláudio Augustin, Maister Silva, Dary Beck Filho, Fernando Maia, Jonas Tarcísio Reis, Rogério Ferraz, Adelto Rohr, Mariane Quadros, Carlos Alberto Alves, Daniel Damiani, Vito Giannotti (In Memoriam) | EDIÇÃO Katia Marko (DRT7969), Marcos Corbari (DRT16193), Ayrton Centeno (DRT3314) e Marcelo Ferreira (DRT16826) | REDAÇÃO NESTA EDIÇÃO Ayrton Centeno, Katia Marko, Fabiana Reinholz, Marcelo Ferreira, Catiana de Medeiros, Simone Lersch, Luiza Dorneles e Paulo Otávio Pinho. | DIAGRAMAÇÃO Marcelo Souza | DISTRIBUIÇÃO Alexandre Garcia | IMPRESSÃO Gazeta do Sul | TIRAGEM 25 mil exemplares

A POIO

CHARGE | Santiago

São muitos os medos colados em nossos votos, à direita e à esquerda: o PT pode voltar ao poder; a ditadura militar pode ressuscitar; a fome e a falta de moradia podem ser naturalizadas; (...) (...) No entanto, o medo mais mobilizador está dirigido ao candidato presidencial que pisoteia os direitos humanos, enquanto as mulheres gritam #elenão. sileiros se perguntam: quais as instituições que protegem nossos direitos? São muitos os medos colados em nossos votos, à direita e à esquerda: o PT pode voltar ao poder; a ditadura militar pode ressuscitar; a fome e a falta de moradia podem ser naturalizadas; os limites moralistas sobre a educação e a ciência podem ser legalizados; medo da violência, do crime à espreita nas esquinas. No entanto, o medo mais mobilizador está dirigido ao candidato presidencial que pisoteia os direitos humanos, enquanto as mulheres gritam #elenão.


GERAL

PORTO ALEGRE, 1 A 15 DE OUTUBRO DE 2018

MOVIMENTO | Nunca se viu algo parecido no Brasil. Milhares de mulheres saíram às ruas do Brasil para gritar “Ele não”! Nenhum grito foi mais forte no sábado, 29 de setembro. AYRTON CENTENO

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PORTO ALEGRE (RS)

m Porto Alegre, mais de 40 mil pessoas, na maioria mulheres e de todas as idades, reuniram-se no parque da Redenção para repudiar a candidatura de Jair Bolsonaro (PSL). A palavra de ordem contra a ultradireita também retumbou nas capitais, grandes e médias cidades do Brasil e deu a volta ao mundo. Fora do Brasil, ecoou em 66 cidades de quatro continentes. Nova York, Berlim, Londres, Paris, Lisboa, Haia, Buenos Aires, Cidade do Cabo, Malmoe, Genebra, Barcelona, Sidney, Toronto, Gênova, Porto e Atlanta foram algumas delas. Calcula-se que cerca de 1,3 milhão de pessoas gritaram “Ele Não” Brasil afora. São Paulo e Rio, ambas com concentrações em torno de 250 mil pessoas, tiveram as maiores multidões. Mas a mobilização suprapartidá-

As mulheres que dizem “Não”

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Fotos: Luiza Dorneles

ria e político-cultural foi forte em todo o país. Embora tenha sido, de longe, o maior acontecimento da semana, a mídia convencional resolveu ignorá-lo. Às 17 horas de sábado, o Clicrbs não continha nenhuma manchete destacando o que estava acontecendo a poucas quadras da sede do grupo RBS, responsável pelo portal. No portal do Correio do Povo, no mesmo horário, havia apenas um pequeno destaque para atos acontecendo fora do país... Nacionalmente, emissoras como a TV Globo e a Globonews também trabalharam pelo silêncio. No Rio Grande do Sul, houve atos contra Bolsonaro em Pelotas, Caxias do Sul, Santa Maria, Capão da Canoa, Santo Ângelo, Alegrete, Tramandaí, Bagé, Passo Fundo e Rio Grande, entre outras. Tudo começou com o grupo “Mulheres Unidas Contra Bolsonaro”, do Facebook. Em algumas semanas, saltou das centenas iniciais para quase quatro milhões de participantes. “É uma iniciativa que juntou setores que estavam desarticulados, alguns até acuados diante deste tipo de violência que essa candidatura vem tendo na cena pública”, comenta Zadi Zago, mili-

Famosos contra o fascista Através do Twitter, do Youtube, do Facebook e outras redes sociais, além da mídia convencional, atrizes, atores e cantoras internacionais reproduziram a hashtag #EleNão que rejeita a candidatura do capitão da reserva do exército, Jair Bolsonaro. Madonna, por exemplo tuitou “Ele não vai nos calar”. E pediu: “Acabem com o fascismo”. Outra cantora, a norte-americana Cher, chamou o deputado do PSL de “racista, misógino e homofóbico”. O ator inglês Stephen Fry descreveu a hipótese de eleição de Bolsonaro como “aterrorizante”. A atriz Ellen Page disse que está “enviando amor” aos que no Brasil “estão resistindo a essa loucura”. A cantora pop inglesa Dua Lipa, as bandas Black Eyed Peas, Imagine Dragons e a cantora Nicole Scherzinger, todos norte-americanos, aderiram. Também o guitarrista Tom Morello, ex-integrante das bandas Audioslave e Rage Against the Machine No Brasil, a lista de atrizes e cantoras fechadas com a campanha aumenta a cada dia. Além das atrizes com maior militância, casos de Letícia Sabatella, Camila Pitanga, Lucélia Santos ou Patrícia Pillar, também se uniram ao grupo Anitta, Pitty, Marília Mendonça, Daniela Mercury, Marina Lima, Fabiula Nascimento, Deborah Secco, Deborah Bloch, Fernanda Paes Leme, Maria Ribeiro, Fernanda Lima, Françoise Fourton, Débora Falabella, Tainá Muller, Bruna Marquezine, Letícia Spiller, Bruna Linzmeyer, Drica Moraes, Cláudia Raia, Nanda Costa e Paula Burlamaqui, entre outras.

Militante na Redenção: a primeira vez na história em que as mulheres estiveram irmanadas

tante feminista e uma das organizadoras do protesto no Rio Grande do Sul. A partir disso, outras coletividades, como Cristãos contra o Fascismo, Estudantes contra o Fascismo, LGTBs Contra o Fascismo, Gaúchos Contra o Fascismo, Professores Contra o Fascismo se agregaram à proposta. Ela repara que o engajamento não atinge somente pessoas que têm alguma ligação com partidos, entidades ou movimentos sociais. “Mulheres que jamais participaram também estão participando”, informa. Zago lembra que o movimento é internacional e vai além do questionamento de uma candidatura fascista. “Temos assumido este papel de sujeito das mudan-

ças, principalmente a partir de 2015 quando a América Latina toda se envolveu com movimentos como “Nem uma a menos”, com o apoio às mulheres da Guatemala, com as lutas pelo direito ao aborto na Argentina, também na Irlanda, a greve internacional de mulheres”, nota. “Foi a primeira vez da história em que a gente pode dizer que as mulheres estiveram irmanadas, fazendo a luta pelos nossos direitos”. Faz todo sentido então que uma das músicas cantadas na Redenção tenha sido “Se cuida / se cuida / se cuida, seu machista / a América Latina vai ser toda feminista”. No microfone do caminhão do som revezaram-se lideranças feministas, partidárias, representantes de

movimentos sociais e religiosos como luteranos e budistas. “As mulheres não vão voltar para a cozinha, os negros não vão voltar para a senzala e os gays não vão voltar para o armário”, advertiu a vereadora Fernanda Melchionna, do PSol. “Quem agride a uma de nós, agride a todas nós”, observou a deputada federal Maria do Rosário, do PT. “Não vamos nos calar, inclusive estamos discutindo entre nós que isso não é para pensar só agora”, acentua Zago. “Vamos continuar no segundo turno e depois também. Porque nós temos inúmeras divergências, mas temos em comum a responsabilidade com nosso futuro enquanto humanidade.” (*) Colaborou Katia Marko


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Emenda 95, o enfraquecimento do pacto social DIREITOS |

A exemplo do que aconteceu com o Museu Nacional do Rio de Janeiro, a ponte para o desenvolvimento social do nosso país está se desmanchando e virando cinza. O gatilho, a Emenda Constitucional 95 (lei de teto dos gastos) aprovada em dezembro de 2016, prevê congelamento de 20 anos nas despesas primárias do orçamento. As áreas mais afetadas são, como sempre, as mais distantes de quem toma essas decisões. Por trás disso, um programa de privatização, concentração de renda e exclusão social. FABIANA REINHOLZ

PORTO ALEGRE

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m 1988 surge a Constituição Federal. Um grande pacto social é assinado em nome do bem-estar e proteção social. São reconhecidos como direitos sociais, entre outros, a educação, a saúde, a segurança, a previdência social, a assistência. Sendo o Estado o detentor e responsável pela sua aplicação. A emenda 95, conhecida como a PEC da Morte (PEC 241/2016, quando em tramitação na Câmara dos Deputados e PEC 55/2016, no Senado Federal), rompe esse pacto. Essa austeridade econômica defendida pelo governo, interrompe o que vinha sendo implantado. Enfraquece e limita os investimentos em políticas sociais, fragilizando toda a rede de proteção social. Nessa nova regra, o gasto primário do governo federal fica limitado por um teto definido pelo montante gasto no ano anterior, reajustado pela inflação acumulada, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). “Quando a emenda diz que

No Brasil inteiro os movimentos sociais se mobilizaram contra a PEC do Teto dos Gastos

a partir de agora o crescimento é só pelo índice do IPCA, ela está dizendo que os gastos sociais serão reduzidos, porque o crescimento do índice é insuficiente para contemplar o crescimento da população”, afirma Dão Real Pereira dos Santos, diretor do Instituto Justiça Fiscal. Em termos sociais, trata-se de uma verdadeira ponte para o passado. “Mesmo que a economia volte a crescer, as receitas públicas se recuperem, se promova efetivo combate à sonegação, os gastos sociais estarão condenados à estagnação. No entanto, poderão continuar crescendo, significando que o Estado não só deixará de atuar na redução da pobreza, como se transformará num poderoso instrumento de acumulação e concentração de riquezas”, afirma. Para Getulio Vargas Júnior, presidente da Confederação Nacional das Associações de Moradores (CONAM), e membro do Conselho Nacional de Saúde (CNS) e do Conselho Nacional das Cidades, a emenda faz parte de um projeto ultraliberal. “Cada vez mais o trabalhador vai trabalhar e não vai ter retorno em serviço e políticas sociais. Toda a rede de proteção social, toda política de moradia, saneamento, infraestrutura urbana, todo tipo de investimento público que ajuda-

ra a transformar o país nos últimos 15 anos, desde a emenda estão gradativamente congelando ou aca-

bando”, salientou. No estado, o governador Sartori tem como objetivo de sua candidatura, assinar

a adesão ao Regime de Recuperação Fiscal, uma espécie de versão gaúcha da EC95.

Crise na segurança vai aumentar A segurança pública, em nosso estado, atravessa uma das piores crises de sua história, afirma Fábio Nunes Castro, vice-presidente da Ugeirm, o Sindicato dos agentes de polícia do RS. Até julho desse ano foram investidos na segurança pública um total de R$ 27.207.889,00 que, se comparados ao total investido durante os quatro anos do governo anterior, R$181.537.892,00. “Dá para constatar que houve uma redução significativa dos investimentos na área, o que justifica o caos no sistema prisional, para ficar em um exemplo. “Na segurança pública significa que mais pessoas continuarão sendo assassinadas, que políticas públicas como as patrulhas Maria da Penha, que fornecia uma certa segurança às mulheres vítimas de violência, e que foram extintas no governo Sartori, não poderão ser retomadas.” De acordo com Marcos Rolim, doutor e mestre em Sociologia, jornalista e presidente do Instituto Cidade Segura, o Brasil tem inves-

Foto: Luiza Castro

Ato da Segurança Pública contra o governo Sartori

tido cada vez mais em Segurança Pública. Hoje, esses gastos são de 82 bilhões por ano, o que é 1,4% do PIB. No RS, os gastos na área praticamente dobraram em 10 anos. “Os números evidenciam que o Brasil gasta muito em Segurança. O problema real é a qualidade desse gasto. Na prática, gastamos muito e mal. O perfil dos investimentos, por exemplo, segue sendo o da compra de viaturas e armamentos, quando se deveria investir em áreas prioritárias como gestão, inteligência e formação de pessoal.” Para Rolim, a emenda 95 dificulta que os governos invistam recursos em pre-

venção social da violência e em novas abordagens e programas que podem produzir resultados muito efetivos na área da Segurança. “As dificuldades de investimento, por seu turno, irão pressionar para que os governos busquem parcerias com a iniciativa privada, o que só costuma ser positivo quando se lida com um marco regulador que assegure a destinação pública dos recursos. Na prática, o que tem ocorrido no Brasil é que a participação da iniciativa privada na Segurança tende a privatizar os benefícios e a socializar os prejuízos.”


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Educação e Saúde são vistas como mercadorias

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Constituição determina um percentual mínimo de aplicação de recursos com ações e serviços públicos de saúde, que corresponde a 15% da receita corrente líquida, no caso da União. No caso dos estados e municípios, o percentual é de 12% e 15% do produto da arrecadação dos impostos, respectivamente. Para educação, os gastos mínimos com a manutenção e desenvolvimento do ensino devem ser de 18% da receita de impostos, no caso da União e de 25% da receita de impostos e transferências para estados e municípios. A Emenda acaba com isso e abre espaço para disputa entre as áreas por fatias do orçamento. Ela compromete o Plano Nacional de Educação (PNE), aprovado em 2014 que previa que em 2019, deveria ser atingido o índice de 7% do PIB em investimento em educação, e em 2024, alcançar o patamar de 10%. A partir da lei de teto dos gastos, as metas do PNE estão inviabilizadas. Sem vitimização Para Sônia Maria Seadi Veríssimo da Fonseca, presidente do Conselho Estadual de Educação, há um esforço grande do governo do RS para qualificar a educação. Esse momento é bastante desafiador, o teto de gastos tem um impacto nas políticas públicas. Esse congelamento precisa ser revisto. “Se nós tivermos o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb - válido até 2020) definitivo, a fixação do CAQi (Custo Aluno-Qualidade Inicial) há esperança de investimento maior, a possibilidade de financiamento fixo. Precisamos fazer a nossa parte, abandonar o sentimento de vitimização, ter uma atitude pró-ativa”. Na avaliação de Solange da Silva Carvalho, vice-Presidente do Cpers Sindicato, as medidas que estão sendo tomadas vem casando com o pós golpe, de

Foto: Levante da Juventude

tin, até o governo Yeda a média de investimento era 4%, com o governo Tarso chegou a 9%, no governo Sartori está na faixa de uns 6/7%. “Se eu fizer o ajuste fiscal pela renegociação da dívida, vai cair para 3/4%. Essa é a questão. A falta de recurso começa a reduzir o dinheiro para tudo.”

A juventude foi às ruas contra oss ataques do governo Temer

adotar o Estado mínimo. “Dizendo que querem enxugar a máquina, economizar em nome de uma crise econômica, eles vão cortar exatamente nas políticas públicas e sociais, como a educação, que é um dos pontos fundamentais da nossa vida”. O objetivo do governo é facilitar a terceirização, os convênios com grandes grupos empresariais como o Kroton (Kroton Educacional é uma das maiores organizações educacionais privadas do Brasil e do mundo). O grupo está interessado em fazer os convênios, já estão comprando faculda-

des, colégios, e tem interesse em vender as plataformas digitais (para o ensino a distância). Mais doenças Na saúde, mais de 150 milhões de pessoas dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS). De acordo com Fernando Pigatto, membro do CNS, o prejuízo estimado para saúde é de R$ 438 bilhões. “Se essa regra tivesse valendo há uns 10 anos atrás, por exemplo, ao invés de R$ 100 bilhões que foram aplicados em 2015, seriam 69 bilhões, ou seja, diferença de quase 1/3 de

recurso a menos aplicado, menos UPAs (Unidade de Pronto Atendimento, menos transplantes, menos cirurgias, menos SUS.” A atenção básica que resolve 80% dos problemas da saúde da população será, com certeza, a médio e longo prazo a mais afetada. Boa parte da atenção básica no Brasil, no RS e mesmo em Porto Alegre é terceirizada, precarizada e privatizada. “A emenda vai aumentar essa situação, vai aumentar o adoecimento”, aponta Cláudio Augustin, presidente do Conselho Estadual de Saúde. De acordo com Augus-

Quem ganha com isso? São os grandes grupos econômicos. “A gente sabe que por trás disso não estava só o congelamento, e que os recursos vão diminuindo. Na carona da EC vem o fortalecimento dos planos de Saúde. A tentativa inclusive dentro do Ministério de Saúde de implantar os planos populares/acessíveis de saúde, que tem a finalidade de repassar para a iniciativa privada serviços que são prestados pelo SUS”, aponta Pigatto. É preciso ter uma estrutura pública para o atendimento, a própria Constituição prevê o setor privado na área da saúde, mas de forma subordinada e complementar ao público. O que assistimos hoje é o inverso. “Há toda uma transformação que tem que ser feita e essa transformação vai exigir muita luta, ter muita organização dos trabalhadores. Se nós queremos ter uma saúde pública que atenda as necessidades da população, vamos ter que lutar pelo SUS”, finaliza Augustin.

EC95 pode acabar com a Assistência Social A política de Assistência Social assim como a Seguridade Social como um todo vem sendo atropelada pelas reformas conservadoras e pelas políticas econômicas neoliberais do Governo Temer, pontua Agnaldo Engel Knevitz, assistente Social, presidente do Conselho Regional de Serviço Social do RS. “A Política de Assistência Social é a que sofre mais diretamente os impactos da EC 95, uma vez que diferentemente

da Saúde e Educação, ainda não possui um mínimo percentual da arrecadação pactuado para cada esfera de governo. O Projeto de Lei Orçamentária Anual de 2019 com a disponibilidade de R$ 30,899 bilhões para a área de assistência social pelo Governo Federal em contraponto a proposta aprovada pelo Conselho Nacional de Assistência Social - CNAS que previa um orçamento de R$ 61,136 bilhões, significan-

do nada menos que uma redução de 49,46% em relação ao proposto pelo CNAS. A redução do orçamento coloca em risco o Sistema Único de Assistência Social - SUAS, compromete a manutenção e continuidade dos serviços, benefícios e a oferta dos direitos socioassistenciais. Só no Estado do RS, dos 588 CRAS instalados, 557 são co-financiados pelo governo federal, assim como 109 CREAS dos 126 em funcionamento e

os 13 Centros-POP. “É necessário e urgente a revogação da EC 95 que congela os gastos com as políticas sociais frente ao desastre que significa para a ampla parcela da população. Defendemos investimentos nas políticas públicas e como alternativa é importante destacar a urgente reforma tributária no Brasil com a taxação das grandes fortunas e tributação progressiva”, conclui Knevitz.

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A vida entre sonho e o despejo nas ocupações urbanas MORADIA |

Foto: Douglas Freitas-Amigos da Terra Brasil

A moradia em condições precárias é uma realidade expressiva no Rio Grande do Sul e no Brasil. Nesse contexto, aumentam as ocupações urbanas e os episódios de reintegração de posse que deixam na rua, desamparadas, milhares de famílias. MARCELO FERREIRA

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PORTO ALEGRE (RS)

egundo levantamento da Fundação Getúlio Vargas, com base no Censo de 2010 do IBGE, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o país tem um déficit de 7,7 milhões de casas. No Rio Grande do Sul, conforme levantamento da Fundação João Pinheiro, também baseada nos dados do IBGE, faltam mais de 300 mil moradias. Entre 2010 e 2016, o programa Minha Casa Minha Vida buscou combater essa realidade. Entregou 3,3 milhões de casas e beneficiou mais de 12 milhões de pessoas. Com os cortes em investimentos sociais do governo Temer, o orçamento sofreu uma queda brusca de 94,9% em relação ao valor de 2015. Em 2017, das 170 mil unidades previstas, foram entregues 23 mil. O corte atingiu principalmente a faixa mais pobre da população, justamente a camada que mais precisa das políticas públicas. Projetos pendentes Eduardo Osorio, coordenador estadual do MTST, o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto, nota que os cortes afetam diretamente a luta por moradia. Explica que o programa, “que já não era voltado exclusivamente para combater o déficit habitacional, mas também para aquecer o mercado imobiliário e gerar empregos”, hoje está com vários projetos pendentes, embora já aprovados pela Caixa. Osorio repara que os movimentos sociais têm papel decisivo na conquista por moradia de forma coletiva. “Com essa organização, surgem espaços de debates, interagimos com a comunidade do entorno das ocupações, lutamos por transporte, saneamento e saúde. Tem todo um processo de emancipação dos trabalhadores que estão em condição de moradia precária”, avalia.

Ocupação Povo Sem Medo reúne famílias sob ameaça de despejo na Zona Norte de Porto Alegre

Em Sapucaia, famílias dependem de vontade política Foto: Associação de Moradores da Vila Marielle

Cerca de 200 famílias vivem os capítulos finais de uma história que pode acabar em conquista da casa própria ou em remoção forçada. Elas moram em Sapucaia do Sul, na região metropolitana de Porto Alegre. A Ocupação Vila Marielle Franco existe desde 2014. Na época, a área foi desapropriada pelo governo estadual para a construção de moradias destinadas aos desabrigados pela duplicação da RS 118. A área tem liminar de reintegração de posse concedida à Procuradoria-Geral do Estado. Os moradores reivindicam que sua situação fundiária seja regularizada dentro do projeto que inicialmente previa moradia aos atingidos pela obra da rodovia estadual. Segundo a advogada da ocupação, Clarice Zanini, as possibilidades são reais, já que o projeto passou por diversas mudanças e ainda pode ser ampliado. “Originalmente era para 750 famílias e agora está com 930 unidades. O projeto está nas especificações do Minha Casa, Minha Vida e está tramitando, ou seja, ainda não foi aprovado, pode ter alterações como aumentar o tamanho dos prédios, que hoje é de quatro andares”, explica. Com a Lei Federal 13.465/17, a lei do Reurb, havendo a possibilidade, a preferência é que as ocupações fiquem onde estão. “É pra parar com essa coisa de jogar as pessoas para o fim do mundo. As pessoas já moram

Moradias estão em área onde será construído condomínio com verba do Minha Casa Minha Vida

ali, seus filhos vão à escola, vão à creche, já vão no posto de saúde, ao CRAS dali”, argumenta a advogada. Explica que os moradores vão, inclusive, pagar pelas residências. “O que falta é vontade política”, avalia. Tem espaço pra todos A presidenta da Associação de Moradores da Vila Marielle, Adriana Maqueli, garante que grande parte dos moradores da ocupação vem, há anos, lutando por uma moradia digna. “A maioria aqui se cadastrou no Minha Casa, Minha Vida, em 2009. Daí, nós tivemos a notícia de que não teremos mais o programa. Por isso, hoje estamos nessa área ocupada e a gente vê que tem espaço pra todos. Não queremos tirar nada de ninguém, só queremos o direito de ter nosso próprio canto”, protesta. O deputado Pedro Ruas (PSOL) conduziu uma audiência pública da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa que discutiu

a situação com os moradores da ocupação, no início de setembro. Para ele, o caso também é uma questão social de falta de moradia. “Temos como resolver, pois existe uma verba disponível e um projeto já aprovado”, disse. Durante as manifestações do público, Cledir Cesar, que vive na ocupação desde seu início, indagou: “Por que os integrantes da prefeitura não estão aqui para a gente discutir esse projeto?” O convite foi enviado a todos os representantes do poder público municipal. A esperança segue viva e os moradores agora partem para a pressão. A audiência tirou como encaminhamentos os pedidos de audiências da Comissão de Direitos Humanos com a juíza que vai definir o processo, com o prefeito de Sapucaia do Sul, com o Ministério Público e com a secretaria de obras do estado, além de pedir alterações no projeto inicial para contemplar a Ocupação Marielle Franco.


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Prefeitura quer ficar com imóvel cedido à Mirabal

Em Porto Alegre, a “política da patrola”

Lanceiros Negros A remoção da Ocupação Lanceiros Negros aconteceu em 2017. O prédio histórico no centro da capital estava abandonado pelo Estado há 12 anos e, por 19 meses, foi o lar de cerca de 70 famílias. A reintegração foi cumprida com o uso de cassetetes, bombas de gás lacrimogêneo e sprays de pimenta. Passado

mais de um ano, o prédio segue vazio. Segundo informações do MLB, o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas, que organizava a ocupação, os integrantes se dispersaram. Alguns foram para novas ocupações e, dos 24 que se registraram para receber o aluguel social de R$ 500 da prefeitura, apenas cinco receberam o benefício. Aldeia Zumbi Em julho, aconteceu o despejo da Ocupação Aldeia Zumbi dos Palmares, que abrigava pessoas em situação de rua na Praça do Aeromóvel, também no Centro Histórico. De volta às ruas, essas pessoas seguem sofrendo constantes remoções. É aquilo que Edson Beiço, integrante do MNPR, o Movimento Nacional da População de Rua, considera uma situação crítica. “Nós tamo aí na luta, pelas remoções que tão tendo, as agressões dos brigadianos que tão abusando demais, batendo na gente”, denuncia. Em

Foto: Marcelo Ferreira

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os últimos anos, a capital gaúcha tem testemunhado uma série de remoções. Para Osorio, a única política habitacional que o município aplica “é a política da patrola”. O aluguel social, anunciado como alternativa, dificilmente funciona. “O poder público tem que entender que, quando se faz uma remoção, está se criando problemas para as famílias e gerando novas ocupações. Recentemente, tivemos remoções nas ocupações Senhor do Bom Fim, na Progresso, na Ilha do Pavão, na Lanceiros Negros...”

Imóvel desocupado em junho de 2017 segue abandonado pelo Estado

agosto, a prefeitura intensificou a “higienização social” em áreas centrais da cidade. A política, chamada de revitalização, tem sido de dispersão das pessoas para a colocação de food trucks no lugar.

Desocupação da Progresso viola direitos dos imigrantes Em setembro, foi a vez da Ocupação Progresso que, por quatro anos, abrigou mais de 200 famílias, entre brasileiros e imigrantes haitianos, no bairro Sarandi. Líder comunitária da ocupação, Ilisiane Vida, conta que muitos moradores não tiveram nem tempo de pegar seus pertences. Relata que lotes da ocupação foram vendidos por um grileiro no valor de R$ 2 mil. “Depois o homem nunca mais foi visto e a empresa que tem a posse do terreno entrou com o pedido de reintegração de posse”, acrescenta. Se os brasileiros se viram desamparados, para os haitianos foi ainda pior. É o que salienta o advogado Iurqui da Rocha, que pertence ao CIBAI - Migrações e coordena o Fórum Permanente de Mobilidade Humana/RS. Criticando a prefeitura de Porto Alegre por não prestar nenhum auxílio aos desalojados, Ro-

Foto: Joana Berwanger/Sul21

Moradores foram afastados pela polícia enquanto retroescavadeira destruía casas

cha recorda que o Brasil é signatário de acordos internacionais de direitos humanos e que a nova Lei de Migração, de número 13.445/2017, pro-

tege os estrangeiros. A legislação reforçou a garantia dos direitos fundamentais dos imigrantes e refugiados que vivem no Brasil.

Atualmente, 614 famílias organizadas pelo MTST ocupam uma área no bairro Sarandi. A Ocupação Povo Sem Medo é composta, em sua maioria, por ex-moradores das vilas Dique e Nazaré. São pessoas que vivem em área irregular há mais de 40 anos e sofrem amea-

ças de despejo desde 2009, por conta das obras de ampliação da pista do aeroporto Salgado Filho. “A ocupação surgiu em 2017, a partir da necessidade das famílias e para criar formas de luta para as comunidades nessa região que é de muito interesse”, afirma Eduardo

Osorio. Ele complementa que “o objetivo não é criar mais uma favela com moradias precárias, mas sim organizar e rediscutir os rumos da cidade a partir do processo organizativo. É um trabalho de promoção de cidadania, de construção de democracia”.

A Ocupação Mirabal também vive sob ameaça de despejo. Surgiu em 2017 para suprir a insuficiência no serviço de atendimento à mulher em situação de vulnerabilidade na capital. Coordenada pelo Movimento de Mulheres Olga Benário, funciona em prédio ocupado no centro da capital, fornecendo moradia provisória e acesso a uma rede de profissionais que inclui psicólogos, enfermeiras, pedagoga, assistente social, psiquiatra e advogados. A fim de evitar uma reintegração violenta, o movimento procurou o poder público em busca de outra área para prestar o serviço. Através de um GT de negociação coordenado pela Procuradoria da Mulher da Câmara de Vereadores, o Estado cedeu ao grupo o prédio da antiga escola Benjamin Constant, por meio da prefeitura. “Mesmo assim, o município entrou com pedido de reintegração de posse. Vieram com vários entraves burocráticos, alegando que o prédio estava destinado à educação”, relata a assistente social Victória Chaves, uma das coordenadoras do movimento. Para a procuradora-geral das mulheres, a vereadora Fernanda Melchionna (PSOL), o caso demonstra intransigência do governo e uma posição política de não respaldar a organização e luta das mulheres. “Enquanto a Mirabal tem atendido pessoas encaminhadas pela Delegacia da Mulher, pela Defensoria Pública, outra parte do estado quer reintegração de posse, isso é inadmissível”, pondera. “O município recebeu o prédio para esse fim e, nos 45 do segundo tempo, disse que não ia dar porque tem o gravame”, afirmou, durante a visita do GT e da Procuradoria-Geral do Município para avaliar o imóvel. “Elas já estão dando vida ao lugar, limpando caixa d’água. Na visita, verificamos que o prédio pode comportar tanto o serviço quanto a escola”, conclui. O procurador do município, Nelson Marisco, avalia que a questão precisa ser resolvida. “Vamos ver a viabilidade técnica da situação de poder compartilhar o imóvel que vai ser utilizado para uma escola. Acredito que temos que sentar, conversar e ver a melhor maneira de se adequar essa situação”, diz. Foto: Marcelo Ferreira

Esperança e organização na Ocupação Povo Sem Medo

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CIDADES

PORTO ALEGRE, 1 A 15 DE OUTUBRO DE 2018

Suspeita de falso negativo provoca revisão de 44 mil exames pré-câncer em Pelotas ESCÂNDALO |

Vinte e cinco mil lâminas e laudos de exames de pré-câncer realizados em Pelotas serão revisados pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HPCA), outros dois mil laudos estão sendo refeitos pelo Hospital de Piratini e mais 17 mil amostras devem ser analisadas pelo Instituto Geral de Perícias (IGP), na capital gaúcha.

PSDB faz “operação abafa”

PAULO OTÁVIO PINHO

E

PELOTAS (RS)

sta é uma das consequências das suspeitas de fraude que pairam sobre os testes de detecção do câncer de colo do útero (Papanicolau) efetuados no município. Gerou-se um quadro de aflição entre milhares de mulheres que se submeteram ao procedimento nos últimos seis anos diante da denúncia de que os testes estariam liberados como “negativos” apenas “por amostragem”. Até agosto de 2018, os exames eram realizados pelo laboratório Serviços Especializados de Ginecologia (SEG), encarregado pela prefeitura local para efetuar a tarefa. Caberia, portanto, à administração do município cobrar qualidade e fiscalizar o serviço. Hospital detecta 17 casos positivos Dos primeiros 150 laudos reexaminados pelo Hospital de Piratini foram detectados 17 casos com resultados positivos, incluindo um caso de adenocarcinoma, ou seja, um tumor ma-

ligno, espécie de câncer bastante agressivo e, geralmente, de complicada remoção cirúrgica. Os demais casos constatados são de atipias – termo que indica que as células de determinado tecido apresentam aparência distinta das normais -- que necessitam de observação médica. A informação é da farmacêutica Beatriz D’Ávila, responsável pelo laboratório do Hospital de Piratini, ao vereador Marcus Cunha (PDT). Cunha assumiu a titularidade da CPI que investiga as irregularidades nos exames de pré-câncer realizados pelo laboratório

493° lugar em investimento na saúde Nos últimos anos, a saúde dos pelotenses não sofre apenas com a suspeita que paira sobre os exames de pré-câncer. A superlotação do Pronto Socorro, a falta de leitos nos hospitais, a longa espera por atendimento nas unidades básicas de saúde são outras preocupações. Pelotas ocupa o 493° lugar, entre os 497 municípios gaúchos, em investimentos na área da saúde. Os números mostram que, desde 2013, quando Eduardo Leite assumiu, a saúde pública não tem sido prioridade. O município gastava 21% de sua arrecadação em saúde; em 2013 baixou para 19,59%; em 2014, para 17,16%; em 2015, para 15,86% e em 2016, para 15%, o mínimo do mínimo constitucional.

contratado pela prefeitura. Segundo a farmacêutica, o Departamento da Saúde da Mulher, que integra a Secretaria Municipal da Saúde de Pelotas, já encaminhou ao laboratório 18 lotes com lâminas de cerca de 30 mulheres em cada lote. Agora, por determinação judicial, o Hospital de Clínicas de Porto Alegre ficará encarregado da reanálise das lâminas e laudos dos testes citopatológicos colhidos ao longo de 2015 e 2016. A decisão foi do juiz da 6ª Vara Civil de Pelotas, Luís Antônio Saud Teles. As lâminas e laudos são aqueles apreendidos em agosto no SEG. São 25 mil amostras e laudos referentes retiradas do SEG e entregues ao cartório do Fórum de Pelotas. O laboratório está sendo investigado por supostamente realizar análise por amostragem. Outras 17 mil amostras, correspondentes ao período de janeiro de 2017 a junho de 2018, foram retiradas do SEG pelo Ministério Público ainda em julho e devem passar por análise no Instituto Geral de Perícias. Pela gravidade do assunto,

Após a denúncia, uma "operação abafa" foi desencadeada pela tropa de choque tucana e seus aliados. O que incluiu "congelar" a ação da CPI criada para investigar as denúncias. A manobra impediu que o ex-prefeito fosse ouvido pela CPI. Pelo menos até o final da campanha eleitoral. Ao final de uma reunião confusa marcada por muitos protestos do público e a derrubada do requerimento que pedia o comparecimento de Leite, o vereador Marcos Ferreira, o Marcola (PT), que presidia a CPI, entregou o cargo. Foi sua resposta à decisão da maioria de manter como relator o vereador Enéias Clarindo (PSDB), integrante da tropa de choque da prefeita. A suspeita de fraude existe há cerca de seis anos. É um caso macabro. De lá para cá, os índices de casos de câncer, antes similares ao restante do país, praticamente zeraram em Pelotas. Profissionais da rede pública de saúde desconfiaram quando perceberam que mulheres portadoras de lesões aparentes, recebiam laudos com o resultado normal. Mais grave ainda: mulheres começaram a chegar ao Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) já no estágio de metástase, mas seus exames apontavam normalidade. Desconfia-se que,

o Brasil de Fato RS, acompanha de perto o que acontece em Pelotas. O “escândalo dos exames” ganhou repercussão na imprensa nacional. O teste tem papel fundamental na saúde feminina. É usado para prevenir o câncer de colo de útero, o terceiro mais frequente entre as mulheres. Caso confirmada a negligência, estará colocada em xeque não só a competên-

de cada 500 exames apenas 5 eram, de fato, analisados como deveriam. Funcionários da UBS do bairro Bom Jesus suspeitaram da situação e enviaram memorando à Secretaria Municipal de Saúde em julho de 2017. Também registraram em ata e comunicaram suspeição de exames por amostragem em março deste ano. Após a denúncia vir a público, a secretária municipal, Ana Costa, admitiu ter recebido o documento. Mas alegou que se tratava de uma denúncia informal e que providenciaria a troca do laboratório em nova licitação. Também surgiram relatos de mulheres e familiares que foram vítimas, inclusive com casos de óbito. Na CPI, o pedetista Cunha critica a preocupação dos vereadores governistas em proteger o Eduardo Leite. Segundo ele, o ex-prefeito “veio às pressas à Pelotas, quando surgiram as denúncias, para se explicar. Por que não vem se explicar aqui (no Legislativo)? ”Acentua que “muito mais importante do que o período eleitoral são as mulheres que estão em casa e querem entender o que a administração fez desde 2014, quando a suspeita de problemas nos exames foi levantada pela doutora Júlia Recuero, pelo doutor Túlio (Resende) e pela enfermeira Aline (Geppert) da Rede Bem Cuidar”.

cia administrativa da atual prefeita Paula Mascarenhas, do PSDB, mas também a do ex-prefeito Eduardo Leite, do mesmo partido. Leite é candidato ao governo gaúcho. Se é verdade que seus adversários têm usado politicamente o problema, também é fato que o PSDB não tem feito outra coisa senão esconder o escândalo do eleitor.


TERRA

PORTO ALEGRE, 1 A 15 DE OUTUBRO DE 2018

Temer acaba com assistência técnica para a Reforma Agrária

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AGRICULTURA |

Fotos: Letícia Stasiak

Decisão prejudica mais de 11 mil famílias e 327 assentamentos no Rio Grande do Sul CATIANA DE MEDEIROS

A

PORTO ALEGRE (RS)

na Carina Silva viu seu parreiral de um hectare diminuir quase pela metade nos últimos dois anos, depois que o programa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater) para Reforma Agrária sofreu cortes drásticos no Orçamento da União e foi suspenso no Rio Grande do Sul. Desde 2001, ela recebia apoio da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) para criar animais e produzir alimentos orgânicos em Piratini, na região Sul. Em 2017, Ana perdeu 40% da produção de uva por falta de assistência técnica. A assentada diz que este ano terá prejuízo em 30% do parreiral por não conseguir manejá-lo adequadamente. “A Emater ensinaria a podar da forma correta, mas não deu tempo. Teve pé que deu peste e morreu, e tem partes que não vão dar nada. Depois que perdemos assistência técnica, tudo ficou prejudicado”, lamenta. O caso de Ana não é isolado. Os cortes no Orçamento da União para Ater comprometem o desenvolvimento de áreas da Reforma Agrária em todo o país. A omissão do governo causa fragilidades às famílias, que não têm condições de contratar serviço particular de assistência. Isso dificulta o encaminhamento de projetos, diminui a produção e a renda. Em 2014, 365 mil famílias assentadas recebiam assistência técnica. Até setembro deste ano, somente 32 mil foram beneficiadas. Conforme a bancada federal do PT, em 2014 Dilma Rousseff designou R$ 356,8 milhões para Ater em assentamentos. Em 2018 Michel Temer diminuiu para R$ 19,7 milhões, mesmo valor que propôs no Orçamento de 2019. Porém, as famílias gaúchas, pelo segundo ano consecutivo, não serão contempladas. Investimento zero no RS Cerca de 13 mil famílias vivem

Mobilização em 2017 na superintendência do Incra em Porto Alegre para denunciar o fim da Ater em assentamentos

em 327 assentamentos em 91 municípios. Dessas, 11.240 recebiam assistência técnica de três empresas contratadas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra): Emater, Cooperativa de Trabalho em Serviços Técnicos (Coptec) e Centro de Tecnologias Alternativas Populares (Cetap). Os problemas começaram em 2016. Em setembro de 2017, o Incra suspendeu o programa no RS e encerrou, em janeiro de 2018, os contratos com as prestadoras – a chamada pública iria até janeiro de 2019. Isso resultou em demissão ou realocação de funcionários, precarização do serviço e fim da assistência técnica à maioria dos assentamentos. Nos últimos dez anos, mais de R$ 98 milhões foram destinados à Ater no estado. Hoje, o investimento é zero. Acúmulo interrompido A Coptec atendia 5.939 famílias em 296 assentamentos em 34 municípios. A suspensão dos contratos gerou o desligamento de 73 técnicos, que faziam visitas às famílias ao menos duas vezes ao ano. “Disseram que não havia mais recursos para assistência técnica, nem previsão orçamentária”, recorda Álvaro Delatorre, presidente da cooperativa.

O Cetap deixou de atender 334 famílias de 12 assentamentos em 10 municípios. A equipe de cinco técnicos foi reduzida a três e atende hoje 10 famílias assentadas em Vacaria, na região Nordeste, via projeto Rural Sustentável. “Os técnicos registravam as atividades sociais, ambientais e produtivas, promoviam ações coletivas e sistematizavam experiências agroecológicas para melhorar a realidade dos assentamentos. Esse acúmulo foi interrompido por interesses políticos”, declara Mario Gusson, presidente do Centro.

Só demandas pontuais A Emater atendida 4.957 famílias em 269 assentamentos em 42 municípios. Claudio Aguiar, coordenador do Programa de Reforma Agrária da entidade, lembra que a assistência técnica no RS já esteve entre as melhores no país. Hoje o cenário é outro. Os técnicos que trabalhavam em áreas da Reforma Agrária passaram a atender agricultores familiares. A Emater, em parceria com municípios, atende assentamentos somente sob demandas pontuais das famílias, do Incra e governo do estado.

O que dizem o Incra e o MST O Incra Nacional informou ao Brasil de Fato que “reconhece a importância da assistência técnica para as famílias beneficiárias da Reforma Agrária e tem buscado junto aos órgãos do governo federal a ampliação de recursos no Orçamento da União para continuidade do suporte técnico aos agricultores assentados”. Para agilizar uma solução, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) realizou nos últimos anos inúmeras mobilizações, como ocupações de latifúndios, superintendências do Incra e ministérios de Temer. Diante da negativa do governo, as famílias resistem e algumas têm ajuda técnica de camponeses que se formaram em escolas do Movimento. “Em tempos de golpe não há conquistas imediatas, porém continuaremos produzindo, resistindo e cuidando dos nossos territórios”, afirma Silvia Marques, dirigente nacional do MST.

Desmonte da Ater para a Reforma Agrária ano após ano

2014 2015 2016 2017 2018 2019 356.8* 355.4 209.6 108.5 19.7 19.7 * Valores em milhões de reais


CULTURA & LAZER HORÓSCOPO

LIBRA (23/9 A 22/10)

As eleições deste ano estão atípicas no Brasil. A democracia está em frangalhos e com provável morte eminente. E você, caro(a) libriano(a), deu sorte de fazer aniversário neste período. Com o Sol em seu signo, você se sente mais confiante e eficiente para melhorar tudo em sua volta. Ajude-nos neste processo. Tenha coerência e pulso firme em suas decisões.

PORTO ALEGRE, 1 A 15 DE OUTUBRO DE 2018

HUMOR

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ESCORPIÃO (23/10 A 21/11)

Se você defende a democracia, deve apresentar suas ideias e também ouvir o que os(as) outros(as) pensam para tomar uma decisão. Você estará com disposição para o diálogo, ele é um passo fundamental para construir relações estáveis e ambientes elucidados. Faça exercícios de respiração.

SAGITÁRIO (22/11 A 21/12)

Tenha paciência e faça o difícil exercício de colocar-se no lugar do(a) outro(a). Nem tudo é resolvido com rapidez e nem tudo é entendido com facilidade. Você precisa encontrar um método mais prudente para resolver conflitos. Reflita, sistematize e socialize, a prudência é uma arma muito poderosa em tempos de guerra.

CAPRICÓRNIO (22/12 A 20/1)

A necessidade de uma boa comunicação é o foco dos próximos momentos. Você tem muita facilidade em combinar seus interesses pessoais com os processos coletivos, isto fica ainda mais evidente. O que precisa é comunicar-se de maneira pragmática. Mas, lembre-se: sem perder a ternura jamais.

AQUÁRIO (21/1 A 19/2)

É preciso abandonar idéias que não servem mais. Para isto um ótimo exercício é a auto-crítica, não se pode ter medo de melhorar. E melhorar-se como pessoa, como militante, como profissional é uma tarefa árdua, é um rompimento entre o eu do passado e o eu que eu quero ou preciso ser. E não seja tão dramático(a).

PEIXES (20/2 A 20/3)

Este é um momento que requer mais calma e introspecção devido a uma baixa em sua energia. Mas, lembre-se que estamos vivendo um período eleitoral e que é preciso agir. Separe alguns bons momentos para relaxar. Uma ótima cor para usar nos próximos dias é o vermelho, ele garante boa disposição.

ÁRIES (21/3 A 20/4)

Você não é a única estrela no céu. Precisa entender e absorver as críticas que lhe fazem, isto é importante para o processo que estamos construindo. Sua personalidade é muito importante para o coletivo, se você avança, o coletivo também avança. É uma tarefa desafiadora e você gosta de desafios.

TOURO (21/4 A 20/5)

Com Vênus em escorpião você fica mais sensual e afetuoso. Mas não pense que isto o(a) ajudará caso não esteja realizando sua tarefa com afinco. Perceba onde deve colocar sua atenção neste momento, você precisa estar mais atento(a) para as mudanças que podem surgir. Faça um planejamento de toda ação.

GÊMEOS (21/5 A 20/6)

CÂNCER (21/6 A 22/7)

As vezes é preciso abrir mão de algumas coisas para poder agarrar outras oportunidades. Você estará em um ótimo momento para alianças políticas, aproveite. Dedique um tempo para a leitura e o estudo, sua intuição te levará para um assunto que você será questionado(a) em breve. Não tenha medo e não coloque-se no lugar de vítima.

LEÃO (23/7 A 22/8)

Vitalidade em alta. Aproveite esta fase para realizar as tarefas mais necessárias para a manutenção de nossa democracia. Os próximos momentos serão de altos e baixos, lembre-se daquele velho dogma que diz que há dias em que nada pode acontecer, mas há outros em que tudo pode acontecer, até o impossível. Esteja preparado(a).

VIRGEM (23/8 A 22/9)

Você é muito eficiente. Mas você não provará isto somente falando, mas agindo. Algumas situações serão colocadas a você e é preciso muita flexibilidade para se sair bem. Com Vênus em Escorpião você se sente mais confortável de compartilhar sua intimidade. Aproveite os próximos dias para uma conexão mais profunda com a natureza. Mateus Além Pisciano, jornalista, comunicador popular e militante do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA). Tem mais facilidade em guardar o mapa astral do que o nome das pessoas.

GRAFAR

Acredite no seu potencial. Você pode muito, só basta entender qual a melhor forma de aproveitar as oportunidades que a luta te dá. É um ótimo momento para o amor, você estará mais receptivo para o carinho e o afeto. Não fique tão agitado, você precisa estar atento para apresentar suas ideias nestes tempos tão tumultuados.

TIRINHA | Armandinho (Alexandre Beck)


CULTURA & LAZER

PORTO ALEGRE, 1 A 15 DE OUTUBRO DE 2018

HUMOR | Edgar Vasques: 50 anos de

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resistência gráfica

O artista gráfico celebra a data com o lançamento do 17º livro do personagem Rango. SIMONE LERSCH

PORTO ALEGRE (RS)

E

dgar Vasques comemora 50 anos de atividade profissional com o lançamento de Crocodilagem – O Brasil Visto de Baixo (L&PM Editores). A compilação reúne 144 tiras que foram publicadas mensalmente no jornal Extraclasse, do Sindicato dos Professores do Ensino Privado do RS (Sinpro), entre 2007 e 2018 – também há quadrinhos inéditos. Um dos mais célebres anti-heróis das tiras brasileiras, Rango nasceu em plena ditadura militar e é um dos mais longevos personagens do humor gráfico brasileiro. Seu primeiro livro, publicado em 1974, também marcou o início da L&PM Editores. Criado por Edgar Vasques, Rango surgiu com a cara do Brasil à época: miserável, esfomeado, marginalizado, pobre, desempregado e vivendo dentro de uma lata de lixo. "Crocodilagem" também traz o prefácio escrito por Erico Verissimo para a edição de 1974. O título, segundo Edgar, significa "sacanagem, hipocrisia, cinismo e fingimento. Tudo o que temos sofrido nesses tempos de tremendo retrocesso". Chargista, cartunista e exímio aquarelista, Edgar Vasques nasceu em 5 de outubro de 1949 em Porto Alegre. No verão de 1968, com a herança recebida pelo avô materno - Carlos

Fotos: Alexandre Garcia

Alfredo Simch - viajou para a Europa. “Meu avô achava que um artista deveria conhecer o velho mundo.” Visitou Lisboa, Madri e Roma, mas o que o impactou foi Paris às vésperas dos protestos de maio. “Foi emblemático. Tinha 18 anos e nunca tinha saído de Porto Alegre.” Quando voltou a Porto Alegre, os desenhos que Edgar fez na Europa foram publicados no Correio do Povo. Um tempo depois, ele passou a ser colaborador da Folha da Manhã, tablóide matutino da Caldas Junior. Edgar recebeu a equipe do Brasil de Fato RS em seu estúdio. Como surgiu o Rango? No caminho para a Faculdade de Arquitetura da UFRGS eu via a miséria na rua, no começo dos anos 1970, mas ninguém falava nisso. Era o Brasil grande, corrente pra frente, a ditadura eufórica, Brasil tricampeão do mundo, e a miséria ali, crescendo. Eu achei um absurdo aquilo, porque não batia a realidade com a narrativa. A Faculdade era um local de efervescência cultural e de agitação política, foi ali que nasceu Rango, o “faminto total”. Eu enveredei pelo humor gráfico, pois além de ser uma forma de inserção no mercado, mais popular, era uma forma de fazer as pessoas pensarem. A minha geração saiu pra rua (profissionalmente) debaixo de mau tempo (da ditadura militar). Era importante se posicionar. A linguagem do humor pode ser uma arma poderosa, pois promete o prazer e entrega a consciência, embora nem todo o humor seja crítico.

Edgar Vasquez autografará "Crocodilagem" na Feira do Livro de Porto Alegre: 10 de novembro, sábado, às 17h30 no Pavilhão de Autógrafos

Crocodilagem é, segundo o autor, "tudo o que temos sofrido nestes tempos de tremendo retrocesso"

O teu trabalho chegou a ser censurado? Depois da Folha da Manhã, passei a atuar no Coojornal e também a publicar no Pasquim. Uma vez, por causa das tiras do Rango, o Pasquim foi apreendido em todo o país. Isso rendeu um processo contra mim e o jornal. Acabou não dando em nada, mas foram dois anos para se desvencilhar, mesmo que as alegações fossem idiotas. Durante o governo Geisel foi lançada uma campanha comemorativa à semana da pátria com três pombinhas: uma azul, uma amarela e uma verde. Daí eu desenhei o Rango churrasqueando as pombinhas, quando alguém pergunta: “E aí, Rango, como é que tu tá?”, e ele responde: “esverdeado de fome, amarelado da icterícia e azulado anemia”. Daí recebi uma intimação para ir na Polícia Federal. Veio até um delegado do Rio de Janeiro para me interrogar. Depois de dois anos encerraram o processo.

Vasques: "a mídia tradicional quer dar o golpe e posar de imparcial"

monopolização nitidamente, a partir dos anos 1980, com a redução de jornais diários. Outro fenômeno foi o tsunami tecnológico. Ao longo da história nenhuma outra tecnologia cancela as que estavam antes, mas relativiza e a coloca num nicho especializado. A TV não acabou com o rádio, da mesma forma que a fotografia não acabou com a pintura. O que está acontecendo com o meio impresso é isso. Qual é o papel da Os meios eletrônicos entramídia no atual cenário ram avassalando o meio impolítico? presso. O papel da mídia Houve um processo de continua sendo fundamental. No Brasil o meio eletrônico não é formador de opinião. Eu acho que as redes sociais são alto-falantes, elas amplificam conceitos. E os conceitos ainda são gerados na experiência direta das pessoas e muito pelos meios tradicionais, como jornal e televisão. O que sai na rede

social, em princípio, não tem credibilidade. E o problema é que, hoje, a mídia tradicional também não tem credibilidade. Ela não assume lado, posando de imparcial. A mídia corporativa quer ganhar por todos os lados. Eles querem comandar o país, dar o golpe e ainda bancarem os imparciais. Com isso, quebraram a coerência e racionalidade para poderem dar esse golpe retrógrado. A mídia que deveria ter um compromisso com o leitor e ser um fiscalizador do poder público. Porém, abdica disso para ter um pé no poder público. E fica claramente identificada com os interesses da elite. Nesse contexto, cobram uma autocrítica pública da esquerda, mas não do outro lado. Autocrítica se não for pra todos é sacanagem, é uma chantagem. Não sou sectário, mas não sou otário.


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ESPORTES

PORTO ALEGRE, 1 A 15 DE OUTUBRO DE 2018

DIVERSIDADE | "Futebol é coisa de veado"

Foto: Jônatha Bittencourt

E se todos os jogadores em campo fossem, de fato, veados? Aqui no Estado, 6 times de homens gays integram um movimento que tem por lema “Esporte para todos”: Magia, PampaCats, Quero Quero, Maragatos, Ximangos e Flamingos. LUIZA DORNELES PORTO ALEGRE (RS)

F

utebol se joga na escola, na aula de educação física, no recreio - parece simples, só se integrar com as outras crianças e brincar. Mas essa não é a realidade dos meninos que têm trejeitos considerados femininos. “Sempre foi muito comum escutar ‘sai daqui, veadinho, futebol não é pra ti’, então esse é um dos pontos comuns que nos une, essa questão de ter sofrido preconceito dentro do futebol”, comenta David Reis, vice-presidente de Controle e Gestão do Sport Club PampaCats. Diante da dificuldade de acessar um direito básico garantido pela Constituição Federal de 1988, alguns LGBT do Rio Grande do Sul (RS) se uniram para criar times de futebol em que se sentissem confortáveis, à

Atletas comemoram a segunda edição da Champions Ligay, em Porto Alegre

vontade para serem eles mesmos dentro de campo. São atendentes, estudantes, motoristas, engenheiros, publicitários, historiadores - gente das mais diversas profissões e de diferentes idades. O primeiro a ser fundado foi o Magia Sport Club, no ano de 2005. O segundo se instituiu 13 anos depois, em agosto de 2017, os PampaCats, e todos os outros surgiram esse ano: os Maragatos e o Quero Quero (de Gramado), em maio, os Ximangos e os Flamingos (de Pelotas), em julho. Em 2018, o RS se destacou pela organização de campeonatos LGBT. Porto Alegre sediou em abril a segunda edição da Champions Ligay. De acordo com o realizador do evento e presidente do Magia Sport Club Carlos Renan Edvalt, cerca de 1300 pessoas passaram pelos dois dias de

torneio, sendo 400 delas de fora do Estado. Participaram da competição 12 equipes de 6 Estados mais o Distrito Federal. “Foi um evento lindíssimo, não teve um ato de violência. Foram extremamente divertidos os dois dias e com muito futebol bonito em campo”, relembra Renan. Em agosto, a 1ª Copa Gramado de Futsal LGBTI agitou a Serra gaúcha. “Foi uma quebra de paradigmas para uma comunidade pequena como a de Gramado que nunca havia tratado desse tema de forma tão aberta”, comenta Flávio Prestes, organizador e presidente do time anfitrião Quero Quero. O campeonato mais recente foi o GayPrix de vôlei, organizado pelos PampaCats, que contou com cerca de 1500 pessoas entre jogadores, organizadores e torcedores.

Homofobia no Mineirão “Ô cruzeirense, toma cuidado, o Bolsonaro vai matar veado!” era o canto homofóbico entoado por torcedores do Atlético-MG no domingo, dia 16 de setembro, em jogo contra o rival Cruzeiro pela 25ª rodada do campeonato Brasileiro. O Clube Atlético Mineiro (CAM), em publicação no Facebook, afirmou que “lamenta profundamente as manifestações homofóbicas de parte dos torcedores, no jogo deste domingo, no Mineirão” e alertou que a torcida do clube é composta por “pessoas de todas as classes so-

ciais, raças e gêneros, não cabendo qualquer tipo de discriminação”. O grito da torcida incita a morte de toda uma comunidade de lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis e transgênero (LGBT) que muitas vezes não se sente segura sequer de caminhar nas ruas e ainda luta por in-

clusão em todos os espaços. Para além de um pedido de desculpas, os clubes devem aplicar políticas efetivas de combate à LGBTfobia tão presente no futebol brasileiro. Isso vale para qualquer instituição esportiva minimamente preocupada com a justiça, a liberdade e a democracia.

TABELINHA GRENAL Não perca as datas dos próximos jogos da dupla Masculino

Grêmio X Tucuman 02/10 | 21h45 | Libertadores Grêmio X Bahia 06/10 | 21h | Brasileirão Palmeiras X Grêmio 14/10 – 16h – Brasileirão

Feminino

João Emílio X Grêmio 14/10 – 16h – Gauchão

Masculino

A cada 19h, uma pessoa LGBT é assassinada ou se suicida no Brasil segundo levantamento do Grupo Gay da Bahia (GGB) realizado em 2017.

Sport Recife X Internacional 05/10 | 19h | Brasileirão Internacional X São Paulo 14/10 | 16h | Brasileirão

Feminino

Brasil de Farroupilha X Internacional 14/10 | 16h | Gauchão


RIO GRANDE DO SUL

1 a 15 de outubro de 2018 distribuição gratuita brasildefato.com.br

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brasildefators

Ano 1 | edição 06

Os “trabalhistas” que votam contra o trabalhador

Foto: Luiza Castro

Partidos com as palavras “trabalhista” e “socialista” no nome votaram contra os trabalhadores gaúchos, unindo-se àquelas siglas que sempre estiveram ao lado do capital e contra o trabalho. AYRTON CENTENO *

PORTO ALEGRE (RS)

É

uma conclusão fácil. Basta conferir os votos que seus deputados estaduais deram, por exemplo, pelo achatamento do salário mínimo regional. Em 24 de março deste ano, por 24 votos a 20, eles aprovaram proposta do governo Sartori (MDB) reajustando o mínimo abaixo do INPC, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor. Assim votaram os representantes do PTB, do PSB e do PPS, segundo levantamento feito pela CUT/RS. Foi o voto dos “trabalhistas” Marcelo Moraes e Maurício Dziedricki, e dos “socialistas” Liziane Bayer (PSB) e Any Ortiz (PPS). Todos eles candidatos que agora, na hora da urna, pedem um voto de confiança aos pequenos assalariados, aqueles contra quem votaram na Assembleia Legislativa/RS. Juntaram-se às bancadas do MDB, PSDB e PP que, juntas, deram 18 votos contra comerciários, industriários e trabalhadores do setor de serviços e tantos outros assalariados que dependem do salário-mínimo. Votos contra as fundações Não foi surpresa que, na madrugada de 20 de dezembro de 2016, as bancadas do conservadorismo - e seus aliados “trabalhistas” e “socialistas” - tivessem votado novamente contra os trabalhadores. Foi o que fizeram ao apoiarem o processo de aniquilação das fundações estaduais promovido pelo governo Sartori. Com seus votos, Sartori extinguiu nove instituições essenciais da história administrativa do Estado, entre elas a FEE, a Fundação de Economia e Estatística, a Cientec, a Fundação de Ciência e Tecnologia, e a Funda-

Servidores públicos enfrentaram a violência da Brigada Militar para tentar impedir a extinção das fundações gaúchas

ção Piratini (TVE e FM Cultura). Enquanto os parlamentares votavam com Sartori, os funcionários das fundações eram castigados diante do Legislativo com spray de pimenta e bombas de gás lacrimogêneo jogadas pela Brigada Militar. Novamente, Moraes e Dziedricki estavam na linha de frente contra as fundações. A eles se juntou outro “trabalhista”, Aloisio Classmann. Pelo lado dos “socialistas”, marcaram presença na mesma turma Miki Breyer, Liziane Bayer e Elton Weber, os três do PSB. A eles se agregaram os “trabalhistas” Vinicius Silva e Gilmar Sossela, os dois do PDT e, outra vez, a “socialista” Any Ortiz. O fim das fundações foi aprovado por 30 votos contra 23. O que significa que os votos “trabalhistas” e “socialistas” foram decisivos para o resultado. Além de atuar contra os assalariados, outra façanha das bancadas “trabalhista” e “socialista” foi votar a favor do aumento do ICMS. No dia 22 de setembro de 2015, Sartori aprovou seu tarifaço com o apoio de seis deputados do PDT: Ênio Bacci, Gilmar Sossela, Juliana Brizola, Dr. Baseggio, Marlon Santos e Ciro Simoni. Só

o MDB deu mais votos a Sartori. Aos “trabalhistas”, juntaram-se os “socialistas” Liziane Bayer, Catarina Paladini e Elton Weber e, ainda, Regina Becker, do PTB.

O mais curioso foi o argumento de Sartori em favor do tarifaço: seria, alegou, o único modo de botar em dia os salários do funcionalismo que, como se sabe, permanecem atrasados...

Estes votaram para achatar o salário-mínimo MDB - Tiago Simon, Ibsen Pinheiro, Gabriel Souza, Gilberto Capoani, Juvir Costella, Vilmar Zanchin e Edson Brum. PP - Adolfo Brito, Pedro Westphalen, João Fischer (Fixinha), Silvana Covatti, Frederico Antunes e Sérgio Turra.

PSDB – Zilá Breitenbach, Jorge Pozzobon, Pedro Pereira, Adilson Troca e Lucas Redecker. PTB – Marcelo Moraes e Maurício Dziedricki. PSB – Liziane Bayer e Sérgio Peres. PR – Missionário Volnei. PPS – Any Ortiz.

Estes votaram para acabar com as fundações MDB - Tiago Simon, Ibsen Pinheiro, Gabriel Souza, Gilberto Capoani, Juvir Costella, Vilmar Zanchin, Edson Brum e Álvaro Boéssio. PP - Adolfo Brito, Gérson Borba, João Fischer (Fixinha), Frederico Antunes e Sérgio Turra. PSDB – Zilá Breitenbach, Jorge Pozzobon, Pedro Pereira e Adilson Troca. PTB – Marcelo Moraes, Aloisio

Classmann e Maurício Dziedricki. PSB – Liziane Bayer, Miki Breyer e Elson Weber. PDT – Vinicius Ribeiro e Gilmar Sossela. PR – Missionário Volnei. PPS – Any Ortiz. PV – João Reinelli. PRB – Sérgio Peres. Novo – Marcel Van Hatten.

Os dados são de levantamento realizado nas votações pela CUT/RS


ENCARTE ELEIÇÕES 2018

PORTO ALEGRE, 1 A 15 DE OUTUBRO DE 2018

Quem é quem na disputa da Presidência Brasil de Fato destrinchou o histórico e as principais propostas dos candidatos Fernando Haddad (13)

- 55 anos - Partido dos Trabalhadores (PT) - Coligação: O Povo Feliz De Novo (PT/PCdoB/PROS) - Vice: Manuela D’ávila (PCdoB) - Patrimônio: R$ 428.451,09 - Paulistano, filiou-se ao PT em 1983, aos 20 anos, quando militava no movimento estudantil. Formou-se em Direito pela USP, onde também fez mestrado em Economia e doutorou-se em Filosofia. Ministro da Educação nos governos Lula e Dilma e prefeito de São Paulo. Criou o ProUni, que oferece bolsas para estudantes de baixa renda. Propostas e posições - Economia: economia de mercado, desenvolvimentista, aliada a políticas sociais fortes de combate à pobreza e redistribuição de renda. - Reforma Agrária: Democratização da propriedade da terra, fortalecimento da agricultura familiar e titulação das terras quilombolas. Demarcação das áreas indígenas e garantia dos direitos dos ribeirinhos, extrativistas, pescadores artesanais. - Reforma Urbana: Novo Marco Regulatório de Desenvolvimento Urbano e retomada do Minha Casa Minha Vida. - Direitos Humanos e Segurança Pública: Criminalização da discriminação por gênero, raça, etnia ou sexualidade. Combate às violações de direitos humanos. Reforço ao controle de armas. - Política Externa: Política externa “ativa e altiva”. Unidade dos países latino-americanos. Participação do Brasil no Conselho de Segurança da ONU, fortalecimento da cooperação sul-sul e do BRICS. - Reforma da Previdência de Temer: Contra. - Reforma trabalhista de Temer: Contra. - Golpe de 2016: Contra.

Jair Bolsonaro (17)

- 63 anos - Partido Social Liberal (PSL) - Coligação: Brasil Acima De Tudo, Deus Acima De Todos (PSL/PRTB) - Vice: Hamilton Mourão (PRTB) - Patrimônio: R$2.286.779,48 - Militar da reserva, Jair Bolsonaro é deputado federal desde 1991. Cumpriu sete mandatos por cinco partidos diferentes. O PSL é o seu nono partido. Denunciado pela Procuradoria-Geral da

Ciro Gomes (12)

- 60 anos - Partido Democrático Trabalhista (PDT) - Coligação: Brasil Soberano (PDT/Avante) - Vice: Kátia Abreu (PDT) - Patrimônio: R$1.695.203,15 - Paulista de Pindamonhangaba, foi criado em Sobral (CE). Há 37 anos na política, passou por sete partidos. Foi prefeito, deputado estadual e federal, governador do Ceará e ministro de Estado durante dois governos, os de Itamar Franco e Lula. Concorreu à Presidência da República por duas vezes, em 1998 e 2002. Propostas e posições - Economia: Ajuste macroeconômico para equilibrar as

República (PGR) pelo crime de racismo contra quilombolas, indígenas, refugiados, mulheres e LGBTs. Propostas e posições - Economia: Política econômica ultraliberal, incluindo privatizações. - Reforma Agrária: Sem menção no programa. - Reforma Urbana: Sem menção no programa. - Direitos Humanos e Segurança Pública: Contra cotas raciais, demarcação de terras indígenas e quilombolas, uniões homoafetivas e direito ao aborto. Apoiador da ditadura de 1964. - Política Externa: Aliado às potências econômicas centrais. Aproximação dos EUA e de Israel. Reforma da Previdência de Temer: A favor Reforma Trabalhista de Temer: A favor Golpe de 2016: A favor

finanças públicas e reduzir a participação da dívida pública no PIB. - Reforma Agrária: Reforma agrária ampla. Contrário ao que chama de "invasões de terras". Regularização fundiária de territórios quilombos e terras indígenas. - Reforma Urbana: Contrário às ocupações realizadas pelos movimentos de moradia nas grandes cidades. Políticas de crédito para a aquisição da casa própria. - Direitos Humanos e Segurança Pública: Favorável às ações afirmativas, como as cotas nas universidades públicas. Direcionamento da PF ao combate às organizações criminosas violentas. Controle do tráfico de armas e drogas e criação de uma polícia de fronteiras. - Política Externa - Maior integração entre os países latino-americanos. Vê no BRICS oportunidades de estabelecimento de nova ordem internacional multipolar. - Reforma da Previdência de Temer - Contra - Reforma Trabalhista de Temer – Contra. - Golpe de 2016 - Contra.

Geraldo Alckmin (45)

- 65 anos - Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) - Coligação: Para Unir o Brasil (PTB /PP /PR /DEM /SOLIDARIEDADE /PPS /PRB / PSD) - Vice: Ana Amélia (PP) - Patrimônio: R$1.379.131,70 - Médico, nasceu em Pindamonhangaba (SP), onde foi vereador e prefeito. Vice de Mário Covas, assumiu o governo após a morte do titular. Elegeu-se governador em 2010, reelegendo-se erm 2014. Perdeu para Lula as eleições presidenciais de 2006. É o atual presidente do PSDB, depois

Marina Silva (18)

- 60 anos - Rede - Coligação: Unidos Para Transformar o Brasil (REDE / PV) - Vice: Eduardo Jorge (PV) - Patrimônio: R$118.835,13 - Acreana, Marina militou no Sindicato dos Seringueiros de Xapuri, ao lado de Chico Mendes. Saiu do PT em 2008, após ter sido senadora entre 1995 e 2010, e ministra de Lula. Concorreu à Presidência em 2010, pelo PV, em 2014, pelo PSB, e agora pela Rede. No 2o. turno de 2014 apoiou Aécio Neves. Propostas e posições - Economia: Economia de

que Aécio Neves deixou o cargo, acusado de corrupção. Propostas e posições - Economia: Neoliberal, com privatização de setores estratégicos. - Reforma Agrária: Sem menção no programa. Nada também sobre incentivo à agricultura familiar. - Reforma Urbana: Não há menção de medidas para a redução do déficit habitacional. - Direitos Humanos e Segurança Pública: Não define projetos ou ações afirmativas para as minorias. Criação de uma Guarda Nacional. Revisão da Lei de Execução Penal para tornar mais difícil a progressão de penas para autores de crimes violentos envolvidos com o crime organizado. - Política Externa: Aliada aos interesses das potências econômicas centrais. - Reforma da Previdência de Temer: A favor. - Reforma trabalhista de Temer: A favor. - Golpe de 2016: A favor.

mercado, rígido controle dos gastos públicos e Banco Central independente. - Reforma agrária: A favor. - Reforma urbana: Ampliação do Minha Casa Minha Vida. Regularização fundiária dos imóveis ocupados pela população de baixa renda. - Direitos Humanos e Segurança Pública: Criação de lei que torne crime inafiançável a prática da discriminação, mas também a injúria racial. Apoia as ações afirmativas. Contra o matrimônio igualitário, a criminalização da homofobia e a legalização do aborto - Política externa: Orientada por princípios como a defesa dos direitos humanos, da democracia, da autodeterminação dos povos e da não-intervenção. - Reforma da Previdência de Temer: A favor, embora tenha afirmado que trabalharia para corrigir "arbitrariedades" do projeto. - Reforma trabalhista de Temer: A favor - Golpe de 2016: A favor


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PORTO ALEGRE, 1 A 15 DE OUTUBRO DE 2018

Guilherme Boulos (50)

- 36 anos - Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) - Coligação: Vamos Sem Medo de Mudar o Brasil (PSOL/PCB) - Vice: Sônia Guajajara (PSOL) - Patrimônio: R$15.416,00 - Formado em Filosofia pela USP, tem especialização em Psicologia Clínica e mestrado em Psiquiatria. É membro da coordenação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Também coordena a Frente Povo Sem Medo. Propostas e posições - Economia: Reforma tributária, maior taxação de heranças e de grandes fortunas. Economia de mercado, mas com forte controle pelo Estado.

Cabo Daciolo (51)

- 42 anos - Partido: Patriotas - Coligação: Não se aplica - Vice: Suelene Balduíno Nascimento (Patriota) - Patrimônio: não declarado - Nascido em Florianópolis (SC), é bombeiro militar, eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro em 2015 pelo PSoL. Expulso do partido em 2015, foi filiado ao Avante. Agora, concorre pelo Patriotas. Propostas e posições - Economia – Redução da taxa de juros para atrair investi-

Vera Lúcia (16)

- Reforma Agrária: Reforma agrária popular e agroecológica. Desapropriação de terras que não cumprem sua função social. Combate aos agrotóxicos e às sementes transgênicas. - Reforma Urbana: O tema da moradia digna é central no seu projeto. Mapeamento e requalificação de espaços vagos para destiná-los à moradia popular. Desapropriação e aquisição de terrenos para habitação de interesse social. - Direitos Humanos e Segurança Pública: Desmilitarização da polícia, implementação de agenda nacional pelo desencarceramento, fim da "guerra às drogas". Controle das armas e valorização dos profissionais da segurança. Defesa das políticas afirmativas, como as cotas. - Política Externa: Soberania e autonomia nas relações exteriores. Política externa ativa em relação aos países em desenvolvimento e altiva, em relação às economias centrais. - Reforma da Previdência de Temer: Contra - Reforma Trabalhista de Temer: Contra. - Golpe de 2016: Contra. mentos estrangeiros e aumentar a competitividade do país frente ao mundo. Contra a privatização de empresas estratégicas. - Reforma Agrária – Sem menção no programa. - Reforma Urbana – Sem menção no programa. - Direitos Humanos e Segurança Pública - Reestruturação do sistema penitenciário, com foco no "combate ao tráfico de entorpecentes". Aplicação de 10% do PIB nas Forças Armadas e aumento do efetivo das policiais federais. - Política Externa – Sem menção no programa. - Reforma da Previdência de Temer – Contra. Seu programa de governo não menciona o tema. - Reforma Trabalhista de Temer - Como deputado federal, votou contra a reforma trabalhista. - Golpe de 2016 – Contra. Entendia que a destituição deveria ser estendida a Temer. - 51 anos - Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) - Coligação: Não se aplica - Vice: Hertz Dias (PSTU) - Patrimônio: R$20.000,00 - Pernambucana de Inajá, trabalhou desde os 14 aos como garçonete, datilógrafa e escriturária. Aos 19 anos tornou-se militante e sindicalista. Ex-candidata à prefeitura de Ara-

Henrique Meirelles (15)

- 72 anos - Movimento Democrático Brasileiro (MDB) - Coligação: Essa é a Solução (MDB/PHS) - Vice: Germano Rigotto (MDB) -Patrimônio:R$377.496.700,70 - Goiano, engenheiro civil, presidiu o BankBoston, nos EUA. Em 2002, foi eleito deputado federal. Renunciou ao cargo para assumir a presidência do Banco Central sob o governo Lula. Após 2016, uniu-se aos golpistas e ocupou o Ministério da Fazenda. Propostas e posições

João Amoêdo (30)

- 55 anos - Novo - Coligação: Não se aplica - Vice: Christian Lohbauer (Novo) -Patrimônio:R$425.066.485,46 - Nascido no Rio de Janeiro (RJ), é formado em Engenharia Civil e Administração de Empresas. É banqueiro, tendo trabalhado até 2015 como membro do Conselho de Administração do Banco Itaú. Propostas e posições - Economia - Livre mercado, ultraliberal, com mínima participação do Estado. Redução de impostos e indepencaju/SE e à Câmara Federal. Propostas e posições - Economia - Plano de obras públicas "para gerar emprego e resolver os problemas estruturais". Estatização das 100 maiores empresas do país e de todo o sistema financeiro. Suspensão do pagamento da dívida pública e a abertura de auditoria. - Reforma Agrária – Titulação

- Economia – Diz ser "imperativa" a continuação da política atual. Foi o elaborador do plano de privatizações iniciado no pós-golpe. - Reforma Agrária - Seu programa de governo não menciona reforma agrária ou agricultura familiar. - Reforma urbana - Sem menção no programa. - Direitos Humanos e Segurança Pública - Mais policiamento ostensivo, com incremento de parcerias público-privadas. Cooperação e coordenação entre órgãos de segurança pública nos três níveis da Federação. Reforma do sistema penitenciário. - Política externa - Voltada à abertura de mercados para produtos, à atração de investimentos para os setores produtivos e a infraestrutura. - Reforma da Previdência de Temer - Integrou a equipe que elaborou o projeto. - Reforma Trabalhista - Integrou a equipe que elaborou o projeto. - Golpe de 2016 – A favor.

Álvaro Dias (19)

- 73 anos - Podemos (PODE) - Coligação: Mudança de Verdade (PODE/PRP/PSC/PTC) - Vice: Paulo Rabello de Castro (PSC) - Patrimônio: R$ 2.889.933,32 - Paulista de Quatá, mas criado em Maringá/PR, iniciou a carreira política como vereador em Londrina, em 1968, pelo MDB. Foi deputado estadual, federal, governador do Paraná e senador por quatro mandatos.

dência do Banco Central. - Reforma Agrária – Seu programa não menciona políticas voltadas à reforma agrária ou à agricultura familiar. - Reforma Urbana – Seu projeto não menciona políticas de moradia. - Direitos Humanos e Segurança Pública - Maior integração entre as polícias e os governos municipais, estaduais e federal. Reforma da lei penal com limitações à progressão de penas. Prisão após condenação em segunda instância. Mais presídios. - Política Externa - Abertura da economia brasileira com a redução das barreiras ao comércio e investimento internacional. Eliminação das exigências de conteúdo local e revogação das referências na legislação comercial por ‘similar nacional’. - Reforma da Previdência de Temer – A favor. Defende a contribuição obrigatória para trabalhadores rurais e revisão dos benefícios de pensões. - Reforma Trabalhista de Temer – A favor. - Golpe de 2016 – A favor.

Propostas e posições - Economia - Aumento do investimento público até 22% do PIB até 2022, o que dependeria da revogação da Emenda 95, do teto dos gastos públicos, medida que o programa não menciona. Promete eliminar sete grandes tributos e isentar a cobrança de IR para quem recebe até R$ 5 mil. - Reforma Agrária – Seu programa de governo não especifica ações voltadas à reforma agrária ou à agricultura familiar. - Reforma Urbana - O programa não propõe medidas direcionadas a respeito. - Direitos Humanos e Segurança Pública - Maior investimento em inteligência, informação e integração das polícias. - Política Externa - É a favor de uma "diplomacia para o comércio". - Reforma da Previdência de Temer - Defende a criação de "contas individuais" de previdência para trabalhadores optantes, "a capitalização do fundo do INSS com bens e direitos da União e ações estatais e a livre aplicação das poupanças do FGTS em previdências associativas". - Reforma Trabalhista de Temer - Como senador, votou contra a reforma. - Golpe de 2016 – A favor.

e regularização de terras indígenas e quilombolas. Reforma agrária com nacionalização e expropriação de latifúndios. - Reforma Urbana: Desapropriação de imóveis e terrenos vazios para construção de moradias e regularização das ocupações. - Direitos Humanos e Segurança Pública - Revogação da chamada "Lei Antiterrorismo", desmilitarização da polí-

cia e descriminalização das drogas, com controle estatal da produção e distribuição. Combate ao racismo, machismo, LGBTfobia e a xenofobia. - Política Externa – Sem menção no plano de governo. - Reforma da Previdência de Temer – Contra. - Reforma Trabalhista de Temer - Contra. - Golpe de 2016 – A favor.


ENCARTE ELEIÇÕES 2018

PORTO ALEGRE, 1 A 15 DE OUTUBRO DE 2018

Veja quem cassou o seu voto e agora pede seu voto

V

inte e dois deputados federais gaúchos votaram pelo golpe, retirando Dilma Rousseff da presidência. Naquele 17 de abril de 2016, ajudaram a cassar os votos de 54,5 milhões de brasileiros e brasileiras. Desde então, o país passou a viver sob o governo de pior avaliação de toda a história republicana. Tem responsabilidade nessa tragédia, os 367 deputados federais que votaram pela autorização da abertura do processo de impeachment mesmo sem crime de responsabilidade. São parlamentares que, agora, estão pedindo o voto do eleitor. Daquele mesmo eleitor cujo voto anularam. Deste grupo, os gaúchos são os seguintes: José Fogaça, que pede votos para o Senado, Alceu Moreira, Darcísio Perondi, Mauro Pereira e Osmar Terra, os cinco do MDB; José Otávio Germano, Luis Carlos Heinze – outro que quer ser senador

Foto: Zeca Ribeiro / Câmara dos Deputados

Deputados comemoram a aprovação do Impeachment da presidenta eleita, Dilma Roussef

– Jerônimo Goergen, Renato Molling, Covatti Filho e Afonso Hamm, do PP; Sérgio Moraes, Luis Carlos Bu-

satto e Ronaldo Nogueira, do PTB; José Stédile e Heitor Schuch, do PSB; Danrley de Deus, do PSD; Giova-

Veja os deputados do Rio Grande do Sul que livraram Michel Temer da primeira denúncia...

D

anrley de Deus (PSD), José Otávio Germano (PP) e José Fogaça (MDB) foram alguns dos deputados gaúchos que ficaram ao lado de Michel Temer quando ele foi denunciado por corrupção passiva pela PGR, a Procuradoria Geral da República. Aconteceu no dia 2 de agosto de 2017. A Câmara rejeitou a denúncia, apesar do Brasil inteiro ter ouvido a gravação das conversas com o empresário Joesley Batista nos porões do Palácio do Jaburu. Dez parlamentares do Rio Grande do Sul ajudaram o presidente a ficar no cargo. Além de Danrley, Germano e Fogaça, também Alceu Moreira, Darcísio Perondi, Osmar Terra e Mauro Pereira, os quatro do MDB; Covatti Filho, do PP; Cajar Nardes, do PR; e Ronaldo Nogueira, do PTB.

Foto: Mídia Ninja

Os trabalhadores foram às ruas exigir o Fora Temer

...e agora os gaúchos que livraram Temer da segunda denúncia Na hora de rejeitar mais uma denúncia, o número de parlamentares gaúchos que escolheram o lado de Temer foi ainda maior: 13. Aconteceu dois meses após a rejeição da primeira denúncia. José Fogaça, Darcísio Perondi, Alceu Moreira e Mauro Pereira, todos do MDB, repetiram seus votos pró-Temer. A eles se juntou Jones Mar-

tins, do mesmo partido. Outros que reprisaram seu apoio foram José Otávio Germano e Covatti Filho, ambos do PP. Tiveram a companhia de Renato Molling, da mesma sigla. Ronaldo Nogueira, do PTB, também votou de novo para livrar Temer. E o mesmo fez Cajar Nardes, do PR. Novidades da listagem de apoiadores de Temer na segunda denúncia foram Sérgio Moraes (PTB), Carlos Gomes (PRB) e Giovani Cherini (PR).

ni Cherini, do PR; João Derly, da Rede; Onix Lorenzoni, do DEM; Nelson Marchezan Jr, do PSDB; Carlos Gomes,

do PRB. Mais tarde, no Senado, Ana Amélia (PP) e Lasier Martins (PSD) votaram pelo golpe.

Os gaúchos que entregaram o Pré-Sal

A

maioria da bancada gaúcha na Câmara Federal votou pela entrega do Pré-Sal às empresas estrangeiras. Foi o que aconteceu na votação que mudou o regime de exploração. Antes, havia um sistema de partilha, direcionando 85% dos royalties do petróleo para a Educação e 15% para a Saúde. Com a mudança, caiu a obrigatoriedade da participação da Petrobrás na exploração do pré-sal. Apresentada pelo senador José Serra, do PSDB, a proposta foi aprovada no Senado e seguiu para a Câmara. Lá, no dia 5 de outubro de 2016, conforme levantamento feito pela CUT/RS, 14 deputados do Rio Grande do Sul assinaram embaixo da proposta. A relação em boa parte repete aqueles nomes envolvidos no golpe contra Dilma e na defesa de Temer e de sua reforma trabalhista. Novamente, o MDB é o carro-chefe. José Fogaça, Alceu Moreira, Darcísio Perondi, Mauro Pereira e Jones Martins votaram pela entrega. Em seguida vem o PP com Covatti Filho, Luis Carlos Heinze e Afonso Hamm. Logo, o PR com Cajar Nardes e Giovani Cherini. Também votaram favoravelmente ao projeto de Serra, os deputados Danrley de Deus (PSD), José Stédile (PSB), Onix Lorenzoni (DEM) e Sérgio Moraes (PTB).


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