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17 E AG ª JO SPE RO RN CIA E C AD L OL A OG DE IA

Ano 3 | Edição 82

PARANÁ

30 de maio a 5 de junho de 2018

distribuição gratuita

A VIDA FICA MELHOR SEM VENENO NA COMIDA De 6 a 9 de junho, Curitiba recebe a 17ª jornada de agroecologia, um dos maiores eventos brasileiros sobre o tema Leandro Taques

Juliana Adriano

Divulgação MDA

Dados | p. 3

Feira | p. 5

Cultura | p. 8

Brasil é o país que mais usa agrotóxicos no mundo

Praça Santos Andrade terá feira com alimentos agroecológicos

Bateria da Tuiuti, Otto e Ana Cañas estão entre as atrações da jornada


2 | Especial

Paraná, 30 de maio a 5 de junho de 2018

Agroecologia rima com democracia EDITORIAL

C

tóxicos, com impactos severos ao onstruída pela primeira vez povo brasileiro. em 2002, a Jornada de AgroeAssim, neste ano, a Jornada de cologia completa em 2018 sua 17ª Agroecologia, realizada pela priedição, fruto da construção dos agricultores e agricultoras para- meira vez na capital paranaense, naenses que buscam outro mo- palco das maiores disputas polídelo de produção agrícola com ticas no país, tem o papel de revalorização do trabalho, da bio- lacionar a necessária união da democracia e da diversidade e da soagroecologia. berania alimentar O evento mostra A jornada ainda brasileira. traz um projeto de Este ano, a jora possibilidade uma nova sociedanada está num con- da produção de no diálogo entexto peculiar: em de comida de tre campo e cida2018, completamos de, entre produção 30 anos da Constiverdade com e consumo e entuição Federal, mas experiências tre movimentos socom extremo despopulares ciais, professores/ monte das conquisas e pesquisadores, tas democráticas técnicos e a sociee das políticas públicas construídas desde 2002. É dade em geral. Nos quatro dias evidente a inclinação do atual go- em que será realizado, o evento verno federal para um modelo mostrará a possibilidade real da produção de comida de verdaagrícola dependente, com a base ancorada no monocultivo expor- de a partir de experiências poputador, nas sementes transgêni- lares, diversificadas, inovadoras, cas e na alta utilização de agro- viáveis e ecológicas.

DESENHANDO

OPINIÃO

A fruta que como fará um jornalismo melhor

No início, ia ficar na superfície, restrita às questões da comunicação; jornalista, professora da UTFPR e mas logo percebi que tal opção seconsumidora de produtos agroecológicos ria impossível porque a matéria da grande mídia nascia de ações historicamente sedimentadas. Os dois golano era 2005. O MST protagopes militares (1889 e 1964) tiveram lanizava a maior marcha da terra. tifundiários como protagonistas em A TV brasileira noticiou um conflito momentos nos quais a reforma agrácom um carro de polícia. Eu lia jorria se mostrava possível, e a abertura nalismo alemão naquele tempo. Não política, em 1985, nasceu com ruralisveículos de esquerda, mas Der Spietas organizados em Brasília contra regel, maior tiragem da Europa, e Südformas no campo. deutsche, tradicional da Bavária. Na Geografia, me deparei com ouUma matéria chamou atenção. tro monstro, nasciDa marcha do MST. do do latifúndio e do Em tom elogioso, traPassei a investir monopólio de produzia que o “conhecido” em alimento ção. Agrotóxicos ene “respeitado” moviorgânico. Toda venenam a terra e a mento pressionava o comida. Na biologia, governo para a reforsemana, o Luis, estudos demonstram ma agrária. Em tom do MST, vem a a associação entre os crítico, dizia que essa Curitiba trazendo venenos e as doenças questão devia ser lede hoje. Nesse tempo, vada a sério e que o asfrutos já conhecia o Assentasunto era fundamenmento Contestado e o tal para a implantação trabalho de recuperação da terra, andas mudanças a que o partido eleito se tes agredida e abandonada. comprometera. Passei a investir em alimento orAí vi que a abordagem da mídia gânico; toda semana, o Luis, do MST, se diferenciava em um ponto fundavem a Curitiba trazendo frutos de seu mental: o jornalismo brasileiro crimitrabalho consciente; as feiras e organalizava o movimento, selecionando nizações de produtos agroecológieventos desastrosos em vez de aprecos conseguem fornecer um alimento sentar ao país, como se fazia lá fora, o saudável a preço acessível. Economia MST como fruto de uma estrutura funem remédio e investimento no planediária retrógrada e assassina e como ta. Hoje sei que a fruta que como, proesperança para a transformação desduto de agroecologia, fará o jornalissa realidade. Assim iniciei o mergulho mo melhor. pela questão agrária brasileira. Maurini Souza,

O

EXPEDIENTE Brasil de Fato PR | Desde fevereiro de 2016 O jornal Brasil de Fato circula em todo o país com edições regionais em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Pernambuco, Ceará, Sergipe e Paraná. Esta é a edição nº 82 do Brasil de Fato PR, que circula sempre às quintas-feiras. Queremos contribuir no debate de ideias e na análise dos fatos do ponto de vista da necessidade de mudanças sociais. EDIÇÃO Ednubia Ghisi, Frédi Vasconcelos e Pedro Carrano REPORTAGEM Franciele Petry Schramm, Laís Melo, Ana Carolina Caldas e Júlia Rohden COLABOROU NESTA EDIÇÃO Carlos Kaspchak ARTICULISTAS Roger Pereira, Marcio Mittelbach e Cesar Caldas REVISÃO Maurini Souza, Lia R. Bianchini e Priscila Murr FOTOGRAFIA Leandro Taques e Joka Madruga ADMINISTRAÇÃO Clara Lume DIAGRAMAÇÃO Vanda Moraes CONSELHO OPERATIVO Gustavo Erwin Kuss, Daniel Mittelbach, Luiz Fernando Rodrigues, Fernando Marcelino, Naiara Bittencourt e Robson Sebastian TIRAGEM SEMANAL 20 mil exemplares REDES SOCIAIS www. facebook.com/bdfpr CONTATO redacaopr@brasildefato.com.br IMPRESSÃO Grafinorte (Nei)


Paraná, 30 de maio a 5 de junho de 2018

Júlia Rohden

Recuperação premiada O acampamento do MST José Lutzenberger, em Antonina (PR), ganhou, em 2017, o prêmio Juliana Santilli, na categoria ampliação e conservação da agrobiodiversidade. O acampamento ocupa parte da Área de Proteção Ambiental (APA) de Guaraqueçaba, no litoral norte do Paraná, e desde 2003 concilia a produção de alimentos livres de agrotóxicos - de couve a café com a recuperação da Mata Atlântica. “Mato para nós não é problema é solução” brinca o agricultor Jonas Souza, de uma das 20 famílias do acampamento.

3 | Especial

DESTAQUE

Agência Brasil

“Não acredito na agricultura convencional, nem que só com agrotóxicos podemos produzir alimentos. Ou que só os transgênicos poderão resolver a fome. Isso é uma forma de concentração de riqueza”, disse o ator Marcos Palmeira, proprietário de uma fazenda em Teresópolis, no RJ, em entrevista à Revista Ecológico.

Pacote do veneno Maioria em comissão especial do Congresso, a bancada ruralista faz força para aprovar projetos que facilitam o registro, a fabricação, comercialização e utilização de agrotóxicos, piorando ainda mais a situação do Brasil. O chamado Pacote do Veneno traz medidas como a mudança do nome de “agrotóxicos” para “defensivos fitossanitários”. O projeto ainda exclui os ministérios da Saúde e do Meio Ambiente do processo de análise e registro dos produtos, centralizando apenas ao Ministério da Agricultura.

Divulgação

Redação, Curitiba (PR)

A comida de todos os dias dos brasileiros, e dos paranaenses em particular, carrega bem mais que aquilo que se pode ver no prato. Segundo dados da procuradora do Ministério Público do Trabalho Margaret Matos de Carvalho, o Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos, e o Paraná está entre a segunda e a terceira posição do ranking nacional, com cerca de 7,5 litros ingeridos por pessoa a cada ano. Segundo a professora Larisssa Bombardi, da Universidade de São Paulo (USP), que em seu doutorado comparou o uso de agrotóxicos nos Brasil e na União Europeia, são usados entre 0 a 2 quilos de agrotóxicos por hectare na agricultura europeia. Aqui, a média é de

8,33 quilos por hectare, podendo chegar a 19 quilos no Mato Grosso. Ela diz que o Brasil consome 20% de todo o agrotóxico vendido no mundo e, nos últimos 15 anos, aumentou em 135% o uso de venenos na agricultura, principalmente em monoculturas como a soja.

O Brasil consome 20% de todo o agrotóxico vendido no mundo e aumentou o uso em 135% Outro pesquisador, Leonardo Melgarejo, da Associação Brasileira de Agroecologia, afirma que apenas três grandes empresas dominam 68%

do mercado global de agrotóxicos e que os “interesses comerciais se sobrepuseram aos direitos humanos”. Destaca ainda que há vários mitos no uso de agrotóxicos e transgênicos. Um deles é que os produtos seriam eliminados pelo corpo humano. “Só omitem que tudo que entra é filtrado por rins e fígados, e isso causa danos irreversíveis ao longo do tempo”. Ele avalia que não há, ainda, bases científicas seguras sobre as implicações do uso desses produtos. Além desses problemas, outra questão grave é o número de pessoas intoxicadas por agrotóxicos. No Paraná foram 3.723 casos entre 2007 e 2014, como aponta Larissa Bombardi. Todos os estados brasileiros têm casos registrados e, nesse período, 25 mil pessoas foram envenenadas, o equivalente a oito por dia.

DESTAQUE

“Só a agroecologia pode colocar comida no prato de todo mundo”,

Ricardo Stuckert

Brasil é o país que mais usa agrotóxicos no mundo

disse Bela Gil, chef de cozinha e apresentadora de TV, em Congresso de Agroecologia promovido pela Sociedade Científica LatinoAmericana de Agroecologia e Associação Brasileira de Agroecologia, em Brasília.


44 | Especial

Paraná, 30 de maio a 5 de junho de 2018 Divulgação

Rede reúne produtores e consumidores da agricultura familiar em Curitiba Site da rede disponibiliza cerca de 130 itens, de alface a cachaça orgânica Ednubia Ghisi, Curitiba (PR)

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em atravessadores ou grandes redes de mercado. Uma rede de comercialização direta entre produtores e consumidores se conecta por grupos de whatsapp e via site, com sacolas montadas a partir de cada pedido e entregas em pontos específicos, espalhados por toda Curitiba. É assim que produtos processados e in-natura, vindos da agricultura familiar e agroecológica do Paraná, são distribuídos na capital semanalmente. A iniciativa reúne cerca de 250 produtores rurais ligados à Cooperativa Central de Reforma Agrária e oito empreendimentos de economia solidária da capital, entre padarias comunitárias e grupos de artesanato. O site da rede, disponibiliza cerca de 130 itens, de alface a cachaça orgânica. A iniciativa começou pequena e

atualmente movimenta cerca de oito toneladas por mês, conforme explica um dos responsáveis pela Cooperativa Central, Ademir Fernandes. “Quando a gente iniciou, se vendia 20, no máximo chegava em 40 sacolas. E era quinzenal, naquela época. Hoje a gente está com a venda semanal, na faixa de 70 a 80 sacolas”, diz o agricultor, que é integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Como participar A lista dos produtos disponíveis na semana é enviada toda sexta-feira, e os pedidos podem ser feitos até segunda à noite, para que a entrega ocorra na sexta seguinte. Você pode fazer o pedido pelo site www.produtosdaterrapr.com. br, ou ter mais informações pelo telefone (41) 9531-7950, via whatsapp. O pedido é entregue em um dos sete pontos indicados no site.

Horta da Calçada do Cristo Rei foi indicada ao Feed Your City, prêmio da ONU para agricultura urbana em pequena escala

Prefeitura tenta proibir e penalizar hortas públicas polêmicas ao tentar proibir ou penalizar iniciativas comunitárias de Curitiba (PR) agricultura urbana. Quase todas revistas após reação das comunidades envolvidas. São muitas as iniciativas indiPara contornar essa situação, viduais, coletivas e institucionais um projeto de lei de iniciativa do que são desenvolvidas, em Curitivereador Goura (PDT) foi protocoba, no que se convencionou chalado na Câmara dos Vereadores de mar de “agricultura urbana”, que Curitiba para autorizar a ocupação inclui hortas comunitárias e alterde espaços públicos e nativas para produzir privados para a agrialimentos como hortaProibições cultura urbana. liças, frutas, ervas mea iniciativas O projeto deve ser dicinais, plantas ornacomunitárias votado em breve. “Fimentais etc. Mesmo bem-intende agricultura zemos um debate amplo com todos os cionada, essa prátiurbana são envolvidos com a práca encontra resistência revistas após tica da agricultura urdentro das administrabana. O projeto preções públicas. No dia reação das tende promover as 21 de maio, por exemcomunidades boas práticas de urplo, organizadores de banidade que podem uma horta comunitária mudar a vida de pesem frente à ciclovia do soas e das comunidades. E a agriBosque do Papa João Paulo II, no cultura urbana tem esse atributo, Bom Retiro, receberam com surque além de todas as questões sopresa notificação da prefeitura de ciais e culturais envolvidas, tamCuritiba com prazo para que fosse bém pode ser um dos itens de podesmanchada. Como ocorreu allítica de segurança alimentar”, diz gumas vezes na gestão do prefeito o vereador. Rafael Greca, que se envolveu em Carlos Kaspchak,


Paraná, 30 de maio a 5 de junho de 2018

5 | Especial

Campo e cidade se juntam em jornada agroecológica Pela primeira vez em Curitiba, jornada terá debates sobre práticas sustentáveis, alimentação saudável, feira de produtos orgânicos e eventos para toda a população Divulgação

Ana Carolina Caldas, Curitiba (PR)

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consumo de produtos orgânicos, os cuidados com a saúde e a preocupação com o futuro do planeta fazem parte da vida dos brasileiros e serão temas discutidos na Jornada da Agroecologia que, pela primeira vez, ocorrerá em Curitiba. O objetivo é aliar a reflexão à prática agroecológica e ser mais um instrumento de organi-

A abertura do evento acontecerá no dia 6 de junho, às19h, no Teatro Guaíra, e contará com a participação da atriz Letícia Sabatella e do teólogo Leonardo Boff

PARCERIA COM UNIVERSIDADES

zação da produção e diálogo com a sociedade, principalmente sobre as contradições do agronegócio, apontando uma nova perspectiva alimentar. Em sua 17ª edição, a jornada ocorrerá nos dias 6, 7, 8 e 9 de junho, na Praça Santos Andrade, na Universidade Federal do Paraná, na Universidade Tecnológica, a UTFPR, e em localidades no entorno da cidade. “A escolha de Curitiba se dá porque queremos fazer o diálogo do campo com

a cidade. Todo o evento refletirá essa relação, mas também vai trazer propostas elaboradas ao longo destes 17 anos de jornada”, explica Roberto Baggio, coordenador do evento. Experiências produtivas desenvolvidas a partir da agricultura familiar, dos assentados e acampados da reforma agrária, de comunidades quilombolas e coletivos de economia solidária estarão presentes. A expectativa é que mais de 2 mil pessoas participem.

FEIRA E CULINÁRIA DA TERRA

Seminários e debates acontecerão no campus da UFPR Reitoria, Prédio Histórico e também na UTFPR. Saúde, Educação do campo e da cidade, participação social, soberania alimentar são alguns dos temas que farão parte da programação, construída em parceria com vários setores das universidades. As atividades serão abertas ao público em geral, com a emissão de certificados de extensão. Leandro Taques

Leandro Taques

Na Praça Santos Andrade, a população da capital e da Região Metropolitana poderá consumir alimentos agroecológicos, que estarão à venda na Feira da Reforma Agrária, Agricultura Familiar e Economia Solidária. A estimativa dos organizadores é reunir cerca de 60 expositores. Junto à feira, haverá espaço para a “Culinária da Terra”, com barracas de pratos típicos da região Sul do Brasil. Já a barraca da Saúde Popular terá ervas, chás e também prestará serviços como auriculoterapia, benzimentos, massagens, entres outras. Joka Madruga

TÚNEL DO TEMPO Durante todos os dias, o público poderá entrar no Túnel do Tempo, que será instalado no pátio da Reitoria da UFPR por estudantes e professores das escolas estaduais. Ao percorrer o túnel, o visitante conhecerá a história do campo, da luta pela reforma agrária, da agricultura familiar e da produção agroecológica, culminando em reflexões sobre a reconstrução de um projeto popular para o país. A atividade também receberá visitas de escolas e universidades. A abertura oficial acontecerá no dia 6 de junho, às 14h.


6 | Especial

Paraná, 30 de maio a 5 de junho de 2018

A diferença entre o alimento e o veneno Agroecologia e agronegócio são modelos econômicos incompatíveis Redação, Curitiba (PR)

Agroecologia É produzida sem agrotóxico e com o uso de sementes nativas. Ela permite a sobrevivências de famílias no campo e traz saúde para quem come seus produtos. A agroecologia tem como princípios a humanização e o caráter popular. É mais acessível e respeitar o conhecimento tradicional, em constante aprimoramento tecnológico. Para Ceres Hadich, integrante da coordenação estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra do Paraná (MST), esta forma de agricultura tem respeito constante com as gerações atuais e futuras. “É mais do que substituição de insumo ou de técnica, é parte de uma postura perante a vida”, afirma. PUBLICIDADE

Agronegócio É um modelo é baseado no latifúndio, na monocultura, no uso intensivo de agrotóxicos e transgênicos e, muitas vezes, no trabalho análogo à escravidão. O modelo concentra renda nas mãos de megafazendeiros. Segundo Janaina Strozake, da ONG estadunidense Why Hunger, que trabalha contra a fome, o agronegócio é uma agricultura sem agricultores. E os investidores do agronegócio veem a terra como uma máquina que produz lucros, não importando o que se produza, e para ser usada até ao seu esgotamento. E é um pacote tecnológico usado em todas as regiões do mundo, independentemente das diferenças locais. PUBLICIDADE

O que é alimento agroecológico e orgânico A classificação depende de como está organizada cada etapa da produção, da escolha do local até as sementes Mídia Ninja

Redação, Curitiba (PR) Para um alimento ser considerado orgânico basta que tenha sido produzido sem agrotóxicos na plantação. É um alimento mais saudável que o modelo normal de produção do agronegócio, porém não envolve a mesma responsabilidade social e ambiental que o movimento da agroecologia, defendida pelo MST. Já o produto agroecológico é “um diferenciado desde a origem”, diz Milton Fornazieri, do setor de produção do MST. “Todo produto agroecológico é certificado, tanto pelos certificadores tradicionais, como o Instituto de Mercado Ecológico (IMO), como pela certificação comunitária, que é feita por organizações a partir da ori-

gem de onde é produzido”, completa. Para conquistar o certificado, de acordo com a legislação brasileira, a cadeia produtiva do alimento precisa seguir os critérios descritos na lei 10.831, sancionada em 2003 pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). São critérios da lei, entre outros, que o processo de produção seja isento de contaminantes intencionais (agrotóxicos); que realize a preservação da diversidade biológica dos ecossistemas em que se insere o sistema de produção; o uso saudável do solo, da água e do ar; e a reciclagem de resíduos de origem orgânica, reduzindo ao mínimo o emprego de recursos não-renováveis.


Paraná, 30 de maio a 5 de junho de 2018

7 | Especial

Nicão, um guardião de sementes crioulas A paixão pela agricultura familiar, livre de venenos é o que move o assentado do MST Leandro Taques

Redação, Lapa (PR)

C

Cedenir Luiz Biff, o Nicão

timo Garibaldi, em Terra Rica, noroeste do Paraná. A paixão pela agricultura familiar, livre de venenos, é o que move Nicão, que não possui formação acadêmica formal, mas que pesquisa por conta própria

e participa de congressos e cursos sobre agroecologia. “Eu sempre congelo a semente, bem seca, pra cultivar ela. Tem semente que perde a germinação com um ano, devido ao calor, aí a gente perde algu-

mas, mas recupera com os companheiros”, relata. Atualmente, ele está formando um banco de sementes crioulas, além de parcerias com a Universidade Estadual de Maringá para desenvolver pesqui-

Cervejas livres de transgênicos são produzidas em assentamentos Norma Odara, Lapa (PR)

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Cervejaria Latinoamericana, localizada no assentamento Maria Lara, em Centenário do Sul, região Norte do Paraná, produz a cerveja “Fora Temer”. Sucesso de vendas, a bebida artesanal é livre de transgênicos e cereais não maltados, ingredientes de baixa qualidade que costumam ser utilizados nas cervejas industrializadas. Igor de Nadai é um dos fundadores da cervejaria e integrante do Movimento dos Tra-

balhadores Rurais Sem Terra (MST) e explica que a iniciativa começou despretensiosa, para produzir bebida de qualidade para ele e os amigos. Com o tempo e pesquisas, a qualidade da cerveja foi aumentando junto com a produção. “Eles botam milho, arroz, vai farelo até de soja, todo tipo de grão que faz perder a qualidade da cerveja. Só por esse motivo, a nossa já é mais saudável”, afirma. A iniciativa de Igor inspirou outros assentados, que aprenderam a preparar as bebidas e

criaram sua própria marca e estilo. Uma delas é a Cervejaria Campesina, de origem do assentamento Olivio Balbino, também no Paraná. Ezequiel Evandro Porsch, membro da cervejaria, explica um pouco sobre o propósito da iniciativa. “Fazer uma cerveja dentro do assentamento, de qualidade, é o principal fator que nos motiva hoje a produzir uma cerveja acessível à classe, que esteja disponível nos bares da classe trabalhadora e não nos bares da burguesia”, comenta.

Marcia Manillo

edenir Luiz Biff, Nicão, como é conhecido por todos, tem 47 anos e é membro do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Ele participa da Jornada da Agroecologia desde a primeira edição, em 2002, e conta que ela é terreno fecundo para as trocas de sementes, de experiências e vivências entre agricultores familiares. “Uma semente crioula geralmente evolui junto com os povos que a cultivavam pra produzir seu próprio alimento. Tem a soberania delas, tu consegue ter o teu próprio alimento tirado da semente crioula, que isso faz parte da evolução nossa”, diz Cedenir. O agricultor está há 19 anos no Assentamento Sé-

“Uma semente crioula evolui junto com os povos que a cultivam para produzir seu próprio alimento”,

sas, promover trocas com outros agricultores e evitar que a tradição se perca. “É uma tradição, uma cultura dos nossos ancestrais que geralmente tá se perdendo com cada geração e o processo ultimamente tá sendo muito rápido. A turma vai muito na onda da mídia, da modernidade, do momento e esquece dessas coisas que são muito importantes”, afirma.


8 | Especial

Paraná, 30 de maio a 5 de junho de 2018

Redação, Curitiba (PR)

Otto, Ana Cañas e bateria da Paraíso do Tuiuti são destaques da agenda cultural Shows são gratuitos e acontecem em palco que será montado na Praça Santos Andrade Divulgação

Julio Garrido

Dia 8/6, 19h Alohabana Grupo de música “guajira” latino-americana (son montuno, guaracha, rumbas, son cubano, tumbao, boleros e chachachás) formado em Curitiba, no Paraná.

Dia 6/6, 19h Divulgação

Fandango Caiçara

Dia 9/6, 17h

Bailado e batido, com o grupo Mandiquera da Ilha de Valadares.

Otto

Divulgação

Ex-percussionista da banda Nação Zumbi e do Mundo Livre S/A, o cantor pernambucano transita entre o mangue beat e o rock, sendo um dos mais originais artistas brasileiros.

Dia 7/6, 20h30 Ana Cañas Cantora que vai do MPB ao rock e ao pop, conhecida pela técnica, bom gosto musical e militância política, Ana Cañas se apresenta em Curitiba na jornada de Agroecologia com músicas de álbuns que gravou como Amor e Caos, Hein?, Volta e Tô na Vida

Dia 9/6, 18h Bateria da Tuiuti Escola vice-campeã do Carnaval do Rio de Janeiro, com o samba Meu Deus! Meu Deus! Está extinta a escravidão?. traz sua bateria para esquentar a noite de sábado na Santos Andrade.

Paulo Portilho | Riotur

Para ver a programação completa da jornada de agroecologia, acesse: www.facebook.com/ jornadade.agroecologia www. jornadaagroecologia.com.br

REFLEXÃO

Diversidade cultural é marca da jornada de Agroecologia Ao propor a reflexão do encontro necessário do campo com a cidade, a arte e a cultura farão, segundo Sylviane Guilherme, do Setorial de Cultura do MST, o alinhavo da Jornada da Agroecologia. “A partir das diferentes linguagens artísticas e da diversidade cultural que existe no povo camponês, como as raízes indígenas, negras, africanas, entre outras, traremos a reflexão da multiplicidade cultural que forma o povo brasileiro.” Dois grupos do MST, a Trupe dos Encantados e os Tocadores, estarão presentes em todos os espaços fazendo esquetes, apresentações e mediações com o público. A abertura da programação cultural, dia 06, às 16h, contará com a participação das crianças “Filhos da Mãe Terra”, dos projetos da Abai Associação Brasileira de Amparo à Infância, que trabalha a partir do contexto agroecológico e luta pela proteção e direitos de todas as formas de vida. Além dos grupos culturais campesinos, também farão parte da programação artistas paranaenses, como a cantora Roseane Santos, a banda Baquetá, o Grupo Fandango Caiçara, da Ilha de Valadares, e inúmeras outras atrações ao longo de todos os dias da jornada.

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Brasil de Fato PR - Edição 82  

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