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Decisão de ministro do Supremo é desrespeitada para manter Lula preso Após Marco Aurélio Mello decidir pela liberdade de presos em segunda instância, juíza de Curitiba e presidente do Supremo manobram para que ex-presidente não tivesse liberdade concedida este ano Brasil | p. 6

PARANÁ

Divulgação

Ano 3

Edição 107

20 a 26 de dezembro de 2018

distribuição gratuita

O NATAL QUE NINGUÉM QUERIA

Giorgia Prates

Ocupação 29 de Março, na Cidade Industrial, em Curitiba. Fogo destruiu tudo o que as pessoas tinham e elas devem passar as festas e o ano novo em abrigos, casa de parentes ou conhecidos Cidades | p. 4 e 5 Cultura | p. 7

Esportes | p. 8

Geral | p. 3

Cultura é riqueza

Título histórico

Ataque à Paranaprevidência

Em entrevista, Ulisses Galetto explica por que países ricos investem em cultura

Atlético conquista primeiro campeonato internacional

Governo do Estado tira dinheiro do fundo de pensão de servidores


2 | Opinião

Brasil de Fato PR

Paraná, 20 a 26 de dezembro de 2018

A batalha do jornalismo

SEMANA

EDITORIAL

O

s jornalistas da cidade de Londritrabalhistas pode crescer, e também à imna vivenciaram uma situação inéprensa e à livre atividade do jornalismo. dita no início de dezembro: pela primeiNão se trata de exageros. ra vez, uma diretora sindical do Sindicato O futuro presidente já mostrou a que dos Jornalistas do Norte do Paraná foi deveio, barrando a entrada de alguns veímitida durante o exercício culos em entrevistas codo cargo, atitude contrária letivas. Alimentado pelo Criar à CLT e à Constituição Fepróprio bolsonarismo, o deral. Mas a TV Tarobá (fidescrédito que seus seguimecanismos e liada à TV Bandeirantes), dores têm em relação ao atuar em defesa onde a jornalista trabalha, jornalismo, de modo genão se intimidou e sustenral, demonstra que será dos jornalistas tou a demissão ilegal. Percada vez mais difícil ao joré uma batalha deu judicialmente e, como nalismo crítico e compronecessária se não bastasse a afronta, metido com o povo avannegou-se a receber a direçar nessas circunstâncias. tora reintegrada ao cargo. Criar mecanismos e atuar Cenas como essa provavelmente se em defesa dos jornalistas é uma batalha tornarão comuns a partir de 2019. Com necessária que já está sendo travada por a posse de Jair Bolsonaro em janeiro, o comunicadores de todo o Brasil comproaprofundamento dos ataques aos direitos metidos com a democracia.

OPINIÃO

O capitão e o AI 5 Frédi Vasconcelos,

jornalista e editor do Brasil de Fato Paraná

A

tribui-se ao vice-presidente do general Costa e Silva, Pedro Aleixo, a seguinte frase na decretação do Ato Institucional número 5, o AI-5: “Presidente, o problema de uma lei assim não é o senhor, nem os que com o senhor governam o país. O problema é o guarda da esquina.” Aleixo, o único contrário ao ato na reunião que foi decidida sua edição, referia-se ao fato de que sem as garantias dos direitos individuais, qualquer um que se considerasse “autoridade” poderia cometer a violência que quisesse sem medo de represálias. Foi profético, o ato abriu caminho para violências, torturas e mortes. Completados 50 anos do AI-5 neste 2018, o ranço do autoritarismo parece querer engolir o país de novo. Há propostas de leis como o

escola sem partido, que pretende amordaçar professores e impedir o debate e o conhecimento. Dando o direito a qualquer pessoa acusar um professor porque discorda do que ele pensa. Mas voltando aos guardas da esquina, parece que a eleição de pessoas que defendem violência e armamentos dá uma espécie de “licença para matar“. Giorgia Prates

A população da Ocupação 29 de Março, na Cidade Industrial, em Curitiba, relata que após a morte de um policial na madrugada, o dia seguinte foi de verdadeiro terror. Policiais teriam passado o dia tirando pessoas de suas casas, agredindo e torturando em busca de “informações”, dando tiros a esmo (como mostra vídeo publicado pelo UOL; a PM confirmou que os autores são soldados da corporação). Ao final, 200 casas queimaram, com os diversos depoimentos atribuindo o fogo a policiais. O “guarda da esquina” sem nenhum controle. E quem vai puni-los, se o capitão eleito presidente já disse, em entrevista ao Jornal Nacional: “[O policial] entra, resolve o problema e, se matar 10, 15 ou 20, com 10 ou 30 tiros cada um, ele tem que ser condecorado, e não processado”. E que “policial que não mata não é policial”. Com esse exemplo, quem irá parar o terror?

EXPEDIENTE Brasil de Fato PR Desde fevereiro de 2016 O jornal Brasil de Fato circula em todo o país com edições regionais em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul e Paraná. Esta é a edição 107 do Brasil de Fato Paraná, que circula sempre às quintas-feiras. Queremos contribuir no debate de ideias e na análise dos fatos do ponto de vista da necessidade de mudanças sociais. EDIÇÃO Frédi Vasconcelos e Pedro Carrano REPORTAGEM Ana Carolina Caldas, Franciele Petry Schramm, Laís Melo e Lia Bianchini COLABOROU NESTA EDIÇÃO Bárbara Lia, Marcio Mittelbach e Roger Pereira ARTICULISTAS Cesar Caldas REVISÃO Maurini Souza e Priscila Murr ADMINISTRAÇÃO Bernadete Ferreira e Denilson Pasin DISTRIBUIÇÃO Clara Lume FOTOGRAFIA Giorgia Prates DIAGRAMAÇÃO Vanda Moraes CONSELHO OPERATIVO Daniel Mittelbach, Fernando Marcelino, Gustavo Erwin Kuss, Luiz Fernando Rodrigues, Naiara Bittencourt, Roberto Baggio e Robson Sebastian TIRAGEM SEMANAL 20 mil exemplares REDES SOCIAIS www.facebook.com/bdfpr CONTATO pautabdfpr@gmail.com IMPRESSÃO Grafinorte | Nei 41 99926-1113


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Paraná, 20 a 26 de dezembro de 2018

3 | Geral

FRASE DA SEMANA

“Se o Supremo ainda for o Supremo, minha decisão tem que ser obedecida”

Lula Livre, Lula Solto Os novos deputados estaduais do Paraná foram diplomados. Durante a solenidade, Tadeu Veneri, novamente eleito, e os suplentes de deputado federal, André Machado e Dani Braz (PT), fizeram o gesto de Lula Livre, em defesa do ex-presidente. Já o mais votado, o Sargento Fahur, gritou “Lula preso”.

Cadê o Queiroz? Na Assembleia Legislativa, os deputados aprovaram nova alteração na Paranaprevidência. No calor do debate, o deputado estadual Felipe Francischini (PSL), eleito deputado federal, debochou dos servidores públicos nas galerias. Ele fez o gesto de arma utilizado pelo presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL). Agora que ele se despede da Alep, pode perguntar ao presidente sobre o paradeiro do motorista Queiroz ao invés de ficar de onda com o povo.

Moradia para todos A Câmara Municipal realiza audiência para discutir o destino das 250 famílias da Comunidade 29 de março que perderam tudo após um incêndio criminoso. Uma opção é o aluguel social, aprovado em 2015 na gestão de Gustavo Fruet. O valor máximo é de um salário mínimo regional: R$ 1,4 mil.

Disse o ministro Marco Aurélio Mello, que concedeu uma liminar suspendendo a prisão de condenados em segunda instância, que poderia beneficiar Lula. Fotos Públicas

Novo ataque à Paranaprevidência é aprovado Marcio Mittelbach Com apoio de 34 deputados estaduais da base de apoio do governo do Estado, foi aprovado na terça-feira (18) o projeto de lei que altera o Plano de Custeio da Paranaprevidência. A medida significa menos dinheiro no caixa do fundo previdenciário, que já apresenta um rombo de R$ 16 bilhões. Idealizado pelo poder executivo, sem qualquer debate com servidores, o PL passou com rapidez pelas comissões da casa. Na sessão plenária da segunda-feira, 17/12, o projeto recebeu algumas emendas propostas por deputados de oposição. A principal delas é a que exclui o perdão imediato da dívida do governo com relação à parte patronal da contribuição dos aposentados. Para a representante do funcionalismo e conselheira da Paranaprevi-

dência Soraia Gilber, a emenda ameniza, mas não soluciona a questão. “No texto não estão estabelecidas as condições ou previsto um prazo para que a dívida seja paga”. Aportes futuros Outra novidade na alteração na Lei da Paranaprevidência diz respeito aos aportes futuros. Diante do rombo causado pela lei 18.469,

Para o deputado Tadeu Veneri (PT), o projeto aprovado é ilegal. “Vamos propor uma Ação Direta de Inconstitucionalidade assim que o projeto for sancionado”

aprovada em meio ao massacre de 29 de abril, a gestão fez uma proposta de repasses anuais que viriam para equilibrar o fundo. O problema é que esse repasse começa em 0,5% na gestão da Cida, chega a 58% daqui a 40 anos e só vai acabar em 2092. Mais do que passar o problema para as próximas gestões, para o deputado Tadeu Veneri (PT), o projeto aprovado é ilegal. “Vamos propor uma Adin – Ação Direta de Inconstitucionalidade – assim que o projeto for sancionado”, garante o parlamentar. TCE O Tribunal de Contas do Estado engrossou o coro contra o PL 402. Crítico das decisões tomadas pelo governo Richa, que geraram o atual déficit de R$ 16 bilhões no Fundo Previdenciário, o TCE alega que o governo não pode propor uma solução para daqui a 75 anos.

Governadores querem privatizar presídios Ana Carolina Caldas O governo do Paraná encaminhou, nesta semana, para votação na Assembleia Legislativa (Alep), em regime de urgência, projeto que prevê a privatização do sistema penitenciário. Em resposta, o sindicato dos agentes penitenciários (Sindarspen)

propôs emenda substitutiva, que foi votada e aprovada na quarta-feira, 19, que impede a privatização de qualquer atividade de segurança interna e externa nos estabelecimentos penais. Só poderiam ser privatizadas atividades instrumentais e complementares, como alimentação, manutenção e conservação predial e de

equipamentos. No dia 21 de janeiro, em sessão extraordinária, será votado o texto final do projeto. A proposta enviada pela governadora Cida Borghetti (PP), no apagar das luzes de 2018, cria o Programa de Parcerias do Paraná (PAR), estabelecendo normas para a desestatização e contratos de parceria

no âmbito da administração pública executiva estadual. O PAR será integrado por uma série de projetos de privatização, implementados e desenvolvidos por meio de uma unidade gestora e um conselho. O projeto foi encaminhado pela governadora Cida Borghetti a pedido do governador eleito Ratinho Junior (PSD).


4 | Cidades

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Paraná, 20 a 26 de dezembro de 2018

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5 | Cidades

Mais de 200 famílias não terão casa neste Natal Ocupação 29 de março, na Cidade Industrial de Curitiba, é consumida pelo fogo após ação policial Frédi Vasconcelos

Redação

O

dia 7 de dezembro queimou as esperanças de mais de 200 famílias na ocupação 29 de Março, na Cidade Industrial de Curitiba, que tiveram suas casas incendiadas e perderam tudo que tinham. O terror começou na madrugada de quinta para sexta-feira, quando um policial militar foi baleado e morto na rua principal em frente à ocupação. Segundo dezenas de relatos ouvidos pela reportagem do BDF, cujos nomes serão preservados, a partir desse momento policiais passaram a entrar nas casas, tirar pessoas de dentro delas e agredir para que dissessem quem era o responsável pelo crime e onde estava. “Chegaram a colocar sacolas na cabeça das pessoas”, diz um morador. “Deram socos, coronhadas e duas pessoas foram executadas”, afirma outra pessoa. Durante todo o dia também puderam ser ouvidos tiros que, segundo os moradores eram disparados por policiais à paisana ou mesmo fardados. Num dos vídeos que aparece-

ram sobre as ocorrências, são vistos dois homens, com coletes balísticos da PM, atirando e ordenando a moradores que saíssem das ruas. Após análise das imagens, a PM re-

conheceu que são soldados da corporação, que serão investigados. Nesse dia, um dos moradores relata que ouviu o “recado” de que os policiais iam velar o ‘camarada

deles’ e depois do velório iam ‘estourar os barracos da comunidade’. “Voltaram e entraram na casa em frente que o policial foi alvejado, deram um monte de tiros e co-

meçaram o incêndio”, conta o morador J. Outra moradora, C, confirma que pessoas da comunidade foram agredidas, “invadiram, quebraram portas das casas em que os moradores estavam trabalhando. À tarde, deram toque para fechar todos os comércios por que iam fazer uma operação, entraram nos barracos. À noite, ninguém podia sair para fora. Aí as casas começaram a queimar, teve tiro, foguete, morador morto.” O morador J lembra que já houve outros incêndios nas comunidades e que por isso existe uma estratégia de desmontar os barracos que estão ao lado para que o fogo não se propague. “Até seis casas já chegaram a queimar, mas não passou disso. Só que quando nos mobilizamos para tentar controlar o incêndio, não deixaram a gente fazer nada, queimaram mais de 200 barracos. O presente de Natal são essas famílias sem teto. Eu quero justiça na investigação da morte do policial, mas o que fizeram aqui foi vingança, uma covardia.”

CRONOLOGIA DA VIOLÊNCIA

Na madrugada do dia 6 para 7 de dezembro, um policial militar é assassinado em frente à ocupação 29 de Março, na CIC em Curitiba

Durante todo o dia são disparados tiros para o alto e decretado “toque de recolher” para que moradores não saíssem de suas casas

Na manhã do dia 7, moradores são surpreendidos por policiais fardados ou à paisana entrando nas casas com violência, sem mandados judiciais

Durante o dia morador foi encontrado morto com tiros a poucos quilômetros da ocupação

Depois das 23h começa incêndio na primeira casa. O fogo se alastra para mais de 200 residências. A população alega que foi impedida de tentar apagar o incêndio e que os bombeiros ficaram parados vendo o fogo consumir as casas

Outro morador, recém-chegado ao local, levou tiros e morreu na casa na frente da qual o policial foi assassinado

Por volta das 22h foram ouvidos muitos tiros e vistos “policiais correndo com galões”, segundo moradores

““ “ O PRIMEIRO DIA DEPOIS DE PERDER TUDO

Saí para trabalhar perto das 20h. Quando saí, a ‘brigaiada já tinha acabado’. Daí, por volta das 11 da noite recebi uma ligação de minha enteada dizendo que estavam botando fogo na casa. Cheguei aqui hoje, perdi tudo. Ainda nem dormi. É a perdição da vida. A gente perde tudo por causa de uma bobeira. Como que o povo daqui vai fazer agora. Como vou construir de volta? A PM vai pagar de volta?” Vigilante P

Perdi tudo, o que vou fazer agora?... Eles passaram correndo, com tocas ‘ninja’. Estavam com um galão. Do outro lado deram dois tiros e soltaram fogos. Senti cheiro de fogo, falei com minha filha, quando levantei estava pegando fogo em tudo. De trás para frente, chegando. E eles dando tiros do outro lado. A gente correndo com crianças e eles dando tiros. Eles falaram que a favela não vai ficar de pé, que vão tirar todos daqui.” Balconista M

Morava com os pais e mais três irmãos noutra casa. Diz que estavam os seis em casa e ele quase dormia quando gritaram que estava pegando fogo. “Quando a gente saiu já estava pegando fogo no telhado. Fomos pra rua, meus pais pegaram a gente (os filhos), o cachorro e alguns cobertores. Hoje meus pais vieram para cá e começaram a chorar. Eu chorei também”. Menino L

O outro lado Ana Carolina Caldas Na semana após o incêndio da Comunidade 29 de Março, a reportagem do Brasil de fato PR entrou em contato com autoridades questionando como haviam sido suas ações, como atuaram e a cronologia dos fatos. Polícia Militar Por telefone, a Polícia Militar respondeu que não falaria sobre detalhes das operações, apenas mandou a nota de sua assessoria: “A Polícia Militar esclarece que recebeu as imagens que mostram uma ação supostamente envolvendo dois policiais militares durante os fatos ocorridos na Cidade Industrial de Curitiba (CIC), na última semana. Ambos

os policiais militares foram identificados, afastados das funções e estão à disposição das investigações, que vão apontar o que houve na Vila Corbélia. Além disso, a PM está colaborando com a Polícia Civil e com o Ministério Público, por meio do GAECO, para a elucidação do caso ocorrido na CIC.” Bombeiros A reportagem do BDF também questionou o corpo de bombeiros acerca das denúncias de que viaturas chegaram ao local e demoraram a começar a tentar apagar as chamas, confi ra as respostas: Que horas o Corpo de Bombeiros chegou no local? O Corpo de Bombeiros chegou no local às 22h49min.

Por que houve um atraso do horário da chegada no local e o começo do atendimento? Não houve nenhum atraso para o início de atendimento da ocorrência. Assim que chegaram ao local os bombeiros já iniciariam o protocolo de atendimento de combate a incêndios. Quantos carros e funcionários foram envolvidos na operação? Estiveram envolvidos na operação quatro caminhões de bombeiro, um autoambulância, duas carretas tanque, que prestam apoio de água, e duas viaturas leves, que servem de central de comando para os oficiais. 26 bombeiros militares envolvidos.


6 | Brasil

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Paraná, 20 a 26 de dezembro de 2018 PUBLICIDADE

Decisão de ministro do STF que beneficiaria Lula foi desrespeitada Defesa pede soltura imediata, mas juíza de Curitiba nega. Presidente do STF cassa decisão irregularmente Redação

N

a quarta-feira (19), o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), concedeu liminar mandando soltar presos detidos por condenações em segunda instância, o que poderia beneficiar o ex-presidente Lula e mais 160 mil presos nessas condições. Pouco depois, a defesa de Lula entrou com um pedido na Justiça requerendo a liberdade imediata do ex-presidente. Ao analisar o pedido, a juíza de execução penal de Curitiba, de primeira instância, Carolina Lebbos, passou por cima de Marco Aurélio, negou a soltura e pediu parecer do Ministério Público. Com isso, ganhou tempo para esperar que a liminar de Marco Aurélio fosse cassada pelo presidente do Supremo, Dias Toffolli, o que aconteceu no começo da noite. E de maneira irregular, já que decisões de ministros do Supremo têm de ser cumpridas e só podem ser mudadas pelo plenário do tribunal, que só se reunirá no próximo ano. Já prevendo o que poderia acontecer, Marco Aurélio, na

tarde da quarta, antes da decisão de Toffoli, reafirmou: “Se o Supremo ainda for o Supremo, minha decisão tem que ser obedecida”. Entrevistado pela Rádio Brasil de Fato, o jurista alagoano Marcelo Tadeu Lemos também afirmou que “a Suprema Corte desse país virou uma república de bananas e está se submetendo a setores conservadores. O ministro Marco Aurélio fez o que deveria ter feito há mais tempo. Dias Toffoli não pode cassar a liminar, essa seria mais uma prova da ausência de democracia formal e material no país.”

Expectativa na vigília A partir da decisão do ministro, muitos militantes foram para a Vigília Lula Livre, em frente à sede da Polícia Federal em Curitiba, local em que Lula está preso, na expectativa de que pudesse ser solto. Ivone Santos, trabalhadora aposentada da área de saúde era uma delas. “São oito meses de luta, de resistência. O Lula só está preso porque ganharia a eleição presidencial no primeiro turno. Por isso estou emocionada, queremos Lula Livre, para voltarmos a ter uma sociedade em que todos participamos.” Giorgia Prates

Celebração de Natal com Lula é mantida Lia Bianchini Preso há mais de 8 meses na Polícia Federal, em Curitiba, Lula não poderá receber visitas no feriado de Natal. Porém, do lado de fora, na Vigília Lula Livre, militantes preparam uma celebração natalina em solidariedade ao ex-presidente. O Natal da vigília começará com ato inter-religioso, às 20h, seguido por uma ceia de Natal,

preparada coletivamente pelos militantes da Vigília. De acordo com a organização, há expectativa de que passem pela Vigília, entre os dias 24 e 25, mais de 500 pessoas, vindas de diferentes estados do Brasil. Até o momento, está confirmada a chegada de caravanas das cidades de São Paulo, São Bernardo do Campo, Rio de Janeiro e Florianópolis. Rosani Silva, membro da direção nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) e uma das

organizadoras do Natal da Vigília, conta que o intuito da celebração é reunir pessoas para confraternizar, dialogar e mandar boas energias ao ex-presidente. “Com certeza vai ser mais um momento muito emocionante para todo mundo, porque a gente sabe que nós vamos estar aqui abraçando uns aos outros e ele [Lula] vai estar lá, sozinho, ouvindo nossas vozes, mas não vai poder ter um abraço, um carinho”, diz.


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Paraná, 20 a 26 de dezembro de 2018

Países ricos são os que mais investem em arte Para Ulisses Galetto, as pessoas não compreendem que investir em cultura dá retorno muito maior para a sociedade Arquivo Pessoal

Ana Carolina Caldas

A

pesar de ser um dos países mais ricos culturalmente, o Brasil é um dos que menos investe em arte, indo na contramão do que fazem, por exemplo, Estados Unidos e França, que reservam grande parte dos recursos públicos para o setor cultural. Nesta entrevista exclusiva ao Brasil de Fato PR, o pesquisador de políticas públicas de cultura, o músico Ulisses Galetto, analisa por que o Brasil não dá a devida importância à arte e cultura.

117 | Cultura

LUZES DA CIDADE Bárbara Lia

Fiat Lux Frente ao perigo, em cativeiros ou naufrágios, o homem se apega às memórias belas para não morrer. Estamos em perigo. No “momento crucial” do País, penso em meus netos. Laura é bebê, breve falarei com ela como falo com Arthur. No boletim do Arthur média final 10 em Filosofia. O mundo ainda tem mentes pensantes aos milhares. Elas nos tirarão destas trevas. Anoto tudo que meu neto diz: “O ser humano é muito primitivo. Se impressiona muito fácil”. “Viver é coisa de mistérios”. “Tenho alma de poeta e inspirador”. Etc. As crianças deste tempo querem proteger a Natureza e amam a Arte. Por medos infundados o novo governo quer implantar uma – Escola sem partido. A maior luta agora é contra o fundamentalismo religioso nas Escolas. É preciso regar a sapiência dos pequeninos como quem rega rosas no jardim. Se eu pudesse dizer algo no final do ano amargo, eu diria - Fiat lux. O poeta Leonard Cohen diz em um de seus poemas: Há uma rachadura em tudo / É assim que a luz entra. Amém, Cohen.

DICAS MASTIGADAS

Rabanada

Brasil de Fato | Parece que no Brasil a cultura não é encarada como política estratégica. O que precisa ser feito para mudar isso? Ulisses Galeto | Esse falta de reconhecimento da cultura e arte está diretamente ligada à qualificação dos gestores, às pessoas para as quais damos nosso voto. Isso é fruto de certa ignorância sobre o setor. As pessoas simplesmente não compreendem que investir em cultura dá retorno para a sociedade muito maior que indústria ou outras áreas em que o Estado investe pesado.

a segunda fonte de divisas, ficando apenas atrás de armas e guerra. Existe um investimento público pesado e de uma maneira diferente do que acontece aqui, pois é descentralizado. São distribuídos recursos entres os estados. Eles sabem desde o início do século XX que o investimento em cultura dá muito retorno financeiro e, claro, no caso deles, há também ganho ideológico.

Você em seus estudos analisou políticas de cultura de outros países. Poderia dar exemplos? Há inúmeros exemplos, mas fiquemos em dois. O primeiro é o país que detém 25% das riquezas do mundo, os Estados Unidos. Lá a arte e cultura são

Outro exemplo é a França, a quinta economia do mundo. Em 2018, teve orçamento de 10 bilhões de euros e a cultura é a terceira fonte de divisas. O ex-ministro da cultura francês, André Malraux, em 1957, ao ser questionado o que precisaria para criar o Ministério

Reprodução

da Cultura, respondeu que dez anos seriam necessários para que os gestores pudessem ser qualificados. E deu no que deu. Por que investir em arte e cultura é importante? Porque estamos investindo no que somos, além do aspecto financeiro. O dinheiro é o que parece chamar atenção dos que estão no poder. Então, se é sobre dinheiro que eles falam, vamos aos dados. Os estudos mais pessimistas dizem que a cada dólar investido volta 0,9 dólar para a sociedade. Os mais otimistas dizem que a cada dólar investido, volta 1,5 dólar. Ganha-se dinheiro, lucra-se com investimento em arte e cultura.

Ingredientes 1 baguete (ou pães de rabanada); 1/5 L de leite 1 lata de leite condensado 1 ovo grande Óleo pra fritar Açúcar (a gosto) Canela (a gosto)

Modo de Preparo Misture o leite com o leite condensado. Mergulhe o pão nesta mistura rapidamente. Passe o pão no ovo batido. Frite em óleo quente até ficar dourado. Com um papel absorvente, retire o excesso de óleo de cada rabanada. Misture o açúcar e a canela em um prato e passe as rabanadas. Sirva a seguir.


12 | Esportes

Brasil de Fato PR

Paraná, 20 a 26 de dezembro de 2018

Atlético muda de patamar com vitória na Sul-Americana Conquista é primeiro título internacional dos clubes do futebol paranaense Miguel Locatelli | CAP

Roger Pereira

O

ano de altos e baixos do Clube Atlético (agora Club Athletico) Paranaense terminou com título inédito que, enfim, coloca o Furacão entre os grandes clubes do Brasil e com prestígio internacional. O Atlético é campeão da Copa Sul-Americana e, de quebra, está de volta à Copa Libertadores da América. O planejamento no início da temporada era para alcançar um título dessa magnitude, mas a forma como aconteceu contrariou todas as projeções. A estratégia estava desenhada desde o final de 2017. Fernando Diniz foi contratado para implantar seu estilo de jogo inovador e teve tempo para trabalhar. Enquanto Tiago Nunes conquistava o Campeonato Paranaense com o time de aspirantes, o elenco principal se adaptava ao método Diniz. E o início do trabalho foi empolgan-

te: vitória por 3 a 0 sobre o Newel’s Old Boys na abertura da Sul-Americana e belas atuações nas primeiras rodadas do Campeonato Brasileiro. Mas o encanto se quebrou rapidamente. E Diniz não teve forças para reagir. Os resultados não vieram, o time caiu pela tabela e chegou ao recesso da Copa do Mundo afundado na zona de rebaixamento. Diniz caiu, Tiago Nunes assumiu e iniciou uma incrí-

vel reação, levando o Atlético do penúltimo ao sétimo lugar no Brasileirão e à conquista histórica.

Ao contrário do Brasileirão, o caminho até a decisão na SulAmericana foi traçado com vitórias longe da Baixada

Se não vencia fora de casa no Brasileiro, na Sul-Americana foi diferente. O caminho até a decisão foi traçado com vitórias longe da Baixada sobre Peñarol, Bahia e Fluminense. Contra o clube carioca, então, o confronto foi de demonstração de grande superioridade, duas vitórias por 2 a 0, que deram confiança para a difícil decisão contra o Junior Barranquilla. Na final, a “sorte de campeão” estava do lado atle-

Minimizar erros

Nosso menino cresceu!

Por Cesar Caldas

Por Marcio Mittelbach

Erro zero não existe, mas erra menos a instituição que planeja melhor e reconhece no tempo certo a necessidade de corrigir equívocos estratégicos e táticos para atingir o objetivo pretendido. Voltar à Primeira Divisão com receita inicial projetada de 55% da obtida no ano anterior é o desafio do Coritiba para 2019. Vencê-lo dependerá de três fatores: político, fi nanceiro e gestão – este último subdividido em administrativa, de pessoas e de futebol. Fixemo-nos, por hoje, apenas nas fi nanças. O G-5 trabalha na redução de despesas, mas pouco se fala na busca de receitas que não endividem ainda mais o clube. É preciso sensibilizar a sociedade franqueando o acesso do beneficiário do bolsa família, cônjuge e fi lhos ao estádio, vinculando a iniciativa a alguma empresa privada e, por exemplo, lotear à exaustão os espaços para publicidade estática interna no estádio. Criatividade à obra!

ticano. O adversário foi superior nas duas partidas e o Atlético não repetiu as boas atuações. No primeiro jogo, na Colômbia, até saiu na frente, com Pablo, mas sofreu o empate logo em seguida e só não perdeu a partida porque Pérez mandou a cobrança de pênalti no travessão. Na partida decisiva, 40 mil pessoas na Baixada, recorde de público. Empurrado pela torcida, o Furacão foi para cima e abriu o placar, mais uma vez com Pablo. Depois, foi só sofrimento. O Junior tomou conta do jogo, chegou ao empate e perdeu, pelo menos, três chances claras de gol no segundo tempo. Na prorrogação, o drama aumentou. A poucos minutos do fim, pênalti para o Junior. Era o fim do sonho. Mas Barrera cobrou por cima. A decisão foi para os pênaltis, o Junior desperdiçou mais duas cobranças e, nos pés de Thiago Heleno, o Atlético fez história.

Como ele está incrível. Lembra como ele era prodígio? Mal tinha aprendido a andar e levantou o primeiro troféu. Que moleque danado. Com três anos fez sua estreia entre os gigantes do futebol brasileiro. Conquistou sete títulos antes dos dez. Em 1999 arrastou 50 mil pessoas para uma final de campeonato no saudoso Pinheirão. Virou um adolescente com personalidade. Mesmo sem o poder aquisitivo do início, se manteve na elite do futebol. E como ele incomodava. Aos 17 o piá estava voando. Conheceu o continente, mostrou sua força para o mundo. É, o guri cresceu. Passou por momentos de baixa, é verdade, mas aproveitou para se conhecer e se reinventar. Hoje ele está aí. Forte, valente, voltou a competir entre os gigantes. Sentiu a falta de ritmo nesse primeiro momento, mas logo estará de volta. O Paraná Clube completou 29 anos no dia 19 de dezembro.

Brasil de Fato PR - Edição 107  
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