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Cultura | p. 7

Geral | p. 3

Shakeaspeare ao contrário

30 de agosto na memória Professores vão às ruas para denunciar violência de Álvaro Dias e Beto Richa

Atriz recria obra Macbeth em versão feminina

Divulgação

Ano 3 | Edição 94

PARANÁ

30 de agosto a 5 de setembro 2018

Rovena Rosa | Agencia Brasil

distribuição gratuita

www.brasildefato.com.br/parana

MULHERES SOB ATAQUE

Fabio Rodrigues Pozzebom

Salários menores, retirada de direitos e candidatos, como Bolsonaro, que teimam em manter a discriminação, fazem luta das mulheres ser decisiva para mudar o país. Brasil | p. 5

Agencia Brasil

Reservas indígenas atrasam por culpa do Estado Paraná deu títulos irregulares a colonos na década de 1940 Cidades | p. 6

REPORTAGEM ESPECIAL

Julio Cesar Carignano

Geral | p. 3

Eleições 2018 Alaerte Martins defende fortalecimento do SUS

Brasil | p. 5

Mais uma denúncia MP pede cassação de Beto Richa e Cida Borghetti


2 | Opinião

Brasil de Fato PR

Paraná, 30 de agosto a 5 de setembro de 2018

Projeto de desenvolvimento nacional na ordem do dia

EDITORIAL

O

pensador Darcy Ribeiro já apontava o povo brasileiro como um “povo novo”, marcado pelo processo de invasão colonial, porém com grande potencial ao reunir as matrizes indígena, africana e europeia – um povo unificado em sua língua, num território de enorme extensão e riqueza. É preciso, por isso, apostar em nossa independência e soberania, o que passa pelo chamado projeto nacional de desenvolvimento, que tenha como motor a classe trabalhadora. Para isso, ações iniciais são urgentes, revogando medidas do governo de Temer (MDB) que estrangulam a economia, caso da revogação do teto dos

gastos em saúde e educação. Outra necessidade é aumentar a industrialização do país, que hoje oscila perto de somente 11,8% do PIB, com redução do juros, maior investimento na manufatura nacional e controle de capitais especulativos de curto prazo. É fundamental a retomada de ramos como o naval, profundamente impactado pelo processo de Golpe desde 2016. Nos programas de campanha, apenas as chapas Lula-Haddad-Manoela; Ciro Gomes e Guilherme Boulos mostram preocupação com essa questão. Ademais, a liderança de Lula nas pesquisas revela o anseio da população pela retomada dessas políticas.

SEMANA

Estão implodindo os Correios para privatizar OPINIÃO

Marcos Rogério Inocêncio (China)

secretário geral do Sindicato dos Trabalhadores dos Correios do Paraná (SINTCOM-PR)

A

Os Correios estão passando pelo pior ataque desde a sua fundação, há 357 anos. A maior e mais lucrativa empresa de serviços postais do mundo (faturamento de R$ 18 bilhões/ano) está na mira da privatização. Agências próprias sendo fechadas. Frota e estrutura sucateadas. Já tivemos 140 mil funcionários. Hoje, 106 mil. A meta é reduzir para 88 mil. Cargos operacionais sendo extintos. No lugar, estão terceirizando a mão de obra, em condições precárias, que é trocada a cada três meses. Os trabalhadores dos Correios estão há anos sem aumento real, sofrem perseguição e assédio dos políticos nomeados por Michel Temer (MDB), para forçar a demissão. A estratégia é conhecida. Suca-

teia, demite, força a queda na qualidade dos serviços prestados, deixando a população revoltada para apoiar a privatização. Dentre os 5.570 municípios brasileiros, apenas 17 têm população superior a 1 milhão de pessoas. Obviamente, a iniciativa privada tem interesse somente nesses centros mais populosos, de fácil acesso pelos meios de transporte, com lucro garantido. Combinam preços e praticam tarifas exploratórias.

Os Correios são os responsáveis pela entrega de livros didáticos, vacinas e remédios, cestas básicas, urnas eletrônicas

Os Correios exercem um papel social que leva acesso e dignidade. É a única empresa a fazer entregas em qualquer lugar do país, seja de carro, a pé ou de barco. Os Correios são os responsáveis pela entrega de livros didáticos, vacinas e remédios, cestas básicas, urnas eletrônicas e são os únicos a atuar em todos os municípios brasileiros, onde empresários desprezam. Temer e o Congresso congelaram os investimentos em saúde, educação e infraestrutura por 20 anos. O custo aumentando, o sistema entra em colapso. O problema é má gestão. Uma boa saída seria que a estatal fosse gerenciada somente por funcionários de carreira, concursados. Impedir mais essa irresponsável privatização é nossa obrigação enquanto trabalhador e cidadão. Os Correios são um patrimônio de todos nós, brasileiros. Basta de entreguismo! Não à privatização dos Correios!

EXPEDIENTE Brasil de Fato PR Desde fevereiro de 2016 O jornal Brasil de Fato circula em todo o país com edições regionais em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul e Paraná. Esta é a edição nº 94 do Brasil de Fato PR, que circula sempre às quintas-feiras. Queremos contribuir no debate de ideias e na análise dos fatos do ponto de vista da necessidade de mudanças sociais. EDIÇÃO Frédi Vasconcelos e Pedro Carrano REPORTAGEM Ana Carolina Caldas, Laís Melo e Franciele Petry Schramm COLABORARAM NESTA EDIÇÃO Camila Vida, Julia Rohden, Matheus Lobo, Bea Gerolin e Marcos Rogério Inocêncio (China) ARTICULISTAS Roger Pereira, Marcio Mittelbach e Cesar Caldas REVISÃO Maurini Souza, Lia R. Bianchini e Priscila Murr ADMINISTRAÇÃO Bernadete Ferreira e Denilson Pasin DISTRIBUIÇÃO Clara Lume FOTOGRAFIA Joka Madruga e Julio Cesar Carignano DIAGRAMAÇÃO Vanda Moraes CONSELHO OPERATIVO Gustavo Erwin Kuss, Daniel Mittelbach, Luiz Fernando Rodrigues, Fernando Marcelino, Naiara Bittencourt e Robson Sebastian TIRAGEM SEMANAL 20 mil exemplares REDES SOCIAIS www.facebook. com/bdfpr CONTATO pautabdfpr@gmail.com IMPRESSÃO Grafinorte | Nei 41 99926-1113


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3 | Geral

FRASE DA SEMANA

“Quando a esquerda chega ao poder, tem que ter uma imaginação muito forte sobre o que fazer e o por que fazer. E sempre tem que ter algo de utópico nisso” disse David Harvey, em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, no lançamento de seu mais recente livro, “A Loucura da Razão Econômica”. Divulgação

Candidata a deputada estadual, Alaerte Martins defende o SUS e diz que o desafio é a universalização e melhorar qualidade

A enfermeira e doutora em Saúde Pública Alaerte Martins fala, em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, sobre os principais desafios enfrentados na área. Alaerte é candidata a deputada estadual pelo PT (PR). Brasil de Fato | A senhora é especialista em saúde. Qual o principal desafio que nós temos nessa área hoje no Brasil? Alaerte Martins | Temos uma grande conquista, o Sistema Único de Saúde, o SUS. O desafio é a gente conseguir de fato operacionalizar todos os pilares dele. O primeiro é a universalização, garantir o acesso a toda população. Acesso inclusive para a população quilombola, para a população ribeirinha, que mora longe das unidades de saúde. Ou seja, reduzir ao

máximo a distância e, chegando lá, que a pessoa de fato consiga a consulta, o atendimento. Em segundo lugar, com toda certeza, melhorar a qualidade do atendimento. O que pode ser feito para melhorar o SUS? Acredito muito na proposta que o país tem de modelo assistencial, a estratégia de saúde da famí-

lia. De fato, os problemas na saúde do Brasil hoje é que a gente não cuida da saúde, está cuidando da doença. A partir do momento que se consiga implementar, de fato, equipes de saúde da família que atendam à população no seu domicílio, com prevenção, promoção da saúde, você não precisa ficar cuidando da doença. Esse é o Divulgação

No dia 30/8, às 17h, na Santos Andrade, Fernando Haddad (PT), vice de Lula na chapa com Manuela Dávila (PCdoB), faz seu primeiro ato de campanha em Curitiba, na “Caminhada por Lula Presidente”. Também participam a senadora Gleisi Hoffmann, o candidato ao governo do Paraná, Dr. Rosinha e a candidata a senadora pelo PT, Mirian Gonçalves.

30 de agosto na memória dos professores

Temos de tratar da saúde, não da doença Frédi Vasconcelos

Caminhada com Haddad em Curitiba

nosso problema. E faltam recursos porque o tratamento da doença é muito caro. E com essa emenda constitucional que diminuiu recursos para a saúde, a tendência é piorar ainda mais? Por vinte anos, né? Nem acredito que a população consiga permanecer com isso por vinte anos. É uma coisa absurda de falar. Você acaba de perguntar como subiu a mortalidade infantil nos dois últimos anos. Pense então em vinte. É totalmente inadmissível. É humanamente impossível você pensar de não ter nenhum aporte de recursos a mais por duas décadas. Precisa ser totalmente revogada de imediato. Já aumentou a mortalidade infantil, já aumentou a morte materna, a gente já tem o retorno de caso de tuberculose, de sarampo... Daqui a pouco vai ser dizimada toda a população.

Professores estaduais realizam paralisação neste 30 de agosto em Curitiba. A manifestação é para cobrar da governadora Cida Borghetti o pagamento da data-base, o cumprimento da lei da hora-atividade, revisão da distribuição de aulas, correção dos salários dos PSS, anistia das faltas da greve etc. Começa às 9h, na Praça Santos Andrade, e a marcha vai até o Palácio Iguaçu. Durante a manifestação serão lembrados os atos de violência contra professores nos governos Álvaro Dias e Beto Richa.

Negociação dos bancários é concluída Os bancários arrancaram reajuste de 5% nos salários e benefícios, com aumento real, e a manutenção de direitos garantidos pela Convenção Coletiva de Trabalho (CCT), que já tem 26 anos. Foram dez rodadas de negociações e paralisações parciais nos locais de trabalho em todo o país.


4 | Brasil

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Samper, ex-presidente da Colômbia: “Deem a Lula todas as garantias a que tem direito” Comentou a imagem diante da comunidade internacional que o Brasil passou a ter depois da prisão de Lula Joka Madruga

pronunciou por meio do Comitê de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidades (ONU) para reivindicar que o ex-presidente brasileiro tenha a tarde do dia 23 (quinta), Lula reum julgamento justo. cebeu a vista do ex-presidente da “Em nome desta comunidade inColômbia, Ernesto Samper, ex-secreternacional que está com tário geral da União de Lula, ao Estado BrasileiNações Sul-Americanas Ex-secretário ro, respeitosamente, ve(Unasul) e presidente nho pedir que […] deem ao da Colômbia no período da Unasul presidente todas as garanentre 1994 e 1998. recomenda que tias a que tem direito para O político declarou competir em igualdade que sua visita foi um ges- Nações Unidas de condições com seus rito de solidariedade pes- venham verificar vais nas próximas eleições soal e político, e que enpresidenciais”, ressaltou controu Lula com planos cumprimento de determinação Samper, que recomendou para o futuro. “Ele não ainda que membros das está sozinho, a comuNações Unidas venham ao nidade internacional o Brasil verificar o cumprimento da deacompanha como arquiteto da política terminação do Comitê que, entre outras que converteu o Brasil num ator munquestões, recomenda a participação do dial”, declarou. ex-presidente nas eleições e o direito a Segundo o político colombiano, esta participar dos debates eleitorais. mesma comunidade internacional se Camila Vida

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História de um quadro contra a fome Pedro Carrano O artista plástico e mosaicista Javier Guerrero, equatoriano que há trinta anos vive em Curitiba, apresentou na Vigília Lula Livre o mosaico feito ainda em 2003 chamado “Brasil contra a Fome”, no contexto do lançamento do programa Fome Zero e do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome, que buscava erradicar a fome no país durante o primeiro mandato de Lula. O quadro foi doado, à época, para a Caixa Cultural. Quinze anos depois, foi encontrado por dois diretores do Sindicato dos Petroleiros do Paraná e Santa Catarina, em uma espécie de antiquário em Curitiba.

Agora, o trabalho foi refeito, como forma de homenagem aLula, neste momento em que o Brasil corre o risco de voltar ao mapa da fome da ONU. Ao lado disso, a obra homenageia os sete militantes que, por 26 dias, fizeram greve de fome por Justiça diante do Su-

premo Tribunal Federal: Vilmar Pacífico, Frei Sérgio Görgen, Rafaela Alves, Luiz Gonzaga, Jaime Amorim, Zonália Santos, Leonardo Soares. “Esse quadro representa o Brasil, com a sua diversidade, e com homenagem a Zumbi dos Palmares”, explica Guerrero. Juca Varella

“Agora, o trabalho foi refeito, como forma de homenagem a Lula”


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5 | Brasil

Candidatos e bancos querem manter discriminação contra mulheres Manutenção de salários menores e retirada de direitos trabalhistas estão na pauta de setores conservadores Redação

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m debates e entrevistas, o candidato à presidência Jair Bolsonaro (PSL) chegou a dizer que não vai fazer nada contra a discriminação salarial sofrida pelas mulheres, que chegam a ganhar de 25% a 40% menos para fazer as mesmas funções dos homens. Afirmou até que não contrataria uma mulher pelo mesmo salário de um homem porque elas engravidam. Mas não foi só ele, João Amoêdo (Novo) também disse que, “se empresas pagam salários distintos para homens e mulheres, o Estado não deve interferir”. Para a advogada popular e mestra em direitos humanos e democracia pela Universidade Federal do Paraná, Naiara Bittencourt, “isso não é uma questão privada, é uma questão de Estado, que

Arquivo Pessoal

deve ser resolvida mediante igualdade material e políticas públicas afirmativas. A igualdade e a equiparação salarial jamais será alcançada se ficar somente ao encargo do setor privado”, diz. Para ela, Bolsonaro e Amoêdo transferem para o privado uma questão em que jamais o capitalismo liberal se autorregulará. Não é só em relação aos salários que as mulheres vêm sofrendo discriminação. Nas negociações deste ano, os bancos, setor que mais lucra no Brasil, chegaram a ameaçar cortar a participação nos lucros e resultados (PLR) de bancárias afastadas por licença-maternidade. Depois de muita pressão, tiveram de voltar atrás.

Cristiane e a filha Julia: tentativa dos bancos de tirar direitos causa indignação

Leis de proteção A professora de direito constitucional Juliana Cabral diz ser um absurdo que as mulheres tenham que protestar

para garantir direitos como esse. Lembra que várias leis garantem que o Estado proteja a mulher de qualquer ação discriminatória. Do outro lado, para Cristiane Zacarias, bancária há 15 anos e mãe da Julia, de 2, a tentativa dos bancos causou indignação. “Uma proposta dessa vinda de seu empregador, que reforça a inferiorização da mulher, fragiliza inclusive a decisão de ter mais filhos”, afirma. Além da luta por direitos contra os patrões, a advogada Naiara diz que não se pode cometer o engano, nas eleições, de votar em candidatos que aparentemente defendem a igualdade, mas na prática falam de redução do Estado e de políticas públicas e sociais. “Não é possível garantir a equiparação salarial num Estado neoliberal, sem ações efetivas de promoção dessa igualdade”, conclui.

MP pede cassação de Beto Richa e Cida Borghetti Denúncia é por abuso do poder econômico e promoção pessoal Ana Carolina Caldas O Ministério Público Federal moveu, na última segunda feira (27/8), ação em que pede investigação e cassação das candidaturas da governadora Cida Borghetti (PP) e do ex governador e candidato ao Senado Beto Richa (PSDB) por abuso de poder econômico e promoção pessoal com fins eleitorais. Também serão investigados os prefeitos de Curitiba, Rafael Greca (PMN), e outros políticos.

Segundo a ação, Beto Richa participou de eventos para liberação de recursos a

município em períodos em que já estava licenciado do cargo de governador. Como Divulgação

prova, há fotos de eventos promovidos por prefeitos e pela governadora. O advogado e coordenador da pós-graduação em Direito Constitucional da Universidade Positivo, Eduardo Faria, explica que “o caso configura abuso de poder em benefício do candidato Beto Richa.” Sobre se a impugnação é possível, Eduardo diz que “existem no país outros casos em situações parecidas. Agora, irá depender da velocidade dos procedimentos da Justiça Eleitoral”, afirma.

Outro lado Em nota, a defesa de Beto Richa afirma que “a ação não tem cabimento, pois eram eventos públicos nos quais o ex-governador foi convidado e neles não praticou qualquer ato oficial”. A assessoria da governadora Cida Borghetti diz que tomou conhecimento pela imprensa do ajuizamento de ação e que “Não houve da parte da governadora Cida Borghetti qualquer atuação em benefício da candidatura do ex-governador. À época, ambos não eram sequer candidatos, afirma em nota.


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6 | Cidades

Demarcação de terra indígena esbarra em títulos de propriedade contestados Na década de 1940, colonos compraram terras no extremo oeste que não poderiam ser vendidas por estarem em áreas da União Júlia Rohden e Matheus Lobo

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desinformação, o preconceito e o medo de perder suas terras colocam pequenos produtores rurais contra os índios Avá-Guarani de Guaíra e Terra Roxa. Uma das formas de amenizar a tensão seria a indenização de propriedades adquiridas de boa fé, o que não está previsto pelo processo demarcatório. A origem do problema foi a titulação de terras da União pelo governo do Paraná, no contexto de ocupação do oeste, a partir da década de 1940. Essas terras, além da ocupação tradicional guarani, estão em região de fronteira e não poderiam ter sido repassadas a pessoas ou empresas privadas. A procuradora do Ministério Público Federal Hayssa Jardim defende que o governo do estado se responsabilize pela titulação indevida do passado. “O estado loteou terra da União e esses títulos fo-

ram sendo repassados. Se houvesse “mea culpa”, de chamar a responsabilidade e indenizar, diminuiria um pouco a tensão aqui”, sustenta. Para o assessor para Assuntos Fundiários do governo do Paraná Hamilton Serighelli, a saída envolveria uma série de instituições públicas, especialmente federais. “Tem que ser uma solução que todo mundo participe. O governo federal e a Itaipu Binacional têm um papel importantíssimo para ajudar a resolver a situação”, declara. No Congresso Nacional tramita uma proposta de emenda constitucional (PEC) que poderia facilitar processos demarcatórios como o de Guaíra e Terra Roxa. A PEC 71 pretende regulamentar a indenização, pela União, de títulos de boa fé afetados por novas terras indígenas. Em 2015, a emenda foi aprovada pelo Senado, mas aguarda análise da Câmara dos Deputados. Apesar da longa espera, os indígenas buscam uma solução negociada com o poder públiMatheus Lobo

Cacique Ilson Soares lembra que área é tradicionalmente ocupada por indígenas

co. “A gente não tem que brigar [com os agricultores], a culpa é do governo, que vendeu toda a área. E, com certeza, você não tem assinatura indígena de que vendeu a terra. A gente tem que apertar o governo para dar um jeito para ninguém sair perdendo”, considera Gilberto Benitez, jovem indígena de Terra Roxa. “Tem que permanecer aqui, mesmo com a situação que a gente vive, tem que lutar para permanecer na terra em que estamos agora. Infelizmente, a gente já perdeu no passado e não quer perder de novo”, reforça o cacique Ilson Soares, da Tekoha Y’Hovy, de Guaíra.

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*Este material foi produzido com apoio do Edital de Jornalismo Investigativo e Direitos Humanos, do Fundo Brasil. Confira a reportagem completa em brasildefato.com.br

VIDA PRECÁRIA Em Guaíra e Terra Roxa, atualmente há 14 aldeias Avá-Guarani, fruto de retomadas em área tradicional indígena. As condições de vida são precárias, com acesso restrito a água, energia e alimentação. Além disso, os guaranis são alvo de discurso de ódio, que resultam em desemprego, hostilidades contra crianças nas escolas e ameaças de morte. Iniciado em 2009, o processo de demarcação da Terra Indígena Guasu Guavira deve ter novo capítulo em setembro, quando está prevista a divulgação da possível área a ser delimitada.

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AGENDA CULTURAL

JANELA PERIFÉRICA Por Bea Gerolin*

Cia dos Palhaços faz versão feminina de Shakespeare

Veja Café com Canela Eu vi Café com Canela pela primeira vez em setembro do ano passado, no 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e lembro que, quando terminou, fiquei grudada na cadeira numa mistura de reconhecimento, tristeza, alegria, choro, riso, luto, respiração. O filme se passa no Recôncavo Baiano e é dirigido por Glenda Nicacio e Ary Rosa. É a segunda vez que um longa metragem de ficção dirigido por uma mulher negra ocupa as salas de cinema comercial. A primeira foi há mais de 30 anos, em 1984, com o filme Amor Maldito, da Adélia Sampaio, e esse hiato temporal diz muito sobre a falta de acesso e dificuldades que nós, mulheres negras, temos em ocupar esses espaços. Café com Canela é um filme pra levar a mãe, a avó, a irmã mais nova e a mais velha. Aqui aconteceu uma movimentação entre as

Reprodução

mulheres negras da cidade e o que eu mais ouvi no final das sessões foi que a história das personagens se parecia com as nossas, da nossa família, e é raro e importante esse momento de identificação com o que se vê na tela. Vamos ver? É pra sair do cinema com o coração quentinho. *Pesquisadora, educadora e realizadora em cinema

117 | Cultura

Para ficar por dentro Filme Café com Canela Em cartaz no Espaço Itaú de Cinema Shopping Crystal, R. Comendador Araújo, 731 Batel - Curitiba Telefone: 3224-3251

A palhaça Tinoca, vivida pela atriz Nathalia Luiz, é personagem conhecida das peças infantis da Cia dos Palhaços e, agora, estreia um solo para adultos, vivendo “ao contrário” Lady, da tragédia Macbeth, de William Shakeaspeare. A palhaça Tinoca é apaixonada por dramas e resolve fazer uma montagem sozinha de Shakespeare, mas só conhece Lady Macbeth. Ela se vê dominada pelo poder da personagem e toda a violência que representa. Tinoca recorre à força feminina e ao próprio poder de transformação de Deslady para equilibrar essa energia. Nathalia trabalha como palhaça desde os 15 anos (como amadora), quando iniciou a carreira com participações em festas. Aos 18, saiu de São Paulo para vir a Curitiba e começar sua formação profissional, conquistando espaço também como professora, produtora cultural, atriz e sócia e gestora da Cia dos Palhaços. O projeto é solo, porém reúne uma equipe de doze mulheres na criação e no processo de criação na linha da palhaçaria feminina. Divulgação

DICAS MASTIGADAS

Bolinho de Chuva Ingredientes 2 ovos 2 colheres (sopa) de açúcar 1 xícara (chá) de leite 2 e 1/2 xícaras (chá) de farinha de trigo 1 colher (sopa) de fermento 3 colheres (sopa) de açúcar 1 colher (chá) de canela Modo de Preparo Misture os ovos, o açúcar, o leite, a farinha de trigo e o fermento até obter uma massa lisa e homogênea Com a ajuda de uma colher, pegue porções da mistura e despeje em uma panela com o óleo quente Retire do fogo quando estiver no ponto, depois misture a canela com açúcar e salpique no bolinho de chuva já frito Sirva ainda quente

Para ficar por dentro

Reprodução

Até 2 de setembro - Sextas e sábados, 20h, Domingo 19h Ingresso: Livre - pague quanto puder ou quiser Categoria: Drama /Comédia Classificação: Maiores de 14 anos Local: Espaço Fantástico das Artes Al. Princesa Izabel, 465 – São Francisco


8 | Esportes

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Paraná, 30 de agosto a 5 de setembro 2018

Disciplina ou talento? Por Cesar Caldas A direção do futebol do Coritiba, hierarquicamente submetida apenas ao Conselho Administrativo (G5), está preenchida: Paulo Pelaipe chegou. Se o nome é o mais adequado para os 100 dias que definem a temporada no departamento, só saberemos no final. A gerência de futebol será acumulada e absorvida pelo diretor, deixando temporariamente de existir um intermediário entre comissão técnica e atletas. Pelaipe, que tem origem no futsal, deixou o Grêmio em 2012, onde estreou na direção de futebol. Nesses seis anos, passou por mais quatro clubes (Fortaleza, Flamengo, Criciúma e Vasco). No rubro-negro carioca, ganhou fama de disciplinador, redigindo uma “cartilha de conduta” aos jogadores. Na arquibancada, o reclamo do torcedor é por mais qualidade técnica do elenco para voltar à Primeira Divisão. Garra e dedicação não têm faltado.

O pulso ainda pulsa Por Marcio Mittelbach O Paraná respira por aparelhos na Série A. Mas se engana quem pensa que existe clima de derrota na Vila Capanema. Diante de uma posição assustadora na tabela, o negócio é mirar exclusivamente na próxima vitória, independente de onde ela nos levar. Não se trata de tapar o sol com a peneira, de acreditar que num passe de mágica o time vai jogar bola. Por uma questão de sobrevivência, o torcedor paranista aprendeu a não desistir jamais e se apegar à esperança. Embora o técnico Claudinei Oliveira não tenha conseguido nenhuma vitória até aqui, é nítido que o time assumiu outra postura sob o seu comando e é nisso que temos de nos agarrar. Uma vitória no Nordeste, diante do Sport, no próximo domingo, 29, pode nos dar a confiança necessária para encarar outros dois confrontos diretos na Vila Capanema, contra Chapecoense e Santos, e voltar a respirar na competição.

Tchau, ZR Por Roger Pereira O atleticano pode respirar aliviado. O Furacão não cai mais. Se fora de campo a vida atleticana segue turbulenta, nos gramados o time parece estar encontrando o caminho. Tarde demais para almejar algo mais no Brasileiro que não seja permanecer na primeira divisão, mas tempo suficiente para vislumbrar um final de ano tranquilo. Depois de chegar a ocupar a lanterna e de estar a seis pontos de deixar a zona do rebaixamento, o Atlético recuperou-se. Desde que Thiago Nunes assumiu a equipe e alguns reforços chegaram, o Furacão vem numa boa sequência, pontuando em quase todos os jogos e ultrapassando as equipes da parte de baixo da tabela. Com o inchaço das competições continentais, dá até para pegar a Sulamericana (que, aliás, o time segue na disputa, e bem, neste ano), mas o importante mesmo é que o fantasma do rebaixamento está sendo exorcizado.

É a defesa, estúpido...

Lucas Uebel | Grêmio

Sete entre os oito mais bem colocados no Brasileirão são os times que tomam menos gols Frédi Vasconcelos

O

s resultados ruins dos times brasileiros, principalmente contra os de primeiro nível da Europa, além da qualidade dos jogadores, tem muito a ver com questões táticas, principalmente o desprezo que se dá aos sistemas defensivos por aqui. Porém, uma boa olhada na tabela do Brasileirão revela que os times de maior sucesso são os que cuidam bem das suas redes. Dos oitos times que estão na frente do campeonato, sete têm média inferior a um gol sofrido por partida. A exceção é o Atlético Mineiro, que tomou 27 em 21 jogos. Na outra ponta, Grêmio (5º) é a defesa menos vazada, com 11 gols. Logo a seguir vem o Internacional (2º), com apenas 12 sofridos.

Marcelo Grohe, goleiro do Grêmio, defesa menos vazada do campeonato

Valorizando uma característica do futebol gaúcho, de forte marcação. Como diria o ex-jogador e treinador da seleção Brasileira Dunga, “é muito bonito e legal falar sobre o futebol arte, mas o que é isso? O goleiro fazer uma defesa, o zagueiro roubar uma bola também é arte. As jogadas vão acontecendo naturalmente”. Mas não são só os times gaúchos que vêm tirando vantagem de uma boa defesa. Desde que Felipão (também gaúcho) voltou a ser técnico do Palmeiras, há nove partidas o time não sofre

gols. O que ajudou a subir duas posições na tabela do Brasileirão. Na parte de baixo, no desespero contra o rebaixamento, a história é o inverso. Todos os times tomaram mais de um gol por partida, destaque para o Sport, que está em 18º e já teve a rede vazada 34 vezes. Pior que o time pernambucano só o Vitória da Bahia, que já levou 40 em 21 jogos. Está fora da zona do rebaixamento nesta rodada, mas apenas por um ponto de diferença. Se continuar a levar tanto gol, dificilmente se salva.

ACONTECE DE TUDO NA LIBERTADORES O Santos foi desclassificado da Libertadores, na terça-feira (28), depois de ter a partida interrompida aos 36 minutos do segundo tempo por falta de segurança. A torcida atirou bombas e outros objetos no gramado. Mas a confusão começou bem antes, quando o tribunal da confederação sul-americana de futebol, Conme-

bol, mudou o resultado da partida anterior contra o Independiente da Argentina. O jogo terminou empatado em 0 a 0, mas o tapetão decidiu mudar para 3 a 0 para os argentinos por conta da escalação de um jogador irregular pelos santistas. Com isso, com o novo 0 a 0, os argentinos estavam se classificando quando houve a confusão.

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