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Revolução bolivariana Sem casa sem na encruzilhada Minha Casa A partir desta edição, o Brasil de Fato MG apresenta uma série de reportagens sobre a situação da Venezuela. Nesta semana, reportagem fala dos ataques ao presidente Nicolás Maduro

Machismo em campo

Para acesso ao Minha Casa Minha Vida e outras políticas habitacionais, famílias precisam comprovar cinco anos de moradia em BH. Decisão do Conselho de Habitação atinge milhares

O futebol anda sendo palco de polêmicas relacionadas ao racismo e ao machismo. A bola da vez foi a afirmação infeliz do diretor do Cruzeiro sobre a bandeirinha Fernanda Colombo

Edição

Andreza Coutinho / Divulgação

Uma visão popular do Brasil e do mundo

Belo Horizonte, de 16 a 21 de maio de 2014| ano 1 | edição 38| distribuição gratuita | www.brasildefato.com.br | facebook.com/brasildefatomg Noronha Rosa

Protestos em Belo Horizonte

Rogério Hilário

Sindebel

Aumento em R$ 0,20 da tarifa de ônibus motivou protestos e audiência pública, que questionou legalidade do reajuste. Segundo dados da auditoria nas empresas, passagem teria que diminuir para manter margem de lucro garantida em acordo. Parlamentares pedem CPI para apurar motivo do aumento. Enquanto isso, servidores da Prefeitura mantêm paralisação por 15% de reajuste e melhorias nas condições de serviço prestado à população. Professores também decidem entrar em greve, a partir do dia 21, por piso salarial e solução para os prejudicados pela Lei 100 Páginas 3, 4 e 7


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Belo Horizonte, de 16 a 21 de maio de 2014

editorial | Minas Gerais

editorial | Mundo

Quem apoia a greve dos servidores da PBH?

Cristãos crucificados na Síria

São mais de 45 mil servidores da Prefeitura de Belo Horizonte. Trabalhadores responsáveis por cuidar pelo bom andamento dos serviços públicos da cidade, como professores, médicos, enfermeiras, agentes comunitários de saúde, agentes culturais, varredores e coletores de lixo, fiscais, secretárias e auxiliares de administração, assistentes sociais entre tantos outros profissionais. Destes, 36% , cerca de 15 mil, ganham entre R$ 1.000 e R$ 2.000. Valor que sabemos que é baixo. O problema maior, no entanto, talvez seja outro. Papa Francisco afirmou em rede social que “a desigualdade é a origem de todos os males sociais”. O que pensar então quando ficamos sabendo que pouco mais de 600 trabalhadores (cerca de 1% do total) ganham mais de R$15 mil? A população visivelmente não aguenta mais tanta desigualdade. O desconforto é grande. Mas a desigualdade é coisa antiga. Pode ser que seja preciso mais paciência, pois estamos caminhando para diminuí-la. Mas será isso verdade na

Para esse 1% que ganha mais de R$ 15 mil por mês, Lacerda concedeu, retroativo a janeiro, reajustes que chegam até 30% gestão de Marcio Lacerda? Para esse1%, que ganha mais de R$ 15 mil por mês, Lacerda concedeu, retroativo a janeiro, reajustes que chegam até 30%. E quanto ofereceu para os demais, aqueles que ganham R$ 1 mil? Apenas 5,56%, valendo só a partir de setembro. Os trabalhadores reivindicam não os 30% que foram dados aos amigos do prefeito, mas apenas 15%. Em greve há mais de uma semana, temos assistido a passeatas e manifestações, que, claro, atrapalham o trânsito. Os meios de comunicação criticam, e só falam sobre o prejuízo à população. Mas o prejuízo maior à população não é o desrespeito aos seus servidores públicos? Querer que os trabalhadores aceitem um reajuste que não repõe nem a inflação? Outras reinvindicações também exigem todo apoio da população, pois são para a melhoria dos serviços públicos tão solicitados nas ruas desde junho do ano passado. Os assistentes sociais da PBH pedem algo que é lei federal, uma jornada de trabalho máxima de 30 horas semanais. Uma equipe do Programa de Saúde da Família em BH chega a atender mais de cinco mil usuários do SUS, enquanto o Ministério da Saúde preconiza que cada equipe deve atender, no máximo, dois mil usuários. Para uma cidade melhor, será preciso tratar melhor os servidores públicos. É preciso saber de que lado estamos, se dos trabalhadores, ou dos gestores, como Lacerda, que beneficia só aqueles que já ganham tanto quanto ele.

A grande mídia não hesita em publicar cenas chocantes que atraiam leitores. Quando questionada, sempre alega que o “compromisso com a informação” está acima de tudo. E explica que o critério de escolha é o que satisfaz a curiosidade do público. Com essa lógica, que imagem seria mais “jornalística” do que a de cristãos que foram crucificados, à véspera da sexta feira santa! A notícia foi inicialmente veiculada na Rádio Vaticano por uma freira síria. Ela disse que cristãos que se recusaram a professar a fé muçulmana ou pagar resgate foram crucificados por jihadistas. De acordo com ela, os jihadistas “pegaram as cabeças das vítimas e jogaram futebol com elas”, e ainda “levaram os bebês das mulheres e os penduraram em árvores com os seus cordões umbilicais”. As fotos chocantes dos crucificados estavam disponíveis nas grandes agências de comunicação que, negando sua “lógica de informação”, resolveram omiti-las. Apenas as divulgaram co-

A grande mídia em sua manipulação cotidiana aumenta a proporção de fatos e omite ou reduz outros mo notícias secundárias, quando o Papa Francisco confessou ter chorado ao saber da notícia e ver as imagens. A razão é simples, os autores dos crimes na Síria são o principal componente das chamadas “Forças Rebeldes” que lutam contra a Ditadura de Bashar Assad. A divulgação traria à tona a crescente hegemonia de grupos fundamentalistas islâmicos na conformação do “Exército Rebelde”. Cenas violentas sobre este conflito geralmente são exibidas, mas sempre lançando genericamente a responsabilidade nas forças do governo Assad. Como neste caso não poderiam, optaram pela omissão. O episódio reforça a percepção de que toda a estratégia informativa dos grandes meios de comunicação está submetida aos interesses militares e geopolíticos. Como nos antigos parques de diversões que traziam como atração uma “Casa de Espelhos” que distorciam as imagens, a grande mídia em sua manipulação cotidiana aumenta a proporção de fatos e omite ou reduz outros. Como afirmou Fernando Lugo, o presidente paraguaio deposto por um golpe parlamentar em junho de 2012: “possivelmente, os novos golpes na América Latina não vão sair dos quartéis militares, mas das multinacionais e dos meios de comunicação”.

O jornal Brasil de Fato circula semanalmente em todo o país e agora também com edições regionais, em SP, no Rio e em MG. Queremos contribuir no debate de ideias e na análise dos fatos do ponto de vista da necessidade de mudanças sociais em nosso país e no nosso estado.

contato..................brasildefatomg@brasildefato.com.br para anunciar : publicidademg@brasildefato.com.br / (31) 3309 3304

conselho editorial minas gerais: Adília Sozzi, Adriano Pereira Santos, Beatriz Cerqueira, Bernadete Esperança, Bruno Abreu Gomes, Carlos Dayrel, Cida Falabella, Cristina Bezerra, Durval Ângelo Andrade, Eliane Novato, Ênio Bohnenberger, Frederico Santana Rick, Frei Gilvander, Gilson Reis, Gustavo Bones, Jairo Nogueira Filho, Joana Tavares, João Paulo Cunha, Joceli Andrioli, José Guilherme Castro, Juarez Guimarães, Laísa Silva, Lindolfo Fernandes de Castro, Luís Carlos da Silva, Marcelo Oliveira Almeida, Michelly Montero, Milton Bicalho, Neemias Souza Rodrigues, Nilmário Miranda, Padre Henrique Moura, Padre João, Pereira da Viola, Renan Santos, Rilke Novato Públio, Rogério Correia, Samuel da Silva, Sérgio Miranda (in memoriam), Temístocles Marcelos, Wagner Xavier. Administração: Valdinei Siqueira e Vinicius Moreno. Distribuição: Larissa Costa. Diagramação: Luiz Lagares. Revisão: Luciana Santos Gonçalves Editor-chefe: Nilton Viana (Mtb 28.466). Editora regional: Joana Tavares (Mtb 10140/MG). Repórteres: Maíra Gomes e Rafaella Dotta. Fotógrafa: Ana Beatriz Noronha. Estagiária: Raíssa Lopes. Endereço: Rua da Bahia, 573 – sala 306 – Centro – Belo Horizonte – MG. CEP: 30160-010.


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Aumento da tarifa pode motivar CPI TRANSPORTE Movimentos questionam estudos que apontam para o aumento em Noronha Rosa R$0,20 nas passagens Maíra Gomes Desde sábado (10), Belo Horizonte tem a tarifa de transporte mais cara do mundo, de R$2,85. O relatório da auditoria no transporte público realizada pela empresa Ernst & Young (EY) apontou para a necessidade de aumento para cobrir gastos com os investimentos do BRT/MOVE. No entanto, vereadores da oposição questionam relatório e contratos e exigem a realização de uma CPI dos Transportes em BH. “Se está mesmo tudo correto nas contas dos transportes, que seja realizada uma CPI. Derrote-nos, mas mostrando os documentos, tendo transparência e assim vão provar que estamos somente variando da mente”, ironiza o vereador Adriano Ventura (PT). Questionado por movimentos sociais e vereadores, o relatório foi finalmente debatido em audiência pública na Câmara dos Vereadores na manhã de quinta (15). Foram questionados os dados apresentados pela Prefeitura, que demonstram um prejuízo de R$ 25 milhões para as empresas concessionárias, justificando os reajustes na tarifa. De acordo com o contrato de concessão do transporte de BH, assinado em 2008 e em vigor até 2028, além de cobrir os custos, o sistema tem que garantir lucro, chamado de Taxa Interna de Retorno (TIR), que tem que ser 8,95%. Segundo o estudo da Ernst & Young , a taxa de retorno dos quatro consórcios que operam o sistema fica acima desse valor, com média de 11,98%. Seria necessária uma redução de 27,54% na tarifa para que as empresas não continuassem com um lucro maior que o previsto. No entanto, o mesmo documento aponta que os custos com a implantação do BRT/MOVE acabaram por aumentar os gastos das empresas e os investimentos realizados devem ser repostos através das tarifas. Para tal, o relatório propõe um reajuste de 2,97% sobre a tarifa de R$ 2,65, o que levou ao valor de R$2,85 aplicado desde o início desta semana. BRT abaixa custos “800 ônibus serão tirados de circulação com o BRT. As empresas não terão custo com 3.200 trabalhadores. Deveria ter redução da passagem de ônibus e não aumento. Sem falar em combustível, pneus, essas coisas”, argumenta o vereador Gilson Reis (PCdoB). Na audiência pública, o diretor de Transporte Público da BHTrans, Daniel Marx Couto, admitiu que os custos do BRT/MO-

Na quinta-feira (15) cerca de mil pessoas fecharam as ruas de Belo Horizonte em protesto pelo aumento da tarifa. Foi a segunda manifestação nesta semana e movimentos prometem continuar

BH tem a tarifa mais cara do mundo Para comparar o valor das tarifas em diversas cidades, não basta converter as moedas, mas calcular a partir do salário médio do município. Esse cálculo leva em consideração quantos minutos de trabalho um cidadão leva, em média, para pagar a tarifa. Os economistas Samy Dana e Leonardo Siqueira fizeram esse cálculo em junho de 2013 e concluíram que São Paulo e Rio de Janeiro tinham as tarifas mais caras do mundo. Mas, agora, com a tarifa a R$ 2,85, Belo Horizonte passou na frente. Um belo-horizontino leva quase 20 minutos de trabalho para pagar uma passagem, considerando um salário médio de R$ 1.905,40 (IBGE). VE são menores que os de linhas convencionais, mas afirmou que investimentos devem ser ressarcidos. O promotor Eduardo Nepomuceno, responsável pelo caso no Ministério Público de MG, aponta que já está previsto nos contratos com as empresas de transporte a atualização, modernização, renovação da frota e serviço. Assim, a implantação do BRT/MOVE não gera uma alteração que deva ser ressarcida. “O BRT não caracterizou nenhuma alteração na prestação do serviço, tanto que não teve aditivo contratual. Foi tratado por ambas as partes como incidente regular do contrato”, explica o promotor. MP também questiona Depois do anúncio de aumento da tarifa no dia 2 de abril, o MP en-

trou com um pedido judicial de suspensão do aumento, alegando irregularidades técnicas nos documento da Ernst & Young que justificam o aumento. O pedido foi acatado pela Justiça. No entanto, as empresas descumpriram com a decisão judicial e cobraram o valor de R$2,85 durante um domingo (6/4). Segundo André Veloso, militante do movimento Tarifa Zero, as empresas tiveram um lucro de aproximadamente R$80 mil irregularmente e podem ter que pagar uma multa de R$1 milhão pelo descumprimento. No dia 08 de maio, o juiz da 4° Vara de Feitos da Fazenda Pública Municipal, Renato Luís Dresch, revogou a decisão de suspensão do aumento, autorizando alteração na tarifa.

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Pergunta da semana Durante o clássico entre Cruzeiro e Atlético realizado no domingo (11), a bandeirinha Fernanda Colombo Uliana assinalou impedimento para a equipe celeste aos 41 minutos de jogo. O ataque, caso não fosse interrompido, poderia levar a equipe celeste - que perdia a partida - ao empate. O problema é que a posição do centroavante Alisson, que comandava a jogada, era regular. Revoltado com a marcação, o dirigente do Cruzeiro Alexandre Mattos declarou: “Essa bandeira é bonitinha, mas não está preparada. (...) Tem que ser boa de serviço. O erro dela foi muito anormal. Se é bonitinha, que vá posar para a [revista] ‘Playboy’, não trabalhar com futebol”. A frase de Mattos gerou revolta entre mulheres e movimentos feministas por todo país. O Brasil de Fato MG pergunta:

Qual sua opinião sobre a afirmação do dirigente do Cruzeiro?

A declaração dele foi totalmente infeliz. Inclusive, ele se retratou, né? Isso que o diretor disse não tem nada a ver. Do jeito que ela errou todos erram, só porque é uma “mulher bonita” não quer dizer nada. Davison Menezes, 63 anos, porteiro

desfile da luta antimanicomial A escola de samba Liberdade Ainda que Tan Tan vai embalar as ruas centrais da cidade reivindicando uma sociedade sem manicômios. O desfile será no dia 19 de maio, às 14h na Praça da Liberdade, com destino à Praça da Estação. Com o tema “A Cidade que queremos: seja feita a nossa vontade!”, a manifestação político-cultural traz a pauta da cidade enquanto espaço de reencantamento e acolhimento da diversidade. Para isso, é preciso mudar o cenário, criando dispositivos onde caibam as singularidades fora dos padrões e que se oponham à segregação.

É absurdo, mas infelizmente é a realidade, a gente vive num país machista. Ao invés de responsabilizar quem realmente deveria, todo mundo responsabiliza a mulher. É ridículo uma situação dessas, porque a mulher é completamente capaz. Vários bandeirinhas homens já erraram e ninguém mandou eles posarem pra G Magazine por causa disso, né? Camila Moreira, 27 anos, assistente administrativa


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Diante do desrespeito da Prefeitura, servidores continuam em greve CICLO BRASIL DE FATO Movimentos organizam espaço de formação sobre problemas e soluções para as cidades Bráulio Siffert Em total desrespeito com os trabalhadores e com a população, a prefeitura inicialmente tentou fingir que a greve geral nos serviços públicos não existia, e nesta quarta (14), apresentou uma proposta desrespeitosa, que por unanimidade foi rejeitada pelos servidores em assembleia geral realizada na Praça da Estação. Assim, continua a greve de todos os servidores públicos municipais de Belo Horizonte, que começou no dia 6 de maio. Uma nova assembleia geral está marcada para o dia 20 de maio, às 9 horas, na Praça da Estação. A “nova” proposta da prefeitura não altera em praticamente nada a que já havia sido apresentada. A única diferença é que o reajuste salarial de 5,56% e o aumento de R$ 1 no vale-alimentação começariam a incidir em setembro, e

não em outubro. Essa antecipação de um mês, mas com manutenção dos baixíssimos índice de reajustes, não repõe sequer a inflação acumulada e não mudaria em nada a péssima situação salarial da maioria dos servidores. Tratamento diferenciado

A maior parte dos funcionários da prefeitura de BH ganha cerca de R$ 1.500, enquanto 1% de privilegiados - auditores fiscais e procuradores, por exemplo - ganham acima de R$ 20 mil. E o pior é que para esses “marajás”, a prefeitura concedeu, com retroatividade a janeiro de 2014, um reajuste de cerca de 30%. “Para os garis terceirizados das empreiteiras, a prefeitura concedeu 14% de reajuste e aumento do vale-alimentação de R$ 17 para R$ 20, o que é extremamente justo; porém é um absurdo, por exemplo,

sindibel

que garis efetivos da Superintendência de Limpeza Urbana (SLU), muitos dos quais estão há mais de 30 anos na prefeitura, ganhem menos do que os terceirizados e recebam uma proposta que aumentaria apenas cerca de R$ 50 por mês”, exemplifica Israel Arimar, presidente do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Belo Horizonte (Sindibel). Greve por melhorias nos serviços públicos

A decisão por entrar em greve não foi tomada pelos servidores apenas pela necessidade de melhoria salarial, mas também como um grito de desespero contra as péssimas condições dos serviços e equipamentos públicos e contra a falta de medicamentos, unidades de saúde, escolas e materiais para atender à população. “Tratando desse modo os servi-

ços públicos e priorizando gastos que não refletem diretamente no bem-estar da população, o prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda, vem desrespeitando não só os trabalhadores, mas também todo o povo belorizontino e todos que precisam dos serviços desta cidade”, avalia Israel.


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PBH restringe acesso à política habitacional MINHA CASA MINHA VIDA Para acesso ao programa, famílias precisam comprovar cinco anos de moradia na cidade Maíra Gomes Na última reunião do Conselho Municipal de Habitação, realizada dia 8 na sede da Companhia Urbanizadora e de Habitação de Belo Horizonte (Urbel), foi aprovada a obrigatoriedade de comprovação de moradia na capital por cinco anos para que uma família tenha acesso a políticas habitacionais, como o Minha Casa Minha Vida. Antes da votação, eram necessários apenas dois anos. “Já era difícil comprovar dois anos, com cinco anos vai ficar ainda mais difícil. Sabendo disso, as famílias vão se sentir ainda mais injustiçadas e podem acabar desistindo”, afirma Luciene Pereira de Souza Gudes, conselheira suplente pelo Movimento de Moradia de BH. Toda a população sem casa acaba atingida pela mudança, mas principalmente aqueles que tiveram que sair da cidade por dificuldades financeiras, após anos de moradia em BH, os que acabam de chegar em busca de uma vida melhor na capital ou os que moram em ocupações irregulares, que têm imensa dificuldade em conseguir comprovação de residência. “Essa aprovação é um golpe nas pessoas que têm mais necessidade de moradia, pois nem sempre está morando na cidade ou não tem como comprovar endereço. Quem mora em periferia, de favor ou aluguel não tem comprovante de endereço em seu nome. Não adianta procurar a unidade de saúde porque muitas vezes não consegue”, conta Ednéia Aparecida de Souza, militante do Movimento de Moradia de BH. Ela conta que pessoas que já foram sorteadas para acesso às unidades do Minha Casa Minha Vida na cidade aguardam a entrega das casas em outras cidades da Região Metropolitana, que têm valo-

res de aluguel mais acessíveis. Para o conselheiro Bruno Vieira, militante do Movimento Nacional de Luta pela Moradia, já existem critérios suficientes para fazer uma seleção justa, como a obrigatoriedade de participação em um núcleo de moradia por pelo menos três anos, estar em moradia de risco, ter algum deficiente na família e outros. “A esperança com o Minha Casa Minha Vida era de que a prefeitura pudesse atender mais rapidamente às famílias. A obrigatoriedade de cinco anos serve apenas para dificultar”, lamenta. O advogado e integrante das Brigadas Populares Joviano Mayer aponta que a aprovação de obrigatoriedade de cinco anos de moradia na cidade foi um ato incons-

A Prefeitura aponta que são 62 mil famílias sem casa na cidade, no entanto, militantes dos movimentos afirmam que mais de 200 mil já se cadastraram no programa Minha Casa Minha Vida titucional por parte do Conselho. “Qualquer ato administrativo que tenda a excluir uma parcela da população, a reduzir a abrangência de uma política pública, é inconstitucional”, declara. Joviano denuncia que o impedimento de pessoas que vivem há menos de cinco anos em BH cria uma política de ainda mais segregação. Falta muita moradia em BH

Segundo integrantes dos movimentos e moradia de BH e região, o tempo médio de espera na lista para o Minha Casa, Minha Vida é de Reprodução Dandara

Ocupação Dandara é uma das formas de moradia considerada irregular; moradores podem ficar de fora de programas

Noronha Rosa Divulgação

Pessoas que não podem comprovar endereço, como os moradores de rua, estão impedidas de ter acesso a políticas habitacionais em BH

cinco anos, mas há quem já tenha dez anos de inscrição sem ter sido contemplado. Desde o lançamento do programa em BH, em 2009, foram realizados apenas dois sorteios, no fim de 2012 e início deste ano, em janeiro. “Nesses cinco anos não foram entregues nem cinco mil unidades habitacionais, isso é muito pouco. A prefeitura demora a viabilizar o terreno, dá uma contrapartida muito baixa. Para melhorar o cenário, os governos estadual e municipal deveriam entrar com contrapartidas”, destaca o conselheiro Bruno. Ele conta que desde a década de 90, o governo estadual não faz nenhum investimento em moradia para Belo Horizonte. A questão é que Belo Horizonte precisa de muito mais que isso para resolver a falta de moradia para seus cidadãos. Segundo estudo realizado pela Fundação João Pinheiro, em 2007, o déficit habitacional em Minas Gerais é de 721 mil mo-

radias e na região metropolitana de Belo Horizonte de 173 mil. A Prefeitura de BH aponta que são 62 mil famílias sem casa na cidade, no entanto, militantes dos movimentos afirmam que os mais de 200 mil cadastrados no programa Minha Casa, Minha Vida apontam para a real necessidade. “Não existe mais política habitacional em BH. Tinha um esboço do que poderia ser, o orçamento participativo da habitação, que nasceu com a administração do Patrus em 93. E foi perdendo qualquer capacidade de atender o déficit habitacional”, conta Joviano. Ele conta que a única coisa que há é o programa Minha Casa Minha Vida, que ele diz que está nas mãos de empresários. “Não vemos isso como uma política habitacional. É política econômica, pode ser considerada eleitoreira, mas com certeza não está preocupada em resolver o déficit habitacional”, critica.

Votação feita à revelia Apesar de conselheiros terem apontado a possibilidade de adiar a votação do ponto sobre tempo mínimo de moradia para acesso a políticas de habitação, na reunião do dia 8, representantes do poder público passaram o ponto e aprovaram os cinco anos. Durante a votação, foi pedido que o ponto passasse a ser discutido na 7° Conferência de Habitação, que será realizada em junho. No entanto, o debate não foi considerado pelo presidente do Conselho. “Eles não abriram a discussão e não explicaram o porquê. Ele [presidente do Conselho, Coronel Bicalho] impôs a votação”, conta Cleusa do Nascimento, do Centro de Apoio aos Sem Casa da Arquidiocese de BH. Movimentos denunciam que o Conselho de Habitação não é paritário, ou seja, tem mais votantes do poder público do que da sociedade civil, quando deveria ser a mesma quantidade. “Acaba que a Prefeitura e os empresários têm a maioria dos votos. De 20 conselheiro, eles têm pelos menos 12 votos. A votação foi legítima, mas faltou discussão. Vamos tentar reverter dentro do próprio conselho, após debate na Conferência”, diz Bruno Vieira.


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Protesto contra a Copa é realizado em todo país

Noronha Rosa

Thaíne Belissa Portal Minas Livre Milhares de pessoas saem às ruas do país, nesta quinta-feira (15), data marcada pelo Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa (Ancop) como “Dia Internacional contra a Copa do Mundo”. O ato foi inspirado pelo Encontro Nacional dos Atingidos por Megaeventos, ocorrido em Belo Horizonte no início deste mês, e vai reunir diferentes movimentos contra as violações dos direitos humanos em decorrência da Copa.

As manifestações acontecerão nas sete cidades-sede do torneio mundial, em Vitória, Espírito Santo e em Santiago, no Chile. Elas reunirão movimentos de luta pela moradia, pelo transporte público democrático, sindicatos, movimentos em defesa da mulher, coletivos de estudantes e muitos outras representações da sociedade. Entre as reivindicações estão o arquivamento dos projetos de lei anti-manifestação, a desmilitarização das polícias, pensão vitalícia para as famílias dos operários mortos e incapacitados em acidentes de trabalho e a responsabilização das construtoras. Além disso, a realocação de to-

das as famílias removidas, com moradia digna, e o fim dos despejos e remoções forçadas até que a moradia seja garantida para todos, investimentos em um transporte público

de qualidade gratuito e a democratização dos meios de comunicação, com ênfase nas transmissões dos jogos, que será feita com exclusividade pela Rede Globo.

Quem são ELLAS? FEMINISMO Encontro Latino-americano de Mulheres vai até domingo, em BH Fernanda Quevêdo O novo mundo é feminino, está em gestação e em disputa. Estamos vivendo um grande salto de consciência no Brasil. As redes e as ruas debatem e reivindicam, incessantemente, mais direitos, justiça e transparência. Questões como gênero, direitos humanos, sexualidade, cultura e comportamento nunca estiveram tão no foco das discussões. É nesse contexto de ressignificações e questionamentos que o ELLA ­Encontro Latinoamericano de Mulheres

será realizado de 15 a 18 de maio, em Belo Horizonte. “Mulheres de 11 países da

América Latina se reúnem para debater, refletir e apresentar novas leituras de temas históricos

e contemporâneos das lutas de gênero, que são pautas fundamentalmente humanas. O tema, além de urgente, trata de questões culturais profundas e enraizadas na maioria das sociedades de todo o mundo. Temos um grande desafio pela frente”, explica Raíssa Galvão, da organização do encontro. O evento acontece no Espaço CentoeQuatro , no Centro de Belo Horizonte (MG) e conta com programação colaborativa, além de debates, rodas de conversas, apresentações artísticas, reuniões e vivências. As atividades são gratuitas.


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Ensino médio reinventado? POLÊMICA Governo estadual implantou mais aulas e professores acreditam que o resultado pode afastar os jovens das salas de aula Noronha Rosa

Rafaella Dotta O Programa Reinventando o Ensino Médio inseriu uma aula a mais em todos os dias letivos do 2º grau das escolas públicas. O objetivo, de acordo com o site da Secretaria de Educação de Minas Gerais, é ter um “currículo mais integrado ao mercado de trabalho”. Quatro meses depois da implantação, opinião de professores, estudantes, pais e governo são contrastantes, e apontam problemas que, se não forem resolvidos, podem levar a maior evasão no ensino médio. Esperança x desânimo Maria do Socorro foi uma das mães que compareceram às reuniões realizadas pela Secretaria de Educação no início deste ano, para escolher as novas matérias que o seu filho teria. Foram apresentadas aos pais cinco áreas de empregabilidade e cada escola optou por três delas. “É bom para os meninos, porque eles já vão conhecendo alguma coisa pra entrar no mercado de trabalho”, opina Maria do Socorro. Já Samuel Vitor, filho de Maria do Socorro e aluno do 1º ano na Escola Estadual Dom Cabral, diz que o programa não traz novidade. “O professor não passa o conteúdo direito, ou às vezes não tem aula por falta de professor. Então, não mudou nada, é a mesma coisa de antes”, avalia. Perguntado sobre a opinião dos alunos, ele afirma que ficaram “revoltados” em ter mais uma aula desse tipo.

Alunos e pais criticam que, na prática, a educação continua precária

Professores reclamam Há dois anos, o governo estadual começou a elaborar o programa, divulgando aos professores que ele seria uma reformulação do ensino médio em Minas Gerais, conta Júnia Grossi, professora do estado há 12 anos. Naquele momento, a promessa era contratar profissionais para ensinar as cinco novas matérias: Meio Ambiente, Empreendedorismo e Gestão, Tecnologia da Informação, Comunicação Aplicada e Turismo. “Pra nossa surpresa, quando o Programa começou, o governo disse que qualquer professor poderia tentar, sem capacitação nenhuma”, afirma Júnia. Os próprios professores da rede estadual pegaram essas aulas, para servir como complementação do salário, mas nenhum deles tem ou teve curso de capacitação. “O estudante vê a propaganda na televisão, mas quando vem à escola e percebe que não tem o efeito que estava esperando, ele desanima. Isso pode causar um esvaziamento da escola”, acredita a professora. A Secretaria de Educação de Minas Gerais assegurou que a capacitação dos 20 mil professores do Programa ainda será realizada. Segundo Cynara Quintão, gerente do Reinventando o Ensino Médio, o curso será semipresencial e em parceria com o Ministério da Educalção. “Esse curso propõe que o professor receba uma bolsa, o que é mais burocrático, e por isso ainda não iniciou”,

disse Cynara. Outras necessidades Para iniciar o Reinventando, a gerente do Programa afirma que, primeiro, foi feita pesquisa com 11 escolas da região norte de Belo Horizonte. A partir disso, a Secretaria de Educação elaborou uma reformulação da proposta pedagógica do ensino médio, pois, de acordo com Cynara, “a escola não existe se ela não tiver uma proposta pedagógica”. Beatriz Cerqueira, presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Educação (SindiUTE-MG), acredita que antes, a escola precisa de melhorias para que a proposta dê certo. “As escolas estão sem laboratórios, sem professores, com curso de Tecnologia da Informação sem computadores, por exemplo”, afirmou. Beatriz também lembra que os professores da rede estadual continuam com salários abaixo do piso e com condições precárias de trabalho. O representante dos secundaristas de Belo Horizonte, Lincoln Emanuel, da AMES-BH, afirma que também é urgente dar atenção aos problemas que os estudantes estão passando, dentro e fora da escola. “Com o Reinventando, os alunos ficam seis horas na escola e a merenda não foi ajustada. Tem gente que vai embora com fome”, lembra. Problemas como transporte, horário de trabalho e preparação adequada para o Enem também são preocupações citadas por Lincoln.

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fatos em foco Professores se mobilizam Em assembleia realizada na terça-feira (13), os professores de escolas particulares de Belo Horizonte e região reafirmaram a pauta de reivindicações da categoria e voltaram a recusar a proposta patronal de reajuste de 6,02%. Além disso, denunciaram a pressão e assédio moral praticados pelas direções, com o objetivo de desmobilizar a categoria. Já na quinta-feira (15), servidores públicos da educação realizaram assembleia estadual no pátio da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), para elaboração de estratégias para o calendário de luta da Campanha Salarial 2014. Houve paralisação total das atividades e indicativo de greve por tempo indeterminado a partir do dia 21 de maio. Os trabalhadores reivindicam pagamento do piso salarial, descongelamento da carreira, direito a férias-prêmio e também cobram do governo uma agenda de reuniões para discussão da situação dos efetivados, designados e concursados afetados pela Lei Complementar 100/2007. Servidores da rede municipal de educação de algumas cidades da Região Metropolitana estão em greve desde o mês de abril. Em Contagem, os professores ainda não têm previsão para o retorno das atividades. Em Betim, foi realizada audiência pública no início de maio para criticar o não cumprimento de acordo com a prefeitura. O documento contém 61 reivindicações. Servidores da saúde cobram acordos não cumpridos Trabalhadores da saúde aprovaram greve a partir do dia 27 de maio, em assembleia geral realizada na quarta-feira (14). A maioria das reivindicações diz respeito a acordos não cumpridos pelo governo e demandas que foram discutidas durante anos, mas não foram implementadas. Entre elas estão a redução da jornada de trabalho para 30 horas semanais e revisão do plano de carreira. Caso o governo não responda às exigências, os servidores prometem parar os serviços de atendimento da saúde em todo o estado, a menos de 20 dias da Copa. A mobilização envolte os servidores da Fhemig, Fundação Ezequiel Dias (Funed), Escola de Saúde Pública (ESP), Fundação Hemominas e Secretaria Estadual de Saúde (SES/MG).


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Foto da semana

Acompanhando

PARTICIPE Viu alguma coisa legal? Algum absurdo? Quer divulgar?

Mande sua foto para redacaomg@brasildefato.com.br.

Ricardo Lima

Na edição 37...

Trabalhadores rurais discutem violação dos direitos humanos em Jequitaí ...E agora

Festa da abolição realizada na Comunidade dos Arturos, nos dias 10 e 11 de maio. Quilombolas residentes em Contagem, os arturos são descendentes do escravo Artur Camilo, que chegou em Minas Gerais no fim do século XIX para trabalhar em fazendas localizadas no município de Esmeraldas. Através de celebrações que fazem memória aos santos/as negros/as, a comunidade preserva a cultura e as tradições dos negros africanos trazidos para o Brasil no período escravista.

Aloísio Lopes

Fernando Brito

Em Minas, acesso à informação pública ainda é restrito

O “padrão Fifa” dos Marinho

A Lei Federal 12.527/11, que regula o direito de acesso dos cidadãos à informação pública, é uma importante conquista da sociedade. Permite que qualquer pessoa solicite informações sobre qualquer tema aos poderes públicos federal, estaduais e municipais. Embora seja essencial para a transparência na administração pública e para o combate à corrupção, a implantação da lei encontra dificuldades em Minas. Muitos órgãos públicos ainda não disponibilizam as informações em suas páginas na internet e no atendimento a pedidos de acesso à informação, há descumprimento do prazo legal de 20 dias, com prorrogação por mais 10 dias. Há casos de mais de um ano de demora, como o de informações solicitadas à Corregedoria da Polícia Militar, ou mesmo com a negativa de acesso à informação, com justificativas desarrazoadas, como da empresa pública estadual Codemig, à qual solicitei cópia do contrato de arrendamento da exploração das jazidas de nióbio de Araxá para a empresa CBMM. Obtive a resposta de que a empresa, por não contar com recursos do Tesouro do Estado, se via desobrigada a atender ao meu pedido. Ora, os recursos que mantêm a Codemig e seus investimentos, como a construção da Cidade Administrativa, são originários de parte do lucro da exploração do nióbio pela CBMM, devidos ao Estado, e por isso são recursos públicos, embora não sejam originários do orçamento do Estado. Terá caroço nesse angu? Na maioria dos municípios mineiros, a lei federal ainda não foi regulamentada. Onde foi, como em Belo Horizonte, algumas limitações são motivo de ação judicial, como o acesso à planilha de custos da empresas de transporte coletivo. Quanto mais usada a Lei, mais chance ela tem de pagar. Use-a, portanto. Aloísio Lopes é editor do Minas Livre e membro do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação

A Revista Forbes divulgou a lista das 15 mais ricas famílias do Brasil. E, claro, ninguém supera a Família Marinho, dona do Império Globo, aquele que não mostra o registro do imposto que sonegou na compra dos direitos da Copa de 2002. A revista registra a fortuna de US$ 28,9 bilhões para triunvirato João Roberto, José Roberto e Roberto Irineu, todos Marinho. O curioso é que a Globo perde audiência e ganha dinheiro, inclusive o meu, o seu, o nosso, via governo federal, sobre o qual fatura R$ 1 bilhão por ano. Os três Marinho, montados nessa fábula de dinheiro, são os mesmos que mandam seu jornal escrever editoriais contra o reajuste do salário mínimo, alegando que “cada R$ 1 a mais no salário mínimo (representa) injetar quase R$ 340 milhões adicionais na conta da despesa pública”. Ora, só o imposto que, comprovadamente sonegaram – mais de R$ 1 bilhão, em valores de hoje – na Copa de 2002, já daria para dar R$ 3 a cada trabalhador. Que dirá se o que tem amealhado fosse distribuído: nada menos que um aumento de R$ 188,23. Isso daria um salário mínimo de R$ 912, quase um “padrão Fifa”. Dinheiro que você lhes dá quando compra desde pasta de dentes até papel higiênico, porque tudo embute o “IPG – o Imposto da Propaganda na Globo”, que vem no preço. Os Marinho são os líderes de um grupo de 15 famílias - cerca de 100 pessoas -que detêm, sozinhas, 5% de toda a riqueza brasileira, ou o equivalente a R$ 269 bilhões. A própria Forbes diz que, no Brasil, sua lista de bilionários tem de ser feita por famílias, porque as maiores fortunas são, quase sempre, partilhadas em grupos familiares. Aqui nós não temos o famoso “1%”. As “famílias” têm só 0,0000005% (cinco milionésimos de um por cento) da população para 5% da riqueza. Por isso é que precisam, desesperadamente, para ficar com o bolso assim, fazer a cabeça de quem vota com o estômago. Fernando Brito é editor do blog www.tijolaco.com.br

A audiência pública realizada para discutir a garantia dos direitos das populações atingidas pelo Projeto Hidroagrícola Jequitaí reuniu cerca de 500 pessoas. Os atingidos pelo programa expuseram suas queixas e os abusos sofridos aos representantes do poder público. Representantes de movimentos sociais pediram a imediata paralisação das obras da Barragem Jequitaí I até que o direito dos atingidos estejam assegurados. Além da solicitação, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) entregou documento com mais quatro sugestões de encaminhamentos, entre elas a criação de uma comissão de negociação e promessa de tempo hábil para que haja análise da lista dos atingidos. Na edição 37... Governo não dá resposta a trabalhadores da Copanor ...E agora Na edição passada, publicamos uma matéria sobre os 40 dias de greve dos trabalhadores da Copanor, filial da Copasa que atende o norte e nordeste de Minas. Na última segunda-feira (12), reunião no Ministério do Trabalho não teve a presença da Copanor, que informou a retirada da proposta de reajuste do salário e cesta básica feita anteriormente. Em audiência pública na Assembleia Legislativa na terça-feira (13), os trabalhadores realizaram mais uma denúncia sobre a empresa, afirmando que está havendo contratação de trabalhadores terceirizados, o que é proibido por lei. O sindicato que representa os grevistas (Sindágua) afirmou que, em assembleia na terça-feira (13), os trabalhadores decidiram pela continuidade da greve e que aguardam reunião a ser convocada pelo Ministério Público do Trabalho.


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“Não se pensa o lugar dos pobres em Belo Horizonte” HABITAÇÃO Defensora pública explica que direito à moradia inclui infraestrutura adequada, que deve ser garantida Maíra Gomes

Noronha Rosa

Por que o direito à moradia é um direito humano? Porque é na moradia que o ser humano tem espaço de exercer sua dignidade. A moradia é uma necessidade para recompor as energias depois de um dia de trabalho. É ali o âmbito da família, do relacionamento com os entes queridos. Morar é um direito humano, e os tratados internacionais falam que a moradia tem que ser adequada. É importante a gente pensar: as ocupações garantem uma moradia adequada? Elas

A Defensoria Pública de Belo Horizonte tem sido muito provocada a trabalhar para soluções do atual déficit de moradia na cidade. “Essas demandas quase tomaram conta da minha agenda”, afirma a defensora Cleide Nepomuceno. Nesta entrevista, ela conta como está a situação do direito à moradia em Belo Horizonte e como a justiça trata os casos. Fala também das dificuldades que os moradores de ocupações urbanas passam diariamente para ter acesso a outros direitos, como educação, saúde e da relação com o Estado.

“As ocupações garantem uma moradia adequada? Elas são o ideal? Na verdade não são. O ideal era que o pobre tivesse uma terra infraestruturada”

Brasil de Fato - Como está o cenário de luta por moradia em Belo Horizonte? Cleide Nepomuceno - Desde o sur-

gimento da capital, aos pobres não restam alternativas senão a ocupação de áreas que não eram planejadas, dando início às primeiras favelas. Primeiro, a política era de remoção, sem previsão de qualquer reassentamento. Em 1983, com a política do pró-favela, o município começou a consentir que essas favelas fossem consolidadas e começou a fazer políticas de regularização e urbanização. Hoje, existe o programa Minha Casa Minha Vida, mas

“Desde o surgimento da capital, aos pobres não restam alternativas senão a ocupação de áreas que não eram planejadas, dando início às primeiras favelas” há 5 ou 6 anos não tinha programa nenhum para construção de moradia. Esse cenário de falta de políticas de acesso à moradia para solucionar o déficit quantitativo é o contexto no qual surgiram várias ocupações, como a Dandara, a Camilo Torres, a Irmã Dorothy, sem falar de outras mais antigas e outras de dois anos pra cá. Quais são as políticas de habitação hoje? Há o Minha Casa Minha Vida, um programa federal construído com o apoio dos municípios. O município é o ente responsável por indicar os beneficiários. Além disso, para que os empreendedores possam construir os apartamentos com recursos subsidiados, o município tam-

A defensora pública Cleide Nepomuceno

bém precisa ajudar na doação de terrenos. Tem-se construído, é fato, mas a quantidade de apartamentos ainda não é suficiente para atender à demanda. Haja vista que esses apartamentos são sorteados, se é sorteio é porque é uma demanda maior. O número de ocupações que estão ocorrendo em Belo Horizonte e em Contagem também são pro-

“Os apartamentos do Minha Casa Minha Vida são sorteados. Se é sorteio é porque é uma demanda maior” vas de que a demanda habitacional ainda é muito grande. Não há políticas suficientes para se pensar no lugar dos pobres na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Muitos imóveis estão vazios só por especulação imobiliária. A professora Ermínia Maricato, que esteve semana passada em Belo Horizonte, afirmou que as nossas leis instituem o direito à moradia como absoluto e o direito à propriedade como relativo, mas a nossa Justiça inverte a situação.

“O Judiciário tem sido bem conservador ao conceder a reintegração de posse em nome do proprietário em detrimento daqueles que ocupam a terra em nome do seu direito à moradia” Você, que tem a função de levar esses assuntos até a Justiça, como vê o tratamento do Judiciário com a luta de moradia? O Judiciário tende a ver o direito da propriedade como um direito absoluto. A gente ainda tem muita dificuldade de convencer o Judiciário de que, na hora de o proprietário pedir uma reintegração, ele tem que discutir a posse. Aquele proprietário tinha posse do imóvel? O imóvel cumpria sua função social? Não é simplesmente dar a posse a quem tem a propriedade. O Judiciário tem sido bem conservador ao conceder a reintegração de posse em nome do proprietário, em detrimento daqueles que ocupam a terra em nome do seu direito à moradia.

são o ideal? Na verdade não são. O ideal é que o pobre tivesse uma terra infraestruturada. O que é isso? Que ele tivesse direito de construir a sua casinha no seu lote, um lote dotado de água, luz, saneamento básico, ou então tivesse condição de adquirir sua casa ou seu apartamento. Isso é uma moradia adequada. Mas uma vez que as políticas públicas de acesso à moradia são ineficazes, as ocupações têm sido uma alternativa de solução para a moradia. Como você vê as perspectivas da luta por moradia em BH? Eu sou uma otimista incorrigível. Acredito que é possível solução. Hoje há recursos federais pra isso. E eu acho que as próprias pessoas organizadas, hoje, não vão admitir mais que não tenha lugar pra elas. Não é possível a gente admitir mais uma remoção que não preveja uma alternativa de moradia. Então, eu tenho esperança que Belo Horizonte possa ser pioneira em achar uma solução mediada para todas as ocupações urbanas em seu território.

Ciclo de debates O Ciclo de Debates sobre Reforma Urbana acontecerá todas as quartasfeiras de maio. No dia 21, o tema será Mobilidade Urbana, com exposição de André Veloso e Mariana Rebelatto, arquiteta do Coletivo Fora do Eixo. A entrada é gratuita. O debate será no Sindibel (avenida Afonso Pena, 726, 18º andar), às 19h.


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Aumento da mineração pode dificultar acesso à água NOVO CÓDIGO Projeto de Lei não leva em conta os impactos socioambientais, como contaminação de rios e expulsão de Reprodução comunidades Pedro Rafael Vilela de Brasília (DF) O novo Código da Mineração, que está em discussão no Congresso Nacional desde o ano passado, deve provocar danos ambientais e sociais em centenas de cidades brasileiras ao longo dos próximos anos. A meta do governo federal é aumentar das atuais 3,4 mil para cerca de 14 mil minas abertas em todo o país. O avanço da mineração deve afetar comunidades já marginalizadas, como áreas indígenas e quilombolas, assentamentos de trabalhadores rurais e zonas urbanas. O mineroduto Minas-Rio, por exemplo, que tem 525 km de extensão, foi construído pela empresa Aglo Ferrous Brazil para escoar uma produção anual de 26,5 milhões de toneladas de minério de ferro, provenientes da mina de Conceição do

Mato Dentro (MG). Para chegar ao destino, o Porto de Açu, no Rio de Janeiro, o mineroduto corta 32 municípios mineiros e fluminenses, e já desalojou dezenas de famílias de suas casas sem reassentá-las. Além de perderem suas casas, os atingidos pela mineração e a população que vive nas cidades mineradas sofrem impactos ambientais. Os minerodutos funcionam por meio da pressão da água. Em média, são necessários 8 milhões de metros cúbicos de água, o equivalente a 3.200 piscinas olímpicas, para transportar os minérios. É quase a metade do consumo mensal de água em Belo Horizonte. “A mineração é uma atividade que não convive bem com outras. Onde você tem as cavas, não tem como ter moradia, tem as explosões, poluição do ar, muita circulação de carros, contaminação de rios e prejuízo da produção agríco-

Movimentos querem afastar relator e adiar projeto de lei Na próxima semana, movimentos sociais, sindicatos e organizações da sociedade civil vão se reunir em Brasília para discutir a tramitação do projeto de lei do novo Código da Mineração. O objetivo é aumentar a pressão para que a Câmara dos Deputados instaure investigação por quebra de decoro parlamentar do deputado Leonardo Quintão (PMDB-MG), relator do projeto na Comissão Especial que cuida do assunto. O Código de Ética da Câmara dos Deputados regula que é atitude contrária ao decoro parlamentar relatar matéria de “interesse específico de pessoa física ou jurídica que tenha contribuído para o financiamento de sua campanha eleitoral”. Com base nisso, as organizações protocolaram uma representação contra o parlamentar. O documento informa que Leonardo Quintão recebeu R$ 379 mil de mineradoras para a sua campanha de 2010. As empresas do-

adoras da verba foram Arcelormittal, Ecosteel, Gerdau, LGA Mineração e Siderurgia e Usiminas. Adiamento

Além disso, as organizações articuladas em torno do Comitê Nacional em Defesa dos Territórios frente à Mineração querem adiar a votação do projeto para 2015. A reivindicação é que a matéria seja precedida da realização da Primeira Conferência Nacional da Mineração Brasileira. “São mais de 2 mil cidades com mineração formalizada no país e as principais dificuldades foram geradas pela falta de participação da sociedade na elaboração desse marco regulatório”, aponta Lourival Andrade, presidente do Instituto Brasileiro de Educação, Integração e Desenvolvimento Social (Ibeids), que atua junto aos sindicatos de trabalhadores da mineração e movimentos sociais das cidades mineradas. (Colaborou Rafaella Dotta).

la”, explica o advogado Raul Valle, coordenador de Política e Direito do Instituo Socioambiental (ISA). Também em Minas Gerais, outro projeto mineral ameaça o meio ambiente. Na Serra da Gandarela, onde a Vale S.A., a maior mineradora do planeta, pretende retirar minério de ferro, o processo de extração vai usufruir da água de 29 nascentes da região, que também corre o risco de ser contaminada com o

descarte dos rejeitos da exploração. No Pará, a demanda é energética. A produção de alumínio, cuja matéria-prima é a bauxita, exige muita eletricidade. A empresa Alumínio Brasileiro SA (Albras) consome 1,5% de toda a energia gerada no Brasil, tudo isso para produzir 432 mil toneladas do metal. O gasto é equivalente ao consumo anual das duas maiores metrópoles da região Norte, Belém (PA) e Manaus (AM).

COMUNICADO Ao povo mineiro Nós, servidores do Judiciário Federal em Minas Gerais (TRE, TRT, Justiça Federal e Justiça Militar Federal), depois de perdermos dezenas de direitos, nos governos FHC, Lula e Dilma, estamos enfrentando uma defasagem salarial que já dura mais de oito anos. Há anos vimos lutando por reposição salarial, plano de carreira único para toda a categoria, definição de uma data-base para correções salariais anuais, de acordo com a inflação, e condições dignas de trabalho para que possamos oferecer uma prestação jurisdicional com a qualidade e agilidade que a população precisa e merece. Porém, não estamos tendo o reconhecimento do Supremo Tribunal Federal e do Governo Federal. Com o intuito de revertermos esse quadro, na quarta-feira, 21 de maio, vamos realizar uma paralisação de 24 horas, em todo o estado, e ato público, das 12 horas (meio-dia) às 14 horas, em Belo Horizonte, em frente ao prédio da Justiça Federal, na Avenida Álvares Cabral, 1741, Bairro Santo Agostinho. Todos os servidores estão convocados. Contamos com o apoio e compreensão da população. SITRAEMG


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No Brasil inteiro, MST denuncia paralisia da Reforma Agrária CAMPO Mobilizações ocorreram em 20 estados e três sem-terra foram assassinados por latifundiários Alan Tygel e Vanessa Ramos do Rio de Janeiro (RJ)

A tradicional Jornada de Lutas de Abril realizada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) durou até maio neste ano. Mais de 60 ocupações de terras e de prédios públicos ocorreram por todo o país lembrando o Massacre de Eldorado dos Carajás, quando 21 trabalhadores sem-terra foram assassinados no Pará, em 17 de abril de 1996. A reação dos latifundiários mostrou o tamanho do problema agrário no Brasil: Valdair Roque foi assassinado no dia 4, no Paraná, e Francisco Laci Gurgel Fernandes e Francisco Alcivan Nu-

nes de Paiva, no dia 6, na Chapada do Apodi (RN). Todos eram militantes do MST e lutavam pela reforma agrária. Andreia Matheus, umas das coordenadoras do MST, não vê muitos avanços: “Todo ano trazemos as mesmas demandas. São questões básicas, como água, luz e estradas nos assentamentos. Além disso, há questões relativas à habitação, ao crédito rural e aos programas de compra de alimentos pelo governo. O que existe implementado hoje não atende a todas as famílias assentadas. É preciso dar condições para as famílias sobreviverem na terra”.

Manuela Hernandez

Após pressão, governo da Bahia se compromete com pauta dos sem-terra

Mercado de trabalho é o fator que mais contribui para a queda das desigualdades Reprodução

Agência Brasil

A formalização do mercado de trabalho e o aumento do salário dos trabalhadores são os fatores que mais contribuíram para a queda da desigualdade social nos últimos anos. Esses dois fatores superam até mesmo outras fontes de renda do brasileiro provindas do Orçamento da União, como a Previdência e programas sociais concedidos pelo governo. Para a conta, foi utilizado como benefício social o índice de Gini, que mede a desigualdade de renda.

Sind-Saúde www.sindsaudemg.org.br Minas Gerais CUT/CNTSS Av. Afonso Pena, 578 - 17º andar - Centro/BH-MG

GREVE GERAL Na saúde estadual

de:

27/05

a partir

Exigimos respeito!

Os servidores da saúde cansaram da enrolação do governo de Minas Gerais. A greve é por melhores condições de trabalho e valorização. #VaiTerGreve

Os dados fazem parte da apresentação feita pelo ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) da Presidência da República, Marcelo Neri, e informam que o trabalho contribuiu com 54,9% para a redução da desigualdade entre 2002 e 2012. A estratégia de investir na valorização do salário e não apenas em programas de transferência de renda gera resultados positivos para alguns analistas porque seu resultado prático é o aumento da renda dos brasileiros assalariados. No entanto, segundo o professor de economia da Universidade de Brasília, Roberto Ellery, é necessário discutir a sustentabilidade dessa política. “Se queremos continuar esse caminho [de aumento dos salários], é

preciso aumentar a produtividade”, avaliou o professor, acrescentando que, caso contrário, o país terá problemas com a inflação e com o setor externo. De acordo com Ellery, os investimentos na melhoria dos serviços e na eficiência da produtividade podem impedir essa situação. Para isso, segundo ele, é necessário focar na infraestrutura para que a produção nacional não registre prejuízos com estradas em más condições, portos operando sem a capacidade necessária nem com problemas no setor energético. Com base nos dados da SAE, as políticas que mais contribuem para o bem estar social, depois do trabalho, são o Bolsa Família, o pagamento da Previdência acima do piso e a aposentadoria com base no salário mínimo, com 12,2%, 11,4% e 9,4%, respectivamente. O programa de transferência de renda, que repassa recursos a famílias com renda per capita inferior a R$ 70 mensais, também atua de uma forma importante no combate à desigualdade. Segundo os números, o custo-benefício de cada real gasto com o Bolsa Família impacta a desigualdade quase quatro vezes mais do que o benefício da Previdência Social. “Uma das belezas do Bolsa Família é que ele tem um impacto social muito grande, gasta pouco e consegue efeito muito grande”, explica o professor Ellery.


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Belo Horizonte, de 16 a 21 de maio de 2014

Disputa na Venezuela coloca revolução numa encruzilhada CONFLITO Legado de Chávez e governo do presidente Maduro sofrem ataques da direita Cláudia Jardim de Caracas, Venezuela “Se a direita voltar ao poder, não é que vamos perder as terras e os direitos que conquistamos com [o ex-presidente] Chávez. Nós vamos perder é a vida mesmo”. Essa é a visão de Angel Prado, trabalhador rural da comuna El Maizal, no estado venezuelano de Barquisimeto, a 400 quilômetros da capital Caracas. Assim como a maioria da população que vive longe dos grandes centros urbanos, Prado sofre mais com a escassez de alimentos de primeira necessidade e o impacto da inflação de 56%. Porém, a seu ver, não são esses problemas que levaram às manifestações de rua da ala radical de oposição ao governo de Nicolás Maduro, continuador das políticas de Chávez. A intenção dos antichavistas é antecipar a saída de Maduro da presidência. Com a morte do líder Hugo Chávez, em março do ano passado, e com um resultado apertado a favor de Maduro, com pouco menos de 1,5% dos votos, na disputa presidencial, a oposição venezuelana apostou em acentuar o desgaste político do atual governo. “A direita venezuelana quer destruir o que Chávez construiu e impedir a continuidade de seu projeto e que Maduro, que teve um ano difícil, governe como deve ser”, afirma Prado. Porém, atrapalhando os planos da direita, os candidatos do chavismo tiveram uma ampla vitória

nas eleições municipais de dezembro do ano passado, o que obrigou os opositores a repensarem sua tática. Assim, houve um racha dos antichavistas. Existe uma ala moderada, que tenta desgastar o governo com pressão social, e uma ala radical, que optou por construir o plano chamado “A saída”. Esse plano inclui mobilizações, a maioria com violência, para obrigar o presidente Maduro a renunciar. Desde o início dos protestos, há cerca de três meses, 42 pessoas foram mortas, entre chavistas, opositores, apartidários e militares.

Marcelo Garcia / Palacio de Miraflores / SiBCI

Protestos Munidos de máscaras de gás lacrimogêneo sofisticadas, câmeras de alta definição para gravar a mobilização, walkie-talkies di-

O que é revolução bolivariana? Revolução bolivariana é o termo criado pelo falecido presidente venezuelano, Hugo Chávez, para designar as mudanças políticas, econômicas e sociais iniciadas com seu acesso ao governo, em 1999, e tem como objetivo chegar a um novo socialismo. A revolução está baseada no ideário do libertador venezuelano Simón Bolívar, que participou da independência de vários países latino-americanos, no século 19. Sapo/Portugal

Muitas manifestações são convocadas pela ala radical da oposição, chamada “A Saída”, que busca derrubar o governo

Em meio a um ano difícil em seu governo, presidente Maduro é alvo de protestos da direita

gitais para coordenar as ações, os jovens que se mobilizam contra o governo venezuelano nada se parecem com a juventude que vai às ruas em outros países da América Latina. Se no Brasil ou no Chile, por exemplo, as reivindicações são por direitos, como educação e melhores condições de vida, na Venezuela, a maioria dos manifestantes é de classe média e alta, e tem foco em derrubar o governo. “Eles são os que menos sofrem as consequências da crise. Aqui, a maioria dos pobres têm acesso aos direitos básicos e os ricos, que têm de tudo, são os que protestam?”, questiona o camponês Angel Prado. Custe o que custar Na opinião do analista político venezuelano Nicmer Evans, a ala moderada e a radical da oposição, fazem o “jogo do policial bom e do mau”. “A tática é diferente, mas o objetivo é o mesmo: derrotar o chavismo e tomar o poder, custe o que custar”. Para Evans, um dos caminhos para garantir a continuidade da revolução bolivariana (veja box) é que Maduro assuma os erros polí-

ticos e econômicos de seu primeiro ano de governo. Uma das tarefas pendentes, de acordo com o analista, é a reaproximação de Maduro com a base chavista, ou seja, os setores sociais e cidadãos que apoiam o governo. Outro elemento a corrigir é o rumo da economia, com a redução do desabastecimento e o combate à crescente inflação. Na comuna El Maizal, a população vê com desconfiança o diálogo entre o governo e a ala moderada da oposição, que busca dar fim à crise política e econômica. Para o camponês Angel Prado, o que está em jogo são concepções “inconciliáveis” de modelo de país. “Nos preocupa que o governo ceda aos anseios da direita, sem que isso traga benefícios ao país e sabendo que conta com o apoio do povo”, afirma. “Ainda temos esperança que Maduro encontre o caminho e aplique o projeto que Chávez nos deixou.” Primeira reportagem do Especial “Venezuela em disputa”, que será publicado em três edições do Brasil de Fato MG.


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A novela Como ela é

É moderno ou amoral?

“O mundo de hoje anda muito moderno” disse a minha tia-avó quando Luiza e Laerte, personagens da novela das 21h, assumiram o seu romance publicamente. Fiquei querendo explorar a constatação, mas a hora de assistir novela no sítio da família é sagrada, ninguém pode dizer nada. Mesmo assim, caí na reflexão e compartilho minhas hipóteses com vocês. Pensei que a modernidade do romance poderia estar relacionada à diferença de idade dos dois. Mas isso não é obra apenas no “mundo de hoje”. Hipótese descartada. Pensei também que o moderno está no fato de serem primos se pegando. As relações interfamiliares ainda causam espanto em muita gente. Mas como os dois são primos que

só se conheceram adultos, ou seja, o grau de parentesco é mera coincidência, descartei essa hipótese também. Cheguei então a uma terceira suposição. Moderno, pra minha tia-avó, é uma filha se envolver com o ex-noivo da mãe, também ex-amigo e quase assassino do pai e acusado da morte do avô por infarto. O que está em jogo é a pergunta: pode o desejo passar por cima de todas essas infelicidades? Para boa parte dos “em família”, Luiza não poderia contrariar a mãe assim. Ainda mais diante da evidência de que o sentimento de ódio de Helena por Laerte é amor reprimido, amor ao avesso. Não me interessa discutir se os dois devem ou não estar juntos. Vale a pena, nesse caso, é pensar como a novela mexe com as referências de valor

AMIGA DA saúde

CAÇA-PALAVRAS

Cara Verônica, em primeiro lugar, procure se acalmar. O stress, o cansaço, a preocupação extrema são as principais causas da baixa produção de leite. Confie que você conseguirá vencer essa fase difícil. Além disso, cuide de você também. Alimente-se bem, beba muita água, se permita descansar de verdade quando tiver um tempinho. Deixe com o papai e outros familiares os afazeres de casa. Veja se o bebê pega corretamente o seu peito, ele tem que abocanhar não somente o bico, mas também a aréola. Fique em posição confortável durante a amamentação, mantenha-se aquecida. Se estiver frio, você pode aquecer uma toalhinha e colocar sobre as mamas nos intervalos das mamadas (sem exagero). Esse calorzinho bom também pode ser conseguido com o bebê no seu colo. A troca de carinhos com seu bebê te acalma e libera hormônios que facilitam a produção do leite. Se não funcionar, procure ajuda profissional.

Observei que meu avô está com certa dificuldade para fazer xixi há uns dois meses. Quando ele tenta, chega a gemer e parece que demora muito para a urina sair. Isso é normal para idosos?

© Revistas COQUETEL

Procure e marque, no diagrama de letras, as palavras em destaque no texto.

O mito dos megapixels ilustração: reNato maChaDo

Verônica Oliveira, 32 anos, representante comercial

Joaquim Vela (quimvela@brasildefato.com.br)

www.coquetel.com.br

Mande sua dúvida: amigadasaude@brasildefato.com.br Aqui você pode perguntar o que quiser para a nossa Amiga da Saúde

Querida amiga da saúde, tive meu primeiro bebê há 4 dias e quero dar somente leite materno até os 6 meses, como aprendi no pré-natal, mas minhas mamas estão com pouquinho leite e ele chora muito de fome. O que posso fazer pra aumentar o leite?

do seu público. Para minha tia-avô, no auge dos seus 80 anos de lucidez e crítica, o romance em questão provoca uma comparação entre o passado e o presente, entre tradição e modernidade, como se hoje se permitissem coisas não permitidas ontem. A novela desloca suas referências temporais e, em alguma medida, ajusta sua experiência no “mundo de hoje”. Pense você também nas tramas de novela que agitam suas referências: do passado pro presente, do real pro inverossímil, do estranho para o conhecido. Assim, a gente assiste às tramas com uma dose de criticidade.

Na hora de comprar uma CÂMERA fotográfica, não leve em consideração o MITO que diz “quanto mais megapixels o aparelho possui, MELHOR ele é”. A lógica do “quanto mais, melhor” não se aplica nesse caso. O termo “PIXEL”, no mundo da FOTOGRAFIA digital, referese aos pequenos PONTOS que formam uma foto, sendo um megapixel o equivalente a um milhão de pixels. Assim, quanto mais pixels uma imagem tem, maior é a sua RESOLUÇÃO, não a sua QUALIDADE. Tal característica é fundamental na AMPLIAÇÃO de fotos para tamanhos bem MAIORES que os tradicionais, sem distorcê-las. O número de megapixels já não faz diferença se a intenção é apenas tirar fotos para fazer ÁLBUNS simples ou postar na INTERNET. Por isso, ao analisar uma câmera digital ou um SMARTPHONE, vale prestar atenção em aspectos como a qualidade das LENTES e dos SENSORES de luz, por exemplo.

P D S O Ã Ç A I L P M A N H G I C B E B T S A E M C N D Y O I

I I C T H R D C S D S R N I S N R E O H I N D N E E E E T O G

T R X O I G C T R R H S E R O I A M H S S P C O H B A I L N E

C R O E S C H N A E D M G M R D A A S N E O F H R C M I S L D

F H R R L E A O A I F A R G O T O F D U D N G P E E S O L O A

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Não Neide, isso não é normal em nenhuma faixa etária. Seu avô precisa da avaliação de um médico. Pelo tempo prolongado, é pouco provável que se trate de infecção urinária. Mas ele pode estar com aumento da próstata. Ela é uma glândula que fica em volta do canal urinário (uretra). Quando a próstata cresce, aperta a uretra, dificultando a saída da urina. Por isso eles demoram muito para conseguir urinar. Esse crescimento, chamado de hiperplasia prostática, pode ser benigno ou maligno, mas em todo caso precisa ser tratado o mais rápido possível.

Solução O

Neide Lucia, 22 anos, auxiliar de cozinha


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Belo Horizonte, de 16 a 21 de maio de 2014

O espetáculo vai começar TEATRO Mostra Tiradentes em Cena inclui peças, palestras e oficinas gratuitas Ricardo Peres e Sílvia Reis/ VAN De Tiradentes

Tiradentes recebe 2ª edição da mostra de teatro, com programação gratuita

Cena presta homenagem ao grupo Ponto de Partida, da cidade de Barbacena. Tem como singularidade a montagem da peça “O País do desejo do coração”, de Willian Blake,

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Data: 16

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apresentada pelo grupo local Entre&Vista e dirigida pelo ator Matheus Nachtergaele. Segundo o diretor de arte Hosanan da Conceição, a peça está muito interessan-

te, mas este será apenas um ensaio aberto, pois a estreia ainda não tem data marcada. A idealizadora e coordenadora geral do evento, Aline Garcia, recomenda que o público aproveite toda programação, pois “tudo está muito legal”, pontua. Garcia destaca algumas apresentações: ““Bill Dog”, pois o texto é muito bom, o ator faz 32 personagens em cena; “Raul fora da lei”, que é um musical sobre o Raul Seixas, é incrível; os infantis são lindos. Enfim, tem muita coisa.” Entretanto, a coordenadora do evento acredita que a atração mais esperada pelo público será Bibi Ferreira, no dia 24 de maio, porque “ela é uma diva do teatro e tem 90 anos”, acrescenta. A programação completa, detalhes sobre a mostra Tiradentes em Cena e inscrições para as oficinas podem ser conferidos no site: tiradentesemcena.com.br/programacao

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RA

Conhecida por sua história e arquitetura, a pequena cidade barroca do interior de Minas Gerais será palco da mostra de teatro Tiradentes em Cena, a partir de sexta-feira (16/05). Serão nove dias de programação gratuita com palestras, oficinas, intervenções e espetáculos. Fabio Amaral, coordenador geral da mostra, explica que o evento “tem como objetivo proporcionar aos moradores de Tiradentes, São João del-Rei e cidades adjacentes a possibilidade de assistir aos espetáculos que fazem sucesso no eixo Rio x Belo Horizonte x São Paulo, além de promover o intercâmbio cultural com os artistas da região e oferecer oficinas e palestras destinadas a alunos e pessoas interessadas em teatro.” A 2ª edição do Tiradentes em

Sílvia Reis

É POSSÍVEL

a 18 de maio

Local: Sesc Venda Nova, Belo Horizonte

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Participe!

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www.cutmg.org.br


cultura | 15

Belo Horizonte, de 16 a 21 de maio de 2014

AGENDA DO FIM DE SEMANA EDUCAÇÃO

INFANTIL

O palhaço Viralata, personagem do artista Rodrigo Robleño, se apresentará ao público para realizar números de malabarismo, de maneira divertida e com a participação ativa de crianças. Domingo (18), às 11h, na Praça Duque de Caxias (Santa Tereza).

Roda de conversa sobre pedagogia literária, para aqueles que têm interesse em aprofundar o conhecimento sobre a prática. Domingo (18), às 16h, no Espaço Comum Luiz Estrela (Rua Manaus, 348, Santa Efigênia).

é tudo de graça! MÚSICA

Segunda a quinta-feira CINEMA

Festival Internacional de Corais apresenta os grupos Coral Musicanto de Contagem e Coral Teen Vozes de Taubaté. Sábado (17), às 16h, no Museu de Arte da Pampulha (Av. Otacílio Negrão de Lima, 16.585).

Exibição do filme “Que ninguém, nunca mais, ouse duvidar da capacidade de luta dos trabalhadores”, do diretor Renato Tapajós, pelo projeto Curta Circuito. Segunda (19), às 19h, no Cine Humberto Mauro (Avenida Afonso Pena, 1537, Centro).

TEATRO

ARTES PLÁSTICAS A Cóccix Companhia Teatral apresenta o espetáculo “Para Se Tá Mal”, manifesto político que propõe críticas sarcásticas e bem-humoradas a respeito da saúde pública brasileira. Sexta (16), às 15h30, no Centro Cultural Salgado Filho (Rua Nova Ponte, 22, Salgado Filho).

FOTOGRAFIA

LITERATURA

A mostra “Fotografia de Rua” aborda as maneiras como o homem experimenta a cidade em seu cotidiano, considerando as diferenças entre os espaços urbanos. Até dia 05/06, todos os dias da semana - exceto segundas-feiras -, das 10h às 18h, no Teatro Oi Futuro (Avenida Afonso Pena, 4001, Mangabeiras).

A exposição “A Literatura nas quatro linhas: o futebol em verso & prosa” explora, em poesia, o universo futebol: torcida, goleiro, grandes derrotas, vitórias épicas, craques, “pernas-de -pau”, “juiz ladrão”, campos de várzea, entre outros. De 15/05 a 28/05, na Galeria de Arte Paulo Campos Guimarães (Praça da Liberdade, 21).

Helder Profeta exibe suas obras na capital. As telas retratam flores, arabescos, figuras geométricas, mangás, perspectivas e paisagens urbanas. A variação de cores vibrantes é uma das marcas do artista mineiro. Até 03/06. Sábados das 10h às 15h, terças, quartas, quintas e sextas das 16h às 20h, no Galpão 44 (Rua Cachoeira Dourada, 44, Paraíso).

esporte |

na geral Ministério Público condena Atlético Paranaense

O Atlético-PR foi condenado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) do Paraná por submeter os operários da Arena da Baixada a uma jornada de trabalho excessiva e perigosa. Segundo o MPT, o clube deverá contratar novos operários para que a arena da Copa em Curitiba fique pronta a tempo e para que se cumpra a lei, respeitando o direito dos trabalhadores.

Belgorod da Rússia é campeão no Mineirinho

o Lugar de mulher é onde ela Homenagem quiser

Deu Rússia no Mundial de Clubes Masculino de Vôlei, competição que ocorreu no ginásio do Mineirinho, em Belo Horizonte. A equipe do Belogorie Belgorod, atual campeão europeu, conquistou o título inédito, ao vencer na final o azarão da competição, o Al-Rayyan, do Qatar, no sábado (10), por 3-1, parciais de 16/25, 25/21, 25/21 e 25/15. A equipe do Oriente Médio surpreendeu ao passar com facilidades pelo tetracampeão Trentino, da Itália, na fase de grupos, e por eliminar nada menos que o então campeão mundial Cruzeiro, na semifinal, por 3-1. Mas não foi páreo para o voleibol russo, atual campeão olímpico. O Cruzeiro acabou perdendo também a disputa da medalha de bronze para o UPCN, da Argentina, por 3-2. A Rússia também acabou levando o título mundial de clubes feminino. No domingo (11), a equipe do Dinamo Kazan derrotou as meninas do Osasco (SP) na final do mundial de mulheres, realizada em Zurique, na Suíça, por 3-0.

No último domingo, jogaram Cruzeiro x Atlético Mineiro pela 4ª rodada do Campeonato Brasileiro. Para não fugir à regra, além de bem disputado, o clássico foi preenchido com muitos lances polêmicos. Um em especial gerou revolta de torcedores, jogadores e torcida cruzeirenses. A auxiliar de arbitragem Fernanda Colombo assinalou um impedimento que não havia. Após o jogo, o diretor de futebol do Cruzeiro, Alexandre Mattos, deu uma declaração ‘aconselhando’ a auxiliar a posar nua em uma revista masculina, dando a entender que sua competência não é compatível com sua beleza física. É inadmissível que ainda hoje existam pessoas que enxergam a mulher como um objeto, com uma única função, a de servir ao homem. O futebol, esporte popular que é, é lugar de todas as pessoas, independente de sua origem, cor, sexo e orientação sexual. Utilizar-se do futebol para oprimir o outro com cânticos racistas, homofóbicos e machistas nos faz retornar a passos largos à Idade Média.

Em tempos de polêmicas racistas no futebol mundial, o Flamengo usou o jogo contra o Fluminense, pela 4ª rodada do brasileiro, no último dia 11, para homenagear ex- jogadores negros do clube. Nas camisas da equipe e da comissão técnica estava estampados nomes daqueles que fizeram história no clube .

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Você Sabia

Foi a primeira vez, em 100 anos, que o clássico FLA x FLU foi a campo com as duas equipes sendo comandadas, simultaneamente, por técnicos negros. O feito, infelizmente, não se repetirá nessa temporada, já que o técnico do Flamengo foi demitido no dia seguinte.


16 | esporte

Belo Horizonte, de 16 a 21 de maio de 2014

OPINIÃO América Velha mania de se apequenar

Representação

Bráulio Siffert No jogo da volta da Copa do Brasil com o fraco time do Bahia, o América - quando estava com o placar que lhe dava a classificação - fez algo muito comum no futebol sulamericano: abdicou de atacar para tentar só defender. Em todo o segundo tempo, o América deu apenas um chute a gol. O resultado, como quase sempre, não podia ser outro: o Bahia acabou fazendo um gol no final e se classificando. Na vida, isso também é comum. As pessoas corriqueiramente se acomodam com sua situação ligeiramente favorável, e ficam na defensiva até que prováveis novas situações se so-

breponham, gerando problemas e frustração. Na política também há esse elemento, o Brasil que o diga: governantes substituem outros que fizeram bons trabalhos e tratam apenas de tentar mantê-los, sem esboçar iniciativa e ousadia. As quedas nos índices e percentuais diversos acabam sendo questão de tempo.

OPINIÃO Atlético

OPINIÃO Cruzeiro

Vitória ameniza o sufoco, mas desconfiança persiste

Volta, Goulart! Anibal Greco/Site Oficial do Cruzeiro

Bruno Cantini

Wallace Oliveira Rogério Hilário A vitória no clássico contra o arquirrival trouxe alívio e alegria para os atleticanos, mas a desconfiança persiste e, para que acabe, são necessários mais triunfos e, se possível, atuações convincentes. Levir Culpi fez algumas alterações e experiências, e logo precisou reconsiderar. No caso, com a escalação de três zagueiros. Com a derrota parcial, a prudência exigia poder ofensivo e, assim, o técnico reagiu. Contudo, os laterais pouco rendem, a zaga é superada com frequência, o meiocampo apresenta falhas e o ataque, se não entra o Marion, peca pela ineficiência. O resultado ameniza a crise, sem dúvida. Só que a massa quer muito mais. E merece isto. Por causa do descontentamento, con-

testa os laterais, Diego Tardelli, Fernandinho, o antes intocável Jô e, até, Ronaldinho Gaúcho. A partida deste domingo, contra o Santos, pelo visto, será mais um teste de paciência da torcida com a equipe. E não adiantam especulações sobre contratações e construção de estádio. Aliás, é praxe no futebol e no cotidiano brasileiros que surjam boatos para desviar o foco. Quantas vezes não se falou em negociações com craques e revelações e sobre investimentos de grupos estrangeiros e brasileiros em obras para os clubes. E com localizações diversas. Nada disso passou de fanfarronice. Ficaram mesmo os fracassos ou as façanhas. Estádio mesmo, para valer, só com dinheiro público ou com a contribuição dos torcedores. O resto é lorota.

A eliminação do Cruzeiro já é prato cheio para os comentaristas do óbvio, aqueles que prontamente aparecem para explicar o mau resultado em função da falha individual num lance importante, da suposta falta de raça e humildade da equipe, dos equívocos do treinador ou da má arbitragem. Se, por sorte, o Cruzeiro se classificasse jogando o mesmo futebol, os comentaristas do óbvio teceriam loas aos heróis da classificação. Os comentaristas do “óbvio” só não admitem o óbvio: na Argentina e no Brasil, o San Lorenzo foi superior durante três dos quatro tempos disputados. Por que o Cruzeiro, que praticou o futebol mais bonito, ofensivo e regular do Brasil em 2013, não consegue mais jogar tão bem? Devemos reconhecer, em primeiro lugar, que os adversários desta temporada têm marcado melhor o campeão

brasileiro. Isto, por sua vez, só ocorre porque o atual estilo de jogo, que rendeu tantos bons frutos no ano passado, agora ficou previsível. Não dá mais para depender tanto de um meio campista que tenha que se desdobrar em vários para marcar, armar o jogo e atacar como ninguém. Refiro-me, em especial, a Ricardo Goulart. Quando ele não vai bem, todo o time vai mal. Também não resolve mais mandar a bola em Dagoberto e Éverton Ribeiro para que eles cheguem desorganizando as defesas pelas pontas ou inventem uma jogada de efeito. Todo mundo sabe que o Cruzeiro vai fazer isso. Por fim, é preciso achar uma solução para a subida dos volantes e dos laterais sem comprometer tanto a defesa. O Cruzeiro tem um ótimo treinador e um excelente plantel. Agora, porém, precisa de algo mais. É necessário se reinventar para voltar a vencer.

Edição 38 do Brasil de Fato Minas Gerais  

PDF da edição 38 do BF MG

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