Page 1

MUNDO

10

Heranças de Fidel Líder morre aos 90 anos e deixa Cuba entre os países com melhores índices de educação, saúde e desenvolvimento humano

Minas Gerais

2 a 8 de dezembro de 2016 • edição 164 • brasildefato.com.br • facebook.com/brasildefatomg • distribuição gratuita

PEC 55 é:

BRASIL

8, 9

Redução no orçamento para a saúde nos próximos

20 anos; diminuição do salário dos professo-

res da rede pública; corte nos recursos da assistência social; fim das políticas de cultura; escolas sem reformas; corte nos concursos públicos; menos investimen-

fim da expansão das universidades públicas; aumento da privatização; mais desigualdade; menos direitos; salário mínimo menor; menos tos em segurança;

programas sociais... Marco Aurélio Prates

Márcio Cunha

ENTREVISTA

11

ESPORTE

15 e 16

Valorização do catador

Dor e solidariedade

Catadores de materiais recicláveis se reúnem em BH, na Expocatadores, e denunciam que somente indústrias lucram com reciclagem

Todo o futebol e sociedade prestam condolências à Chapecoense. Investigações sobre o motivo da queda continuam


2

OPINIÃO

Belo Horizonte, 2 a 8 de dezembro de 2016

Editorial | Brasil

Querem a pizza toda para eles

ESPAÇO dos Leitores

“Parabéns pelo evento. Só tem fera” Elaine do Sind-Ute comenta a transmissão ao vivo do Ciclo de Debates do Brasil de Fato MG. A mesa do dia 29 foi sobre “Sistema Político e Constituinte”

“Um verdadeiro show de conhecimentos libertadores. Estou amando a Conferência” Luzinete Santos também comenta o Ciclo, que contou com a participação de Ricardo Gebrim e Beatriz Cerqueira

“Senhor ministro da Justiça quer tirar a responsabilidade dos deputados e assumir as consequência de seu abuso de poder.” Washington Luiz Pereira comenta a matéria “Decisão de Gilmar Mendes ameaça direitos adquiridos de quem trabalha com carteira assinada”

Escreva para nós: redacaomg@brasildefato.com.br

O Senado aprovou em primeiro turno, por 61 votos a 14, a Proposta de Emenda Constitucional 55. Apesar das várias ocupações de escolas e universidades, dos protestos e greves contra esta e outras medidas, Temer não abriu diálogo com a sociedade. Os protestos continuarão e crescerão, mas se ainda assim a PEC for aprovada em segundo turno, a população pagará alto preço. Apesar da constante tentativa de manipulação da imprensa, o povo sabe que a PEC imporá grandes sacrifícios à população, que vai seguir crescendo, enquanto o orçamento não. Aliás, o orçamento só não crescerá para o povo brasileiro. Para o pagamento de juros aos banqueiros

Oposição pede impeachment de Temer não se estabelecerá limite. Hoje, de todo o orçamento do governo federal, banqueiros ficam com 42%; saúde e educação ficam apenas com 8%. A PEC fará com que, daqui a 20 anos, aumente a parcela dos banqueiros e reduza a que vai para o povo. O que está ruim, vai piorar e muito. As medidas neoliberais de Temer e Meirelles estão afundando a economia já em 2015 e a previsão é de que o PIB retraia em 4% este ano. Governo de escândalos O governo não eleito do traidor Temer, autor da proposta, vive envolvido em escândalos que ferem a democracia. E agora está envolvi-

O jornal Brasil de Fato circula semanalmente com edições regionais, em Minas Gerais, no Rio de Janeiro, no Paraná e em Pernambuco. Queremos contribuir no debate de ideias e na análise dos fatos do ponto de vista da necessidade de mudanças sociais em nosso país e no nosso estado.

do em mais um escândalo: tentar, ao lado do ex-ministro Geddel Vieira Lima, coagir o ex-ministro da cultura a liberar uma obra sem autorização. Trata-se do sexto ministro do governo a se demitir. Imaginem se todas estas denúncias tivessem ocorrido no governo Dilma... A bancada de oposição no Con-

Para pagamento a banqueiros não haverá limite gresso já encaminhou pedido de impeachment contra Temer. O argumento é de que o presidente cometeu os crimes de tráfico de influência e advocacia administrativa (uso de cargo público para defender interesses particulares). E há a expectativa de que novo pedido de impeachment seja feito nos próximos dias. O governo golpista de Temer reforça o seu perfil antidemocrático, com ações contra a maioria do povo brasileiro. Todas as medidas impostas pelo governo são aplicadas sem consulta à sociedade. É hora de a

População crescerá, gastos com saúde e educação não sociedade cobrar uma profunda reforma política via uma nova Constituinte. E é necessário o retorno da presidenta legítima ou mesmo a convocação de eleições diretas, em que o povo decida sobre sua representação

REDE SOCIAL: facebook.com/brasildefatomg correio: redacaomg@brasildefato.com.br para anunciar: publicidademg@brasildefato.com.br TELEFONES: (31) 3309 3314 / (31) 3213 3983

conselho editorial minas gerais: Adília Sozzi, Adriano Pereira Santos, Adriano Ventura, Beatriz Cerqueira, Bernadete Esperança, Bruno Abreu Gomes, Cida Falabella, Durval Ângelo Andrade, Ênio Bohnenberger, Frederico Santana Rick, Gilson Reis, Gustavo Bones, Jairo Nogueira Filho, Joana Tavares, João Paulo Cunha, Joceli Andrioli, José Guilherme Castro, Juarez Guimarães, Laísa Silva, Marcelo Oliveira Almeida, Milton Bicalho, Nilmário Miranda, Padre Henrique Moura, Padre João, Pereira da Viola, Renan Santos, Rogério Correia, Samuel da Silva, Temístocles Marcelos, Wagner Xavier. Editora: Joana Tavares (Mtb 10140/MG). Redação: Larissa Costa, Pedro Rafael Vilela, Rafaella Dotta, Raíssa Lopes e Wallace Oliveira. Colaboradores: Alan Tygel, Anna Carolina Azevedo, André Fidusi, Bráulio Siffert, Diego Silveira, João Paulo Cunha, Léo Calixto, Rogério Hilário, Sofia Barbosa. Revisão: Luciana Santos Gonçalves. Administração: Vinicius Nolasco. Distribuição: Amélia Gomes. Diagramação: Tiago de Macedo Rodrigues. Tiragem: 40 mil exemplares.


Belo Horizonte, 2 a 8 de dezembro de 2016

GERAL

3

Declaração da Semana Divulgação

Reprodução

“Os que morrem pela vida não podem ser chamados de mortos. Sua luta continua em cada jovem anti-imperialista que quer mudar o mundo”, disse Rafael Correa, presidente do Equador, sobre a morte de Fidel Castro

Produtos sem veneno no celular CONTRADIÇÃO Enquanto a Polícia Militar reprimia, do lado de fora do Congresso, manifestantes contrários à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 55, parlamentares participavam de um coquetel no dia da votação da medida. A PEC 55, aprovada em primeiro turno no Senado na terça (29), institui um teto de investimentos em áreas sociais. Leia mais nas páginas 8 e 9.

Mandioca, a cultura do século 21

Quer comprar produtos agroecológicos, mas não sabe onde encontrar? O aplicativo “Responsa” pode te ajudar! Lançado pela Cooperativa EITA e o Instituto Kairós, o aplicativo mapeia feiras que vendem produtos sem venenos e restaurantes que os usam para fazer seus pratos. Além de produtos, o “Responsa” permite que consumidores e produtores também encontrem serviços da economia solidária. Funciona em todo o Brasil e é disponível para celulares Android.

Multiculturalidade em BH Amapola Inhthy / Divulgação

Deize Felisberto

A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) escolheu a mandioca como a cultura do século XXI. Cultivada em mais de cem países tropicais e subtropicais, a mandioca é uma boa opção para ser plantada em solos pobres e em locais sujeitos a chuvas imprevisíveis. Isso porque é uma planta tolerante à seca e muito eficiente em captar água e nutrientes do solo. Também chamada de aipim ou macaxeira, é um dos principais alimentos energéticos consumidos no Brasil. Rica em carboidratos, é fonte de vitaminas do complexo B, cálcio, fósforo e potássio. Cozida ou frita é uma delícia! Ainda tem tapioca, farinha e o polvilho, usado para fazer o tradicional pão de queijo mineiro.

Para celebrar a diversidade cultural, será realizada no domingo (4) a 1ª Festa do Migrante de Belo Horizonte. Com atrações musicais do Haiti, da Síria e do Senegal, o evento acontece no Baixo Centro Cultural e no Teatro Espanca (Rua Aarão Reis, 554 e 552). Além de música, a festa terá uma exposição de artes plásticas e uma feirinha de comidas típicas, com pratos da Síria, Nigéria, Senegal, Bolívia, Argentina e Haiti.


46

MINAS

Belo Horizonte, a 17 de março de 2016 Belo Horizonte, 2 a 8 de11dezembro de 2016

“Educação e resistência” é o tema de conferência que reúne 2.500 em Belo Horizonte ORGANIZAÇÃO Além de profissionais da educação, estudantes e movimentos populares participam das atividades Lidyane Ponciano / FotoImagem / Sind - UTE-MG

Joana Tavares

D

epois de três anos de ensaio, a fanfarra da Escola Estadual Orestes Diniz, de Betim, Região Metropolitana de Belo Horizonte, se apresentou na manhã de quarta (30) para seu maior público: os 2.500 participantes da VIII Conferência Estadual de Educação, que acontece na capital mineira até o dia 2 de dezembro. Com o tema “Educação e Resistência”: Por uma educação libertadora”, o homenageado é Paulo Freire. Luciana Pinto, professora de língua portuguesa, con-

ta que se sentiu honrada em levar os alunos para se apresentar nesse momento. Para ela, a arte é fundamental para a resistência. “Em tempos como este, de repressão e caça aos direitos sociais, precisamos juntar e fortalecer nossas energias para a

luta”, afirma. Fábio Garrido, da direção estadual do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (Sind-UTE/MG), reforça que o objetivo da conferência é

Anúncio

1º e 3º lugares no 9º Prêmio Délio Rocha de Jornalismo de Interesse Público (2016)

“pensar formas de resistência ao projeto neoliberal na educação, resgatando práticas de educação popular e estreitando a relação entre os trabalhadores da educação e os movimentos populares”. Diversidade e unidade A mesa de abertura expressava o objetivo apontado por Fábio, com a presença de diversos movimentos, como o MST e o Levante Popular da Juventude. A coordenadora geral do Sind-UTE-MG e presidenta da CUT-MG, Beatriz Cerqueira, reforçou a importância de realizar o encontro no atual momento po-

lítico, em que se discutem projetos como a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 55, que congela investimentos em educação e outras áreas por 20 anos, e a Medida Provisória 746, que promove a desprofissionalização docente ao acabar com a exigência de formação e de concurso público. “A estrutura da categoria precisa ser colocada a serviço da discussão e mobilização de assuntos como esses”, diz Beatriz. Além de mesas de debate, com presenças confirmadas de Leonardo Boff e outras personalidades, estão previstas oficinas e um ato de rua, na sexta (2).

Prefeito eleito se compromete a reabrir creche na Pedreira Prado Lopes ORGANIZAÇÃO EMEI ficou ocupada por uma semana por comunidade, MTD e Levante Da redação

N

o dia 25 de novembro, dia internacional de combate à violência contra as mulheres, moradores da Pedreira Prado Lopes, na região Noroeste da capital, junto com o Movimento Trabalhadoras e Trabalhadores por Direitos (MTD) e o Levante Popular da Juventude ocuparam a Escola MuniA educação que acreditamos para o mundo que queremos! cipal Maria da Glória Lomez, reivindicando o aumento de vagas na educação infantil. SÁBADO - 10H - REDE MINAS • REPRISE - TERÇA - 13H30 A comunidade organizada se reuniu com o prefeito eleito, Alexandre Kalil (PHS). Na tarde da terça-feira (29), Kalil e sua comitiva, além do Coronel Lucas, da Defesa Civil de BH, visitaram a escola. Os agentes da Defesa Civil reforçaram que a unidade pode ser reaberta com segurança, desde que se coloquem tapumes em toda a encosta da pedreira e que sejam parcialmente fechados os pátios e o refeitório. O prefeito eleiSindicato dos Professores do Estado de Minas Gerais to se comprometeu a realizar a obra e garantiu que as atividaFiliado à Fitee, Contee e CTB • f t y Sinpro Minas des da escola retornam em fevereiro de 2017. “Caso o compromisso de reabertura não seja realizado, o Assista os programas em www.sinprominas.org.br MTD e a comunidade irão reocupar o prédio abandonado”, extraclasse@sinprominas.org.br - fones: (31) 3115-3038 - 3489-2765 diz o militante do MTD Vinicius Moreno.


Belo Horizonte, 2 a 8 de dezembro de 2016

MINAS

5

Opinião

Divergência no covil João Paulo Cunha A palavra da moda é pós-verdade. Trata-se apenas de uma forma de definir a mentira. No campo da pós-verdade, não valem os fatos, mas as crenças. Seu uso é sempre uma forma interessada de intervir no debate público, de modo a impedir o necessário apoio em fatos. Tudo se processa de trás para frente: o fim está dado, cabe aos fatos se adequarem a ele. Estamos mergulhados em exemplos. Quando o Congresso cassa uma presidenta eleita sem evidências de crime de responsabilidade, pode ser uma atitude constitucional, que reforça a institucionalidade do golpe. O Congresso que aprova a PEC do teto de gastos se jacta de ser a expressão legítima da independência do Legislativo, em sintonia com os interesses do país. Já o Congresso que modifica o pacote anticorrupção pode ser tomado como a tradução do modo de agir de um bando de criminosos que opera de forma defensiva.

O PSDB, que inspirou o golpe, conspirou e comprometeu-se com as primeiras medidas econômicas e políticas, é visto como uma agremiação que concorda com as estratégias e táticas do governo não eleito. No entanto, quando a canoa da popularidade

O golpe, dentro do golpe, numa espiral infinita de indignidades começa a fazer água, pelo nível sofrível dos condutores ou pelo fracasso explícito dos resultados, o partido convoca uma pureza que nunca teve e começa a tramar seu plano C. Em outras palavras, derrubar a pinguela oportunista que ajudou a construir (o plano B), surgindo como alternativa em uma eleição indireta no ano que vem. Não se pode

esperar honra onde viceja a traição, nem mesmo entre pares. Por isso chega a ser didática a ocupação das diferentes raias de expectativa de poder por FHC, Aécio, Alckmin e Serra. O golpe, dentro do golpe, dentro do golpe, numa espiral infinita de indignidades. O que antes dividia adversários, hoje coloca irmãos canalhas para brigar: a imprensa familiar com sua crise de credibilidade e contas no vermelho; o Judiciário ressentido em sua confusão entre privilégios e direitos; o governo golpista pego com as calças da incompetência nas mãos; e os tucanos, com seu exibido aristocratismo que apenas mascara seu apetite pelo poder e desprezo pelo povo. Há uma expressão popular que traduz a disputa entre dois contendores poderosos como “briga de cachorro grande”. Sem demérito para os cães, a conjuntura atual dispensa o porte dos adversários. É só briga de cachorros. Não há grandeza no fascismo.

Anúncio

A ÓTIMA QUALIDADE DOS NOSSOS ALIMENTOS VEM DE FAMÍLIA. Ao escolher produtos orgânicos e agroecológicos da agricultura familiar, você consome um alimento mais saudável e contribui para o aumento do emprego e da renda no campo. Produtos da agricultura familiar: da nossa família para a sua.

Foto: Omar Freire/Imprensa MG


6

MINAS

Acompanhando

Belo Horizonte, 2 a 8 de dezembro de 2016

Foto da semana

PARTICIPE Viu alguma coisa legal? Algum absurdo? Quer divulgar? Mande sua foto para redacaomg@brasildefato.com.br. Fernando Frazão / Agência Brasil

Na edição 163... Após quatro adiamentos, Haiti conclui eleições ...E agora O empresário Jovenel Moise, candidato apoiado pelo ex-presidente Michel Martelly, venceu a eleição presidencial do Haiti no primeiro turno. Em seu primeiro pronunciamento, o presidente eleito pediu união nacional para superar a grave crise política no país. A lei haitiana dá direito aos candidatos de impugnar os resultados das eleições presidenciais e legislativas nos tribunais antes da publicação da contagem final, em 29 de dezembro. Na edição 156... ...População da Colômbia vota contra acordo de paz ...E agora Senado aprova novo acordo Na última semana, com 75 votos favoráveis, senadores aprovaram novo acordo assinado entre o governo e as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). O novo pacto deverá ser votado também pelos deputados, antes de ser implementado. A oposição criticou a votação e se retirou do plenário.

PELA VIDA DAS MULHERES Ministros do Supremo Tribunal Federal consideraram, na última terça (29), que aborto até o terceiro mês não é crime. A decisão se deu durante o julgamento de profissionais de saúde que haviam sido presos por manterem uma clínica de aborto no Rio de Janeiro. Apesar de não modificar a legislação brasileira, que permite aborto em caso de risco de morte para mãe ou em caso de estupro, essa compreensão do STF abre precedente para que o argumento jurídico possa ser utilizado em casos parecidos.

Alan Tygel

Leonardo Pericles

3 de dezembro de 1984. Um vento da meia-noite soprava na cidade de Bhopal, localizada na região central da Índia. Da fábrica de agrotóxicos Union Carbide, saía uma nuvem fina, e em pouco tempo a cidade estava coberta pela neblina tóxica. Pessoas vomitavam de forma incontrolável, entravam em convulsão e caíam mortas. No total, cerca de 3 mil pessoas morreram na hora, nos meses subsequentes, 15 mil pessoas. Mais de 300 mil pessoas foram intoxicadas, e atualmente de duas a três pessoas morrem por semana pelo desastre de Bhopal. Desde então, celebramos em 3 de dezembro o Dia Mundial de Luta Contra os Agrotóxicos. No Brasil a situação também não é boa. O Ministério da Saúde registrou quase 40 mil intoxicações por agrotóxicos entre 2007 e 2014. Isso sem contar os casos em que os agrotóxicos provocam doenças crônicas, como o câncer, que não são computadas. Bhopal também é aqui. 3 de dezembro é dia de Os agrotóxicos no luta contra agrotóxicos Brasil provocam muitos problemas. Intoxicam os trabalhadores das fábricas, agricultores que aplicam os venenos, e sobretudo, intoxicam a todos nós. Triste é saber que tudo isso poderia ser evitado. O uso de agrotóxicos no Brasil tem um motivo bem claro: produzir soja, milho, algodão, eucalipto e cana para exportação. Basta dar terra para quem trabalha na terra, e dar condições – educação, saúde, agroindústria – para quem vive no campo poder produzir alimentos saudáveis. E com os incentivos certos, esse alimento pode chegar na cidade a um preço tal que toda a população pode comprar. Esse é o projeto da agroecologia.

A Política Habitacional da Prefeitura de BH construiu, de 1994 a 2015, apenas 24 mil unidades, pouco mais de mil por ano. São números insuficientes frente ao déficit habitacional de 123 mil famílias sem teto, medido em 2012. Considerando o atual ritmo de construção, levaria pelo menos 107 anos para “zerar” o déficit. Uma verdadeira incompetência, gerando uma “fila” à qual ninguém tem acesso. Não devemos acreditar no discurso fictício da “fila” e dos “predinhos” que “um dia virão”. Nessa última década, cresceram - e muito - as ocupações urbanas. Apenas nas principais ocupações na Região Metropolitana de BH que têm presença de movimentos, as “organizadas”, moram cerca de 15 mil famílias. No total, são 25 mil famílias. A verdadeira política habitacional hoje em BH é ocupar. Por outro lado, cresce o número de despejos de vilas, favelas e bairros com décadas de consolidação por estarem no alvo de algum tipo dos chamados megae123 mil famílias ventos. Em BH, a prefeinão têm onde morar tura prevê fazer, de 2016 a 2022, 24 mil remoções. A maioria das reintegrações de posse é feita de forma ilegal, sem mandado judicial. As famílias sofrem violência direta do Estado através dos seus órgãos de repressão e da negativa de fornecimento de água, energia, rede de esgoto e, no caso das ocupações da Izidora, a restrição de acesso aos postos de saúde e de matricular crianças em escolas e creches. O instrumento chamado ocupação assume, em todo o Brasil, um papel determinante nas lutas que se desenvolvem pela moradia, educação, saúde, etc. Vêm mostrando o caminho. Sigamos esse importante exemplo.

Bhopal, a tragédia que ainda está acontecendo

Ocupações urbanas e o direito à cidade

Leonardo Pericles é da coordenação nacional do MoAlan Tygel integra a coordenação da Campanha Per- vimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) e da Unidade Popular pelo Socialismo – UP. manente Contra os Agrotóxicos e pela Vida.


Belo Horizonte, 2 a 8 de dezembro de 2016

Frente Brasil Popular se reúne em BH Nos dias 7 e 8 de novembro, em Belo Horizonte, no Sesc Venda Nova, ocorre a Plenária Nacional da Frente Brasil Popular. Em debate, o balanço da atuação da Frente e das forças progressistas e de esquerda no último período; a conjuntura, a tática, o programa e a organização da FBP para o próximo período e a 2ª Conferência Nacional da Frente Brasil Popular, que deve ser realizada no primeiro semestre de 2017.

Pedido de

impeachment

contra Temer Movimentos sociais e centrais sindicais devem protocolar, nos próximos dias, um novo pedido de impeachment contra o presidente não eleito Michel Temer. A ação será baseada nos crimes de responsabilidade cometidos pelo ex-vice no episódio envolvendo os ex-ministros da Cultura, Marcelo Calero, e da Secretaria da Presidência, Geddel Vieira Lima. A iniciativa resulta de uma articulação das forças sociais e parlamentares do PT e PCdoB. O pedido de afastamento deve tramitar em paralelo ao pedido já protocolado pelo PSOL.

Denúncias derrubam um ministro de Temer a cada mês CORRUPÇÃO Governo vai se desmanchando enquanto acusações batem à porta do presidente Valter Campanato / Agência Brasil

Pedro Rafael Vilela*, de Brasília (DF)

esde quando assuD miu o poder no lugar de Dilma Rousseff, derru-

bada pelo Congresso em maio, Michel Temer teve seis baixas em seu quadro de ministros, o que dá uma média de um afastamento por mês. Esse número já é considerado um recorde na história política recente do país. O que as baixas têm em comum é que decorreram de denúncias de desvios éticos ou de corrupção. O próprio presidente não eleito está envolvido em graves acusações. O ex-ministro Marcelo Calero, que pediu demissão após denunciar pressão sofrida pelo então secretário de governo, Geddel Vieira Lima, chegou a gravar conversas com o presidente, além de Geddel e Eliseu Padilha (Casa Civil), mas os áudios, que já estão nas mãos da Polícia Federal e da Procuradoria Geral da República, ainda não vieram a público. A gravação foi o estopim para que Geddel também pedisse demissão, na tentativa de diminuir o desgaste de Temer.

verno no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR) foi o primeiro ministro a deixar o cargo, uma semana após ter sido nomeado. Ele saiu depois da revelação de gravações feitas pelo ex -presidente da Transpetro, Sérgio Machado, em que Jucá afirma que o impeachment de Dilma era necessário para “estancar a sangria” causada pela Lava Jato, e impedir que ela atingisse outros políticos além dos petistas. ‘Advogado do diabo’

As gravações de Sergio Machado também derrubaram o ex-ministro da Transparência, Fabiano Silveira. Ele aparece em áudios dando conselhos ao presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB -AL), sobre como se deConfira as outras demis- fender das investigações sões de ministros no gover- conduzidas pela Lava Jato. no Temer.

‘Estancar a sangria’

Um milhão para a eleição

Ex-ministro do Turismo e um dos homens mais Ex-ministro do Planejamento e atual líder do go- próximos de Temer no go-

verno, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) pediu demissão depois de revelações feitas por Sergio Machado, em seu acordo de delação premiada. Segundo Machado, Alves teria recebido mais de R$ 1,5 milhão em doações eleitorais oriundas de propina paga por empresas investigadas pela Justiça. Operação ‘Abafa’

O ex-advogado-geral da União Fábio Medina Osório foi demitido em setembro após uma série de discussões com o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha. Segundo Osório, o motivo das discussões foi um pedido feito por ele ao STF (Supremo Tribunal Federal) para que a AGU tivesse acesso aos inquéritos da Lava Jato referentes a políticos com foro privilegiado. Osório chegou a dizer que o governo Temer quer “abafar” a Lava Jato. *Com informações do UOL.

MINAS

7

Congresso compra briga com MP Câmara dos Deputados aprovou uma versão modificada do pacote de dez medidas propostas pelo Ministério Público (MP) para supostamente combater a corrupção. Entre as alterações feitas pelos deputados, está a inclusão de juízes e membros do Ministério Público como passíveis de punição por crimes de responsabilidade. Passaria a ser crime a atuação dos magistrados com motivação político-partidária, atitude da qual o juiz Sério Moro e outros ligados à Operação Lava Jato são acusados. A votação agora vai para o Senado, que rejeitou pedido de urgência para votar o tema. Procuradores e juízes ameaçaram renunciar caso o pacote seja aprovado com as mudanças feitas pelos deputados.

PIB tem maior queda desde 1996 O Produto Interno Bruto (PIB), soma de todos os bens e serviços produzidos no país, fechou o terceiro trimestre do ano com queda de 0,8% em relação ao trimestre anterior. O recuo foi de 2,9% na comparação com o terceiro trimestre de 2015, maior queda para este período desde 1996.


88

BRASIL

Belo Horizonte, 2 a 8 de dezembro de 2016

Senado aprova em primeiro turno PEC que congela investimentos sociais GOLPE Enquanto a sessão acontecia, Polícia Militar reprimiu manifestantes com bombas e gás lacrimogênio Jonas Pereira / Agência Senado

Da Redação

O

Senado aprovou em primeiro turno, na noite de terça (29), a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 55 que prevê o congelamento dos investimentos públicos federais por 20 anos. O resultado da votação foi 61 votos favoráveis à proposta e 14 contrários. O segundo turno deve acontecer no próximo dia 13. A PEC 55, que foi acatada em dois turnos pela Câmara dos Deputados com o nome de PEC 241, foi enviada ao Congresso pelo presidente não eleito, Michel Temer, no primeiro semestre. Para Temer, a medida é uma possibilidade de reequilibrar as contas públicas. Por outro lado, especialistas, movimentos populares e sindicais veem na proposta uma

É um ajuste feito em cima dos pobres. Taxação de grandes fortunas sobre rendimentos? Nada”, criticou senador petista

ameaça a investimentos em saúde, educação, cultura e assistência social. Críticas Apesar de senadores aliados de Temer afirmarem que a PEC 55 não ofenderia princípios ou regras constitucionais, opositores à me-

dida criticam e apontam para uma piora na situação do país. “Essa medida vai aprofundar o processo recessivo em que estamos. Os percentuais mínimos para saúde e educação não serão cumpridos”, disse o senador Ran-

dolfe Rodrigues (Rede). Na mesma linha, o senador Roberto Requião (PMDB-PR) afirmou que a PEC 55 é uma “monumental asneira”, cujos impactos levarão a uma “intensa crise social”. Para Lindberg Farias (PT -RJ), a PEC 55 é a continui-

dade do golpe sobre a democracia brasileira. “O golpe não era só tirar Dilma, era atacar direitos sociais. Estão rasgando a CLT”, afirma fazendo também menção à reforma trabalhista prevista pelo governo. “Não há nada para os ricos. É um ajuste feito em cima dos pobres. Taxação de grandes fortunas sobre rendimentos? Nada”, completou.

PM reprime protesto pacífico com violência D

o lado de fora do Congresso, uma manifestação pacífica contra a aprovação da PEC foi duramente reprimida pela Polícia Militar com bombas, gás lacrimogênio e spray de pimenta. “Voltamos à época da ditadura, na qual o Parlamento é fechado ao povo”, critica a senadora Vanessa Graziotin, do PCdoB do Amazonas. Vagner Freitas, presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), foi testemunha da violência desproporcional contra os manifestantes. Ele conta que a maioria era estudante. “Estamos vivendo um

Isisi Medeiros

50 mil pessoas se reuniram em Brasília contra a PEC estado de exceção. O Congresso é uma expressão da sociedade e o governo deve entender que o direito de manifestação é algo que faz parte”, afirma. O ato foi convocado pelas frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo e houve a participação de mais de 50 mil, segundo organizadores.


Belo Horizonte, 2 a 8 de dezembro de 2016

BRASIL

9

Impactos da PEC sobre políticas sociais ENTENDA Proposta pode piorar situação da saúde, educação, cultura e assistência social

Saúde

40% do orçamento ameaçado A PEC 55 acaba com uma conquista histórica da Reforma Sanitária Brasileira: a garantia de investimento mínimo em saúde. De acordo com estudo do Grupo Técnico Interinstitucional de Discussão do Financiamento do SUS, ligado ao Conselho Nacional de Saúde, se a regra da PEC 55 estivesse em vigor desde 2002, o orçamento do Ministério da Saúde, que em 2015 foi de R$ 100 bilhões, seria pouco mais de R$ 55 bilhões. Em síntese, mais de 40% do orçamento do Ministério da Saúde estão ameaçados, por 20 anos.

Educação

Escolas sem estrutura, professores sem piso Um estudo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) aponta que o impacto na educação seria corte de R$ 18 bilhões do que foi investido na última década. O Piso Salarial Profissional da Educação Nacional, que atualmente é de R$ 2.135, seria, com a regra da PEC, R$ 1.300. Atualmente, as escolas já passam dificuldades com infraestrutura e com políticas de valorização dos profissionais da educação.

Assistência social Menos R$ 868 bilhões

O que é uma PEC?

U

ma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) é uma sugestão de modificação, inclusão ou atualização do texto da Constituição Federal. Uma PEC pode ser apresentada tanto pelo presidente da República quanto por um terço dos deputados federais ou dos senadores. Pode ainda ser proposta por mais da metade das assembleias legislativas. Não podem ser objetos de PEC as chamadas cláusulas pétreas da Constituição. Assim, não estão sujeitas a alteração: a forma federativa de Estado; o voto direto, secreto, universal e periódico; a separação dos poderes e direitos e as garantias individuais. Para uma PEC ser aprovada, é necessária a votação em dois turnos na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, e votação favorável de três quintos dos votos dos deputados e dos senadores.

O que é a PEC 55?

A ideia principal da PEC 55 é fixar por 20 anos um limite para os investimentos públicos. Na prática, a proposta estabelece um limite para as despesas: será o gasto realizado no ano anterior corrigido pela inflação. Caso entre em vigor em 2017, o orçamento disponível para os gastos será o mesmo de 2016, acrescido da inflação deste ano. Como consequência, a PEC afeta, por exemplo, a expansão de serviços públicos, as compras de materiais da saúde, a construção de novas escolas e a realização de concursos, além de impossibilitar políticas de cultura.

Um estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que com a aprovação da PEC 55, a assistência social pode perder R$ 868 bilhões, mesmo se a economia brasileira voltar a crescer. “Em BH, por exemplo, nós temos 34 CRAS, mas são necessários pelo menos 70. Então, é necessário expandir essa política, precisamos de mais recursos, e não de redução do que já tem para trazer voluntários como prática de Estado”, alerta o historiador Márcio Caldeira, integrante do Fórum Permanente de Entidades Sociassistenciais de Belo Horizonte.

Cultura

90% de corte A cultura não tem a garantia de investimento mínimo. A área, portanto, pode perder até 90% dos seus recursos em apenas cinco anos. Por exemplo, em 2016, o orçamento total da pasta foi de aproximadamente R$ 1,23 bilhão. Se a PEC for aprovada, esse orçamento não poderá crescer mais que a inflação do ano anterior. Como não se pode mexer nos recursos do pagamento de salários e previdência e nas despesas obrigatórias, por exemplo, o corte será justamente no montante de recursos destinado às próprias ações do ministério. Essa projeção foi apresentada pelo ex-secretário-executivo do Ministério da Cultura (MinC), João Brant.

Podia ser de outro jeito? Apesar de Temer afirmar que a PEC 55 reequilibrará as contas públicas, especialistas apontam que outras medidas seriam mais efetivas. Por exemplo, segundo dados do Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional, a sonegação fiscal dos grandes empresários retirou R$ 450 bilhões dos cofres públicos em 2015. Outra opção seria taxar grandes fortunas, medida que sequer é lembrada como fonte de recursos no Brasil. Quem ganha até um salário mínimo no país tem carga tributária real de 37%. Já quem ganha acima de 20 salários mínimos compromete apenas de 17% de seu orçamento com impostos.


10 10

MUNDO

Belo Horizonte, 2 a 8 de dezembro de 2016

Líder cubano morre aos 90 anos e provoca onda de homenagens AMÉRICA LATINA Em Havana, despedida de Fidel é marcada por renovação de votos da Revolução Roberto Chile /Cubadebate

Da redação

Q

uem não sabe que em Cuba acontece alguma coisa de diferente? As TVs, as rádios e os jornais brasileiros relatam o tempo todo que Cuba tem algo de ruim, de

estranho, mas que ninguém sabe explicar. Essa difamação tem relação com uma palavra: “revolução”, que tirou do poder os políticos e empresários que exploravam a população, em 1959. E essa revolução teve um líder: Fidel Castro.

O líder faleceu em 25 de novembro, aos 90 anos, e estimulou uma onda de homenagens. Milhões de cubanos ocuparam a Praça da Revolução, na capital Havana, e locais públicos no interior do país desde a data. Um último ato deve acontecer no dia 3 de dezembro na Praça Antonio Maceo, em Santiago de Cuba. Em mais de mil locais públicos ao longo da ilha os cida-

Para Unicef, Cuba é um “paraíso para a infância”

dãos podiam firmar um juramento pela “vontade de dar continuidade às ideias de Fidel e ao socialismo cubano”. A presença de líderes de diversos países, que foram participar das homenagens, enfatizou que Fidel era um exemplo não só para seu país, mas um elo de ligação entre diversos outros. “Fidel foi um verdadeiro construtor da paz com justiça social. Quero dizer que ele não está morto porque os povos não morrem, principalmente aqueles que lutam por sua independência”, afirmou o presidente da Bolívia, Evo Morales. Conquistas da revolução Cuba, depois da revolu-

ção socialista, passou a ser um dos países mais adiantados em serviços sociais. Elaborou uma das medicinas mais desenvolvidas e humanitárias do planeta e enviou 60 mil médicos a países necessitados, superando o número que todas as organizações internacionais, juntas, enviaram. Tem também o melhor sistema de educação da América Latina, reconhecido por relatório do Banco Mundial, em 2014. Segundo o Unicef, Cuba é um “paraíso para a infância na América Latina”. Leia mais notícias e artigos em www.brasildefato.com.br

Anúncio


Belo Horizonte, 2 a 8 de dezembro de 2016

ENTREVISTA

11 11

“A importância dos catadores já foi aceita, agora o debate é sobre a sua valorização” Encontro nacional Catadores de materiais recicláveis discutem desafios da categoria, como a valorização da profissão e ampliação da reciclagem Marco Aurelio Prates

lhar a parte da resina, dos flakes e dos materiais gerados. O material reciclado é tributado novamente e, por causa da exploração dos catadores, fica ainda mais caro.

Rafaella Dotta

O

s catadores comemoram. Em 2016 completase 15 anos do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), que organiza cerca de 90 mil catadores de todos os estados do país e “é um dos movimentos mais expressivos da luta urbana”, afirma Alex Cardoso, da equipe de articulação no MNCR. Para marcar o aniversário, o movimento realizou a 7ª ExpoCatadores entre os dias 28 e 30 de novembro, em Belo Horizonte. Além de nomes internacionais para discutir de uma políti-

Antes a gente não se reconhecia como profissionais” ca de resíduos para a Améria Latina, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva compareceu à abertura do evento. Outro destaque foi o lançamento do documentário “Catador@s de História”, dirigido por Tânia Quaresma. Brasil de Fato: Qual o balanço dos 15 anos do Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis? Alex Cardoso: Antes a gente era tudo, menos catadores, não nos reconhecíamos como profissionais. A valorização da profissão

é a primeira conquista que o movimento tem. A luta principal é que a gente faça o nosso povo ser incluído. Em 2013 teve o reconhecimento legal da profissão e se iniciou um processo de articulação nacional que culminou na criação de várias leis, na construção de estruturas para os catadores se organizarem em cooperativas. Criamos então um cordão de apoiadores pelo Brasil, reunindo setores do campo acadêmico, movimentos populares e parte da sociedade. “Estamos aqui e sempre estivemos, mas queremos continuar de uma maneira diferente”, dizemos à sociedade e as pessoas entenderam. A importância dos catadores na sociedade já foi aceita, agora o debate é sobre a sua valorização. Porque reconhecidos nós já conseguimos estar.

em fazer a coleta, levar o material até a cooperativa, separar, armazenar, comercializar. Mas a indústria vem, coloca esse material em seus caminhões e fica com 90% do lucro. Ou seja, quem lucra é quem menos trabalha. A reciclagem popular é uma proposta para reverter isso, uma reciclagem inclusiva com a participação dos catadores, dos governos, das empresas produtoras de resíduos e da população. Usar os resíduos para gerar trabalho e economia.

Vocês têm uma proposta que é a reciclagem popular. Pode falar sobre ela? A reciclagem não foi inventada por nós, mas sim para ganhar dinheiro. Hoje, 89% do trabalho está

As empresas utilizam hoje o que vocês chamam de “logística reversa”. O que é isso? Elas pensam a partir da produção e do lucro, e não

A reciclagem não foi inventada por nós, mas para ganhar dinheiro”

se preocupam em como o planeta vai absorver os resíduos. Uma garrafa pet, por exemplo, é feita de três tipos de plástico, um para o corpo da garrafa, outro para a tampa, outro para o rótulo. E isso dificulta muito. É preciso se preocupar com esse produto no final da cadeia, com uma maior facilidade para a reciclagem.

As empresas não se preocupam em como o planeta vai absorver os resíduos” Quais são as dificuldades de melhorar o processo de reciclagem no Brasil? A matéria reciclada no Brasil é uma das mais caras do mundo. Nós somos um país rico em natureza, então é muito mais fácil produzir o plástico através do petróleo do que traba-

As normas da Política Nacional de Resíduos Sólidos (2010) não mudaram essa realidade? A política trouxe boas regras como acabar com o lixão e organizar o processo de reciclagem a partir dos catadores, mas as decisões ficaram nas mão de ninguém. Empresas ganham dinheiro para coletar resíduos e levar ao lixão, os prefeitos pagam, as empresas devolvem esse dinheiro em campanha política. Ficou todo mundo certo e só a gente, os catadores, excluídos do processo. O Ministério Público não tem força de fazer essa política ser aplicada e como tem muito lucro envolvido, a lei acaba não se efetivando. Mas muita coisa avançou. Catadores se organizaram, cooperativas se estruturaram, recursos foram mobilizados para isso. Mas quando eu olho para o montante de um milhão de catadores e vejo que apenas 20% estão estruturados, vejo que essa política tem que avançar muito para ser satisfatória. Nós comemoramos muito quando se conquista algo, principalmente uma lei, achando que aí está a salvação. Só que esse é só mais um passo. A gente venceu só mais esse degrau, mas para efetivar vão ser muitos outros inimigos.


12 12 VARIEDADES

Belo Horizonte, 2 a 8 de dezembro de 2016

Amiga da Saúde

Nossos direitos Precisando de advogado? Não é preciso ter dinheiro para ser atendida por um advogado, sabia? A assistência Judiciária Gratuita é o direito de ter um advogado do Estado sem pagar, bem como estar isenta de todas as despesas e taxas processuais. Este direito é garantido a todos os que possuem renda familiar de até três salários mínimos. Para garantir que ele seja atendido, foram criadas as Defensorias Públicas e os atendimentos gratuitos nas faculdades de Direito. Em Belo Horizonte você consegue Assessoria Jurídica Gratuita nos seguintes locais:

Defensoria Pública Estadual: R. Bernardo Guimarães, 2640 – bairro Santo Agostinho. Telefone: (31) 2522-8611.

Defensoria Pública Federal: Ed. Mello Cançado - R. Pouso Alto, 15 - Serra. Telefone: (31) 3069-6300.

Escritório da Faculdade de Direito da UFMG: Avenida João Pinheiro, nº 100, Ed. Villas Boas, 7º Andar. Telefone: (31) 3409-8667.

Essa é uma notícia que merece ser repassada aos amigos, não acha?

Oi amiga, como funciona a fitoterapia? Será que é confiável para tratar doenças?

Julcimara Lopes, 48 anos, cabeleileira Cara Julcimara, a fitoterapia é uma técnica da medicina alternativa e complementar que utiliza as plantas medicinais para o tratamento de doenças. Sob técnicas farmacológicas, os princípios ativos são retirados das plantas para a produção dos remédios. Baseia-se em uma cultura milenar de uso das plantas medicinais, com muito conhecimento produzido através da experimentação. É muito confiável e permite usar remédios naturais, que produzem me-

nos efeitos colaterais. A fitoterapia hoje é reconhecida como uma especialidade médica e alguns municípios utilizam os medicamentos fitoterápicos na farmácia básica do SUS. Há um grande potencial ainda a ser explorado no que diz respeito à utilização das plantas medicinais, porém, uma pressão da indústria farmacêutica por recursos impede que mais verbas sejam investidas em pesquisas e produção de medicamentos fitoterápicos.

Sofia Barbosa I Coren MG 159621-Enf. Aqui você pode perguntar o que quiser para a nossa Amiga da Saúde Mande sua dúvida: amigadasaude@brasildefato.com.br

Adília é advogada da Rede Nacional de Advogados PopularesPopulares – RENAP. – RENAP. AdíliaSozzi Sozzi é advogada da Rede Nacional de Advogados

A PEC 55 NA EDUCAÇÃO EM MINAS GERAIS SIGNIFICA MENOS R$ 18 BILHÕES DE INVESTIMENTOS.

Anúncio


Belo Horizonte, 2 a 8 de dezembro de 2016

13 VARIEDADES 13 por Alan Tygel*

www.malvados.com.br

Dicas Mastigadas Gazpacho Andaluz

Ingredientes: • • • • • • • • • • •

1 cenoura 1 pimentão 1 dente de alho 4 pães dormidos 1/2 litro de água fria 8 tomates maduros 1/2 pepino 4 colheres de azeite 2 colheres de vinagre Sal a gosto Opcional: cominho, maionese, cebola,

Molhe os pães em água fria. Ponha todos os ingredientes no liquidificador, junto com o pão sem a água. Acrescente a água aos poucos, até atingir uma consistência cremosa, que se possa beber, mas sem ficar muito líquido. Sirva gelado em cumbucas, acompanhado de tomate e pepinos cortados em cubos.

Símbolo da Andaluzia

O prato é um dos mais representativos da Andaluzia, região do sul da Espanha. O nome gazpacho, de origem árabe, significa ‘pão encharcado’. A receita era preparada antigamente pelos viajantes, que recolhiam e picavam os legumes que encontravam pelo caminho, prensavam o alho entre as pedras com um pouco de sal e acrescentavam óleo. Essa mistura era colocada num recipiente de barro, com um pouco de farinha de rosca e pedaços de pão branco. Por último, envolviam o prato em um pedaço de tecido molhado e o levavam ao sol para cozinhar no vapor. O gazpacho estaria pronto quando o pano estivesse completamente seco. * Receita enviada por Miguel Angel Arcaya Martinez, de Salamanca/ Espanha

Participe enviando sugestões para receita@brasildefato.com.br.


14

CULTURA

Belo Horizonte, 2 a 8 de dezembro de 2016

Conflitos de “Pai contra Mãe” vão para o palco

Teatro “In Solos” Divulgação

PERFORMANCE Grupo de dança faz espetáculo sobre violência policial, machismo, racismo e outros problemas do cotidiano Lucas Gregórioa

Belo Horizonte terá uma das poucas temporadas do país de peças de teatro com apenas um ator ou atriz. A quarta edição do “BH In Solos”, de 3 a 11 de dezembro, acontece para fortalecer esse estilo teatral e ocupa quatro locais da cidade, com a apresentação de sete artistas belo-horizontinos, um do Rio de Janeiro e um de Salvador. Alguns dos espetáculos são gratuitos e os demais custam R$ 10 a inteira e R$ 5 a meia entrada. Rafaella Dotta

O

s bailarinos fazem movimentos de confronto ao som de um tambor. O barulho se parece com a batida do coração ou com uma metralhadora, não se sabe bem, mas é aflitivo. A Companhia Fusion de Dança tenta mostrar que a dança também é lugar de encenar a realidade. A cena faz parte do espetáculo “Pai Contra Mãe”, que tem temporada de apresentação de 2 a 5 de dezembro e de 9 a 12 de dezembro no Centro Cultural do Banco do Brasil. O processo de montagem durou dois anos, conta Isadora Rodrigues, produtora da Fusion, e foi inspirado no conto de Machado de Assis de mesmo nome, “Pai Contra Mãe”. O texto fala sobre uma mulher negra grávida em 1860, escravizada, que foge para salvar o filho da escravidão. Ao mesmo tempo, um homem livre se depara com a mulher e a captura, vendo na recom-

pensa uma chance de dar um futuro ao seu filho. A história, sob a direção de Leandro Belilo, é transposta para os dias atuais e incorpora elementos sobre o racismo, a homofobia, o machismo, a pobreza, a violência policial, para ao fim dar origem aos movimentos de dança dos sete bailarinos. “Nós usamos muito o break, hip hop dance, vouguing e inserimos o krumping, que é um estilo que bate no chão e diz ‘que que foi?’. É mais agressivo, com o intuito de provocar um ponto de vista”, detalha Isadora. Dança e vida real O espetáculo tem um motivo a mais para chegar à representação mais fiel da realidade: a vida dos bailarinos. “Eu vivo o meu conflito constante. Minha irmã tem câncer e a gente precisa levá-la para a quimioterapia”, conta o bailarino Jonatas Pitucho, de 28 anos, nascido no Aglomerado da Serra em BH.

Para Aline Matias foi a tia quem trouxe um novo significado. Quando dançou parte do espetáculo em outubro, com a música “Maria da Vila Matilde”, de Elza Soares, a tia foi assistir. Uma semana depois seu marido faleceu, deixando-a com depressão depois de anos de violência doméstica. Do lado do caixão, a tia chamava Aline repetidas vezes: “aquela dança que você dançou, não é?”, dizia. Por vezes encenava estufando o peito e colocando os braços para trás. “Parece que ela crescia, que deu um poder para ela, literalmente”, descreve Aline. A mensagem para o público é um dos fortes motivos do espetáculo. Para Isabela Isa-Girl, bailarina da Fusion e moradora do Barreiro, em BH, é preciso estar no palco para “dizer a outras pessoas que elas têm direito de viver, e não só sobreviver”, frente ao racismo, ao machismo, à pobreza, à homofobia e outras tantas dificuldades.

Feira de Artesanato da América Latina Divulgação

A 27ª Feira Nacional de Artesanato acontece em Belo Horizonte de 7 a 11 de dezembro, na Expominas (Avenida Amazonas, 6030). Neste ano, os artesãos e artistas trazem novidades como a demonstração de como é o natal em outros países e a Oficina do Papai Noel, para a restauração de brinquedos. Serão 1.300 stands e a expectativa é de 180 mil visitantes. Os ingressos custam R$ 10.


Belo Horizonte, 2 a 8 de dezembro de 2016

na geral

ESPORTES

15 15

A tragédia da Chape, o lucro e as homenagens LUTO Companhia que transportava jogadores e jornalistas tinha uma única aeronave na frota Reprodução /ACHAPEF

Diego Silveira e Fernanda Costa

A

queda do avião que transportava a delegação da Chapecoense e jornalistas, pouco antes de pousar na Colômbia, onde disputaria o primeiro jogo da final da Copa Sul-Americana contra o Atlético Nacional de Medellín, vitimou 71 pessoas. Em princípio, a falta de combustível e a consequente pane no sistema elétrico teriam causado a queda, mas a investigação não está concluída.

Causas à parte, fica a dúvida. Por que a companhia Lamia, com uma única aeronave na frota, foi escolhida para transportar a delegação? Uma hipótese é que o clube tenha preferido a Lamia por questões econômicas. Segundo fontes ouvidas pelo jornal argentino La Nación, a empresa oferece voos até 40% mais baratos que a concorrência e não tem fundos para realizar o protocolo de segurança internacional para aciden-

tes, como a compra de urnas funerárias, atendimento médico às vítimas e psicológico aos familiares, etc. É possível que o preço dos serviços se dê em função da estrutura organizacional precária e em detrimento da segurança de voo. Superação A Chapecoense foi a grande surpresa desta temporada do futebol latino-americano. Mesmo com elenco e recursos financeiros limitados, o time avançou à final da Copa Sul-Americana, deixando para trás bichos papões como Independiente e San Lorenzo. A Conmebol suspendeu a final. Em homenagem, o Atlético Nacional solicitou que o título seja entregue à Chape e prestou tributo na noite da quarta-feira (30), no estádio Atanasio Girardot, onde se jogaria a decisão. Já a CBF decretou luto oficial de sete dias e adiou as últimas partidas da Copa do Brasil e do Brasileirão.

Anúncio


16

Belo Horizonte, 2 a 8 de dezembro de 2016 Bruno Cantini

ESPORTES

16

DECLARAÇÃO DA SEMANA Divulgação

Galo grande, CBF de sempre

Atlético se recusou a enfrentar a O Chapecoense pela rodada final do Brasileiro. A atitude é correta e solidária. O time da Chape ainda não renasceu, está morto nas montanhas da Colômbia. Mas o presidente da CBF, Marco Polo del Nero, é contra. Sugeriu uma grande festa em Chapecó, para homenagear os

mortos, e que a Chapecoense jogasse com atletas da base. Ivan Tozzo, agora presidente da Chape, pensou em acatar a ideia. Que visceral é a politicagem entre os cartolas! Neste momento de luto, a atitude do Galo dá esperanças e a da CBF não surpreende.

“O Atlético Nacional convida a Conmebol para que o título da Copa Sul-Americana seja entregue à Associação Chapecoense de Futebol, como tributo honorário à sua grande perda e homenagem às vítimas do acidente fatal que cobre de luto o nosso esporte”. Atlético Nacional, clube colombiano classificado para a final do torneio, mandando uma forte mensagem de solidariedade e de grandeza para além do futebol.

Gol de placa O Atlético Nacional pediu à Conmebol que a entidade declare a Chapecoense campeã da Copa Sul-Americana. Ademais, o clube e torcedores lotaram o estádio Atanasio Girardot na quarta-feira (30), em comovente homenagem póstuma.

Gol contra Nada como um tapetão para esconder os erros da cartolagem! O Inter foi ao STJD contra o Vitória, que teria escalado irregularmente o zagueiro Victor Ramos em 26 partidas do Brasileirão. Será que o Inter estaria tão preocupado com a legalidade se não estivesse disputando a permanência na série A justamente contra o clube baiano?

Decacampeão

É Galo doido!

La Bestia Negra

Bráulio Siffert

Rogério Hilário

Leo Calixto

Além dos vários motivos que entristeceram todo o mundo diante da tragédia com a equipe da Chapecoense, o torcedor do América tem razões a mais para se comover: somos semelhantes à Chape na injusta e desproporcional luta contra os granDecacampeão des, na fé inabalável de seus torcedores, no desrespeito da mídia diante de nossa existência, na necessidade dos atletas de serem ainda mais dedicados, no verde bonito e alegre, no bravo Kempes que também honrou nossa camisa. A grande diferença para o América, por outro lado, é que a Chapecoense tem diretores comprometidos e um planejamento sério, que levaram o time a se destacar nos cenários brasileiro e sulamericano. Obrigado, Chape, por ser esse grande exemplo para o América!

Nesta coluna, como todo o mundo, sou Chapecoense. A tragédia que se abateu sobre o clube catarinense, no melhor momento de seus 43 anos, supera tudo o que se possa falar a respeito de futebol. Decisão acertada da CBF – e são poucas as atiÉ Galo doido! tudes louváveis da entidade – de adiar a final da Copa do Brasil. Assim como é sublime a proposta do Atlético de Medellín de declarar a Chape campeã da Copa SulAmericana. Não podemos deixar de enaltecer a providência divina: a princípio, seis pessoas se salvaram. Mas discordo de Luciano Buligon, presidente do Conselho Deliberativo do clube. No calor da emoção, ele disse: “O sonho acabou”. O sonho não acaba para quem sempre luta e nunca desiste.

Peço desculpas à nação celeste por não abordar nosso querido clube nesta coluna. Mas é difícil analisar futebol após o trágico acidente que vitimou a delegação da Chapecoense, jornalistas esportivos, trabalhadores e trabalhadoras da empreLa Bestia Negra sa aérea boliviana. O futebol mundial está de luto por uma instituição futebolística que vinha demonstrando, dentro e fora de campo, como estruturar um clube de futebol de forma profissional, no qual sua torcida é o pilar fundamental de sustentação. Esperamos que o modelo organizativo da Chape seja um exemplo a ser seguido pelos clubes brasileiros, tanto na estrutura administrativa, quanto na forma de se relacionar com sua torcida.

Edição 164 do Brasil de Fato MG  

PDF da edição 164 do BF MG