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Tomás German / Translado

CULTURA

Vidas de trans de BH vira livro

Minas Gerais

Belo Horizonte, 22 a 28 de junho de 2018 • edição 239 • brasildefato.com.br • distribuição gratuita Reprodução

CIDADES

Fake News é estratégia para projeto político da elite Reprodução / AFA

ESPORTES

Não está sendo fácil Argentina perde feio para a Croácia e se complica na Copa. Após o chocolate de 3 a 0 na quinta-feira (21), Hermanos precisam vencer Nigéria e torcer por combinação de resultados. Ao contrário da Copa passada, quando América Latina esbanjou bom futebol no início da competição, na Rússia, seleções do continente enfrentam dificuldades. Apenas Uruguai e México tiveram um início positivo. O Brasil que abra os olhos!

MUNDO

Crianças imigrantes aprisionadas nos EUA chocam mundo BRASIL

Temer e Congresso entregam pré-sal e minério


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OPINIÃO

Belo Horizonte, 22 a 28 de junho 2018

Editorial | Brasil

Por mais vitórias da democracia

ESPAÇO DOS LEITORES

“Triste realidade, tem escolas que já estão 60 dias paralisadas... Enquanto isso a educação do nosso país prejudicada”. Sara Garrides comentando a matéria “Trabalhadores da educação estão paralisados por não receberem salários” ----------------------------------“Tá sem lugar pra ver o jogo???” João Gualberto comentando a notícia “Frente Brasil Popular Minas transmite jogos na Ocupação Pátria Livre”. --------------------------“Alô, não deixem de ler, inclusive jornalistas, políticos e candidatos de esquerda” Kakânia comentando o artigo do João Paulo Cunha, “Centro é um lugar que não existe”

Escreva para nós: redacaomg@brasildefato.com.br

Dia 26 de junho, terça, a 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) avalia um pedido da defesa de Lula que contesta a prisão, alegando a necessidade de o ex-presidente responder à condenação em liberdade, de forma que a pena seja suspensa até que os tribunais superiores analisem os recursos. Com a absolvição de Gleisi Hoffmann, presidenta do PT, no dia 19 de junho, no STF, amplia-se a expectativa sobre a suspensão da prisão de Lula. A pressão é ainda maior porque vem de todos os cantos do mundo, mas também, porque Lula é o principal colocado nas pesquisas eleitorais, com chances de ganhar no primeiro turno. O ministro Fachin em seu voto no caso Gleisi, afirmou algo que inocenta Lula. Segundo o mi-

O Brasil precisa democratizar o saber e o poder nistro, para que se configure o crime de corrupção passiva, acusação que pesa sobre Lula, a solicitação de vantagem indevida deve estar relacionada com as atribuições funcionais do agente público. Não há relação entre as supostas vantagens (o triplex) com as atribuições funcionais do agente público, Lula, no caso. Porém, o plenário do Supremo já rejeitou um habeas corpus anterior solicitado pela defesa do ex-presidente. De maneira geral, não é possível neste momento depositar confiança no Judiciário, denunciado por limitar o amplo direito à defesa,

O jornal Brasil de Fato circula semanalmente com edições regionais, em Minas Gerais, no Rio de Janeiro, no Paraná e em Pernambuco. Queremos contribuir no debate de ideias e na análise dos fatos do ponto de vista da necessidade de mudanças sociais em nosso país e no nosso estado.

pela seletividade e velocidade em algumas condenações, e morosidade em outras. A resistência e apoio popular à candidatura de Lula e a denúncia de falta de provas no caso do triplex são os caminhos para a defesa da democracia neste momento.

Para melhorar a vida de todos precisamos libertar Lula Democracia é disputa Está cada dia mais claro, no entanto, que democracia no Brasil passa necessariamente por um incremento substantivo no protagonismo popular. Se os de baixo não se mexem, não reivindicam, não se mobilizam e protestam, a história estaciona, ou, pior, anda para trás. Estamos longe de ter um país democrático, e por isso mesmo não podemos perder essa bússola. Democratizar o Brasil é democratizar o acesso à cultura, à educação, à saúde, é realizar a reforma urbana e agrária, a reforma tributária que taxe os ricos e alivie os pobres. Mas sobretudo, é democratizar o poder, o que se faz com reforma política. Para tudo isso, precisamos eleger um governo popular nas próximas eleições. Esse é o primeiro e decisivo passo. Não por acaso, Lula está preso, porque representa a possibilidade de vitória de um projeto não alinhado às elites. Portanto, temos cada um e cada uma que a partir das suas possibilidades, realizar iniciativas pela libertação de Lula.

REDE SOCIAL: facebook.com/brasildefatomg CORREIO: redacaomg@brasildefato.com.br PARA ANUNCIAR: publicidademg@brasildefato.com.br TELEFONES: (31) 3309 3314 / (31) 3213 3983

conselho editorial minas gerais: Adriano Pereira Santos, Aruanã Leonne, Beatriz Cerqueira, Bernadete Esperança, Bruno Abreu Gomes, Cida Falabella, Ênio Bohnenberger, Frederico Santana Rick, Gilson Reis, Gustavo Bones, Jairo Nogueira Filho, Joana Tavares, João Paulo Cunha, Joceli Andrioli, Jô Moraes, José Guilherme Castro, Juarez Guimarães, Marcelo Oliveira Almeida, Makota Celinha , Maria Júlia Gomes de Andrade, Milton Bicalho, Neila Batista, Nilmário Miranda, Padre Henrique Moura, Padre João, Pereira da Viola, Renan Santos, Rogério Correia, Rosângela Gomes da Costa, Robson Sávio, Samuel da Silva, Talles Lopes, Titane, Valquíria Assis, Wagner Xavier. Editora: Joana Tavares (Mtb 10140/MG). Redação: Amélia Gomes, Larissa Costa, Rafaella Dotta, Raíssa Lopes, Thainá Nogueira e Wallace Oliveira. Colaboradores: Alan Tygel, Anna Carolina Azevedo, André Fidusi, Bráulio Siffert, Diego Silveira, Felipe Marcelino, Fernanda Costa, João Paulo Cunha, Léo Calixto, Luiz Fellippe Fagaráz, Marcelo Pereira, Nadia Daian, Pedro Rafael Vilela, Renan Santos, Rogério Hilário, Sofia Barbosa, Taciana Dutra. Revisão: Luciana Santos Gonçalves. Distribuição: Felipe Marcelino. Diagramação: Tiago de Macedo Rodrigues. Tiragem: 40 mil exemplares.


? PERGUNTA DA SEMANA

As chamadas fake news têm sido motivo de grandes debates nas redes sociais. Em ano eleitoral, é fundamental se informar para não correr o risco de cair em alguma pegadinha das notícias falsas. O Brasil de Fato saiu às ruas e perguntou:

Você sabe o que é fake news?Como checar se uma notícia é verdadeira?

“Fake news é notícia falsa, né? Todo dia a gente recebe uma, a maioria sobre celebridade e política. Quando estou em dúvida se uma notícia é verdadeira eu procuro ler, entender, me inteirar sobre o assunto, principalmente quando o assunto é política” Andreza Nogueira Secretária

“Fake news são notícias falsas que o pessoal inventa. Eu já recebi uma fake news uma vez, era sobre um crime. Eu fui pesquisar e descobri que era mentira. Sempre vejo várias fake news no Instagram e WhatsApp. Quando eu acho que uma notícia é falsa, vejo se tem o mesmo assunto em vários sites”

Belo Horizonte, 22 a 28 de junho 2018

GERAL

Declaração da Semana “Não jogamos bem, e o adversário fez o que tinha de fazer, que era impedir o jogo do Brasil. Vamos nos preparar para a próxima, sem menosprezar a Costa Rica. Afinal, todos sabem que um dia o pequeno Davi venceu o gigante Golias”

3 Ricardo Stuckert

Ex- presidente Lula, que tem comentado a Copa para a TVT, analisando o empate da Seleção Brasileira com a Suíça

Arraial de Belô

O Arraial de Belo Horizonte 2018 começa amanhã na Praça da Estação. Entre os dias 22 a 24 de junho, e nos dias 30 de junho e 1º de julho cerca de 50 quadrilhas irão disputar os concursos municipal e estadual. Além da competição, na praça haverá também uma vila gastronômica e shows de artistas locais e também de duplas como Edson e Hudson, no dia 24 de junho, e Bruno e Marrone, em 1º julho. Tamires Martins

Brenda Sthefane Estudante

33ª Semana do Migrante

Divulgação

No domingo (24) começam as atividades da 33ª Semana do Migrante, haverá uma missa, às 11h, na Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem. Na próxima sexta (29) às 19 horas, a Escola Superior Dom Hélder Câmara recebe uma conversa sobre Migração e Refúgio. O encerramento será com a Manhã de Cidadania com Migrantes e Refugiados, no dia 30, de 9h às 14h, no Parque Ecológico do Eldorado, em Contagem. A região metropolitana de BH recebe muitos imigrantes, principalmente haitianos. Em 2015, segundo o governo de Minas Gerais, o número de imigrantes só dessa nacionalidade já alcançava 5 mil pessoas.


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CIDADES

Belo Horizonte, 22 a 28 de junho 2018

E quem checa as agências de checagem de notícias falsas? COMUNICAÇÃO Rotulagem de notícias falsas gera debate sobre censura nas redes Reprodução

Amélia Gomes, com Leonardo Fernandes

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ocê já ouviu falar sobre fake news? Sabe do que se trata? Em português a expressão significa notícias falsas. O termo é usado para denominar boatos, principalmente aqueles que são espalhados na internet. As fake news ficaram popularmente conhecidas após os escândalos envolvendo o uso de robôs propagadores de notícias

Agências de checagem são privadas e demonstram interesse político

falsas em redes sociais durante a campanha presidencial dos Estados Unidos, em 2016. A partir daí explodiram no cenário virtual as chamadas agências de checagem de notícias. Essas entidades são, em sua maioria, empresas privadas, vinculadas a grandes meios comerciais de comunicação. Essas páginas se intitulam como verificadores de notícias, classificando as in-

formações como: falsas, verdadeiras ou duvidosas. Para a coordenadora estadual do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação - FNDC, Florence Poznanski, um dos problemas das agências de checagem de notícias é que elas suprimem o pensamento crítico das pessoas. “É como se o cidadão, que até agora tem sua autonomia de pensar, ana-

lisar e interpretar as informações, passasse a delegar essa tarefa a um grupo externo, que pode inclusive ter influências políticas”, afirma. Neste ano, o facebook fechou parceria com essas agências, para classificar as notícias postadas na rede social. Essa classificação foi o que gerou polêmica na última semana, quando as agências contratadas pelo Facebook, rotularam como ‘falsa’ uma informação publicada por veículos alternativos de comunicação. A notícia falava sobre a tentativa frustrada de visita de um dos coordenadores do encontro mundial dos movimentos populares em diálogo com o Papa Francisco, o argentino Juan Grabois, ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso em Curitiba.

Agências de chegagem erram sobre envio de rosário a Lula por Papa Francisco

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a saída da Polícia Federal em Curitiba, Grabois criticou a postura das autoridades brasileiras, que o impediram de entregar ao ex-presidente um terço abençoado pelo Papa. Inicialmente, a página Vatican News, agência de notícias mantida pela Secretaria de Comunicação da Santa Sé, publicou uma nota negando que o objeto religioso levado por Grabois havia sido enviado pelo papa. Imediatamente, as agências de checagem enviaram uma notificação para os usuários do Facebook, informando que aquela notícia compartilhada se tratava de uma fake news. O fato repercutiu em diversos meios e virou a bola da vez. No entanto, não demorou muito para que o próprio

EduardoMatysiak / Agencia PT

Vatican News apagasse a primeira nota e publicasse um outro texto, no qual confirmava a relação de Grabois com o Papa e o envio do rosário. Para o jornalista João Paulo Cunha, a escolha das agências sobre quais conteúdos verificar e a quais fatos dar mais visibilidade evidencia o interesse político por trás dessas checagens. “A fake news parece a princípio meramente técnica, um mal fazer jornalísti-

co, uma notícia mal apurada que não foi devidamente checada pelo jornalista. No entanto, existe um projeto político por trás da checagem das fake news, que é a ideia de tentar naturalizar a imprensa comercial, tradicional e hegemônica como a única capaz de fazer de fato jornalismo”. A Agência Lupa, uma das agências parceiras do Facebook, publicou uma retificação sobre a classifica-

Querem naturalizar a imprensa comercial como única capaz de fazer jornalismo” ção da notícia e trocou a rotulagem da informação de “falsa” para “de olho”. No entanto, a reparação não teve a mesma audiência como a primeira classificação e também não apareceu como notificação para os usuários do Facebook. Outras agências, no entanto, sequer retificaram o erro e continuam mantendo a notícia como falsa.

Disputa por reitoria da UFTM vai parar no MP e na PF No dia 6 de junho, ocorreu a consulta eleitoral para a composição da nova reitoria da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM). Dentre as 10.716 pessoas aptas a votar, 5.928 participaram do processo eleitoral, entre professores, técnicos administrativos e estudantes. A Chapa 2, “A UFTM que queremos ser”, obteve 3.187 votos, enquanto a Chapa 1 “União e confiança”, que buscava a reeleição, obteve 2.649. Na última semana, a Chapa 1 entregou documentos que apontam indícios de irregularidade à Polícia Federal e ao Ministério Público. Umas das reclamações era a de que um estudante havia votado com cédula de professor, o que não é permitido, pois os votos possuem peso diferente na apuração final. Em nota, a Chapa 2 repudiou o que classificou de “tentativa de ruptura institucional”, destacando que “não houve nenhuma reclamação por parte dos fiscais da própria Chapa 1, o que indica que tudo transcorrera na normalidade”. Segundo Matheus Barcelos, estudante, “o fato de um discente votar com uma cédula de docente realmente aconteceu, mas isso não prejudicou o processo, pois a chapa pediu para conferir as listas e estava faltando apenas esse voto”. O equívoco da troca de cédulas foi percebido na hora da votação e consta no relatório da Comissão Eleitoral.


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MINAS

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Opinião

Política além da eleição João Paulo Cunha Ano de eleição parece sempre valorizar a política. Infelizmente, não é bem verdade. As eleições chamam atenção para certo tipo de política, sobretudo aquela voltada para os nomes de candidatos mais viáveis e os conchavos de bastidores. A autêntica vida política, em suas artérias mais ricas de sangue participativo e orgânico, fica muitas vezes em segundo plano. O que estamos vendo hoje no Brasil é prova disso. Ao lado das discussões sobre candidaturas, vão se avolumando derrotas e ameaças à democracia e à soberania do país. A desnacionalização da Petrobras jorra em leilões e medidas entreguistas. A perda de poder de fomento dos bancos públicos reforça a lógica do setor financeiro, rifando a missão desenvolvimentista para fortalecer a especulação. Recursos da educação são retirados para fazer caixa para o fundo de segurança, numa inversão absurda, que alimenta a violência de amanhã com a indigência da educação de hoje. Em políti-

ca externa as posições se tornam cada vez mais submissas aos interesses dos países ditos centrais.

Ganhar eleição não é garantia de exercício da vontade popular, 2016 que o diga A tentativa de inviabilizar a candidatura de Lula é a prioridade da ação reacionária viabilizada pela Justiça. Por isso, a defesa do nome do ex-presidente se mantém como a mais justa e correta atitude política. Mas sem naturalizar a eventual derrota de outras frentes de luta, em nome de uma estratégia eleitoral, que depois resgataria todos os prejuízos. É preciso manter o potencial de resistência e mobilização popular. Ganhar eleição, 2016

que o diga, não é por si só garantia de exercício da vontade popular. A perspectiva de uma retomada de um governo em bases populares, nesse momento, terá novos desafios. A estratégia de aposta na distribuição de renda como motor da transformação social mostrou seus limites. O chamado grande debate eleitoral deve seguir seu rumo, com eventos públicos falsamente democráticos reunindo figurões e figurinhas, jogo de cartas marcadas da cobertura midiática. Que arrisca fazer da eleição o berço e o túmulo da participação popular. O povo, no correr da campanha, entra mais como variável de pesquisas de intenção de voto do que como sujeito histórico. É preciso ampliar a luta por novos direitos, acirrar os conflitos de classe, radicalizar as estratégias de mobilização popular, aprofundar os debates em torno de um projeto efetivamente popular para o país. Tirar a política do consumo e investir no olho da rua. A eleição é uma consequência dessa atitude.

Sindicato dos farmacêuticos está ameaçado de fechar DIREITOS Segundo diretora, com reforma trabalhista, patrões saíram fortalecidos para impor perda à categoria Divulgação / Sinfarmig

Wallace Oliveira

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Sindicato dos Farmacêuticos de Minas Gerais (Sinfarmig) corre o risco de fechar as portas. A organização que representa mais de 24 mil profissionais espalhados por todo o estado, enfrenta dificuldades com as reformas do governo golpista de Temer (MDB). Com isso, patrões ficam mais fortes para retirar direitos da categoria. Reformas e financiamento Além de alterar diversas cláusulas da CLT e permitir que o negociado prevaleça sobre o legislado, a reforma trabalhista extinguiu o imposto sindical, uma das principais fontes de custeio das organizações dos trabalhadores. No final do ano passado, uma estimativa do Departamento

Patrões se aproveitam e querem aumento de jornada e diminuição do tempo de almoço

Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) apontou que até 100 mil funcionários dos sindicatos podem ser demitidos. “Aqui também não é diferente. Já demitimos nossa assessoria de comuni-

cação, advogados e funcionários e estamos com apenas três. Nós sempre funcionamos das 8h às 18h. Agora, só de 8h ao meio-dia”, relata Júnia Dark Vieira Lelis, diretora do Sinfarmig.

De acordo com Júnia, há muitas dificuldades para filiar a categoria e garantir a contribuição voluntária. Primeiramente, porque os farmacêuticos encontram-se pulverizados pelo território, o que dificulta o contato permanente com os trabalhadores. Em segundo lugar, porque há um discurso e uma mentalidade anti-sindicais que impedem que as pessoas compreendam a importância da organização.

Quem perde é o trabalhador “Os sindicatos patronais são muito articulados. Se nos desarticularmos ou acabarmos, o trabalhador fica desamparado”, avalia Júnia. Se antes havia uma legislação por trás para amparar quem trabalha, com a reforma, o trabalhador está desprotegido. “Na última pauta que eles nos entregaram, o farmacêutico não ganharia mais hora extra, o patrão poderia acertar o banco de horas em até um ano, dando uma folga do jeito que eles determinarem. Também querem implantar a jornada de 12 por 36 e passar o horário de almoço para 30 minutos. As homologações não são mais no sindicato, mas lá na empresa com o advogado da empresa”, exemplifica.


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MINAS

Belo Horizonte, 22 a 28 de junho 2018

“Garantimos cinco coisas que as pessoas não têm: casa, trabalho, educação, segurança e vida sem exclusão” MST Movimento completou 30 anos em Minas Gerais e é referência internacional na luta pela terra, produção agroecológica e educação no campo Mdia Ninja

Wallace Oliveira

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á 30 anos, no dia 18 de fevereiro de 1988, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) chegou a Minas Gerais para ficar. Hoje ,com mais de 20 mil famílias espalhadas pelo estado, o movimento é referência nas lutas pela democratização da terra. Produz alimento orgânico sem venenos e ajuda a formar milhares de pessoas em Minas e no Brasil. É o que conta Ênio Bohnenberger, um dos fundadores do movimento. Brasil de Fato – Como foi a chegada do MST ao estado? Ênio Bohnenberger – O primeiro encontro do MST nacional foi em 1984, em Cascavel (PR). Antes disso, havia muitas lutas espontâneas, que deram origem ao movimento. A aglutinação dessas várias lutas, a resistência dos posseiros proporcionou esse encontro nacional e 13 estados participaram. Depois disso, vários trabalhos foram feitos para se ter o MST aqui. A consolidação veio com uma grande ocupação em fevereiro de 1988, na Fazenda Aruega, em Novo Cruzeiro, Vale do Mucuri. Somos fruto de várias lideranças da igreja, das CEBs, do Partido dos Trabalhadores, da Central Única dos Trabalhadores, uma continuidade da luta no Brasil.

Minas é considerado um estado muito conservador, onde é muito marcante a influência dos fazendeiros na política. Foi muito difícil avançar nesse estado? A principal dificuldade foi o coronelismo, espe-

Queremos reduzir os agrotóxicos e fortalecer a agroecologia” cialmente nessas regiões do Mucuri e Jequitinhonha. E a própria repressão policial, pois havia um resquício grande da ditadura militar. Por outro lado, o sistema capitalista havia criado uma grande contradição. Levou máquinas, insumos, agroquímicos, e criou um grande desemprego. Então, na verdade, modernizou a agricultura, mas não

desconcentrou a terra. Nesse período, houve um grande êxodo rural, muita gente foi para São Paulo e outras metrópoles, mas quem não quis ir para a cidade foi lutar pela terra. Essa contradição permitiu o surgimento do MST. O movimento enfrenta o preconceito difundido pela mídia burguesa. Quem são os trabalhadores rurais sem-terra organizados no MST e o que fazem? Nós aglutinamos pessoas que querem permanecer no campo. Nós trabalhamos com camponeses, assalariados, semi-assalariados, pessoas que já foram para a cidade mas querem produzir em outro tipo de agricultura, com alimentos saudáveis. Somos o fruto daquilo que o capitalismo excluiu, quando não admitiu no mercado de trabalho, no meio urbano e rural.

Há cerca de 5 milhões de famílias sem-terra no Brasil, que têm que cortar cana, apanhar café, que não têm trabalho, que não têm terra, mas que buscam repartir uma das estruturas mais injustas, que é a estrutura fundiária do Brasil. É a estrutura que mais concentra terras no mundo. O MST trabalha prioritariamente com esse público. Nós lutamos contra a injustiça social e econômica e também contra o preconceito. A raiz da raiva e do ódio que destilam são o latifúndio e a escravidão, essa ideia de que pobre, preto, sem-terra não pode fazer parte da sociedade. Nós garantimos pelo menos cinco coisas que as pessoas não têm. Conquistamos a casa, conquistamos trabalho o ano todo, conquistamos a educação, conquistamos a segurança e conquistamos um nível de vida sem exclusão.

Onde está o MST no estado atualmente? Estamos nos vales do Jequitinhonha, Mucuri, Rio Doce, Triângulo Mineiro, Sul de Minas, Norte de Minas, Região Metropolitana, Zona da Mata e Centro-Oeste. Cada regional tem sua coordenação e todas participam da coordenação estadual. Em Minas, temos 1600 famílias assentadas, que têm terra; temos aproximadamente 5 mil famílias acampadas. Juntando tudo, dá aproximadamente 20 mil pessoas. O mais importante é que nós fazermos parte de uma organização nacional, que agrega 23 estados e o Distrito Federal. Somos fruto de Canudos, das Ligas Camponeses. Temos a maior produção agroecológica de arroz da América Latina. Nós construímos em BH o Armazém do Campo, que é uma grande referência de distribuição de produtos orgânicos. Em março, começamos o programa de alfabetização de adultos chamado “Sim, eu posso”. Nele, temos 90 turmas em sete municípios mineiros. Formamos aproximadamente 9 mil trabalhadores do campo na graduação, mestrado e doutorado em geografia, medicina, veterinária, história, agronomia, sociologia e outros cursos. Isso não seria possível sem o MST, pois a sociedade não nos incluiria na universidade.


OPINIÃO

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Lívia Terra

Tempos Sombrios

50 anos da primeira greve contra a ditadura Com o golpe militar de 1964 e com o processo de intervenções e caça de direitos civis e sociais, o ataque contra os direitos dos trabalhadores avançaram. O descontentamento crescia em todo país. Trabalhadores, estudantes e artistas começaram a organizar movimentos de resistência ao regime. É neste cenário que a classe operária mineira se mobilizou e em março de 1968, cerca de 1.200 trabalhadores compareceram ao ato que criou o Comitê Intersindical Antiarrocho em Minas Gerais. Era grande a insatisfação da sociedade e dos trabalhadores com a política de achatamento salarial e a caça aos direitos sociais. No dia 16 de abril de 1968, operários da siderúrgica Belgo-Mineira de Contagem, desafiando a lei antigreve, cruzaram os braços reivindicando reajuste salarial de 25%. Esta foi a primeira greve depois do golpe militar e surpreendeu a ditadura. Ela foi articulada pelo sindicato, que estava sob intervenção do Ministério do Trabalho. A fim de tentar retomar o controle, uma vez que trabalhadores de outras empresas aderiram à greve, o ministro do Trabalho Jarbas Passarinho tentou de várias formas Greve de 1968 conter o movimento. em Contagem A persistência dos trabalhadores provocou uma violenconquistou 10% ta reação do governo. A polícia militar ocupou as ruas de Contagem reprimindo qualquer tentativa de assembleias de reajuste e aglomerações operárias. Frente à amplitude e organização do movimento e o risco de espalhar-se por outros centros industriais, o ministro é obrigado a recuar, atendendo parte das reivindicações salariais e concedendo assim um reajuste de 10%, fora da data pré-determinada. O presidente-militar Costa e Silva assinou um decreto e dez dias depois anunciou a extensão desse aumento para todos os trabalhadores do Brasil. Geraldo Valgas é presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de BH; Contagem e região.

totalitarismos

Lívia Terra é funcionária da CEF e do SINTRAF JF.

ACOMPANHANDO

Geraldo Valgas

“São tempos interessantíssimos de se estudar e assustadores de se viver”. Essa frase me remete a dois períodos assustadores da história: o nazismo e a ditadura militar no Brasil. O período que antecedeu à ascensão de Hitler como führer (1934) foi marcado por crise econômica e pelo descontentamento social com o regime democrático (o discurso da corrupção contribuindo para essa insatisfação). O medo de uma revolução socialista levou a alta burguesia, o clero e os empresários a apoiarem os extremistas de direita do partido nazista. Entre 1934 a 1945, milhões de pessoas foram exterminadas em campos de concentração: comunistas, ciganos, testemunhas de Jeová e judeus. Em relação ao Golpe de 1964 no Brasil, houve dois argumentos utilizados na época para justificá-lo: o perigo do comunismo e a corrupção. Centenas de pessoas foram mortas, desaparecidas e torturados. A história se repete. Temos testemunhado tempos estranhos em que militares, fazem ameaças por redes sociais; em que clamam por intervenção militar; em que pessoas são hostilizadas, baleadas, chicoteadas, assassinadas e as autoridades não tomam nenhuma providência; em que pessoas são consideradas culpadas até que se prove o contrário; em que teorias de direito nazistas são utilizadas como meio de condenar (a teoria do domínio do fato foi criada por um juiz nazista em 1939). Tudo isso com o argu- Suposto mento de combater o co- combate à munismo e a corrupção. Acha que já viu esse filme corrupção foi utilizado para em algum lugar?

Na edição 229 ... Trabalhadores da educação decidem que a greve continua E agora... Sem salário, sem trabalho Conforme decisão do 11º Congresso Estadual do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (Sind-UTE/MG), a categoria está paralisada e promete voltar ao trabalho assim que os pagamentos forem realizados. Na quarta (20), o governo pagou o restante da primeira parcela dos salários dos trabalhadores ativos. Ou seja, quem recebe até R$ 3 mil, recebeu integralmente. Quem recebe mais que esse valor, a previsão é que no dia 25 seja paga a segunda parcela. Os aposentados receberam, no dia (19), R$ 500 e não há previsão para o pagamento do restante dos salários.


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BRASIL

Belo Horizonte, 22 a 28 de junho 2018

Decreto da mineração reduz multas e libera áreas de reserva para exploração MINERADORAS Assinado por Temer no dia 12 de junho, legislação também regula fiscalização de barragens, como a que desabou em Mariana (MG), em 2015 Divulgação / Conservation ONG

Pedro Rafael Vilela, de Brasília (DF)

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ovimentos populares e ambientalistas avaliam que a nova regulação do setor de minérios do Brasil, anunciada no dia 12 de junho, abre caminho para que áreas de reserva, atualmente protegidas, sejam entregues às mineradoras para exploração de minérios. É o caso da Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca), área com cerca de 46,5 mil quilômetros quadrados, equivalente a países como a Bélgica, Dinamarca e Holanda. Essa reserva, localizada na divisa dos estados do Amapá e do Pará, é muito rica em minérios como nióbio, ouro e ferro, apesar do nome indicar apenas cobre. No ano passado, ela foi extinta por Michel Temer, com o objetivo de abrir sua exploração, mas após grande pressão de movimentos populares, artistas, além de forte repercussão internacional, o governo recuou. Com as novas regras, no entanto, essas áreas voltam à mira das empresas multinacionais. “As reservas minerais ou reservas especiais foram criadas no período da ditadura militar, com objetivo de dar exclusividade à Vale do Rio Doce, tendo em vista que era uma empresa estatal, não sendo permitida a nenhuma outra empresa, de capital nacional ou não, realizar pesquisa ou exploração nessas áreas especiais. No período de privatização da Vale essas áreas de exclusividade não entraram no pacote do então presidente Fernando Hen-

“Decreto permite que reserva com área equivalente à de países como a Bélgica, Dinamarca e Holanda seja explorada por multinacionais”

rique Cardoso. O Decreto de Temer surge para finalizar o processo de privatização dos bens minerais”, avalia, em nota, o Movimento dos Atingidos pela Mineração (MAM).

Decreto de Temer surge para finalizar o processo de privatização dos bens minerais O Greenpeace, organização internacional que atua em defesa do meio ambiente, também considera que, a partir de agora, a legislação permite a exploração em áreas restritas, como a Renca. É a mesma opinião do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), que afirma que o decreto de Temer é uma forma de “camuflar a extinção da reserva”. Decretos O presidente Michel Temer assinou, no dia 12 de junho, dois decretos para atualizar dispositivos do Código da Mineração, de 1967,

e determinar uma nova distribuição da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (Cfem), que são os royalties pagos a municípios e estados, além da própria União, para que mineradoras possam explorar as reservas minerais do país. As medidas também mudam regras relacionadas a questões ambientais, como fechamento de minas e controle de barragem de rejeitos, e abre possibilidade de novas linhas de crédito no setor para “destravar negócios”. Pelos cálculos do governo, mais de 20 mil novos projetos minerais poderão ser abertos nos próximos anos. Redução de multas Pelas regras até então em vigor, os valores das multas aplicadas contra mineradoras que cometem infrações ambientais variavam entre R$ 1 mil a R$ 100 milhões de reais. Com o decreto, no entanto, o maior valor para aplicação dessas multas é de R$ 3.239,90, diz o MAM. No final de 2015, vivenciamos o rompimento da

barragem de Fundão, em Mariana, no estado de Minas Gerais, que causou danos imensuráveis ao meio ambiente, aos trabalhadores e à população que vivia no entorno da Bacia do Rio Doce. Porém, o Decreto 9.406/2018, pelo seu caráter neoliberal, não demonstra preocupação alguma com a experiência trágica que o rompimento da barragem de Fundão nos deixou”, afirma o movimento, em nota. Os atingidos por barragem também denunciam que o decreto permite a abertura de áreas de monopólio (como no

Temer reduziu valor máximo de multa às mineradoras, de R$ 100 milhões para R$ 3.239,90 caso do urânio, em que a extração é exclusiva da Indústria Nuclear Brasileira). Outra medida é a fiscalização da barragem de rejeitos minerais apenas por amostragem, além de maior celeridade nos processos de desapropriação das comunidades para dar lugar a zonas de exploração mineral.

Câmara dos Deputados aprova entrega de até 70% da Bacia de Santos A Câmara dos Deputados aprovou, na quarta (20), o Projeto de Lei (PL) 8.939/2017. O PL autoriza a Petrobras a negociar com outras empresas até 70% de seus direitos de exploração do pré-sal na Bacia de Santos. O projeto foi aprovado por 217 votos a favor e 57 contra, e quatro abstenções. Agora, o texto segue para o Senado. “Nenhuma grande petroleira abre mão de um grande campo de petróleo, que vai iniciar a produção, e no qual é operadora. Só uma empresa que pretende se privatizar abre mão de ativos desse tipo. Isso é inaceitável”, afirmou o ex-diretor geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Haroldo Lima. Já a Federação Única dos Petroleiros (FUP) lembrou em nota que o PL foi aprovado pelos mesmos parlamentares que derrubaram Dilma e flexibilizaram a Lei de Partilha, tirando da Petrobras a função de operadora exclusiva do Pré-sal Inflação e alta dos combustíveis O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) subiu 1,11% neste mês. Essa é a maior taxa do mês de junho nos últimos 23 anos. O resultado da prévia foi puxado pela alta dos combustíveis, tarifas de energia e alimentos. Bebida e alimentos ficaram 1,57% mais caros. A energia elétrica teve alta de 5,44%. Nos combustíveis, houve alta de 1,95%. A grande vilã foi a gasolina, com alta de 6,98%.


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BRASIL

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STF irá decidir sobre liberdade de Lula na próxima terça-feira JUDICIÁRIO Pedido da defesa do ex-presidente será analisado pelos ministros da segunda turma Reprodução / PT

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segunda turma do Supremo Tribunal Federal (STF) irá julgar, na terça-feira (26), um novo pedido de liberdade apresentado pela defesa do ex-presidente Lula. A solicitação reitera os argumentos apresentados anteriormente, como a imparcialidade do juiz de primeira instância Sérgio Moro para julgar o processo. Fazem parte do grupo que irá analisar o pedido o relator dos casos da Operação Lava Jato no Supremo, Edson Fachin, e os demais ministros Celso de Mello, Dias Toffoli, Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski. Os três últimos chegaram a se posicionar

contra a prisão após a condenação em segunda instância. Mas especialistas apontam que é preciso estar atento ao fato de que “o Judiciário está altamente contaminado por interesses políticos”. “Não estamos num momento em que a democracia

está funcionando normalmente. Não temos um Judiciário independente hoje que possa inocentar Lula, tirá-lo da cadeia e permitir que ele seja candidato”, afirma Pedro Serrano, jurista e professor da PUC/ SP.

Existem semelhanças entre os casos de Gleisi e Lula Pedro Serrano declara também que as acusações contra a senadora Gleisi Hoffmann, presidenta do Partido dos Trabalhadores (PT), se assemelham às realizadas contra Lula. O colegiado da 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, na terça-feira (19), pela absolvição de Gleisi das acusações de corrupção e lavagem de dinheiro. No caso do ex-presidente, o Supremo não teria realizado um julgamento baseado em técnica antes de decidir pela prisão, mas o teria feito com Gleisi constatando depois a inexistência de provas.

“O que nós temos que fazer é uma crítica. Por que houve denúncia nesse caso [de Gleisi]? Por que fazer uma pessoa sofrer quatro anos da sua vida? Para que submeter a uma denúncia se, obviamente, não tinha provas? Só havia falas de delator”, questiona o jurista. Para ele, se Lula conseguir um julgamento parecido, ele poderá ser considerado inocente. “[Os processos] fazem parte da mesma máquina de exceção. Creio que, se o ex-presidente tiver um julgamento técnico no futuro, ele será inocentado”, reflete.

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MUNDO

Belo Horizonte, 22 a 28 de junho 2018

Crianças imigrantes ficam isoladas em abrigos nos EUA TRUMP Sem notícias dos pais, elas recebem papel alumínio para se protegerem do frio, água e batata frita para comer Reprodução

Da redação

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lgumas imagens que mostram um pouco do que é a política anti-imigração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vazaram para a imprensa nesta semana e chocaram pessoas por todo o mundo. Elas mostram crianças – inclusive as de colo – mantidas em locais que se assemelham a gaiolas, vivendo sob condições precárias e longe dos parentes. De dentro de um armazém no Texas, elas recebem folhas de papel alumínio como cobertas e sacos de batata frita e água para a alimentação. Em um pequeno quarto para os mais novos, bebês estavam sentados em ca-

deiras altas e usando roupas iguais. As meninas e meninos foram separados dos pais quando as famílias tentaram entrar

Crianças são mantidas em gaiolas e sob condições precárias ilegalmente nos EUA usando a fronteira do México. Os veículos de comunicação divulgaram, ainda, áudios com o choro dos pequenos e casos de crianças que acabaram ficando nos abrigos meses de-

pois da deportação de seus familiares adultos. Diante das fotos e das críticas generalizadas à medida, que mobilizou a oposição e a Organização das Nações Unidas (ONU), os senadores republicanos anunciaram nesta terça-feira (19) que vão propor uma lei para proibir a prática, mas não deram detalhes da proposta. O texto da nova lei migratória deve ser finalizado nos próximos dias. Trump exige que o documento inclua as verbas para o muro com a fronteira do México, acabe com o sistema de loteria de vistos e permita a detenção e remoção das famílias em grupo.

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ENTREVISTA

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“Somos perseguidos porque temos uma visão de mundo que coloca o capitalismo em risco”, diz Kota Mulangi NEGRITUDE Médica fala sobre discriminação da alimentação dos povos africanos, segurança alimentar e tradições Zé Gabriel /Believe.Earth

Raíssa Lopes

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egina Nogueira, mais conhecida como Kota Mulangi - que quer dizer “combatente” -, é a presidente do Fórum Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos de Matriz Africana (Fonsanpotma). Ela explica a importância da soberania alimentar para a cultura dos povos de matriz africana e analisa os motivos da perseguição às tradições que envolvem a comida, o sagrado, a natureza e a autonomia.

Brasil de Fato - O que é o Fonsanpotma e o que ele discute?

Kota Mulangi - É o Fórum Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos Tradicionais de Matriz Africana, uma organização nacional que discute segurança alimentar e tradicional a partir desse olhar de que devemos garantir as tradições e os rituais tradicionais. Isso porque os povos tradicionais de matriz africana, que são muitos, se identificam a partir da sua língua, da sua indumentária, da forma como respei-

“O que é perseguido não é a alimentação, é a nossa origem, é ser negro” tam os mais velhos, os mais novos e, principalmente, a natureza e as suas divindades. O fórum está organizado em 14 estados do Brasil.

Neste momento, estamos sendo dizimados no Brasil”

“Quando a gente ingere comida industrializada estamos agredindo uma coisa sagrada: o nosso corpo”

O fórum também trabalha a campanha “Tradição Alimenta, Não Violenta”. Pode explicar o que é essa iniciativa, seus motivos e objetivos?

Temos duas campanhas em funcionamento. Uma que quer a nacionalização do dia 2 de fevereiro, na qual a gente busca o feriado de Kaiá, Aziri e Iemanjá, e a “Tradição Alimenta, Não Violenta”. Neste momento, nós estamos sendo dizimados no Brasil, as nossas unidades tradicionais territoriais, que também chamamos de terreiros, estão sendo atacados, violentados. Várias autoridades tradicionais têm sido mortas. Por isso, a gente sentiu a necessidade de demonstrar para a sociedade o que a gente é e o que a gente faz. Nessa tradição tudo é sagrado, a vida é sagrada. Todo ser vivo é cuidado. E nós não violentamos, muito pelo contrário, nós somos um povo que tem um hábito, para cada alimento que vamos ingerir temos um ritual, nós rezamos, cantamos, pe-

dimos benção. Essa campanha oferece oficinas para o povo, assim como para os servidores públicos, municípios, Estado. Discute como reconhecer algo que é da tradição e como lidar com isso. É construída de capacitação não só em relação

Queremos enfrentar e combater o racismo com a informação” ao meio ambiente, é em relação às mulheres - na nossa tradição, dizemos que todas as águas são mulheres -, às crianças, que são divindades, são sagradas assim como a alimentação. É uma campanha que pretende enfrentar e combater o racismo com a informação. Por que você acha que essa tradição do povo de matriz africana é tão perseguida?

O que é perseguido não é

Para cada alimento que ingerimos temos um ritual, rezamos, cantamos, pedimos benção” a alimentação, é a nossa origem, é ser negro. O crime é de racismo, não é intolerância, é genocídio, discriminação. Quando os povos saíam da África, eles eram lembrados que tinham que esquecer toda aquela proposta que existia lá, que é uma proposta que se contrapõe ao sistema hegemônico e dominante de ter lucro. Para nós comida é sagrado. Nos terreiros, a tradição é fazer comida e compartilhar com a comunidade. Como é o acesso à comida de qualidade para essas pessoas?

“Comida de santo, festa do povo”. Nós estamos bus-

cando soberania, então lutamos por terra, por respeito para plantar, criar. Queremos acesso a uma comida que não seja essa industrializada. Quando a gente ingere uma comida dessa a gente está agredindo uma coisa sagrada: o nosso corpo. O racismo e a perseguição sempre existiram, mas agora estão ficando cada vez mais evidentes. Como isso afeta a tradição dos povos?

De uma forma absurda. Afeta quando a gente não pode tocar tambor porque tem uma “lei do psiu”, quando a gente não pode circular com o animal vivo para rezar, fazer abate adequado, quando existe um projeto de Escola Sem Partido. Que não pode ter espaços coletivos. Isso é pra destruir qualquer tipo de cultura ou tradição que se contrapõe ao sistema capitalista. Para nós, quando queremos pegar algo da natureza, temos que pedir licença e rezar. Quando eu pego algo da natureza pra ter lucro individual, estou matando aquilo que acredito como divino. Essa visão de mundo é perseguida porque a gente coloca em risco o capitalismo.


12 12 VARIEDADES

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CIÊNCIA, COISA BOA! RAPAR ENGROSSA OS PELOS?

Amiga da Saúde

Lucas Figueiredo / CBF

Acho meu clitóris grande. Vi que muitas mulheres têm feito plástica. Será que eu também preciso?

Copa do Mundo rolando, um dos maiores eventos do planeta, e eis que o assunto que todos comentam é: o cabelo do Neymar! Sim, cabelos chamam nossa atenção. Tão grande quanto a importância que damos a eles é o número de crenças que os envolvem. Hoje vamos falar sobre algumas delas. O cabelo nada mais é do que um pelo que cresce na cabeça. A ciência possui até uma área específica para eles, a Tricologia. Os pelos são estruturas presentes na pele dos mamíferos (não confundir com as cerdas dos insetos e aranhas), em sua camada intermediária, a derme. Na derme há uma estrutura chamada folículo piloso onde o pelo é produzido. Ele é formado basicamente por feixes de células mortas ricas na proteína queratina. Com exceção da raiz, todo o resto do pelo está morto. Por isso, cortar cabelo é algo que não dói, diferente de quando arrancamos um! Todo mundo já ouviu que raspar os pelos faz com que eles cresçam mais e engrossem. Isso é verdade? Diversas pesquisas já mostraram que não. Em uma Quando raspamos delas, homens tiveram apenas uma de o pelo temos suas pernas raspada durante vários mesensação de maior ses. Ao final desse tempo, comparou-se o número, o tamanho e a espessura dos aspereza fios de ambas as pernas. Não houve qualquer diferença entre elas. Mas, quando raspamos o pelo temos a nítida sensação de maior aspereza. Isso acontece simplesmente porque, ao cortar o pelo, tiramos a parte mais fina dele, a ponta. Ou seja, fica pra trás justamente a parte mais grossa, próxima à pele. Com o crescimento do pelo, a ponta volta a afinar e essa sensação desaparece. E depilar sempre uma região, diminui os pelos? Às vezes sim. Pesquisas mostram que arrancar repetidamente um pelo pode ocasionalmente gerar traumas ao folículo, o que pode diminuir o número de pelos de uma área. Na depilação a laser esse processo é amplificado. O laser literalmente torra o folículo! E tem algo que podemos fazer para o cabelo crescer mais rápido? Não. Ele cresce em média 0,5 a 1 cm por mês e nada que façamos até hoje consegue acelerar isso. Portanto, todo cuidado com as receitas milagrosas que se espalham por aí! O que os cientistas já descobriram são formas de se evitar a queda de cabelos (não a calvície, que segue sem uma “cura”) e que eles cresçam mais fortes e saudáveis. Por exemplo, manter uma dieta rica em proteínas, zinco e vitamina B. Mas, nada disso interfere no ritmo do crescimento, apenas na qualidade dos fios. Um abraço e até a próxima! Renan Santos é professor de biologia da rede estadual de Minas Gerais

Cara leitora, cuidado com o que você lê na internet! Estão na moda as cirurgias na região íntima, assim como tantas outras plásticas que buscam transformar o corpo das mulheres para seguir um padrão de beleza e estética. Cada mulher é única! Os nossos corpos são diferentes. As vulvas também! O clitóris é um órgão que existe para o prazer sexual e o orgasmo. Assim como as outras estruturas da vulva, há clitóris meno-

res ou maiores, mais ou menos expostos. Não justifica fazer uma cirurgia só pela estética. Além do mais, que estética é essa que diz que o clitóris tem que ser pequeno? Não seria mais uma armadilha do consumismo? Ou do machismo? A cirurgia no clitóris traz risco de perda de sensibilidade e isso sim seria um grande problema para a mulher. Procure ir à ginecologista para uma avaliação e converse sobre suas dúvidas.

Sofia Barbosa é enfermeira do Sistema Único de Saúde I Coren MG 159621-Enf. Mande sua dúvida: amigadasaude@brasildefato.com.br

Nossos direitos A transexualidade não é doença: é um direito Após dez anos de estudos médicos e sociais a Organização Mundial da Saúde – OMS retirou a transexualidade da lista de doenças mentais. Mais que uma bandeira histórica do movimento LGBT, a mudança é uma conquista de reconhecimento, não deixando dúvidas de que existe um direito à manifestação da própria identidade. O posicionamento da OMS produzirá efeitos no sentido de garantir melhor atendimento médico a

esta população, além de colaborar na construção da identidade de gênero cada vez mais isenta de preconceito. Já a discriminação é crime notório e conhecido pela sociedade, sendo que qualquer ato que denigra a dignidade de um transexual pelo simples preconceito à sua escolha sexual deve ser responsabilizado nos termos legais. Fique ligado e não perca seus direitos!

Adília Sozzi é advogada da Rede Nacional de Advogados Populares – RENAP


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www.malvados.com.br

13 VARIEDADES 13

Dicas Mastigadas BOLO DE MILHO E COCO

PALAVRAS CRUZADAS DIRETAS

www.coquetel.com.br Foi absolvida pelo TSE em junho de 2017 Tecido celular subcutâneo

O rapanui, em relação à ilha de Páscoa Material da boneca Emília (Lit. inf.)

Protelada A linguagem inadequada em igrejas (?)-tsé, filósofo chinês Maurício (?), ator e cantor brasileiro

Delicadeza Emílio Ribas, sanitarista Chocalho indígena de atos religiosos (?) Nagle, escritora e apresentadora

© Revistas COQUETEL

Instituto Corpo (?), O testícu- Dois pintores europeus que retrataram o Brasil do século XIX E-(?), Tecnológi- símbolo do lo, por Civilização da políti- correio co de Ae- trote uni- seu formaLástima ca do Pão e Circo eletrônico ronáutica versitário to (Anat.)

Ingredientes

Fiscaliza o exercício da advocacia (sigla)

2 xícaras (chá) de milho verde fresco 2 xícaras (chá) de açúcar 1 pitada de sal 1 xícara (chá) de leite 5 ovos 200 ml de leite de coco 4 colheres (sopa) de farinha de trigo 4 colheres (sopa) de queijo ralado 4 colheres de sopa de margarina 1 colher de sopa de fermento em pó

(?) Haddad, diretor de Teatro Padiola

Tambor de cavalaria Tranquila; serena

"Aérea", em FAB Especial (abrev.)

Deus egípcio com cabeça de íbis

(?) Piazzolla, mestre do tango Camarão de rios Acender (fósforo)

"A (?) Secreta", conto machadiano

Calda A roupa recebida na Cruz Vermelha

1 lata de leite condensado 200 ml de leite de coco 100 g de coco ralado fresco

Designação de vários canais do organismo

Modo de Preparo

Sul-sudoeste (abrev.) Chefe etíope

Um, em espanhol Parte mais profunda da psique (Psican.) Acrescenta; adiciona

Riscados e invalidados (documentos)

2/un. 3/tot. 4/amir — mail. 5/ducto. 7/timbale. 9/tenuidade.

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Solução C H N A P A A D I L M M A T E M L E R

I N A L T E R A D A

I P O D E T I V O A N O A T I M B A D A D E C E O A S C P T A R N U I D S S O R A C A A A D S U R A

D R M E O A B M I R A L E A T N T E T O R I T U G G A D E U N C D I T A D O S

BANCO

1. Bata todos os ingredientes no liquidificador até ficar homogêneo, reservando o fermento. Acrescente o fermento em pó, misturando bem. 2. Unte e polvilhe com farinha uma forma redonda com abertura central 3. Despeje a massa e leve ao forno médio (180º C) pré-aquecido 4. Retire do forno, espere esfriar e só então retire da forma 5. Para fazer a calda de coco, para cobertura, basta misturar os ingredientes e espalhar em cima do bolo pronto

Receita da época antiga guardada pelas mestras do quilombo Chacrinha, de Belo Vale (MG). A arte de fazer biscoitos começou com Almerinda Dias da Cunha, que era responsável pela lida com o fogão em todas as festas. “– Ao biscoitão, Sô João!’’ era a senha que fazia as crianças correrem! Essa receita é parte do livro “Sabores do Quilombo – Quitandas das Minas Gerais”, acesse completo em goo.gl/BxKfJn. Participe enviando sugestões para receita@brasildefato.com.br.


14 CULTURA 14

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Orgulho Trans REPRESENTATIVIDADE Projeto resgata identidade e garante visibilidade às mulheres trans em Belo Horizonte Tomás German / Translado

Amélia Gomes

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s esquinas da Avenida Pedro II, na região noroeste de Belo Horizonte, são historicamente conhecidas por abrigarem travestis e transsexuais. Mas quais são as histórias dessas mulheres? De onde elas vêm? Onde elas moram? São essas as questões levantadas no Projeto Translado. A proposta, que começou em setembro de 2017, é de resgatar a identidade, memória, representatividade e histórias dessas personagens. A partir de encontros e entrevistas, o Translado constrói um registro histórico sobre quem são as travestis de Belo Horizonte. A partir das narrativas das personagens, diversos arquivos e documentos estão sendo elaborados. O mais recente foi o livro Translado: narrativas trans da Av. Pedro II, lançado no último dia 17. Segundo Caio Paranhos, um dos organizadores do projeto, a ideia é que as narrativas sejam construídas pelas próprias travestis e transsexuais. A proposta é que sejam

Quase uma festa na roça!

Em 18 de junho, a Organização Mundial de Saúde retirou a transsexualidade da Classificação Internacional de Doenças, a data passa a ser Dia Mundial de Combate à Transfobia.

Muitas amigas travestis foram expulsas de casa com 12, 13 anos elas as protagonistas de todo o processo, já que a população trans até hoje ainda é invisibilizada pela sociedade e pelos meios de comunicação. “No geral, quando se fala das pessoas trans na mídia hegemônica, é de maneira estereotipada e preconceituosa. Então quando a gente coloca elas como protago-

Divulgação

No domingo (24) vai ter forró pé de serra na rua, de graça. Será a partir das 16h, no Viaduto Santa Tereza, no Centro de BH, e todo mundo está convidado a ir de chapéu de palha e vestido rodado para pular fogueira. O encontro é organizado pela equipe Liberdade de Dançar, movimento cultural criado para levar a cultura nordestina para todos os cantos do Brasil.

nistas da própria história, estamos falando de representatividade. E é muito importante que os grupos minoritários, que são mal representados, assumam cada vez mais essa posição de protagonismo”, explica.

Ajudou a nos unir, mostrar que somos gente, que as travestis são pessoas como qualquer outra”

Carnaval toda época do ano

Paloma Prado é uma das protagonistas do projeto. Para ela a iniciativa é fundamental para garantir a visibilidade da população e ajudar a combater o preconceito. “Eu me senti super representada pelo projeto. O processo ajudou a gente a se unir ainda mais. E também a mostrar que nós somos gente! Que as travestis não são bichos de sete cabeças, são pessoas como qualquer outra”, afirma. No último dia 18, a Organização Mundial de Saúde retirou a transsexualidade da Classificação Internacional de Doenças. A partir de agora, a data passa a ser considerada como Dia Mundial de Combate à Transfobia. A decisão que está sendo comemorada. “90% da população trans ainda está na prostituição. Eu vejo esse dado como um reflexo da sociedade em que a gente vive. Tenho muitas amigas travestis que foram expulsas de casa com 12, 13 anos. Então como você consegue se estruturar perdendo seu vínculo social principal? Além disso, nós não temos políticas públicas suficientes para

Divulgação

Os preparativos para a folia de 2019 em Belo Horizonte já começaram! O bloco Batuque Coletivo irá fazer o seu primeiro ensaio no sábado (23), às 15h30, no NECUP (Av. Nossa Senhora de Fátima, 3312, bairro Prado, BH). O evento é gratuito e aberto para quem quiser chegar.

o acesso à escola, à saúde, ao mercado de trabalho. Isso são ações básicas para reverter esse quadro”. Afima Babi Macedo, artista, travesti e integrante do projeto, lembrando que apesar da resolução ser um passo rumo à garantia dos direitos da população trans, ainda há muito para avançar.

Serviço Livro Translado: narrativas trans da Av. Pedro II

Contato projetotranslado.com ou instagram.com/ projetotranslado

Religiosidade afrobrasileira em Uberlândia

No dia 28 de junho, a partir das 19h, será lançado o livro “Ewé Ásà: folhas e religiosidade afro-brasileira”. Um livro sobre a relação da religiosidade afro-brasileira com as folhas, dos jornalistas Nasser Pena e Isley Borges. A atividade será na Sede da ADUFU, rua Nelson de Oliveira, 711, Santa Mônica, Uberlândia-MG. Entrada gratuita.


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Palco de jogo do Brasil, São Petersburgo é símbolo de resistência

ESPORTE

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DECLARAÇÃO DA SEMANA Reprodução

RÚSSIA Cidade ficou cercada por 872 dias por tropas nazistas Arquivo / Sâo Petersburgo

“Eu sou o único treinador negro neste torneio. É uma realidade dolorosa que me incomoda” Aliou Cissé, ex-jogador e atual treinador da Seleção do Senegal, que estreou vencendo a Polônia por 2 a 1.

Curto e Grosso

Dá-lhe, Senegal! Daniel Giovanaz e Poliana Dallabrida, de São Petersburgo (Rússia)

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segundo jogo da Seleção Brasileira acontece em São Petersburgo, contra o time da Costa Rica. Se os integrantes da delegação verde-amarela precisam de exemplos ou inspiração, basta olhar a história da cidade que recebe o confronto. Chamada de Leningrado até 1991, tem 4,9 milhões de habitantes e fica a 600 km da capital Moscou. Quem estudou o cerco a Leningrado pensaria duas vezes antes de dizer que o técnico Tite “sofre pressão” no comando da equipe. Muito menos ousaria afirmar que Neymar enfrentou uma “marcação cerrada” contra a Suíça. O cenário desfavorável na tabela parece bobagem, se comparado ao teste de resistência a que foram submetidos os habitantes da segunda maior cidade russa, entre setembro de 1941 e janeiro de 1944. Durante 872 dias, as tropas militares da Alemanha Nazista, com apoio da Itália e da Finlândia, mantiveram a população cercada, com fome

e frio. Quase dois 2 milhões foram mortos, entre civis e membros do exército vermelho. Para os nazistas, destruir Leningrado significava acabar com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e vencer a guerra. Afinal, a cidade era um dos símbolos da Revolução de Outubro de 1917 e concentrava

Leningrado, como era chamada a cidade, foi palco da Segunda Guerra 10% da produção industrial soviética. Disciplina Barricadas de madeira, trincheiras de terra e areia, barreiras humanas. Os habitantes de Leningrado colocaram a mão na massa para evitar o avanço alemão em todo o perímetro da cidade. Os materiais e a força de trabalho eram rudimentares, perante os bombardeios e tanques de guerra nazistas – que chegaram a provocar 178 incêndios em um único dia.

Como não havia fornecimento de energia elétrica, o comitê executivo regional autorizou que os civis cortassem árvores para produzir carvão vegetal e tentar reabrir as fábricas. Milho, trigo, ovos, carne, gordura e açúcar. Com o passar dos meses, a oferta de comida dentro do cerco diminuiu e milhares de pessoas passavam o dia com 500 gramas de pão. Muitos só não morreram de desnutrição porque mergulhadores soviéticos ajudaram a recuperar barcas com milho, pois haviam afundado após bombardeios alemães. A salvação veio de fora. O exército soviético derrotou as tropas nazistas em Moscou e Stalingrado e depois mobilizou um milhão de homens para a região de Leningrado, ajudando a virar o jogo em janeiro de 1944. São Petersburgo está repleta de museus e monumentos que exaltam aqueles dias de resistência. Um dos maiores motivos de orgulho do povo russo, até hoje, é a vitória sobre o nazismo, que fatalmente teria prosperado em várias regiões do planeta, não fosse a dedicação e a disciplina dos trabalhadores soviéticos.

Nizam / Uddin

Luiz Fellipe Fagaráz Há cerca de dois meses, escrevi um texto abordando o racismo no futebol. Citei a falta de treinadores negros e o exemplo a equipe do Palmeiras que, pela primeira vez, tinha um técnico negro. Na Copa do Mundo da Rússia, algo chamou a atenção. Há apenas um negro treinando uma seleção, Aliou Cissé, de Senegal, embora diversos times tenham a grande maioria de seus jogadores negros. Senegal foi, aliás, a única seleção africana que venceu na primeira rodada da copa, derrotando a Polônia por 2 a 1. A nossa seleção brasileira, mesmo com toda a constelação de craques negros em toda a sua história, teve apenas dois treinadores: Ernesto de Paulo, que comandou o Brasil em apenas um jogo como interino, e Gentil Cardoso, pernambucano que comandou a equipe por apenas 5 jogos ou 23 dias. Aliou Cissé é o que possui o pior salário entre todos os 32 que disputam a Copa. Apenas como comparação, Joaquim Low, treinador alemão, é o mais bem pago. A diferença salarial entre os dois chega a 1800%. Outros 27 treinadores do mundial recebem, no mínimo, o dobro de Cissé. O futebol revela a triste realidade vivida por negros cotidianamente. E veja bem: nem mesmo abordamos os cargos de dirigentes e presidentes de federações. O racismo presente em todos os extratos sociais dificulta a ascensão de negros e negras a postos de comando.


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Croácia atropela Argentina e se garante nas oitavas APAGÃO Hermanos podem terminar Copa sem vitória, o que não acontece desde 1934 HNS

Da redação

A

pós empatar com a Islândia, a Argentina caminha para um de seus maiores vexames em copas do mundo. Na quinta-feira (21), o time de Jorge Sampaoli perdeu por 3a 0 para a Croácia e não depende apenas de si mesmo para avançar às oitavas. O primeiro gol foi marcado por Rebic, aos 8’ do segundo tempo, com a presepada do arqueiro Caballero. A Croácia explorou a fragilidade da defesa alviceleste e, aos 35’, o meia Modric acertou um chute de fora da área, após chamar o zagueiro Otamendi para dançar. Rakitic, companheiro de Messi no Barça, fechou o caixão aos 46’. A Croácia está garantida

nas oitavas-de-final, com seis pontos e a liderança do grupo D. Já a Argentina precisa torcer pela Nigéria contra a Islândia e depois vencer a equipe africana no último jogo, na terça (26), em São Petersburgo. Vexame histórico A última eliminação argen-

Gols foram marcados por Rebic, Modric e Rakitic tina na fase de grupos aconteceu na Copa do Chile, em 1962. A partir de então, o time sempre passou à fase eliminatória. Segunda potência do futebol nas Américas, os

argentinos foram campeões da Copa duas vezes (1978 e 1986) e vice-campeões em outras três oportunidades (1930, 1990 e 2014). A única vez em que os Hermanos se despediram sem vencer nenhum jogo foi em 1934, na Copa da Itália. O fiasco pode se repetir na Rússia, caso a equipe não supere a Nigéria no último jogo. Desempenho latino Das equipes latino-americanas, só México e Uruguai tiveram início positivo. Os mexicanos bateram a atual campeã Alemanha na estreia, por 1 a 0, e pegam a lanterna do grupo, Coreia do Sul. Já o Uruguai jogou com dificuldade nas duas primeiras partidas, mas derrotou o Egito e a Arábia Saudita, ambos por 1 a 0, garantindo a classificação. Quem não teve a mesma sorte foi o Peru, de Guerrero, que perdeu para Dinamarca e França e está desclassificado. A Colômbia estreou perdendo para o Japão, o Panamá perdeu por 3 a 0 para a Bélgica, a Costa Rica caiu perante a Sérvia e o Brasil, adversário da Costa Rica na sexta (22), empatou com a Suíça.

Assediadores brasileiros serão processados

Reprodução

Circulam na internet vídeos de torcedores brasileiros assediando mulheres russas na Copa, aproveitando-se do fato de elas não entenderem a língua portuguesa. Depois que os vídeos repercutiram, a jurista russa Alyona Popova denunciou os assediadores por violência e humilhação à honra e à dignidade de outra pessoa. O Ministério de Assuntos Interiores da Rússia vai iniciar uma investigação sobre o caso, que pode levar a uma responsabilização criminal dos envolvidos, multa e expulsão do país.

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Edição 239 do Brasil de Fato MG  

Edição 239 do Brasil de Fato MG  

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