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perfil

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Henfil: ligeiro e destemido Conheça o cartunista de Ribeirão das Neves que fez história e humor. “Meu negócio é pé na cara”, dizia Henfil

Minas Gerais

Belo Horizonte, 26 de janeiro a 1 de fevereiro de 2018 • edição 219 • brasildefato.com.br • distribuição gratuita Ricardo Stuckert

Nas ruas, milhares a favor de Lula

A condenação do ex-presidente Lula - sem provas - gerou uma série de ações a favor do petista. A foto mostra a manifestação de Porto Alegre, que contabilizou 70 mil pessoas, segundo a Frente Brasil Popular, e é exemplo do que aconteceu durante três dias (22, 23 e 24 de janeiro) de protestos e vigílias em todo o país. Mesmo com a condenação, PT reafirma que Lula será candidato à presidência i BRASIL 8

CIDADES

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ENTREVISTA

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CIDADES

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Ribeirão da Onça

Saúde em pauta

Privatização em Uberlândia

Prefeitura anuncia canalização do córrego com o objetivo de conter enchentes, mas movimentos em defesa do meio ambiente questionam escolha e pedem limpeza e revitalização do rio

Presidente do Conselho Municipal de Saúde de BH avalia as prioridades para 2018, como está a saúde mental na cidade, PPPs e consequências da retirada de direitos no setor

Após decisão do prefeito, a administração das escolas públicas da cidade corre o risco de ser terceirizada. Empresa cotada para assumir gestão é ligada à Assembleia de Deus


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OPINIÃO

Belo Horizonte, 26 de janeiro a 1 de fevereiro de 2018

Editorial | Brasil

Injustiça torna Lula cada dia mais candidato No Brasil e em diversos países do mundo milhares de pessoas se mobilizaram e protestaram dialogando com a sociedade sobre a farsa de um julgamento cujo único objetivo era continuar o golpe iniciado em 2016. O que assistimos durante todo o dia (24) foi uma tristeza para a justiça, para a imagem do Brasil no exterior e para a democracia brasileira. Defenderam o indefensável: grampos ilegais a Dilma, condução coercitiva de Lula, divulgação de gravações para a grande imprensa, condenação sem provas, etc. Os três juízes deram o mesmo número de anos de prisão na sentença, demonstrando um jogo combi-

ESPAÇO dos Leitores

“Da minha parte a audiência já caiu” Solange Fagundes comenta a coluna de novela da edição 218, com o título “SBT e Temer: tudo a ver” Bora? Semana que vem na RMBH, só me chamar! Artur Colito escreve sobre a matéria “Levante lança iniciativa para unir estudantes e trabalhadores” “Que neste ano, aqueles que tanto pediram o fim da corrupção não venham eleger os mesmos que deram fim à CLT, por exemplo” Escreve Webert de Souza sobre a coluna “Agenda da democracia”, com datas dos atos organizados na última semana

Querem tirar o povo da democracia nado. Trata-se de mais um passo na macabra trama contra o povo brasileiro, com desmonte do Estado e retirada de direitos, que para seguir necessita a qualquer custo retirar Lula das eleições 2018. Se a marca da justiça brasileira é ser lenta demais para julgar ricos e poderosos, com Lula, foi extremamente veloz. A pressa tem razão de ser, querem inabilitá-lo através da lei da ficha limpa. O resultado não surpreendeu ninguém. O julgamento político tira a legitimidade das eleições de 2018. Querem ganhar no tapetão. No fundo, querem tirar o povo da democracia, e seu direito de escolha.

Programa deles não tem chance de vitória nas urnas Não querem correr o risco de ter que concorrer com o primeiro colocado nas pesquisas. O programa deles não tem chance de vitória nas urnas. Quem vai votar em quem defen-

Eleição sem Lula é fraude de saúde privada, educação privada, privatizações, retirada de direitos trabalhistas, congelamento dos gastos públicos por 20 anos, diminuição do salário mínimo, etc.? A imprensa empresarial, ou seja, deles, Rede Globo à frente, tratou de cumprir o papel que vem cumprindo desde sempre: ser instrumento de luta ideológica manipulando a sociedade. Não faltam comentaristas para dizer que há provas. Mentira a serviço de interesses dos grandes capitalistas internacionais e do Brasil. Contra a vontade deles, Lula será candidato. Irá entrar com recursos no próprio TRF 4, no STJ e no STF. Mesmo perdendo esses recursos, sua candidatura será inscrita no dia 15 de agosto. E até que recursos sejam julgados será candidato com direito ao uso da propaganda de TV e rádio, dialogando com o povo e denunciando a farsa. Se ao final não conseguir garantir sua candidatura, restará a possibilidade de até o dia 15 de setembro o partido inscrever nova chapa. Aos democratas compete seguir denunciando que eleição sem Lula é fraude.

Escreva para nós: redacaomg@brasildefato.com.br O jornal Brasil de Fato circula semanalmente com edições regionais, em Minas Gerais, no Rio de Janeiro, no Paraná e em Pernambuco. Queremos contribuir no debate de ideias e na análise dos fatos do ponto de vista da necessidade de mudanças sociais em nosso país e no nosso estado.

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? PERGUNTA DA SEMANA

O esperado carnaval está chegando! E o Brasil de Fato MG foi às ruas saber o que o povo está planejando para a festa de 2018.

E aí, o que você vai fazer no carnaval?

”Antigamente eu saía muito no carnaval. Mas neste, como estou desempregado há dois anos, vou trabalhar vendendo água, etc. Só que eu também vou curtir um pouquinho os blocos, né?”. Alexandre Pereira, desempregado

”Este ano eu vou pra Lapinha da Serra participar da inauguração de um bar lá. Eu sou músico, canto, então vou ficar lá os quatro dias cantando. Geralmente faço isso, viajo para o interior para trabalhar com a música”. Wellington Liberato, ambulante e músico

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GERAL

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Declaração da Semana Divulgação

O ex-presidente Lula enfrenta julgamento político para tirá-lo das próximas eleições.” Injusto! Totalmente antidemocrático!”

Tom Morello, guitarrista da banda de rock Rage Against the Machine, pelo Twitter.

Você sabe o que é Software Livre? O software é o nome dado aos programas de computador, celular, tablets etc. Muitos deles possuem limitações e só podem ser modificados por seus proprietários. Um software livre qualquer pessoa pode alterar, copiar e distribuir gratuitamente. São criados com trabalho voluntário, de forma transparente e todos podem ver os códigos que compõem o programa. Isso, além do mais, o torna mais seguro para os usuários, pois é possível saber o que os aplicativos irão fazer com os dados pessoais inseridos nele. Alguns exemplos são o sistema operacional Linux, o navegador de internet Firefox e o aplicativo de mensagens Telegram.

Visibilidade trans

Tomaz Silva / Agência Brasil

Visibilidade trans

29 de janeiro é o Dia Nacional da Visibilidade Trans. A data ressalta a importância da diversidade e do respeito a travestis, transexuais e transgêneros. E por falar nisso, uma boa notícia: na semana passada, o Ministério da Educação (MEC) homologou uma resolução que autoriza o uso do nome social nos registros escolares da educação básica. A medida atende à reivindicação de pessoas trans que querem ter sua identidade de gênero reconhecida, além de prevenir o preconceito e evitar o abandono escolar.


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CIDADES

Belo Horizonte, 26 de janeiro a 1 de fevereiro de 2018

Prefeitura de Uberlândia quer terceirizar administração de escolas municipais PRECARIZAÇÃO Prefeito Odelmo Leão pretende ceder a administração das escolas dos bairros Pequi e Monte Hebron para uma ONG Reprodução uma ONG. Isso é um caminho que levará à privatização da educação, o que para nós é inaceitável. A educação é um direito constitu-

Julia Cabral

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o ano passado, as escolas dos bairros Pequis e Monte Hebron, em Uberlândia, tiveram suas obras concluídas. Porém, das oito escolas construídas, apenas duas receberam alunos em 2017. Neste ano, ainda sem essa questão ter sido resolvida, a prefeitura anunciou que irá terceirizar a administração das escolas que estavam fechadas. A empresa responsável pelo convênio ainda não foi definida, mas especula-se que a Fundação Cultural e Assistencial Filadélfia, ligada

Prefeito de Uberlândia Odelmo Leão

à igreja Assembleia de Deus, já tenha conversas avançadas para assumir a gestão das escolas. Foi disponibilizado um edital para a contratação de professores. A medida tem sido questionada por membros de entida-

des ligadas à educação, uma vez que pode ser um precedente para a privatização da gestão de escolas públicas. “É a primeira vez que um prédio público, construído com verba pública, que tem demanda, será entregue a

Conselho de Educação não foi chamado para debater proposta cional que está sendo violado na nossa cidade”, critica a professora Marina Ferreira de Souza Antunes, presidenta do Conselho Municipal de Educação (CME). Ela afirma que o conselho não foi sequer procurado

pela prefeitura para debater a proposta. Marina também alerta para a possível piora das condições de ensino e do trabalho dos servidores da educação. “Essa ONG não vai pagar o piso salarial, não vai cumprir os acordos, nem fazer concursos ou seleção para os cargos”, destaca. Diversas entidades da cidade estão se organizando através do Movimento em Defesa da Escola Municipal Pública, Gratuita, Laica e de Qualidade para tentar barrar a proposta. Procurada, a Prefeitura de Uberlândia não retornou até o fechamento desta edição.

Grupos de matriz africana fazem “Afoxé da Paz” Chico Rocha

Rafaella Dotta

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festa dos orixás vai desfilar nas ruas de BH neste fim de semana. Acontece no Centro de Referência da Juventude (CRJ), dos dias 26 a 28 de janeiro, a VII Chamada de Afoxé. O afoxé é a junção de dança, instrumentos de percussão (atabaque, agogô, xequerê) e músicas em português e também em Iorubá, uma das línguas faladas na África.

A integrante do grupo de capoeira Lenço de Seda (CECAB) Ana Maria Maia, que participa da organização, explica que o afoxé literalmente significa “a fala que faz acontecer”. Belo Horizonte teve um grupo de Afoxé de 1980 a 1988, o Ilê Odara, mas acabou após a morte de Mãe Gigi. O evento Chamada de Afoxé, que tem como mentor o Mestre Moa do Katendê, nasce em 2011 e retoma a tradição para a capital mineira.

Quem pode participar? Segundo Rômulo Marcio, da Companhia de dança Motumbá, que também organiza o evento, a Chamada é aberta a todas as pessoas que estão buscando “um novo caminho de comunhão com as pessoas da própria cidade. É o afoxé da paz”. Para pagar os custos, os organizadores fazem uma rifa no valor de

R$ 10 de um berimbau e um atabaque, e contam com a doação voluntária de apoiadores. Programe-se Na sexta (26) acontece a abertura, às 19h, com o “Círculo de Saberes – Entre a Fé e o Direito”. No sábado (27) é realizada a Oficina de Ritmo, Canto e Dança com Mes-

tre Mao do Katendê, das 9h às 18h. E no domingo (28), os participantes saem em cortejo, junto ao Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira (Cenarab), contra a intolerância religiosa e pela Democracia. A concentração é às 13h, na Praça da Liberdade.

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Belo Horizonte, 26 de janeiro a 1 de fevereiro de 2018

cidades

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Opinião

Elite de capitães do mato João Paulo Cunha O Brasil do golpe é um capitão do mato, tendo como patrão o capitalismo internacional, mais especialmente, os Estados Unidos e o que eles representam. Simbolicamente, a autodenominada elite defende valores de mercado, como os americanos; elogia a imprensa livre, como a gringa; incensa a justiça independente, como a estadunidense. Produzem um arremedo: um mercado protegido, uma imprensa partidária, uma justiça de classe. Para quem de imitar se orgulhava, em poucos dias, o Brasil se tornou um feitor, foi humilhado pelos senhores da casa grande do Norte global. Em pelo menos três dimensões. Na primeira, a diplomacia. O Congresso dos EUA, por meio de uma dúzia de deputados do Comitê de Relações Exteriores, enviou uma carta ao embaixador brasileiro, Sergio Silva do Amaral, manifestando sua preocupação como o respeito aos direitos bási-

cos de Lula durante o julgamento. O tom é de desconfiança. De nada adiantou o Brasil ter se alinhado de forma inferiorizada aos interesses norte-americanos, sob José Serra e Aloysio Nunes. Recebeu um pito e uma reprimenda.

Representante da ONU vê teatro de cartas marcadas A segunda humilhação veio da imprensa. O principal jornal estadunidense, New York Times, secundado por várias outras publicações, deixou claro que o jornalismo brasileiro vem fazendo um papelão. Não noticia com independência, é avesso à pluralidade, não entende de liberdade. A terceira estação de nossa submissão constrangedora veio do próprio campo judicial.

Em várias manifestações, ficou patente a estranheza com o rito seguido no Brasil. Não foram poucos os que disseram que o sistema judicial de outros países não aceitaria como válidas diversas ações do juiz de Curitiba, referendadas e até elogiadas pelos desembargadores da TRF4. As decisões – e atos de instrução e investigação do processo – seriam rejeitadas de pronto pela maioria das cortes do mundo. A suspeição do juiz foi tida como evidente. O representante da Comissão de Direitos Humanos da ONU, o advogado britânico Geoffrey Robertson, também criticou o arremedo de julgamento. Entre outras observações, estranhou o fato de o promotor Mauricio Gotardo Gerum se sentar junto e ter conversas particulares com os desembargadores. Confirmando a impressão de que se encenava um teatro de cartas marcadas, ficou perplexo com a mesmíssima dosimetria da pena. Depois dizem que Lula foi o maior derrotado.

PBH anuncia canalização do Ribeirão da Onça e movimentos defendem que modelo não é a solução INFRAESTRUTURA Para ativistas, a obra, que é estimada em mais de R$ 200 milhões, não resolve problema das enchentes Divulgação / Comupra

Raíssa Lopes

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Prefeitura de Belo Horizonte anunciou um pacote de obras de infraestrutura para prevenção de enchentes. No planejamento, estão programadas mudanças para o Ribeirão da Onça, que começa em Contagem, região metropolitana da capital, e deságua no Rio das Velhas. De acordo com a PBH, o que está previsto para o local é a canalização em parede diafragma, ou seja, uma parede de concreto armado que funciona para conter as águas. A alteração, para o Executivo do município, auxiliaria na redução dos riscos das enchentes na área da avenida Cristiano Machado e dos bairros Belmonte, Ouro Minas, Ribeiro de Abreu e Novo Aarão Reis.

O valor da obra está estimado em R$ 212.960.867,46 milhões e ela duraria 1020 dias. A decisão, no entanto, contraria análises de ambientalistas e também de movimentos que lutam pela manutenção e limpeza do ribeirão. Para o idealizador do projeto Manuelzão, Apolo Heringer Lisboa, a canalização não é uma solução para o problema, mas sim um dos motivos que contribuem para a ocorrência de inundações, já que

esse tipo de empreendimento faria com que a violência das águas aumentasse. “É o movimento de fazer com que um rio cheio de curva, parecendo uma cobra, se pareça com uma régua. Eles utilizam esse rio reto para construir vias para transporte. Mas a curva do rio não está lá à toa, ela diminui a velocidade da água. Às vezes, a canalização pode resolver o problema de um bairro por dois, três anos, mas é jogar o problema

adiante”, esclarece o especialista. A aceleração ocasionaria, ainda, a morte da vegetação e de animais. Para Apolo, um modelo de cidade que gera conflito entre a ocupação urbana e a natureza estaria fadado ao fracasso. No caso do Ribeirão do Onça, ele defende que a cachoeira que compõe o lugar seja tratada e tenha o esgoto retirado. “Temos que deixar o rio reviver, cuidar da

É o movimento de fazer com que um rio cheio de curva, parecendo uma cobra, se pareça com uma régua”, critica ambientalista

nascente, manter como era naturalmente: um local para as pessoas nadarem”, afirma. Cidade para as pessoas A sugestão é justamente o que deseja o movimento Deixe A Onça Beber Água Limpa, que existe há aproximadamente 14 anos. Um dos integrantes, Márcio Lima, conta que todo o esforço é para que a prefeitura dê vida ao Parque Linear do Ribeirão da Onça, de mais ou menos 5,5 km, com áreas verdes, de lazer, convivência, cachoeira e praia de água doce. “A administração municipal precisa reconhecer que se lá é uma área de ocupação desordenada e com muito esgoto na água não é culpa do rio, mas da má engenharia”, declara ele, que assegura que o movimento irá lutar contra a canalização.


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PERFIL

Belo Horizonte, 26 de janeiro a 1 de fevereiro de 2018

O irmão do Betinho e do Chico Mário HENFIL Conheça um pouquinho do mineiro que se tornou a referência mais marcante do humor brasileiro combativo Divulgação

Wallace Oliveira

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az 30 anos que o Brasil perdeu Henrique de Souza Filho, o Henfil. O humorista nasceu em fevereiro de 1944, em Ribeirão das Neves, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, e faleceu em janeiro de 1988, no Rio de Janeiro, vítima do HIV contraído em uma das transfusões de sangue que precisava fazer, por ser hemofílico. Seus irmãos, o sociólogo Hebert de Souza (Betinho) e o músico Chico Mário, comungaram o mesmo destino. Quem acompanhou de perto sua trajetória conta como essas três inteligências velozmente se expandiam, desde a infância, impulsionadas pela urgência de viver e gerar vida, como quem sente seu tempo (e seu sangue) escorrer sem cessar. Henfil, em particular, cedo escolheu fazer desenhos, mas depois confessou predileção pelos filmes, pois “o cinema não coagula”. Quem pode negar que havia movimento no que desenhava? E ele muito desenhou nos curtos 25 anos

Manoel Marques / Imprensa MG

de uma carreira misturada com a resistência à censura, à tortura, à ditadura. Começou no ano do golpe militar e não teve tempo de ver o desfecho da Constituinte e as eleições de 89, embora fosse o criador da palavra de ordem “Diretas já”, que agitou o país em 1984. Escreveu diversos livros, entre os quais “Hiroshima, meu humor” (1966), “Henfil na China” (1980) e

“Como se faz humor político” (1984). Trabalhou nos jornais Diário de Minas e Jornal de Sports e nas revistas Alterosas, Realidade, Visão, Placar e O Cruzeiro, entre outros veículos. O que mais marcou sua trajetória foi O Pasquim, semanário produzido entre 1969 e 1991, que chegou a circular com 200 mil exemplares e infernizou os militares com muito deboche.

Ligeiro e destemido para enfrentar o golpe “A gente sentava para produzir coletivamente, mas o Henfil tinha uma velocidade e uma profusão na criação que a gente não chegava aos pés. A gente ficava pensando ideias e ele já tinha desenhado uma dúzia de cartuns. A cabeça dele era uma usina muito ativa”, afirma a chargista Laerte Coutinho, em entrevista ao Brasil de Fato (disponível em: goo.gl/2yTLPC). O mineiro deixou numerosos personagens, como a Graúna, os fradinhos Baixinho e Cumprido, o Urubu, mascote do Flamengo, o Bacalhau, mascote do Vasco, e o cangaceiro Zeferino. Tudo feito com traço simples, mas inconfundível; ágil, mas zelosamente trabalhado para servir a uma estratégia de comunicação política. “O verdadeiro humor dá um soco no fígado de quem oprime”, definia assim sua vocação. O cartunista Nilson Azevedo, companheiro de Henfil nos traços políticos e irônicos, recorda a influência que ele teve nas lu-

tas daquele período. “No Diário de Minas, fazia uma charge de esporte e cinco de política todo dia. E conseguiu fazer com que a população ficasse do lado dos estudantes. Teve passeata na Avenida Amazonas em que as pessoas nos prédios jogavam sacos de leite na repressão. Ele também conseguiu, no futebol, colocar conceitos da luta de classes. Os personagens de Vasco, Flamengo e Fluminense representavam as classes. O que interessava era estar do lado dos oprimidos, de forma clara”, lembra. Tudo isso rendeu muita perseguição, reprimenda a trabalhos seus, tentativas de prisão e até ameaças de morte. Além das ligações anônimas, seu nome apareceu em uma lista de 500 pessoas que deveriam ser assassinadas. “Como ele era hemofílico, a primeira porrada que levasse ia ser um problema. Mas o Henfil tinha uma coragem impressionante. Mesmo depois dessas ameaças, ele nem fechava a porta da casa”, conta Nilson.

Reprodução

“Procuro dar meu recado através do humor. Humor pelo humor é sofisticação, é frescura. E nessa eu não estou: meu negócio é pé na cara. Eu levo o humorismo a sério”


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PERFIL

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Alguns personagens

Graúna, Capitão Zeferino e o Bode Francisco Orelana

O pássaro preto e analfabeto, feito em forma de exclamação; o cangaceiro valentão, machista e pinguço; o bode sabichão que usava um chapéu-coco. Esse trio do sertão foi criado para criticar a desigualdade social, a violência e a corrupção na ditadura militar.

Os Fradins

Cabôco Mamado

Baixinho era atrevido, indecente e não suportava hipocrisia. Cumprido era carola, medroso e romântico. Suas aventuras eram uma crítica à educação religiosa inflexível que marcou a infância de Henfil.

Divulgação

Entidade que sugava o cérebro das pessoas que colaboravam com a ditadura. Ele vivia no Cemitério dos Mortos-Vivos, lugar para onde, em suas tirinhas, Henfil enviou aquelas personalidades que, segundo ele, estavam vivas, mas era como se não estivessem, por suas atitudes. Para lá foram Elis Regina, Tarcísio Meira, Pelé, Roberto Carlos e Clarice Lispector, entre outros.

Músicas que falam dele “Ressurreição”

“O bêbado e a equilibrista”

Em 1987, Chico Mário compôs a canção para Henfil, que sobreviveu a uma delicada cirurgia. “Na mesa de operação, ele falou: ‘eu não volto’. Eu cheguei em casa e fiz a música para ele”, recordou Chico. O músico morreu oito meses após o irmão, em 1988, com a mesma enfermidade. Em 2005, o regente Wagner Tiso criou uma releitura da composição. “Procurei fazer um sentido de movimento, de correnteza, que relembrasse tanto o mar, como o vento, os rios e o sangue”. Ouça: goo.gl/hnTGgU.

A partir de 1979, o sociólogo Hebert de Souza, o Betinho, ficou conhecido no Brasil como “o irmão do Henfil”, expressão por meio da qual é citado na canção de João Bosco e Aldir Blanc. É que, desde que Betinho teve que ir embora do país, fugindo da repressão militar, seu irmão falava dele para todos os amigos com ternura e nostalgia. A canção virou símbolo da redemocratização do país. “E sonha com a volta do irmão do Henfil, com tanta gente que partiu...”. Ouça: goo.gl/kh4Km.

Filmes sobre Henfil “Henfil”, de Angela Zoé. Longametragem acompanha um grupo de animadores que descobrem o legado do humorista em uma oficina de animação. Veja o trailer: goo.gl/gT4R7N.

que Betinho morreu, em 1997, Marcos Souza, filho de Chico Mário, teve a ideia de contar a história do pai e dos dois tios em um filme. Veja o trailer: 3irmaosdesangue.com.br.

“Três irmãos de sangue”, de Ângela Patrícia Reiniger. No dia em

“Henfil Plural”, de Laine Milan e Vicente Guerra. Programa exibi-

do pela TV Cultura em 2009 traça o perfil do humorista mineiro, com a ajuda de amigos, familiares e conhecedores da obra. Disponível em: goo.gl/Y7BH8W. “Cartas da mãe”, de Fernando Kinas e Marina Willer. Entre 1970 e 1985, em jornais e revistas de gran-

de circulação, Henfil trocou cartas com sua mãe, Dona Maria. Esse foi um recurso bem humorado para criticar a ditadura driblando a censura. Anos depois, a experiência originou um livro e o média-metragem “Cartas da Mãe”, narrado pelo ator Antônio Abujamra. Disponível em: goo.gl/j86E5u.


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BRASIL

Belo Horizonte, 26 de janeiro a 1 de fevereiro de 2018

Sem provas, Tribunal condena Lula para tirá-lo da disputa presidencial POLÍTICA Mesmo com a decisão, PT lança candidatura de ex-presidente Ricardo Stukert

Pedro Rafael Vilela Daniel Giovanaz Rafael Tatemoto Julia Dolce De Brasília (DF), São Paulo (SP) e Porto Alegre (RS)

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m dia após o Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em Porto Alegre (RS), manter e a ampliar para 12 anos a condenação de Lula – no processo do tríplex do Guarujá (SP) –, o Partido dos Trabalhadores lançou nesta quinta-feira (25) a candidatura do ex-presidente ao cargo que ocupou por dois mandatos (2003-2010), tendo sido o líder mais bem avaliado da história do Brasil. “Durante tantos anos de perseguição, os juízes se pronunciaram por horas, mas a imprensa hoje não pode falar de corrupção, porque eu não cometi nenhum crime. Ontem [quarta] não vi eles [juízes] me acusarem de nenhum crime. Acho que estavam efetivamente tentando condenar uma parcela grande do povo brasileiro, que teimam em reconhecer no PT e no Lula a possibilidade desse país voltar a ser bem governado e do povo voltar a viver feliz”, disse o ex-presidente ao longo de seu discurso em São Paulo, durante o lançamento da pré-candidatura a presidente, que contou com a par-

Acho que estavam efetivamente tentando condenar uma parcela grande do povo brasileiro”, disse Lula

ticipação de diversas lideranças políticas, sindicais e de movimentos populares. Convicção sem provas Na votação, que durou mais de oito horas, os três desembargadores do caso votaram pela condenação de Lula, mas sem demonstrar prova de crime do ex-presidente: que deveria ser o recebimento da posse do apartamento triplex no Guarujá em troca de contrapartida em favor da empreiteira OAS, verdadeira dona do imóvel. Na avaliação do relator do caso, João Paulo Gebran Neto, ao ler o voto, Lula seria culpado por ter sido o presidente responsável pelas nomeações na Petrobras durante seu mandato e, por isso, responsável direto e indireto pelos esquemas de corrupção ocorridos na estatal. Para ele, não seria necessário apontar atos de ofício — ou seja, medidas relacionadas ao cargo que ocupava — em troca de vantagens indevidas. O segundo a votar foi o revisor e presidente da 8ª Turma do TRF4, Leandro Paulsen. O revisor se posicionou no sentido de que não é necessário apontar para onde recursos foram desviados no crime de

lavagem de dinheiro. Segundo ele “basta a ocultação do produto da ação criminosa”. “O desembargador revisor está condenando o ex-presi-

Jurista critica a homogeneidade do voto dos juízes, que votaram de forma muito parecida, o que é raro em casos complexos dente por crime estranho ao processo”, afirmou nas redes sociais Afrânio Jardim, professor associado de Direito Processual Penal da Uerj. “Parece que está condenan-

do o Lula pela corrupção dos diretores da Petrobras. Absurdo e total falta de técnica jurídica”, acrescentou. O último desembargador a votar foi Victor Luiz dos Santos Laus, que dedicou a maior parte do seu tempo para defender a execução da pena — ou seja, a prisão de Lula — após o esgotamento dos recursos em segunda instância. Para a jurista Beatriz Vargas, professora de Direito da UnB, a condenação já era esperada, mas foi surpreendente a posição rigorosamente igual dos três juízes, que não divergiram em absolutamente nada na sentença, quase numa espécie de jogo combinado. “Me surpreendeu muito nem tanto pela condenação, mas pela homogeneidade de entendimento. Eles iguais em tudo, nos pressupostos e até na dosimetria [definição da pena]. Parece uma única pessoa dando o voto. Uma coisa impressionante. Esse tipo de performance em um tribunal de segundo grau, principalmente em um caso complexo, é raríssima”, avaliou. Mesmo que houvesse prova cabal de prática de corrupção contra o ex-presidente Lula, a pena confirmada pelo TRF-4 é completamente desproporcional, afirma Patrick MariaRicardo Stukert

no, da Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares. “A pena é exacerbada e desproporcional, sem nenhuma justificativa. É um réu primário, sem antecedentes, deveria ser aplicada a pena mínima. Um acinte aos requisitos legais”, afirmou. Com a manutenção da condenação por unanimidade, restam poucos recursos ao ex-presidente Lula. Além dos embargos de declaração no próprio TRF4, que não alteram o resultado do julgamento, cabem medidas em instâncias superiores, como o Superior Tribunal de Justiça (STJ) e o Supremo Tribunal Federal (STF), apenas para evitar eventual pedido de prisão e outras medidas relativas ao cumprimento da pena. No tapetão Para que o julgamento de Lula no TRF4 ocorresse em janeiro, o presidente da 8ª Turma do tribunal, desembargador Leando Paulsen, passou o processo na frente de outras 237 ações. Numa tramitação recorde, o próprio revisor do caso teve que analisar mais de 250 mil páginas em apenas seis dias, para garantir que Lula fosse julgado. Essa foi apenas uma das evidências de que o principal objetivo na condenação de Lula é tirá-lo da corrida presidencial de outubro. Líder em todas as pesquisas, Lula pode ter a candidatura impugnada por ter sido condenado em segunda instância, conforme determina a Lei da Ficha Limpa, mas isso só deve acontecer após o início da campanha presidencial, em setembro, segundo previsão de especialistas.


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BRASIL

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Milhares saem às ruas em defesa de Lula e da democracia resitência Atos na Globo, barricadas em Porto Alegre, vigílias em BH e em diversas cidades marcam semana de julgamento Manoel Marques / Imprensa MG

Nacho Lemos / TeleSUR

Da redação

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m acampamento foi montado em Porto Alegre (RS), para acompanhar o julgamento. Caravanas de várias cidades se somaram ao movimento, que contou com marchas e atos públicos, com a presença de Lula e Dilma. Além disso, dezenas de cidades fizeram mobilizações de rua, vigílias, distribuição de materiais e criação de comitês populares em defesa da democracia. No Rio de Janeiro, cerca de 150 pessoas ocuparam a sede da Rede Globo, e montaram um acampamento em frente à emissora. O ato tinha o objetivo de denunciar o envolvimento da empresa na ditadu-

No Rio de Janeiro, movimentos montaram um acampamento em frente à Rede Globo ra militar instaurada no Brasil em 1964 e na organização do golpe em curso, que inclui, na avaliação dos movimentos, a condenação de Lula. No início da noite de quarta (24), após o julgamento, 26 jovens foram presos pela Brigada Militar do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. Os jovens são militantes de movimentos populares, como o Levante Popular da Juventude, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a Mídia Ninja. Eles foram detidos no 3º Departamento de Polícia de Porto Alegre. Os manifestantes foram acusados de formação

de quadrilha e incêndio criminoso. Segundo relatos, os manifestantes foram abordados na rua e, depois, foram conduzidos para a casa de um deles. O local foi completamente revirado pela polícia. Segundo nota do Levante, “a criminalização da esquerda e da luta é um braço fundamental do golpe à democracia no nosso país. Diante da retirada de direitos historicamente conquistados e do desmonte do Estado brasileiro, querem implantar em cada um(a) de nós o medo de se manifestar. Reprimir os nossos sonhos, a nossa capa-

A Frente Brasil Popular convocou manifestações em diversas cidades do país cidade de indignação e principalmente, querem que a juventude não compreenda que só o povo organizado tem o poder de transformar a realidade”. Na tarde de quinta, os jovens já haviam sido liberados, mas ainda responderão a processos. Divulgação /Levante Popular da Juventude

Três dias de mobilização em Minas A capital mineira foi uma das cidades de maior movimentação política do país nesta semana. O julgamento do ex-presidente Lula, que aconteceu nesta quarta (24), levou as organizações populares a realizar diversos atos políticos. A maioria deles convocados pela Frente Brasil Popular – conjunto de partidos, sindicatos e movimentos que apoiam o direito de Lula ser candidato e defendem a necessidade de um novo projeto para o país. O primeiro evento aconteceu na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), na segunda (22). O Ato dos Juristas Mineiros pela Democracia lotou o auditório e fundou um comitê permanente de advogados e operadores do direito, conforme afirma Willian Santos, advogado e presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB. Na terça (23), a Frente Brasil Popular reuniu cerca de 10 mil pessoas na Praça Afonso Arinos, centro de BH, para uma marcha. Líderes discursaram no caminhão de som atrelando o julgamento

de Lula ao golpe, que se iniciou com o impeachment de Dilma Rousseff, e em seguida aprovou a diminuição dos direitos, aumentou o custo de vida e pretende implantar o desmonte da Previdência Social. Na quarta (24), defensores da democracia se reuniram a partir das 8h em frente ao prédio da Justiça Federal, em BH, para uma vigília. As pessoas acompanharam ao vivo o jul-

Em BH, aconteceu um ato na quarta (24) com a presença de 10 mil pessoas gamento de Lula e permaneceram no local até o término dos votos dos desembargadores. Em Juiz de Fora, apoiadores da candidatura de Lula realizaram nos dias 23 e 24 um debate com juristas e uma vigília, respectivamente. Em Uberlândia, a manifestação foi na quarta, na porta da Justiça Federal e seguiu até a TV Integração, afiliada da Rede Globo. Em Ubá, a vigília aconteceu às 19h de terça, organizada pelo Comitê Popular em Defesa da Democracia e da Candidatura de Lula.

O Brasil de Fato fez uma cobertura completa sobre o julgamento, as mobilizações e as perspectivas. Confira no especial “Eleição sem Lula é fraude!”.

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MUNDO

Belo Horizonte, 26 de janeiro a 1 de fevereiro de 2018

Ano de escolhas: seis países passam por eleição de presidentes na América Latina PANORAMA Brasil e países vizinhos passam por turbulências políticas. Análises mostram fortes interferências dos EUA, mas futuro ainda é indefinido Reprodução

Da redação

P

ara a população da América Latina, 2018 será um ano crucial. Seis países vão passar por eleições presidenciais e podem mudar o rumo da política adotada na região. Para Igor Fuser, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), as eleições acontecem em um momento de tensão, em que os Estados Unidos buscam novamente dominar os governos latino-americanos.

Cuba terá presidente “nova geração” MARÇO - Cuba vai eleger, em março, quem sucederá o presidente Raúl Castro. A eleição no país se dá em um processo indireto, com a escolha do mandatário pelo Congresso eleito pelo povo. É a primeira vez que a assembleia elegerá um presidente que não participou da Revolução de 1959, que tornou o país socialista.

Colômbia e a garantia da paz MAIO - Esta será a primeira eleição presidencial colombiana após a assinatura do acordo de paz entre governo e Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), que pôs fim a meio século de guerra civil no país. O desafio principal é garantir a continui-

lana como dramática. “A eventual derrota [do partido chavista] na Venezuela representará, simbolicamente, um golpe muito profundo nas esquerdas do hemisfério”, analisa.

Costa Rica e Paraguai

dade do processo de paz. A última pesquisa de intenção de votos registrava liderança do candidato Sergio Fajardo, que se apresenta como “nem de esquerda, nem de direita, nem de centro”. O candidato das FARC, o ex-guerrilheiro Rodrigo Londoño, ainda não estava na disputa quando a pesquisa foi realizada.

México dividido JULHO - O jornalista pósgraduado em Políticas e Relações Internacionais José Reinaldo Carvalho aponta que as forças no México estão divididas, o que pode dificultar a vitória de López Obrador, líder nas pesquisas e fundador do partido de esquerda Movimento de Regeneração Nacional (Morena). O cenário mexicano é de denúncias de corrupção e teme-se que o governo, atualmente nas mãos do Partido Revolucionário Institucional (PRI), incorra em fraudes.

Brasil imprevisível

A polarização na Venezuela

OUTUBRO – Todo o continente acompanha com atenção o processo eleitoral brasileiro. A votação é considerada uma das mais imprevisíveis desde a redemocratização do país, com a perseguição judicial do líder das intenções de voto, o ex-presidente Lula (PT), e o golpe político em curso no país. O segundo colocado, o militar de reserva Jair Bolsonaro (PSC), apoia abertamente os ataques aos direitos humanos.

4º TRIMESTRE - A data da eleição não está definida, mas o atual presidente, Nicolás Maduro, garante que as eleições acontecerão, “mesmo que relampeie”. Maduro concorre à reeleição, mas ainda não se sabe quem será seu opositor. Os partidos de direita estão divididos e muitos de seus líderes estão presos acusados de articulação de golpe contra o governo. O jornalista José Arbex Jr. destaca a questão venezueReprodução

Outros dois países ainda vão passar por eleições presidenciais neste ano: Costa Rica, em fevereiro, e Paraguai, em abril. Ambos têm fortes candidatos de centro-esquerda.

ANÁLISE

“De um lado, [temos] o esforço dos Estados Unidos de restabelecer a supremacia de seus interesses na América Latina e reforçar o poder das classes dominantes por meio de políticas neoliberais. E, do outro lado, a resistência dos povos da América Latina na busca por maior autonomia, por melhores condições de vida, por maior igualdade social e desenvolvimento econômico”, ressalta o professor de Relações Internacionais Igor Fuser. A jornalista peruana Veronica Goyzueta, que trabalha como correspondente internacional, afirma que as eleições devem ser imprevisíveis em todos os países latino-americanos. Os cenários ainda não revelam uma tendência de renovação da esquerda, mas Brasil e México, dois países com grande probabilidade de eleger presidentes de esquerda, poderiam ser uma importante contribuição.


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ENTREVISTA

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“Prioridade deve ser cuidar melhor dos nossos postos de saúde” SUS Presidente do Conselho Municipal de Saúde de BH analisa os desafios da área em 2018 Larissa Costa / Brasil de Fato MG

Wallace Oliveira

N

a capital do estado, Belo Horizonte, de acordo com pesquisa do Ibope divulgada em 2016, a saúde é o principal problema da cidade para 55% da população, à frente da segurança (13%) e educação (7%). Entretanto, o que se vê no nível federal é a retirada de recursos da saúde pelo governo golpista de Temer (MDB). O governo Kalil passou a priorizar a área, mas adotou um modelo que privilegia a construção de hospitais e os convênios com setor privado, em detrimento da atenção básica e do fortalecimento dos centros de saúde. Esse é o ponto de vista do médico Bruno Pedralva, presidente do Conselho Municipal de Saúde de Belo Horizonte, em entrevista ao Brasil de Fato MG.

Brasil de Fato - Há um contexto de retrocessos na saúde com o congelamento de gastos por 20 anos. Qual o impacto nos municípios? Bruno Pedralva - Cabe aos

municípios gerir boa parte dos recursos na saúde. Com as medidas que o governo Temer aprovou no Congresso, a estimativa é de que os recursos para a saúde diminuam de forma muito expressiva. Estudos do Conselho Nacional de Saúde apontam R$ 415 bilhões a menos para a saúde do Brasil nos próximos 20 anos. Isso sig-

Saúde não se faz apenas com hospital”

Márcio Lacerda jogou a saúde às moscas” safio: cuidar melhor dos nossos postos de saúde. Nós temos centros que estão em situação lastimável, com problemas de estrutura e que precisam de uma construção nova. “Medidas do governo Temer vão reduzir em cerca de 50% investimento em saúde nos próximos 20 anos”

nifica uma perda de quase 50%. E há outros retrocessos. Um deles, é a saúde da família. As equipes da saúde da família que cuidam das pessoas lá nos postos de saúde reduziram bastante a mortalidade infantil e melhorou a qualidade do pré-natal. O governo federal mudou a composição dessas equipes, que agora podem não ter seus agentes. Além disso, agora o Ministério da Saúde vai mandar os recursos e os municípios vão escolher se ele vai pôr no posto de saúde, no hospital, na vigilância, etc. Então, a expectativa é de que os postos de saúde e as ações de prevenção tenham menos recursos. Algumas pesquisas apontam que a saúde é a principal preocupação da população de BH. Onde está o maior gargalo dessa área?

O SUS de Belo Horizonte é considerado um dos melhores do Brasil. A gente tem mais de 150 postos de saúde, nove UPA’s, dois hospitais que são diretamente do SUS, o Odilon Behrens e o Metropolitano do Barreiro. Somos referência no parto humani-

zado, com o Sofia Feldman; em equipes de saúde da família; e no serviço de saúde mental, com um trabalho que não interna, mas cuida do paciente na comunidade em postos de saúde, centros de convivência e CERSAM’s. Neste momento, o governo Kalil dá muito mais atenção à saúde do que o governo de Márcio Lacerda, que jogou a saúde às moscas. Tenta resolver o problema da falta de medicamentos, ajudar os hospitais com dificuldades financeiras. Mas o recado principal é o seguinte:

Tem quatro anos que não se implementa nova equipe de saúde da família” saúde não se faz apenas com hospital. Eles são importantes, mas a maior parte do cuidado em saúde se dá lá nos centros de saúde, com quem está lá na ponta, cuidando das doenças antes que elas virem grandes problemas. Esse tem que ser o maior de-

Como está a saúde mental em BH atualmente?

Isto teve um retrocesso no governo Kalil. A saúde mental tem que ser cuidada não em manicômio. Aquilo foi um holocausto brasileiro: matou muita gente. Isso não pode voltar. Recentemente, o governo Kalil lançou um decreto abrindo a possibilidade de o governo fazer um convênio com comunidades terapêuticas. Para o Conselho Municipal de Saúde é um absurdo termos dinheiro público financiando iniciativas de grupos privados e religiosos. Na maioria das vezes, são instituições de orientação religiosa, mais do que propriamente de saúde, que deixam as pessoas presas. Esse tipo de tratamento muitas vezes não é melhor do que o tratamento feito com qualidade em um CERSAM. Qual é a avalição que você faz da política de Parcerias Público-Privadas na saúde?

O ex-prefeito Márcio Lacerda fez uma parceria com a Andrade Gutierrez para construir o Hospital Metropolitano do Barreiro e fez uma parceria com a Odebrecht para construir postos de saúde na cidade.

O que vimos na prática? O Hospital do Barreiro foi construído com cerca de quatro anos de atraso e ficou extremamente caro para a PBH. A empresa entrou com um recurso inicial de R$ 180 milhões e, até o final do ano passado, quando o hospital foi aberto, ela já tinha recebido R$ 225 milhões. É um negócio muito generoso com a Andrade Gutierrez e oneroso com o SUS. No caso da parceria com a Odebrecht, a Prefeitura gastou um tempo imenso negociando com a empresa e, no final, a Odebrecht, como não tem compromisso nenhum com o SUS e a cidade, simplesmente não executou a obra acordada. Em síntese, na prática, as PPP’s se mostraram pouco eficientes, as empresas ganharam muito dinheiro e não se resolveu o problema. Quais são as prioridades do Conselho Municipal de Saúde em 2018?

Nossa prioridade é lutar pelos centros de saúde, que nos últimos quatro anos ficaram esquecidos pela administração municipal. Nós não tivemos quase nenhum centro de saúde construído. Prometeram 77, construíram nove. O número de equipes da saúde da família não aumentou, faz quatro anos que não se implementou nenhuma equipe nova. Isso gera sobrecarga, diminui a qualidade dos serviços. Sem contar a falta de medicamentos, de insumos, seringa, curativo, outros equipamentos, e também a falta de segurança nos centros de saúde.


12 12 VARIEDADES

Belo Horizonte, 26 de janeiro a 1 de fevereiro de 2018

CiÊNCIA, COISA BOA! A VACINAÇÃO É SEGURA?

me chamaram para passear... mas era vacina

A doença do momento é a febre amarela. Com o aumento no número de casos da virose, um velho debate volta à tona: vacinar ou não vacinar? A vacina é um método de prevenção de doenças infecciosas, aquelas causadas por microrganismos (principalmente vírus e bactérias). A primeira vacina foi desenvolvida em 1796, contra a varíola da vaca (palavra da qual deriva o termo “vacina”). De lá pra cá, a ciência aprimorou essa ferramenta, usada hoje na prevenção a diversas doenças. As vacinas são produzidas a partir de microrganismos inativos ou atenuados que são introduzidos no organismo sadio. Esse contato gera uma resposta do sistema imune, que leva à produção de anticorpos. Se o organismo for realmente infectado, já possuirá uma defesa. Essa imunização pode ser para toda a vida ou por um tempo determinado, a depender da doença. Diversas pesquisas atestam a eficácia da vacinação. Até o início do século 20, as pessoas morriam principalmente por doenças infecciosas. A vacina foi uma poderosa arma que contribuiu para que nossa expectativa de vida aumentasse e as infecções deixassem de ser a maior causa de mortes. Algumas doenças foram inclusive erradicadas, como é o caso da varíola e da poliomielite no Brasil. Mas, desde seu surgimento, as vacinas provocam reação de críticos. O Brasil foi palco inclusive de uma revolta popular contra a vacinação obrigatória (a Revolta de 1904, no Rio de Janeiro). Há hoje até setores antivacina organizados em diversos países. Um caso emblemático do mau uso da ciência pôs lenha nessa fogueira. Em 1998, Andrew Wakefield, um médico britânico, publicou um artigo em uma conceituada revista científica em que afirmava que a vacina tríplice causava autismo. Logo provou-se que sua pesquisa havia sido fraudada, a revista se retratou e o médico foi punido, o que não impediu que muitos acreditassem na história. Gerou até uma queda no número de vacinações. Depois, descobriu-se que Andrew queria era lançar sua própria vacina no mercado. Ou seja, tudo não passou de uma jogada comercial. Temos o direito de desconfiar da indústria farmacêutica, que já deu provas ao longo da história que não é flor que se cheire. Porém, isso não deve nos levar a abandonar um dos maiores avanços da medicina. As vacinas são seguras e eficazes. Devemos sim nos vacinar e a nossos filhos/as, de acordo com as orientações dos órgãos sanitários competentes. Um abraço e até a próxima! RenanSantos Santosé éprofessor professordedebiologia biologiadadarede redeestadual estadualdedeMG Minas Gerais Renan

Amiga da Saúde Tenho varizes e percebo que nos dias mais quentes sinto mais dor e peso nas pernas. Por que isso acontece? Paula Lamarth, 35 anos, secretária Cara Paula, o verão costuma ser uma estação difícil para quem tem varizes. As veias possuem válvulas que garantem que o sangue não retorne para as extremidades. Nas pessoas com varizes essas válvulas não funcionam bem, permitindo refluxo do sangue. Dessa forma, há um acúmulo de sangue nas veias, provocando a sensação de peso, dor, câimbras, entre outros. O calor faz com que os vasos sanguíneos fiquem mais dilata-

dos, acumulando mais sangue e por isso pioram os sintomas. Para amenizar, é recomendado evitar tomar sol nas pernas; elevá-las por alguns minutos; sempre que for possível, refrescar os pés com água; fazer exercícios físicos; usar cremes frios e fazer massagens de baixo para cima, além de tomar muita água. Se você ainda não estiver em tratamento, procure um médico para te avaliar. Há tratamentos eficazes para as varizes.

Sofia Barbosa é enfermeira do Sistema Único de Saúde I Coren MG 159621-Enf. Mande sua dúvida: amigadasaude@brasildefato.com.br

Nossos direitos Lista de material escolar Ano novo, planos novos, mas também novas contas. Iniciado o ano letivo, é prática comum das escolas solicitarem uma enorme lista de materiais. Para não ser prejudicado, veja abaixo seus direitos: No caso das escolas públicas, é proibido por lei exigir os materiais, mas pode haver doação espontânea. Nos casos em que a escola exija a entrega de materiais para realizar a matrícula ou constranja os alunos que não fizerem doações, cabe denunciar os responsáveis da escola. Nesses casos, estão sendo come-

tidas duas infrações: crime de extorsão e improbidade administrativa. No caso das escolas particulares, só poderão ser requeridos, sem restrição de marca, materiais de uso individual e diário do aluno, como caderno, lápis, caneta, borracha, etc. Não podem ser incluídos na lista materiais de uso comum: materiais de escritório ou limpeza, brinquedos, jogos, papéis em geral, etc. A prática, além de abusiva, nos termos do Código de Defesa do Consumidor, é proibida pela Lei 12.886/13.

Adília Sozzi é advogada da Rede Nacional de Advogados Populares – RENAP


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13 VARIEDADES 13

www.malvados.com.br

Dicas Mastigadas

por Alan Tygel

Bobó de Lula Pablo Vergara

PALAVRAS CRUZADAS DIRETAS

www.coquetel.com.br Utensílio de 3 pontas para remexer palha

© Revistas COQUETEL

Desenho animado sobre os amigos Finn e Jake (TV) Oculta; escondida

Provocar a recordação de (lembrança, fato etc.); relembrar

Apêndice cônico pendente Pentium do palato (?), chip (Anat.) da Intel

Antero de Quental, poeta açoriano

Baby-(?), roupa feminina de dormir

Aquele que come de tudo (pop.)

Sistema afetado pelo tabagismo (Fisiol.) Apto; competente

Nesta semana, o desprazer de acompanhar o deprimente espetáculo do julgamento do ex-presidente Lula deve ter deixado todo mundo de estômago embrulhado. Mas, se o mar não está para peixe, hoje vamos de... Lula! A receita é em homenagem ao nosso querido presidente.

Bob Dylan, cantor 52, em romanos

Ingredientes • 1kg de aipim da feira • 1kg de lula limpa (das pequenas) • 4 limões • 2 cebolas picadas em cubinhos pequenos

Rio da bacia do Amazonas Caneta, em inglês Adjetivo (abrev.) (?)-negra, espécie de aranha venenosa

(?) sísmico: é medido pela escala Richter

Detém 80% do mercado nacional de exploração de petróleo em águas profundas Navio de Cabral Carne ensopada (bras.) Fazer o registro de

Posição clássica do iogue em meditação

"(?) Que Nada", sucesso da MPB Ingrediente da limonada purgativa

• ½ molho de coentro • 4 colheres de azeite de dendê • 1 xícara de leite de coco • 1 pimentão verde • 2 colheres de manteiga com sal

Modo de Preparo Destina (verba) a um fim específico

1. Deixe a lula marinando no suco de 4 limões por 1 hora e meia, e depois corte seu corpo em anéis e a coroa ao meio. Vire os anéis ao contrário para que ela fique mais bonita. Cozinhe o aipim com duas colheres de manteiga até que amoleça bem. Bata no liquidificador com a água do cozimento, leite de coco, quatro colheres de dendê e o coentro. Numa panela grande, refogue a cebola com o pimentão e depois jogue o creme de aipim. Deixe esquentando até começar a borbulhar.

Sufixo de "nitrila" (Quím.) Ladeira (abrev.) Relativo ao tato É evitada pelo mau aluno

3/pen. 4/doll. 5/lótus — úvula — viúva. 9/cadastrar — forquilha. 14/hora de aventura.

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Solução H F O R A D P E A V P E N T U R C A

R Q U I E A V I C U I O L L N A B D J O I U V A T R O B A U O A LO C L T A A G U D A S T

L H V A B L I A L S M R A S A T I U L R A

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Santa Catarina (sigla) Agir

2. Nesse momento, jogue a lula e acrescente o sumo do limão até que a consistência fique cremosa. Em 10 minutos, a lula estará cozida e macia. Não passe do ponto, pois ela pode endurecer. Sirva com arroz sem tempero e farofa de banana, que pode ser colorida com uma colher de dendê após desligar o fogo.

Você sabia? No período da Guerra Fria, o Estados Unidas fizeram doações de alimentos para que os países mantivessem o sistema capitalista. Com isso, mudaram hábitos alimentares e incluíram o trigo na dieta do brasileiro. O Brasil importa a maior parte do trigo que consome, e por isso o preço do pãozinho aumenta se o dólar subir. A mandioca, por sua vez, é produzida em abundância no país, recebe menos veneno, e favorece a agricultura familiar! Participe enviando sugestões para receita@brasildefato.com.br.


14 CULTURA 14

Belo Horizonte, 26 de janeiro a 1 de fevereiro de 2018

O que os blocos pequenos fazem enquanto não chega o carnaval? BELO HORIZONTE Foliões usaram 2017 para participar de melhorias nos seus bairros e também para se divertir Divulgação

“T

nas BH. Porém, o lado forte do grupo foi organizar periódicos encontros de fãs, seja em shoppings ou em outras cidades.

A praça (tem que ser) nossa! No bairro São Salvador, na região Noroeste da capital, a comunidade espera a construção de uma área de lazer e cultura, prometida pela Prefeitura desde 2008, mas que teve apenas a estrutura de base construída até o momento. O Bloco da Língua se envolve na causa desde o início e neste ano contribuiu com ânimo para os moradores se manifestarem.

Solidariedade no Céu Azul Já em Venda Nova, o Bloco Anjos do Céu se movimenta há dois anos. Um bloco “no estilo anos 90”, como diz o presidente Marco Antônio de Oliveira Silva, que em 2017 se aliou a organizações com o objetivo de melhorar o bairro. A ação que mais marcou foi a Caminhada Solidária nas margens da Pampulha. A atividade junto com a Associação do Bairro Céu Azul (UMCA) fez medição de pressão, coleta de sangue e atividades físicas, além - é claro - de muito batuque. “O nosso bloco não quer ser somente um bloco de rua, ele quer ser um movimento de resgate à cultura do bairro Céu Azul. A gente

Rafaella Dotta ô me guardando pra quando o carnaval chegar...” Você deve achar que esse é o mantra dos blocos de carnaval, que ficam esperando a festa chegar, não é? Mas parece que não é bem assim. Fomos pesquisar o que os blocos andaram fazendo em 2017 e descobrimos ensaios, ações solidárias e protestos. Foram organizados ensaios abertos, “cadeiraço” (cada um leva sua cadeira e ocupa calçadas do bairro) e participação em audiência pública para cobrar pela praça e disseminar a importância dos espaços de cultura nos bairros de BH. “Estimular um coletivo com consciência política é um dos nossos objetivos”, explica Rafael Gregório Malaquias, um dos organizadores do Bloco da Língua. Além do envolvimento com a praça, o bloco organi-

zou atividades de brincadeiras e apresentações durante o ano. Nerds e foliões O nome “Estrela da Morte” te lembra alguma coisa? Pois sim, os fãs dos filmes Star Wars organizaram um bloco caricato em terras mineiras. O Bloco Unidos da Estrela da Morte desfila há 3 anos no bairro Floresta, na região Leste, e, durante o ano, fez ações solidárias como doação de sangue ao Hemomi-

une esporte com outras atividades culturais e tenta encaixar na agenda. Para 2018, já estamos firmando parceria com outros blocos”, diz Marco Antônio. Um dos grandes objetivos do Anjos do Céu é organizar para este e para os próximos anos um desfile no sábado de aleluia, que era tradição no bairro e que não mais estava sendo feito. Vá atrás deles também no carnaval: O Bloco da Língua leva cerca de mil pessoas para assistir sua apresentação, às 14h, no dia 10 de fevereiro (sábado), saindo da Rua Ibituruna, 142, São Salvador. O Bloco Céu Azul sai dias 10 e 11 de fevereiro (sábado e domingo) às 16h, na Pracinha da Madona, Venda Nova. O Bloco Unidos da Estrela da Morte sai nos dias dia 10 e 12 de fevereiro (sábado e segunda), às 12h, na Rua José Pedro Drummond, 100, Floresta.

Bloco “Esperando o Metrô” estreia no carnaval de BH FOLIA Além de crítica à inexistência do metrô no Barreiro, bloco promete ser mais uma forma de luta por um transporte público te na luta por um transporte público, gratuito e de qualidade. André conta que os moradores do Barreiro têm adotado o nome do bloco em seus próprios estabelecimentos comerciais. “Já surgiu sanduíche, pizza e outros pratos com o nome Esperando o Metrô”, conta.

Larissa Costa

“H

á tempos tô esperando, esperando o metrô. Eu era criancinha de colo quando o governo anunciou que o metrô ia chegar ao Barreiro. Tem mais de 30 anos e ainda não chegou”, diz uma das músicas do bloco “Esperando o Metrô”, que tem seu desfile de estreia marcado para a terça (13) de carnaval. Parece exagero, mas realmente a população da região do Barreiro espera desde a década de 1980 a construção de uma linha do metrô. O transporte beneficiaria também moradores de

várias cidades da região metropolitana, como Ibirité, Mário Campos e Sarzedo. “O bloco é uma sátira ao descaso e às promessas não cumpridas por vários go-

vernos”, conta André Xavier, um dos idealizadores do coletivo. Criado em agosto do ano passado, o bloco faz ensaios semanais, aos sábados, e cada dia agrega mais gen-

Novidade Pela primeira vez, a região do Barreiro vai receber blocos durante o carnaval. No domingo (11), é a vez do “Pena de pavão de Krishna” levar sua mística e foliões pintados de azul às ruas da região. Na segunda (12), o

bloco “Não acredito que te beijei”, formado por moradores do Barreiro, também estreia no carnaval belorizontino. Antes do desfile oficial, o “Esperando o Metrô” realiza uma prévia dentro do metrô de BH. Saindo do Eldorado, a bateria percorrerá diversas estações até a Central. No dia 13 de fevereiro, a concentração do bloco é na Avenida Sinfrônio Brochado, ao lado do Comercial Esporte Clube. Para participar dos ensaios do bloco e adquirir o abadá, acesse a página oficial em facebook.com/BlocoEsperandoOMetro.


Belo Horizonte, 26 de janeiro a 1 de fevereiro de 2018

na geral

Roller Derby: o esporte feminista que só cresce no Brasil

Reprodução

Flora Castro, do Rio de Janeiro (RJ)

M

ulheres, patins e equipamento de proteção. Esses são três componentes essenciais do Roller Derby, um esporte que cada vez mais cresce no Brasil. A modalidade foi criada nos Estados Unidos na década de 1930, mas ganhou contornos mais competitivos e profissionais no início dos anos 2000, com a criação da associação que gere o esporte mundialmente, a WFTDA (Associação do Derby de Pista Plana Feminina, tradução da sigla para o português). Já existem 11 ligas de Roller Derby que fazem uma competição anual, o Brasileirão.

O esporte é praticado em uma pista plana e oval em que competem cinco jogadoras de dois times - quatro são bloqueadoras e uma é a pontuadora. O objetivo dela é ultrapassar as jogadoras do time adversário, ganhando um pon-

to para cada ultrapassagem. Já as bloqueadoras ajudam a pontuadora do seu time e atrapalham a do time adversário. A atividade é considerada feminista por ser um esporte de contato e velocidade, que trabalha com a con-

fiança das mulheres. O único pré-requisito para participar é se identificar com o gênero feminino. O esporte também é diverso em outro quesito. “Eu sou acima do peso, então nunca achei que poderia ser aceita em nenhum tipo de esporte. No Roller Derby vi que existem meninas com corpos completamente diferentes. Então eu achei, enfim, um esporte para chamar de meu”, conta a estudante universitária Guinevere Gaspari. Guinevere está há seis meses na liga e diz que o esporte já mudou a sua vida. “O derby trouxe a questão do cuidado comigo mesma, tanto física quanto mentalmente. Mas o principal mesmo foi conhecer a força que a gente tem enquanto mulher. Confiança é uma palavra que eu posso dizer que o Derby trouxe para mim”, concluiu.

ESPORTE

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Time de Uberlândia vence na estreia da Superliga B Vito Monteiro / Esporte goiano

A equipe derrotou o time do Monte Cristo fora de casa, em Goiânia, por 3 sets a 2, parciais de 28/26, 22/25, 27/29, 25/21 e 7/15. O time é jovem, com média de idade de apenas 20,5 anos para a disputa do campeonato, que conta com o total de oito equipes.

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Time italiano é condenado por manifestação antissemita

ESPORTES

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DECLARAÇÃO DA SEMANA Reprodução

Reprodução

Torcedores da Lazio fizeram saudação nazista, o que causou revolta na Europa

A

Lazio foi condenada, nesta semana, pela Federação de Italiana de Futebol a pagar 50 mil euros em função de manifestações antissemitas de sua torcida, em outubro do ano passado. No clássico da cidade, torcedores do time exibiram adesivos de Anne Frank com a camisa da Roma com os dizeres “Anne Frank incentiva a Roma”.

O episódio causou revolta. Em resposta, foi realizado um minuto de silêncio em honra às vítimas do Holocausto e foi lida uma passagem do diário da jovem em todos os jogos disputados na Itália na semana seguinte. Anne Frank foi uma garota judia vítima do Holocausto, que teve seu diário publicado e se transformou em símbolo dos horrores cometidos pelo nazismo alemão.

“Lula querido, o Diego está contigo!” Escreveu em sua página no Facebook o ex-jogador argentino Diego Maradona, no dia 24, em apoio a Lula, que foi julgado e condenado em segunda instância por corrupção, apesar da falta de provas.

Gol de placa O jogador Jefinho retornou à Seleção Brasileira de Futebol de 5 depois do descanso após o ciclo paralímpico do Rio 2016. Considerado um dos melhores atletas do mundo, ele treina junto com os colegas para o Campeonato Mundial de Futebol de 5 IBSA 2018, que acontecerá em junho, na Espanha.

Gol contra O ex-zagueiro do Palmeiras, Fernando Tobio, foi filmado agredindo uma mulher na cidade de Rosário, na Argentina, onde joga atualmente. Ele se manifestou publicamente pedindo desculpas, mas o vice-presidente do time afirmou que Tobio será multado e o dinheiro revertido para instituições contra a violência de gênero. O clube mandou bem!

Decacampeão

É Galo doido

Bráulio Siffert

Rogério Hilário

Após três rodadas do Campeonato Mineiro, o time do América já começa a se soltar e a mostrar que tem um elenco com boas possibilidades de evolução. Os adversários do interior, embora pouco qualificados tecnicamente, em outros anos costumavam Decacampeão oferecer muito mais resistência ao América. Os comandados de Enderson Moreira estão mantendo o padrão ofensivo, a posse de bola e a consistência defensiva que foram destaque na campanha do título da Série B de 2017. Por enquanto, o destaque continua sendo o futebol coletivo, mas ainda é preciso melhorar a armação, as infiltrações, os passes finais e as finalizações. Os destaques individuais por enquanto são Rafael Lima, Zé Ricardo, Aylon e Rafael Moura.

Minha capacidade - se é que tenho – de entender o futebol é testada a cada instante. Quando o Ronaldinho Gaúcho se aposentou, alguns torcedores minimizaram a importância do jogador para o Galo. Seria dor de cotovelo (termo bem antigo, ao meu esÉ Galo doido! tilo)? Na minha modesta opinião, tendo em vista a conquista de uma reles Libertadores, ele só foi gênio, ou bruxo, atuando no Brasil quando esteve no Atlético. Depois, leio: esquema com volantes é o segredo. Quem ainda tem memória, pode me dizer: Elias, nos seus melhores desempenhos, sempre aparecia para concluir o gol e, em ocasiões diversas, não garantiu vitórias? A obviedade campeia nos gramados. No entanto, as análises, muitas das vezes, são parciais. Principalmente quando as pautas são mínimas.

La Bestia Negra Leo Calixto Ainda não foi nessa rodada queAnúncio Fred Guerreiro balançou o coração da gente. O jogador celeste não conseguiu transformar em gols as chances que teve. Jogando um futebol seguro e muito ofensivo, o Cruzeiro passou fácil pelo Uberlândia na terceira La Bestia Negra rodada do Campeonato Mineiro. A partida foi marcada por jogadas rápidas, ultrapassagens e muitas finalizações, demonstrando que a formação técnica, tática e física do elenco está no caminho certo. O aumento do repertório de jogadas ofensivas é fruto do entrosamento adquirido nos últimos dois anos de trabalho de Mano Menezes. Com reforços a estrear, o Cruzeiro roda o elenco para que todos estejam bem nas competições mais importantes.

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Edição 219 do Brasil de Fato MG  

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