Edição 170 do Brasil de Fato MG

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Rafael / CBF/ Agência Brasil ValerRibeiro Campanato

Minas Gerais

BRASIL

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MINAS

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Sem transparência no STF

Expedição pelo Jequitinhonha

Ministros cotados para ocupar lugar de Teori têm perfil conservador. Associação Juízes pela Democracia critica sistema de escolha para os tribunais

Região tem povo forte, cultura diversificada e riquezas naturais. Jornalista e fotógrafa percorreram da nascente à foz do rio e contam suas histórias

Maria Fernanda Paulino

27 de jeneiro a 2 de fevereiro de 2017 • edição 170 • brasildefato.com.br • facebook.com/brasildefatomg • distribuição gratuita

O futebol é do povo

ENTREVISTA

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Reforma da Previdência será pior para mulheres Especialista aponta que não há déficit na Previdência e que a proposta do governo Temer ignora realidade do país e reforçará desigualdade Reprodução

ESPORTE

André Cavaleiro

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Primeira edição da Taça das Favelas de Minas reúne mais de 12 mil jovens de 32 comunidades em BH. Projeto tem como objetivo promover a solidariedade, o protagonismo popular e a visibilidade. Participação das mulheres é destaque

MINAS

Trans na faculdade Diversidade chega ao ensino superior com incentivo de pré-vestibular para pessoas trans em Belo Horizonte

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CIDADES

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Loja da Reforma Agrária em BH Armazém com comidas saudáveis e sem agrotóxicos deve ser inaugurado no final do semestre


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OPINIÃO

Belo Horizonte, 27 de janeiro a 2 de fevereiro de 2017

Editorial | Brasil

A morte do ministro e suas revelações

ESPAÇO dos Leitores

“Vem pro Vermelhim gente!!! O Bloco Soviético do Carnaval 2017 de BH!” Luanna Grammont de Cristo compartilhou no facebook a matéria “Bloco traz história da Rússia para o carnaval”

“E o Judiciário lento, lento. Querem o esquecimento?” Sidney Dias comenta a matéria “Crime da Samarco em Mariana pode piorar surto de febre amarela”

“Embora as pessoas não reconheçam, a classe dominante tem um projeto para o país (e o está colocando em prática). Este projeto é o de acabar com a ideia de desenvolvimentismo, ou seja, a ideia de que Estado deve induzir o desenvolvimento” Trecho do comentário de Mauro Costa Assis sobre a edição 169

Escreva para nós: redacaomg@brasildefato.com.br

A queda do avião que provocou a morte de quatro pessoas, dentre elas o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Teori Zavaski e também do empresário Carlos Alberto Fernandes Figueira, nos traz importantes revelações sobre o Sistema de Justiça Brasileiro. Afinal, Teori não via nenhum problema em ter como amigo um empresário que respondia a crimes no STF, como também era sócio de empresas que fazem parte das apurações da Operação Lava Jato. Esta íntima ligação do Poder Judiciário com a mais alta elite do país revela à população que o Sis-

A elite brasileira escolhe seus próprios juízes tema Político Brasileiro, mesmo depois da Constituição de 1988, carregou consigo heranças coloniais e ditatoriais, pois continua sendo utilizado como instrumento de dominação e de manutenção de estruturas de poder coloniais. Por isso, nem a sociedade civil organizada, muito menos a população em geral, participa nas decisões do poder. Prova disto é que cabe exclusivamente ao presidente da República escolher um novo ministro para substituir Teori. Logo ele, Michel Temer, que também é alvo das investigações da Operação Lava Jato, será quem vai nomear um novo ministro. Em suma: é a elite brasileira quem escolhe seus próprios juízes. Mas e se tivesse democracia no sistema de Justiça?

O jornal Brasil de Fato circula semanalmente com edições regionais, em Minas Gerais, no Rio de Janeiro, no Paraná e em Pernambuco. Queremos contribuir no debate de ideias e na análise dos fatos do ponto de vista da necessidade de mudanças sociais em nosso país e no nosso estado.

Se a população pudesse escolher, qual seria o perfil dos juízes que irão decidir a vida dos brasileiros nos mais de 100 milhões de processos no Brasil? Que compromisso profissional deve ter alguém

Ligação íntima do Poder Judiciário e a elite do país é herança colonial e ditatorial ao julgar desde processos trabalhistas, de violência doméstica, de relações do consumidor até os rumos de um impeachment de presidente? Pesquisas atuais sobre o Poder Judiciário brasileiro mostram detalhes daqueles que chegam a cargos de juízes, desembargadores e ministros: na sua maioria a magistratura brasileira é composta por homens, que chegam a representar 82% dos ministros dos tribunais superiores. Já em relação à composição étnico-racial, mais de 85% declaram-se brancos. Além disto, a média dos salários deles ultrapassa R$40 mil, sendo que no estado de Minas, tem muitos desembargadores com salários mensais superiores a R$200 mil. Ou seja, hoje no Brasil, a maiorias dos juízes são homens, brancos e ricos, mas a maior parte da população é de mulheres, não brancas e pobres. Como pode o povo ter alguma confiança de que a Justiça brasileira serve a todos os cidadãos? A resposta é simples: não pode.

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conselho editorial minas gerais: Adília Sozzi, Adriano Pereira Santos, Beatriz Cerqueira, Bernadete Esperança, Bruno Abreu Gomes, Cida Falabella, Durval Ângelo Andrade, Ênio Bohnenberger, Frederico Santana Rick, Gilson Reis, Gustavo Bones, Jairo Nogueira Filho, Joana Tavares, João Paulo Cunha, Joceli Andrioli, José Guilherme Castro, Juarez Guimarães, Marcelo Oliveira Almeida, Milton Bicalho, Nilmário Miranda, Padre Henrique Moura, Padre João, Pereira da Viola, Renan Santos, Rogério Correia, Samuel da Silva, Temístocles Marcelos, Wagner Xavier. Editora: Joana Tavares (Mtb 10140/MG). Redação: Larissa Costa, Pedro Rafael Vilela, Rafaella Dotta, Raíssa Lopes e Wallace Oliveira. Colaboradores: Alan Tygel, Anna Carolina Azevedo, André Fidusi, Bráulio Siffert, Diego Silveira, João Paulo Cunha, Léo Calixto, Rogério Hilário, Sofia Barbosa. Revisão: Luciana Santos Gonçalves. Administração: Vinicius Nolasco. Distribuição: Amélia Gomes. Diagramação: Tiago de Macedo Rodrigues. Tiragem: 40 mil exemplares.


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Belo Horizonte, 27 de janeiro a 2 de fevereiro de 2017

“Eu acho que mudou pra pior. Trabalho com seguro e vagas de emprego e quanto ao aumento do seguro não tem nem como mensurar. E não tem emprego pra ninguém, ninguém”.

Luana Reis, 26 anos, auxiliar administrativo

“Não adiantou nada, piorou muito. Esse outro presidente começou e o país está parado, não está fazendo nada. Eu sou aposentado, graças a Deus, mas vai ficar ruim é pra quem tá chegando. Vão ter que trabalhar até”.

“Corremos o risco de buscar um salvador que nos devolva a identidade e nos defenda com muros, vedações ou que for, de outros povos que possam nos tirar a identidade. Isso é muito grave. Por isso, procuro sempre dizer: dialoguem entre vocês.”

Reprodução

Você acha que o Brasil mudou após a saída de Dilma?

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Declaração da Semana

PERGUNTA DA SEMANA

Muita gente acreditou que o impeachment da presidenta eleita Dilma Rousseff poderia melhorar o país. Ela foi destituída do cargo em agosto de 2016, quando Michel Temer assumiu o poder.

GERAL

Thomaz Silva / Agência Brasil

Disse o Papa Francisco, em entrevista ao jornal El País, mostrando-se preocupado com a ascensão de líderes conservadores na política

BOMBOU NA REDE

Carlos Alberto Batista, 69 anos, aposentado

Dicas para afastar mosquitos Existe coisa mais chata do que um mosquito zumbizando em seu ouvido, picando a sua pele e posando nos alimentos? Alguns deles são vetores de doenças, como o Aedes aegypti, transmissor da dengue, febre amarela, zika e chikungunya. Abaixo, algumas dicas para afastá-los:

1. Dê preferência a roupas claras e longas. Roupas

A turma que finge que o Brasil é o paraíso da igualdade racial deu “piti” na internet. Um esquete do programa “Tá no Ar”, do humorista Marcelo Adnet, causou arrepios ao discutir o racismo no país. O roteiro intitulado “Ser Branco no Brasil” faz uma paródia de comercial do Banco do Brasil, evidenciando os privilégios dos brancos: “Eu tive acesso às melhores escolas e universidades (...) Eu tenho acesso aos melhores empregos, às melhores oportunidades e, claro, tenho sempre os melhores salários”, afirmam os personagens centrais, todos eles homens ou mulheres brancas de alto poder aquisitivo. Confira o vídeo: migre.me/vVHIa.

Meio passe estudantil

Brreno Pataro

escuras atraem o Aedes aegypti e roupas curtas deixam a superfície da pele mais exposta.

2. Use repelentes. A Anvisa publicou uma orientação sobre o uso desses produtos, disponível no link: migre.me/vVIKx 3. Elimine os focos de mosquitos. Drene diariamente a água parada, evite a sujeira e não deixe alimentos expostos. 4. Não fique suado: tome banho e enxugue o corpo. Mosquitos gostam da umidade e do odor que exalamos.

A Prefeitura de BH prorrogou as inscrições para o Auxílio de Transporte Escolar (meio passe estudantil). Agora, vai até 24 de fevereiro o prazo para se inscrever no programa, que atende a estudantes do Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos (EJA), matriculados e frequentes em estabelecimentos da capital, com residência a mais de 1 km da escola e que utilizem metrô ou linhas de ônibus gerenciadas pela BHTrans. Informações no site: meiopasse.pbh.gov.br.


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CIDADES

Belo Horizonte, 27 de 11 janeiro a 2março de fevereiro Belo Horizonte, a 17 de de 2016de 2017

Armazém de alimentos saudáveis chega a Belo Horizonte AGRICULTURA MST traz para cidade produtos cultivados em áreas de reforma agrária Divulgação

Rafaella Dotta

D

epois de São Paulo, a capital mineira deve ser a próxima cidade a ter um Armazém do Campo, com produtos plantados em terrenos de Reforma Agrária. A nova loja do Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) irá

No primeiro semestre deste ano, loja será inaugurada no Barro Preto

Armazém em São Paulo funciona desde o ano passado

vender verduras, legumes e alguns produtos industrializados feitos de forma agroecológica. A ausência ou baixa utilização de veneno agrícola é o maior atrativo.

“Tudo o que vamos vender são produtos da agricultura familiar”, explica Eloiza Soares, integrante do MST e responsável pela comercialização dos produtos. “A

proposta do Armazém do Campo é trazer para a cidade uma opção saudável de alimentação, com produtos tanto do MST quanto de agricultores familiares em geral”, diz. A cesta básica vendida pelo movimento já dá ideia do que se pode esperar: doce de leite, doce de baru, café, arroz e suco de uva orgânicos, além de outros quitutes da produção mineira. O preço dos alimentos pode ser também um chamativo, visto que em geral orgânicos costumam ser mais caros que produtos com agrotóxicos. “Estamos estudando o plano de negócios, mas com certeza o pre-

ço acessível é uma preocupação”, destaca Eloiza. A mais recente experiência de venda na capital foi feita em junho passado, quando o MST realizou a Feira Nacional da Reforma Agrária, na Serraria Souza Pinto, e vendeu 200 toneladas de alimentos em cinco dias. A nova loja também funcionará como café e local de encontro. Onde e quando Segundo Eloiza, o Armazém do Campo já tem local definido: será instalado na Avenida Augusto de Lima, esquina com a Avenida do Contorno. A inauguração deve acontecer entre junho e julho deste ano.

Pesquisa demonstra perfil de quem pedala em Belo Horizonte MOBILIDADE URBANA Realizado pela BH em Ciclo, levantamento de dados pode subsidiar políticas públicas Brreno Pataro

vios e contato corporal sem autorização.

Relatório aponta que cerca de 95% dos ciclistas já sofreram algum tipo de violência no trânsito Larissa Costa

A

pesar de a maioria dos participantes que pedalam usar a bike como forma de lazer (77,1%), 63% usam a magrela como meio de transporte. De acordo com o relatório, é fundamental conectar o uso da bicicleta no contexto mais amplo da mobilidade urbana. Para Guilher-

me, a falta de investimentos no transporte público coletivo e no não motorizado é um incentivo para a população usar seus carros particulares. “Tal fato não colabora em nada para a diminuição dos problemas relacionados à mobilidade urbana. Esperase que uma política de incentivo ao transporte não motorizado se consolide de manei-

ra efetiva e integrada aos demais modos de transporte, a fim de se alcançar níveis cada vez mais fiéis ao conceito de mobilidade urbana sustentável”, afirma. Violência Uma das perguntas feitas aos participantes buscou compreender quais os

tipos de violência que os ciclistas sofrem quando estão pedalando. Apenas 25 pessoas, cerca de 5%, alegaram não ter sofrido algum tipo de violência. As demais afirmaram já ter passado por agressões verbais, ameaças, fechadas, cuspes, socos e portadas. Além disso, quase 20% das pessoas já sofreram cantadas, asso-

Prefeitura nova Para Guilherme, ainda é cedo para discutir as ações ligadas à mobilidade urbana da atual gestão da Prefeitura de Belo Horizonte. No entanto, ele destaca que há um diálogo mais “harmonioso” e que o vice-prefeito Paulo Lamac (Rede) reforçou em três oportunidades as propostas firmadas em campanha. Entre as promessas, estão um maior diálogo com a população interessada no tema e a implementação de vias com tratamento preferencial para circulação de bicicletas, que deverá ultrapassar os 360 km de extensão até o ano de 2020.


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MINAS

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Expedição revela avanços e desafios do Vale do Jequitinhonha POTENCIAL As inúmeras riquezas e resistências revelam uma região que vai além do estigma da pobreza Fotos: Maria Fernanda Paulino

Moradores do Novo Peixe Cru, comunidade construída após a construção da barragem de Irapé

Bráulio Siffert

O

Vale do Jequitinhonha, no Nordeste de Minas Gerais, ficou nacionalmente estigmatizado como o vale da miséria e da seca, de uma população esfomeada, isolada e incapaz de reformular seu próprio destino. Na realidade do passado e para os que querem se aproveitar das dificuldades do presente, esse discurso pode até se encaixar, mas uma visita cuidadosa aos cantinhos e às pessoas do Vale é suficiente para ver que, apesar dos problemas, há muita riqueza humana, cultural e natural. Embora ainda sejam relativamente altos os índices de pobreza, analfabetismo e violência, a situação social da região melhorou significativamente nos últimos 20 anos. Dona Zezinha, artesã de Campo Buriti, distrito de Turmalina, não passou a viver da venda de suas bonecas de barro da noite para o dia. Sua infância e adolescência na zona rural foram de muito sofrimento. “Melhorou bastante de 20 anos para cá, pelo menos aqui na minha comunidade. Todo

mundo da roça acabou podendo experimentar o outro lado da vida. De ter uma cama para dormir, um suco gelado para tomar, uma casa iluminada de noite”, relata Zezinha, que lamenta o fato de agora o país estar correndo o risco de pôr tudo isso a perder.

Situação melhorou, mas população tem medo de perder conquistas Semelhante percepção é ressaltada por Toinzin, presidente da Associação dos Quilombolas do Barreiro, no município de Cristália. Segundo ele, antes dos anos 2000 a situação era tão precária que em virtude da doença de chagas poucos eram os moradores que passavam dos 30 anos. Hoje, além da cesta básica e do Bolsa Família, as condições são infinitamente melhores, embo-

ra ainda haja muito preconceito por parte de alguns governos e instituições com relação aos remanescentes de quilombos. Riquezas conhecidas e outras escondidas Diante de um histórico marcado por dificuldades e superações, muitos moradores do Vale encontraram na arte uma autêntica forma de resistir, garantir renda ou de se expressar. A região presenteou o mundo com formatos diferenciados, como bo-

necas de barro e objetos de decoração de sempre-vivas, e artistas conhecidos, como os músicos Paulinho Pedra Azul, Saulo Laranjeira e Rubinho do Vale, os corais Trovadores do Vale, Meninos de Araçuaí e Lavadeiras de Almenara e as artesãs Zefa, Lira, Zezinha e Dona Izabel. Para além desses nomes, e muitas vezes sem o mesmo reconhecimento, caminham uma infinidade de artistas, famílias, associações e comunidades que seguem a tradição ou a necessidade, guardando um saber que encanta e inspira. Muito do artesanato é feito a partir de matéria-prima encontrada na região, como barro, madeira, pedras e plantas. Algumas famílias, como as de Pasmado, entre Itinga e Itaobim, vivem exclusivamente da venda de suas panelas, esculturas e objetos de barro, que comercializam em tendas às margens da BR-367. Artesãos mais conhecidos também conseguem tirar seu sustento da arte. Mas, segundo os relatos dos artesãos, dos vende-

dores e dos moradores, esses casos são raros. A maior parte precisa ter outras formas de dedicação para complementar a renda, muito em virtude da falta de apoio dos governos, das empresas e da população das próprias cidades. Novas tecnologias também vêm sendo experimentadas. Em Araçuaí, o Projeto Arasempre, do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento, além de ter o famoso coral Meninos de Araçuaí, engloba também grupos que produzem softwares, arte e vídeos. E os formatos não se encerram. O Vale é também de poesia, de pintura e de teatro com inúmeros grupos e artistas que, espalhados e muitas vezes escondidos, frequentemente carecem de mais visibilidade e apoio, visto que fé já possuem por demais. Aliás, a religiosidade, tão marcante na região, é expressa através da arte, nas folias de reis, nas festas do divino, nos grupos de pastorinhas, nos presépios, nas esculturas e nas músicas.

Artesão Zé do Ponto produz bancos, redes tambores e outros objetos de madeira


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MINAS

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Opinião

O ego supremo João Paulo Cunha Tem ganhado espaço nos meios de comunicação os nomes de possíveis indicados a preencher a vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal, que era ocupada por Teori Zavascki, morto em desastre aéreo sob investigação. Como fica cada vez mais patente, a discussão leva em conta o papel decisivo da corte num momento de desequilíbrio dos poderes da República. A situação acaba por manifestar uma confusão perigosa entre as atribuições constitucionais da corte e sua possível utilização como instrumento conjuntural de sustentação do estado de exceção na vigência de um golpe. Desde suas origens, o protagonismo do Judiciário esteve presente em ações e omissões que ecoavam o interesse da oposição parlamentar e as agressões da mídia. No entanto, a situação parece ter chegado ao seu extremo com duas candidaturas deletérias à democracia brasileira. Trata-se da dupla formada por Alexandre de Moraes, atual ministro da Justiça, e Ives Gandra Filho, presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST).

De Alexandre Moraes pode-se dizer que fere as duas exigências legais para o cargo. Seu conhecimento jurídico não é reconhecido nem pelos colegas. Já sua reputação, da

Falta a Alexandre Moraes ética e respeitabilidade qual o cargo cobra que seja ilibada, tem demonstrado indigência nos campos da ética (ele mente) e da respeitabilidade profissional (agravou a crise penitenciária). A recente renúncia coletiva do Conselho de Política Criminal de Penitenciária é um sinal claro da discordância aberta de especialistas. Sua filiação ao PSDB é ainda um carimbo ideológico explícito a transpirar parcialidade. De Ives Gandra Filho, não é preciso aduzir nada. Ele mesmo registra, em seus livros e artigos, posições que afrontam o direito moderno, inclusive decisões constitucionais já sedimentadas. Não reconhe-

ce união entre pessoas do mesmo sexo (utilizando doutrina religiosa medieval e linguagem desrespeitosa), defende a submissão das mulheres, condena o aborto em todas as circunstâncias e ataca as experiências com células-tronco. Sua ideologia, que emana do conservadorismo católico da Opus Dei, a qual integra, não é apenas antimoderna, mas anti-humanista. É um dos homens por trás da retirada de direitos e da destruição da CLT em nome da “moderni-

Ives Filho é de ideologia antimoderna e anti-humanista dade” das relações flexíveis no setor. No STF, seria ponta de lança do trabalho que vem operando no TST. Dos dois pode-se dizer muita coisa de grande. Mas possivelmente nada maior que seus egos.

Estudantes comemoram sucesso em pré-vestibular trans de BH ENEM Com incentivo, alunas melhoram currículo, garantem seu lugar na faculdade e gostam mais de si mesmas Reprodução

Raíssa Lopes

esse Dia da VisibilidaN de Trans, celebrado em 29 de janeiro, Tiffany

Maria de Castro vai comemorar uma vitória. Ela, que é mulher trans e pelo preconceito largou a escola no sexto ano, passou no curso de Direito do Centro Universitário UNA. Tiffany foi uma das primeiras alunas do TransVest, pré-vestibular gratuito para pessoas trans de BH, e encontrou nas aulas apoio para concluir o ensino médio e entrar na faculdade. Ela já havia tentado estudar em outras escolas, mas nunca deu continuidade.

Foi no TransVest que viu seu nome social e sua identificação de gênero serem respeitados. “A expectativa de vida de transexuais [35 anos] me amedrontava, mas a aprovação me deu uma nova perspectiva”, relata a moça. Hoje ela acredita que pode incrementar cada vez mais sua formação para entrar no mercado de trabalho.

Deu certo

O TransVest cresceu. Antes oferecia o pré-vestibular e supletivo e agora tem caráter de ONG, com assistência social e de saúde para alunas e alunos, apoio psicológico, curso de libras, inglês, espanhol, francês e italiano. Além disso, vai começar a oferecer aulas de educação física. “Foi uma coisa

acima do que imaginávamos. O retorno afetivo foi espetacular, nos tornamos uma família e pudemos testemunhar como o trabalho voluntário faz bem pra alma”, revela o coordenador do projeto, Eduardo Salabert. Todos os profissionais continuam oferecendo o serviço de forma gratuita. Lara Voguel é outra mulher trans que mudou a relação consigo mesma a partir do incentivo do TransVest. Ela faz inglês há dois meses, e quis se qualificar para conseguir deixar a prostituição. “Nós não conseguimos trabalhos formais, só consegui um quando era gay.

Me prostituo pra sobreviver. Fiz esse curso e gosto mais de mim, vejo que meu nível de cultura está melhor”, reflete. Ela conta que largou a escola por sofrer agressões diárias e agora não quer parar de estudar. Há um ano na capital, a ONG recebeu indicação para o prêmio Beagá Cool, que reconhece iniciativas inovadoras que fazem bem à comunidade mineira. As inscrições para o TransVest continuam a ser realizadas pelo e-mail transvest@outlook.com e também pela página do Facebook (www.facebook. com/transvest).


Acompanhando

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Foto da semana

OPINIÃO

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PARTICIPE Viu alguma coisa legal? Algum absurdo? Quer divulgar? Mande sua foto para redacaomg@brasildefato.com.br. Lydiane Ponciano

Na edição 168... “Não adianta aumentar presídios” ...E agora Funcionários do Ministério da Justiça se demitem em protesto O presidente e seis integrantes do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP) entregaram, na quarta (25), uma carta de demissão do órgão, que faz parte do Ministério da Justiça. De acordo com conselheiros, Alexandre de Moraes teria aprovado o reforço da política de armamento e o lançamento de um Plano Nacional de Segurança Pública sem debates com a sociedade ou com o Conselho. Eles declaram, ainda, que estudos do órgão foram ignorados em detrimento de “um texto normativo que é, talvez, o mais restritivo em termos de liberdades já editado na história recente e republicana”. Preço da passagem segue irregular, diz economista ...E agora CDL-BH pede cancelamento do reajuste da tarifa de ônibus Um ofício que solicita o cancelamento do aumento das passagens de ônibus foi enviado pela Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL-BH), nesta quintafeira (19), à Prefeitura de Belo Horizonte. A CDL fez uma estimativa do número de empresas da capital (67.350), o número de funcionários de cada uma e quanto elas deveriam desembolsar para arcar com os novos preços das passagens. A pesquisa relevou que o reajuste elevou os gastos dos empresários com transporte em 15%.

RELIGIOSIDADE A Casa de Caridade Pai Jacob do Oriente, em Belo Horizonte, celebra a tradicional festa de Oxóssi há 51 anos, desde sua fundação. Oxóssi, orixá da fartura e da caça, é sincretizado como São Sebastião, tendo 20 de janeiro como seu dia. Neste ano, as celebrações foram realizadas pela Casa Pai Jacob no sábado (21), marcando o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa.

Rabino Samy Pinto

Leonardo Barros Soares

O cerne do debate sobre a Escola Sem Partido

Portaria paralisará demarcações de terras indígenas

Nos últimos meses, um forte e acalorado debate envolvendo o projeto Escola Sem Partido vem ganhando destaque no meio educacional brasileiro. Mas qual seria o cerne da questão? O primeiro passo é entender do que se trata o projeto. A proposta defende uma educação neutra, sem a interferência da posição política do professor, da instituição e muito menos do governo. Essa linha de pensamento já gera um espanto, pois não existe uma escola sem partido, a proposta e o projeto são utópicos. Ao entrar em sala de aula, o docente carrega consigo uma carga de conteúdo que, forçosamente, levará o juízo de valor do educador e sua forma de ver o mundo. Existe uma politização, ainda mais quando um grupo de pessoas se reúne. Qual o papel da escola no século XXI? Somente ensinar as habilidades e competências de escrita, oralidade, matemática, ou também cabe à escola trazer de- Escola não tem como bates sobre política, soser neutra ciologia, filosofia e religião? Essas questões demandam estudo mais afinado, que leve em consideração a realidade das salas de aula, que reproduzem a própria formação do professor. Apenas colocar cartazes com os deveres do profissional é preocupante, e acaba por trazer uma imagem de policiamento e desconfiança sobre os professores, causando um ambiente de desrespeito e de indisciplina em sala de aula. O que não se pode dizer é que a escola é neutra, quando na verdade ela não é. Porque os professores têm sim um posicionamento, possuem uma opinião política e social.

No dia 18 de janeiro de 2017, o ministro da Justiça e Cidadania, Alexandre de Moraes, baixou a portaria nº 68, alterando o processo demarcatório das terras indígenas brasileiras. A portaria cria um “Grupo Técnico Especializado” para “subsidiar” decisões a serem tomadas. Este GTE, na prática, será mais uma instância no processo demarcatório e funcionará em moldes semelhantes ao do chamado “grupão”. Esse último foi um grupo de trabalho interministerial que funcionou durante quase toda a década de 1980 e que teve como efeito concreto o virtual congelamento das demarcações. Não se pode dizer que fomos pegos de surpresa. O Congresso Nacional é, há anos, dominado por uma crescente bancada de agropecuários e ligados à indústria da mineração. A recente nomeação de um pastor evangélico e de um general para a presidência e uma diretoria importante da FUNAI são atestados claros dos jogos de poder em Brasília. Nas entrelinhas da porRestará aos povos taria pode-se ler, de forma indígenas a revolta velada, que a preocupação maior é que a propriedade privada seja resguardada em qualquer hipótese, mesmo quando prejudique territórios indígenas. A portaria estabelece também a possibilidade de participação das “partes interessadas” quando da apreciação de demarcações no GTE. Ora, o que parece um saudável direcionamento participativo poderá redundar numa armadilha para os povos indígenas. Quem são essas “partes interessadas”? Todos nós já sabemos quem são, não é mesmo? Não sobrará muita alternativa sobre o que reserva o futuro para os povos indígenas: “a revolta.”

Rabino Samy Pinto é formado em Ciências Econômicas com mestrado e doutorado em Letras e Filosofia, pela Universidade de São Paulo (USP).

Leonardo Barros Soares é mestre e doutorando em Ciência Política na UFMG.


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BRASIL

Belo Horizonte, 27 de janeiro a 2 de fevereiro de 2017

Piso da educação tem novo reajuste em todo o Brasil DIREITOS Em Minas, desde 2008 trabalhadores lutam pelo cumprimento da lei nacional Arquivo Escola ACS - SEE

Wallace Oliveira

N

a última semana, o governo federal anunciou reajuste de 7,64% para o piso salarial nacional da educação básica. O menor valor a ser pago a trabalhadoras e trabalhadores da educação passa de R$ 2.135,64 para R$ 2.298,80, por uma jornada de 40 horas semanais. O aumento é de 1,35% acima da inflação de 2016. A política do piso salarial, de 2008, trata dos rendimentos, da carreira e da jornada de trabalho de todos os profissionais do magistério público da educação básica: professoras/es, direção ou administração, planejamento, inspeção, supervisão, orientação.

“O piso é um elemento fundamental para a identidade de qualquer categoria profissional. Se você vai à OAB, por exemplo, você sabe quanto custa a hora do advogado. A nossa categoria era uma das poucas que não tinham essa regulamentação. Além disso, o piso é uma política de Estado que

busca recuperar gradativamente a valorização da categoria, pois não se pode falar em qualidade da educação sem considerar seus trabalhadores”, explica Beatriz Cerqueira, coordenadora do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (Sind-UTE/MG).

O piso em Minas Em Minas, logo após a aprovação da lei 11738/2008, trabalhadoras/es da educação realizaram uma greve estadual. Na época, o governo de Aécio Neves (PSDB) prometeu implementar o piso até 2010, mas não cumpriu. Em 2010, nova greve ocorreu, de 47 dias. Representantes do governo Anastasia (PSDB) assinaram um documento se comprometendo com a pauta, mas a promessa foi ignorada. Já em 2011, uma greve de 112 dias repercutiu em todo o país, conquistando amplo apoio de diferentes setores. O então secretário de governo, Danilo de Castro (PSDB), assinou novo documento afir-

mando que a lei seria cumprida, o que não ocorreu. Em 2014, o governador Fernando Pimentel (PT) elegeuse prometendo pagar o piso. Em 2015, a categoria conquistou um acordo com o governo, dando origem à lei estadual 22.062/2016, que prevê o cumprimento gradual da política do piso até julho de 2018. Até lá, o governo se compromete com o pagamento dos reajustes anuais previstos na política nacional, além de abonos anuais, pagos a partir de 2015, que serão incorporados em 2018 como vencimento básico. O governo ainda deve o reajuste referente aos meses de janeiro, fevereiro e março de 2016.

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Belo Horizonte, 27 de janeiro a 2 de fevereiro de 2017

BRASIL

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Vaga no STF abre disputa pela Lava Jato JUSTIÇA Associação de juízes critica falta de transparência na indicação dos nomes para o tribunal e teme perfil conservador Pedro Rafael Vilela, de Brasília (DF)

Jóse Cruz / Agência Brasil

A

pós a morte trágica do ministro Teori Zavaski em um acidente aéreo na semana passada, todas as atenções do meio político e jurídico estão agora voltadas para a indicação do nome que deverá ocupar o cargo na mais alta corte de Justiça do país, o Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo a Constituição, cabe ao presidente indicar um jurista com notório saber jurídico. Em seguida, o indicado passa por uma sabatina no Senado para a confirmação de seu nome. O ministro escolhido vai julgar os processos da Lava Jato no STF, assunto que interessa diretamente à cúpula do PMDB e do PSDB e outros partidos da base governista. O próprio presidente não eleito Michel Temer, citado 43 vezes em apenas uma das 77 delações premiadas de executivos e ex-diretores da cons-

Ministra Cármen Lúcia sinaliza optou por redistribuir a relatoria da Lava Jato

trutora Odebrecht, tem interesse no assunto. O temor de que o nome indicado pudesse favorecer o julgamento de políticos tucanos e peemedebistas fez com que a presidenta do Supremo, ministra Cármen Lúcia, optasse por redistribuir a relatoria da Lava Jato, que estava nas mãos de Teori, para outro ministro da corte, antes mesmo que Temer indicasse um nome. Além disso, Cármen Lúcia sinaliza que ela própria

deve homologar a maior parte ou todas as delações premiadas da Odebrecht, antes de o novo relator assumir, para não atrasar ainda mais os processos e impedir manobras que favoreçam políticos acusados. Essa medida contrariou o governo Temer, que está apreensivo com o vazamento de delações comprometedoras contra ministros, congressistas aliados e outras autoridades federais.

Falta transparência A expectativa em torno da nomeação do novo ministro do STF também chamou atenção para a falta de transparência nas indicações dos principais cargos do Poder Judiciário no Brasil. “A preocupação com a indicação tem se dado por causa da Lava Jato, uma operação importantíssima, mas que um dia vai acabar, e esse novo ministro vai ficar e passar a definir muitas outras questões fundamentais da vida do país, como a descriminalização da maconha, a questão do abor-

Associação de Juízes pela Democracia defende participação social no processo

to, do casamento de pessoas do mesmo sexo, entre outros. É fundamental que se discuta o perfil de quem vai ocupar essa função”, aponta o juiz André Augusto Salvador Bezerra, presidente da Associação de Juízes pela Democracia (AJD). As reformas trabalhista e da previdência social também são assuntos que poderão ser questionados no Supremo nos próximos meses. A associação defende, historicamente, que haja um processo mais público e transparente para a escolha de ministros do STF e de outros tribunais superiores. “Deveria haver um ambiente em que as pessoas pudessem se candidatar abertamente, com tempo para debate público, e que a escolha do presidente da República se desse após esse processo transparente. Da forma como é feita hoje, tudo é decidido a portas fechadas, em conversas de gabinete”, avalia André Bezerra.

Conservadores são os mais cotados para a vaga SUCESSÃO Ives Gandra, que defende submissão da mulher, e Alexandre de Moraes, ligado ao PSDB, estão na lista Fábio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil

E

ntre os nomes mais cotados para a vaga de Teori, aparece o atual presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), Ives Gandra Filho. De perfil ultraconservador, Gandra defende, em livro de sua autoria, que as mulheres devem submissão aos maridos e rejeita qualquer possibilidade de matrimônio entre pessoas do mesmo sexo, um assunto que já está praticamente superado na maioria dos países desenvolvidos do mundo. Além disso, Gandra Filho é defensor da total flexibilização dos direitos trabalhistas e da reforma da pre-

Ives Gandra Filho, do TST, defende total flexibilização dos direitos trabalhistas

vidência, temas que poderão ser analisados pelo STF. Outro nome sugerido é o do atual ministro da Justiça, Alexandre de Moraes. Ligado ao PSDB, Moraes foi secretário de Segurança Pública do governador tucano de São Paulo, Geraldo Alckmin, e chegou a advogar para entida-

des que tinham ligações com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). Se assumisse a vaga no Supremo, Alexandre de Moraes julgaria políticos aliados do PSDB e do PMDB. Também estão na lista a advogada-geral da União, Grace Mendonça, pelo menos quatro minis-

tros do Superior Tribunal de Justiça (STJ), alguns juízes federais e advogados. O nome de Sergio Moro foi descartado porque, como ministro, ele ficaria impedido de analisar os processos da Lava Jato porque é o atual responsável na primeira instância.

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MUNDO

Belo Horizonte, 27 de janeiro a 2 de fevereiro de 2017

Trump começa a colocar medidas polêmicas em prática IMPERIALISMO Presidente liberou verbas para construção de muro na fronteira com o México e aplicou medidas para enfraquecer “Obamacare” Reprodução

Da redação (Com Opera Mundi)

H

á poucos dias como presidente dos Estados Unidos, Donald Trump já começou a implementar algumas das medidas mais polêmicas de sua campanha. No mesmo dia de sua posse, ele ordenou que agências do governo paralisassem as regulamentações da Lei de Saúde Acessível, conhecida como “Obamacare”. A legislação, que entrou em vigor em 2014, expandiu os programas de saúde para cidadãos com mais de 65 anos e também beneficiou a população de baixa renda e portadores de deficiência. A organiza-

danças de Trump”, aponta Nijmie Dzurinko, liderança do movimento. Os EUA não possuem um sistema de saúde público nos moldes do Sistema Único de Saúde (SUS), que funciona no Brasil. Cerca de 28 milhões de americanos ainda não têm qualquer tipo de seguro médico. Antes da Lei de Saúde Convovado por mulheres, protesto contra Trump reuniu milhares no dia da posse Acessível, o número de pessoas sem assistência chegava ção popular Put People First, dem até morrer por conta das a 41 milhões. que coordena a Campanha alterações. pelos Novos Pobres no país, “Os mais pobres, as mu- Verbas para obra de muro na fronteira do México foanalisa que as consequências lheres, não brancos, a popu- ram liberadas dessas alterações ainda não lação LGBTQ [lésbicas, gays, Donald Trump também aspodem ser avaliadas, mas a bissexuais, trans e queers], sinou, na quarta-feira (25), expectativa é de que muitas pessoas com deficiência, um decreto que libera dinheipessoas que possuem doen- crianças e idosos serão os ro federal para a construção ças e lesões preexistentes po- mais atingidos pelas mu- de um muro na fronteira com

o México. A ação era uma das promessas mais fortes de sua campanha e estabelece, ainda, a criação de novos centros de detenção para migrantes não autorizados e a reativação de um programa para agilizar deportações. Em entrevista à emissora norte-americana ABC, Trump afirmou que o muro começará a ser erguido “em meses” e que seu planejamento se dará “imediatamente”. Na ocasião, ele também declarou que a medida – alvo de protestos dos americanos – será “boa para um México muito estável e muito sólido”.

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Belo Horizonte, 27 de janeiro a 2 de fevereiro de 2017

ENTREVISTA

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“Problemas do orçamento não vêm da previdência, vêm dos juros da dívida pública” RETROCESSOS Economista explica os mitos por trás do projeto de reforma da Previdência Rogério Hilário

Joana Tavares

O

primeiro mito que a economista, assessora sindical e pesquisadora na área de relações de trabalho e gênero da Unicamp Marilane Oliveira Teixeira desfaz é que a Previdência no Brasil é deficitária. Os juros da dívida pública, a sonegação e isenções fiscais consomem muito mais o orçamento do que a Previdência. Além disso, a proposta do governo Temer prejudicará sobretudo as mulheres, que já têm uma jornada de trabalho maior que a dos homens e podem vir a ganhar ainda menos. Brasil de Fato - Existe um discurso que tenta sustentar que a Previdência é deficitária e por isso seria preciso uma reforma. Por que, na sua avaliação, ela não é deficitária? Marilane Teixeira - Como aprovado pela Constituição de 1988, a Previdência faz parte do sistema de Seguridade Social, então ela não pode ser vista como se tivesse um orçamento próprio. O recurso desse sistema vem, em parte, da própria contribuição previdenciária, dos empregadores e dos trabalhadores. Outra parte vem das contribuições sociais, do lucro líquidos das empresas e do Cofins, que é uma con-

Uma parcela da sociedade se nega a pagar impostos, sonega, paga menos do que deveria pagar por lei”

tribuição financeira. Quando a gente pega esses recursos e compara com os gastos de seguridade social, é possível verificar que em todos os anos é superavitário, ou seja, o que se arrecada para sustentar o sistema é superior ao que se paga, com o pagamento da Previdência, com a assistência e a saúde. E no caso da Previdência rural? O déficit aparece quando se soma a previdência urbana com a rural. A Previdência rural arrecada em torno de R$ 5 bilhões por ano e gasta em torno de R$ 90 bilhões. Mas isso é uma decisão que foi tomada, na Constituição de 88, para ser possível financiar a Previdência rural. Essa estrutura foi montada para proteger minimamente o trabalhador e a trabalhadora rural, que produzem alimentos para o país e não têm jornada regular, além de começar a trabalhar mais cedo. A proposta passa a exigir que ele contribua mensalmente, individualmente – não mais a família – para a Previdência. Isso vai ter impacto forte sobre as mulheres, já que provavelmente a contribuição vai

se dar em nome do marido, porque a sociedade é sexista e patriarcal. Então ela vai ficar novamente desprotegida, mesmo tendo trabalhado a vida toda.

Mulheres trabalham em casa em média 21 horas por semana e os homens 10h” O que poderia ser feito para o país ter crescimento econômico com justiça social? O problema que vivemos no Brasil – e isso não é de agora, é herança de uma sociedade em que as elites sempre tentaram obter vantagens e privilégios sobre o Estado – é que uma parcela da sociedade se nega a pagar impostos, sonega, paga menos do que deveria pagar por lei. No caso da previdência isso é ainda mais aviltante. Existem inúmeras experiências de pessoas que recebem mais do que está registrado, o que é uma sonegação grave. Existe

muita informalidade, muita precariedade, situações em que não há proteção social ao trabalhador e não se arrecada para a Previdência. A gente precisa tomar consciência de que o problema está do lado da receita, da arrecadação. Segundo, é preciso ter instrumentos mais efetivos, para atuar de forma mais dura na fiscalização sobre as empresas que sonegam, que se recusam a registrar trabalhadores. O Ministério do Trabalho poderia atuar de forma muito mais eficiente. Outro problema é o exces-

A Previdência é superavitária, todos os anos arrecada mais do que se paga” so de isenções, de incentivos que o governo dá às empresas. Somadas as desonerações, os incentivos fiscais, a sonegação, a informalidade, já dá mais um orçamento da Previdência. A proposta de reforma da Previ-

dência penaliza o lado do trabalhador, reduzindo a possibilidade de ele se aposentar. Os problemas do orçamento não vêm da Previdência, vêm dos juros pagos pela dívida pública. Como essa proposta de reforma da Previdência vai afetar as mulheres? Há vários aspectos. O primeiro deles, aumentar o tempo de trabalho para poder aposentar, o que é absurdo, pois as mulheres trabalham em casa uma média de 21 horas por semana e os homens 10h. Além disso, o valor do benefício vai cair, dependendo do tempo de contribuição. Hoje se exigem 15 anos de contribuição porque se reconhece que há uma grande parte do trabalho sem registro. Querem passar para 25, de repente. As pessoas vão continuar com um período de contribuição menor e assim vão receber menos. Há ainda os aspectos relacionados à retirada de um dos dois benefícios, a aposentadoria ou pensão por morte. Isso vai afetar uma maioria absoluta de mulheres. Outro retrocesso é em relação ao Benefício de Prestação Continuada de Assistência Social, que beneficia pessoas que têm filhos com algum grau de deficiência que impede sua inserção no mercado do trabalho. Eles estão propondo rever o valor do benefício, desvinculando-o do salário mínimo e além disso rever o grau de deficiência. Isso significa que quem vai ter que continuar mantendo o cuidado serão as mulheres, já que não há compartilhamento dos afazeres domésticos.


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Belo Horizonte, 27 de janeiro a 2 de fevereiro de 2017

Amiga da Saúde

Nossos direitos Lista de material escolar Iniciado o ano letivo, é prática comum das escolas solicitarem aos responsáveis dos alunos lista de materiais escolares. Saiba seus direitos: No caso das escolas públicas é proibido cobrar os materiais, sendo possível a doação espontânea. Nos casos em que a escola exija a entrega de materiais para realizar a matrícula, ou constranja os alunos que não fizerem doações, cabe denunciar os responsáveis da escola. Nestes casos, estão sendo cometidas duas infra-

ções: crime de extorsão e improbidade administrativa. No caso das escolas particulares, só poderão ser requeridos, sem restrição de marca, materiais de uso individual e diário do aluno, como caderno, lápis, caneta, borracha, etc. Não podem ser incluídos na lista materiais de uso comum: materiais de escritório ou limpeza, brinquedos, jogos, papéis em geral, etc. A prática, além de abusiva, nos termos do Código de defesa do Consumidor, é proibida pela Lei 12.886/13.

Adília Sozzi é advogada da Rede Nacional de Advogados Populares – RENAP.

Uso anticoncepcional há quase 10 anos, mas há algum tempo sinto que isso tem afetado a minha libido. O meu marido reclama muito que a nossa vida sexual piorou. O que devo fazer? A pílula realmente afeta o desejo sexual?

Maria Aparecida, 40 anos, professora Olá, Maria! O anticoncepcional hormonal (pílula ou injetável) pode sim interferir no desejo sexual. Em geral, esses remédios podem reduzir os níveis de testosterona, que é um hormônio que contribui para aumentar o desejo sexual em homens e mulheres. Mas esse efeito nem sempre acontece. Talvez seja bom experimentar outro método e avaliar se mudará sua libido; um profis-

sional de saúde poderá lhe esclarecer melhor sobre outras possibilidades. Existem outros fatores que interferem na libido da mulher, como o estresse, a sobrecarga de trabalho, conflitos com o(a) parceiro(a), contenção do desejo sexual durante o crescimento, etc. Vale a pena verificar também essas questões, elas podem estar pesando mais do que a própria pílula.

Sofia Barbosa I Coren MG 159621-Enf. Aqui você pode perguntar o que quiser para a nossa Amiga da Saúde Mande sua dúvida: amigadasaude@brasildefato.com.br

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Belo Horizonte, 27 de janeiro a 2 de fevereiro de 2017

13 VARIEDADES 13 por Alan Tygel*

www.malvados.com.br

Dicas Mastigadas Pastinha de Manjericão

PALAVRAS CRUZADAS DIRETAS

www.coquetel.com.br Serviço que garante a frequência de voos entre dois Aprontar destinos (gír.) Uma das características da voz

© Revistas COQUETEL Causadores de amebíases e giardíases Desmoro- Precisos; nar; cair corretos

Os anos que ficaram conhecidos como d.C. Emilio Estevez, ator e cineasta dos EUA

Local do Neil beijinho de Armstrong e Yuri Valesca Popozuda Gagarin

Arrastar para si Na (?): às escondidas Indivíduos que são alvos da xenofobia

Formato da pista de atletismo

(?) vivo: em tempo real

"(?) Nova Direção", série brasileira de TV

(?) linguística: gíria, jargão ou dialeto

Consoante que marca o infinitivo (Gram.)

Ingredientes:

Dividir em duas partes iguais

• • • • • • •

Cômodo reduzido do conjugado Tarrafa O alimento empanado e frito (fr.)

Cidade mineira, grande polo moveleiro A verdade nua e (?): o fato, sem disfarce

Mulher pia (Rel.) Peça de bebês para evitar sujar a roupa Orgulho, em inglês

Pedido da plateia Recomeça o namoro Sudoeste (abrev.) Desfazer (os nós)

Modo de fazer

(?) Malfitano, ator mineiro Enfeite

Cozinhe as bananas com casca na panela de pressão por 10 minutos. Enquanto a panela esfria, bata no liquidificador os demais ingredientes, até que as folhas do manjericão estejam bem picadas. Adicione as bananas ainda quentes (se esfriarem totalmente ficam duras!) e bata até adquirir uma consistência de pasta. Se necessário, adicione mais azeite até atingir o ponto certo.

Bem-(?)-vi, ave de canto trissilábico

O vinho intermediário (fr.) Que foram tirados do sono

Titânio (símbolo) Hora canônica

(?) yet: ainda não, em inglês "Pardal", no trânsito Rato, em inglês Raça canina com Bandeiran- manchas te paulista pretas na conhecido pelagem

Líder espiritual equivalente ao pajé

(?) Paquin, atriz canadense de "Margaret" Saudação comum entre os jovens

Opção aos derivados de leite

como o Caçador de Esmeraldas

3/noa — not — rat. 4/anna — iran — rosé — xamã. 5/à doré — pride.

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Solução

R P

Seja por conta da intolerância à lactose, da decisão política de não consumir derivados de animais ou simplesmente para variar do queijo, essa pastinha é uma ótima opção para acompanhar o pão ou a tapioca. A massa de banana verde, também chamada de biomassa, pode ser usada como base de outras pastinhas ou mesmo de sopas. E vale lembrar: as receitas não ficam com gosto de banana!

D ES

* Alan Tygel é da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida

T

P O I M N B T R A O R E V B A O R R I D E A D R A D F E

S A T A R DE

S O B A N B

T E A R E O M N G E A L A U R T A A D O S O R O P E R R N X A L MA T N Ã O AS

D P E R E A P U XA R O I T A I R O S S S I T ED E C R U A R B IS I R A N TE S E T A DO S TI O T A N NA A O I D I A S

BANCO

1 maço de manjericão (só as folhas) 4 bananas nanicas bem verdes 4 dentes de alho 6 colheres de sopa de azeite 2 colheres de chá de sal Pimenta do reino 10 castanhas do Pará (opcional)

Participe enviando sugestões para receita@brasildefato.com.br.


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CULTURA

Belo Horizonte, 27 de janeiro a 2 de fevereiro de 2017

As marcas de Goma ARTE DE RUA Vítima da guerra ao pixo, o artista de BH foi preso duas vezes por crimes que alega não ter cometido Reprodução

Raíssa Lopes

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m cada canto da cidade ele deixou sua marca. Preso duas vezes por crimes que alega não ter cometido, um dos pixadores mais famosos de Minas Gerais enfrenta neste momento uma liberdade condicional e decidiu se aposentar. Perseguição da polícia, comoção popular, herói pra uns e bandido pra outros: a história de Goma rende. Foi preso pela primeira vez em 2010. No ano anterior, havia começado a se aventurar nos pixos de protestos e frases contra políticos e Polícia Militar, o que logo o fez virar alvo das autoridades. Quando um grupo do qual não fazia parte - os Piores de Belô - pixou o Pirulito da Praça Sete, a PM foi atrás dele. “Queriam que eu ajudasse a encontrar os caras e disseram que me envolveriam no caso se eu não falasse quem eram. Eu não falei”, conta. Goma ficou quatro meses na cadeia e saiu revoltado. Foi aí que decidiu pixar a cidade inteira. Comprou um mapa e cumpriu a promessa. Em 2016, quando a Igreja da Pampulha foi pixada por um jovem conhecido como Maru, que assumiu a autoria e disse ter feito o desenho sozinho, a polícia novamente procurou Goma como informante. Sem sucesso, o levaram para a delegacia. “Nessa época eu já tinha inaugurado a minha loja [a Real Grapixo, que vende roupas e acessórios para grafite]. Lá, eles viram que eu vendia umas blusas com a folha da maconha e ameaçaram me prender por apologia se eu não delatasse o Maru”, diz o pixador. Como nunca foi pego por uma pixação que ele de fato

renda vai para a Real Grapixo, que agora é o foco da arte de Goma. “Por conta do sofrimento da minha família, da minha mãe, eu parei de pixar”. O processo, que ainda está em andamento,

pode condená-lo a cumprir de cinco a seis anos em regime fechado. Agora ele quer marcar a mente das pessoas de forma diferente, lançando um livro com sua história e um documentário.

Visibilidade trans Fora do Eixo

houvesse feito, Goma acredita que tentaram pará-lo com a acusação de formação de quadrilha. “A polícia não conseguiria manter o Maru preso, só poderiam

Me acusam de crime ambiental, mas quem foi preso pelo crime de Mariana?”, questiona Goma processá-lo por dano ao patrimônio. Já com a formação de quadrilha, eles podiam deixá-lo na cadeia, levando ainda eu e o Frek [outro pixador conhecido]”, analisa. Goma ficou oito meses preso em cela comum, com mais 32 detentos. A polícia também confiscou os produtos da loja. Língua das ruas Ele alega nunca ter pixado qualquer bem tombado, mas crê que incomodou especialmente pelos dizeres que deixava nos muros. Em frente ao Fórum de BH, por exemplo, ele escreveu “a po-

lícia prendeu o pixador pé rapado e soltou o deputado”. Também já protestou a respeito da corrupção em frente à Polícia Federal. “É uma forma legítima de manifestação, muitas vezes não sobra outra pra nós, ninguém ouve. Me acusam de crime ambiental, mas quem foi preso pelo crime de Mariana?”, questiona. Na cadeia, Goma relata que viu presos por homicídio, roubo e outros tipos de delito graves saírem mais cedo do que ele. Conseguiu a condicional e está em prisão domiciliar, usando tornozeleira eletrônica. Ao mesmo tempo que via sua vida desmoronar, Goma tirou força do apoio do público. Uma série de protestos contra sua prisão foi organizada, e por meio da ajuda de amigos a loja voltou a funcionar. Ele recebeu cartas de fãs da Alemanha, Salvador, São Paulo e um vídeo com artistas de rua denunciando a seletividade da Justiça e punições desproporcionais aos pixadores também viralizou na internet. Em março deste ano, acontecerá uma festa - ainda sem data marcada - cuja

Para marcar o 29 de janeiro, Dia Nacional da Visibilidade de Travestis e Transexuais, entidades e organizações sociais promovem uma semana de atividades em Belo Horizonte. A programação, que vai até sexta (3), conta com intervenções artísticas, performances, rodas de conversa e exibição de filmes. No domingo (29), acontece a marcha “em luto pelo direito de viver”, a partir das 14h, na Praça Sete. A programação completa pode ser vista em https://goo.gl/vA3Ggh

Oficinas para valorizar a negritude

De 23 de janeiro a 18 de fevereiro, os Centros Culturais São Geraldo, Salgado Filho e Vila Embaúbas ofertarão duas oficinas para a valorização da cultura negra: de fotografia e turbante. O público poderá também assistir palestras a respeito dos temas “Ativismo sociocultural e emancipação do indivíduo” e “Diversidade cultural e empoderamento da minha história”. Organizadas pelo Coletivo Na Raça, todas as atividades são gratuitas, com vagas limitadas para as aulas e entrada liberada para as palestras. Mais informações no site: www.coletivonaraca.com.br.


Belo Horizonte, 27 de janeiro a 2 de fevereiro de 2017

ESPORTES

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Taça das Favelas reúne 32 comunidades no campo do Santa Lúcia FUTEBOL Torneio promove a solidariedade, protagonismo popular e participação feminina André Cavaleiro

Wallace Oliveira

O

futebol não é só um jogo. Em BH, um campeonato entre comunidades fez do esporte uma oportunidade de gerar protagonismo popular e solidariedade, mostrando que as favelas não são só aquilo que tradicionalmente se vê na TV. É a Taça das Favelas de Minas, projeto organizado pela Central Única das Favelas – Cufa, que se encontra em sua primeira edição no estado. “A Taça é uma oportunidade de fazermos nossas favelas se tornarem protagonistas. Reunimos a juventude de dezenas de comunidades em um só projeto de grande visibilidade, no qual o jovem passa a entender a luta pelo seu território e valorizar a localidade e os amigos com os quais se relaciona no cotidiano”, aponta Francislei Henrique, presidente nacional da Cufa. O foco do projeto não é o simples engajamento no futebol profissional, mas trabalhar o esporte como es-

tilo de vida e elemento de bem estar. “A partir daí outras coisas podem acontecer, mas essa não é a principal expectativa”, afirma. Além dos jogos, o projeto promove atividades de formação, com palestras, cursos, workshops e cadastros para primeiro emprego.

A Taça é uma oportunidade de fazermos nossas favelas se tornarem protagonistas”, afirma presidente da Cufa Jogos Vindos de 32 comunidades, no início de janeiro, cerca de 100 mil jovens passaram pela peneira. Desses, foram selecionados 12800. A competição começou no dia 21 e vai até 5 de fevereiro, com partidas no campo do Aglomerado Santa Lú-

cia, região Centro-Sul da capital. São oito seleções femininas, com jogadoras a partir dos 14 anos, e 24 masculinas, na faixa etária de 14 a 17 anos. Os primeiros confrontos ocorreram nos dias 21 e 22, com 16 partidas. Destaque para o atleta Lúcio Jr. de Jesus, do Complexo Tiradentes, que marcou três gols na vitória por 4 a 2 sobre o São Matheus. Os próximos jogos acontecem nos dias 28 e 29. Participação feminina A educadora física Nathália Adelaide Moreira é treinadora da seleção de mulheres do Complexo Minas Caixa, na região de Venda Nova. “A Taça das Favelas é importante para nós pela representatividade, por dar visibilidade ao futebol feminino, ajudando a atrair patrocínios e investimentos”, comenta. Ela chegou à equipe há mais de quatro anos. “Por conhecer a maioria das jovens, tive vontade de representar a comunidade. A grande mí-

dia às vezes só mostra o que há de ruim nas favelas, mas isso não é tudo”, destaca. Nathália sublinha as dificuldades que as mulheres encontram no meio futebolístico, como a falta de reconhecimento dos grandes clubes, o desrespeito e a desconfiança com relação a seu trabalho. “O futebol ainda é um esporte muito masculinizado. Tem gente que acha que mulher não sabe de nada”, critica. Histórico A Taça das Favelas começou em 2012, no Rio de Janeiro, onde já se realiza a

6ª edição do torneio. De lá surgiram alguns atletas que estão inseridos no futebol profissional, como o lateral direito Erick Brendon, do América-RJ, e o volante Matheus Norton, do Fluminense. Hoje, a competição é internacionalmente conhecida e tem o apoio de grandes nomes do futebol, como Zico e Bebeto, e de outras áreas, como o rapper MV Bill, que participou da abertura dos jogos em Minas. Saiba mais em: tacadasfavelasminas.com.br.

Curta e Grossa

Esporte de homens brancos?

Gilvan de Souza /Flamengo

Fernanda Costa Na última semana, o racismo novamente ganhou as manchetes da imprensa internacional. No Campeonato Francês, o italiano Mario Balotelli, do Nice, ouviu xingamentos racistas da torcida adversária. Fifa, Uefa e Federação Francesa ainda não se pronunciaram sobre o caso. Na Florida Cup, foi a vez de um torcedor do River Plate manifestar seu preconceito criminoso contra os vascaínos. Grande parte dos times brasileiros defenderam o Vasco nas redes sociais. Essas manchetes não são exceção e coincidem com a exposição de relatórios brasileiros que trazem à tona a exclusão de mulheres e negros em cargos de liderança. Entre os clubes da primeira divisão, apenas cinco mulheres ocupam posições de liderança. Em 2016, pela primeira vez, a Seleção Feminina passou a ser comandada por uma mulher, Emily Lima. Em 2016, dos 40 clubes das séries A e B, apenas quatro técnicos eram negros.


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Belo Horizonte, 27 de janeiro a 2 de feveriro de 2017

Clubes sem time feminino não vão jogar Libertadores

ESPORTES

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DECLARAÇÃO DA SEMANA Divulgação Nice

Lucas Figueiredo / CBF

A

CBF apresentou, na quinta (26), as regras para clubes que quiserem participar de competições da entidade, da Conmebol e da Fifa. Os clubes brasileiros têm até 2019 para garantir equipes femininas disputando competições nacionais, cumprindo uma exigência da Conmebol. Quem não cum-

prir a regra ficará impedido de participar da Copa Libertadores com o masculino. Atualmente, apenas 7 dos 20 clubes da série A têm times femininos: Corinthians, Flamengo, Grêmio, Ponte Preta, Santos, Sport, Vasco e Vitória. Em BH, só o América tem time feminino profissional.

Eu tenho uma pergunta aos franceses. O racismo é legal na França ou somente em Bastia?” Mario Balotelli, jogador do Nice, ironizando os insultos racistas proferidos contra ele por torcedores do Bastia, em partida da liga francesa.

Gol de placa O América lançou a “Campanha de Popularização do Futebol”. Nela, os ingressos para sete partidas do Coelho no Independência custarão R$ 5. Todos esses jogos são da primeira fase do Campeonato Mineiro e da Primeira Liga. Se a moda pega, hein?! Abaixo a elitização do futebol!

Gol contra Tá difícil ser técnico de futebol do Palermo, da Itália. O clube teve oito treinadores na temporada 2015/2016 e, na atual, já caminha para seu quarto “professor”, pois o último, Eugenio Corini, se demitiu: “Não tive nada do que pedi”, reclamou. Alguma semelhança com o Brasil?

Decacampeão

É Galo doido

La Bestia Negra

Bráulio Siffert

Rogério Hilário

Nádia Daian

A CBF adotou critérios injustificáveis na escolha de 6 dos 16 times que disputarão a primeira divisão do Campeonato Brasileiro Feminino de 2017. Para se juntar às oito primeiras do ranking e às atuais campeãs do Brasileiro e da Copa do Brasil, a CBF Decacampeão deveria ter escolhido as próximas colocadas no ranking, mas resolveu tomar como base a classificação da Série A masculina de 2016, caminhando na contramão da luta das mulheres por autonomia e igualdade. Com essa decisão, o América e outros clubes que estão investindo no feminino há alguns anos foram preteridos por times sem qualquer incentivo às mulheres, mas que ficaram à frente no masculino, como Ponte Preta e Grêmio.

O volante Elias está próximo, mas especulações também colocam em pauta o retorno de Tardelli, desligado do Shandong Luneng. Sonhar não custa nada. O técnico Roger Machado vem testando e elogiando Yago, improvisando Luan. AinÉ Galo doido! da mais depois de nova lesão de Lucas Cândido no joelho. Além disso, o tal Roger Bernardo, do time impronunciável, é esperado para junho. No fim das contas, a estreia no Campeonato Mineiro acontece sábado, às 17 horas, no Horto, contra o América de Teófilo Otoni. Paciência e confiança são fundamentais na longuíssima temporada, com perspectivas boas e possibilidades de frustrações. A partida servirá como aperitivo para as próximas batalhas do Galo.

Falta pouco para que se inicie a temporada 2017 e a expectativa dos torcedores cruzeirenses é de um grande ano. A chegada de Thiago Neves, a manutenção da base do time e do treinador, além das goleadas nos jogos-treino, têm feito o cruLa Bestia zeirense sonhar. DepoisNegra de duas temporadas pífias, parece que a diretoria aprendeu com erros. Os reforços foram pontuais, em posições carentes no elenco. Todo torcedor ainda citaria duas ou três posições em que contratariam outros reforços, mas, para o começo da temporada, acho que o Cruzeiro está bem servido. Que, neste ano, a sinergia entre time e torcida renasça e que possamos construir novas páginas heroicas e imortais.