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06 | mobilizações

julho de 2013

Periferia ainda não conheceu a bala de borracha

Mariana Martins/Folhapress

VIOLÊNCIA DA PM O Estado invade com armas comunidades que carecem de saúde, educação e saneamento básico Jorge Américo de São Paulo (SP) Durante as manifestações pela redução das tarifas, uma declaração do poeta Sérgio Vaz, fundador da Cooperifa, ganhou destaque na imprensa alternativa. Ele defendia maior organização dos coletivos culturais frente ao momento político vivido pelo país. “Nós sabemos que quando o bicho pega, sempre sobra primeiro para a periferia. E o que sobra aqui para nós não é bala de borracha”, alertou o poeta. Dados da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR) confirmam a denúncia. Entre janeiro de 2010 e junho de 2012, 2.882 pessoas foram mortas em supostos confrontos com policiais em quatro estados brasileiros: Santa Catarina (137), Mato Grosso do Sul (57), Rio de Janeiro (1590) e São Paulo (1098).

“Nós vivemos num suposto país democrático” “Nós vivemos num suposto país democrático, mas temos essa truculência numa instituição policial, onde pagamos o seu salário e pagamos a bala que mata os nossos filhos e não recebemos a resposta de uma segurança pública comunitária e preventiva”, desabafa Débora Maria, coordenadora do movimento Mães de Maio, que organiza familiares de jovens mortos por policiais.

Segundo a Anistia Internacional, em 2011, o número de mortes por autos de resistência apenas no Rio de Janeiro e em São Paulo foi 42,16% maior do que todas as penas de morte executadas – após o devido processo legal – em 20 países.

“O registro mental que tenho desde quando me entendo por gente é do corpo negro brutalizado nas favelas, nas prisões, no ‘Caveirão’” Violência Apoiada pelos principais jornais e emissoras de televisão do país, a Polícia Militar de São Paulo usou de extrema violência para impedir que a manifestação do dia 13 de junho chegasse à Avenida Paulista. O balanço daquela ação foi estampado em jornais do mundo inteiro no dia seguinte. Foram dezenas de prisões e uma multidão de feridos com tiros de borracha e golpes de cassetete. Todos envolvidos em uma imensa nuvem de gás lacrimogêneo. Nem mesmo os jornalistas escaparam das agressões, o que provocou maior comoção entre os colegas de imprensa. O antropólogo Jaime Amparo Alves não se surpreendeu com imagens que viu na televisão. “De repente o país descobriu a existência de

Polícia Militar realiza operação em favela: truculência incompatível com um país democrático

uma polícia violenta, covarde, incompatível com o Estado democrático de direitos”, analisa. Alves, que cresceu em bairros periféricos, afirma que a truculência desmedida remete a sua infância. “O registro mental que tenho desde quando me entendo por gente é do corpo negro brutalizado nas favelas, nas prisões, no ‘Caveirão’”. Michele Silva, moradora da Rocinha, maior favela do país, conhece bem a postura de uma polícia que a ainda não aprendeu a se relacionar com as comunidades de baixa renda. A Rocinha é uma das favelas onde foram instaladas as chamadas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). “O defeito das UPPs é o Estado vir com as armas e não trazer o que as pessoas precisam. São carências de todos os tipos, saúde, educação e outras necessidades básicas”, reflete Michele.

Entidades cobram desmilitarização Estudo revela que negro com idade entre 15 e 24 anos corre risco 127% maior de ser assassinado do que um branco da mesma faixa etária de São Paulo (SP) Débora Maria, do movimento Mães de Maio, lembra que bastou os policiais de São Paulo serem impedidos de socorrer feridos em supostos confrontos para que ocorresse uma queda impressionante no número de mortos. De janeiro a maio de 2013, o índice de suspeitos que chegaram a óbito caiu 40%. A resolução foi publicada pela Secretaria de Segurança Pública no início do ano. Na ocasião, também foi proibido o re-

“De janeiro a maio de 2013, o índice de suspeitos que chegaram a óbito caiu 40%”

gistro dos “autos de resistência” ou “resistência seguida de morte”. A decisão é uma reivindicação antiga das Mães de Maio e do Comitê Contra o Genocídio da Juventude Negra e Periféri-

ca. Débora destaca que os coletivos interpretavam o antigo procedimento como “licença para matar”. Por sinal, o Mapa da Violência de 2012 revela que um negro com idade entre 15 e 24 anos corre risco 127% maior de ser assassinado do que um branco da mesma faixa etária. A desmilitarização das polícias no Brasil, defendida pelos movimentos sociais, já foi recomendada por diversas organizações internacionais. Todas as sugestões foram ignoradas. (JA)

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