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Reprodução

Revoluções no mundo árabe

O acontecimento do século Pág. 9

Uma visão popular do Brasil e do mundo

Circulação Nacional Ano 9 • Número 417

R$ 2,80

São Paulo, de 24 de fevereiro a 2 de março de 2011

www.brasildefato.com.br

McDonald’s

Maus tratos e superexploração Além de sofrerem com baixíssimos salários, de R$ 2,37 a hora, e assédio moral, os trabalhadores do McDonald’s do Brasil enfrentam uma série de violações dos direitos trabalhistas. Diversas denúncias reunidas pelo sindicato da categoria viraram um processo do Ministério Público do Trabalho, que, em outubro de 2010, firmou um acordo com a rede de fast food. Como punição, o McDonald’s terá que destinar R$ 11,7 milhões para publicidade contra o trabalho infantil. Págs. 4 e 5

Salário mínimo

A opção de Dilma pelo mercado Pág. 7 Entrevista Pat Mooney

Tecnologias para o controle da vida

ISSN 1978-5134

Págs. 10 e 11 Alipio Freire

Altamiro Borges

Fidel Castro

Os mistérios da Cultura

Mídia perde para MST

Otan quer ocupar a Líbia

Os equívocos do Ministério da Cultura em relação ao Creative Commons e aos direitos autorais pode ser resolvido através de um encontro com os setores pertinentes da sociedade civil. Pág. 3

Capa dos jornalões durante meses e assunto predileto dos “calunistas” da televisão, a CPMI do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, instrumento dos latifundiários, foi encerrada. Pág. 3

O petróleo se converteu na principal riqueza em mãos das transnacionais ianques; com essa fonte, dispuseram de um instrumento que aumentou consideravelmente seu poder político no mundo. Pág. 2


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de 24 de fevereiro a 2 de março de 2011

editorial

A voz das ruas árabes A REVOLTA ÁRABE, iniciada em dezembro de 2010, que se alastra por todo o Oriente Médio, com uma população superior a 300 milhões de pessoas, contrariando a expectativas dos ditadores e monarcas da região e dos interesses do capital mundial, não demonstram sinais de recuo e muito menos de perder forças. Quando, na Tunísia, em 17 de dezembro, o jovem comerciante, Mohamed Bouazizi, colocou fogo em si mesmo como ato de desespero depois de ter suas mercadorias apreendidas pela polícia, não imaginou que estaria desencadeando uma onda de revoltas que ameaça as ditaduras da região e motiva o povo a vencer o medo e sair às ruas para exigir reformas democráticas. À expectativa de qual o próximo desposta a deixar o cargo junta-se o exercício de prognosticar se alguma delas se salvará dessa onda de aspirações democráticas. Ainda é incerta a abrangência e profundidade que alcançarão as reformas exigidas hoje nas ruas dos países daquela região. O poderio repressivo de qualquer ditadura não pode ser menosprezado jamais. A capacidade das forças que sustentam e se beneficiam dos governos déspotas de se recompor, mesmo trocando o mandatário,

opinião

também contribuem para a incerteza dos rumos que tomarão as reformas hoje vislumbradas. Nem mesmo os processos históricos de transformações políticas e sociais têm uma trajetória linearmente crescente. Há recuos e possibilidades novas que se impõe independentes da vontade e das necessidades dos protagonistas destas transformações. No entanto, essas incertezas não podem esmaecer a importância e o significado político destas revoltas populares. Para exemplificar, nos bastam as palavras do filósofo Sami Naïr: “as pessoas se deram conta de que quem tinha medo era o poder. Agora são os ditadores que devem temer os povos”. As revoltas populares fortalecem a confiança e aumentam a autoestima do povo, politizam as pessoas e põem as lutas em movimento. Mas Naïr vai além ao vislumbrar, nessas revoltas populares, um movimento que destrói a ideia de que as sociedades árabes estão fadadas à apenas duas alternativas: viver com perigo extremista e fundamentalista ou com as ditaduras. As revoltas nas ruas almejam conquistas democráticas. Os jovens, juntamente com as mulheres ocupam um lugar destacado em todas essas mobilizações

As revoltas populares fortalecem a confiança e aumentam a autoestima do povo, politizam as pessoas e põem as lutas em movimento

populares, na Tunísia, no Egito, no Iêmen; foram às ruas contra a austeridade e as políticas neoliberais implantadas em seus países nas últimas décadas. Mesmo os argelinos, primeiro foram às ruas, em janeiro, para protestar contra o aumento dos preços dos alimentos. Estão, agora, mobilizados e em luta por reformas democráticas, exigindo o fim do Estado de emergên-

crônica

Fidel Castro

Os beneficiários desse processo têm sido a família real e seus comparsas. O povo, de maioria xiita, está furioso porque quase toda sua riqueza não tem destinação social. Além desse tripé formado pela pilhagem do petróleo, concentração da riqueza e governos ditatoriais, não hesitaram em relegar a região à maldição do petróleo: acostumados com essa riqueza natural, não promoveram a diversificação da economia e nem o seu uso para o desenvolvimento social do seu povo. Nessas condições de desenvolvimento econômico e social, a existência das ditaduras na região aliviam os países ricos de um dos seus principais medos da atualidade: impedir que ondas migratórias invadam o ocidente, principalmente a Europa. Nenhum desses ditadores teria se sustentando no poder sem o apoio político, militar e financeiro do capitalismo internacional. Os árabes buscam, com as revoltas populares de agora, comandar a si mesmos, rompendo com governos autoritários e monarcas, entronizados em longevas ditaduras. Sem esquecer que esses ditadores são sustentados por governos, mercados de ações e capital externo. Como não apoiar e, sobretudo, olhar com esperanças essas lutas?

Luiz Ricardo Leitão

Os “paladinos” da democracia

O plano da OTAN é ocupar a Líbia O PETRÓLEO SE tornou a riqueza principal nas mãos das grandes transnacionais ianques. Através desta fonte de energia, dispuseram de um instrumento que acrescentou consideravelmente seu poder político no mundo. Foi sua principal arma quando decidiram liquidar facilmente a Revolução Cubana logo que foram promulgadas as primeiras leis justas e soberanas em nossa Pátria: privá-la de petróleo. Sobre essa fonte de energia se desenvolveu a civilização atual. A Venezuela foi a nação deste hemisfério que maior preço pagou. Os Estados Unidos se tornaram donos das enormes jazidas com que a natureza dotou a esse país irmão. Ao se concluir a última Guerra Mundial, começou a extrair das jazidas do Irã, bem como das da Arábia Saudita, do Iraque e dos países árabes situados ao redor deles, maiores quantidades de petróleo. Eles passaram a ser os principais fornecedores. O consumo mundial se elevou progressivamente à fabulosa cifra de aproximadamente 80 milhões de barris diários, incluídos os que são extraídos no território dos EUA, aos que ulteriormente se adicionaram o gás, a energia hidráulica e a nuclear. Até inícios do século 20, o carvão tinha sido a fonte fundamental de energia que fez possível o desenvolvimento industrial, antes que fossem produzidos milhares de milhões de automóveis e motores consumidores de combustível líquido. A dilapidação do petróleo e do gás está ligada a uma das maiores tragédias, não resolvida em absoluto, que sofre a humanidade: a mudança climática. Quando nossa Revolução surgiu, a Argélia, a Líbia e o Egito não eram ainda produtores de petróleo, e grande parte das quantiosas reservas da Arábia Saudita, do Iraque, do Irã e dos Emirados Árabes Unidos estavam por ser descobertas. Em dezembro de 1951, a Líbia se transformou no primeiro país africano a atingir sua independência após a Segunda Guerra Mundial, em que seu território foi cenário de importantes combates entre tropas alemãs e do Reino Unido, que de-

cia, existente desde 1992, que proíbe manifestações públicas no país. O mesmo ocorreu na Jordânia, onde o estopim das revoltas foram o aumento dos preços dos alimentos e da energia, que obrigaram o rei a dissolver o governo. Mantem-se, agora, as mobilizações por reformas políticas e democráticas. Se os povos árabes estão fazendo um acerto de contas com seus governos, não é menos verdade que estão também fazendo sentar no banco dos réus os governos dos países centrais do capitalismo, as instituições internacionais do sistema capitalista e as grande corporações empresariais que sempre sustentaram as ditaduras no Oriente Médio. Esse conluio do capitalismo internacional com as ditaduras nos países da região assegurou a pilhagem do petróleo, fortunas para os ditadores (guardadas nos bancos dos países ricos do ocidente) e uma burguesia abastada, com fortunas e “com mais investimentos em Londres do que em Alexandria”, como afirma o historiador Prashad. O mesmo ocorreu em Bahrein, com as mobilizações no início de fevereiro, exigindo uma Constituição escrita pelo povo. Para Prashad, o país depende do seu petróleo e o seu dinheiro é canalizado para a especulação imobiliária – o modelo Dubai.

Uma pessoa honesta estará sempre contra qualquer injustiça que se cometa com qualquer povo do mundo ram fama aos generais Erwin Rommel e Bernard L. Montgomery. De seu território, 95% é totalmente desértico. A tecnologia permitiu descobrir importantes jazigos de petróleo ligeiro de excelente qualidade que hoje alcançam um milhão 800 mil barris diários, e abundantes depósitos de gás natural. Tal riqueza lhe permitiu atingir uma perspectiva de vida que alcança quase os 75 anos, e a mais alta renda per capita da África. Seu rigoroso deserto está localizado sobre um enorme lago de água fóssil, equivalente a mais de três vezes a superfície de Cuba, o que tornou possível a construção de uma ampla rede de condutores de água doce que se estende por todo o país. A Líbia, que tinha um milhão de habitantes quando atingiu sua independência, tem hoje algo mais de seis milhões. A Revolução na Líbia aconteceu em setembro de 1969. Seu principal dirigente foi Muammar al-Gaddafi, militar de origem beduína, que em sua juventude mais precoce se inspirou nas ideias do líder egípcio Gamal Abdel Nasser. Sem dúvidas que muitas de suas decisões estão ligadas às mudanças que se originaram quando, tal como no Egito, uma monarquia fraca e corrupta foi derrocada na Líbia. Os habitantes deste país têm milenárias tradições guerreiras. Há quem diga que os antigos líbios fizeram parte do exército de Aníbal

quando esteve a ponto de liquidar a Antiga Roma com a força que cruzou os Alpes. Poder-se-á ou não concordar com o Gaddafi. O mundo tem sido invadido com todo o tipo de notícias, empregando especialmente os meios maciços de informação. Haverá que esperar o tempo necessário para conhecer com rigor quanto tem de verdade ou de mentira, ou uma mistura de fatos de todo o tipo que, no meio do caos, aconteceram na Líbia. O que para mim resulta absolutamente evidente é que ao governo dos Estados Unidos não lhe preocupa em absoluto a paz na Líbia, e não hesitará em dar à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) a ordem de invadir esse rico país, talvez em questão de horas ou em muito breves dias. Os que com pérfidas intenções inventaram a mentira de que Gaddafi se encaminhava para a Venezuela, igual que o fizeram na tarde do dia 20 de fevereiro, receberam uma digna resposta do Ministro de Relações Exteriores da Venezuela, Nicolás Maduro, quando expressou textualmente que fazia “votos para que o povo líbio encontre, no exercício de sua soberania, uma solução pacífica a suas dificuldades, que preserve a integridade do povo e da nação Líbia, sem a ingerência do imperialismo...” Por minha parte, não imagino o dirigente líbio abandonando o país, eludindo as responsabilidades que lhe são imputadas, sejam ou não falsas em parte ou em sua totalidade. Uma pessoa honesta estará sempre contra qualquer injustiça que se cometa com qualquer povo do mundo, e a pior delas, neste instante, seria guardar silêncio perante o crime que a Otan se prepara para cometer contra o povo líbio. À chefia dessa organização belicista lhe urge fazê-lo. É preciso denunciá-lo! Fidel Castro é líder da Revolução cubana e ex-presidente de Cuba.

O DESCONFORTO de Washington, diante dos rumos inesperados que a onda de rebeliões no mundo árabe poderá assumir, tem suscitado curiosos malabarismos políticos e retóricos de parte da Casa Branca e da mídia imperial. Afim de atenuar a má impressão que o bom mulato Obama provocou por conta de sua tímida e tardia reação ao movimento deflagrado pelos egípcios contra o regime de Mubarak (velho serviçal da política de Tio Sam e de Israel no Oriente Médio), os assessores palacianos despejam seus factoides na imprensa “livre”, com uma desfaçatez de dar inveja aos jornalistas de Bruzundanga. O New York Times, por exemplo, evocou até a “agenda da liberdade” (!) que George W. Bush teria adotado como objetivo básico da política externa ianque, depois que a invasão do Iraque não pôde comprovar a suposta existência de “armas de destruição em massa” naquele país, conforme afirmaram a CIA e outros serviços de inteligência (?) estadunidenses. Essa seria a melhor forma de conferir um signo positivo à famigerada “guerra ao terror”, cujo fiasco retumbante o próprio Pentágono não logra disfarçar. “Pôr fim à tirania em nosso mundo” era o mote central do segundo discurso de posse de Bush e, por isso, Obama teria evitado o tema, para não ser associado a episódios tão controversos e delicados. Como, porém, ninguém sabe o fim exato desse tsunami, já é hora de retomar o mantra da “promoção da democracia”, de preferência sob o duradouro molde de Thomas Jefferson, e, de quebra, vender a ideia de que o bom mulato não se omitiu no processo árabe, posicionando-se sem nenhuma hesitação no “lado certo da história”... Os paladinos da democracia representativa burguesa, temerosos de que o movimento popular resolva seguir por vias ainda mais radicais do que as já trilhadas, tratam de recomendar aos insurgentes que, após o êxito na luta contra o velho tirano, saiam das ruas e voltem ordeiramente à rotina de fome e exploração que o capital sempre lhes impôs. Esse pânico não é de hoje: o carrossel da história nos conta que o caminho para a resolução do desafio moderno em prol de liberdade/igualdade/ fraternidade já se apresentara sob ao menos duas alternativas desde os turbulentos dias da Revolução Francesa.

As variantes do padrão dito “ocidental” de democracia representativa vivem hoje uma crise sem precedentes na história De fato, o projeto da ascendente burguesia de então, delineado pelos cérebros do Iluminismo francês, pressupõe sempre a tutela das maiorias pelas elites ilustradas, ao passo que os defensores da legítima democracia de massas (desde Rousseau e os jacobinos até Marx e Lênin) declaram que, se esta não é direta nem participativa, jamais poderá ser considerada democrática. A valorosa experiência da Comuna de Paris e a decisiva interferência dos sovietes no processo revolucionário da Rússia em 1917 são exemplos emblemáticos dessa via. As variantes do padrão dito “ocidental” de democracia representativa vivem hoje uma crise sem precedentes na história. Não é possível, por certo, qualificar de “democrático” o sistema político italiano, em que o sátiro Berlusconi, “eleito” por apenas 30% da população e há muito contestado por distintos setores sociais, se mantém no poder à mercê do seu controle da mídia e das inúmeras maracutaias que concertou com os podres poderes nacionais. Será que poderíamos imaginar o bom mulato Obama concentrando suas baterias “democráticas” sobre o insaciável capo da Bota? A questão árabe, portanto, ainda será objeto de acirrado debate político e ideológico no seio do movimento social. Para atinar com o futuro, só mesmo parafraseando o clássico samba-enredo da União da Ilha: “O que será o amanhã? Responda quem puder... O que irá nos acontecer? Nosso destino será o que o povo quiser...” Oxalá as forças populares no mundo árabe superem a fórmula italiana que Giuseppe di Lampedusa enunciou no romance O leopardo e consigam mudar para não deixar tudo como está... Luiz Ricardo Leitão é escritor e professor adjunto da UERJ. Doutor em Estudos Literários pela Universidade de La Habana, é autor de Noel Rosa – Poeta da Vila, Cronista do Brasil e Lima Barreto: o rebelde imprescindível.

Editor-chefe: Nilton Viana • Editores: Cristiano Navarro, Igor Ojeda, Luís Brasilino • Repórteres: Beto Almeida, Claudia Jardim, Dafne Melo, Daniel Cassol, Eduardo Sales de Lima, Leandro Uchoas, Mayrá Lima, Patricia Benvenuti, Pedro Carrano, Renato Godoy de Toledo, Vinicius Mansur • Assistente de Redação: Michelle Amaral • Fotógrafos: Carlos Ruggi, Douglas Mansur, Flávio Cannalonga (in memoriam), João R. Ripper, João Zinclar, Joka Madruga, Leonardo Melgarejo, Maurício Scerni • Ilustradores: Aldo Gama, Latuff, Márcio Baraldi, Maringoni • Editora de Arte – Pré-Impressão: Helena Sant’Ana • Revisão: Edilson Dias Moura• Jornalista responsável: Nilton Viana – Mtb 28.466 • Administração: Valdinei Arthur Siqueira • Programação: Equipe de sistemas • Assinaturas: Francisco Szermeta • Endereço: Al. Eduardo Prado, 676 – Campos Elíseos – CEP 01218-010 – Tel. (11) 2131-0800/ Fax: (11) 3666-0753 – São Paulo/SP – redacao@brasildefato.com.br • Gráfica: FolhaGráfica • Conselho Editorial: Alipio Freire, Altamiro Borges, Anselmo E. Ruoso Jr., Aurelio Fernandes, Delci Maria Franzen, Dora Martins, Frederico Santana Rick, José Antônio Moroni, Hamilton Octavio de Souza, Igor Fuser, Ivan Pinheiro, Ivo Lesbaupin, Luiz Dallacosta, Marcela Dias Moreira, Maria Luísa Mendonça, Mario Augusto Jakobskind, Nalu Faria, Neuri Rosseto, Otávio Gadiani Ferrarini, Pedro Ivo Batista, René Vicente dos Santos, Ricardo Gebrim, Sávio Bones, Vito Giannotti • Assinaturas: (11) 2131– 0800 ou assinaturas@brasildefato.com.br • Para anunciar: (11) 2131-0800


de 24 de fevereiro a 2 de março de 2011

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Leandro Konder

instantâneo AlexandreTeles

O pão e o divertimento NINGUÉM FAZ POLÍTICA sozinho. Os sujeitos que decidem intervir na história sabem que o impulso histórico de mudar o mundo depende de muita luta de sofrido processo de desenvolvimento, de análises e intuições e também de convicções. Mesmo os antigos ditadores que marcaram a época no início do século 20 – tipo Hitler ou Mussolini – cultivavam o apoio das mesmas massas que eles tratavam com aspereza retórica e reprimiam, enchendo as cadeias de seus países. Mais modernamente, esses ditadores e seus assessores têm diminuído o recurso à brutalidade assumida e oferecem a seus seguidores discursos mais sofisticados, flertando com o liberalismo. Agora mesmo nossos jornais estão cheios de notícias que se constroem em torno de uma aguda percepção de que os ideais políticos libertários podem ser proclamados sem que sejam realizados. Quando vemos recentemente no norte da África manifestações da profunda mistificação efetivada por diversos Estados, podemos sempre nos apoiar em uma metodologia não corrompida e enxergar a mentira com que o Ocidente saudava o discurso liberal e reprimia a esquerda nesses países. Mubarak e seus congêneres não se tornaram antidemocratas de uma hora para outra. Há muitos anos eles já eram de direita. É constrangedor para nós a imagem de um movimento social de inspiração mulçumana e cristã e notar que a amplitude dessa mobilização não corresponde às verdadeiras lideranças, capazes de encaminhar choques e definir os limites dos acordos.

Alipio Freire

Os mistérios da Cultura NÃO CONHEÇO a ministra da Cultura, senhora Ana de Hollanda. Apenas a vi (à distância) na homenagem ao centenário de Lélia Abramo (7-2- 2011), no Teatro de Arena de São Paulo. Não sei que forças do PT a ministra representa – embora sua trajetória via Osasco e sua articulação com o hoje presidente da Fundação Nacional de Artes, Antonio Grassi – me ofereçam indícios. No entanto, apesar de concordar que se trata de um equívoco as posições assumidas com relação ao Creative Commons e itens relacionados às máfias do direito autoral, entendo que essa questão pode ser resolvida (e até revertida) através de um encontro com os setores pertinentes da sociedade civil. A ministra deveria tomar essa iniciativa, e/ou os movimentos e organizações interessados no assunto devem pressionar nessa direção. Todos sairiam fortalecidos, sobretudo o governo da presidenta Dilma Rousseff. Fora isto, continuará uma briga de aparelho, onde várias pessoas sérias (bem como movimentos e organizações do setor) seguirão sendo manipuladas pela velha “máfia do dendê” (como baiano, fico mais que

tranquilo em usar essa expressão). O fato é que, mês e meio de governo e o motivo da divergência não são suficientes para se dizer da viabilidade ou não de um ministro – no caso uma ministra –; e o levante (começado desde janeiro) mais cheira a uma disputa orquestrada por forças afastadas desse nicho de poder do que uma questão de princípios feridos. Por sinal, essa possibilidade de manobra mesquinha e aparelhista de alguns capi resulta exatamente de uma campanha presidencial que não apresentou um claro programa político mais geral (e, menos ainda, programas e prioridades setoriais), e onde o marketing (com seus apelos que tangenciam a subliminaridade) substituiu o debate.

O compromisso democrático vincula o projeto de uma nova sociedade tanto à criação de novas bases sociais como à defesa das liberdades

Em tempo

Apenas um registro: por mais que discordemos da atitude tomada pela ministra Ana de Hollanda, certamente isto nada representa, se compararmos ao descabimento e descalabro da representante do ministro Juca Ferreira em São Paulo, durante toda sua gestão. Nem por isto, a cabeça do ministro foi pedida.

Altamiro Borges

Enterro da CPMI do MST A REPÓRTER BRASIL informou na semana passada que foi encerrada oficialmente a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). “A instância criada pelos ruralistas para vasculhar as contas do movimento foi coberta com uma pá de cal no último dia 31 de janeiro, sem que o relatório final fosse submetido à votação dos membros da comissão”. Durante meses, a finada CPMI foi capa dos jornalões e assunto predileto dos “calunistas” da televisão. A revista Veja produziu várias “reporcagens” para atacar os movimentos de luta pela reforma agrária. Editoriais foram fartamente usados para atingir caluniosamente o MST por “desvio de recursos públicos”. Agora, a mesma mídia venal deixa de destacar o enterro formal da CPMI – o que confirma que ela é um instrumento dos latifundiários. O que era manchete virou notinha de roda-pé ou simplesmente foi omitido no noticiário. Josias de Souza, Boris Casoy, Willian Waack e outros inimigos da reforma agrária

fazem um silêncio cúmplice – lembram os jagunços do latifúndio. O requerimento que criou a chamada “CPMI do MST” foi apresentado pelo deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS) em 21 de outubro de 2009. Seu intento explícito era o de criminalizar a luta pela reforma agrária. Ao longo das 13 reuniões oficiais, foram ouvidas dezenas de pessoas – de integrantes de entidades e associações que desenvolvem atividades no meio rural a membros das mais diversas pastas do Executivo federal, passando por especialistas na questão agrária. Em julho passado, o deputado federal Jilmar Tatto (PT-SP) apresentou seu relatório final, no qual frisava a “inexistência de qualquer irregularidade no fato de as entidades manterem relações e atenderem público vinculado a movimentos sociais”. Mas os propositores da CPMI pressionaram com a ameaça de um voto em separado e conseguiram forçar a sua prorrogação por mais seis meses. O prazo da prorrogação chegou ao fim, no final de janeiro, sem que nada mais fosse votado ou discutido.

Os antigos romanos influenciaram muita gente com ideias pragmáticas e truculentas, que convenciam as pessoas de que os movimentos sociais derivavam das necessidades econômicas e do vazio político. Se essa ideia fosse correta, a massa trabalhadora, ao sair de casa para enfrentar a dureza do trabalho, ilustraria o pensamento conservador e as imagens que ele difundia: a maneira de aquietar a multidão seria dada por duas esmolas típicas do império romano, isto é, panis et circenses (comida e divertimento). Um senador romano tradicional acrescentou a essa expressão cínica uma observação sarcástica: “se a situação for perigosa para nossas conveniências políticas, podemos reduzir o panis e eliminar o circenses. Na época atual, a política se tornou um território delicado. Seus teóricos ensinam que debates e controvérsias devem ser evitados quando questionam valores que estão, por assim dizer, no núcleo da democracia. O resultado desse movimento é a proliferação de questões teóricas pouco importantes e o quase abandono das questões cruciais da história dos ideais democráticos. Na democracia, aparece com nitidez a chamada questão social. O compromisso democrático vincula o projeto de uma nova sociedade tanto à criação de novas bases sociais como à defesa das liberdades. A democracia, como sabemos, se baseia em um movimento teórico e prático que repele o programa político liberal, a partir do momento em que o liberalismo se mostra insensível às frustrações da classe trabalhadora. Nas circunstâncias atuais, para o bem ou para o mal, a derrota histórica do socialismo trouxe como consequência a exclusão da sofisticação com que os socialistas atuavam politicamente em ligação com as preocupações liberais. Os liberais, por sua vez, chegaram a dispensar, como interlocutora, a perspectiva dos democratas e dos socialistas. Uma das razões pelas quais podemos prever que as próximas décadas, no Brasil, serão tumultuadas, talvez venham a ser compreendidas e trabalhadas pelos nossos sucessores. Esperamos que eles, ao avançar, tragam os conhecimentos científicos que, ao mesmo tempo, nos ajudam e nos frustram. Leandro Konder escreve semanalmente neste espaço.

comentários do leitor Aumento da tarifa em SP

É uma questão de respeito ao ser humano. Esse Kassab enxotou milhares de famílias na zona leste, no Jardim Pantanal, e agora esse preço absurdo do ônibus. Cadê os trabalhadores e os estudantes da zona leste nessas manifestações? O que adianta só os estudantes da PUC, Unifesp e USP participarem dos protestos? Nós temos que massificar essas manifestações. Cadê as organizações sociais da periferia, as pastorais? Vamos acordar! Abraços do Itaim Paulista.

Juliana Saldanha, de São Paulo, por correio eletrônico

Aumento da tarifa em SP – 2

E a “midiona” praticamente se cala sobre o assunto. Como se a mobilização contra o tarifaço nas passagens fosse uma rebeldia sem causa. Agora, mais do que a contestação dos reajustes, as manifestações devem estar conscientizadas de que a luta principal é pela mudança do modelo de prestação de ser-

viço de transporte coletivo no país. Enquanto o transporte não for encarado como algo de primeira necessidade, como saúde, educação e segurança, mas sim como um nicho meramente delegado à exploração da iniciativa privada, bradar simplesmente contra um reajuste não terá muito efeito, não.

Wagner De Alcântara Aragão, de Curitiba (PR), por correio eletrônico

Aumento da tarifa em SP – 3

A violência normalmente é potencializada quando a maioria dos presentes manifestantes são estudantes. Aqui em Floripa, o Movimento Passe Livre é bem organizado, mas o aumento para R$ 3,00 aconteceu estrategicamente um mês antes da entrada das férias. Agora está para ser aprovado um aumento para R$ 3,14 e já estão rolando reuniões na UFSC e UDESC para marcar o primeiro ato. O jeito é a estudantada perceber o fundamental vínculo que tem dentro da sociedade civil, entre conhecimento e trabalhadores.

Que condenem esses que mesmo armados lincham um professor ou qualquer outro.

Lucas Vezzani, de Florianópolis (SC), por correio eletrônico

Copa e direitos humanos

Infelizmente ainda hoje presenciamos a política de “higienização urbana”, tão recorrentes nos séculos passados. Tais obras aquecem o mercado, porém tenhamos clareza de que muitos dos capitais investidos são de procedência internacional (o que vem, volta maior) e os empregos gerados são na grande maioria subempregos. Será esse o caminho? Será que não aprendemos com a construção de Brasília? A diferença aqui é que já estão retirando, forçosamente, os futuros “calangos”. Isaac M. Pedro, por correio eletrônico

Creative Commons x Copyright

Eu gostaria de ver uma boa auditoria em todos os setores da “indústria” (odeio esse termo) cultural e do entretenimento, apenas para ver se a “pirataria”, o “roubo de proprieda-

de intelectual” é tão prejudicial quanto elas afirmam. A “pirataria” acaba servindo como uma poderosa forma de marketing informal, e de criar algo tão importante: o mindshare. E é com o mindshare que a “indústria” consegue sufocar o pequeno produtor de conteúdo. Renan Brick, por correio eletrônico

Copa 2014 e Rio 2016

Creio que ninguém é contra o progresso e as obras para a realização da Copa e das Olimpíadas no Brasil. Sabemos que isso aquece a economia e gera empregos. No entanto, a prefeitura do Rio não pode tratar as comunidades como “coisa”. Já aqui no Brasil, com a mídia que temos, que só divulga aquilo que interessa aos seus proprietários, o tema ficará de lado, como tantos outros temas de direitos humanos. Pedro Paulo, por correio eletrônico

Cartas devem ser enviadas para o endereço da redação ou através do correio eletrônico comentariosdoleitor@brasildefato.com.br


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brasil Carlos Cecconello/Folhapress

fatos em foco

Hamilton Octavio de Souza

Debandada Mais um recuo do atual governo em relação às promessas do governo anterior: a Telebrás deveria assumir a implantação e a gestão do Programa Nacional de Banda Larga, controlar as concessões e universalizar a internet em todo o Brasil a preços acessíveis para a população de baixa renda. Agora a exploração da banda larga ficará por conta das empresas privadas de telefonia – principalmente onde for mais lucrativo. Lucro espanhol A empresa espanhola Telefonica encerrou o ano de 2010 com um lucro líquido de R$ 2,4 bilhões, um aumento de 8,8% em relação ao ano anterior. É uma das campeãs de reclamações dos usuários no Procon, seja por falhas nos serviços prestados, atendimento ruim e irregularidades nas contas. Uma prática nociva adotada pela empresa tem sido a elevação do preço do Speedy (banda larga) sem a autorização do usuário. Até quando?

Manifestação contra o aumento da tarifa do ônibus realizada diante da prefeitura de São Paulo

Inflação vai de carona no “busão” ECONOMIA E TRANSPORTES Elevação das tarifas de ônibus puxam a inflação e, em consequência, elevam a taxa Selic Eduardo Sales de Lima da Redação A PRESSÃO INFLACIONÁRIA que ocorreu, pelo menos em janeiro, decorreu de escolhas políticas, tendo em vista que os itens que apresentaram as maiores altas constituem os chamados preços administrados, relacionados à energia elétrica, telefonia, gasolina, e, principalmente, ao transporte público. Desde o final de 2010, a tarifa de ônibus subiu em pelo menos 17 grandes cidades brasileiras, dentre as quais São Paulo, Belo Horizonte, Recife e Salvador, pressionando índices inflacionários. De acordo com o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), medido pelo IBGE, o item tarifas de ônibus urbanos subiu 4,13% somente em janeiro. Na capital paulista, o reajuste do preço do ônibus coletivo foi de 11%. Na cidade, o preço passou de R$ 2,70 para R$ 3,00. O IPCA total ficou em 0,83% em janeiro. Maior resultado desde abril de 2005, puxado fortemente pelo item transportes, que teve alta de 1,55%. Para ilustrar. Ao lado dos transportes, alimentação e bebidas também se destacaram na composição da inflação, com alta de 1,16% em janeiro. Segundo a economista Maria Lúcia Fatorelli, a contradição, no caso do aumento de preços de alimentação e bebidas no país, reside no fato de não haver necessidade de “cotarmos” o custo de alimentos pelo preço das commodities internacionais. “Nós

não importamos essas commodities. Pelo contrário. Isso deveria ser até um motivo para aumentar o lucro das empresas brasileiras que produzem alimentos e até de redução do preço para os brasileiros”, explica. Carona O item alimentação e bebidas contribuiu com 23,47% da totalidade do índice inflacionário de janeiro e o item transportes contribuiu com 18,68%. Mas quando se fala em inflação puxada por aumento do preço de transporte público, surge uma contradição tão grande ou maior quando comparada com a puxada pelo preço dos alimentos. Ocorre, no caso dos transportes, uma relação direta com as escolhas políticas de poderes executivos locais. Segundo conta Lucas Monteiro, integrante do Movimento Passe Livre (MPL), em 2010, o aumento do preço do ônibus foi de 17,4%. “Muito acima do valor inflacionário”, destaca o integrante do MPL. Por isso, Fatorelli ressalta que a chamada inflação de demanda, gerada pelo crescimento do consumo dos trabalhadores, não é a que ocorre atualmente no Brasil, como defende o Banco Central. O que acontece, segundo ela, é a inflação de custo, criada pelos reajustes de empresas concessionárias, como as empresas de ônibus. “O que ocorreu agora em janeiro em relação ao transporte, ocorre quando tem aumento da tarifa de telefone, em decorrência dos contratos feitos na época da privatização de todos esses setores”, explica. Mas se os transportes coletivos possuem preços administrados, seria lógico considerar, pelo menos um componente da inflação como de fácil controle. “Os contratos podem e deveriam ser revistos, porque já está mais que provado que o processo de privatizações foi repleto de irregularidades e esse reajuste automático, anual, ele é nocivo; ele está tornando os preços de energia elétrica, de telefonia e de transporte no Brasil os mais altos do mundo, e isso não tem nada a ver

com a demanda”, explica Fatorelli. Para ela, “foi-se por terra todo o discurso favorável à privatização, porque não houve barateamento do serviço, pelo contrário, ele se tornou muito mais caro”. Dessa forma, o mais simples, de acordo com Fatorelli, seria, em vez de aumentar a taxa de juros para controlar a inflação, controlar e reduzir os preços administrados, como as tarifas de transporte público. “Transporte, energia, telefonia, alimentos, petróleo, nada disso deveria afetar nossa inflação”, defende a economista.

“O que ocorreu agora em janeiro em relação ao transporte, ocorre quando tem aumento da tarifa de telefone, em decorrência dos contratos feitos na época da privatização de todos esses setores” Nas costas Se esses preços administrados não precisariam influir na inflação, também não deveriam, segundo a economista, influenciar no aumento da taxa de juros. “Só faria sentido aumentar juros se estivesse havendo uma inflação decorrente de um excesso de demanda, um excesso de compra, por exemplo, de produtos financiados, que poderia gerar uma bolha inflacionária; e isso não está acontecendo”, ressalta. Cria-se um círculo vicioso. A inflação de custo, segundo ela, gera mais custo. Gerada pelo aumento dos preços administrados, a inflação pressiona a taxa de juros, que, por sua vez, transforma-se em componente de custo para as empresas, seja de transporte, telefonia. Isso recai, novamente, nas costas do trabalhador. “No fim, quem está pagando essa conta é o trabalhador, com seu ganho reduzido e tendo que arcar com contas mais elevadas”, dispara a economista.

Um conceito de direito retomado Há 20 anos, exprefeita tentou o “tarifa zero” da Redação O prefeito de São Paulo (SP) Gilberto Kassab (DEM) optou por passar o aumento de custo do transporte para o usuário em vez de financiá-lo com recurso público. “Isso é emblemático porque o poder público não encara o transporte como um direito social e sim como uma mercadoria. E reajusta as tarifas todos os anos”, critica Lucas Monteiro, integrante do Movimento Passe Livre (MPL). Segundo ele, a prefeitura tem sobra de caixa. São cerca de R$ 4 bilhões. O custo total do sistema, segundo afirma, de transporte é de R$ 5 bilhões. “A questão não é se tem ou não dinheiro, mas qual a prioridade de orçamento da prefeitura”, afirma.

Monteiro enxerga ainda uma “invasão” do modelo de privatização dos transportes para dentro da esfera governamental paulista. “Passa-se a defender a lógica do lucro no sistema de cobrança. O metrô, por exemplo, não é um sistema privado, mas o sistema de cobrança funciona dentro da mesma lógica mercadológica”, defende.

Projeto pretendia garantir a gratuidade total do transporte coletivo entre 1º de julho a 31 de dezembro de 1991 Dessa forma, para o integrante do MPL, a mudança está muito além do tipo de gerência, pública ou privada, mas passa por um conceito que faça com que o meio de transporte passe a ser tratado

como direito social, que seja custeado pelo “bolo orçamentário do poder público”, no caso dos ônibus, da prefeitura. Barrado E isso já foi tentado dentro da própria prefeitura de São Paulo, há pouco mais de 20 anos. Em outubro de 1990, a então prefeita Luiza Erundina (PT, hoje deputada federal pelo PSB) anunciava uma nova proposta de governo: a tarifa zero, com autoria do então secretário de Transportes Lúcio Gregori. O projeto pretendia garantir a gratuidade total do transporte coletivo entre 1º de julho a 31 de dezembro de 1991. A tarifa zero seria financiada por um Fundo de Transporte, que recolheria fatias de uma cobrança progressiva do IPTU. Ou seja, o custeio do transporte seria baseado no conceito de forte distribuição de renda: quem tem mais paga mais, quem tem menos paga menos e quem não tem nada não paga. O Projeto Tarifa Zero foi derrotado na Câmara Municipal, atacado, até mesmo, por integrantes do PT. (ESL)

Promessa vazia Promessa da campanha presidencial de Barack Obama, a desativação da base militar dos Estados Unidos em Guantánamo ficou apenas no discurso. Os presos desse campo de concentração estadunidense foram sequestrados pela CIA em várias partes do mundo, desde 2002, são submetidos a torturas e mantidos fora do alcance das leis para prisioneiros políticos, comuns ou de guerra. A barbárie continua! Dura realidade Na última semana, alguns integrantes da “tropa de choque” do lulismo na campanha eleitoral de Dilma Rousseff manifestaram desconfiança sobre a posição do novo governo na questão da regulação da comunicação social. Chegaram a dizer – em artigos e debates – que a orientação do Palácio do Planalto tem sido a de buscar composição com a grande mídia burguesa. A decepção anda mais rápido do que era de se esperar! Reação popular Ganha força na sociedade a campanha contra a aprovação de novo Código Florestal, projeto de lei em tramitação no Congresso Nacional, “porque privilegia a grilagem de terras públicas, o desmatamento irresponsável, a mineração em áreas de reserva e o abandono dos interesses do povo brasileiro”. A petição pode ser assinada no link http: //www.causes.com/causes/569333contra-o-projeto-de-novo-c-digoflorestal?m=58d3db0b Nova frota Depois que o site WikiLeaks passou a divulgar os documentos secretos da diplomacia dos Estados Unidos, o governo daquele país vem tentando por todos os meios estabelecer novos controles sobre a Internet. Isso explica o encontro, na semana passada, do presidente Barack Obama com os executivos do Google, Twitter, Yahoo, Facebook, Oracle e outros. Está na cara que o imperialismo organiza a sua frota ideológica no espaço virtual. Direito violado Entidades que apoiam as comunidades da Restinga, Vila Recreio II e Vila Harmonia, ameaçadas de despejo forçado no Rio de Janeiro, apresentaram denúncia formal à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, da OEA, na qual solicitam medida cautelar contra a violação de direitos dos moradores. Em nome da Copa do Mundo e das Olimpíadas está ocorrendo a mais brutal remoção de favelados da história do Rio de Janeiro. Marcha mulher Pelo menos 250 mulheres devem participar da marcha organizada por vários movimentos sociais do Espírito Santo contra a violência e em defesa de um projeto popular para o Brasil. Elas saem de Serra Sede no dia 28 de fevereiro e encerram a marcha no dia 3 de março, no centro de Vitória. No caminho, param em algumas cidades para debater com a população temas da realidade brasileira, em especial a violência contra as mulheres. Luta médica Mais de 100 entidades médicas de todo Brasil – entre elas, o Conselho Federal de Medicina e a Federação Nacional dos Médicos – decidiram suspender o atendimento das seguradoras e operadoras de planos privados de saúde no dia 7 de abril, Dia Mundial da Saúde. Os médicos reivindicam reajuste dos honorários, contratos com os planos e aprovação do Projeto de Lei nº 6.964/2010, que obriga o reajuste periódico da categoria.


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Saldo da 1ª batalha do governo Dilma no Congresso: mínimo Renato Araújo/ABr

ECONOMIA E POLÍTICA Aumento de R$ 5,00 na proposta inicial mantém, no governo Dilma, a política de valorização do salário mínimo de Lula, mas demonstra a força do capital financeiro

ção. Por isso, o país necessitaria de “um tratamento dos estoques agrícolas totalmente diferenciado, com um imposto sobre a exportação de alimentos, como forma de incentivar a canalização da produção para o mercado interno e não deixar tudo nas mãos de três empresas internacionais”. Contudo Passarinho salienta que a questão de fundo passa pela completa remodelação da política agrária. “O modelo do agronegócio é insustentável, o Estado renegocia suas dívidas de cinco em cinco anos. Ele se baseia no petróleo, no potássio, produtos em processo de alta de preços, porque há uma tendência a escassez. O custo de produção só aumenta. Nós somos líderes na importação de agrotóxico. Isso é um absurdo. Por que não investir em novo modelo agrícola?”, questiona.

Vinicius Mansur de Brasília (DF) A PRIMEIRA GRANDE batalha do governo Dilma no Congresso Nacional registrou diversas proezas. A casa, que a pouco menos de dois meses havia aprovado a toque de caixa um aumento próprio de 62%, foi capaz de protagonizar uma longa novela, cujo final estabeleceu uma elevação de 6,86% do salário mínimo – o que representa somente 0,37% de aumento real. Outras façanhas do episódio foram a unificação do PMDB, que votou inteiro na proposta do governo, e o inusitado descontentamento de PSDB e DEM com tão baixo aumento. Ao invés de R$ 545,00 os democratas defenderam R$ 560,00 e os tucanos R$ 600,00. O que permanece inabalável é a força do capital financeiro para ditar os rumos da economia brasileira. Fazendo alarde sobre a alta da inflação e o “desequilíbrio” das contas públicas, a pressão do mercado financeiro segue hegemonizando a política macroeconômica do Brasil no governo Dilma, sendo a definição do salário mínimo a sua mais recente vitória. O anúncio do corte de R$ 50 bilhões nas despesas do governo e o aumento da taxa de juros (Selic) foram outras duas medidas direcionadas a este setor.

“A inflação se combate com aumento da produção, portanto, baixando os juros e aumentando salários para consumir essa produção”

Sessão de votação do Projeto de Lei nº 38.211, do Executivo, que reajusta o salário mínimo

agravante, neste início de ano, a inflação no Brasil é sazonalmente mais elevada, por causa das chuvas que afetam a produção de alimentos in natura, dos reajustes das tarifas do transporte coletivo, das despesas com material escolar e o IPTU e IPVA. Nesse cenário, Khair considera que as respostas dadas pelo governo para combater a inflação servem exclusivamente ao mercado financeiro. “Essa saída via Selic está esgotada por causa dos prejuízos causados na indústria nacional e nas contas externas. O argumento muito utilizado nas decisões sobre a Selic – formar as expectativas dos agentes do

Salário mínimo desde o governo Lula

Dentro do parlamento, o Psol foi voz isolada no questionamento ao discurso do capital financeiro. No dia da votação do aumento do salário mínimo, o deputado Ivan Valente (SP) afirmou que “a decisão a ser tomada pelo Congresso Nacional é política. Não é técnica nem econômica e nada tem a ver com o acordo entre o ministro da Fazenda e as centrais. É uma escolha política que um governo faz indagando se o salário mínimo é importante para distribuir renda, para fazer justiça social [...] A chantagem de que a elevação do mínimo aumenta a inflação é um terrorismo do mercado”. Do lado de fora, a CUT considerou uma vitória a aprovação da lei que assegura a correção do salário mínimo pela inflação mais o índice de crescimento da economia de dois anos antes até 2015 – política gestada pelo governo Lula (ver box). Entretanto, o secretário geral da entidade, Quintino Severo, aponta que o aumento do salário poderia ser maior. “O governo alegou que estávamos descumprindo o acordo, mas nós queríamos um tratamento excepcional aos trabalhadores, da mesma forma que foi dado aos empresários em 2009 [durante a crise econômica]; mas, infelizmente, há uma posição no governo de inibir o consumo para segurar a inflação. Aumentar o mínimo era ir contra essa lógica. Temos discordância. A inflação se combate com aumento da produção, portanto baixando os juros e aumentando salários para consumir essa produção. A presidenta fala em combater a miséria, mas não é reduzindo o consumo que se vai fazer isso”, argumentou.

“O BC se comunica com os bancos, mas pouco com a economia real. É como pedir para a raposa tomar conta do galinheiro” A origem da inflação

Para o economista Amir Khair, “é fundamental aprofundar as discussões sobre as causas da inflação para evitar soluções que, aparentemente, têm significado, mas que, na prática, não funcionam”. O economista salienta que o país já está acompanhando a elevação da inflação que está ocorrendo em todos os países, desde setembro do ano passado, por causa da elevação dos preços dos alimentos e commodities. Como

Máximas do mínimo

Salário Mínimo (R$)

Reajuste Nominal (%)

INPC (%)

Aumento Real (%)

Abr de 2002

200

Abr de 2003

240

20,00

18,54

1,23

Mai de 2004

260

8,33

7,06

1,19

Mai de 2005

300

15,38

6,61

8,23

Abr de 2006

350

16,67

3,21

13,04

Abr de 2007

380

8,57

3,30

5,10

Mar de 2008

415

9,21

4,98

4,03

Fev de 2009

465

12,05

5,92

5,79

Jan de 2010

510

9,68

3,45

6,02

Jan de 2011

545

6,86

6,47

0,37

Total período

172,50

76,66

54,25

Período Críticas

mercado para indicar o rumo da inflação – vem sendo frustrado ante a realidade maior que é a inflação vinda de fora dos alimentos e commodities – que respondem por mais da metade da inflação – e da indexação da inflação ocorrida no passado, como no caso do reajuste dos aluguéis, baseado no IGP-M, que cresceu 11,5% em 2010”, explica. Segundo o membro do Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro, Paulo Passarinho, em um cenário de alta dos preços das commodities agrícolas, em uma economia aberta como a brasileira, sem mecanismos de regulação interno, o Brasil acaba por importar a infla-

BC e mercado financeiro Para o economista, o governo poderia combater a inflação de outras formas: diminuindo crédito através do aprofundamento das medidas macroprudenciais (tomadas no final do governo Lula); incidindo sobre as taxas cobradas pelos bancos ou ter maior rigor sobre setores monopolistas, como a Vale, que aumentou em mais de 100% o preço do minério de ferro, contaminando todos os custos da cadeia de produção. Entretanto, isso não ocorre, segundo Khair, por haver uma “relação simbiótica” entre BC e sistema financeiro. “Eles fazem reuniões sistemáticas. O BC se comunica com os bancos, mas pouco com a economia real. É como pedir para a raposa tomar conta do galinheiro... Discute-se muito a questão da autonomia operacional do BC em relação ao governo federal, especialmente em relação ao Ministério da Fazenda. Mas a verdadeira pressão, que empana essa autonomia, está no mercado financeiro, o maior interessado em manter a Selic em níveis elevados e crescentes como solução milagrosa para domar a inflação”, analisa.

Para acumular o dinheiro que um deputado federal recebe em um ano, um trabalhador pago com o atual salário mínimo necessita de 56 anos de trabalho, sem gastar um centavo. Exatamente o mesmo tempo de vida pública que tem o mais antigo dos congressistas, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Caso o aumento de 62% dado a deputados e senadores fosse aplicado ao salário mínimo, ele subiria para R$ 826,20. A Constituição Federal afirma que “é direito do trabalhador o salário mínimo capaz de atender às suas necessidades vitais básicas e às de sua família, com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social”. O salário mínimo necessário para garantir esses direitos, segundo o Dieese, seria de R$ 2.227,53 – em valores de dezembro de 2010.

Fonte: Dieese

“A Dilma escolheu esse caminho para acalmar o deus mercado” Especialistas analisam o rumo da política econômica no governo Dilma de Brasília (DF) Em entrevista ao jornal Valor, do dia 17 de fevereiro, o ex-presidente do BC, Armínio Fraga, elogiou a política do corte de gastos do governo federal e disse: “fizeram o que achavam que tinha que ser feito em ano de eleição. Agora não tem jeito, tem que pagar a conta”. Fraga, que ainda elogiou a presença do ministro da Casa Civil Antônio Palocci no governo, lidera o coro de diversos comentaristas que apostam que o governo Dilma não “inchará a máquina pública” como o governo Lula. Para o supervisor técnico do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócioeconômicos (Dieese), Clóvis Scherer, “de forma nenhuma se pode dizer que a Dilma inverteu a política do Lula”, uma vez que as primeiras medidas da atual presidente são de aus-

teridade dura, assim como foram a do presidente anterior, em 2003. O economista Paulo Passarinho vê da mesma forma e aponta que a política de austeridade deverá ser mantida para o governo fazer caixa nos dois primeiros anos:

“A perspectiva é de arrocho fiscal e monetário. Eles vão desacelerar a economia, buscando uma melhor condição para crescer nos dois últimos anos do mandato” “A perspectiva é de arrocho fiscal e monetário. Eles vão desacelerar a economia, buscando uma melhor condição para crescer nos dois últimos anos do mandato, uma visão absolutamente conservadora. Farão caixa também para o plano de investimento criminoso para a Copa do Mundo. Fifa e COI são enti-

dades multilaterais muito mais fortes e impositivas do que o próprio FMI”. Quintino Severo, da CUT, também não vê diferenças. “A Dilma escolheu esse caminho para acalmar o deus mercado, mas isso se assemelha às medidas do Lula em 2003”, afirma. De qualquer maneira, o sindicalista aposta que este ano os trabalhadores sairão à luta por aumento real: “O fato do PIB ter crescido 7,8% e de estar faltando mão-deobra qualificada motiva. Já tem projeto de paralisação em vários locais do Brasil”. Aprovado o salário mínimo, as próximas pautas que a CUT pretende tratar com o governo são o reajuste do imposto de renda (IR) e a política de recuperação das aposentadorias para quem ganha mais de um salário mínimo. “Adianto que esse debate da correção do IR é muito estratégico, porque no ano passado, como houve aumento real, sem correção, parte disso irá para os cofres do governo. Queremos que esse dinheiro permaneça no bolso do trabalhador. O Gilberto Carvalho [ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República] e o Mantenga [ministro da Fazenda] já sinalizaram para isso”, concluiu. (VM)


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A Operação Guilhotina nas entranhas da corrupção e do crime Rogério Santana/Governo RJ

RIO DE JANEIRO Eficiente ação da Polícia Federal revela o intestino das polícias Civil e Militar Leandro Uchoas do Rio de Janeiro (RJ) TUDO COMEÇOU numa sexta-feira, 11 de fevereiro. Nos noticiários, entre uma revolta e outra nos países árabes, os cariocas se surpreenderam com um confronto diferente. Através da eficiente Operação Guilhotina, com o auxílio da Secretaria de Segurança Pública e do Ministério Público do Rio de Janeiro, a Polícia Federal prendeu 35 policiais civis e militares em um só dia. Nascia mais uma crise na Segurança Pública do Rio de Janeiro. Polícia contra polícia. Na ação, duas delegacias foram vasculhadas, e a Baia da Guanabara foi revirada atrás de corpos. A PF também desmontou a milícia – grupos paramilitares que controlam territórios no Rio – da favela de Roquete Pinto, do Complexo da Maré, em Ramos. Os crimes envolviam cessão de armas ao tráfico e às milícias, fornecimento de segurança privada a casas de caça-níqueis e cobrança de propina a traficantes. Era apenas o primeiro dia de uma semana tensa. Entre os presos, dois nomes se destacavam. E dos elementos causadores das duas prisões se supõe que ainda há muito que se revelar, caso as investigações não encontrem freios políticos. O principal detido foi Carlos Antônio de Oliveira, subsecretário da Secretaria Especial de Ordem Pública (Seop), responsável pelo “choque de ordem” da Prefeitura, e ex-subchefe operacional da Polícia Civil. Através de escutas telefônicas, filmagens e fotos, provou-se que o delegado tinha vínculos com a milícia da Maré, vinculada à 22ª Delegacia de Polícia – a mesma acusada, em 2009, de alugar um caveirão para traficantes da favela Baixa do Sapateiro. Oliveira foi braço direito do então chefe da Polícia Civil, Allan Turnowski, e tinha proximidade com o deputado federal Rodrigo Bethlem (PMDB), extitular da Seop, o “xerife do choque de ordem”. O delegado mantinha uma espécie de quadrilha na Seop, com pelo menos sete policiais, e tentáculos em diversos órgãos. Quando o esquema veio a público, Turnowski se disse traído. Outra importante prisão foi a de Christiano Gaspar Fernandes, vinculado à mi-

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policiais civis e militares foram presos em um só dia

A delegada Martha Rocha, nova chefe da polícia civil carioca

o chefe da Draco, Cláudio Ferraz, auxiliara na investigação que culminou na Operação Guilhotina e, um dia antes da ação da PF, fora nomeado pelo Secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, subsecretário da Contra Inteligência. Não é preciso ser especialista em Segurança Pública para deduzir que a ação de Turnowski contra a Draco tinha todos os sinais de retaliação.

lícia de Roquete Pinto. Seu pai, Ricardo Afonso Fernandes, o Afonsinho, também foi preso. Christiano seria o chefe do grupo paramilitar e teria sido beneficiado por Oliveira com informações de atividade policial por diversas vezes.

Em suas primeiras declarações, o Cabral tratou de elogiar Turnowski, que teria dado “enormes contribuições para a nossa política de segurança”

Retaliação No terceiro dia da operação, Turnovski assume um movimento suspeito. Invade a Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), alegando ter recebido denúncias de que o órgão teria supostos esquemas com prefeituras do interior. Lacrada a delegacia, o chefe da Polícia Civil faz uma devassa. Não por acaso,

Cláudio Ferraz foi um dos delegados que mais atuaram no sentido de reprimir a atuação das milícias, a partir de 2008. Ele revela, em depoimento à Corregedoria Interna da Polícia Civil, que Carlos de Oliveira tinha um informante no disquedenúncia. Ele sabia, inclusive, da própria

investigação da Polícia Federal, e temia ser pego. Zeca Borges, coordenador do disque-denúncia, refutou a declaração: “não há a menor possibilidade de nossos colaboradores terem repassado informações”. Ao lacrar a Draco, Turnowski parecia saber qual seria seu destino. Dias depois, após conversa de quatro horas com Beltrame, ele foi exonerado da chefia da Polícia Civil. Havia múltiplos indícios de sua conivência com o esquema de corrupção e crime da instituição que coordenava. Para seu lugar, foi chamada Martha Rocha, nomeação elogiada por diversos setores. Bandido e mocinho Como a Guilhotina foi a ação de uma polícia sobre outra, os fatos reforçaram um conceito antigo no debate sobre Segurança Pública no Rio. O de que existe na polícia: uma banda podre e uma banda boa. E que a solução estaria na eliminação dos oficiais criminosos pelos honestos – polícia-mocinho contra polícia-bandido. O conceito é historicamente renegado por organizações de direitos humanos. Em geral, as entidades – que reconhecem a necessidade de se afastar os maus policiais – defendem que o problema do setor é estrutural. Não haveria solução, portanto, sem garantia de melhores salários, diálogo fluente entre as polícias e seus setores de inteligência, infraestrutura adequada, entre outros elementos. Seria conveniente, para o Estado, repassar a culpa de sua inércia aos profissionais de caminho mais errante. No início da Operação, não se tinha notícia de onde estava o governador Sérgio Cabral (PMDB). Ele só apareceria no quarto dia, em São Paulo. Em suas primeiras declarações, o Cabral tratou de elogiar Turnowski, que teria dado “enormes contribuições para a nossa política de segurança”. O governador também disse que Beltrame tinha “total autonomia” para tomar qualquer decisão, numa afirmação que foi interpretada como transferência de responsabilidade por eventuais crises. Circularam informações de que Cabral estaria viajando quando a operação ocorreu. Não é a primeira vez. Em janeiro, durante as chuvas da região serrana, com ao menos 905 mortos, o governador estava na Europa. No réveillon de 2010, quando as chuvas levaram morros a desmoronar e soterrar casas em Angra dos Reis, ele também demorou dois dias a aparecer, por provável viagem. E em março de 2008, quando houve uma epidemia de dengue no estado, ele estava no Japão.

Marcello Casal Jr./ABr

A ordem de cada um Protagonistas do “choque de ordem” seriam os mesmos criminosos pegos pela Guilhotina do Rio de Janeiro (RJ) Policiais revistam casa de morador do Complexo do Alemão

“Alemão é Serra Pelada” Afirmação de policial confirma acusações de entidades de direitos humanos do Rio de Janeiro (RJ) Em dezembro, traficantes vinculados, majoritariamente, ao Comando Vermelho incendiaram veículos pela cidade do Rio de Janeiro. As polícias agiram de forma enérgica, reprimindo comunidades controladas pela facção e ocupando a Vila Cruzeiro e o Complexo do Alemão. Seus oficiais celebraram o suposto sucesso da operação com estardalhaço, e a mídia comercial apenas ecoou a comemoração, criando na população um sentimento de vitória sobre o crime. Enquanto isso, organizações de direitos humanos recebiam incontáveis denúncias de violações por parte das polícias e do Exército que ocupavam as comunidades. Roubos, arrombamentos, humilhação, assédio moral, execuções e até estupros foram relatados. As denúncias foram di-

vulgadas pelas organizações, sem grande repercussão. Guiada pela cobertura festiva, a população preferia celebrar a repentina eficiência da polícia. Entretanto, uma declaração recente confirmou o que diziam as organizações. Nas escutas da PF que levaram à Operação Guilhotina, um policial disse ao outro: “aí virou Serra Pelada, aí em cima no topo do morro”. Serra Pelada foi um garimpo no Pará que, na década de 1980, atraiu milhares de aventureiros atrás de ouro. A afirmação confirma, assim, que as violações não foram casos isolados, mas aconteceram em grandes proporções. “Foram muitos os policiais que roubaram o Alemão. Eles [imprensa] estavam cobrindo apenas o que a Secretaria (de Segurança Pública) passava. E a gente já recebeu informação de que policiais que deveriam estar presos na Operação Guilhotina não estão”, afirma Patrícia de Oliveira, da Rede Contra a Violência. A Justiça Global divulgou nota responsabilizando o governo do Estado pelas violações. “Com as provas levantadas pela PF, o Estado tem obrigação de fazer um pedido de desculpas formal à população local e de reconhecer e indenizar os danos morais e materiais aos moradores atingidos pela violência estatal”, diz. (LU)

Uma das marcas do governo municipal de Eduardo Paes (PMDB), no Rio de Janeiro, é o “choque de ordem”. Logo que assumiu, em 2009, o prefeito anunciou ordenar atividades como o estacionamento de veículos, a invasão de calçadas pelos bares, a mendicância nas ruas e o comércio informal. Algumas categorias foram impactadas de forma direta – flanelinhas, moradores de rua e camelôs. As medidas encontraram forte resistência dos setores da esquerda não alinhados com a Prefeitura, mas seguiram ocorrendo. Ruas inteiras foram disponibilizadas para empresas privadas de segurança de veículos, mendigos foram levados em massa para abrigos, ocupações urbanas foram reprimidas e camelôs tiveram seu material apreendido – muitas vezes aqueles que tinham registro da atividade.

Além de filho da atriz Maria Zilda, Bethlem também é genro do presidente da Câmara de Vereadores do Rio À frente da Secretaria Especial de Ordem Pública (Seop), Rodrigo Bethlem (PMDB), hoje deputado federal, era chamado de “xerife do choque de ordem”. Era um herói dos defensores da medida do governo. A Operação Guilhotina, porém, dá sinais de que, pela secretaria, operava-se uma quadrilha. O dele-

gado Carlos de Oliveira, preso, era subsecretário de operações e teria sido indicado ao cargo pelo próprio Bethlem. Boa parte dos policiais investigados também trabalhava na Seop. “Ele [Oliveira] sempre vinha na frente e estava sempre armado. Eu acompanhei várias apreensões com ele. Era o responsável pela repressão. Todo mundo sabia que ele era delegado”, conta Maria dos Camelôs, líder da categoria. “A morte do Alexandre [Pereira], presidente do camelódromo da Uruguaiana – que, na verdade, é um empresódromo – foi queima de arquivo. Deve ter tido o dedo deles. O Oliveira era o braço direito do Bethlem. A Polícia está em cima, mas vai ter uma hora que o governador vai dizer: não mexe aí não”, completa. Na contramão do discurso da ordem, Bethlem foi um dos candidatos mais vezes punidos por desrespeitar as regras eleitorais. Teria tido votação recorde em área de milícia. Além de filho da atriz Maria Zilda, também é genro do presidente da Câmara de Vereadores do Rio, Jorge Felippe (PMDB). A vereadora Andrea Gouvêa Vieira (PSDB) tenta instalar uma CPI na casa para investigar as ações de Oliveira na Seop e as possíveis vinculações com Bethlem. Porém, encontra enormes dificuldades. “Sabemos que 32 policiais da PM foram colocados à disposição da prefeitura. Destes, 11 foram para o gabinete do secretário Rodrigo Bethlem, e sete, para o gabinete do Oliveira”, afirma. A proximidade entre Bethlem e as milícias também seria investigada. Andrea diz que era notória a proximidade dele com o vereador Cristiano Girão (PMN), preso por vínculo com as milícias. Segundo o deputado estadual Marcelo Freixo (Psol), que presidiu a CPI das Milícias, Girão disse em depoimento que trabalhou no governo de Rosinha Garotinho (20032006) por indicação de Bethlem. Freixo está prestes a instalar, na Assembleia Legislativa, a CPI do Tráfico de Armas e também pretende utilizar informações da Operação Guilhotina. (LU)


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Revoluções por minuto MUNDO ÁRABE Revoltas no norte da África e Oriente Médio já são consideradas o processo mais importante do século 21 Reprodução

Renato Godoy de Toledo da Redação O EFEITO DOMINÓ causado pela revolução na Tunísia, em janeiro de 2011, ainda não pode ter suas consequências calculadas. Mas certamente já é o processo de transformação da ordem geopolítica mundial mais importante do século 21. Após caírem as ditaduras de Ben Ali na Tunísia e de Hosni Mubarak no Egito, os governos da Líbia, do Bahrein, da Jordânia, da Argélia, do Marrocos, do Iêmen, de Omã e do Irã enfrentam fortes protestos na região do norte da África e no Oriente Médio. Nem mesmo a revolução islâmica de 1979, no Irã, que deu nova cara à geopolítica da região, pode ser comparada às mudanças conjunturais que estão se consolidando no chamado mundo árabe (que inclui o Irã, país persa). As revoltas têm ocorrido com grande velocidade e violência. A fúria das massas não obedece a qualquer orientação ideológica. Tanto regimes autoritários pró-EUA, como no Egito e na Tunísia, são atingidos pela insurreição popular como a Líbia de Muamar Kadafi, opositor do país estadunidense na região. O impacto geopolítico das transformações ainda não está claro. O que se sente até o momento são as consequências econômicas: o preço do barril de petróleo atingiu 109 dólares, aumentando 9% somente no dia 21 de fevereiro, quando Kadafi ordenou que aviões líbios atirassem contra manifestantes na capital Trípoli.

“Para os historiadores, um processo revolucionário é aquele que acelera a história e provoca uma irrupção da vida política de milhões de pessoas” Os protestos no Bahrein causaram danos financeiros e políticos à monarquia que controla o país: o Grande Prêmio de Formula 1 foi cancelado em função das revoltas. Apesar de diferentes contextos, as revoltas nos países têm alguns denominadores comuns, como a exigência de liberdade democrática, de imprensa e o rechaço à corrupção e ao desemprego. Também tem sido comum a repressão violenta por parte dos governos autocráticos. Somente na Líbia, mais de 400 pessoas morreram nos protestos. Ainda sob a ditadura de Mubarak, cerca de 300 egípcios foram assassinados. Momento histórico

Na opinião do historiador Valério Arcary, professor do Instituto Federal de São Paulo, o que ocorre no norte da África e no Oriente Médio não pode ser qualificado apenas como revoltas pontuais ou mobilizações dispersas, mas sim um processo revolucionário “espetacular”. “Esse cenário tem todas as características de um processo revolucionário. Para os historiadores, um processo revolucionário é aquele que acelera a história e provoca uma irrupção da vida política de milhões de pessoas. As circunstâncias nesses países puniram as grandes massas de de tal maneira que elas vão às ruas e derrubam governos em um processo em que a legitimidade se impõe pela força das manifestações”, define. Arcary compara o atual período com o início deste século na América Latina. O processo de turbulência social começou com a queda do presidente argentino Fernando de la Rúa em 2001. A queda dele deu origem a um processo de revolta na Argentina. No período de 2000 a 2005, caíram o presidente Alberto Fujimori, no Peru, Sanchéz de Lozada, na Bolívia, e foram depostos três presidentes equatorianos, pelas revoltas indíge-

Sem programa

Por vezes, a esquerda mundial se vê entusiasmada com movimentos insurrecionais e acaba frustrada com os rumos tomados por estes. No caso das atuais revoltas, especialistas alertam que há o perigo de um recrudescimento religioso, como ocorreu no Irã após a derrubada do regime do Xá em 1979. Arcary salienta que o movimento socialista na região não está muito articulado. Como exemplo, ele cita o caso do Partido Comunista do Egito que, segundo sua análise, colaborava com o regime de Mubarak.

Cenário de guerra em Bengazhi, na Líbia: insurreição popular

nas. Soma-se a esse processo a tentativa frustrada de golpe na Venezuela contra o presidente Hugo Chávez. O resultado daquele processo foi a diminuição da hegemonia dos EUA na região e uma menor presença das políticas neoliberais. Apesar de comparar os períodos, Arcary aponta que o atual momento já é mais importante em termos de mudanças na conjuntura do que aquele da década passada. O historiador, no entanto, alerta que o processo revolucionário não necessariamente acarreta em vitória. Assim como o caráter da revolução, no início do processo, permanece em disputa. “Situações de revolução não significam vitórias. Toda a revolução política que derruba ditaduras começa com revoluções democráticas e tem caráter social. Na sequência da queda de Mubarak no Egito e de Ben-Ali na Tunísia, entraram em greve setores mais representativos da população. Isto porque a revolução social estava contida dentro da revolução política. Há um despertar político de uma geração. Em processos revolucionários, as décadas são meses e os anos, dias”, aponta.

“Tenho um aluno em Teerã, no Irã, que me relatou que os protestos são realizados por uma juventude mais urbanizada que, sim, quer respirar mais. Mas não são protestos pró-EUA. Por outro lado, com o cerco internacional apertando, restam poucas alternativas ao Irã que passa a tomar as críticas internas como apoio aos EUA”, analisa. Valério Arcary também acredita que o cenário de convulsão social no Oriente Médio não é visto com bons olhos pela Casa Branca. “Obama e o departamento de Estado estão apavorados. O governo dos EUA é a favor da estabilidade no Oriente Médio, pois são governos aliados de sua política que lhe concedem favorecimento no acesso ao petróleo. Agora, toda a geopolítica será alterada. Os EUA tal como outros Estados estão numa luta para manter posições. Os Estados são sujeitos políticos, mas existem outros protagonistas. Em circunstâncias normais, as massas não entram na política como hoje ocorre no Magreb, e isso os deixa preocupadíssimos”, aponta o historiador.

“Tenho um aluno em Teerã, no Irã, que me relatou que os protestos são realizados por uma juventude mais urbanizada que, sim, quer respirar mais. Mas não são protestos pró-EUA” No entanto, com a velocidade das rupturas, o historiador não descarta que as revoluções em curso possam tomar rumos de esquerda. “As massas não saem para as ruas com projetos. Eles querem derrubar governos odiados, saem porque lutam contra tiranias que usam métodos brutais. Eles não saem às rua com modelos tocquevillianos [referente a Alexis de Tocqueville, pensador político francês] de divisão de poderes etc. Eles têm fome de democracia, de derrubar tiranos e de levá-los a julgamento. Claro que vão querer eleições, mas democracia é muito mais do que isso. O regime democrático liberal está em crise nos próprios países centrais. Ainda não dá para saber se as massas irão além disso e construirão um regime anticapitalista. Mas as massas enfrentaram uma das polícias mais violentas do mundo, de peito aberto, e agora vão procurar organizarem-se e tirar lições”, prevê. Reprodução

“Há um despertar político de uma geração. Em processos revolucionários, as décadas são meses e os anos, dias” Processos diferentes

O geógrafo da Universidade de São Paulo, André Martin, procura diferenciar os processos revolucionários em cada país. “Precisamos tomar cuidado com as generalizações, não podemos dizer que o Bahrein e a Líbia, por exemplo, vivem situações iguais. Na Líbia, bem ou mal, o Kadafi tem uma base social, há uma guerra civil em marcha. Já no Bahrein, não há essa base. Não há unidade ideológica nos protestos. Quando se fala em ‘mundo árabe’, fazem-no para incluir o Irã. Mas por que também não incluem a Turquia? Eles têm uma democracia perfeita? A confusão, nesse ponto de vista, pode em alguns casos interessar aos EUA, que apoia o movimento de estabilização em alguns países”, avalia. Para Martin, o que há em comum no processo de levante popular é o rechaço à política dos EUA para a região, baseada na defesa de Israel e de preços do petróleo abaixo do mercado. Segundo o geógrafo, a imprensa mundial tem passado uma versão equivocada dos protestos em países opositores dos EUA. De acordo com essa interpretação, diz Martin, aqueles que protestam contra o governo da Líbia e do Irã manifestam-se a favor da política dos EUA para a região, o que não é verdade. Reprodução

Cena de vídeo em que Kadafi nega ter fugido do país

Protestos no Egito pela queda de Mubarak

“Resistência egípcia não começou agora” Jornalista turco comenta a situação no Oriente Médio da Redação

muitos anos e não é só contra Mubarak, mas também contra o neoliberalismo. O Egito é um país muito bom para o neoliberalismo. Há fábricas, terras muito boas para o plantio de transgênicos. E está muito perto da Palestina.

O jornalista turco Metin Yegin, apresentador do programa de televisão Rua do Mundo, em um canal comunitário, concedeu uma entrevista ao Brasil de Fato e comentou os acontecimentos no Egito e em demais países do norte da África. Confira trechos da entrevista abaixo.

“O grupo Irmandade Muçulmana é muito forte. Antes, era um grupo muito radical, hoje é pouco”

Brasil de Fato – Como você tem visto a situação de insurgência no mundo árabe e qual é a perspectiva da Turquia sobre o mundo árabe?

Como vê a composição política do Egito hoje em dia?

Metin Yegin – Essa resistência não começou agora, no Egito, ela vem de muito tempo. Estive no ano passado no Egito e acompanhei o movimento de trabalhadores no setor têxtil. Os trabalhadores de uma fábrica com 30 mil trabalhadores realizaram uma greve e ocuparam a fábrica. E a repressão era muito forte, não deixavam sequer entrar com câmera na fábrica. Então, essa resistência vem de

Sem dúvida, o grupo Irmandade Muçulmana é muito forte. Antes, era um grupo muito radical, hoje é pouco. Eles querem um governo parecido como o governo turco. Um governo “teoliberalista”. A Irmandade Muçulmana tem muitos contatos com os banqueiros. Mas acredito que os EUA e Israel não confiam neles. Pode ser que um eventual governo da Irmandade Muçulmana fosse direcionado aos interesses dos EUA e de Israel. Mas estes não confiam neles, pois não são racionais. (RGT)


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de 24 de fevereiro a 2 de março de 2011

cultura

Choque entre o conservadorismo e a modernidade no Irã Divulgação

CINEMA Urso de Ouro, prêmio máximo do Festival de Berlim, é usado para enviar um recado ao governo iraniano Rui Martins de Berlim (Alemanha) O CHOQUE ENTRE a modernidade e o conservadorismo no Irã é a trama principal do filme Nader e Simin, uma separação, premiado com o Urso de Ouro no encerramento do 61º Festival Internacional de Cinema de Berlim, realizado entre os dias 10 e 20 de fevereiro. Sem dúvida, o júri do Festival, presidido pela atriz Isabella Rosselini, quis enviar um recado ao governo iraniano ao premiar não só o filme como todo o elenco, em protesto contra a punição do cineasta iraniano Jafar Panahi, condenado em seu país a seis anos de prisão e a 20 sem poder filmar. Mesmo porque, durante o Festival houve uma manifestação de apoio a Jafar e, na cerimônia de encerramento, foi mostrada a cadeira vazia que o cineasta iraniano deveria ocupar no júri. O diretor premiado, Asghar Farhadi, embora pesando bem as palavras a fim de evitar problemas no retorno ao Irã, lamentou a ausência de Jafar, logo depois da exibição de seu filme para a imprensa.

Cena do filme Nader e Simin, uma separação, do diretor iraniano Asghar Farhadi

Divórcio à iraniana

O prêmio de melhor direção para o filme Doença do sono deu um destaque ao continente africano O Grande Prêmio do Júri concedido ao filme não comercial, em preto e branco, O cavalo de Torino, do cineasta húngaro Béla Tarr, marcou a independência do Festival diante dos grandes estúdios. Inspirado num episódio da vida de Nietzche, o filme mostra a repetição rotineira da vida, numa visão pessimista, crua, descrente e sem esperanças. O prêmio de melhor direção para o filme Doença do sono, rodado nos Camarões, pelo alemão Ulrich Koehler, deu um destaque ao continente africano, mostrado na sua pobreza, mas na sua exuberância e nos seus mistérios, a ponto de enfeitiçar europeus. Coprodução germano-franco-holandesa, não é um filme africano, porém o diretor, apesar de alemão, nasceu e viveu a infância e adolescência na África, onde seus pais trabalhavam em missão humanitária. Confira nesta página matéria sobre os principais premiados.

de Berlim (Alemanha) O filme iraniano “Nader e Simin, uma separação, vencedor do Urso de Ouro do Festival de Berlim, apresenta uma situação inesperada e pouco conhecida no Irã, país mais conhecido pelo seu fundamentalismo, pela prisão do cineasta Jafar Panahi e pela ameaça de lapidação de Sakineh Ashtiani. O filme se constrói em torno de um divórcio entre um casal da classe média, depois de 14 anos de casados e com um filha adolescente. A esposa quer tentar a vida em outro país; o marido não pode, pois seu pai sofre de Alzheimer e dele depende totalmente. Depois de uma discussão diante do juiz, digna de filme italiano, é rejeitado o divórcio por não haver um consenso entre os cônjuges. Mas Simin larga o marido e vai viver com a mãe, renunciando viajar diante da decisão da filha de ficar com o pai, esperando com isso – vai se saber mais tarde – forçar a mãe a retornar ao lar. Na verdade, não há nenhum problema grave no casal, mas incompatibilidade de gênios. Sem a esposa em casa, Nader contrata uma empregada para tomar conta do pai durante sua ausência no trabalho. A funcionária pertence a outra catego-

ria social, a dos pobres, que, como explicou o diretor do filme, Asghar Farhadi, são mais religiosos e guiam suas vidas pelo Corão. Quando o velho pai de Nader, incontinenti e senil, faz suas necessidades nas calças, surge o primeiro problema: segundo os preceitos corânicos, pode a empregada limpar seu bumbum? Pelo Profeta, não, porque tal limpeza só podem fazer os membros da família, mas a empregada consegue uma dispensa para isso. Dois dias depois, ao voltar do trabalho com a filha, estressado, o marido encontra a porta do apartamento fechada e, ao entrar, descobre seu pai caído no chão inconsciente, com a mão amarrada na beira da cama. A empregada, que traz consigo a filha pequena, pois não tem onde deixá-la, ao retornar ao apartamento é repreendida, pois Nader não sabe que seu pai, mesmo senil, tinha saído do apartamento sozinho e foi encontrado por ela na rua. A coitada, grávida de algumas semanas, chega a receber um choque, quase atropelada por um carro. Como parece ter desaparecido algum dinheiro, Nader culpa a empregada que, religiosa, não suporta a acusação. Na discussão, Nader empurra a empregada, que cai nas escadas, é levada ao hospital e tem um aborto.

Foi o empurrão que matou o feto? Caso positivo, Nader pode pegar até três anos de cadeia. Essa a trama desse bom filme iraniano, mostrando um país em fase de modernização. Jafar Panahi

Vir a Berlim, quando o Festival denunciou a prisão de Jafar Panahi, que deveria estar no júri mas cumpre pena de seis anos de prisão e foi proibido de fazer cinema por 20 anos, exige uma tomada de posição. E foi isso que um jornalista pediu, na primeira pergunta da coletiva ao cineasta Asghar Farhadi. Este não se negou: “Nenhum cineasta do mundo pode fica indiferente ao que se passou. E eu estou ainda mais triste porque conheço Panahi pessoalmente. No dia da manifestação aqui em Berlim, eu lhe telefonei e me senti ainda mais triste, porque eu vinha para o Festival ao qual ele não pôde vir”. O cineasta, que não se inspirou na vida pessoal para fazer um filme sobre divórcio, conta haver um número enorme de divórcios no Irã. E revela haver uma oposição surda entre o moderno nas classes mais elevadas e a classe pobre, religiosa, que rejeita a modernidade. É esse choque que anima as atuais manifestações no Irã, país milenar e não árabe como alguns pensam, mas persa. (RM) Divulgação

O filme do fim do mundo de Berlim (Alemanha) Bela Tarr, cineasta húngaro, trouxe ao Festival de Berlim o filme O cavalo de Torino, que se poderia resumir como o filme do fim do mundo, mostrando um lugar qualquer, no meio de um campo vasto, onde existe uma casa antiga, de pedra, sem eletricidade, sem água corrente e onde vivem duas pessoas, um pai e sua filha. A casa é açoitada pelo vento forte de uma tempestade até acabar a água no poço, não se acenderem mais as lamparinas, morrer o cavalo e tudo ser envolto pelas trevas. Bela Tarr começa o filme com uma legenda sobre o fim de Nietzsche e citando uma frase com qual o pessimista escritor teria tentado salvar um cavalo, açoitado pelo carroceiro, abraçando-se, chorando, ao cavalo. A seguir, passou dois dias sem falar, que se prolongaram por dez anos, vivendo na demência, cuidado por sua mãe e irmã. É fácil de se resumir o filme, como é fácil se resumir os gestos básicos da rotina da vida, desde o levantar até o deitar. O velho pai volta com sua usada carroça e seu velho cavalo, num longo trecho da estrada lembrando um trecho de filme de Manoel Oliveira, onde as rodas de uma carruagem ocupam a cena durante longos minutos. Ao chegar, o cavalo é desatrelado, tiram-se seus freios e é recolhido para comer e beber, recolhe-se igualmente a carroça. O velho pai tem suas botas retiradas pela filha, que o esperava e que o ajuda a recolher o cavalo. Como seu velho pai tem um braço inerte, ela retira o seu casaco, malha e lhe veste com o de dor-

mir. Ele se deita, ela prepara o jantar, uma grande batata para cada um, comem, deitam. São seis dias, e nesses seis dias, a filha refaz sempre os mesmos gestos de vestir e desvestir o pai, acender o fogo, cozinhar as batatas, lavar os pratos e dormir. Lá fora o vento ulula fortemente, ela vai buscar água no poço, e uma música, tocada por diversos instrumentos, repetitiva (como nas atuais músicas techno) se ouve, desde o começo até as duas horas de duração do filme preto e branco, bela fotografia, tomada de posições diferentes, já que tudo se repete dia a dia até o sexto dia final. Não há praticamente diálogo: o mínimo, como em Vidas secas de Nelson Pereira dos Santos.

É a insuportável repetição de nossos gestos desde o nascer ao morrer, mas que não impede as pessoas de continuarem vivendo Para Bela Tarr é a rotina da vida e a certeza de que tudo tem um fim. É a insuportável repetição de nossos gestos desde o nascer ao morrer, mas que não impede as pessoas de continuarem vivendo, na mesma repetição. Para ele, deve ser o último filme, porque ele ali matou o cinema, que também vai ter seu fim, como nós todos e a Terra e o universo. Filme digno não só de Nietzsche, mas igualmente de um Schopenhauer, que pela sua plasticidade não viu o cinema esvaziar. (RM)

Alienação na África

Cena de Doença do sono, do alemão Ulrich Koehler

de Berlim (Alemanha) Quem sai da África e vive na Europa é imigrante; mas quem sai da Europa e vive na África parece ter o nome de expatriado, missionário ou, se está numa missão ligada à saúde, é um humanitário. É o caso do filme Doença do Sono, do alemão Ulrich Koehler, ele mesmo filho de funcionários de organizações internacionais que viviam em missão humanitária, tendo estudado o primário, secundário e colegial no Zaire, hoje República Democrática do Congo. O personagem principal do filme, feito em Camarões, é um médico, Ebbo Velten, encarregado de um programa de tratamento contra a doença do sono, pelo qual já viajou com a esposa por diversos países africanos. Porém, depois de 20 anos na África, com a filha estudando num internato na Alemanha, a esposa retorna ao seu país natal, a Alemanha, sem conseguir convencer o marido a acompanhá-la. Na verdade, ele não tem mais o que fazer, pois na sua região existe apenas um paciente afetado, mas as verbas continuam mantidas. Por sua vez, Ebbo Velten desfruta, em Camarões, de um certo prestígio junto à

população que não teria jamais na Alemanha, onde como médico generalista trabalharia anônimo num simples consultório. Por isso e pela atração da África primitiva e selvagem prefere ir adiando seu retorno à Alemanha, mesmo porque tem também, em Camarões, uma família africana. O filme mostra o drama do alienado, que não sabe mais se é ainda um alemão na África ou se já virou igualmente africano. O outro aspecto do filme é o do desvio de verbas, pois o programa de tratamento contra a doença do sono se baseia em estatísticas antigas. Enfim, chega na casa de Ebbo Velten um funcionário francês de origem africana, encarregado de atualizar a questão para a Organização Mundial da Saúde (OMS). Embora de origem congolesa, mas com nacionalidade francesa, Alex Nzila vive um outro tipo de alienação ou de identidade. Filho de africanos, ele chega numa África que não conhece e cuja língua desconhece, interessado em fazer rapidamente seu trabalho para retornar à França. Mas não pode contar com a ajuda de Velten, talvez temeroso de que uma verdadeira estatística possa significa o fechamento de seu ambulatório. (RM)


Edição 417 - de 24 de fevereiro a 2 de março de 2011  

Uma visão popular do Brasil e do mundo

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