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ÍNDICE

INTRODUÇÃO ........................................................................................................................................................ 1 POEMAS LIDOS NA ESCOLA BÁSICA E SECUNDÁRIA DE MACEDO DE CAVALEIROS - 3º CICLO ........................... 3 POEMAS LIDOS NA ESCOLA BÁSICA E SECUNDÁRIA DE MACEDO DE CAVALEIROS – ENSINO SECUNDÁRIO..... 32 CONCLUSÃO ........................................................................................................................................................ 61


INTRODUÇÃO

No dia 7 de dezembro de 2012, os alunos de todo o Agrupamento de Escolas de Macedo de Cavaleiros tinham uma surpresa à sua espera na sala de aula. O professor que naquele dia lhes deu aula ao primeiro tempo da manhã tinha uma missão… ler-lhes um poema. Ao longo do ano letivo de 2013/2014, semanalmente, deu-se continuidade à atividade “Abre a pestana com um poema por semana”, +

integrada no projeto aLeR , em que toda a comunidade escolar está integrada. Com ela pretendeu-se fomentar o gosto pela leitura, dar a conhecer poetas nacionais e, esporadicamente, estrangeiros, bem como facilitar o contacto dos alunos com a expressão lírica e motivá-los para a sua interpretação e procura de outros poemas do autor. Aos alunos pediu-se que acolhessem o poema com os cinco sentidos apurados, que sentissem a melodia daquele modo literário e que atentassem na combinação harmoniosa e inopinada das palavras. A poesia embala-nos com a sua musicalidade, dela ressaltando a cadência melódica que das duas artes deflui. A leitura do poema constituía, a priori, o cerne da atividade, contudo, os docentes que assim o desejassem podiam dela partir para o desenvolvimento de outras atividades, como jogos de associação de ideias, construção de campos lexicais ou semânticos, exercícios de expressão artística, como a ilustração, expressão de pontos de vista sobre o tema ou assunto apresentados na composição poética. Ao longo de quase dois anos, a atividade tem permitido aos alunos ouvir ler expressivamente poemas de Almeida Garrett, Alexandre O’Neill, António Gedeão, António Sérgio Néspoli, António Ramos Rosa, Ary dos Santos, Camilo

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Pessanha, Carlos Drummond de Andrade, Carlos Oliveira, Cecília Meireles, Cesário Verde, Eugénio de Andrade, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Gomes Leal, Irene Lisboa, José Gomes Ferreira, José Jorge Letria, José Luís Peixoto, José Régio, Luíza Neto Jorge, Manuel Alegre, Maria Teresa Horta, Maria do Rosário Pedreira, Miguel Torga, Ruy Belo, Sérgio Godinho, Sophia de Mello Breyner Andresen, entre outros, alargando, deste modo, os seus conhecimentos, no tocante a poetas portugueses e à sua produção literária. Estas leituras têm servido os mais diversos fins: a criação de ilustrações, a exploração de temáticas relacionadas, ponto de partida para outros assuntos, material para desenvolvimento de aulas.

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POEMAS LIDOS NA ESCOLA BÁSICA E SECUNDÁRIA DE MACEDO DE CAVALEIROS - 3º CICLO

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O PASTOR Pastor, pastorinho, Onde vais sozinho?

Vou aquela serra Buscar uma ovelha.

Porque vais sozinho, Pastor, pastorinho?

Não tenho ninguém Que me queira bem.

Não tens um amigo? Deixa-me ir contigo.

Andrade, Eugénio de (2006). In Sophia de Mello Breyner Andresen, Primeiro livro de poesia. Lisboa: Caminho, pág.16.

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NÃO POSSO ADIAR O AMOR PARA OUTRO SÉCULO

Não posso adiar o amor para outro século não posso ainda que o grito sufoque na garganta ainda que o ódio estale e crepite e arda sob as montanhas cinzentas e montanhas cinzentas Não posso adiar este abraço que é uma arma de dois gumes amor e ódio

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Não posso adiar ainda que a noite pese séculos sobre as costas e a aurora indecisa demore não posso adiar para outro século a minha vida nem o meu amor nem o meu grito de libertação Não posso adiar o coração

Rosa, António Ramos (2001). Antologia Poética. Lisboa: Publicações D. Quixote, p. 42.


SEGREDO

A poesia é incomunicável. Fique torto no seu canto. Não ame. Ouço dizer que há tiroteio ao alcance do nosso corpo. É a revolução? O amor? Não diga nada. Tudo é possível, só eu impossível. O mar transborda de peixes. Há homens que andam no mar como se andassem na rua. Não conte. Suponha que um anjo de fogo varresse a face da terra e os homens sacrificados pedissem perdão. Não peça.

Andrade, Carlos Drummond de (2007). Antologia Poética. Lisboa: Relógio D’Água Editores, p.109.

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SÃO HORAS DE VOLTAR. TU JÁ NÃO VENS, E A ESPERA

São horas de voltar. Tu já não vens, e a espera gastou a luz de mais um dia. Agora, quem passar trará um corpo incerto dentro do nevoeiro, mas terá outro nome e outro perfume. Eu volto

à casa onde contigo se demorou o verão e arrumo os livros, escondo as cartas, viro os retratos para a mesa. Sei que o tempo se magoou de nós, sei que não voltas, e ouço dizer que as aves partem sempre assim, subitamente. Outras virão

em março, apago as luzes do quarto, nunca as mesmas.

Pedreira, Maria do Rosário (2012). Poesia reunida. Lisboa: Quetzal, p.75.

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MAS QUE SEI EU

Mas que sei eu das folhas no outono ao vento vorazmente arremessadas quando eu passo pelas madrugadas tal como passaria qualquer dono?

Eu sei que é vão o vento e lento o sono e acabam coisas mal principiadas

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no ínvio precipício das geadas que pressinto no meu fundo abandono

Nenhum súbito súbdito lamenta a dor de assim passar que me atormenta e me ergue no ar outra folha

qualquer. Mas eu que sei destas manhãs? as coisas vêm vão e são tão vãs como este olhar que ignoro que me olha

Belo, Ruy (1990). Obra Poética. (Vol. II, 2º ed.). Lisboa: Editorial Presença, p. 16.


MAR Mar! Tinhas um nome que ninguém temia: Era um campo macio de lavrar Ou qualquer sugestão que apetecia…

Mar! Tinhas um choro de quem sofre tanto Que não pode calar-se, nem gritar, Nem aumentar nem sufocar o pranto…

Mar! Fomos então a ti cheios de amor! E nem eras um campo de lavrar, Nem um corpo a gemer a sua dor!

Mar! Enganosa sereia rouca e triste! Foste tu quem nos veio namorar, E foste tu depois que nos traíste!

Mar! E quando terá fim o sofrimento! E quando deixará de navegar Sobre as ondas azuis o nosso pensamento! Torga, Miguel (1978). Lavrador de palavras e ideias, in Alguns Poemas Ibéricos. Lisboa: Ministério da Comunicação Social, pág.17.

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LÁGRIMA DE PRETA Encontrei uma preta que estava a chorar, pedi-lhe uma lágrima para a analisar. Recolhi a lágrima com todo o cuidado num tubo de ensaio bem esterilizado. Olhei-a de um lado, do outro e de frente: tinha um ar de gota muito transparente. Mandei vir os ácidos, as bases e os sais, as drogas usadas em casos que tais. Ensaiei a frio, experimentei ao lume, de todas as vezes deu-me o que é costume: Nem sinais de negro, nem vestígios de ódio. Água (quase tudo) e cloreto de sódio. Gedeão, António (2001). Obra poética. Porto: Figueirinhas, p. 83.

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DESEJOS VÃOS

Eu queria ser o Mar de altivo porte Que ri e canta, a vastidão imensa! Eu queria ser a Pedra que não pensa, A pedra do caminho, rude e forte! Eu queria ser o Sol, a luz intensa, O bem do que é humilde e não tem sorte! Eu queria ser a Árvore tosca e tensa

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Que ri do mundo vão e até da morte! Mas o Mar também chora de tristeza... As árvores também, como quem reza, Abrem, aos Céus, os braços, como um crente! E o Sol, altivo e forte, ao fim de um dia, Tem lágrimas de sangue na agonia! E as Pedras... essas... pisa-as toda a gente!...

Espanca, Florbela (1997). Sonetos. Amadora: Bertrand Editora, p. 54.


O ELEFANTE Fabrico um elefante de meus poucos recursos. Um tanto de madeira tirado a velhos móveis talvez lhe dê apoio. E o encho de algodão, de paina, de doçura. A cola vai fixar suas orelhas pensas. A tromba se enovela, é a parte mais feliz de sua arquitectura. Mas há também as presas, dessa matéria pura que não sei figurar. Tão alva essa riqueza a espojar-se nos circos sem perda ou corrupção. E há por fim os olhos, onde se deposita a parte do elefante mais fluida e permanente, alheia a toda fraude. Eis o meu pobre elefante pronto para sair à procura de amigos num mundo enfastiado que já não crê em bichos e duvida das coisas. (…) Drummond, Carlos de Andrade (2007). Antologia poética. Lisboa: Relógio d’Água, p. 75 e 76.

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[CHOVE. É DIA DE NATAL]

Chove. É dia de Natal. Lá para o Norte é melhor: Há a neve que faz mal, E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente Porque é dia de o ficar. Chove no Natal presente. Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse O Natal da convenção, Quando o corpo me arrefece Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra E o Natal a quem o fez, Pois se escrevo ainda outra quadra Fico gelado dos pés.

Pessoa, Fernando (1930). Chove é dia de Natal, in Cancioneiro. Acedido em 9 de dezembro de 2013 em: http://www.citador.pt/poemas/chove-e-dia-de-natal-fernando-pessoa.

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CIDADE

Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas, Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta, Saber que existe o mar e as praias nuas, Montanhas sem nome e planícies mais vastas 14

Que o mais vasto desejo, E eu estou em ti fechada e apenas vejo Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.

Saber que tomas em ti a minha vida E que arrastas pela sombra das paredes A minha alma que fora prometida Às ondas brancas e às florestas verdes.

Andresen, Sophia de Mello Breyner (2013). Poesia. Porto: Assírio & Alvim, p. 38.


[NO ALTO MAR]

No alto mar A luz escorre Lisa sobre a água. Planície infinita Que ninguém habita.

O Sol brilha enorme Sem que ninguém forme Gestos na sua luz.

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Livre e verde a água ondula Graça que não modula O sonho de ninguém.

São claros e vastos os espaços Onde baloiça o vento E ninguém nunca de delícia ou de tormento Abriu neles os seus braços.

Andresen, Sophia de Mello Breyner (2013). Poesia. Porto: Assírio & Alvim, p. 59.


AS MÃOS E OS FRUTOS VI

Não canto porque sonho. Canto porque és real. Canto o teu olhar madurão, o teu sorriso puro, a tua graça animal.

Canto porque sou homem. Se não cantasse seria somente um bicho sadio embriagado na alegria da tua vinha sem vinho.

Canto porque o amor apetece. Porque o feno amadurece nos teus braços deslumbrados. Porque o meu corpo estremece por vê-los nus e suados.

Andrade, Eugénio (2012). Primeiros poemas, As mãos e os frutos, Os amantes sem dinheiro. Porto: Assírio & Alvim, pág. 48.

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FEIRA DESMANCHADA

Num frouxo de riso, desmonto o barraco; vida é outra loiça, que não este caco. Rio como pode rir um português ao ouvir, ocioso: - Será para outra vez... - Aqui há talento! Dizem - me os vèdores. Seja para alívio das nossas dores! Mas que remédio senão ser talentoso quando tudo anda tão nervoso e não há licença de porte dessa arma que é a palavra não desfigurada! Talento manejado a meu talante, sê modesto, já que és, afinal, o circunstante, e eu, o teu dono, se tiveres lazer, sem disparos verbais andava era aos pardais, por esses trigais e milheirais que lhes dão de comer... O’Neill, Alexandre (2002). Poesias completas (3ª ed.). Lisboa: Assírio & Alvim, p. 251.

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ESTIGMA

Filhos dum deus selvagem e secreto E cobertos de lama, caminhamos Por cidades, Por nuvens E desertos. Ao vento semeamos o que os homens não querem. 18

Ao vento arremessamos as verdades que doem E as palavras que ferem. Da noite que nos gera, e nós amamos, Só os astros trazemos. A treva ficou onde Todos guardamos a certeza oculta Do que nós não dizemos, Mas que somos.

Santos, J. C. Ary dos (2002). Obra poética (6º ed.). Lisboa: Editorial Avante, p. 51.


TRISTÃO E ISOLDA

Sobre o mar de Setembro velado de bruma O sol velado desce Impregnando de oiro a espuma Onde a mais vasta aventura floresce.

Tristão e Isolda que eu sempre vi passar Num fundo de horizontes marítimos Trespassados como o mar Pela fatalidade fantástica dos ritmos Caminham na agonia desta tarde Onde uma ânsia irmã da sua arde.

Tristão e Isolda que como o Outono, Rolando de abandono em abandono, Traziam em si suspensa Indizivelmente a presença Extasiada da morte.

Andresen, Sophia de Mello Breyner (2011). Obra Poética (2ª Ed.). Alfragide: Editorial Caminho, p. 107.

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ESTAÇÕES DO ANO

Primeiro vem Janeiro Suas longínquas metas São Julho e Agosto Luz de sal e de setas A praia onde o vento Desfralda as barracas E vira os guarda-sóis Ficou na infância antiga Cuja memória passa Pela rua à tarde Como uma cantiga O verão onde hoje moro É mais duro e mais quente Perdeu-se a frescura Do Verão adolescente Aqui onde estou Entre cal e sal Sob o peso do sol Nenhuma folha bole Na manhã parada E o mar é de metal Como um peixe-espada

Andresen, Sophia de Melo Breyner (2011). Obra poética (2ªed.). Alfragide: Editorial Caminho, p. 662.

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A UM LIVRO

No silêncio de cinzas do meu Ser Agita-se uma sombra de cipreste, Sombra roubada ao livro que ando a ler, A esse livro de mágoas que me deste.

Estranho livro aquele que escreveste, Artista da saudade e do sofrer! Estranho livro aquele em que puseste Tudo o que eu sinto, sem poder dizer!

Leio-o, e folheio, assim, toda a minh’alma! O livro que me deste é meu, e salma As orações que choro e rio e canto! ...

Poeta igual a mim, ai que me dera Dizer o que tu dizes! ... Quem soubera Velar a minha Dor desse teu manto! ...

Espanca, Florbela (1978). Sonetos (28ª ed.). Venda Nova: Bertrand Editora, p. 56.

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POEMA SEM NOME

Não me venham dizer que amam a vida Porque é mentira; E eu não quero acreditar que amam a vida Sem sentirem a mágoa dos espinhos OU o peso da cruz que Deus vos deu. Não me venham dizer que amam a vida E os seus caminhos, ou a aparência do céu! Não me venham dizer que amam a vida Porque eu, Não lhes quero contar tudo o que vi: Homens famintos, ébrios de vingança; Crianças que se matam e que se odeiam; A morte a amortalhar a esperança; Os pobres, os mendigos e os ladrões, E os corações Fechados num castelo de desgraça! Não me venham dizer que amam a vida, Não me venham dizer que amam a vida, Que eu não quero ter pena De já não viver.

Santos, José Carlos Ary dos (1994). Obra Poética (6ª ed.). Lisboa: Editorial «Avante», p. 431-432.

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SONETO DE INÊS

Dos olhos corre a água do Mondego os cabelos parecem choupais Inês! Inês! Rainha sem sossego dum rei que por amor não pode mais.

Amor imenso que também é cego amor que torna os homens imortais. Inês! Inês! Distância a que não chego morta tão cedo por viver demais.

Os teus gestos são verdes os teus braços são gaivotas poisadas no regaço dum mar azul turquesa intemporal.

As andorinhas seguem os teus passos e tu morrendo com os olhos baços Inês! Inês! Inês de Portugal.

Santos, José Carlos Ary dos (1994). Obra Poética (6ª ed.). Lisboa: Editorial Avante, p. 411.

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HÁ JARDINS

Há jardins invadidos de luar Que vibram no silêncio como liras. Segura o teu amor entre os teus dedos Neste jardins de abril em que respiras.

A vida não virá — as tuas mãos Não podem colher noutras a doçura Das flores baloiçando ao vento leve.

Fosse o teu corpo feito de luar, Fosses tu o jardim cheio de lagos, As árvores em flor, a profusão Da sua sombra negra nos caminhos.

Andresen, Sophia de Mello Breyner (2011). Obra Poética (2ª ed.). Alfragide: Editorial Caminho, p. 132.

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OS REIS MAGOS (…) Os Reis Magos viram rastros do avatar de um grande Deus (…) Somente olham, sem cessar, a branca estrela brilhante como o ceptro dominante do rei que vai a reinar. (…) Seguem a luz do astro belo, que as estradas lhes clareia, até chegar ao castelo, do rei que reina em Judeia. Chegados ao rei cruel, que de Herodes nome tem, bradam: “O Rei de Israel nasceu em Jerusalém?...”

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Fica assombrado o Tetrarca, Diz-lhes tal nova ignorar. - “Mas, em nome de Santa Arca, voltai, reis, ao meu solar!” (…) Tomam os reis seus bordões Levantam as suas tendas. Carregam suas oferendas. Demandam novas regiões. (…) Rojam as barbas nevadas Sobre o Deus que adormecera. Com as mãozinhas rosadas da Mãe nos seios de cera. E erguendo seus olhos graves, perguntam então “É este o rei dos senhores? Tábua da Lei das rainhas? Por archeiros – tem pastores. Por pagens – as andorinhas.”

Leal, Gomes (1991). Os Reis Magos in Antologia Poética de Sophia de Melo Breyner Andresen. Lisboa: Editorial Caminho, pp. 82-87.


LIBERDADE

Viemos com o peso do passado e da semente esperar tantos anos torna tudo mais urgente e a sede de uma espera só se estanca na torrente e a sede de uma espera só se estanca na torrente

Vivemos tantos anos a falar pela calada só se pode querer tudo quando não se teve nada só quer a vida cheia quem teve a vida parada só quer a vida cheia quem teve a vida parada

Só há liberdade a sério quando houver a paz, o pão habitação saúde, educação só há liberdade a sério quando houver liberdade de mudar e decidir quando pertencer ao povo o que o povo produzir quando pertencer ao povo o que o povo produzir.

Godinho, Sérgio. Canções de Sérgio Godinho. Porto: Assírio & Alvim, consultado em 23 de abril de 2014 em: http://becre-esct.blogspot.pt/2011/04/cancoes-de-abril-xvii-sergio-godinho.html

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MÃE DE AMOR

Mãe forte Me protege Das maldades desta vida Da vontade sem medida E me afaste do herege Mãe negra Me amamente Com sua doçura bendita E nesta infância infinita A minha alma alimente Mãe santa Me abençoe Em meus atos e palavras Dê fartura à minha lavra E que da fé eu não destoe Mãe sábia Me ensina A caminhar com retitude Que eu alcance a plenitude Do saber e disciplina Mãe minha Me abrace Pra que eu possa adormecer E em seus braços permanecer Até que um dia o medo passe.

Néspoli, António Sérgio. «Mãe de Amor». In Mensagens com Amor, consultado em 30 de abril de 2014 e disponível em: http://www.mensagenscomamor.com/poemas-e-poesias/poemas_maes.htm,

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SONETOS DO REGRESSO I

Volto contigo à terra da ilusão, mas o lar de meus pais levou-o o vento e se levou a pedra dos umbrais o resto é esquecimento: procurar o amor neste deserto onde tudo me ensina a viver só e a água do teu nome se desfaz em sílabas de pó é procurar a morte apenas, o perfume daquelas longínquas açucenas abertas sobre o mundo como estrelas: despenhar no meu sono de criança inutilmente a chuva da lembrança.

Oliveira, Carlos (2004). Sonetos do Regresso, in Quinze Poetas Portugueses do Séc. XX. Lisboa: Assírio &Alvim, p.196.

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DE TARDE VIERA ALGUÉM COM FLORES

De tarde viera alguém com flores - lírios, jacintos, narcisos, despedidas - e a porta ficara aberta desde então. Agora as traças ciciavam

lá fora numa alegria turva em redor de uma lâmpada; e, sobre o banco do alpendre, jazia um livro aberto na mesma página fazia quase um dia.

Batia-me nos pulsos uma vida vencida; e, mesmo que a terra apenas aguardasse o fulgor da manhã para chamar pelo teu corpo, tive a certeza de que era sobre o meu que a noite eternamente se abatia.

Pedreira, Maria do Rosário (2012). Poesia Reunida. Lisboa: Quetzal Editores, p. 125.

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RECADO AOS AMIGOS DISTANTES

Meus companheiros amados, não vos espero nem chamo: RETRATO DE UMA PRINCESA DESCONHECIDA porque vou para outros lados. Mas é certo que vos amo. Para que elasempre tivesseos umque pescoço Nem estão tão maisfino perto fazem melhor companhia. Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule Mesmo com sol encoberto, Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos todos sabem quando é dia. Para que a sua espinha fosse tão direita Pelo vosso campo E ela usasse a cabeça tãoimenso, erguida vou tão cortando meus atalhos. Com uma simples claridade sobre a testa Por vosso amor é que penso Foramenecessárias sucessivas gerações de escravos me dou tantos trabalhos. De corpo dobrado e grossas mãos pacientes Nãosucessivas condeneis, por enquanto, Servindo gerações de príncipes minha rebelde maneira. Ainda um pouco toscos e grosseiros Para libertar-me tanto, Ávidosfico cruéis e fraudulentos vossa prisioneira. mais desperdiçar que longe pareça, Foi umPor imenso de gente ides na minha lembrança, Para que ela fosse aquela perfeição ides na minha cabeça, Solitária exilada sem destino valeis a minha Esperança.

Andresen, Sophia de Mello Breyner (2011). Obra Poética (2ª ed.). Meireles, Cecília (1951). Antologia Poética. Alfragide: Editorial Caminho, Lisboa: Relógio d’Água, p. 593. 286.

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RETRATO DE UMA PRINCESA DESCONHECIDA

Para que ela tivesse um pescoço tão fino Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos Para que a sua espinha fosse tão direita E ela usasse a cabeça tão erguida Com uma tão simples claridade sobre a testa Foram necessárias sucessivas gerações de escravos De corpo dobrado e grossas mãos pacientes Servindo sucessivas gerações de príncipes Ainda um pouco toscos e grosseiros Ávidos cruéis e fraudulentos

Foi um imenso desperdiçar de gente Para que ela fosse aquela perfeição Solitária exilada sem destino

Andresen, Sophia de Mello Breyner (2011). Obra Poética (2ª ed.). Alfragide: Editorial Caminho, p. 593.

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POEMAS LIDOS NA ESCOLA BÁSICA E SECUNDÁRIA DE MACEDO DE CAVALEIROS – ENSINO SECUNDÁRIO

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ESCREVO-TE COM O FOGO E A ÁGUA. ESCREVO-TE

Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te no sossego feliz das folhas e das sombras. Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa. Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes. Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.

O que procuro é um coração pequeno, um animal perfeito e suave. Um fruto repousado, uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado, uma pergunta que não ouvi no inanimado, um arabesco talvez de mágica leveza.

Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma? Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore. As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos. O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu, o grande sopro imóvel da primavera efémera. Rosa, António Ramos (1986). Volante Verde. Lisboa: Moraes Editora

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AS PALAVRAS COMEÇAM A FICAR VELHAS: TÊM

As palavras começam a ficar velhas: têm dores nas articulações e rangem, de vez em quando, sem razão; reclamam óleos e resinas, tempo e açúcares mais lentos. Mas também eu estou velha demais para oficinas, tão cansada de livros e papéis, morta por viver outras coisas – por amor, talvez espreitasse de novo nas mangas do mundo e escrevesse uma fiada de búzios no pulso da areia. Mas quantos dos teus beijos perderia? Perdoem-me os que ainda esperam por mim. Não sei se volto.

Pedreira, Maria do Rosário (2012). Poesia reunida. Lisboa: Quetzal, p.249.

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A FORÇA DAS COISAS

Passeio sob a sombra de mulheres frondosas de uma infinitésima memória Restam-me os limões doces da síria já que me falta deus ó alpedrinha ou súbito desejo de ficar na noite dormindo o sono íntimo da terra Foi-se o milagre das fontes pelo estio e não sei que fazer das favas novas pois abril é um mês que não conheço Não mereço o barco encalhado de abidjan após o nascer público do sol sobre o ramo do cardo emblema da traição Calmo com um pôr-do-sol vermelho encerro a cerimónia quotidiana Quantos fatos vesti quantos despi nas ruas devassadas por domingos perante a áspera censura do mar ou a grande catástrofe do meio-dia assinalando a morte da manhã Não terei mesmo um céu sem privilégios tão previsível como uma recordação a arte embaladora das palavras Eis que está próximo o funesto inverno é o tempo de tudo abandonar (…) Belo, Ruy (1990). Obra Poética. (Vol. II, 2º ed.) Lisboa: Editorial Presença, p. 17-18.

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POEMA

A minha vida é o mar o Abril a rua O meu interior é uma atenção voltada para fora O meu viver escuta A frase que de coisa em coisa silabada Grava no espaço e no tempo a sua escrita Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro Sabendo que o real o mostrará Não tenho explicações Olho e confronto E por método é nu o meu pensamento A terra o sol o vento o mar São minha biografia e são meu rosto Por isso não me peçam cartão de identidade Pois nenhum outro senão o mundo tenho Não me peçam opiniões nem entrevistas Não me perguntem datas nem moradas De tudo quanto vejo me acrescento E a hora da minha morte aflora lentamente Cada dia preparada

Andresen, Sophia de Mello (2011). Obra Poética (2ª ed.) Lisboa: Editorial Caminho, pág. 525.

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O LUTADOR Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe a manhã. CONCLUSÃO São muitas, eu pouco. Algumas, tão fortes como o javali. Os me impactos de amor não são poesia Não julgo louco. Se(tentaram o fosse, teria ser: aspiração nocturna). poder de encantá-las. A memória infantil e o outono pobre Mas lúcido e frio, vazam eno verso de nossa urna diurna. apareço tento apanhar algumas para sustento Quemeu é poesia, o belo? Não é poesia, num dia de vida. e o que não é poesia não tem fala. Deixam-se enlaçar, Nem àocarícia mistério em si nem velhos nomes tontas são: coxa, furta, cabala. e poesia súbito fogem e não há ameaça e nem há sevícia Então, desanimamos. Adeus, tudo! que as traga de novo mala pronta, o corpo desprendido, aoAcentro da praça.

resta a alegria de estar só, e mudo. Insisto, solerte. Busco persuadi-las. De que seescravo formam nossos poemas? Onde? Ser-lhes-ei envenenado lhes responde, deQue rarasonho humildade. Guardarei sigilo se o poeta é um ressentido, e o mais são nuvens? de nosso comércio. Na voz, nenhum travo Andrade, Carlos Drummond de (2007). «Antologia Poética». Lisboa: Relógio de zanga ou desgosto. D’Água Editores, p.103. Sem me ouvir deslizam, perpassam levíssimas e viram-me o rosto. Lutar com palavras parece sem fruto. Não têm carne e sangue Entretanto, luto. (…) Andrade, Carlos Drummond de (2007). Antologia poética. Lisboa: Relógio d’água, pp. 93,94.

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O INFANTE

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Deus quis que a terra fosse toda uma, Que o mar unisse, já não separasse. Sagrou-te, e foste desvendando a espuma, E a orla branca foi de ilha em continente, Clareou, correndo, até ao fim do mundo, E viu-se a terra inteira, de repente,

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Surgir, redonda, do azul profundo. Quem te sagrou criou-te português. Do mar e nós em ti nos deu sinal. Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Pessoa, Fernando (1988). Mensagem. Lisboa: Edições Ática, p. 57.


FLORESTA

Entre o terror e a noite caminhei Não em redor das coisas mas subindo Através do calor de suas veias Não em redor das coisas mas morrendo Transfigurada em tudo quanto amei.

Entre o luar e a sombra caminhei: Era ali a minha alma, cada flor — Cega, secreta e doce como estrelas — Quando a tocava nela me tornei.

E as árvores abriram os seus ramos Os seus ramos enormes e convexos E no estranho brilhar de seus reflexos Oscilavam sinais, quebrados ecos Que no silêncio fantástico beijei.

Andresen, Sophia de Mello Breyner (2011). Obra poética (2ª ed..) Alfragide: Editorial Caminho, p. 130.

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OUTRO DIA Escrever assim ... escrever sem arte, sem cuidado, sem estilo, sem nobreza, nem lindeza ... sem maior concentração, sem grandes pensamentos, sem belas comparações, não será escrever! Mas assim me apetece, que o entendam ou não, que o admitam ou não, escrever ... estender o delgado, estiado, inoperante pensamento. Este pensar não é actuar mentalmente, sequer, é descansar ... (…) Antes ensaiei vestidos, mas todos usados… Vestidos de verão, leves, remoçantes, que dá gosto ensaiar. É uma experiência que se faz… Vemo-nos ao espelho e ele que nos diz? Tudo o que desejamos e também o que receamos… Que me diz o espelho? Fala-me dos olhos, fala-me do corpo, engana-me… Mas também me diz, tantas vezes?: nada esperes, És tola. (…) Lisboa, Irene (1991). Um dia e outro dia… outono havias de vir. Lisboa: Editorial Presença, p. 47-49.

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LITANIA DO NATAL A noite fora longa, escura, fria. Ai noites de Natal que dáveis luz, Que sombra dessa luz nos alumia? Vim a mim dum mau sono, e disse: «Meu Jesus…» Sem bem saber, sequer, porque o dizia. E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!» Na cama em que jazia, De joelhos me pus E as mãos erguia. Comigo repetia: «Meu Jesus…» Que então me recordei do santo dia. 41 E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!» Ai dias de Natal a transbordar de luz, Onde a vossa alegria? Todo o dia eu gemia: «Meu Jesus…» E a tarde descaiu, lenta e sombria. E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!» De novo a noite, longa, escura, fria, Sobre a terra caiu, como um capuz Que a engolia. Deitando-me de novo, eu disse: «Meu Jesus…» E assim, mais uma vez, Jesus nascia.

Régio, José (s.d). Litania de Natal. Acedido em 9 de dezembro de 2013 em: http://www.culturalivre.net/2010/12/23/lindos-poemas-de-natal/.


[SEMPRE A APRENDIZAGEM DO SILÊNCIO]

Sempre a aprendizagem do sossego a evidência enigmática do silêncio não mais que um esboço a furtiva sombra da cor futura a ínfima inscrição do pólen

a concha de sangue a sombra de uma folha o murmúrio de um delicado insecto a confiança num segredo que é espaço a adesão às linhas de uma pedra pura

um abrigo da terra a semelhança uma sombra de vermelho ocre a cintilação da matéria o puro sabor de um fruto azul o natal letargo dentro do lúmen

Rosa, António Ramos (1992). Pólen-Silêncio in Antologia Poética. Lisboa: D. Quixote, p. 315.

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ESPAÇO PARA A CANÇÃO

As noites desmedidas de novembro abertas sobre a queixa rígida das árvores inauguram o outono sobre a terra Adeus ó meu verão impiedoso ó limpidez da água sobre as pedras ó inúmeros galos da manhã ó tempestade agreste de alegria É o país da música é a fome da noite impossível estar só razoável rapaz meu príncipe da própria juventude Nos cabelos de vento do mar morto do destino fundo antigo de água conchas e areias no centro solitário deste sol ante a solenidade sensual do sono eu olho os paralelepípedos do nada não me detenho nos umbrais das trevas caminho numa mesma direcção Onde o cheiro da esteve sobre a vila o trigo para o campo do olhar as estreles abertas pelo céu? (…) Belo, Ruy (1990). Obra poética, (Vol. 2, 2ª ed.) Lisboa: Editorial Presença, pág. 18.

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DESFECHO

Não tenho mais palavras, Gastei-as a negar-te… (Só a negar-te eu pude combater O terror de te ver Em toda a parte). Fosse qual fosse o chão da caminhada, Era certa a meu lado A divina presença impertinente Do teu vulto calado E paciente… E lutei, como luta um solitário Quando alguém lhe perturba a solidão Fechado num ouriço de recusas, Soltei a voz, arma que tu não usas, Sempre silencioso na agressão. Mas o tempo moeu na sua mó O joio amargo do que te dizia… Agora somos dois obstinados, Mudos e malogrados, Que apenas vão a par na sua teimosia.

Torga, Miguel (2000). Poesia Completa. Lisboa: Dom Quixote, p. 636.

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S. LEONARDO DE GALAFURA

À proa dum navio de penedos, A navegar num doce mar de mosto, Capitão no seu posto De comando, S. Leonardo vai sulcando As ondas Da eternidade, Sem pressa de chegar ao seu destino. Ancorado e feliz no cais humano, É um antecipado desengano Que ruma em direção ao cais divino. Lá não terá socalcos Nem vinhedos Na menina dos olhos deslumbrados; Doiros desaguados Serão charcos de luz Envelhecida; Razos, todos os montes Deixarão prolongar os horizontes Até onde se extinga a cor da vida. Por isso é devagar que se aproxima Da bem-aventurança. É lentamente que o rabelo avança Debaixo dos seus pés de marinheiro. E cada hora a mais que gasta no caminho É um sorvo a mais de cheiro A terra e a rosmaninho.

Torga, Miguel (2000). Poesia Completa. Lisboa: Dom Quixote. p. 636.

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POEMA

As palavras mais nuas as mais tristes. As palavras mais pobres as que vejo sangrando na sombra e nos meus olhos. Que alegria elas sonham, que outro dia, para que rostos brilham? Procurei sempre um lugar 46

onde não respondessem, onde as bocas falassem num murmúrio quase feliz, as palavras nuas que o silêncio veste. Se reunissem para uma alegria nova, que o pequenino corpo de miséria respirasse o ar livre, a multidão dos pássaros escondidos, a densidade das folhas, o silêncio e um céu azul e fresco. Rosa, António Ramos (2001). Antologia poética. Lisboa: Dom Quixote, p. 38.


O JARDIM O jardim está brilhante e florido. Sobre as ervas, entre as folhagens, O vento passa, sonhador e distraído, Peregrino de mil romagens. É Maio ácido e multicolor, Devorado pelo próprio ardor, Que nesta clara tarde de cristal Avança pelos caminhos Até os fantásticos desalinhos Do meu bem e do meu mal. E no seu bailado levada Pelo jardim deliro e divago, Ora espreitando debruçada Os jardins do fundo do lago, Ora perdendo o meu olhar Na indizível verdura Das folhas novas e tenras Onde eu queria saciar A minha longa sede de frescura. Andresen, Sophia de Mello Breyner (2011). Obra Poética (2ª Ed.). Alfragide: Editorial Caminho, p. 81.

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SAÚDAS A TUA SOMBRA

Saúdas a tua sombra na tua escadaria da noite Enches os cântaros matinais com a água azul das derradeiras estrelas Preparas assim a coluna vertical do dia mas tens de entrelaçar os signos do vento e atravessar as silentes passadeiras da água em que tens de dizer o que na língua oscila como um talismã incerto que resvala na garganta És tão anónimo que não sabes que pedra ou ramos hás-de oferecer aos vivos para que não se afundem num pântano É então que inventas uma constelação em forma de barco e regressas à rugosa identidade terrestre.

Rosa, António Ramos (2001). À mesa do vento seguido de as espirais de Dionísio. In Antologia Poética (1ª ed.). Lisboa: Publicações Dom Quixote, p. 381.

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NUMA DESPEDIDA

A boémia não morreu. Eis-nos com os cabelos brancos; E, todavia, os barrancos Do seu destino, e do meu, Se nos quebraram as pernas, As asas não as partiram, Em que altos sonhos deliram As nossas almas eternas.

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Depois de tantos baldões, Devera ter-se ido a fé: Temos tido pontapé Das mais caras ilusões... E não morre a mocidade! Após enganos, enganos... Pois só daqui a cem anos Choraremos de saudade?

Pessanha, Camilo (1969). Clepsidra e outros poemas. Lisboa: Ática Limitada, p. 273-274.


SÃO TRISTES AS AVES QUE VIAJAM

São tristes as aves que viajam na memória do vento, tristes os olhos que se demoram no gargalo de um poço. E eu sou triste de não saber

que nome te pôs a morte quando ontem te deitou na sua cama, e te soprou nos cabelos o seu hálito frio, 50 e te embalou às escuras com uma canção de vidro em que as aves se enamoravam das próprias sombras

e, procurando-se em vão nas águas turvas de um poço, não sabiam que apenas mergulhavam lentamente, muito lentamente, na memória do vento.

Pedreira, Maria do Rosário (2012). Poesia reunida. Lisboa: Quetzal Editores, p. 207.


BAIXO-RELEVO Dentro de um secular sossego nós somos a escultura de amanhã (trilhos de formigas descem no cabelo patinado de pó o coração) Tu e eu só estátuas de amanhã Não temos na mão a flor um livro uma espingarda uma cadeira gasta onde morrer E sem o monstro gótico apunhalado aos pés (todos os sonhos são de pedra ou bronze não os meus de palha ou de papel) Tu e eu baixo-relevo vendidos tocados expostos em vida perseguidos pelos milionários e pelos mortos talvez que invadiram já o pedestal das estátuas Tu e eu elípticos de sexo ontem gritada no meu peito hoje secreto no meu ventre deserdados da sombra já sem gesto escultura de amanhã Jorge, Luíza Neto (2009). “Baixo Relevo”. In Mãe, Valter Hugo; Reis-Sá, Jorge, A Alma não é pequena: 100 poemas portugueses para SMS (p.91). V.N. Famalicão: Centro Atlântico.PT.

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PRIMAVERA

É Primavera agora, meu Amor! O campo despe a veste de estamenha; Não há árvore nenhuma que não tenha O coração aberto, todo em flor!

Ah! Deixa-te vogar, calmo, ao sabor Da vida... não há bem que nos não venha Dum mal que o nosso orgulho em vão desdenha! Não há bem que não possa ser melhor! 52 Também despi meu triste burel pardo, E agora cheiro a rosmaninho e a nardo E ando agora tonta, à tua espera...

Pus rosas cor-de-rosa em meus cabelos... Parecem um rosal! Vem desprendê-los! Meu Amor, meu Amor, é Primavera!...

Espanca, Florbela (1997). Sonetos (28ª ed.). Venda Nova: Bertrand Editora, p. 182.


SONETO

Fecham-se os dedos donde corre a esperança, Toldam-se os olhos donde corre a vida. Porquê esperar, porquê, se não se alcança Mais do que a angústia que nos é devida?

Antes aproveitar a nossa herança De intenções e palavras proibidas. Antes rirmos do anjo, cuja lança 53

Nos expulsa da terra prometida.

Antes sofrer a raiva e o sarcasmo, Antes o olhar que peca, a mão que rouba, O gesto que estrangula, a voz que grita.

Antes viver do que morrer no pasmo Do nada que nos surge e nos devora, Do monstro que inventámos e nos fita.

Santos, José Carlos Ary dos (1994). Obra Poética (6ª ed.). Lisboa: Editorial Avante, p. 35.


SAÚDAS A TUA SOMBRA

Saúdas a tua sombra na última escadaria da noite Enches os cântaros matinais com a água azul das derradeiras estrelas Preparas assim a coluna vertical do sai mas tens de entrelaçar os signos do vento e atravessar as silentes passadeiras da água em que que se balbucia o que não se pode dizer em que tens de dizer o que na língua oscila como um talismã incerto que resvala na garganta És tão anónimo que não sabes que pedra ou ramos hás-de oferecer

aos vivos para que não se afundem num pântano É então que inventas uma constelação em forma de barco e regressas à rugosa identidade terrestre

Rosa, António Ramos (2001). Antologia Poética. Lisboa: D. Quixote, p. 381.

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ABRIL DE ABRIL

Era um Abril de amigo Abril de trigo Abril de trevo e trégua e vinho e húmus Abril de novos ritmos novos rumos. Era um Abril comigo Abril contigo ainda só ardor e sem ardil Abril sem adjectivo Abril de Abril. Era um Abril na praça Abril de massas era um Abril na rua Abril a rodos Abril de sol que nasce para todos. Abril de vinho e sonho em nossas taças era um Abril de clava Abril em acto em mil novecentos e setenta e quatro. Era um Abril viril Abril tão bravo Abril de boca a abrir-se Abril palavra esse Abril em que Abril se libertava. Era um Abril de clava Abril de cravo Abril de mão na mão e sem fantasmas esse Abril em que Abril floriu nas armas.

Alegre, Manuel. 30 anos de Poesia. Lisboa: Publicações D. Quixote, consultado em 23 de abril de 2014 em:

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DE JOELHOS

“Bendita seja a Mãe que te gerou.” Bendito o leite que te fez crescer Bendito o berço aonde te embalou A tua ama, pra te adormecer!

Bendita essa canção que acalentou Da tua vida o doce alvorecer ... Bendita seja a Lua, que inundou 56

De luz, a Terra, só para te ver ...

Benditos sejam todos que te amarem, As que em volta de ti ajoelharem Numa grande paixão fervente e louca!

E se mais que eu, um dia, te quiser Alguém, bendita seja essa Mulher, Bendito seja o beijo dessa boca!!

Espanca, Florbela (1997). Sonetos. Viseu: Livraria Bertrand. Pág. 58.


DE COINCIDÊNCIA EM INCOINCIDÊNCIA

É um quadrado quase perfeito em que a luz incide duramente - uma sombra aguçada e lisa acompanha o gesto de escrever. Ausência.

Mais exacta, mais viva a sombra da mão e do lápis forma um conjunto menos suspeito, de uma harmonia subjacente.

A coincidência da ponta do lápis

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com a ponta da sombra do lápis convida a uma coincidência de todos os pontos da incoincidência vasta em que escrevo.

Ilusão de uma perfeita justiça, ilusão dum amor recto como o mármore, tentação dum espelho claro, inflexível.

Não como um espelho, mas com a lisura e a tranquilidade do espelho. Alto ou largo ou baixo, imóvel, não para passear ao longo duma estrada, mas fragmento de uma turbilhão contido.

Rosa, António Ramos (2001). Antologia Poética. Lisboa: Dom Quixote, p. 82.


CINISMOS

Eu hei-de lhe falar lugubremente Do meu amor enorme e massacrado, Falar-lhe com a luz e a fé dum crente. Hei-de expor-lhe o meu peito descarnado, Chamar-lhe minha cruz e meu Calvário, E ser menos que um Judas empalhado. Hei-de abrir-lhe o meu íntimo sacrário E desvendar a vida, o mundo, o gozo, Como um velho filósofo lendário. Hei-de mostrar, tão triste e tenebroso, Os pegos abismais da minha vida, E hei-de olhá-la dum modo tão nervoso, Que ela há-de, enfim, sentir-se constrangida, Cheia de dor, tremente, alucinada, E há-de chorar, chorar enternecida! E eu hei-de, então, soltar uma risada.

Verde, Cesário (1969). Obra completa de Cesário Verde (2ª ed.). Lisboa: Portugália Editora, p. 129.

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AS FÉRIAS

Era uma rosa azul de água amarrada um palácio de cheiros um terraço e uma jarra de amigos derramada da casa até ao mar como um abraço.

Era a intensa e clara madrugada com cigarros dormindo no regaço e a ampulheta do sono defraudada no tempo cada dia mais escasso.

Era um país de urzes e lilases de tardes sonolentas espreguiçando um aroma de nardos pelo chão

E bandos de meninas e rapazes correndo amando rindo e adiando a minha inexorável solidão.

Santos, José Carlos Ary (1994). Obra Poética (6ª ed.). Lisboa: Editorial Avante, p. 337.

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O AMOR TUDO MATA QUANDO MORRE

Eu morro dia a dia, sabendo-o, sentindo-o, com a morte do amor em mim. Esvaiu-se, ensandeceu, partiu, espécie de sol sepultado por mãos ímpias, numa cratera de lua, algures, ou na tristeza de um retrato emudecido pela ausência de vozes em redor. Sem ele, a casa ficou deserta de risos, acenos e afectos, de tudo,

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as mãos ficaram ásperas, secas, a pele do rosto gretada, fria, e o sangue tornou-se lento e espesso, incapaz de dar vida às pequenas folhas orvalhadas da imaginação das noites. A erva cresce em redor de mim, os limões ficaram ressequidos sobre a toalha bordada, num canto da mesa. O amor tudo mata quando morre, detendo no seu movimento elementar, a máquina que ilumina o coração do dia.

Letria, José Jorge (2012). Poesia escolhida. Cascais: Câmara Municipal, p. 56.


CONCLUSÃO Mercê da colaboração e empenho de toda a comunidade escolar, designadamente da equipa das bibliotecas escolares, dos alunos, dos assistentes operacionais e da Direção, foi possível levar a bom porto a atividade “Abre a pestana com um poema por semana…”, enquadrada no projeto

aLeR+ do

Agrupamento de Escolas de Macedo de Cavaleiros, iniciada em dezembro de 2012. “O caminho faz-se caminhando”, como afirmou Fernando Pessoa, e foi fazendo jus a este verso que a semente desabrochou, proporcionando aos alunos o contacto profícuo com a poesia, que lhes merece tantas vezes animosidade. Com agrado conhecemos distintos aproveitamentos desta atividade que, em primeira instância, visava tão-somente a aproximação entre alunos e um mundo encantado e íntimo – o da poesia… Com o mesmo contentamento ouvimos os alunos perguntar pelo dia e pelo docente a quem caberia ler o poema da semana. Da gratidão para com os docentes, que souberam receber esta iniciativa e que a fizeram crescer, abraçando a dádiva da maneira que entenderam ser melhor, serão testemunhas estas breves palavras. A semente foi plantada em 2012, brotou, abriu em flor e deu belos frutos nos dois anos que se seguiram, precisa apenas de continuar a ser tratada com estima e carinho para se manter vigorosa e voltar a frutificar…

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E book abre a pestana com um poema por semana 3 º ciclo secundário 2013 2014  
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