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Gislane e Reinaldo Hist贸ria

volume

Manual do professor


Unidade

MURAT TANER/GETTY IMAGES

IV

A

Diversidade religiosa

s crenças religiosas são uma das mais antigas experiências coletivas do ser humano em busca de proteção para a vida e de segurança espiritual diante do fenômeno da morte. Elas estão estreitamente relacionadas com a história e as formas de organização das sociedades que lhes deram origem. O candomblé, por exemplo, que surgiu entre povos africanos, dotados de forte musicalidade, tem na música um importante componente religioso. Devido a essa historicidade, as religiões costumam ter preceitos, valores e ritos quase sempre incompreensíveis para quem não conhece a cultura da qual fazem parte. Assim, enquanto para algumas crenças não se deve trabalhar aos sábados, para outras o domingo é que deve ser preservado; enquanto para umas é importante raspar os cabelos, para outras não se deve cortá-los. De modo geral, todas as religiões pregam a paz, o bem e o amor ao próximo. Apesar disso, a intolerância em relação às crenças alheias já provocou muitas guerras em diversos períodos da História. Ainda hoje, conflitos como a guerra entre judeus e muçulmanos na Palestina, entre budistas e hindus no Sri Lanka e entre muçulmanos e cristãos no Sudão e na Nigéria, por exemplo, têm componentes religiosos. Nesta unidade estudaremos o mundo medieval europeu e o Império Islâmico – contextos históricos nos quais se desenvolveram o catolicismo e o islamismo, duas das maiores religiões do mundo moderno. Conheceremos também alguns dos reinos mais antigos da África e um pouco de sua cultura e de suas manifestações religiosas.

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murat taner/getty images

Muçulmanos rezam em mesquita de Ancara, Turquia, 2007.

Letreiro luminoso instalado no palco de um dos concertos da banda U2 durante a turnê Vertigo, realizada em 2005. No letreiro, a palavra Coexist está escrita com a meia-lua crescente dos muçulmanos (letra C), a estrela de Davi dos judeus (letra X) e a cruz dos cristãos (letra T), em apelo à coexistência e à tolerância entre as religiões.

COMEÇO DE CONVERSA 1. Você já presenciou ou tem conhecimento de algum exemplo de intolerância religiosa? Em grupos, compartilhem suas opiniões e relatem os casos que vocês conhecem. 2. Em que medida a tolerância religiosa contribui para ampliar a democracia em uma sociedade? Cite um exemplo para fundamentar sua opinião. 151


Capítulo 18

O mundo árabe-muçulmano

VIJAY MATHUR/REUTERS/LATINSTOCK

O islamismo é hoje a segunda maior religião do mundo. Com cerca de 1,3 bilhão de adeptos, ele defende a justiça e a prática da generosidade entre as pessoas. Seus seguidores são conhecidos como muçulmanos, que em árabe significa 'aqueles que se subordinam a Deus'. Essa crença religiosa foi fundada no século VII na atual Arábia Saudita pelo profeta Muhamad (Maomé) e desempenhou importante papel no processo de unificação dos diversos grupos árabes em torno de um governo centralizado. Neste capítulo, estudaremos como ocorreu essa unificação, cujo desdobramento mais significativo foi a formação de um império que, por volta do século VIII, se estendia da península Ibérica, na Europa, até o rio Indo, na Ásia.

Milhares de muçulmanos se reúnem diante da Grande Mesquita de Nova Délhi, na Índia, para comemorar a Eid al-Adha (Festa do Sacrifício), realizada para relembrar uma passagem do Velho Testamento segundo a qual, por ordem de Deus, o patriarca Abraão deveria imolar um de seus filhos. No último momento, porém, um anjo substituiu o menino por um carneiro. Nesse dia, os muçulmanos sacrificam carneiros para relembrar o acontecimento narrado na Bíblia. Nova Délhi, 9.12.2008.

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Por volta de 1200 a.C., os habitantes da península Arábica, cujo território é formado em sua maior parte por desertos, encontravam-se divididos em pequenas tribos. Os integrantes dessas tribos, os árabes, eram de origem semita, assim como os hebreus. Entre suas principais atividades econômicas estavam o pastoreio e o comércio. À medida que o comércio cresceu, os mercadores do sudoeste da península passaram a organizar caravanas em direção à Palestina e à Síria, mais ao norte, onde vendiam mercadorias do Oriente que chegavam pelo oceano Índico. Era uma viagem difícil, pois só havia água nos poucos oásis existentes no caminho. Sob o impulso do comércio, alguns núcleos urbanos se formaram em torno de oásis como os de Qurayya e Tayma, no noroeste da atual Arábia Saudita. De modo geral, esses centros se configuravam como cidades-Estado, pois contavam com leis e governos próprios. Pouco a pouco, alguns desses centros se enriqueceram com o comércio e se transformaram em reinos, como o de Sabá.

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Muitos deuses

Além de mercadorias, as caravanas difundiam ideias, notícias e formas de comportamento dos diversos lugares por onde passavam. Por estarem em contato constante com povos de diferentes crenças religiosas – judeus, zoroastristas e, mais tarde, cristãos –, os árabes desenvolveram um verdadeiro sincretismo religioso. Inicialmente, cultuavam diversos deuses relacionados aos astros e a fenômenos naturais. Além disso, eram animistas, ou seja, acreditavam que objetos inanimados – uma pedra, por exemplo – também tinham alma. Alguns desses objetos eram venerados em lugares de concentração de peregrinos. Um desses lugares era Meca, cidade situada em um oásis no lado ocidental da península Arábica e ponto de encontro das caravanas (veja o mapa da p. 163). Além de seu intenso comércio, Meca contava com um santuário construído em formato de cubo (ka’ba, em árabe), conhecido como Caaba. Ali, as pessoas reverenciavam 360 deuses e deusas e prestavam homenagens a uma pedra negra considerada sagrada.

AHMED JADALLIAH/REUTERS/LATINSTOCK

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Os árabes e o comércio de caravanas

Meca, Arábia Saudita, dezembro de 2008. Multidão de peregrinos muçulmanos rodeia a Caaba, situada no interior da Grande Mesquita. A peregrinação a Meca pelo menos uma vez na vida é um dos princípios fundamentais do islamismo.

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Maomé e o islamismo

Durante certo tempo, o governo de Meca foi exercido por um conselho do clã dos coraixitas. A partir de 613, contudo, um condutor de caravanas chamado Maomé passou a proclamar preceitos religiosos diferentes dos existentes na região. Maomé afirmava a existência de um único Deus, que chamou de Alá, e denominava sua religião de islã, que quer dizer submissão a Deus. Para os grandes co- * Veja o filme Maomé, o mensageiro de Alá, de merciantes, o monoteísMoustapha Akkad, 2001. mo de Maomé* representava um perigo, pois podia afastar os peregrinos e dessa maneira afetar o comércio. Hostilizado por eles, em setembro de 622 (pelo calendário cristão) Maomé fugiu para a cidade de Yatrebe. Essa viagem, conhecida como hégira (emigração), marca o início do calendário da nova religião difundida por Maomé. Os seguidores do islamismo passaram a ser chamados de muçulmanos (muslim, em árabe, cujo radical linguístico é o mesmo da palavra islã).

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O islã e a jihad

Em Yatrebe, que posteriormente passou a se chamar Medina (Cidade do Profeta), surgiu a primeira comunidade regida por princípios islâmicos. Sob a liderança de Maomé, o governo da cidade se tornou O mundo árabe-muçulmano Capítulo 18

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combater em nome de Alá. Os líderes tribais da região, percebendo a força militar conquistada por Maomé, uniram-se a ele, convertendo-se ao islamismo. Em janeiro BETTMANN/CORBIS/latinstock

teocrático: dizendo-se representante de Alá na Terra, o profeta assumiu as funções de juiz, líder espiritual, militar e administrativo. Além de proibir cultos politeístas na cidade, Maomé confiscou os bens de pessoas que não aderiram ao islamismo e organizou ataques às tribos vizinhas e às caravanas que cruzavam o deserto. Para justificar os ataques, afirmava que a luta contra os infiéis (pessoas que não seguiam o islã) era um “esforço em favor de Deus” – ou seja, uma jihad (veja na seção a seguir mais informações sobre a jihad, sobre Maomé e sobre os preceitos do islamismo). Aqueles que morressem em prol da fé muçulmana seriam considerados mártires e, como recompensa, conquistariam a salvação eterna no paraíso. Essa valorização da morte por meio da jihad provocou um aumento no número de pessoas dispostas a

Iluminura medieval. Montado a cavalo e sob a proteção de um anjo, o profeta Maomé comanda um grupo de seguidores.

Passado presente Princípios do islamismo Ao lado do cristianismo, o islamismo é hoje a * Leia o livro Infiel única religião do mundo – A história de uma com mais de 1 bilhão de mulher que desafiou o islã, de Ayaan Hirsi fiéis. A maioria deles con- Ali, Companhia das centra-se na Ásia (70%) e Letras, 2007. na África (26%)*. Maomé é o principal profeta da crença islâmica. Ele nasceu em Meca em 570 em uma família de mercadores. Ao viajar vendendo seus produtos, entrou em contato com as duas grandes religiões monoteístas da época, o judaísmo e o cristianismo. Segundo a tradição, quando tinha 40 anos Maomé teria recebido uma mensagem do anjo Gabriel, que lhe ordenou pregar a existência de um Deus único: Alá, em árabe. Entre 610 e 632, ano de sua morte, Maomé teria recebido revelações divinas que seriam reunidas no Corão, ou Alcorão, livro sagrado do islamismo. Dividido em 114 capítulos, chamados de suras, o livro pode ser considerado um verdadeiro sistema econômico, jurídico e político dos muçulmanos. Seus 6 326 versículos contêm elementos fundamentais do judaísmo e do cristianismo, além de antigas tradições religiosas árabes. Os cinco pilares da religião muçulmana são: aceitar que há um só Deus e que seu profeta é

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Unidade IV Diversidade religiosa

Maomé; rezar cinco vezes por dia voltado para Meca; ajudar os pobres; jejuar no mês sagrado do Ramadã; e peregrinar ao menos uma vez a Meca. Para os muçulmanos, abraçar o islã significa assumir o total compromisso de viver nos moldes prescritos no Alcorão. Trata-se de uma jihad, ou seja, de um esforço físico, moral, espiritual e intelectual em favor de Deus. De acordo com o historiador Peter Demant, o termo jihad pode significar tanto essa disciplina de transformação interior (grande jihad) como também o empenho na guerra de conversão dos não muçulmanos ao islamismo (pequena jihad). Fontes: DEMANT, Peter. O mundo muçulmano. São Paulo: Contexto, 2004. p. 24-8; BURGIERMAN, Denis Russo; CAVALCANTE, Rodrigo e VERGARA, Rodrigo. A palavra de Deus. Superinteressante, novembro de 2001; ARMSTRONG, Karen. Maomé: uma biografia do profeta. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

De olho no mundo O Alcorão prescreve a igualdade de direitos* en- * Veja o filme tre homens e mulheres. Em Osama, de Siddiq grupos, façam uma pes- Barmak, 2003. quisa a respeito da situação da mulher nas nações islâmicas. Cada equipe deverá escolher um país diferente. Ao final, apresentem um seminário sobre o assunto.


ficaram conhecidos como sunitas (a palavra árabe sunni significa aqueles que seguem os costumes). A outra facção entendia que o cargo deveria ser hereditário. Nesse caso, o parente muçulmano mais próximo de Maomé, seu primo e genro Ali, deveria ser também seu sucessor. Os adeptos dessa fórmula ficaram conhecidos como xiitas (do árabe shi’at Ali, ou seja, partido de Ali). Ainda hoje os muçulmanos se dividem entre sunitas (84%) e xiitas (16%). Enquanto os primeiros acreditam que a autoridade espiritual pertence à comunidade islâmica como um todo, os outros afirmam que o líder da comunidade, o imã, é quem deve centralizar o poder. Os sunitas saíram vitoriosos e Abu-Bakr se tornou o novo líder islâmico. Ele recebeu o título de califa, palavra árabe que quer dizer 'sucessor'. Ao contrário de Maomé, considerado profeta pelos muçulmanos, os califas eram tidos apenas como líderes políticos e religiosos. Quando Abu-Bakr morreu, em 634, praticamente todas as tribos da península Arábica já haviam se convertido ao islamismo. Seu sucessor, Omar ibn al-Khattab, deu início à expansão para fora da península que resultou na formação de um grande império, como se pode ver no mapa a seguir.

de 630, Maomé, acompanhado de cerca de 10 mil seguidores, invadiu a cidade de Meca e mandou destruir todos os ídolos existentes na Caaba. Depois, declarou o santuário lugar sagrado para os muçulmanos e centro de suas peregrinações. Aproveitando a estadia na cidade, organizou várias jihads a tribos e reinos vizinhos. Com esses fundamentos religiosos, Maomé unificou as tribos da península Arábica e criou um forte sentimento de identidade entre os árabes, fazendo surgir um Estado árabe-muçulmano. Quando morreu, em 632, praticamente toda a região ocidental da península Arábica estava sob domínio da teocracia islâmica.

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Sunitas e xiitas

Após a morte de Maomé, os islamitas se dividiram em duas facções: uma delas achava que a escolha do sucessor deveria recair sobre o muçulmano mais qualificado para o cargo. Para essa facção, aquele que apresentava melhores condições era Abu-Bakr, um dos sogros de Maomé (assim como outros árabes, Maomé tinha várias esposas). Os defensores dessa ideia

Mapa 04_m02_HSBgA – A expansão islâmica A expansão islâmica E U R O PA

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OCEANO ATLÂNTICO

REINO DOS FRANCOS Poitiers (732)

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Mar Negro ARMÊNIA

HISPÂNIA

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IMPÉRIO BIZANTINO

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QUILÔMETROS

Arábia na época de Maomé (622-632) Primeiras conquistas islâmicas (até 661)

OCEANO ÍNDICO

Conquistas posteriores (até 750) Batalhas

Fonte: Grand atlas historique. Paris: Larousse, 2006.

O mundo árabe-muçulmano Capítulo 18

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uma mudança na estrutura do Império, que deixou de ser um império árabe e se transformou em um império muçulmano. O califa tornou-se um autocrata com poderes absolutos, considerados de origem divina. Ao mesmo tempo, passou a ter a seu lado uma espécie de primeiro-ministro, o vizir, responsável pela parte administrativa do reino. Em 762, os abássidas transferiram a capital de Damasco para a recém-construída Bagdá, atual capital do Iraque.

A dinastia Omíada (661-749)

Depois de muitas lutas pelo poder, em 661 o Império passou para as mãos da família omíada. O governo se transformou então em uma monarquia laica. Os cargos administrativos, antes preenchidos de acordo com a importância religiosa das pessoas, passaram a ser ocupados conforme critérios de competência e conhecimento. A capital foi transferida de Medina para Damasco, na Síria, e o árabe escolhido como idioma oficial do Império, tornando-se obrigatório para todas as pessoas que se convertessem ao islamismo. Em 711, os árabes conquistaram, a leste, a região do Indo – atuais Paquistão e Afeganistão – e, a oeste, a península Ibérica. Entre 749 e 750, uma guerra civil derrubou os omíadas e o Império passou para as mãos dos abássidas, dinastia apoiada pelos xiitas. Os omíadas ficaram apenas com a península Ibérica, onde criaram um califado independente em 756. UWE GERIG/DPA/CORBIS/LATINSTOCK

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Interior de templo construído pelos muçulmanos (mesquita) em Córdoba, na Espanha. Sede do califado da península Ibérica durante a ocupação muçulmana (711-1492), Córdoba foi recuperada pelos cristãos em 1236. A mesquita foi então transformada em catedral católica.

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A dinastia abássida (749-1258)

A dinastia abássida consolidou o islamismo nas regiões conquistadas. Ao permitir que muçulmanos não árabes ocupassem cargos públicos, promoveu

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Unidade IV Diversidade religiosa

Saber e cultura no mundo islâmico

Nas bibliotecas públicas de Bagdá, centenas de copistas se dedicavam a traduzir para o árabe tratados de Filosofia, Ciências, Matemática e Medicina escritos em grego, latim, hindu, persa e outras línguas. Para abrigar todo esse material foi construído um complexo de museus e bibliotecas conhecido como Bait al-hikma, ou seja, A Casa da Sabedoria. Nessas condições, Bagdá passou a atrair intelectuais de diversas regiões. Uma das obras literárias mais conhecidas de todos os tempos, As mil e uma noites, foi produzida nesse império (veja a seção No mundo das letras na p. 168). Iniciada em Bagdá, essa revitalização cultural e científica se propagou por todo o mundo muçulmano (veja a seção Olho vivo a seguir). Muitos califas e mercadores ricos passaram a atuar como protetores das artes e das ciências, favorecendo avanços importantes em diversas áreas do conhecimento, como a invenção de novas técnicas agrícolas e de novos métodos para a construção de canais de irrigação. Em contato com povos de diferentes regiões, os muçulmanos introduziram em seu território produtos como a cana-de-açúcar, o arroz, a laranja e o limão. Na Astronomia, criaram um calendário, fundaram observatórios astronômicos e incorporaram às suas navegações instrumentos como quadrantes e astrolábios. No campo da Matemática, criaram a álgebra e a trigonometria e, com base no sistema numérico dos hindus, inventaram o sistema arábico. Com os conhecimentos de Mecânica, construíram balanças de grande precisão e ergueram moinhos movidos a água.


Olho vivo O amor proibido de Layli e Majnun A história de amor de Majnun e Layli é uma das mais conhecidas da literatura árabe. Escrita por volta do século VII, ela conta como o jovem Majnun enlouqueceu por não ter conseguido se casar com sua amada. A narrativa difundiu-se pelos territórios sob domínio árabe e recentemente foi transformada em filme pela indústria cinematográfica da Índia. A ilustração a seguir foi encontrada no atual Usbequistão (região asiática conquistada pelos árabes no século VIII), em uma cópia manuscrita dessa história datada do século XVI. Ela representa um conselho de anciãos avisando o pai de Majnun de que o rapaz corria o risco de perder a razão ao não poder se casar com a mulher amada. O artista utilizou guache, ouro e tinta sobre o papel em seu trabalho. A imagem nos oferece algumas pistas sobre a sociedade muçulmana e a narrativa de origem árabe. Proibidas de participar da reunião, as mulheres assistem ao encontro com curiosidade, a distância.

As mulheres ficavam separadas dos homens. Uma cortina divide as duas áreas.

Os turbantes e as barbas longas indicam que os homens presentes à reunião desempenhavam importante papel na sociedade.

Tenda típica dos beduínos, povo nômade do deserto.

musé du louvre, paris/réunion des musées nationaux/hervé lewandowski

Um serviçal oferece uma bebida quente aos representantes do conselho de anciãos.

Ilustração do século XVI em manuscrito contendo a história de Majnun e Layli.

A bebida pode ser café, que chegou à região no século XVI.

Majnun é reconhecido pelo cachorro de Layli. O rapaz o abraça e acaricia.

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UNIVERSITY LIBRARY, ISTAMBUL/THE BRODGEMAN ART LIBRARY/KEYSTONE

A Química foi outra área em que também se destacaram. Contando com excelentes laboratórios, fizeram diversos experimentos e descobriram novos produtos químicos, entre os quais o bórax, a amônia, o sal amoníaco, o ácido nítrico, o ácido sulfúrico e o nitrato de prata. Também inventaram o alambique e desenvolveram tintas para tingir tecidos.

Durante a Idade Média europeia, o mundo islâmico se destacou por seus avanços em áreas do conhecimento científico, como Matemática e Astronomia. Na imagem, um grupo de astrônomos trabalha no observatório Gálata, fundado em 1557 pelo sultão muçulmano Suleiman, em gravura turca do século XVI. Suleiman, cognominado o Magnífico, governou o Império Turco-Otomano entre 1520 e 1566.

Seus médicos foram pioneiros na elaboração de diagnósticos que levavam em consideração o estado emocional dos pacientes e na percepção de que certas doenças, como o sarampo, são transmitidas por meio de contágio. Na arquitetura, destacam-se as mesquitas (templos religiosos muçulmanos), sustentadas por grandes colunas, com arcos em forma de ferradura e enormes cúpulas. Como a religião islâmica não permite a reprodução de seres naturais, a decoração desses locais era rica em motivos geométricos, conhecidos como arabescos.

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O mundo islâmico se divide

No século VIII, o território islâmico foi dividido em diversos califados independentes. Novas divisões ocorreram nos séculos seguintes. Dessa forma, a expressão Império Muçulmano passou a ter uma conotação mais religiosa do que política, pois designava um conjunto de reinos ligados pelo islamismo, mas que não formavam um Estado unitário e centralizado. Em 1095, a Igreja católica deu início a uma série de campanhas bélico-religiosas contra os muçulmanos com o objetivo de reconquistar Jerusalém, cidade considerada sagrada (veja o boxe a seguir). Eram as Cruzadas, que se estenderam até o século XIII, como veremos no capítulo 23. Em 1258, os mongóis invadiram e saquearam Bagdá. A partir de então, o imenso território sob domínio muçulmano se fragmentou por completo, originando diversos Estados muçulmanos independentes uns dos outros. Apesar disso, a unidade cultural dos muçulmanos não foi destruída, permanecendo até hoje.

Jerusalém, uma cidade sagrada Fundada há cerca de 5 mil anos pelos jebusitas, um subgrupo dos cananeus, Jerusalém é considerada sagrada pelas três das maiores religiões monoteístas do mundo: o cristianismo, o islamismo e o judaísmo.

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No século XI a.C., os hebreus a conquistaram e ali o rei Salomão teria construído um grande templo em homenagem a Javé, Deus único reverenciado por seu povo. Para os cristãos, que dominaram Jerusalém entre 300 e 628, a cidade


NATIONAL LIBRARY OF THE NETHERLANDS/arquivo da editora

guarda a memória dos últimos dias de Jesus Cristo, pois lá ele teria sido julgado, crucificado e sepultado. Já os muçulmanos, que conquistaram a cidade em 638, acreditam que foi em Jerusalém que Maomé ascendeu aos céus. Esse fato teria ocorrido em 620 e é conhecido como Jornada Noturna. De acordo com os islamitas, Maomé encontrava-se dormindo em Medina quando o anjo Gabriel o acordou e o levou pelos ares até Jerusalém. Ali, após se encontrar com vários profetas – entre eles Moisés e Jesus –, Maomé atravessou sete céus e recebeu os ensinamentos divinos.

Diálogos Juntamente com seu grupo de colegas, e com a ajuda do(a) professor(a) de Geografia, faça uma pesquisa sobre a atual Jerusalém, identificando as tensões nascidas do convívio entre judeus e palestinos. Com os dados da pesquisa, monte um painel, destacando as diferenças de concepção entre os dois povos. Num debate sobre o tema com a classe, apresente o resultado do trabalho.

Representação de Jerusalém em manuscrito de 1200. Por essa época, a Terra Santa, da qual fazia parte a cidade de Jerusalém, era palco de sangrentas disputas entre cristãos e muçulmanos (veja o capítulo 23). Assim, na parte de baixo da gravura aparecem representados cavaleiros cristãos armados e em disposição de combate.

O Império Khazar Enquanto o islamismo se expandia pela Ásia, África e península Ibérica, os governantes do Império Khazar, a leste da Europa, se convertiam ao judaísmo. Os khazares eram um povo nômade e guerreiro originário do Oriente que se estabeleceu por volta do século VII numa região entre os montes Urais e os mares Cáspio e Negro, onde hoje se encontra a Federação Russa. Em 861, o governo khazar adotou o judaísmo como religião oficial. Um século depois, em 966, Sviatoslav, duque de Kiev, invadiu e conquistou o império, que entrou em declínio. Muitos habitantes da região migraram então para terras vizinhas. Segundo alguns historiadores, seriam eles os ancentrais dos judeus que vivem em países do Leste europeu, como Polônia, Lituânia e Romênia.

RIA NOVOSTI/TOPFOTO/KEYSTONE

Enquanto isso...

Arqueólogos trabalham nas ruínas da cidade de Itil, capital do antigo Império Khazar (ou Cazária), em foto de 2008. Entre os séculos VIII e X, o Império Khazar foi, segundo o escritor inglês de origem húngara Arthur Koestler, uma terceira força entre a cristandade e o islã.

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Organizando as ideias 1. No século XII a.C., a população da península Arábica era formada por pequenas tribos independentes. Como se realizavam as atividades econômicas nessa região?  s caravanas tiveram papel fundamental no 2. A desenvolvimento da sociedade árabe. Em termos religiosos e culturais, que importância elas tiveram? 3. E  m linhas gerais, como surgiu o islamismo e quais são suas principais características? 4. D  epois de conquistar Medina, Maomé liderou a ocupação da cidade de Meca, de onde havia fugido para escapar das represálias dos grandes comerciantes. Quais foram as medidas to-

madas por Maomé depois de assumir o poder em Meca? 5. Qual foi o papel da jihad no processo de ampliação do Império Islâmico? 6. De que modo a religião islâmica e a cultura árabe se fundiram num Estado árabe-muçulmano? 7. Após a morte de Maomé, os islamitas se dividiram em dois grupos, os sunitas e os xiitas. Apesar disso, constituíram um grande império. Descreva, em linhas gerais, como ocorreu a expansão do Império Islâmico entre os séculos VII e XIII. 8. E  screva um texto sobre o legado deixado pelos muçulmanos nas várias áreas do conhecimento humano.

No mundo das letras

O rompimento do contrato As mil e uma noites é um clássico da literatura árabe. Compilado provavelmente entre os séculos XIII e XVI, a obra reúne contos da tradição oral de vários povos – árabes, egípcios, persas e hindus. Suas histórias só se tornaram conhecidas no mundo ocidental no começo do século XVIII, quando foram traduzidas para o francês pelo orientalista Antoine Galland. Leia a seguir trecho de uma dessas histórias e responda ao que se pede. Meu futuro marido fez constar [no contrato de casamento] uma cláusula que me impedia de deitar os olhos sobre qualquer outra pessoa que não fosse ele. Concordei. Ele, todavia, não quis acreditar que eu manteria meu compromisso e exigiu que eu o jurasse. [...] Um dia, desejei comprar um retalho de seda e pedi a meu marido permissão para sair. Obtida a autorização, dirigi-me ao mercado de tecidos, acompanhada por uma anciã e de um eunuco. Entrei no setor de sedas. (...) Pedi à anciã que lhe rogasse [ao vendedor] nos mostrar um tecido de fabricação esmerada. — Peça você mesma — disse ela. — Não sabe que jurei a meu marido não falar com nenhum outro homem?

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Unidade IV Diversidade religiosa

Ela então pedido. [...]

resolveu

fazer

pessoalmente

o

O mercador exibiu sua mercadoria, que muito nos agradou. Decidi-me por um determinado tecido, do qual desejei um retalho. Pedi ainda à anciã que perguntasse o preço. — Em pagamento desse retalho, não peço moedas de prata nem mesmo de ouro — respondeu o jovem. — Quero o direito de depositar um beijo no ponto culminante de sua face. — Alá me proteja de aceitar este pedido! — protestei. Mas a velha replicou: — Ó senhora minha, que há de mal nisso? Vocês não trocarão palavras, e ele só fará o que disse. Pode obedecer! Aproximei meu rosto. Então o jovem mercador mordeu-me na face e arrancou-lhe um pedaço; de imediato, caí desfalecida e assim permaneci por quase uma hora. [...] Logo à noitinha, meu marido procurou-me no quarto e perguntou: — O que aconteceu, mulher querida? — [...] De onde vem isso? [...]


ROGER PERRIN/THE BRIDGEMAN ART LIBRARY/KEYSTONE

— É o efeito de um decreto de vida, de uma decisão do destino. Caí na armadilha que me foi preparada... E passei a murmurar palavras ininteligíveis. Ele insistia, queria conhecer a verdade. Recusei-me a esclarecer o incidente e respondi-lhe com palavras violentas. Então, ele gritou uma ordem e logo três escravos negros saíram de um armário. A um sinal de meu marido arrancaram-me da cama e arrastaram-me para o centro do salão, depois de amararem meus braços atrás das costas. Em seguida, conforme a ordem recebida, um segurou minha cabeça; outro meus joelhos, e o terceiro desembainhou um sabre. — Ó Sadi — gritou meu marido — corte esta mulher pelo meio com um único golpe de seu sabre. Quanto a vocês dois, que cada um pegue uma metade do corpo e a jogue ao rio Tigre para servir de alimentos aos peixes. Este é o castigo a quem trai a fé jurada. As mil e uma noites. São Paulo: Brasiliense, 1998. p.193-8. v. 2.

1. De acordo com essa passagem, o que você pode depreender a respeito do papel social da mulher na sociedade árabe daquela época? O califa em seu cavalo. Ilustração do livro As mil e uma noites, edição de 1895. Montado em um cavalo preto, o califa (líder) foi representado em tamanho maior do que as pessoas de sua comitiva, embora esteja mais distante do que elas em relação ao espectador, de modo a destacar seu poder.

2. Em grupos, realizem uma pesquisa sobre a situação das mulheres hoje no Brasil. Para tanto, escolham um enfoque específico: econômico, político, social, cultural, etc. Apresentem o resultado da pesquisa sob a forma de um texto coletivo.

Hora de Refletir

Em 11 de setembro de 2001, extremistas muçulmanos destruíram as torres gêmeas do World Trade Center de Nova York, nos Estados Unidos. Devido a esse atentado, muitos ocidentais passaram a associar os muçulmanos ao terrorismo.

Em sua opinião, é certo acusar todos os seguidores dessa crença pelos atos de alguns deles? Escreva seus argumentos na forma de tópicos e se prepare para expor suas ideias numa roda de conversa com seus colegas de classe.

O mundo árabe-muçulmano Capítulo 18

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Historia em Movimento  

Livro de Historia PNLD 2012