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Ousadia. Presidenta Dilma enfrenta problema secular da falta de médicos no Brasil.

Ricardo Kotscho

Mario Milani

Os segredos de Dilma

Informação e cidadania

19827202 1112 48

ISSN 1982-7202

Nº 48 - ANO 9 - R$ 9,90

Mais Médicos


48ª

EXPEDIENTE ISSN 1982-7202

19827202 1112 48

Bem Público é uma publicação da Hora Pública Editora novembro/dezembro de 2013 Editor-Chefe: Mario Luiz Milani

Projeto Gráfico e Paginação: Enter Comunicação

Editor Executivo Marcos Scotti

Assessoria Jurídica: Marcus Reis, Murilo Távora e Advogados associadosmarcus@vrs.com.br; murilo.tavora@terra.com.br

Colaboraram nesta edição: Irineu Colombo Jubal Dohms Joka Madruga Jeferson Brittes Lelington Lobo Franco Luiz Manfredini Naiara Milani Rafael Brittes Milani Serli Andrade

Departamento Administrativo bempublico@bempublico.com.br Departamento Comercial: comercial@bempublico.com.br Jeferson Brittes Departamento de Assinaturas assinaturas@bempublico.com.br Representação EnterPress Brasília - São Paulo - Salvador Florianópolis - Porto Alegre enter@enter.com.br

Articulistas Domingos Pellegrini Eloi Zanetti Ivan Schmidt João Pedro Stedile Jota Oliveira Leonardo Boff Parreira Rodrigues Ricardo Kotscho Willy Schumann

Parceiros: Hora Pública Editora Enter Comunicação Distribuição Ghignone Distribuidora Av. Iguaçu, 624 - Rebouças Curitiba - PR (41) 33237737

Correspondentes: EUA: Kim Mastters Indonésia: Fabio Mesquita Alemanha: Werner Schumann Itália: Marcus Carboneri

Matérias assinadas não significam necessariamente a opinião da revista.

REALIZAÇÃO

Hora Pública Editora Rua Amazonas, 75 - Água Verde - Telefone (41) 3332-7580 - Curitiba/Paraná CEP: 80610-030 - E-MAIL: bempublico@bempublico.com.br

4 - edição 48 - 2013

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ÍNDICE

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Paixão e o Brasil das manifestações

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Ensaio sobre as manifestações

12 Mais Médicos Brasil chega ao final de 2013 com mais de 6,6 mil médicos, pelo menos um em cada área definida como prioritária

24

Sociedade

Nossa Capa

E mais...

Dilma Roussef. Foto. A. Pozzebon/ Agência Brasil

7 - Mário Milani: Novos tempos 8 - Gente do Bem 11 - Justa homenagem 19 - Eloi Zanetti: O autor é guardião da própria prisão 20 - Ricardo Kotscho: O segredo de Dilma 22 - Paraná é referência em Convenção Coletiva 23 - Leitura

2013 - edição 48 - 5


PAIXÃO

Paixão Ademir Vigilato da Paixão

6 - edição 48 - 2013


OPINIÃO

Informação e

CIDADANIA Por Mário Milani

Em menos de 20 anos, o Planeta viveu profundas transformações políticas, sociais, culturais, ambientais, tecnológicas... Viu guerras, terrorismo, desastres naturais e conquistas e, cada vez mais, acompanhou tudo isso ao mesmo tempo em que os fatos aconteciam, no mesmo instante. Esta, sim, a maior das revoluções. A facilidade com que as pessoas se comunicam, interagem, fazem correr notícias, pensamentos e tendências - em detrimento do mau uso das ferramentas disponíveis - colocam a informação como fundamental na evolução da humanidade. Obama acompanhou online a ação militar que eliminou Osama no Paquistão. O desastre com o avião da Air France no meio do Atlântico correu o mundo minutos depois de sumir das telas dos radares. A Copa do Mundo faz parar cidades inteiras ao redor do Planeta no mesmo instante em que está acontecendo. Voz... Imagem... sensações transmitidas por interlocutores e a possibilidade do cidadão interagir, dar a sua opinião. A evolução tecnológica permitiu uma revolução na informação. Colocou as pessoas frente a frente e deu a oportunidade do jovem, do cidadão de meia e da melhor idade participarem de qualquer discussão. Mais, deu a este cidadão o direito, de fato, de estar informado. Para o bem, para o mal ou para tirar vantagem e proveito no caso dos recentes episódios que envolveram a espionagem americana. Cresceu o mercado de trabalho. Cresceu a inclusão social. Aumentou significativamente a participação popular nos destinos de suas comunidades, cidades, países... Daí a necessidade e a preocupação em oferecer uma informação de qualidade estar presente em tudo o que é publicado, seja na rede virtual ou em papel. É o que fazemos com o projeto Bem Público. Focamos todos aqueles que se preocupam em evoluir, crescer em cidadania e participação. Nossos canais de comunicação - a revista, o portal, as redes sociais, o recém criado canal de webtv - existem para informar e contribuir com as discussões que são importantes para uma cidadania plena. Boa leitura. Mario Milani é jornalista.

A evolução tecnológica permitiu uma revolução na informação. Colocou as pessoas frente a frente e deu a oportunidade do jovem, do cidadão de meia e da melhor idade participarem de qualquer discussão e deu a este cidadão o direito, de fato, de estar informado

” 2013 - edição 48 - 7


Agência Brasil

OPINIÃO

Para mudar a realidade das 850 milhões de pessoas que sofrem de desnutrição crônica no mundo será necessário mudar os modelos insustentáveis de desenvolvimento. Eles degradam o meio ambiente, perpetuam a concentração de terras, apoiam-se na expansão de monocultivos, na contaminação dos alimentos, e ameaçam os ecossistemas e a biodiversidade. Precisamos de sistemas diversificados sob a égide da sociobiodiversidade, com a garantia do acesso ao alimento de qualidade. A agroecologia tem mostrado que é possível

FIEPR

Maria Emília Pacheco, presidenta do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional - Consea.

Maurício de Souza, na Feira do Livro de Frankfurt, ao falar do sucesso de suas publicações entre crianças e adolescentes de todo o mundo. Edson campagnolo, presidente da Federação das Indústrias do Paraná.

O que todo empresário quer é redução de impostos. E isso fica cada vez mais longe. Não dá para falar em reforma tributária sem falar em corte de gastos. Fica uma discussão estéril

Guilherme Merces, gerente de economia da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro. 8 - edição 48 - 2013

FIERJ

São os empreendedores rurais que têm segurado a economia do nosso Brasil. O PIB (Produto Interno Bruto) que alcançamos em 2012 não foi o ideal, mas teria sido ainda pior se não fosse o trabalho realizado pelos homens do campo, principalmente aqui no Paraná

Elas gostam de quem fala a língua delas, sonha como elas e, acima de tudo, trata os temas como elas


SOS

Os partidos ficaram velhos em suas práticas e se transformaram em meras siglas que aglutinam, em sua maioria, oportunistas para ascender a cargos públicos ou disputar recursos públicos para seus interesses. Toda a juventude nascida depois das Diretas Já não teve oportunidade de participar da política. Hoje, para disputar qualquer cargo, por exemplo, o de vereador, o sujeito precisa ter mais de um milhão de reais. O de deputado custa ao redor de dez milhões de reais. Os capitalistas pagam e depois os políticos os obedecem. A juventude está de saco cheio dessa forma de fazer política burguesa, mercantil

Tivemos 5,6 milhões de visitantes internacionais no Brasil em 2012. Esse número não cresce porque não sabemos explorar nossos potenciais turísticos. Ainda se desconhece a importância dos parques nacionais e o aproveitamento que se pode fazer deles Agência Brasil

Arquivo MST

Roberto Klabin, fundador da ONG SOS Mata Atlântica

Pelo que relatórios apontam, haverá chuvas muito fortes e secas muito fortes no país. A questão é como preparar o sistema de saúde para esses eventos João Pedro Stedille

O transporte público acessível é de fundamental importância para que a população possa exercer seu direito de ir e vir, tão importante quanto os demais direitos como educação, saúde, moradia, de expressão, entre outros" e que "é fundamental que o direito à manifestação e a realização de protestos pacíficos seja assegurado

CUT

Carlos Klink, secretário nacional de Mudanças Climáticas e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente.

Investimento tem de trazer benefício social e gerar emprego

ONG Anistia Internacional, em manifesto publicado quando das manifestações que se espalharam pelo Brasil. Cláudio da Silva Gomes, representante da CUT no Conselho Curador do FGTS e no FI-FGTS 2013 - edição 48 - 9


ONU

OPINIÃO

Justa

homenagem

Tito Zeglin, Mário Milani e Noemi Brittes, durante a homenagem na Câmara de Vereadores.

Babatunde Osotimehin, diretor-executivo da Unfpa - United Nations Population Fund.

Arquivo ACSP

Em geral, a sociedade culpa as meninas por engravidarem . A realidade é que a gravidez adolescente costuma ser não o resultado de uma escolha deliberada, mas sem a ausência de escolhas, bem como circunstâncias que estão fora do controle da menina. É consequência de pouco ou nenhum acesso a escola, emprego, informação e saúde

Rogério Amato, presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

Falta fazer aquilo que todo mundo faz, que faço na minha empresa e que as pessoas fazem em suas casas: gestão de gasto e de eficiência

10 - edição 48 - 2013

“Poucas publicações no país contribuem com as grandes discussões nacionais e se preocupam com a formação da cidadania brasileira. A revista “Bem Público” é uma delas. Por isso essa homenagem”. A declaração é de Tito Zeglin, vereador, ao justificar o Voto de Louvor entregue pela Câmara Municipal de Curitiba a Mario Milani, jornalista, editor-chefe da publicação, em setembro. “Tratase do reconhecimento de um trabalho feito com profissionalismo e competência”, agradeceu Milani. A revista “Bem Público” é uma iniciativa privada que vem amadurecendo e ocupando o seu espaço no mercado editorial brasileiro. Com nove anos de circulação ininterrupta, a “Bem Público” tem nos temas que dizem respeito à melhoria da qualidade de vida do cidadão a inspiração para pautar suas edições. Cidadania, meio ambiente, desenvolvimento sustentado, mobilidade urbana, direitos do cidadão, vida saudável, gestão. Assuntos que dizem respeito a todos, mas que precisam constantemente serem lembrados para que a consciência cidadã tome forma e ganhe a

coletividade. E nesse sentido a “Bem Público” tem cumprido seu papel. Ao longo destes nove anos não foram poucas as pautas que repercutiram entre os leitores, entidades, associações, governos e profissionais. Matérias como “Veneno no corpo”, que mostrou que o alimento consumido pelo brasileiro vem com um coquetel de produtos químicos – de agrotóxicos a conservantes – que prejudicam a saúde; “A babosa e o câncer”, publicada na edição 19, precisou de uma nova tiragem para atender a demanda. Com “Rio virou esgoto”, a edição 26 denunciou o descaso com os rios urbanos e provocou a comunidade e os administradores públicos a tomarem uma atitude através da criação da “Janela do Rio”. Mais recente, a matéria “Lixo no Mar” (edição 43), alertou para o problema sério da poluição dos oceanos, não só com os detritos sólidos deixados pelas praias ou jogados dos navios, mas também e principalmente pelo esgoto jogado nos rios pelas cidades. O tema gerou reuniões e manifestações em vários municípios do sul do país. “A homenagem que recebemos mostra que estamos no


CIDADANIA

Mais Médicos

Balanço do programa chega ao fim de 2013 com mais de 6,6 mil médicos e cerca de 22 milhões de brasileiros atendidos

Banco de Imagens

"O governo federal tem o desafio urgente de eliminar os vazios assistenciais do Brasil. Sem médicos não há saúde de qualidade", disse Dilma Roussef, presidenta, para justificar o conjunto de ações que pretende amenizar o problema da saúde no país. O Brasil tem hoje 1,8 médico por mil habitantes, abaixo da Argentina (3,2), do Uruguai (3,7), de Portugal (3,9) e Espanha (4). 22 estados brasileiros possuem número de médicos abaixo da média nacional, segundo o relatório Diagnóstico da Saúde no Brasil, do Ministério da Saúde. Ainda segundo o governo, faltam 15.460 médicos no país para atender a demanda da população. Criado para suprir essa carência, o programa Mais Médicos revelou outra faceta: o balanço final da primeira chamada do programa, feito dois meses depois das manifestações que pediam melhorias na saúde pública e que fizeram com que o governo acelerasse decisões, mostrou que apenas 1.096 profissionais formados no Brasil confirmaram participação no programa. O número de estrangeiros e de brasileiros formados no exterior que aderiram à iniciativa na primeira etapa do programa chegou a 522 - 358 são estrangeiros e 164 brasileiros. O número representou 10,5% do total de médicos requisitados por 3.511 cidades brasileiras. 8 - edição 46 - 2013


Agência Brasil

Dilma: "Sem médicos não há saúde de qualidade".

"Ficou muito claro que o Brasil não tem número de médicos suficien-tes para atender todas as áreas do nosso país. Portanto, está correta a estratégia do Ministério da Saúde. O que nos move é levar médico para quem precisa e, para isso, vamos usar todas as estratégias legais que o ministério tem para fazer isso", disse Alexandre Padilha, ministro da Saúde, ao divulgar o balanço do programa. Outros três mil médicos cubanos chegaram ao país para ocupar vagas ociosas da segunda etapa do Mais Médicos e vão atuar em 1.745 municípios e 15 distritos indígenas. Com esse reforço, segundo o Ministério da Saúde, todos os municípios prioritários e aqueles sem atendimen-to médico terão pelo menos um profissional do programa. Em dezembro, o balanço do governo mostrava que 22,9 milhões de brasileiros passaram a dispor de médicos na atenção básica à saúde. Com o reforço dos profis-sionais cubanos, o Mais Médicos chega ao fim de 2013 com mais de 6,6 mil médicos em todo o país. “O Brasil fecha o ano com pelo menos um médico em quase todas as regiões mais carentes do país. Estamos conseguindo atingir a nossa meta de levar profissionais aos bairros e comunidades que não tinham acesso a

médicos”, disse o ministro da Saúde. “A atuação desses profissionais começa a fazer diferença. Já temos relatos de cidades que conseguiram dobrar o atendimento com a chegada dos médicos do programa. A nossa expectativa é que o total de profissionais atendendo nas regiões que mais precisam aumente muito mais”, destacou o ministro Padilha. “O médico que a população precisa é muitas vezes o médico da família, que atenda a comunidade e possa diagnosticar problemas básicos da população e, junto a uma equipe multidisciplinar de enfermeiros e atendentes, orientar o cidadão e garantir o seu acesso à saúde”, considerou André Vargas, vice-presidente da Câmara dos Deputados. Do total de locais atendidos pelo Mais Médicos, a prioridade recai sobre cidades com 20% ou mais de sua população em situação de extrema pobreza, que possuem mais de 80 mil habitantes e menor renda per capita, além de regiões indígenas. As demais áreas atendidas são periferias de 20 capitais e 151 regiões metropolitanas. Só médico não basta Uma das constatações mais evidentes da precariedade da saúde no

Em 2011, 18.722 médicos entraram no primeiro emprego e 14.634 profissionais estavam saindo da faculdade, ou seja, uma proporção de 1.44 vagas para cada egresso de medicina. Em 1998, 5.451 profissionais estavam entrando no primeiro emprego e 7.705 estavam sendo formados. Uma proporção de 0,71 profissionais por vaga no mercado

Nos últimos 10 anos, foram criadas 147 mil vagas de emprego e 93.156 médicos se formaram. Essa diferença gerou um déficit de 54 mil postos de trabalho nesse período

Até 2014, o Ministério da Saúde abrirá mais 35.073 postos de trabalho no SUS e até 2020 serão 43.707, com expansão das unidades Básicas de Saúde, UPAs, Tratamento de Câncer, Crack e Atendimento Domiciliar Fonte: Ipea.

2013 - edição 48 - 13


CIDADANIA

O programa Mais Médicos, lançado em julho, prevê a contratação de profissionais brasileiros e estrangeiros para atuarem em municípios carentes do país, selecionados pelo Ministério da Saúde. Os médicos estrangeiros e brasileiros formados no exterior, antes de se dirigirem às cidades escolhidas, participam de aulas de português e de avaliação sobre a saúde pública brasileira. Depois de avaliados, os médicos recebem um registro profissional provisório, restrito à atenção básica e às regiões onde serão alocados pelo programa. O Mais Médicos faz parte de um amplo pacto de melhoria do atendimento aos usuários do SUS, com objetivo de acelerar os investimentos em infraestrutura nos hospitais e unidades de saúde e ampliar o número de médicos nas regiões carentes do país. Os profissionais do programa recebem bolsa de R$ 10 mil por mês e ajuda de custo pagos pelo Ministério da Saúde. Os municípios ficam responsáveis por garantir alimentação e moradia aos selecionados. Como definido desde o lançamento, os brasileiros têm prioridade no preenchimento dos postos apontados e as vagas remanescentes são oferecidas aos estrangeiros O programa estabelece, também, que a partir de 2015, os médicos terão que realizar dois anos de treinamento em instituições de saúde pública, após os seis anos de ensino acadêmico. O médico em treinamento ficará dois anos na atenção básica, na medicina da família, na urgência e emergência, ligado à instituição formadora.

14 - edição 48 - 2013

Agência Brasil

Entenda o programa

A falta de estrutura, principalmente nos municípios do interior, é evidente.

Brasil, reconhecida até mesmo pelos governos federal e estaduais, é que sem médico não há saúde, mas, se não houver infraestrutura, não adianta ter médico. Segundo o Ministério da Saúde, até 2014 serão investidos R$ 15 bilhões em infraestrutura dos hospitais e unidades de saúde. Desses, R$ 2,8 bilhões foram destinados a obras em 16 mil Unidades Básicas de Saúde e para a compra de equipamentos para 5 mil unidades; R$ 3,2 bilhões para obras em 818 hospitais e aquisição de equipamentos para 2,5 mil hospitais; além de R$ 1,4 bilhão para obras em 877 Unidades de Pronto Atendimento. Novos recursos dos ministérios da Saúde e Educação somam R$ 5,5 bilhões para construção de 6 mil UBS e reforma e ampliação de 11,8 mil unidades e para a construção de 225 UPAs e R$ 2 bilhões em 14 hospitais universitários. No entanto, o que deveria ser um alento à população acaba se tornando um pesadelo. Quando não é a burocracia que emperra o investimento, são os projetos mal elaborados e o superfaturamento que embargam obras depois de prontas. Aqui isso não é novidade, se arrasta governo após governo.

Para dar saúde de qualidade ao cidadão, é preciso mais do que somente o médico. O médico, em si, pode resolver problemas simples. Se houver qualquer tipo de complicação, são necessárias unidades de saúde equipadas, uma equipe de profissionais qualificada e treinada, médicos de carreira no serviço público, hospitais de referência e até mesmo uma estrutura de transportes que pegue o doente no local e o leve até um hospital que possa resolver o seu problema. “A estrutura (nos municípios) vai chegar, mas primeiro tem que haver um médico”, disse o deputado André Vargas, lembrando que o governo federal tem disponibilizado recursos aos municípios para melhorar as estruturas de saúde. Ensino de medicina Uma parceria entre os ministérios da Saúde e da Educação, serão abertas 11,5 mil vagas nos cursos de medicina no país até 2017 e 12 mil vagas para formação de especialistas até 2020. Desse total, 2.415 novas vagas de graduação já foram criadas e serão implantadas até o fim de 2014 com foco nas áreas que mais precisam de profissionais e que possuem a


O sonho e a realidade

Exército e atuar na Selva sonhei em ser médica do à “Durante vinte anos eu a ansiedade de servir residência, tamanha era . ver o nã em m iste Amazônia. Adiei minha ins itos não foram e vi o que mu partiram Pátria. Eu fui onde muitos nenses ribeirinhos. Re azo am los pe ha rain mo co a como tad rei tra cho fui ro, Eu de desespe a que tinham. Chorei icoCív ão (Aç iso Ac a comigo a pouca comid um dia inteiro em um de l fina ao a, vid ha nunca na min Social). atender as literalmente anas, sem parar, para ica Mais de doze horas ins o ajuda. E eu, era a ún porta da escola querend todas de io ód de i ore centenas de pessoas na Ch . de caneta, papel e esteto a médica, munida apenas que passei. Fui proibid e conheci, nas cidades qu de I UT saú de em s nte aria cie ret pa sec um as gi a evacuação de exi e rqu po e ad cid só? a ma de trabalhar nu heiro com uma pesso . Gastar todo esse din aeromóvel da prefeitura ! da na S, EPF, USG... sem a Jamais. Hospital sem EA e criticam a classe médic qu os leir asi pseudo-br Estou cansada desses r esmola no sinal. e acham que ajudar é da tou cansada. mada de mercenária. Es cha ser de a sad can tou Es eiro e larguei tudo por no litoral do Rio de Jan Morava num Bairro nobre um Sonho. ralistas morarem numa s burgueses, falsos mo rita óc hip es ess ver ero Qu de barco ou avião! iro que você ia cidade onde só se chega por saber que o dinhe ça, gra de r lha ba tra Quero ver pção! ei receber era fruto de corru que isso foi até bom, far tar da selva. Mas acho e eu mo co , mo afir Infelizmente, tive qu vol a coisa eu udarei muito. Mas um lva minha residência e est Oficial de carreira na Se ia ser e qu se dis eu do an qu ha os, min an pra 20 afirmei há idência, eu volto eu terminar minha res e qu am im lev e ass qu a: nic rco ba azô Am gens de nças, pras minhas via Selva, pras minhas cria esperança. os, nesse caos, nessa esses pseudo-brasileir os tod de ui, aq ixo de E a desgraça disfarçada mo desenfreado.Ness mentira, nesse consumis samba. E álcool, boates, futebol e ão que por aqui ficam. meus colegas de profiss os ra o pa nã ça e to for i en are am sej De jus ao meu jur iência limpa, que eu fiz nsc co a ei ter a, tez cer m co fui mais uma hipócrita”.

julho, um ica Juliana Getirana, em book da 1º Tenente Méd que se face ção no rup tado cor a pos tra ento con Depoim de no Brasil e uma voz pratica no país. do de abandono da saú desabafo sobre o esta

Agência Câmara

Eu volto pra minha Selva, pras minhas crianças, pras minhas viagens de barco que levam esperança

CIDADANIA

A estrutura (nos municípios) vai chegar, mas primeiro tem que haver um médico

André Vargas, vice-presidente da Câmara dos Deputados

estrutura adequada para a formação médica. Outra medida importante do Programa “Mais Médicos”, segundo o governo, é a mudança na lógica de abertura dos cursos de medicina de universidades privadas. Até hoje, essas instituições apresentavam um projeto para o Ministério da Educação e, se aprovado, o curso era aberto. A partir de agora, o governo federal faz um chamamento público com foco nas regiões prioritárias do SUS e, em resposta, as universidades apresentam propostas. Se aprovadas pelo MEC, os cursos de medicina podem ser abertos. Também é requisito para abertura de um novo curso a existência de pelo menos três Programas de Residência Médica em especialidades consideradas prioritárias no SUS – Clínica Médica, Cirurgia, Ginecologia/ Obstetrícia, Pediatria, e Medicina de Família e Comunidade. Com essa medida, a expectativa é formar mais especialistas nessas localidades, minimizando a dificuldade na contratação de especialistas. 2013 - edição 48 - 15


CIDADANIA

Salários irreais, realidade caótica

Por Claudia Paola Carrasco Aguilar

“ Um salário de 30 mil reais/mensais para o pediatra compensa a angústia de ver crianças morrerem por falta de antibióticos ou de respirador?

Claudia Aguilar

Frequentemente a mídia divulga que no interior do Brasil existem vagas para médico, com salários de 25, 30 mil reais, que não são preenchidas. O município de Imperatriz do Maranhão, por exemplo, tenta contratar um pediatra há um ano e meio sem sucesso, por um salário de 30 mil reais. É um salário maior que o de ministro do Supremo Tribunal Federal, teto dos salários neste país. Divulgam também que há insuficiência de médicos no Brasil – com dados e comparações com países que possuem outra realidade social e de investimentos em saúde bem diferentes dos nossos. Os “poucos” profissionais médicos que temos seriam mercenários, que não querem ir para o interior, apesar das ofertas tentadoras. Dizem ainda que estes medicos preferem ficar nos grandes centros urbanos ou próximos ao litoral. Isso demonstraria a falta de comprometimento dos médicos com o bem estar da população. Os médicos estrangeiros também escolheram estas localidades… 16 - edição 48 - 2013

Mas um salário de 30 mil reais/ mensais para o pediatra compensa a angústia de ver crianças morrerem por falta de antibióticos ou de respirador? Mercenário e desumano seria o profissional que, pensando apenas em vantagens financeiras, aceitasse ser mero espectador da dessassistência a seus pacientes, por completa incompetência dos gestores em saúde – nos três níveis de governo – que o colocam para exercer a sua profissão em locais que não oferecem o mínimo suporte para atender a população com dignidade. Angústia sentida no dia a dia de muitos profissionais, que - como eu - se aventuraram a trabalhar nos rincões deste país, com condições de trabalho muito abaixo de “precárias”. Nas redes sociais os médicos postaram varias denúncias, inclusive com fotografias e vídeos, das péssimas condições de trabalho que todos os trabalhadores da saúde enfrentam: Unidades de Saúde que deveriam se chamar “Unidades de Doença”, de tão sucateadas, e nas quais faltam medi-

camentos e muitas vezes até condições básicas de higiene. Em recente vistoria da Fenam a hospitais da rede pública pudemos confirmar o péssimo estado desses estabelecimentos, verdadeiras pocilgas documentadas e denunciadas pela Fenam a organismos internacionais de Direitos Humanos. Mas, digamos que esse médico, indiferente ao sofrimento com o qual já deveria ter se acostumado a conviver, desde sua formação nos hospitais universitários (também sucateados e abandonados), ou movido por algum idealismo e espírito de aventura ou de humanidade, resolvesse aceitar esse desafio e se mudar para o interior, eu gostaria de lançar um desafio: existe algum edital de concurso público ou alguma carteira assinada de algum médico com esses valores de salário? É óbvio que não, pois esses salarios são uma mentira! Os médicos são os trabalhadores que mais tem seus direitos desrespeitados neste país. Para qualquer tipo de trabalho que exerçam, dificilmente


Entre 48 carreiras universitárias, a medicina ocupa o primeiro lugar no ranking dos melhores salários, jornada de trabalho, taxa de ocupação e cobertura de previdência. Em segundo lugar vem a odontologia e terceiro, as engenharias

O salário médio do médico é R$ 6.940,12, considerando recém-formados. Para quem já está no mercado de trabalho, a média salarial é R$ 8.459,45

Medicina é a quarta profissão com maior aumento de salário entre 2009/2012 de uma lista de 48 profissões de nível superior, atrás de peritos criminais; profissionais de administração de serviços de segurança; e auditores fiscais da previdência social Fonte: Ipea.

temos médicos com carteira de trabalho assinada e direitos trabalhistas. Que tipo de contrato é esse, que oferece salários de 25 mil? O municipio tem como arcar com esses valores? E o teto do prefeito permite? Em muitos municípios, o contrato é apenas verbal e o médico recebe por RPA. Conhecemos bem essas formas precárias de contratação. Denun-ciamos vários tipos delas, falsas cooperativas, “Pejotização”, OS/OSCIPs. A lei de responsabilidade fiscal é a desculpa mais usada pelos gestores públicos quando questionamos porque não fazem concurso para médico com esses valores - ou pelos valores efetivamente pagos, ou pelo menos com salários dignos. O que temos visto são vencimentos aviltantes. O ano de 2013 foi escolhido pelos sindicatos médicos como o Ano da Desprecarização do Trabalho Médico. E o governo federal lança o Programa Mais Médicos, que deveria ter sido chamado Programa Mais Precarização do Trabalho dos Médicos. A iniciativa do Governo Federal de trazer para si a responsabilidade da

contratação de médicos – responsabilidade dos municipios e estados – é louvável e merece ser apoiada. Há tempos que as entidades médicas discutem com o Governo Federal a necessidade de uma política eficiente de interiorização que, além de atrair, fixe os médicos nessas localidades como a criação de uma carreira de estado. Saúde é direito de todos e dever do estado. Serviço público deve ser realizado por servidor público, contratado por meio de concurso público. Fomos então surpreendidos por essa MP, uma solução falaciosa às custas de exploração de trabalho médico sem garantias trabalhistas a que todo cidadão tem direito. Porque não os trabalhadores médicos? Na Marcha Nacional de Prefeitos a Brasília, Dilma foi vaiada: os prefeitos cobravam do governo federal a promessa de que haverá médicos estrangeiros, fornecidos pelo Ministério da Saúde, sem ônus para os municípios. Como se fosse a panacéia que resolveria todos os problemas do SUS. Esses gestores afastaram os médicos do serviço público e, pressionados pelo

caos, buscam soluções mágicas, como a anunciada pela MP 621. Perguntar aos prefeitos quem quer médicos é como perguntar ao auditório “quem quer dinheiro?”, como Silvio Santos! Faltam políticas sérias de saúde, mais recursos para o SUS, estrutura adequada e uma carreira de estado para os profissionais de saúde. Falta respeito e vontade política. Não é com uma suposta bolsa de estudos que se vai conseguir levar e fixar médicos no interior. Quando a população foi às ruas no mês de junho, líamos em muitos cartazes a reivindicação de saúde e educação “padrão Fifa”. O cidadão se cansou de ver o descaso com que são tratados seus direitos. Pois bem, o médico também se cansou e saiu às ruas, clamando por poder dar atendimento digno, de padrão Fifa, para todos os cidadãos deste país e não apenas para aqueles que tem à sua disposição um Sírio Libanês. Claudia Paola Carrasco Aguilar é médica, diretora do Sindicato dos Médicos no Estado do Paraná

2013 - edição 48 - 17


A

saúde pede

socorro

A falta de planejamento adequado sempre existiu no Brasil. Não se trata de culpar este ou aquele governo. É inadmissível escutar que pacientes contaminados já constituem uma endemia e pouco ou nada há que se fazer

Por Marcial Carlos Ribeiro

Marcial Ribeiro

Estamos passando por crise profunda na saúde brasileira. Uma crise que não afeta apenas a população que por sua localização está afastada dos centros mais desenvolvidos. Na periferia das grandes cidades, a deficiência, também, é testemunhada diariamente. Criaram-se siglas, entre elas as UPAS, com a intenção de diminuir as procuras hospitalares, mas elas não obedecem às próprias regras de qualidade, como as necessárias e determinadas pela vigilância sanitária, para evitar contaminações. Sem condições para funcionar corretamente, essas unidades transformaram-se em mini-hospitais despreparados. Nelas, não são encontrados medicamentos apropriados para debelar infecções mais sérias, e então, nos casos graves, os pacientes são encaminhados, na maioria das vezes, já contaminados para os hospitais. Isso acaba induzindo às contaminações nos ambientes hospitalares, principalmente nas UTIs. A falta de planejamento adequado sempre existiu no Brasil. Não se trata de culpar este ou aquele governo. É inadmissível escutar que pacientes contaminados já constituem uma

18 - edição 48 - 2013

endemia e pouco ou nada há que se fazer. Será que estes pacientes seriam admitidos pelas organizações cuja preocupação é a segurança do paciente, instituições detentoras de acreditação no mais alto nível? Se isso existe em hospitais de grandes cidades, imaginem o que acontece em locais onde não existe estrutura sequer para verificar esse estado, cujo diagnóstico não tem confirmação e a conduta será dúbia. Estes hospitais vão funcionar como as UPAS. Terão que fazer o encaminhamento para hospitais qualificados, e os pacientes contaminados não irão iniciar um processo de inviabilidade para pessoas até então não estavam contaminadas? É inacreditável a situação deste país em matéria de saúde pública. Uma vergonha diante da afirmação constitucional de que saúde é direito de todos. Falar sobre o programa mais médico causa tristeza, o que existe são intenções políticas de manutenção do poder. Para isso, tentam resolver problemas sérios utilizando meios irreais. Porque não se pensou em estrutura para a saúde antes do investimento para as arenas da Copa do Mundo? O

princípio de uma conduta adequada chama-se diagnóstico e o complemento para bons resultados é a terapêutica adequada somente possível a partir do diagnóstico correto. Por outro lado é imperativo que toda a população tenha assistência médica. Evidentemente que sim. Está com o governo, mais especificamente no Senado, o projeto de carreira de estado para os médicos. Não é hora de o gigante adormecido acordar, começando pela saúde? Cabe aos médicos brasileiros exigir o encaminhamento do projeto. Entendo que no início da carreira não haverá dificuldades de ter os profissionais não importa aonde, desde que temporário e com possibilidades de evolução na carreira, mas é preciso entender, da mesma forma, a necessidade da estrutura para permitir uma assistência qualificada. Dr. Marcial Carlos Ribeiro é Instituidor da Fundação de Estudos das Doenças do Fígado, Comendador da Ordem do Mérito Médico Nacional pela Presidência da República e Diretor Superintendente dos Hospitais São Vicente – FUNEF (Curitiba).


O

autoré guardião da sua própria prisão

Por Eloi Zanetti

Quando alguém encontra a sua maneira de ser, criar e expressar, fazendo algo que o diferencie e destaque dos demais, abre a porta da própria prisão – o autor fica prisioneiro do estilo. A partir desse momento, ele passa, perante si e aos outros, a ser responsável pela sua conquista. Encontrar o estilo pessoal é um achado feliz e, ao mesmo tempo, uma pesada carga para se carregar. O mundo gosta de admirar trabalhos autorais autênticos e a expectativa é de que o criador faça as coisas da mesma maneira sempre. Esta é a porta do calabouço do artista. Os exemplos mais visíveis estão na escrita, pintura, música, arquitetura e no futebol. Queremos que Chico Buarque cante sempre do mesmo jeito e que o Roberto Carlos seja um eterno romântico. E, nos bons tempos esperávamos pelas famosas paradinhas na hora do penalti do Pelé e delirávamos com os passes de calcanhar do dr. Sócrates. Hoje ansiamos pelas firulas do Neymar e as já não tão frequentes bicicletadas do Robinho. Quando o estilo de um criador vem suprir a necessidade da sociedade em determinado momento e contexto, ele, aos olhos dos outros, vira gênio e passa a ser reconhecido, aclamado e solicitado à exaustão. Se não souber administrar bem a sua criação poderá esgotar-se e sucumbir perante tantas cobranças e expectativas. Administrar sucesso não é para qualquer um, muitos morrem de overdose. Ao descobrir o seu estilo cabe ao artista ou profissional, aprimorá-lo ao longo da carreira. Alguns conseguem e refinam a sua arte limpando e aparando arestas até que o conjunto da obra

adquira um estado quase fluídico, sinal que chegou a maturidade. Artistas como Iberê Camargo mostram claramente essa trajetória. Outros, mais corajosos, se reinventam e apresentam novas propostas em cima daquilo que já estava bom. Picasso e Bob Dylan fizeram isso várias vezes em suas carreiras. O exemplo dos escritores de textos curtos que querem chegar ao haikai está presente nas obras de Dalton Trevisan e Juan Rulfo. Coco Chanel Por outro lado, há os que são firmes e não transigem com suas obras. Coco Chanel, cuja criatividade inovou o modo como enxergarmos e vivemos a arte do vestir, ficou eternamente presa ao seu belo e inconfundivel estilo. O pretinho básico sobrevive a várias gerações e ainda vai atravesar décadas. Estilos são construidos ao longo do tempo com muito trabalho e tropeços. Estão ligados à sorte, às circunstâncias e algumas vezes a um “anjo da guarda” que nos estimula a ousar na mudança. Muitas vezes o toque sutil da fala ou conselho de alguém faz com que o autor passe pelo seu ponto de mudança – kairós, para os gregos. É preciso estar atento a este momento, porque é a partir daí que a responsabilidade aumenta. A nova situação produzirá efeitos colaterais e exigirá a contrapartida do autor, e ele terá que reconhecer e trabalhar estes efeitos. A prisão para muitos pode ser perpétua.

Quando o estilo de um criador vem suprir a necessidade da sociedade em determinado momento e contexto, ele, aos olhos dos outros, vira gênio

Eloi Zanetti

Eloi Zanetti é especialista em marketing e escritor. 2013 - edição 48 - 19


OPINIÃO

o

segredo de

Dilma Por Ricardo Kotscho

Atacada diariamente pelo pensamento único da grande mídia, por grupos de financistas e empresários, analistas econômicos e especialistas em geral, largos setores do PMDB e até do PT, os seus principais partidos aliados, com problemas sérios na economia e no Congresso, o noticiário negativo do mensalão e tudo mais jogando contra, como explicar a cada vez mais folgada liderança da presidente Dilma Rousseff nas pesquisas para 2014 (no último Ibope, tinha mais intenções de voto do que o dobro dos seus prováveis adversários somados)? A cada nova pesquisa, esta é a pergunta que mais me fazem. Acho que a causa desta aparente contradição é demográfica e geográfica: o lugar onde moro e o meio social em que convivo é o mais crítico em relação ao governo do PT desde a primeira eleição de Lula e o mais refratário à revolução social que se deu no país nos últimos anos. Este Brasil velho e o novo Brasil são dois países que não se cruzam. O maior eleitorado, tanto de Dilma como de Lula, vive nas regiões mais pobres e distantes do país, não costuma ler jornais nem acompanha blogueiros limpinhos, e ainda tem, sim, maiores dificuldades de acesso à educação e à saúde, mas sente que a sua vida melhorou na última década. Por isso, quer a continuidade deste governo, 20 - edição 48 - 2013

Enquanto a parte mais rica da população discute os aspectos ideológicos da importação de cubanos e critica os programas sociais do governo, para quem nunca teve assistência médica, nem acesso à casa própria, vivia sem água e sem luz, sem renda e sem emprego, os governos petistas representaram uma radical mudança em suas vidas

Ricardo Kotscho

como mostram todas as pesquisas. Enquanto a parte mais rica da população discute os aspectos ideológicos da importação de cubanos para o Mais Médicos e critica os programas sociais do governo, que chamam de assistencialistas, para quem nunca teve assistência médica, nem acesso à casa própria, vivia sem água e sem luz, sem renda e sem emprego, os governos petistas representaram uma radical mudança em suas vidas. Claro que todo mundo quer muito mais e melhor depois que as


Agência Brasil

Aécio, e Marina e Eduardo, que disputam a mesma vaga, encantando o pessoal da grana pesada de São Paulo, que não tem muitos votos, como se sabe. Enquanto os quatro se limitarem a criticar Dilma, os números das pesquisas não mudam. Em 2005, quando estourou o escândalo do mensalão, tucanos acharam que era só deixar Lula sangrar que logo o velho poder estaria de volta ao Palácio do Planalto. Faltou combinar com o povo, que continua com Lula e Dilma, como mostraram todas as últimas eleições. Por falar nisso, os dois continuam sendo duas entidades numa só e todos os esforços feitos ao longo de quase três anos para intriga-los ou separá-los foram em vão. Talvez os nossos bravos analistas políticos não saibam de um trato que Dilma e Lula fizeram logo no início do governo dela. A cada 15 dias, chova ou faça sol, os dois têm um encontro particular, em Brasília ou São Paulo, para juntos fazerem uma análise da situação e discutir os caminhos a seguir. Isto evita o fogo amigo das corriolas de um e de outro e mata no nascedouro qualquer tentativa de afastar criador e criatura. Até agora tem dado certo e pode nos ajudar a entender melhor o segredo da renitente popularidade de Dilma Rousseff.

A cada 15 dias, chova ou faça sol, os dois (Dilma e Lula) têm um encontro particular, em Brasília ou São Paulo, para juntos fazerem uma análise da situação e discutir os caminhos a seguir

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho é jornalista.

2013 - edição 48 - 21

Arquivo

necessidades básicas foram atendidas, tanto que, na mesma pesquisa Ibope, 38% dos entrevistados responderam esperar que o presidente "mudasse muita coisa". Creio que está correta a avaliação feita pelo marqueteiro João Santana, o grande guru de Dilma: "A pesquisa é clara: os brasileiros querem mudanças no governo, e não mudança de governo. A magia está na preposição". A maioria da população, que vive no Brasil real, não está muito interessada em discutir o PIB, a balança comercial, o câmbio, os mensalões, os cartéis e as máfias, mas quer saber se tem emprego e renda para pagar suas contas no fim do mês, se tem escola para mandar seus filhos e posto de saúde com médicos e remédios para os casos de necessidade. Acho que isto ajuda a responder à pergunta do título, já que em nenhum momento Dilma se afastou da sua prioridade de governar para os mais necessitados e combater a miséria. Para este largo contingente de eleitores, fica difícil trocar o certo pelo duvidoso, até porque a mídia ainda não encontrou um candidato de oposição para bancar e os que aí estão não conseguem dar qualquer esperança, uma ideia ou proposta nova que seja, de que, com a vitória deles, a vida dos brasileiros vai melhorar. Muitos podem até não gostar do jeitão da presidente e do governo dela, mas quando olham em volta, encontram o que? Serra infernizando a vida de


CIDADANIA

Paraná é referência em

Convenção

Coletiva “

Além da luta constante por aumento salarial e valorização da categoria, procuramos garantir e ampliar benefícios em convenção coletiva

A Convenção Coletiva de Trabalho do setor de asseio e conservação do Paraná foi apresentada como modelo durante uma Reunião Estruturada de Trabalho - Região Sul, promovida pela Federação Nacional dos Trabalhadores em Serviço, Asseio e Conservação, Limpeza Urbana, Ambiental e Áreas Verdes, em Florianópolis SC. “Além da luta constante por aumento salarial e valorização da categoria, procuramos garantir e ampliar em convenção coletiva atendimentos médicos, odontológicos, cursos gratuitos de qualificação e benefícios sociais que vão desde a natalidade, material escolar, inserção profissional, incapacitação laboral até o óbito do trabalhador ou cônjuge”, explicou Manassés Oliveira, presidente da Federação dos Empregados em Empresas de Asseio e Conservação do Paraná, entidade que representa sete sindicatos e mais de 50 mil trabalhadores.Veja alguns benefícios.

Qualificação e Empregabilidade Graças à parceria de empregados e patrões, os trabalhadores do Paraná possuem a Fundação do Asseio e Conservação do Paraná - Facop, que mantém a maior escola do mundo especializada na qualificação profissional do setor. A escola qualifica e o RH Coletivo mantido pela entidade cuida para que esses alunos sejam inseridos no mercado de trabalho. A Facop oferece cursos gratuitos, presenciais e à distância. “São cursos para especialização da mão-de-obra do setor e também para o desenvolvimento humano e acadêmico do aluno”, explica Cássia Almeida, superintendente executiva da Facop. Saúde Independente de sindicalização, todo trabalhador de asseio do Paraná têm direito à consulta médica gratuita fornecida pelos Siemacos, de forma direta ou por meio de convênios. O

Manasses Oliveira

trabalhador também tem a opção de estender a rede de cobertura aos familiares, pagando pequena mensalidade. Benefício Natalidade Logo após um nascimento, o trabalhador ou sua esposa tem direito ao Benefício Natalidade de R$ 700,00. Para receber basta que o funcionário apresente a certidão de nascimento do filho no setor de Recursos Humanos da sua própria empresa. Atendimento à família do trabalhador falecido Em caso de morte do funcionário a família recebe benefício financeiro imediato, auxílio para o funeral, manutenção da renda e alimentos por 12 meses. Incapacitação para o trabalho Benefício estendido aos

Um jeito gostoso de investir em sua saúde!

www.sorella.com.br 3335-3216 Champagnat Rua Júlia da Costa, 1735 22 - edição 48 - 2013

3026-5794 Centro Cívico Rua Marechal Hermes, 728


Vozes 5

Divulgação

LEITURA

Nova edição da coleção que conta a história paranaense através de suas personalidade mostra o Paraná atual “É gente especial pelo que produz ou significa para a nossa história e que, na maioria dos casos, podemos encontrar andando pelas ruas de suas cidades ou em locais como livrarias, restaurantes e parques”, conta Aroldo Murá, jornalista com mais de mais de 40 anos de prática na arte de entrevistar e escrever, sobre o quinto volume de Vozes do Paraná. Esta edição da coleção de livros ilustrados com fotos que ajudam a contar os fatos mais significativos da trajetória de personalidades de diferentes áreas de atuação no Paraná atual, ttras o retrato de 22 personalidades de diferentes áreas como literatura (Domingos Pellegrini Jr e Adélia Maria Woellner), ciência (João José Bigarella e Newton FreireMaia), medicina (Raul Anselmi e Carlos Harmath), direito (Antenor Demeterco Jr, Eduardo RichaVirmond e João Casillo), política (o também médico e presidente do Conselho Estadual de Educação Oscar Alves), entre outras. Mostra também os novos caminhos seguidos por seis personagens retratados em edições anteriores. O atual prefeito de Curitiba, Gustavo Fruet, é um deles. Em suas páginas finais, a obra traz como novidade a atualização dos perfis de seis personagens retratados em volumes anteriores. São eles Airton Cordeiro (radialista), Fábio Campana (jornalista e editor), Fernanda Richa (primeira-dama do Paraná), Gustavo Fruet (prefeito de Curitiba), Luiz Carlos Martins (radialista e deputado estadual) e Wilson Picler (presidente

Aroldo Murá, no lançamento do livro.

Boca Maldita “

A Boca está muito longe de ser a agora clássica, mas é uma caricatura da utopia. Ali é um teatro, uma exposição de costumes

Lineu Tomass

“O que dizer da Boca Maldita? Simplesmente que é um pedaço da cidade, como em tantas outras, onde amigos se reúnem e contam seus causos aproveitando um momento do dia em que se dão uma folga para sentir a importância de viver com amigos”, escreveu Luiz Fernando Fedeger, na “mensagem de orelha” do livro Boca Maldita de Curitiba – Reduto da Democracia, de Lineu Tomass. O livro conta a história da Boca Maldita, fala do comportamento arredio do povo curitibano, relembra as figuras folclóricas que percorrem o centro da capital, dos eventos que aconteceram e

fizeram história, os flagrantes e os freqüentadores da Boca, onde “mulher não entra”. Afinal, como diz Lineu, a Boca “funciona na base da informação e da contra informação, ou de falsa notícia plantada e na mais pura fofoca de boatos. Na Boca é sim, é não, ou é o mais ou menos”. Serviço Boca Maldita de Curitiba – Reduto da Democracia Lineu Tomass Editora Prospere 370 páginas

2013 - edição 48 - 23


Willy Schumann

SOCIEDADE

Na Pizzaria Donna Fiore

Mario Milani, editor-chefe da “Bem Público”, com Pericles, Gustavo Fruet, Angelo Vanhoni e Roseli Isidoro, na Pizzaria Donna Fiore

Compagnia Internazionale

Comemoração do aniversário de 18 anos da Compagnia Internazionale Moda & Casa, realizada durante o coquetel de lançamento da coleção primavera-verão. Fotos de Gerson Lima e Kelly Knevels. Na foto, o casal Ana Lúcia e Gilberto Hyczy na comemoração do aniversário da Compagnia – A modelo Raíssa Slaviero 8 - edição 46 - 2013

– Marcela Queiroz


Versadas

Zé Rodrigo Destaque para o músico Zé Rodrigo que lança um novo projeto e estreia um novo show, intitulado “20 anos”, com um repertório que vai do rock dos anos 60 aos sucessos dos dias de hoje.

– A modelo Cristiane Brambilla que desfilou na comemoração do aniversário de 18 anos da Compagnia Internazionale Moda & Casa

Dr. Hollywood Torriton A sócia da rede Torriton, Maria Lúcia Vialle, o hair stylist Joel Gonçalves, um dos destaques do casting de profissionais do Torriton Pátio Batel, conversando com o colunista social Nemécio Muller. foto: Kelly Knevels

O cirurgião plástico Robert Rey, do programa Dr. Hollywood, foi uma das atrações na comemoração do Dia do Idoso do Clube da Melhor Idade da Rede de Farmácias Nissei em Curitiba. 2013 - edição 48 - 25


LOCAÇÃO

EST DIO Ensaios Fotográficos Filmagens Gravações para TV e WEBTV

Características do espaço: 5 metros de altura 15 metros de comprimento 13 metros de largura 195 Metros quadrados Fundo infinito com 28 metros (lateral e fundo do estúdio)

e s t ú d i o

(41) 3332-7580 comercial@bempublico.com.br estudiobempublico.com.br

Foto: Itamar Crispim. Modelo: Priscila Tonon. Executada no Estúdio Bem Público.

Revista Bem Público Ed. 48  

Revista brasileira de cidadania, edição 48, circulação nacional. www.bempublico.com.br.

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