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"Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho"

Um Jornal do bairro Fundinho . Uberlândia . MG . Brasil

Mahatma Gandhi

ABRIL 2013 - Nº 26 - ANO XI

Cultura e arte sempre correram risco de serem engolidas pelo execrável binômio do ”pão e circo”. Dr. Oscar Virgílio Pereira:


Helena: Moramos a vida inteira aqui no Fundinho e o Fundinho é ótimo.Meu avô, Leandro de Oliveira Marquez, que era fazendeiro, residia na Praça Coronel Carneiro, onde nasci. Residi também na Rua Felisberto Carrejo, na Rua Manoel Alves e depois que casei vim morar definitivamente neste endereço da Felisberto Carrejo, onde se situou o primeiro Cine Teatro de Uberlândia. Depois do teatro, aqui se tornou um depósito da firma J.Alves Veríssimo. Compramos este imóvel do professor Chafi Ayube. Do lado da nossa casa tinha uma máquina de beneficiar arroz. “Nós somos do tempo que a Casa de Saúde Dr. Caio Bardi se situava onde é a Casa da Cultura.” Helena Mauro: Nasci em Santa Rita de Cássia, mas aos 5 anos vim morar aqui no Fundinho, na Rua Manoel Alves. Meu pai, Eleazar Avelino Braga, foi sapateiro, professor, e alfabetizou quase todos os antigos fazendeiros que residiam aqui no Fundinho. Sou irmão de João Pinheiro Braga já entrevistado pelo Fundinho Cultural. Casamos em 1954 e tivemos quatro filhos. Os nossos filhos: Gilberto, é engenheiro e reside em Recife. O Ricardo, que faleceu há seis anos atrás, era veterinário. O Fernando é empresário e proprietário da Suporte. O Henrique também é empresário, proprietário do Posto Ferrari, aqui em Uberlândia. “O trânsito está ficando insuportável aqui e são muitas as batidas memoráveis dos veículos. Vem em cima das grades de nossa casa. Ainda bem que a nossa casa é muito bem feita senão...” Mauro Helena: O Fundinho de antigamente era tranquilo, não existia televisão. A gente podia sentar na porta e con-

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versar com os vizinhos. Agora, estamos numa situação que não podemos mais nem abrir a casa por causa da violência. No Fundinho éramos uma grande família. Aqui na esquina morava o pai do senhor Edson Garcia Nunes, figura importante para a cidade. “Um personagem interessante dos tempos antigos aqui no Fundinho, era o Bernardino. Ele foi escravo e era uma pessoa muito humilde, morava debaixo da ponte. Traumatizado pelos tempos da escravidão em que fora vítima de sofrimentos no tronco e alvo dos mosquitos, ninguém podia dizer a frase “–Bernardino olha o mosquito!” Ele dizia palavrões e a criançada da época se divertia muito com isto.” Mauro Helena: Os nossos vizinhos mais próximos, o senhor Geraldo Migliorini e o senhor Nelson Cardoso. Nós criamos nossos filhos juntos. As nossas ruas de antigamente eram calçadas com paralelepípedos. E quando eles estavam colocando o asfalto veio um carroceiro e o cavalo escorregou no asfalto quente, fiquei muito impressionada com esta ocorrência e com muita pena do cavalo.

lidade nos bordados, faço croché e gosto das artes culinárias, minha especialidade são as tortas. “Grande amiga nossa, Terezinha Cupertino Chaves, esposa do Rubens Chaves que era filho do Hermógenes Chaves, famoso farmacêutico de Uberlândia, a quem todos recorriam em busca dos receituários.” Helena “Antigamente tinha os famosos bailes do Praia Clube e do Uberlândia Clube, e as maravilhosas serenatas e o Mauro sempre me presenteava com as serenatas.” Helena “Uma música inesquecível nós:“Estrada do Bosque”

para

"Temos que conviver com o progresso que nos obriga a manter a casa agora fechada!” Helena Mauro: Uma lembrança marcante, o tempo que existia a igreja Matriz de Nossa Senhora do Carmo, uma igreja muito bonita naquela época. Aquele local abrigou a Estação Rodoviária de Uberlândia e hoje é a Biblioteca Pública Municipal. Sou aposentado pelo Banco do Brasil. Fui jogador de basquete, e tenho como hobby uma oficina aqui em minha casa, onde conserto coisas.. Helena: Sou do lar, com habi-

Foto do antigo Theatro São Pedro, onde hoje se localiza a residência de Helena e Mauro

Marília Alves Cunha Marlene Alves da cunha (A quatro mãos)

Capa: A Rua Tiradentes, que antigamente tinha poucos comércios, um deles, a Padaria Mecânica, hoje uma rua de intenso comércio, vista pela lente do magistral fotógrafo uberlandense Jorge H. Paul.

Cartas

Recado de uma amiga ILZETE DANTAS FONSECA Uberlândia, março de 2013 Hélvio, querido amigo Agradeço a Deus por você existir. Só ele poderia lhe inspirar a fundação de um jornalzinho tão lindo, onde grava histórias da nossa querida e tão saudosa Uberabinha! Os testemunhos e as lembranças de moradores, do tempo em que me lembro, só existiam quatro praças e

O caminho, pleno de queridas presenças, preenche as entrelinhas da vida e nos convida a seguir em frente. Grato pelo estimulo, amigas, Marília, Marlene, Ilzete, Mariú, Carmelita, Terezinha, Cora, Doris e tantas outras pessoas que nos ajudam a continuar este projeto que nos abre as portas para a amizade o carinho e solidariedade. Neste número 26 do Fundinho Cultural continua a viagem pela história, poesia e cultura. Grato a amigos pelo apoio. O Editor

quatro ruas tão simples. Muitas coisas tenho em minha memória, mas outras tenho alegria em recordar quando leio o jornal Fundinho Cultural, que é agora para mim uma das leituras de cabeceira. Obrigada Hélvio! Não tenho palavras para lhe agradecer! Quanta saudade daquele tempo! O que me comove e encanta é lembrar as conversas entre os vizinhos. Não havia segredos. Receitas, dúvidas, problemas, tudo era dividido. Era um só coração e uma só alma. Criança ainda, me orgulhava de sentir a amizade, o carinho que demonstravam a meus pais. Mais uma vez obrigada! Você é um dom de Deus! Ilzete Dantas Fonseca . 92 anos

Carta de Albânia Saudações da Albânia, Senhor editor Helvio Lima Parabéns para sua revista e, especialmente, deixe-me expressar minha felicidade ao contemplar meu pequeno poema traduzido pela Presidente da WPS, Teresinka Pereira, em uma das páginas de Fundinho Cultural. Na verdade, “Os viralatas” (“o vilão”), os cães, apenas simbolizam os emigrantes no estrangeiro, sua terra natal. As pessoas em sua terra natal, são “livres”para vender na rua o fruto de seu trabalho, mas separadamente não tem dinheiro em seus bolsos, mas circulam entre propriedades maravilhosas ao redor de sua cidade. O destino de “o vilão”(os viralatas) está esperando os poetas que fingem para salvar sua auto-suficiência, sua soberania e ir por sua voiceans, rumo à liberdade, como “Os viralatas”. Essa imagem pertence ao meu país, mas... talvez... “ Com as considerações de profundidade do “poeta Lavrador”, Riza Lai, Tirana Albânia

amanhecer

Poesia

HELENA VIEIRA BRAGA e MAURO BRAGA, um casal simpaticíssimo, que se prepara para comemorar 60 anos de plena harmonia. Ternos representantes do Bairro Fundinho, conhecem de cor a história deste lugar feliz e seus personagens. No Fundinho constituíram seus laços de família, elegeram amigos, alguns deles permanecem até hoje no rol de sua saudável convivência. Uma bela e harmoniosa residência bem no centro do bairro testemunha dias felizes deste casal gentil.

Amigos a gente escolhe, como escolhe uma jóia rara, a flor mais perfumada e colorida, a veste mais bonita para a grande gala, um canto melodioso que nos toca e emociona, uma estrela dentre muitas no céu repleto delas. Amigos batem de repente no coração da gente, coração que, parece, já os esperava. Entram sem cerimônia e lá se aninham, como se aquele fosse lugar marcado. Um calor que nunca arrefece, uma magia que tudo ilumina. Amigos deixam a vida mais bonita, o caminhar mais fácil, a tristeza mais leve, a alegria mais verdadeira. Assim são Hélvio e Adélia, que ganhamos como um presente da vida, a compensar perdas, acrescentar ganhos, a compartilhar momentos e distribuir afeto. Obrigada, pela porta sempre aberta, pelo sorriso franco que nos chega como um carinho, pelo abraço que nos aconchega e conforta. Obrigada por entender nossas falhas, perdoar nossas humanidades e fragilidades e por acreditar em nós e em nossa amizade, sem impor condições. Obrigada por serem estes seres compreensivos no meio de nossos muitos defeitos, de nossas grandes tempestades. Obrigada pela falta de preconceito, pela nobreza de caráter, pela simplicidade com que vivem os dias, pelo amor que jorra de seus olhos e estão impressos em suas almas. Obrigada por nos fazer acreditar em dias melhores e nos deixar compartilhar da sua mesa e do aconchego da sua família, a quem tanto queremos bem e a quem muito admiramos. Obrigada, Hélvio e Adélia, pela sua arte, pelo dom divino que receberam e que espalham a mancheias, enriquecendo o mundo de beleza. Obrigada por este abrigo de luz, espaço de sensibilidade e criatividade onde sentimos, a cada vez que entramos, a presença de algo maior, que circunda quadros e esculturas, que envolve gente, que reporta a paz. Obrigada pela alma que colocam em seu trabalho e pela disseminação da arte e da cultura, num trabalho diuturno e constante. Obrigada pelo esforço e empenho em registrar no Fundinho Cultural traços de nossa cidade, de nossa cultura , deixando aos pósteros uma imagem interessante de épocas vividas, narradas com primor por tantas pessoas interessantes. Obrigada pelo estímulo que sempre nos anima, pelo calor de seu afeto nos momentos difíceis, por compartilhar de nossas vidas em acontecimentos felizes. Obrigada simplesmente por serem nossos amigos. Não foi o acaso. A mão de Deus proporcionou este encontro.

Nº26

Não foi o acaso...

FUNDINHO CULTURAL

A harmonia de um belo casal do Fundinho

“Eu acho que há uma mudança no Fundinho, que está virando ponto comercial. Lojas e restaurantes querendo estabelecer-se aqui e isto muda um pouquinho... as famílias não tem mais liberdade...” Mauro

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Marília e Marlene

Faces do Fundinho

no galope dessa noite sou fantoche do destino no seu corpo, geografias cumpro sinas e peregrino

Ano XI – nº 26 ABRIL 2013 Editor: Hélvio Lima Assessoria: Adélia Lima Isabela Lima Diagramação: Niron Fernandes ABRIL 2013 - Nº 26 - ANO XI Impressão: Gráfica Scanner-3212-4342 Fotos internas: Acervos particulares, Isabela Lima, Jorge H. Paul e Joabe Romed

sei que seus olhos ainda não posso compreender mas a leste do seu rosto alastra-se o amanhecer Akira Yamasaki - SP

Tiragem: 5.000 exemplares End. para correspondência: Rua Felisberto Carrejo, 204 – Fundinho – Fone: (34) 32341369 – Cep. 38400-204 – Uberlândia-MG

hl.artes@yahoo.com.br Facebook fundinhocultural “Os artigos assinados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião do jornal”

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Crônica

Destaque

A ALMA ABANDONADA

REVISTA “POESIA SEMPRE”, PARA SEMPRE

Duas crônicas publicadas recentemente pela Folha de S. Paulo chamaram minha atenção para a quase coincidência dos temas abordados: “Meu Inferno Mais Intimo” – Luiz Felipe Pondé e “Este é o meu corpo” – João Pereira Coutinho. Os articulistas, cada um a seu modo, enfatizaram a questão do descaso, ou do “esquecimento” de que, além do corpo, temos uma alma a cuidar. Coutinho comenta a exagerada preocupação que devotamos hoje ao corpo – quase uma idolatria, sendo que, há algum tempo atrás, a preocupação que norteava a conduta humana se voltava para o cultivo da alma. Diz ele: “o corpo tinha a sua importância como guardião da alma divina. Mas só a alma era eterna; o que concedia ao corpo um estatuto perecível e secundário”. Assim, conforme tal conceituação abria-se “um horizonte de eternidade” e isso desviava o olhar humano do lugar histérico que ocupa hoje, ou seja, o culto ao corpo. Mais adiante, nessa mesma direção, completa o raciocínio dizendo “trata-se de uma

Dança

conduta que condena o homem a adorar um deus falível, sujeito às inclemências da velhice, da doença e da morte. Se existem causas perdidas, o corpo é a primeira delas e, alimentar causas perdidas é um sintoma de demência”. Por sua vez, Pondé relata duas histórias: a primeira mostra um jovem angustiado que consulta um rabino sobre o medo que sentiria quando, diante de Deus, tivesse que admitir não ter conseguido viver segundo os exemplos de vida de Moisés e Elias. A resposta do rabino, segundo Pondé, “muda o eixo da questão”, mostrando que Deus não está preocupado se a pessoa não consegue seguir parâmetros morais exteriores. A preocupação de Deus é saber até que ponto a pessoa consegue ser ela mesma. Com isso fica enfatizado que o nosso “EU” é o nosso maior desafio. Diz ele: “Enfrentar-se a si mesmo, reconhecer nossas mazelas, nossas inseguranças e, ainda, assumir-se é atravessar um inferno de silêncio e solidão”. Na segunda história, um justo, ao chegar ao céu, ouve ruídos ensurdecedores vindos de uma sala fechada e pergunta a Deus que lugar era aquele, ao que Deus responde; “É o inferno e lhe recomenda que abra aquela porta. Ao fazê-lo, escuta o que os infelizes ali presentes estão a gritar: Eu, Eu, Eu. Então, o cronista comenta: “Numa época como a nossa, obcecada por essa bobagem de autoestima, a tendência do inferno é

Mariù Cerchi Borges - Educadora

“Em pé, parados, dizendo muito“

Não é todo o dia que os Nova Iorquinos podem ver dois trabalhos de Steve Paxton, um coreógrafo cujo envolvimento no movimento radical da Judson Dance Theatre em Nova York a 50 anos atras, e o criador da técnica física e fluída conhecida como contato improvisação, no início dos anos 70, continua a exercer uma influência indelével na dança pós moderna. “Vamos agora glorificar famosas pessoas comuns” Jill Johnston escreveu na sua coluna no Village Voice (Jornal local de Nova York) em 1967, descrevendo a coreografia “Satisfyin’ Lover” (1967), a primeira das duas danças apresentadas dia 17 de Outubro de 2012 no MOMA (Museu de Arte Moderna de Nova York).

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ficar mesmo superlotado, cheio de mentirosos praticantes do “marketing do eu”. E, Coutinho, como se complementasse tal pensamento, diz: “É por isso que a nossa obsessão com a carcaça não se corrige com aulas de imagem e expressão corporal. Não se corrige com mais autoestima. Ironicamente se corrige com menos autoestima. Somos pó e ao pó retornaremos.” Sem reduzir esta questão tão complexa a simples princípios ou regras de condutas morais, a verdade é que o culto ao corpo tornou-se uma obsessão e, em contrapartida, a alma, para alguns, ficou de fato relegada ao esquecimento. O que ninguém ignora, no entanto, é que chegará o dia em que o envelhecimento virá bater às nossas portas. Veremos, então, que a importância conferida aos recursos das academias, das plásticas corretivas, dos milagrosos cosméticos passa para um segundo plano e, no seu lugar, na maioria das vezes, surge o andar trôpego, o uso das bengalas, das cadeiras de rodas, dos ajudadores- até para o nosso próprio banho. Então, quando essa realidade bater à nossa porta e, do nosso corpo, não restar mais nada, e, a essa altura, se a nossa alma caiu no esquecimento, onde encontrar pontos de sustentação para o confronto final? Para qual direção dirigiremos o nosso olhar?

Aqui, 44 anos depois, vieram uma outra leva de famosas pessoas comuns - 41 deles andando cheios de propósitos e sem efeito, ao longo do único espaço vazio que havia no atrium do museu. Eles vinham sós em grupos, vestidos com roupas comuns e ao mesmo tempo elegantes. Alguns paravam em pé, outros sentavam por um momento em uma das 3 cadeiras, únicos objetos que ficavam em cena. O que mais me tocou nas peças “Satisfyin’ Lover” e a segunda, “State” (1968), na qual esse mesmo arranjo de pedestres agora ficavam amontoados, trocando posições algumas vezes em massa, foi a qualidade de calma e a imobilidade: nenhuma multi ação, apenas andar e ficar em pé, gloriosas pequenas ações, que por si só oferecem incontáveis possibilidades coreográficas. E essas atividades em todo caso não são tão simples de serem feitas. Quanto mais as pessoas ficavam em pé em “State”, mais variações você via - forças vulneráveis e tenção em alguns, a atenção maravilhosamente relaxada em outros, e na maioria, um balanço quase imperceptível de corpos supostamente fixos. O estado de ficar em pé é um organismo como qualquer outro. Talvez um pouco sutil - essas peças poderiam ser apresentadas em qualquer outro lugar, apesar de tudo. Foi importante que elas apareceram neste espaço público, do museu de Nova Iorque, em particular, que nos anos recentes apresentou muitas performances? ___________________________________________ Crítica de Dança de Claudia La Rocco no New York Times, em 18 de Outubro de 2012. Traduzido e oferecido por Raquel Dutra, bailarina das coreografias de Steve Paxton realizadas no MOMA, em 17 e 21 de Outubro de 2012. Nova Yorque - EUA

A santinha no alpendre Um alpendre onde ficavam duas cadeiras brancas. Quem chegava da rua subia um degrau e já estava em casa, ou melhor, sentia-se nela. Quem fosse mais detalhista dirigia os olhos para cima e logo à esquerda via um pequeno altar improvisado. Sobre um azulejo colorido a fé em forma de barro: uma santa para proteger o lar. A porta de madeira pintada de cinza e o vitrô por onde se avistava quem batia a qualquer hora do dia. Para quem a porta se abria a sala oferecia conforto: duas poltronas de pés palito e estofado vinho, o sofá seguia o mesmo estilo. Uma mesinha com tampo branco servia como suporte para forrinhos de crochê e bibelôs. A estante tinha a TV, um telefone cinza daqueles antigos com disco e não teclas. Havia espaço para canecas e retratos dos netos. Para uma maior claridade outra janelinha que no pequeno parapeito guardava um casal de pássaros azuis de porcelana. Não havia corredor e por isso era possível espiar os quartos, dois. Cortinas de chita barravam a curiosidade alheia. Nos aposentos, tudo simples. Cama, penteadeira, guarda-roupa e um abajur infantil: um elefante de louça com cúpula pregueada. Era um mimo para os netos que adoravam dormir, sentindo o calor da avó. O avô não se importava e com o travesseiro nos longos braços ia para a cama de solteiro logo ao lado. Um lar organizado com geladeira e armário em tons de azul claro. Não havia desperdício. O filtro de barro com copos de alumínio para matar a sede. Um banheiro limpo com um cabide para toalhas bem lavadas para envolver corpos cansados que se renovavam ainda mais na cozinha com a comida sobre o fogão de quatro bocas. Arroz branquinho, feijão inteiro, almôndega de carne, salada de ovo e rapadura para sobremesa. Um gosto de lar, lar doce lar da minha infância. Mônica Cunha

Aricy Curvello A Fundação Biblioteca Nacional, do Rio de Janeiro, lançou em janeiro de 1993 o primeiro número da revista “Poesia Sempre”, como nos informa esse respectivo verbete em “Revistas Literárias BrasileirasSéculo XX”, de Paulo Cezar Alves Custódio [Brasília: Edição do Autor, 2012, p. 110]. Como matéria principal trouxe poetas da América Latina, alguns deles pela primeira vez publicados em nosso país. Essa feição internacional caracterizou sucessivas edições, voltadas para a poesia de algum país estrangeiro. Seu nº 2, para a de Portugal. Seu nº 3, para a dos Estados Unidos. E assim por diante. Raras vezes “Poesia Sempre” dedicou-se a um tema ou um autor brasileiro. O que é de se lamentar, pois circula internacionalmente, em todo o mundo culto. Assumindo em 2012 a tarefa de editar a revista, o professor/poeta/ crítico Afonso Henriques Neto decidiu construí-la com o olhar voltado para a poesia do Brasil. E pensou de imediato em dar ênfase aos estados brasileiros, com o propósito de realizar um retrato o mais abrangente possível da história da poesia desses lugares. E resolveu principiar pelo rico manancial de Minas Gerais, logo no primeiro número sob sua direção,o de nº 36 ( Ano 18, referente a 2012). É uma bela edição, sob a coordenação editorial de Raquel Fabio, com uma iconografia mineira muito bem selecionada. Abrindo o volume, o ensaio “Minas Gerais e sua poesia”, da professora (UFMG) e escritora Letícia Malard. Traz o cânone da maior parte da poesia mineira, sistematicamente ordenado em três seções, incorporando os contemporâneos :

- Modernismo: século 20, destacando Drummond, Emílio Moura, Pedro Nava, João Alphonsus, Ascânio Lopes; Rosário Fusco; - Após-Modernismo : séculos 20 e 21, com 35 poetas, dez dos quais já falecidos [Henriqueta Lisboa, Abgar Renault, Bueno de Rivera, Alphonsus de Guimaraens Filho, etc.] e 25 contemporâneos, entre os quais Adélia Prado, Affonso Rommanno de Sant’ Anna, Carlos Ávila, Ricardo Aleixo, Ronaldo Werneck, Sebastião Nunes, Yeda Prates Bernis, Wilmar Silva e o autor destas mal traçadas. A revista “Poesia Sempre”, em sua edição nº 36, dedicada inteiramente à poesia de Minas Gerais, pode ser adquirida à Loja do Livro da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro: www.bn.br/lojadolivro telefone (21) 2220- 1309 e-mail: lojadolivro@bn.br

- Poetas Clássicos : desde o início e o Arcadismo do século 18 até o Parnasianismo [Santa Rita Durão, Basílio da Gama, Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga, Silva Alvarenga, Bernardo Guimarães, Augusto de Lima, Alphonsus de Guimaraens, Severiano de Resende, Archangelus de Guimaraens];

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Livros  Te cuida! Dr Cláudio Domênico Casa da Palavra Editora (Saúde-Qualidade de vida-Bem estar)  bentevi, itaim akira yamazaki poemas com CD ( Poesia)  Curas pela química ocultaRealidades suprafísicas na Medicina Dr José Maria Campos (Clemente) Editora Cultrix/Pensamento (Pesquisa)  O Preço da Solidão Teresinha Machado Guimarães Caixeta Editora Composer (Contos e Crônicas ) O jogo da Liberdade da Alma - Maria Gabriela Lhansol - Relógio D’água Editores – Lisboa (Ficção portuguesa)

Música Blavasky- Como diria Blavasky – Jorge Vercillo  Música para os florais de Bach – Adriano Grineberg e Edu Gomes  Live At The Spectrum, Philadelphia – Eric Clapton whit Mark Knopfler DVD 20 Músicas para uma nova era - Série Novo Millenium - Zélia Duncan  A Passeio - Porcas Borboletas 

Lourdinha Barbosa

Relax Antes de dormir, na sonolência e logo ao acordar, repita mentalmente, "eu sou feliz, saudável, próspero, obrigado". "Eu moro onde me sinto melhor, obrigado", ou outra de sua preferência. Visualize o seu desejo realizado. A luz esta chegando, confie na cura estelar. Ivone Vebber

Gente do Fundinho Márcia Fonseca

História

Zem

TRIÂNGULO: DA ESPANHA A MINAS GERAIS

MEDITAÇÃO

Fundinho Cultural recomenda

- O que eu quero me ditar? - Que tempo é este que eu fico me dizendo no silêncio? - O que eu me falo ou posso me falar? Meditar é ter um princípio e a prova de Deus. Como somos parte d’Ele, podemos chegar mais perto do Criador, quando sentirmos a necessidade de oferecer um Amor Maior, diferente de todos os outros amores ou sentimentos que conhecemos. Esta manifestação passa por estágios práticos, travessias, caminhadas reais no amor humano, no amor cósmico, onde exercitamos o nosso reconhecimento de Deus em todos os aspectos da Criação. E chega uma hora, que vêm questionamentos da Fonte que podem ser supridos, quando percebermos que o Amor é a resposta que nos abastece. Naturalmente este Amor traz frutos científicos, intuitivos, poéticos ou artísticos, dinâmicos, evolutivos, de compre-

Lourdinha Barbosa, escritora

Poesia

Vocalidades Eduardo Humbertto As palavras pecam pelo excesso de sinceridade. Como um ‘repeat’ quebrado as facetas de uma mesma voz me enlouquecem... As nuances trazem a fragilidade como sub-texto, e mais uma vez acredito em tudo, atribuindo um atestado de [confiança]. O tempo, o vento e a vida não permitem que as palavras fiquem,

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ensão, de saúde e outros que nos transmitem a Verdade - a Verdade inclusa neste Amor Maior. Este Amor nos espera, mas há uma necessidade de uma busca contínua e duradoura por Ele. Um aquietamento no silêncio, uma postura do corpo adequada, exercícios de energização, músicas, afirmativas, conversas do coração, alguns métodos, um ambiente tranquilo facilitam a realização do ato de meditar. Meios diversos existem para o desenvolvimento desta prática. Linhas e ideologias múltiplas podem nortear os buscadores. Mestres e gurus são exemplos para os que querem estar neste Caminho.Há de se informar, conhecê-los bem, e, se, identificar com algum dos mestres e inúmeros recursos, dedicar-se, então, a este conhecimento e educação de auto-consciência que chegam bem próximo de Deus.

apontam para o lado [oposto] e esperam a minha reação. Ah! Se ao cessar dos olhos o silêncio fosse pleno. Não foi, não é e nunca será. O que é vivo no coração lateja por todos os poros em ondas sonoras de esperança. * Poema finalista do Prêmio SESC de Poesia Carlos Drummond de Andrade, Edição 2011. Brasília-DF. Blog ESCREVER PARA VIVER www.eduardohumbertto.blogspot.com

0 Quando Colombo descobriu a América, criou uma ciumeira danada nos portugueses. Tanto fizeram, eles que não tinham descoberto nada por estas bandas, que conseguiram um tal de Tratado de Tordesilhas, onde dividiram o mundo desconhecido. Herança possível que receberam de Adão e Eva. O risco que fizeram no mapa americano e que nunca se transformou em demarcação física, dividia o futuro Triângulo em duas partes. Prá lá era da Espanha, pra cá, de Portugal. Esse risco passava a oeste do município de Uberlândia – que ainda não existia. Depois que Cabral descobriu as terras já descobertas por Colombo e já divididas entre Portugal e Espanha, uns trinta anos depois, os portugueses resolveram colonizar a terra criando as capitanias hereditárias. Eram fatias de terra que começavam no litoral e terminavam na linha, jamais demarcada, do Tratado de Tordesilhas. Depois criaram o Governo Geral sem se desfazer das capitanias. As divisas dessas capitanias praticamente só valiam na beira do mar porque ninguém se aventurava a furar o sertão. Até que os paulistas resolveram fazer isso. Foram entrando e empurrando as divisas pra frente. Não respeitaram nem a linha fictícia do Tratado. Até onde chegavam virava São Paulo. Parte do Rio, parte de Minas, de Goiás, Mato Grosso, Paraná, e não sei mais onde, tudo ficou paulista, incluindo o Triângulo. Pelas divisas originais das capitanias, o Triângulo ficava dentro do Espírito Santo. Virou paulista. Quando esses sertanistas malucos descobriram ouro em Goiás, os portugueses entenderam que era preciso administrar e vigiar a extração por isso criaram a província de Goiás. Na distribuição das terras para a nova província, o Triângulo virou goiano. Esse Triângulo goiano era o mesmo de hoje. Acabava ali por Araguari, Conquista, Uberaba, Uberlândia. A ganância dos aventureiros do Desemboque, que ficava nas terras do Sacramento e, portanto, fora do Triângulo, mais os interesses goianos de aumentar sua extração e ficar bem aos olhos dos portugueses, fez com que o governo de Goiás enviasse tropas, invadisse o Desemboque e o transformasse em goiano. E ainda elevou o Desemboque à categoria de Julgado (uma espécie de primeira instância da Justiça) com jurisdição sobre toda a área do Triângulo. Os fazendeiros do Araxá, que acabou invadido também pelos goianos, representaram ao príncipe d. João que acatou sua reivindicação de se libertarem da imposição goiana. Só que d. João assinou um documento que devolvia a Minas Gerais não só a vila do Desemboque, mas todo o Julgado do Desemboque, criado pelos próprios goianos. Como o Julgado incluía todo o Triângulo, este foi na rabeira da ordem real para Minas. E foi assim que o Triângulo ficou mineiro. Antônio Pereira da Silva

Fundinho: patrimônio histórico e cultural que merece ser preservado

O Fundinho, que antigamente era denominado bairro General Osório, corresponde à área de formação inicial de Uberlândia onde teve seu início em torno da antiga Igreja Matriz de Nossa Senhora do Carmo. O bairro possui prédios históricos que caracterizam-se, inclusive, pela influência arquitetônica do barroco e do neoclassicismo, tal como pode-se observar nas estruturas dos Palácio dos Leões, Coreto, Casa da Cultura, entre outros. Isso ocorreu devido aos imigrantes de origem européia, que chegaram com a estrada de ferro da Mogiana, e substituíram as técnicas rústicas de construção e aplicaram novas perspectivas sobre os padrões de moradia e do comércio justamente com a intenção de acompanhar a velocidade do processo de desenvolvimento em que o município passava. Os casarões decorados, as ruas arborizadas e praças com jardins deram nova fisionomia à paisagem do bairro no século XX. Hoje, as substituições verificadas no Fundinho ainda não implicaram em uma verticalização ou alterações em sua malha urbana. Mesmo com as novas técnicas de construção da atualidade e as influências estéticas modernas, o bairro revela o seu tom cultural, artístico e histórico num compasso orquestrado por abrigar artistas, pessoas e instituições ligadas à cultura, e pela consciência da maioria dos moradores em preservar o que ainda existe de

memória arquitetônica. O governo municipal também se mostrou preocupado com a questão de preservar o patrimônio histórico e cultural do Fundinho em 2002, com a aprovação da Lei Municipal de Parcelamento e Zoneamento de Uso e Ocupação do Solo, em atendimento ao Plano Diretor elaborado em 1994, delimitou a área do bairro caracterizando-a como espaço de revitalização e estabelecendo índices distintos da área central para evitar o processo de verticalização. Contudo, o que se percebe é que não há uma fiscalização consistente que garanta o controle da área. Mesmo com as muitas adversidades em atestar a conservação dos monumentos e outras construções históricas, a paisagem do bairro permanece caracterizada por uma mescla de estilos e técnicas de construção e arquitetura que marcam a sua identidade. O Fundinho merece ter a sua “genética” preservada. Afinal de contas, o histórico da cidade, de certa forma, é apresentado por essas belas construções de períodos memoráveis. O bairro é um museu a céu aberto. O risco da extinção desse patrimônio permanece, mas o interesse por sua preservação tem se intensificado por parte dos próprios moradores que reconhecem seu valor e lutam para garantir a memória viva da cidade. Ainda bem! Janaína Naves - jornalista

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Fundinho Cultural 26ª edição