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Coleção Histórica


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escrever uma apresentação sobre eu mesmo ou sobre aquilo que faço para sobreviver não é necessário, mas se impõe de tal forma ao meu pensamento nos últimos dias que decidi pela tentativa da livre escrita sobre esse tema. hoje vivo em uma cidade em que não conheço muitas pessoas e escolhi ao menos por hora o desbunde de andar pelas ruas atrapalhando a rotina dos outros à oferecer fanzines em troca de dinheiro, um dinheiro que será gasto na maioria das vezes em bebidas, cigarros, comida, e quem sabe, depois de tudo isso, ajude a pagar as contas. fato é que comecei a fazer essas revistas xerocadas há oito anos, e neste meio tempo, do ontem muito passado ao hoje ainda incerto, pude ter muitas experiências que inegavelmente mudaram e continuam a mudar aquilo que eu chamo de eu, de sou.


“ – Na sua opinião, eu tenho de cessar as lamentações em causa própria. – Dirigi-lhe um sorriso terno. – Olhe aqui, Reb, eu realmente não sou assim o tempo todo. No fundo, continuo sangrando, mas na superfície aceito as pessoas como elas são. Mas não posso suportar o fato de ter de arrancar a força o que delas necessito. E o que peço? Migalhas. Estou exagerando, claro. Nem todos me tratam com frieza. E os que o fazem provavelmente têm o direito de assim agir. É como o cântaro que se leva muito à fonte. Eu sem dúvida sabia como me tornar antipático. E para um homem que estava na lona, eu era por demais arrogante. Tinha o hábito de irritar pessoas. Especialmente quando lhes pedia auxílio. Sou uma dessas criaturas que pensam que os outros, os amigos, devem adivinhar suas necessidades. Quando damos com um pobre e sórdido mendigo, ele se dá ao trabalho de nos comover o coração antes de lhe passarmos uma moeda? Não, se formos seres sensíveis, decentes. Quando o vemos de cabeça baixa, investigando a sarjeta em busca de um toco de cigarro ou um pedaço do sanduíche de ontem, nós o fazemos levantar a cabeça, nós o abraçamos, especialmente se ele fervilha de piolhos, e dizemos: ‘Que é que há, amigo? Posso ajudá-lo?’ Não o abandonamos a fim de fixar a atenção num pássaro pousado no fio do telégrafo. Não o fazemos correr atrás de nós com as mãos estendidas. Este o meu ponto de vista. Não admira que tantas pessoas rejeitem um mendigo que as aborda. É humilhante ser abordado dessa forma: isso nos enche de culpa. Somos todos generosos, à nossa própria maneira. Mas no momento em que alguém nos pede alguma coisa, nossos corações se fecham.”


faço quadrinhos como muita gente nesse mundo, mas já há alguns anos venho estagnado nesse ofício, logo, essa publicação nada mais é do que aquilo que antes não tinha sido publicado em papel, recheado com um ou outro desenho atual e algumas citações de henry miller que nos últimos anos sempre me acompanha em diversas etapas de meus dias. se você, caro leitor, que muitas vezes não deve dar a mínima para as divagações deste que vos escreve, quiser sinceramente arrancar a capa desse material e jogá-la fora e assim se livrar do resquício desse monólogo, faça-o e fique apenas com os quadrinhos que o recheia. vincular o próprio nome à uma mercadoria é também se transformar em uma mercadoria, afinal, quando deixamos de ser mercadorias? talvez nos encontremos em alguma rua por ai, é sempre muito difícil eu recusar um convite para uma bebida, um café e uma conversa. meu nome é batata, e sim, eu não tenho umbigo.


batatasemumbigo@gmail.com

batatasemumbigo.blogspot.com

A questão é – para onde queremos ir? E, queremos levar conosco nossa bagagem ou viajar desimpedidos? A resposta à segunda pergunta está contida na primeira. Para onde quer que vamos, devemos ir nus e sozinhos. Devemos, cada um de nós, aprender que ninguém mais pode nos ensinar. Devemos praticar o ridículo, para tocar o sublime.

Batata Sem Umbigo Coleção Histórica #01  

Um zine.