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A  ESPINHA  DORSAL DA  MEMÓRIA Braulio Tavares Olhar da crítica Trechos escolhidos


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BRAULIO TAVARES

A ESPINHA DORSAL


DA MEMÓRIA Prêmio Caminho de Ficção Científica

Bandeirola


Apresentação


Braulio Tavares é uma unanimidade, apontado como um dos escritores mais criativos e versáteis da literatura brasileira e reconhecido pelos pares e aficionados da Ficção Científica nacional. A ESPINHA DORSAL DA MEMÓRIA, de sua autoria, alcançou um feito inédito ao receber o prestigiado prêmio internacional Caminho de Ficção Científica (1989). Publicado primeiramente em Portugal, colecionou elogios e críticas favoráveis, agora reunidas na Fortuna Crítica, com mais de 30 páginas, presente nesta edição da Bandeirola. Aqui, apenas duas delas, para dar o gosto da leitura até a chegada do livro impresso: a de João Manuel Barreiros, publicada na revista Omnia (Portugal) e a de Rubens Figueiredo, na Revista 34 Letras (Rio de Janeiro).


FORTUNA CRÍTICA

REVISTA OMNIA (Portugal) jan/1990

João Manuel Barreiros

NÃO BATAM MAIS NO CEGUINHO Para começar, uma coisa deve ficar desde já esclarecida: ao contrário de um outro comentador destas mesmas páginas, o gentil José Manuel Morais, cuja alma preclara e coração gotejante de bondade, sempre receberam com viscosa benevolência tudo o que se publica no âmbito da FC saídos das penas de autores portugueses, eu, pelo contrário, coloco-me sempre numa atitude mais negra do que a fria tumba da inominável Nyarlatothep quando ouço falar que saiu outro prêmio Caminho FC. E digam-me, aqui para nós, se eu tenho ou não razão, oh meus discípulos? Que se pode dizer do moralismo primário de um Aniceto, de seu estilo barroco, dos seus clichês já esgotados na aurora dos anos cinquenta? Ou dos textos absurdos de Cristina Pires, que sem mais ou menos coloca atmosfera em 10

Phobos (céus, Phobos que mais não é do que um calhau a orbitar Marte) florestas em Vênus (arre, não saberá ela que a pressão à superfície é tão intensa que o próprio alumínio se liquefaz?), oceanos de água na lua Titan, uma lua tão fria que o gelo é de amônia? Habituamo-nos aqui, neste universo paralelo que é a nossa santa terrinha, a adotar a política do coitadinho, a desculpar, louvar e colocar nos píncaros quem escreve em português, porque quem se atreve deve ser bom com certeza. E não há ninguém que diga que o rei vai nu? Nem uma única criancinha ranhosa a apontar um dedo desbocado? Que serviço estamos nós a prestar à literatura de FC se continuamos a louvar a mediocridade? Porque, fiéis discípulos, é preciso que se saiba, que para escrever FC, para criticar FC, é preciso


A espinha dorsal da memória

ler FC. Embora estas descobertas Eu sei, eu sei que Cristina pertençam já ao universo con- Pires e Aniceto venderam os sensual e coletivo do gênero, direitos das suas obras a uma temos de saber aplicá-las. Os potência irmã. Que digo eu a comandantes das naves não po- tal fenômeno? Das duas uma: dem ter as queixadas quadradas, ou os Editores Espanhóis não não podem pôr-se a dizer: “Ora leram de antemão o que comvamos lá a examinar o misterioso praram, ou podemos incluí-lo mistério desse planeta misterio- na lista dos maiores enigmas de so!”. A FC não deve ser o terreno todos os tempos, a par com o de prova para fabulações poéticas desaparecimento da equipagem que só com muita do Marie Celesboa vontade consete e logo a seguir à guem cair no âmgrande explosão de Porque, fiéis bito do gênero. Ou Tunguska. discípulos, é por mensagens nein É por isso que, preciso que se dankas sobre rosas todos os anos, semem Hiroxima. Não pre que sai um novo saiba, que para há pachorra! prêmio, e que vejo escrever FC, Matutem nisto, para criticar FC, o livro à venda nas oh meus discípulos. bancadas, as minhas é preciso ler FC Atendendo à feroz orelhas começam-se competição que a afilar, crescem-me grassa nos países tufos de pelos nas anglo-saxônicos, e que não se costas, as unhas enegrecem-se, os compadece que os livros sejam incisivos afilam-se, as glândulas escritos na língua de origem, de veneno começam a produzir que aconteceria a um Aniceto scriptotoxinas. e uma Cristina Pires se fossem Foi precisamente neste espípropor os seus Magnum Opus a rito que comprei A Espinha Doruma Editora? Querem que vos sal da Memória de Braulio Tafaça um desenho? vares e o trouxe, a respingar de 11


FORTUNA CRÍTICA

maldade e veneno, para o meu sagens humanistas, que possui covil. Sobre a secretária, afiada, uma visão muito particular do encontrava-se já a minha caneta futuro, que é capaz de nos ofede aparo de titânio. recer pormenores da vida quoAh, ah, pensei de imediato, tidiana, pormenores que aponcom que então um brasileiro! tam para as diferenças entre Quer dizer que é isto o melhor aquela e a nossa. No “Príncipe que a Editora Caminho conse- das Sombras”, por exemplo, é a gue arranjar em língua portu- nostalgia do preto e branco eviguesa? Coisa nenhuma? Anda cá denciada nos filmes, nas roupas, livro, que nós vamos nas pinturas faciais conversar. a contrastar com o Tanta prosa para ciclorama cromátiE digo-vos, oh vos demonstrar que co das paredes dos discípulos, que o prédios. Em “Jogo sou uma pessoa Braulio foi uma isenta. Que digo Rápido” é a arte surpresa que não gosto quanurbana do caos, a do não gosto (no mutilação das esque respeita à Editátuas e edifícios, ção Portuguesa em noventa por ao ponto de alguém ir cortar a cento dos casos, fazendo minhas cabeça ao Cristo do Corcovado as palavras do genial Sturgeon), e de a guardar, algures, numa e louvo quem me apetece e não coleção secreta. Pessoas são rappara alegrar patrocinadores. tadas e quanto mais importanE digo-vos, oh discípulos, tes elas forem, melhor, tatuadas que o Braulio foi uma surpresa. à força com os logotipos desses Então não querem lá ver que o anarquistas da estética urbana e rapaz até escreve bem, que do- de novo postas à solta com esmina o estilo, que tem uma his- sas marcas indeléveis por todo tória para contar, que a conta de o corpo. Ou em “Stuntmind” um modo original, que não gas- onde extraterrestres nunca verta linhas a propagandear men- dadeiramente descritos trocam 12


A espinha dorsal da memória

informações e personalidades com os seres humanos, passando os poucos meses que lhes restam antes de serem destruídos pelo trauma da transição em Xanadus, pagos pelo governo numa orgia de absurdo e sensualidade. O livro encontra-se dividido em duas partes, a primeira constituída por contos carregados de um absurdo venenoso, a segunda por uma série temática de narrativas independentes mas cronologicamente ligadas, sobre os primeiros contatos com uma espécie (ou espécies?) extraterrestre deliciosamente complexa e incompreensível. Pode não ser uma obra-prima mas também não se pede isso ao Braulio. É contudo uma obra sólida, inteligente, que só honra o gênero. Nota-se nela

algumas influências estilísticas e temáticas de autores anglo-saxônicos como Silverberg e Malzberg, mas quem os mestres segue, principalmente os pós anos setenta, só pode ser louvado por isso. Escuta, Braulio, vamos combinar o seguinte: volta à pátria Mãe, esquece o D. Pedro e o grito do Ipiranga. Estás perdoado, vem escrever para Portugal. Aguardamos ansiosos o teu próximo livro. Para consolar o Brasil, proponho congelar o Aniceto e a Cristina Pires, enviá-los assim rigidificados em hélio líquido para o Brasil. Tenho a certeza de que nós, portugueses, só ganharíamos com a troca. E faz-nos o especial favor de ganhares os próximos prêmios da Caminho.

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FORTUNA CRÍTICA

REVISTA 34 LETRAS (Rio de Janeiro) No 7 – mar/1990

Rubens Figueiredo

O FUTURO NA PONTA DO NARIZ Para muita gente, com certeza parecerá estranho que alguém escreva ficção científica no Brasil. E é bem natural esta reação, uma vez que a nossa tradição literária se consolidou com base em um acúmulo de obras regionalistas de um lado, e intimistas de outro. A preocupação documental, crítica ou existencial parece ter prevalecido a tal ponto que tornou-se difícil ver com bons olhos a criação de obras que explorassem outros caminhos, mais desinteressados, mais pessoais, e que implicitamente postulassem objetivos e valores diferentes para a atividade literária. Seria fecunda uma investigação das razões pelas quais certas correntes ou gêneros ficcionais, que fizeram fortuna em outras línguas, experimentaram por tanto tempo o repúdio por parte dos nossos escritores, embora, de toda evidência, nunca tenha

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faltado público para tais livros em nosso mercado, como se pode concluir da boa aceitação de tantas traduções. Dúvidas dessa ordem batem mais forte ao terminarmos a leitura do livro de Braulio Tavares, vencedor do concurso de ficção científica promovido em Portugal, em 1989, pela Editorial Caminho, que o publicará em uma coleção especializada, ao lado de autores clássicos do gênero. Isto porque, ao lado do muito bom nível literário dos seus contos, surpreende a naturalidade com que lemos tais histórias, num improvável português, de um ainda mais improvável brasileiro. Conforme o autor explica, o livro é dividido em duas partes. A primeira, de histórias avulsas. A segunda, de contos ligados por um tema comum: a consciência da presença, entre os humanos,


A espinha dorsal da memória

de seres do espaço. Não faltarão, se esgota na sua interpretação, e para o prazer dos apreciadores que, ao contrário, tratando-se de do gênero, as imaginosas teorias literatura, tende a criar uma larga científicas, a poesia própria da autonomia em relação a ela. terminologia das ciências, ou os Ao trocar a transparência de encantos apenas vislumbrados uma interpretação unívoca em de uma tecnologia tão poderosa favor da ambiguidade e da perquanto incompreensível. plexidade diante do inexplicáPorém, certavel, o autor escapa mente não deridos mecanismos da va apenas destes alegoria e de suas [...] surpreende elementos a forte inclinações moralia naturalidade impressão que os zantes ou filosofancom que lemos contos de Braulio tes. Desta maneira, tais histórias, Tavares deixam no abre espaço para renum improvável leitor. sultados mais ricos português, de Quero crer que e abrangentes, em um ainda mais o grande perigo das que a emoção recohistórias fantásticas bre, com vantagem, improvável está em tomarem o vazio deixado brasileiro. a forma de meras pela ausência de um alegorias, nas quais sentido imediato. tudo aquilo que vemos se torna Emoção que se acha reforapenas sinal do que não vemos, çada pelas circunstâncias gerais de modo que personagens e situ- das histórias, pois se o que veações em grande parte se anulam mos são fatos de um tempo fulogo que são traduzidos no espí- turo, este vem a ser, afinal, ainda rito do leitor, cumprindo assim o o nosso tempo, uma continuação papel para o qual foram criados. lógica dos nossos absurdos, pasUm perigo que o autor soube sados e presentes. Somos ainevitar, demonstrando ter cons- da nós, reconhecíveis em nossa ciência de que o símbolo não perplexidade, amplificada pela 15


FORTUNA CRÍTICA

grandiosidade dos espaços e dos ques de humor (aos quais talvez tempos, e pela profundidade dos falte agudeza) prevalece amplaabismos psicológicos abertos à mente uma atmosfera trágica e força de drogas e máquinas. mesmo, digamos, considerando Esta postura supõe uma au- as dimensões dos cenários, casência de premeditação, uma ino- tastróficas. cência básica, à qual o ponto de A excelente história de um vista infantil por certo se adapta garoto, com sua família, numa com o maior proveito. É apenas casa tomada por uma enchennatural, portanto, te, por exemplo. que dois dos contos Se mostra, por um mais bem sucedidos lado, a que ponto “Aos nove anos do livro tenham por o autor se sente à o homem fita o narrador a voz de vontade para passar tempo quase a um menino, e tamlonge dos clichês da tocá-lo com a pouco será destituíficção científica, por ponta do nariz; do de significado o outro lado comove fato de serem estes o futuro é apenas o leitor pelo recodois contos pouo que vai haver nhecimento de uma co representativos situação comum em em seguida.” das características nossas atuais cidatradicionais da ficdes, transporta para ção científica. “Aos um tempo e lugar nove anos o homem fita o tempo em que as proporções de catásquase a tocá-lo com a ponta do trofe são ainda maiores, e tanto nariz; o futuro é apenas o que vai mais assustadoras quanto mais haver em seguida.” verossímeis. De certo modo, este acaba E mesmo se o velho tema sendo o ponto de vista do leitor, do escritor que vende a alma ao assumindo uma perspectiva que demônio ganha uma saborosa e o lança no caminho de ansie- bem humorada versão (a prodades, numa sempre frustrada pósito, nada futurística), nem busca de soluções. Pois se há ela escapa, porém, a um desfenos contos, de fato, alguns to- cho trágico, a uma verdadeira 16


A espinha dorsal da memória

catástrofe no plano individual. Sem dúvida, fica clara a preferência do autor, e a sua opção por um determinado clima, que dá o tom geral do livro: futuro e catástrofe. Isso não significa, entretanto, que estejamos diante de outra dessas tediosas utopias negativas, com toda sua carga de esquematismo e depressão. Bem ao contrário, o futuro aqui parece tão trivial ou extraordinário quanto o próprio presente, nas mãos de qualquer ficcionista dotado de imaginação e sensibilidade.

A definição clara dos efeitos a serem alcançados, a adequação da técnica narrativa, a ausência de qualquer remorso ou má consciência por operar com a livre fantasia e com um quadro de valores ambivalentes ou mesmo nulos, tudo contribuiu decisivamente para os bons resultados dos contos de Braulio Tavares. Bem mais do que criar qualquer fórmula estreita, o autor abriu para si próprio (e outros escritores) um veio, um filão, onde, indo mais fundo, parece ainda haver muito a explorar e descobrir.

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Este livreto é distribuído gratuitamente aos apoiadores do financiamento coletivo www.catarse.me/a_espinha_dorsal para a publicação dos livros A ESPINHA DORSAL DA MEMÓRIA e MUNDO FANTASMO, de Braulio Tavares. A independente Bandeirola só depende de você, leitor. Apoie e divulgue os livros de autores nacionais.

Ilustração de capa: @instanapontadolapis www.bandeirola.com.br atendimento@bandeirola.com.br @editorabandeirola

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