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Apresentação

Numa época em que a palavra “sustentabilidade” aparece nos mais diversos setores da vida cotidiana, este texto, sem explicitá-la com freqüência, trata-a com propriedade nos aspectos operacionais e valoriza seu significado intrínseco. A autora tem o privilégio de desenvolver uma pesquisa em Educação, onde a questão se coloca e merece ser compreendida, porque é nesse terreno que se encontram as bases para transformar uma cultura que possa assumir­ ‑se, sinceramente, sustentável na prática. A questão ambiental e sua inserção curricular têm sido experimentadas em algumas situações, mas os resultados não parecem produzir efeitos sensíveis nos indivíduos que delas participam. Neste livro, Vânia Gomes Zuin faz a análise de uma ambientalização curricular a partir da teoria crítica da sociedade, referenciada especialmente em Adorno e Horkheimer, além de Latour, considerando que o poder do ser humano sobre a natureza é fator preponderante e determinante das ações efetivas sobre a realidade. A autora desenvolve sua pesquisa no sentido de retomar o conceito de sustentabilidade, atualmente bastante desgastado; de fato, a sustentabilidade parece ter perdido seu signi­ficado mais autêntico servindo, então, para legitimar e justificar ações interesseiras e descompromissadas com a qualidade de vida, num mundo em progresso científico e tecnológico que caminha acelerado. Como fica, então, uma experiência formativa num curso de licenciatura?


Que condições tem o currículo, em si, de transformar concepções que produzam ações concretas e espontâneas para a susten­tabilidade apregoada? A ressignificação da experiência formativa no campo científico é analisada tomando como referência a experiência etnográfica vivida por Latour quando buscava a compreensão da produção dos fatos científicos. No espaço e contexto de um laboratório científico, Latour se insere, tornando-se invisível, vestindo, logo de início, o jaleco branco – para viver e compreender aquele mundo, fazendo parte dele sinceramente. Este exemplo parece moldar todo o trabalho empírico da autora, com os estudantes de um curso de licenciatura de uma Instituição de Ensino Superior (IES). Isto vai representar uma mudança significativa para os formadores de professores das Ciências em geral, preocupados com as condições que podem levar a um mundo sustentável e sempre em atualização. Alguns conceitos são revistos criticamente ao longo do estudo, o de Química Verde também é revisitado, reforçando sua intenção de orientar o desenvolvimento de uma formação cidadã de respeito e garantia da qualidade de vida que acompanha o desenvolvimento científico e tecnológico. Da ideia inicial de Anastas e Warner, com princípios objetivamente estabelecidos, propõe a redução do risco como meta, o que se consegue eliminando a periculosidade associada às substâncias tóxicas, em detrimento da restrição de exposição às mesmas. A autora mostra que as concepções correntes estão impregnadas destas ideias e que a inserção da dimensão ambiental na formação inicial docente, no campo da Química, possibilita o debate das questões ambientais contemporâneas, das transformações dos conhecimentos, valores e atitudes diante de novos cenários, a serem cotidianamente construídos, de maneira individual e coletiva (Guimarães). Trabalha com a ideia de que a produção social de riscos que acompanha a


produção social de riqueza não pode ser representada por funções matematicamente definidas, numa relação simplista com variáveis evidentes e dadas diretamente na realidade. A questão é levar essa ideia para a sala de aula, ou seja, transformá-la em procedimentos pedagógicos adequados e comprometidos com a meta definida. Propõe que a licenciatura, frequentemente desvalorizada nas IES, passe efetivamente a introduzir os princípios da Química Verde, sustentabilidade e atuação responsável. Constatando que as situações pedagógicas não caracterizam uma formação desejável apenas porque se “esverdeou” o currículo, o livro apresenta dados reais e atuais sobre um currículo de licenciatura. Chega à realidade da escola para compreender a dimensão ambiental presente no currículo por meio das falas dos envolvidos com o curso de licenciatura em Química da IES investigada e dos documentos nacionais oficiais e os relativos ao curso de licenciatura com o propósito de avaliar a inserção de problemáticas ambientais nas respectivas propostas, ementas das disciplinas, nas práticas e falas de professores, pesqui­ sadores e licenciandos implicados nos processos formativos dessa IES. E investiga, em parceria com os indivíduos implicados, se o currículo criado no cotidiano da IES apresenta e, em que extensão, elementos concernentes a um currículo ambientalizado. Da teoria crítica da sociedade, extrai categorias para analisar o comportamento de indi­ víduos submetidos a um programa em que a inserção ambiental é explicitada com a proposta dos agentes responsáveis pela Educação. Trabalha, sobretudo, com os conceitos de razão instrumental e socie­dade do espetáculo; analisa a formação docente em Química e suas trajetórias curriculares, focalizando as relações CTSA, a ética e a emancipação na formação do cidadão consciente da sua história e responsabilidade. É valioso neste trabalho partir de um estudo empírico – em que são analisadas as expressões dos indivíduos envolvidos nesta


formação da proposta ambiental do currículo –, além dos documentos e conteúdos explícitos e latentes. Vêm à tona as concepções correntes sobre a formação de professores e que podem ser confrontadas com as propostas teóricas estabelecidas servindo de subsídios para os que pensam formar professores de Ciências. Profa. Dra. Jesuína Lopes de Almeida Pacca Professora do Instituto de Física, credenciada ao Programa de Pós-graduação em Educação e ao Programa de Pós-graduação Interunidades em Ensino de Ciências da Universidade de São Paulo.


Introdução Os estudos relativos à dimensão ambiental, desenvolvidos pelos mais variados setores e agências nas últimas décadas, têm tido crescimento constante, com especial ênfase no campo da Educação. Desde a Conferência de Tbilisi, realizada em 1977, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), em função dos cada vez mais frequentes e graves impactos socioambientais observados e da consideração do papel que a Educação pode ter para a compreensão destes problemas, alguns critérios foram recomendados. Dentre eles, a Educação Ambiental (EA) que possibilita aos indivíduos uma compreensão da natureza complexa do ambiente natural e artificial, de modo que adquiram conhecimentos, valores e habilidades práticas para uma participação responsável e eficiente na prevenção e solução dos problemas ambientais, na gestão e qualidade do meio (Dias, 1992). Em concordância com Loureiro (2004, 2006, p. 40), este trabalho tem como pressupostos básicos o entendimento de que (1) a inserção da dimensão ambiental na universidade, em um sentido mais amplo, corresponde à ambientalização curricular; (2) a natureza é um sistema complexo, interligado e dinâmico, e a vida, o seu processo de auto-organização; (3) somos seres naturais e redefinimos nossa maneira de existir na natureza pela dinâmica cultural; (4) somos indivíduos históricos e sociais multiplamente constituídos; (5) a Educação como práxis e processo dialógico, crítico, problematizador e transformador das condições objetivas e subjetivas da realidade; (6) transformação social (individual e


institucional) visando uma construção democrática de sociedades sustentáveis, com prudência ecológica, justiça social, diversidade cultural e economia viável. Atualmente, a Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA), instituída pela Lei nº 9.795/99 e regulamentada pelo Decreto nº 4.281/02 (Brasil, 1999, 2002e), preconiza a incorporação da dimensão ambiental, de forma interdisciplinar, nos diferentes níveis e modalidades de ensino, de caráter formal e não formal, de maneira integrada, contínua e permanente. No que tange à formação, especialização e atualização de profissionais, para todas as áreas do conhecimento, a PNEA ressalta também a necessária inserção dessa dimensão, o que inclui conteúdo que trate da ética ambiental das atividades profissionais a serem desenvolvidas (art. 10, § 3º). Especificamente para a formação de docentes, o documento exige que a dimensão ambiental deve constar dos currículos, [...] em todos os níveis e em todas as disciplinas, e para docentes em atividade deve ocorrer a formação complementar em suas áreas de atuação, com o propósito de atender ao cumprimento dos princípios e objetivos da PNEA (art. 11).


A Inserção da Dimensão Ambiental na Formação de Professores de Química