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Campinas, 21 a 27 de setembro de 2015 - ANO XXIX - Nº 638 - DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

MALA DIRETA POSTAL BÁSICA 9912297446/12-DR/SPI UNICAMP-DGA

CORREIOS

FECHAMENTO AUTORIZADO PODE SER ABERTO PELA ECT Foto: Antonio Scarpinetti

Do gado nelore ao GENOMA HUMANO 3

Um procedimento corriqueiro de genotipagem de gado nelore, feito na Embrapa, acabou resultando na descoberta de metodologia que pode apontar variações raras no genoma humano, referentes a várias doenças. Detalhes da pesquisa foram publicados em artigo no periódico online PLOS ONE, tendo como autor principal Joaquim Manoel da Silva, aluno de doutorado do Programa de Genética e Biologia Molecular do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp. O estudo foi orientado pelo pesquisador Michel Eduardo Beleza Yamagishi, do Laboratório Multiusuário de Bioinformática da Embrapa. Chip usado nas pesquisas de sequenciamento do genoma humano: descoberta casual

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Técnica detecta fungo que debilita imunossuprimidos O declínio do tráfico de escravos na cafeicultura Êxitos e entraves em um espaço de inovação

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Riscos e efeitos do clareamento dental Ferramenta planeja zoneamento urbano Narrativas para tudo que o olhar não vê

Poluição mata 3,3 mi/ano, diz artigo Grupo desenvolve ‘manto invisível’ Para grandes desafios, a interdisciplinaridade

TELESCÓPIO

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Campinas, 21 a 27 de setembro de 2015

TELESCÓPIO

CARLOS ORSI carlos.orsi@reitoria.unicamp.br

Foto: Nasa/Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory/Southwest Research Institute

Dunas em Plutão

As possíveis “dunas” de Plutão aparecem como marcas levemente acinzentadas na região mais clara da imagem, batizada de Planície Sputnik

Imagens recém-divulgadas da superfície de Plutão, enviadas pela sonda da Nasa New Horiozons, revelam o que parecem ser dunas na superfície do planeta-anão. Como dunas, em Marte ou na Terra, são aglomerações de material pulverizado criadas pelo vento, e a atmosfera de Plutão é quase inexistente, as fotos deixaram cientistas intrigados. “Ver dunas em Plutão, se é que é isso que são, seria uma maluquice completa”, disse William B. McKinnon, um dos pesquisadores envolvidos na análise das imagens, em nota distribuída pela agência espacial. “Ou Plutão já teve uma atmosfera mais densa, ou algum processo que ainda não imaginamos está em andamento”. Também não se sabe se as “supostas dunas” são feitas de gelo ou areia. A superfície de Plutão está se revelando “tão complexa quanto à de Marte”, de acordo com pesquisadores da agência espacial. Já foram avistados vales, montanhas e fluxos de nitrogênio congelado.

Poluição que mata A poluição do ar em ambientes abertos, urbanos e rurais, abrevia a vida de 3,3 milhões de pessoas a cada ano, principalmente na Ásia, diz artigo publicado na revista Nature. Outro artigo, no periódico Nature Geoscience, do mesmo grupo editorial, diz que de 400 a 1,7 mil mortes prematuras vêm sendo evitadas, anualmente, em toda a América do Sul, graças à redução do desmatamento na Amazônia brasileira. O trabalho publicado na Nature levou em consideração a poluição por ozônio de baixa altitude e por partículas sólidas microscópicas, dentro de um modelo global envolvendo química da atmosfera, dados populacionais e estatísticas de saúde pública. “Embora em boa parte dos EUA e em alguns outros países as emissões de automóveis e da geração elétrica sejam importantes (...) na Europa, Rússia e Ásia Oriental as emissões agrícolas perfazem a maior contribuição relativa de matéria particulada”, escrevem os autores, vinculados a instituições europeias e da Arábia Saudita. Já o estudo da Nature Geoscience estima a queda na presença de partículas de fuligem no ar, ocorrida com a redução, entre 2001 e 2012, dos incêndios usados para desmatar a floresta Amazônica. “Usamos um modelo global de aerossóis para demonstrar que reduções, nos incêndios associados ao desflorestamento, causaram um declínio de cerca de 30% nas concentrações médias de matéria particulada na superfície durante a estação seca da região”, diz o artigo, assinado por pesquisadores do Reino Unido, Estados Unidos e Brasil. De acordo com os autores, essa redução pode estar evitando até 1,7 mil mortes prematuras de adultos no subcontinente, a cada ano.

Transgênicos naturais

inclusão de genes de um tipo de vespa parasita em seu DNA. A transferência foi feita, na natureza, por um vírus associado à vespa, e os genes inseridos provavelmente concedem às borboletas alguma proteção contra outros tipos de vírus, diz nota divulgada pelo periódico. A nota explica que, para se reproduzir, a vespa injeta seus ovos nas lagartas que virão a originar borboletas, juntamente com um vírus que subverte o sistema imunológico da lagarta. Esses vírus podem se integrar ao DNA das lagartas, permitindo que as larvas de vespa dominem o hospedeiro. Os genes do vírus foram encontrados em várias espécies de borboleta e mariposa. Esses genes “forasteiros” não são meros vestígios: testes indicam que eles desempenham um papel ativo no genoma das borboletas.

Poluição sonora nos mares

Novo membro da família humana?

A vida marinha precisa ser protegida contra a poluição sonora causada por atividades humanas como o deslocamento de navios e a prospecção de petróleo, adverte um grupo internacional de cientistas em artigo publicado no periódico Frontiers in Ecology and the Environment, publicado pela Sociedade de Ecologia dos Estados Unidos. Os autores chamam atenção especial para o uso de sinais sonoros intensos na busca por petróleo abaixo do leito marítimo, o chamado levantamento sísmico. “A expansão dos levantamentos sísmicos requer mais diálogo regional e internacional (...) dados indicam diversas causas de preocupação quanto aos impactos negativos do ruído antropogênico em diversas espécies marinhas”, diz o artigo. Entre os danos causados estão a interferência na comunicação dos animais, perturbação de comportamentos importantes e dano auditivo.

Uma equipe internacional de pesquisadores anunciou, no início de setembro, a descoberta, numa caverna da África do Sul, de vestígios de pelo menos 15 indivíduos de uma espécie até então desconhecida do gênero Homo, batizada Homo naledi. “A morfologia cranial do H. naledi é única, mas similar a espécies primitivas de Homo, incluindo Homo erectus, Homo habilis e Homo rudolfensis”, diz um dos dois artigos que anunciam o achado, ambos publicados no periódico eLife. Os ossos foram descobertos numa câmara virtualmente inacessível da caverna – o investigador principal do estudo, Lee Berger, usou redes sociais para recrutar espeleologistas pequenos e magros o suficiente para penetrar a abertura – o que leva à especulação de que o H. naledi tinha o hábito de buscar locais seguros para sepultar os mortos, um comportamento sofisticado e, até agora, desconhecido nessa etapa da evolução. A descoberta foi apresentada ao mundo por meio de uma ampla operação de mídia – com a divulgação de material abundante para a imprensa quase ao mesmo tempo em que os artigos técnicos eram publicados – mas foi recebida com certa cautela por parte da comunidade científica. Alguns cientistas criticaram a ausência de uma datação dos fósseis, e outros questionaram a inclusão imediata da espécie no gênero Homo.

Um novo manto de invisibilidade Pesquisadores baseados nos Estados Unidos e na Arábia Saudita apresentam, na revista Science, a construção de uma “pele” ultrafina, com 80 nanômetros de espessura, capaz de revestir um objeto tridimensional e torná-lo invisível para uma frequência determinada de luz. Essa “pele” representa um avanço sobre os chamados “mantos de invisibilidade” já criados, dizem os autores, por sua pouca espessura e volume. Ela é flexível, capaz de acomodar pontas e arestas, e tem potencial para ser ampliada. Assim como os demais mantos, a pele é um metamaterial, nome dado a materiais artificiais fabricados de modo altamente preciso, e que apresentam propriedades inexistentes na natureza. No caso, a pele nanométrica é recoberta de minúsculas antenas que fazem com que a intensidade da luz defletida pela superfície seja idêntica à da luz recebida. Desse modo, mesmo recobrindo um objeto tridimensional, a superfície interage com a luz como se fosse um espelho plano, tornando o objeto coberto efetivamente invisível. O teste descrito na Science foi realizado com um objeto 3D de 36 micrômetros de lado, e um feixe de luz com comprimento de onda de 730 nanômetros.

A transgenia – transferência de genes entre diferentes espécies – não acontece apenas em laboratórios, mas também na natureza. Pesquisadores europeus das universidades de Valência e de Tours descrevem, no periódico PLOS Genetics, a descoberta de que várias espécies de borboleta sofreram a

Morcegos valiosos Os morcegos insetívoros prestam “serviços ambientais” no valor de mais de US$ 1 bilhão, anualmente, na proteção das lavouras de milho de todo o mundo, afirma artigo publicado no periódico PNAS. “Demonstramos que morcegos exercem uma pressão suficiente sobre as pragas para suprimir as densidades larvais e o dano nessa lavoura (...) demonstramos que morcegos eliminam o crescimento de fungos associado às pragas e a presença de toxinas de fungos no milho”, escrevem os autores, vinculados à Universidade do Sul de Illinois (EUA). Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores realizaram um experimento de campo, isolando alguns campos de milho à noite, a fim de impedir o acesso de morcegos, enquanto campos vizinhos permaneciam abertos. No fim, a abundância de larvas de uma praga do milho ficou 60% maior nos campos fechados. Também houve um aumento de 50% no dano sofrido pelo milho, por conta dos parasitas, nas áreas fechadas, e elevação na taxa de contaminação do milho por fungos e toxinas de fungos.

Apelo à interdisciplinaridade A revista Nature da última semana traz uma seção especial sobre a necessidade de mais pesquisas interdisciplinares, unindo as ciências naturais e humanas. “Para resolver os grandes desafios que a sociedade enfrenta”, diz o texto de apresentação, “cientistas e cientistas sociais precisam trabalhar juntos”. A apresentação reconhece, porém, que “pesquisas que atravessam fronteiras acadêmicas são mais difíceis de financiar, executar, avaliar e publicar”. Um dos artigos da seção, assinado por Rick Rylance – presidente dos Conselhos de Pesquisa do Reino Unido – diz que os órgãos internacionais de fomento precisam de mais informações sobre o impacto da pesquisa interdisciplinar, e faz uma lista das dificuldades técnicas envolvidas na formatação desse tipo de estudo. “Os protocolos gerais de um artigo científico e de uma peça de pesquisa em humanidades são muito diferentes”, escreve Rylance. “Trata-se tanto de como se expressar quanto da forma em que a proposta é formulada. Descobri que é fácil ser ‘artístico’ demais para o cientista e ‘científico’ demais para o pesquisador de artes”.

UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas Reitor José Tadeu Jorge Coordenador-Geral Alvaro Penteado Crósta Pró-reitora de Desenvolvimento Universitário Teresa Dib Zambon Atvars Pró-reitor de Extensão e Assuntos Comunitários João Frederico da Costa Azevedo Meyer Pró-reitora de Pesquisa Gláucia Maria Pastore Pró-reitora de Pós-Graduação Rachel Meneguello Pró-reitor de Graduação Luís Alberto Magna Chefe de Gabinete Paulo Cesar Montagner

Elaborado pela Assessoria de Imprensa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Periodicidade semanal. Correspondência e sugestões Cidade Universitária “Zeferino Vaz”, CEP 13081-970, Campinas-SP. Telefones (019) 3521-5108, 3521-5109, 3521-5111. Site http://www.unicamp.br/ju e-mail leitorju@reitoria.unicamp.br. Twitter http://twitter.com/jornaldaunicamp Assessor Chefe Clayton Levy Editor Álvaro Kassab Chefia de reportagem Raquel do Carmo Santos Reportagem Carlos Orsi, Carmo Gallo Netto, Isabel Gardenal, Luiz Sugimoto, Manuel Alves Filho, Patrícia Lauretti e Silvio Anunciação Fotos Antoninho Perri e Antonio Scarpinetti Editor de Arte Luis Paulo Silva Editoração André da Silva Vieira Vida Acadêmica Hélio Costa Júnior Atendimento à imprensa Ronei Thezolin, Gabriela Villen, Valerio Freire Paiva e Eliane Fonseca Serviços técnicos Dulcinéa Bordignon e Fábio Reis Impressão Triunfal Gráfica e Editora: (018) 3322-5775 Publicidade JCPR Publicidade e Propaganda: (019) 3383-2918. Assine o jornal on line: www.unicamp.br/assineju


Campinas, 21 a 27 de setembro de 2015

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Análise de DNA de gado abre caminho para detecção de variações no genoma humano

Foto: Antonio Scarpinetti

Procedimento, que ocorreu causalmente, foi descrito em artigo no periódico “PLOS ONE” CARLOS ORSI carlos.orsi@reitoria.unicamp.br

ma falha surpreendente, num procedimento comum de análise do DNA de gado nelore, abriu caminho para a descoberta de uma metodologia que pode revelar variações raras no genoma humano, ligadas a diversas doenças. O artigo que descreve o novo procedimento tem, como autor principal, o doutorando do Programa de Genética e Biologia Molecular do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp Joaquim Manoel da Silva, e foi publicado no periódico online PLOS ONE. O orientador de Silva e coautor do artigo na PLOS, pesquisador Michel Eduardo Beleza Yamagishi, do Laboratório Multiusuário de Bioinformática da Embrapa, conta que a descoberta aconteceu depois de um trabalho de genotipagem de nelore, realizado para identificar, numa população de animais, a presença de um tipo de variação genética já reconhecida na literatura – um SNP, ou snip, sigla em inglês para polimorfismo de nucleotídeo único –, apresentar resultado 100% negativo para alguns snips. “A gente estava trabalhando com uma coleção de cerca de 1.700 animais, bovinos da raça nelore, que é importante para a pecuária nacional”, lembrou o pesquisador. “E o Joaquim chegou para mim e disse: ‘Olha, Michel, tem aqui uns snips que estão falhando em toda a população’. Perguntei: ‘Como é que é?’ E ele: ‘Sim, tem snips que estão falhando em toda a população’. E eu: ‘Não pode ser’”. Yamagishi lembra que o DNA é formado por uma fita dupla espiralada, composta por sequências complementares de nucleotídeos normalmente denominados pelas letras A,T,G e C. As duas metades da fita se ligam porque o nucleotídeo A se prende ao T, e o G, ao C. Os chamados chips de genotipagem contêm probes – “sondas”, em inglês – com sequências de nucleotídeos que capturam as sequências complementares, presentes no material sob análise, e anunciam a detecção com um sinal luminoso. No caso da busca por snips, os probes contêm trechos de DNA construídos para detectar e capturar as variações desejadas. “Com isso, você vai lá direto no snip, sem necessidade de um trabalho dispendioso de leitura do genoma inteiro”, explica Yamagishi. “No nosso caso, esse é um trabalho de bioinformática, uma ciência relativamente nova, e que utiliza essa ferramenta, os chips de genotipagem. Temos o probe com a combinação das letrinhas, e aí o DNA, que tem a complementaridade, vai lá e hibridiza, gruda. E aí emite um sinal de luz. E é esse sinal de luz que depois é lido e transformado no que chamamos de genótipo”.

ÁGUA DO BANHO “Em alguns casos, por diferentes motivos, há probes que não encontram o alelo complementar, não hibridizam”, descreve o orientador. “Isso pode acontecer por uma série de motivos: erro na preparação da amostra, defeito de fabricação do chip, por exemplo. Então, o que se faz? O que vinha sendo feito até hoje? A gente usa métodos

O pesquisador Michel Eduardo Beleza Yamagishi, orientador do trabalho: falha levou a uma investigação mais profunda

de imputação – ou seja, com a informação que temos das sequências ao redor, inferimos qual seria o genótipo naquela posição. E era esse o trabalho do Joaquim. Ele estava estudando imputação”. Surpreendente, a falha generalizada na detecção de alguns snips, difícil de explicar como simples erro ou evento fortuito, levou a uma investigação mais profunda. “A gente acreditava que o snip falhava por um problema na preparação do DNA, ou eventualmente um problema na placa... Então, fomos investigar isso, porque é algo muito difícil de acontecer. E descobrimos que os snips perdidos tinham informação relevante. Por quê? Porque estavam falhando de hibridizar justamente porque existia outra alteração na região do probe. Uma variação até então desconhecida, e inesperada, próxima da variação conhecida que estávamos tentando detectar.” Essa descoberta, alerta Yamagishi, mostra que a prática de descartar os resultados de genótipos perdidos, atribuindo a falha na hibridização dos snips a erros laboratoriais ou do chip, pode estar levando à destruição de informação genética relevante, incluindo a eventual descoberta de novos snips. “Estão jogando a criança fora com a água do banho”, resumiu.

POTENCIAL HUMANO No artigo publicado na PLOS, Silva, Yamagishi e demais autores propõem formas de pôr esse resultado – o de que “falhas” de genotipagem podem esconder descobertas genéticas relevantes – a serviço da saúde humana. “Se pegar o título do paper, ele fala em nelore, porque aqui é a Embrapa, certo? Meu aluno é da Unicamp, mas ele está fazendo o trabalho dele na Embrapa, no projeto Genômica Animal II, e a gente tinha dados de gado”, conta o orientador. “Mas este é um paper de metodologia, e se você for olhar lá na discussão, a gente mostra no que esse nosso trabalho pode ser útil para seres humanos”. O pesquisador lembra que mudanças de um único nucleotídeo na sequência de DNA podem alterar a produção de proteínas nas células humanas, ou o funcionamento de outros genes. Alterações assim podem estar associadas a doenças, e a pesquisa biomédica realiza uma busca constante pela base genética de uma série de problemas de saúde.

“Muitas doenças raras têm causas genéticas”, disse Yamagishi. “São pequenas mutações, um snip que mudou um aminoácido e complicou a vida de alguém. Como essas doenças são raras, há poucos indivíduos afetados, então aí é difícil conseguir recurso para pesquisa, porque do ponto de vista econômico não é atraente”. Mas, explica ele, se a busca pela variação genética responsável puder ser feita por meio do processo de genotipagem, utilizando-se chips que leem sequências específicas de DNA, e não pela leitura completa do DNA do paciente, o processo torna-se muito mais rápido e barato. “Pois bem. Se a mutação que causa essa doença rara estiver próxima a um snip que está no chip, essa nossa metodologia se aplica perfeitamente. Então, você, com pouco recurso, consegue identificar a mutação causativa da doença rara”. “Mas você pode me dizer, ah, legal, mas aí você tem uma restrição muito forte, que é que a mutação ocorra próximo de um snip conhecido”, disse o pesquisador. “Isso é uma limitação muito forte, a gente reconhece no paper. Só que tem um detalhe: no caso de humanos, os chips de genotipagem têm uma densidade muito maior do que em bovino. Bovino tem por volta de 700 mil marcadores. Em humanos, tenho mais de 2 milhões”. Yamagishi propõe que chips contendo todas as regiões não-repetitivas do genoma humano poderiam ser usados para detectar os snips raros e desconhecidos. “Se em cada região não-repetitiva do genoma eu colocar um probe lá, pronto: a metodologia é poderosíssima, acaba essa limitação”. “A importância das regiões serem não-repetitivas é que tem muita repetição no genoma humano, às vezes aparecendo em cromossomos diferentes. Se você constrói um probe em cima dessa região repetitiva, você fica sem saber de onde ela veio”, explicou ele.

CÂNCER Outra aplicação possível, derivada da descoberta metodológica apresentada na PLOS, é a detecção das mutações iniciais que aparecem na origem de certos casos de câncer. “Muitos tipos de câncer têm origem em mutações somáticas”, disse ele. Essas mutações ocorrem após o nascimento, e portanto não são herdadas dos pais.

“Então, imagine uma única célula que sofre uma mutação. A célula vai se dividindo, e todas as células filhas têm essa mutação. Dependendo da gravidade de onde tenha ocorrido essa mutação, pode desencadear o que chamamos de câncer”, explica. “O problema é que, no câncer, pode acontecer uma instabilidade do genoma”, o que leva a um acúmulo de novas mutações, dificultando a tarefa de detectar a alteração original, ou as alterações originais, que realmente causou o desenvolvimento do tumor. “As mutações supostamente causativas vão estar em todas as células filhas. O problema é que ocorrem mutações sucessivas, ou subsequentes, e as células filhas de uma que sofreu uma mutação subsequente vai herdar essa mutação, e assim por diante”, descreve Yamagishi. “Isso é ruim para quem estuda câncer, porque há uma infinidade de mutações, posteriores à causativa, e é difícil separar o sinal do ruído”. “Veja só, agora, quando uma limitação é uma vantagem”, disse ele, referindo-se ao fato de que os probes de DNA dos chips de genotipagem só são capazes de detectar sequências que sejam seus complementos perfeitos. “O probe contém trechos da sequência: A,T,C... Quando ele dá o sinal luminoso? Quando vem um DNA que tem a sequência complementar”. “Imagine, agora, que estou com um tipo de câncer e quero tentar descobrir as mutações causativas. Pego lá o tecido cancerígeno, extraio o DNA. Se a mutação causativa ocorreu próximo de um snip do probe, nenhuma das células do tecido, por mais diferentes que sejam, vai fornecer DNA que não tenha essa mutação específica. Então, o resultado do probe vai ser de genótipo perdido, zero, porque não vai ter probe para ligar ali”. Esse resultado, supostamente “falho”, pode indicar aos pesquisadores o ponto do genoma onde há mais chance de encontrar a mutação causativa, e isolá-la das subsequentes. Assim como no caso das doenças raras, disse Yamagishi, a criação de chips com probes para todo o genoma humano não-repetitivo poderia expandir enormemente a aplicação da técnica. “Eu gostaria que as empresas que manufaturam o chip se convencessem a fabricar esse chip que cubra toda a região não-repetitiva do genoma. Aí a aplicação se torna fantástica, imediata. E não é uma coisa difícil de fazer”, declarou ele.


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Campinas, 21 a 27 de setembro de 2015

Método molecular identifica fungo que se aloja no pulmão Técnica pode antecipar tratamento de pessoas imunossuprimidas portadoras do microrganismo Fotos: Antoninho Perri

CARMO GALLO NETTO carmo@reitoria.unicamp.br

Pneumocystis jirovecii é um fungo ascomiceto, assim denominado por produzir uma caixa de esporos, unicelular, oportunista, que pode estar presente em pulmões humanos na sua forma dormente sem causar doença, como também pode dar origem à pneumonia grave em pessoas imunossuprimidas – que apresentam redução da atividade ou eficiência do sistema imunológico – principalmente as portadoras de HIV/Aids. Os métodos laboratoriais de baixo custo para a sua detecção empregados no Brasil utilizam a coloração em lâmina e são pouco sensíveis, evidenciando a presença do fungo somente em casos de infecção avançada. Os métodos moleculares são considerados mais eficientes e têm oferecido alternativas para o entendimento da biologia e da doença causada por esse microrganismo. A biologia molecular se dedica ao estudo da biologia em nível molecular, tendo como foco principal a determinação da estrutura e da função do material genético por ele expresso, as proteínas. Com o objetivo de detectar com mais acurácia a presença de Pneumocystis jirovecii em pacientes com doença pulmonar, a bióloga Cristina Rodrigues dos Santos desenvolveu método molecular que usa a PCR, sigla derivada do inglês para designar a reação em cadeia da polimerase, que utiliza uma enzima de bactéria que auxilia a multiplicação do DNA. Enquanto a técnica de coloração de lâmina com azul de toluidina, pouco sensível, localiza apenas os cistos, ou seja, uma fusão de células, a PCR identifica fragmentos de DNA, permitindo múltiplas cópias dos seus segmentos. O método revelou alta positividade (65%) de casos de indivíduos que portavam o fungo, em situações em que estava na forma dormente ou tinha causado pneumonia. Somado à história clínica do paciente, o método estudado pode servir de auxílio no diagnóstico diferencial de pneumonia realmente causada pelo Pneumocystis jirovecii, permitindo pronto tratamento ou medidas preventivas nos casos ainda não manifestos. O trabalho, desenvolvido junto ao Laboratório de Pesquisa em Aids do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp, foi orientado pelo professor Francisco Hideo Aoki, da Área de Infectologia, do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, e coorientado pela professora Ângela Maria de Assis, da mesma unidade. O docente explica que o Laboratório, por ele coordenado, é responsável por cerca de 95% dos exames realizados em pacientes com HIV/Aids atendidos pelo complexo hospitalar e pela macro região de Campinas. Ele faz questão de ressaltar que Cristina é funcionária regular do Laboratório – como o fora a médica Ângela Maria de Assis, onde presta serviços assistenciais, e foi admitida por processo seletivo. Não tendo direito à bolsa, realizou a pesquisa paralelamente ao trabalho do dia-a-dia, o que, segundo o orientador, comprova sua vontade, empenho e determinação no desenvolvimento de conhecimentos adicionais.

ANTECEDENTES

A área de infectologia da FCM acumula uma vasta experiência acerca de pacientes com HIV/Aids, uma síndrome que se revela através de um conjunto de sinais e sintomas relacionados à imunodeficiência adquirida. A infecção oportunista ocorre quando o indivíduo apresenta alguma deficiência de defesa do organismo que o torna suscetível a agentes que podem produzir alguma infecção, como no caso de fungos, protozoários, bactérias já incorporadas que podem se manifestar em situações de baixa resistência imunológica. A deficiência de imunidade, além dos pacientes com HIV/Aids, ocorre também nos portadores de cânceres, dos vários tipos de neoplasias, de doenças hematológicas e ainda nos casos de transplante porque, para evi-

A bióloga Cristina Rodrigues dos Santos, autora da tese: método pode auxiliar no diagnóstico de pneumonia

tar rejeições, o paciente toma drogas imunossupressoras que atenuam o combate que seu sistema de defesa faria em relação ao corpo estranho, mesmo que compatível. O fungo do gênero Pneumocystis da espécie jirovecii foi relatado pela primeira vez no Brasil, em 1909, por Carlos Chagas. Ele é encontrado em mamíferos como ratos, tatus, morcegos, gatos, cachorros, mas a espécie jirovecii só ocorre em humanos, em que os primeiros registros datam de 1938. No início de 2000 encontraram-se evidências de que a espécie que causa pneumonias em humanos é diferente da que leva à doença em outros animais. Não se conhece a origem desse fungo, mas se sabe que as espécies desenvolvidas nos mamíferos não contaminam os humanos. Nestes, a espécie prefere se alojar nos pulmões e ao se manifestar o faz na forma de pneumonia grave e não raro fatal. Cristina conta que a proposta de pesquisa para identificar o fungo através de métodos moleculares foi do professor Aoki, em vista da constatação de sua recorrente manifestação em pacientes com HIV. Os métodos tradicionais para detecção do fungo utilizam um corante, sendo o mais comum o azul de toluidina, no HC da Unicamp aplicado sobre o escarro espalhado sobre uma lâmina. Os cistos do Pneumocystis adquirem então a cor lavanda. Esses métodos apresentam baixa positividade, o que é sério porque as suspeitas de sua presença recaem sobre pacientes altamente imunossuprimidos. Clinicamente seus efeitos se manifestam através de dificuldades respiratórias, diminuição da oxigenação do sangue, alterações nas radiografias de tórax, parâmetros que sugerem aos médicos esse tipo de infecção.

O médico e professor Francisco Aoki, orientador do estudo: técnica de fácil reprodução

Mas eles precisam de informações laboratoriais para um diagnóstico definitivo, embora as simples suspeitas os levem a entrar imediatamente com a medicação adequada. Mas, mesmo de posse dos resultados positivos dos exames laboratoriais, o especialista o faz sem ainda ter total certeza de que é o fungo o agente efetivamente responsável pela infecção. Trata-se de uma questão que demanda ainda solução, o que dá ideia da complexidade do problema.

A PESQUISA

Diante desse quadro, a proposta desenvolvida no mestrado da autora foi a pesquisa de um método mais sensível, que se valesse da biologia molecular, utilizada desde o início da década de 1990, para localizar fragmentos do DNA presentes no Pneumocystis, que correspondessem ao seu material genético e, portanto, correlacionados com o fungo em questão. O professor Aoki explica que “a biologia molecular permite afirmar com certeza que, para cada célula animal ou vegetal, microrganismo, vírus, bactéria ou fungo, há um fragmento do material genético do DNA que tem correlação com os agentes infecciosos e que corresponde precisamente a eles”. Os métodos da biologia molecular tornam efetiva a identificação desses agentes. No caso estudado, o método desenvolvido e padronizado pela pesquisadora tem sensibilidade em torno de 99% e o processo de análise demanda cerca de quatro horas para ser executado. A ideia é colocar o processo desenvolvido em execução rotineira para que possa servir de auxílio aos clínicos que lidam com pacientes imunossuprimidos, de forma a permitir caracterizar com mais segurança um indiví-

duo portador da infecção gerada pelo fungo. Os pesquisadores consideram viável a implantação do processo já que a técnica que o envolve é de fácil reprodução. Entendem que esses tipos de procedimentos não são ainda vulgarizados no Brasil por falta de profissionais especializados, embora esse contingente seja passível de ser formado e treinado. Questionada sobre o diferencial do método pesquisado em relação aos já existentes em outros países e qual da razão de não transpô-los para o Brasil, a pesquisadora esclarece: “A sua principal importância está no fato de termos realizado um trabalho criando nossos próprios protocolos, sem utilizar kits comerciais importados. Chegamos a um procedimento que pode ser reproduzido na rotina dos nossos hospitais, aplicável à realidade brasileira, bem diversa da de outros países”. Para ela foi muito importante estudar como está a incidência do Pneumocystis jirovecii, mesmo em uma população pequena como a do HC da Unicamp: “Artigos científicos já comprovam que o Brasil apresenta alta positividade em relação ao fungo quando utilizado o método molecular. Mas, além da positividade que o método desenvolvido oferece, constatamos que o Pnemocystis apresenta algumas diferenças em relação a outros organismo da mesma espécie, abrindo caminho para estudá-lo com mais profundidade”. Ela considera a necessidade de estudar muito mais o organismo em questão em relação às diferenças dos que existem no resto do mundo.

CAMINHOS O professor Aoki destaca que existem muitas perguntas que devem ser respondidas a respeito desse fungo relacionadas à sua própria biologia e, principalmente, com referência à sua eventual transitividade inter-humana e possíveis consequências entre indivíduos imunossuprimidos internados em hospitais, o que poderia levar à necessidade de isolar o paciente portador do fungo, principalmente se acometido de tosse, o que facilitaria sua transferência por via respiratória. A propósito diz o docente: “São questões que ainda não sabemos responder, pois não conhecemos bem a própria história natural do fungo como, por exemplo, porque ele é tão diferente no ser humano do encontrado em outras espécies de mamíferos”. A procura das respostas a algumas destas questões fará parte do projeto de doutorado que Cristina está escrevendo. Ela considera que deu o primeiro passo, mas quer entender mais profundamente o organismo estudado, se existe diferença entre os microrganismos presentes em pessoas diferentes, como ele age no paciente, o seu comportamento em outros imunossuprimidos, além dos portadores de HIV/Aids estudados, pois cada um deles pode ter características diferentes, e ainda aprofundar os métodos moleculares. Segundo a pesquisadora, o trabalho atingiu os objetivos, que era o de padronizar a técnica molecular, que permitiu o desenvolvimento de um método para diagnóstico do Pneumocystis jirovecii de alta positividade em comparação com o processo de coloração com azul de toluidina. Embora tenham sido encontradas diferenças entre os fungos estudados, que podem levar ao agravamento da doença, ela considera que esse é outro tema que precisa ser ainda mais bem estudado.

Publicação Dissertação: “Identificação de Pneumocystis jirovecii através de métodos moleculares em amostras de pacientes do Hospital de Clínicas da Unicamp” Autora: Cristina Rodrigues dos Santos Orientador: Francisco Hideo Aoki Unidade: Faculdade de Ciências Médicas (FCM)


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Campinas, 21 a 27 de setembro de 2015

O canto do cisne

da escravidão

Análise de 814 escrituras revela declínio do tráfico de escravos na cafeicultura de SP entre 1861 e 1887 CARLOS ORSI carlos.orsi@reitoria.unicamp.br

a fronteira agrícola da cafeicultura paulista, a última década em que vigorou a escravidão no Brasil foi marcada por incertezas que levaram a uma queda nos preços dos cativos, por um aumento do comércio de mulheres em relação ao de homens e à manutenção de um mercado pouco competitivo. Esses aspectos emergem dos dados levantados e analisados pelo pesquisador Gabriel Almeida Antunes Rossini para sua tese de doutorado “A dinâmica do tráfico interno de escravos na franja da economia cafeeira paulista (1861-1887)”, defendida no Instituto de Economia (IE) da Unicamp e orientada pela professora Lígia Maria Osório Silva. “Na pesquisa que realizamos, a ideia de franja foi usada como algo correlato à noção de fronteira, ou seja, uma zona que se insere entre áreas pouco ocupadas, ou desocupadas, e regiões cuja ocupação encontrava-se mais estruturada. A ampla disponibilidade de terras nessas áreas permitiu a formação de grandes propriedades, sobretudo por meio do apossamento e da grilagem”, disse o autor, que respondeu às questões da reportagem por e-mail. “O acesso recorrente a novas porções de terra situadas na franja da economia cafeeira foi essencial para o seu sucesso, pois atenuava as consequências de práticas agrícolas extensivas e predatórias e, assim, alargava a possibilidade de acumulação, mesmo em um contexto de alta significativa do preço dos escravos, decorrente do fim do comércio transatlântico de cativos, ocorrido em 1850”, prossegue Rossini. Rossini analisou alguns importantes centros cafeicultores do Oeste Paulista pertencentes à Zona da Baixa Paulista (Rio Claro, Araras e Araraquara). Tal como diz o autor, “direcionamos nossa atenção para a Zona da Baixa Paulista, área considerada por parte da literatura como uma das mais interessantes zonas de São Paulo por representarem, as suas atividades econômicas e o seu povoamento, uma síntese da dinâmica econômica e demográfica de São Paulo”. A partir da análise de 814 escrituras de compra e venda de escravos, que registraram a comercialização de 1.756 indivíduos das mais diferentes idades, origens e de ambos os sexos, a pesquisa lança luz sobre aspectos importantes das dinâmicas econômica e demográfica da segunda metade do século 19.

FAMÍLIAS A tese descreve como o mercado interno de escravos, no contexto da expansão das áreas dedicadas ao café, se adaptou ao fim do tráfico internacional, ocorrido e 1850, e também, à sucessão de medidas legislativas que prenunciavam a Abolição, como a proibição da separação de famílias de escravos no ato da venda (decreto de 1869), a Lei do Ventre Livre (de 1871) e a Lei dos Sexagenários (1885). Inicialmente, no âmbito do recorte espacial eleito para a pesquisa, no decorrer dos anos 1860 ficou clara a preeminência do tráfico intraprovincial, entre os escravos negociados em grupo, e do comércio local, entre os cativos vendidos individualmente. Ao longo dos anos 1870, principalmente, entre 1874 e o ano de 1880, o tráfico doméstico se intensificou e a preponderância das transações interprovinciais foi marcante entre os indiví-

duos negociados em grupo (maioria absoluta dos escravos comercializados). “Por sua vez, o início dos anos 1870, tal como apontou o professor José Flávio Motta no seu último livro, foi marcado por grandes dúvidas relativas ao prosseguimento do comércio interno de escravos, resultantes da promulgação da Lei do Ventre Livre. Dentre os escravos cujas vendas foram registradas ao longo dos anos 1881-1887 em uma das três localidades em análise, apreendemos que o maior contingente (55%) foi comercializado localmente”, disse Rossini. “As vendas intraprovinciais abarcaram 45% dos escravos transacionados e, como era de se esperar, não houve transações por meio do tráfico interprovincial, em razão da promulgação dos impostos que tornaram proibitivas as movimentações de cativos entre diferentes províncias do Império”. Também foram encontrados indícios de que os proprietários de escravos passaram a falsificar registros, a fim de escapar das restrições impostas pela legislação. O decreto de 1869 determinava que “em todas as vendas de escravos, sejam particulares ou judiciais, é proibido, sob pena de nulidade, separar o marido da mulher, o filho do pai ou mãe, salvo sendo os filhos maiores de 15 anos”. Já a Lei do Ventre Livre estabelecia que “em qualquer caso de alienação ou transmissão de escravos é proibido, sob pena de nulidade, separar os cônjuges, e os filhos menores de 12 anos, do pai ou da mãe”. “Aventamos a hipótese de que os senhores, no momento da venda, para atenuar a perda de liquidez dos seus cativos, decorrente das promulgações citadas, omitiam a real situação conjugal e familiar dos seus escravos”, disse o pesquisador. “Para tanto, declaravam, por um lado, que as crianças tinham pais desconhecidos ou eram órfãs e, por outro, afirmavam que os adultos eram, na sua maioria, solteiros, ou meramente não incluíam essa informação. Assim, foram colocados em marcha estratagemas que permitiram aos senhores, quando conveniente, desmembrarem as famílias escravas durante a venda, momento particularmente importante para a vida do cativo e para a dinâmica do sistema”. “Esses artifícios corroboram, em parte, o movimento diagnosticado por autores que afirmam que a política senhorial dificultava a família e a solidariedade entre os cativos, mesmo tendo em vista que os africanos escravizados e seus descendentes construíram, para além do parentesco, outras formas e meios de solidariedade para orientar suas vidas”, acrescentou Rossini. “Contudo, a despeito disso, não compartilhamos as formulações que afirmam que os escravos foram incapazes de formar famílias estáveis, de aculturação, de exercer participação política, ou seja, que prevalecia dentre eles condição de anomia”.

Ele cita trabalhos do pesquisador do IFCH-Unicamp Robert W. Slenes, que mostram que, em propriedades grandes e médias, com vários anos de operação, “houve importante constância da família escrava”. “Aí, encontramos famílias escravas extensas, que perpassam, às vezes, três gerações, e a convivência entre irmãos adultos e seus respectivos filhos”. Os dados levantados para a tese indicam que, em relação às décadas anteriores, houve um número um pouco maior de escravos registrados como casados nos anos finais do regime escravista. “O que talvez tenha ocorrido em virtude da expectativa de proximidade da abolição, que atenuou as preocupações de outrora, relativas à liquidez dos escravos decorrentes da promulgação de 1869 e da Lei do Ventre Livre”, disse o pesquisador.

INCERTEZAS A tese aponta ainda que houve uma expressiva queda no preço médio dos escravos negociados na região estudada, na última década antes da Abolição, que aconteceu em 1888. “É importante termos em vista, tal como notou Carvalho de Mello [Pedro Carvalho de Mello, autor de ‘A Economia da Escravidão nas Fazendas de Café: 18501888’], que o preço do aluguel de escravos não sofreu variações significativas até a Abolição, mesmo com a queda do preço dos escravos ao longo dos anos 1881-1887, no sudeste cafeeiro do Império”, disse Rossini. “Assim, a queda de preços dos cativos estava mais relacionada às incertezas, por parte dos fazendeiros, sobre o futuro da escravidão do que à paulatina inadequação do trabalho escravo às condições de produção vigentes”. Essas mesmas incertezas, afirma o pesquisador, ajudam a explicar o fato de a última transação de escravos registrada na área de estudo datar do ano anterior à abolição. “O fato de termos encontrado, em 1887, o último registro de negociação envolvendo escravos diz respeito às dúvidas e inseguranças dos fazendeiros em relação à continuidade do sistema”, disse ele. A documentação analisada para a tese mostra que a maioria dos cativos comercializados, na região estudada, na última década da escravidão foi negociada em grupo, e com gradual crescimento das escravas em relação ao volume de escravos homens negociados. “Observamos, ao longo dos anos derradeiros do escravismo, uma ascendência das escravas, em parte importante do recorte espacial estudado. Por exemplo, em Araraquara, a relação de sexo foi de 170 escravas mulheres por 100 homens vendidos” no período 1881-1887, disse o pesquisador. “Desta for-

ma, os dados corroboram as proposições que afirmam ter a extinção do tráfico negreiro transatlântico introduzido um movimento de gradual minoração do gênero masculino dentre os escravos transacionados”.

COMPETITIVIDADE Uma das conclusões da tese é de que o mercado interno de escravos na região analisada foi pouco competitivo. “Na nossa pesquisa, percebemos, a despeito do extenso número de agentes envolvidos nas transações, recorrência de compradores e vendedores, e agentes que, em dado momento, realizaram compra ou venda de grande número de escravos em uma única transação, o que possivelmente possibilitou assimetria nas atuações desses indivíduos no mercado”, afirmou Rossini. “Além disso, notamos que os escravos, mesmo aqueles pertencentes à mesma faixa etária, não eram bons substitutos. Variáveis como nacionalidade, experiência prévia, sexo, etc. influenciavam o preço e a preferência manifestada pelos compradores. Observamos, ainda, que o contato entre os mesmos agentes não foi recorrente ao longo do tempo. Ou seja, as transações não eram condicionadas por laços de confiança que poderiam facilitar vendas a prazo”. “Com relação os anos 1881-1887, inicialmente aventamos a hipótese de que o mercado, ao longo desse período, deveria ser mais competitivo em relação às décadas anteriores, em virtude da promulgação de tarifas inviabilizadoras do tráfico interprovincial, da crescente fragilidade dos negócios realizados e do consequente esmaecimento da figura de possíveis traficantes de maior envergadura. Contudo, novamente notamos a recorrência e a relevância de parte dos agentes envolvidos nos negócios negreiros. Assim, acreditamos que o mercado interno de escravos, ao menos na parte inicial da importante região da Baixa Paulista, que foi uma das principais áreas receptoras de cativos, ao longo dos anos 1861 e 1887, foi pouco competitivo”, afirmou.

Publicação Tese: “A dinâmica do tráfico interno de escravos na franja da economia cafeeira paulista (1861-1887)” Autor: Gabriel Almeida Antunes Rossini Orientadora: Lígia Maria Osório Silva Unidade: Instituto de Economia (IE) Foto: Coleção Geraldo Sesso Júnior/Centro de Memória da Unicamp

Terreiro de café na região de Campinas, em 1888: nos anos que antecederam a Abolição, proprietários de escravos falsificavam registros para burlar a legislação


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Campinas, 21 a 27 de

Por dentro de um espaço de inovaç inova

Dissertação desenvolvida no IG detalha implantaçã CARMO GALLO NETTO carmo@reitoria.unicamp.br

partir de 2008, a Unicamp propôs-se a trabalhar mais ativamente no processo de implantação do seu Parque Científico e Tecnológico, cuja função é aglutinar instalações destinadas a abrigar laboratórios para a execução conjunta de projetos de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) entre seus grupos de pesquisa e empresas interessadas. Essa iniciativa visa, além da pesquisa acadêmica e da formação de recursos humanos, a criação de espaços cujo objetivo é o de estreitar as relações entre a Universidade e empresas através de cultura empreendedora, a exemplo de modelos existentes nos EUA e na Europa. Com o objetivo de contribuir para o melhor entendimento do conjunto de ações desencadeadas pela Universidade para a viabilização desse empreendimento, o geógrafo Lucas Baldoni desenvolveu dissertação de mestrado em que analisa “A estratégia empreendedora da Unicamp para a consolidação do Parque Cientifico e Tecnológico”. O trabalho foi orientado pelo professor André Tosi Furtado, do Departamento de Política Científica e Tecnológica e do Programa de Pós-Graduação em Geografia do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp. Segundo o estudo, para que esse espaço de inovação possa estreitar e viabilizar as relações entre a Unicamp e seu entorno e alcançar resultados expressivos no longo prazo há necessidade da superação de obstáculos que atualmente impedem sua construção e concretização. O estudo mostrou que, principalmente após a década de 1960, a cidade de Campinas recebeu uma quantidade considerável de empreendimentos que abrigaram atividades de ciência, tecnologia e inovação (CT&I), denominadas espaços de inovação, como parques tecnológicos, parques científicos e incubadoras de empresas. Entre outros fatores, a criação desses espaços inovadores pode ser creditada à posição estratégica da cidade e à sua infraestrutura que despertaram interesse de empresas de base tecnológica (EBTs), que buscam beneficiar-se da proximidade geográfica para desenvolver parcerias em atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D). Neste contexto insere-se o início da implantação da Unicamp, em 1965, que teve como objetivo principal a ênfase na pesquisa tecnológica com forte vínculo com o setor produtivo local e regional. Para contextualização do estudo, o autor faz um histórico da evolução das atividades de CT&I em Campinas, da criação dos seus parques tecnológicos até a proposta do Parque da Unicamp.

HISTÓRICO Já na década de 1970, por iniciativas da Prefeitura Municipal e do Governo Federal e apoio de membros da comunidade de pesquisa, particularmente da Unicamp, implanta-se o Parque de Alta Tecnologia de Campinas (PACT), idealização que pretendia tornar Campinas um Polo Tecnológico. Os polos tecnológicos podem ser entendidos como centros industriais de alta tecnologia que contêm estruturas e instituições voltadas para P&D. Caracterizam-se pela aglomeração de atividades de inovação e produção inseridas dentro de um território e que passam a ser reconhecidas por suas funções de polarização regional. Alguns de seus atores vislumbravam a possibilidade de replicar no município de Campinas as experiências americanas do Vale do Silício. Depois de um período econômico adverso, em 1983, a Prefeitura Municipal em parceria com a Unicamp criou a Companhia de Desenvolvimento do Polo de Alta Tecnologia de Campinas (Ciatec) com o objetivo de prover as condições de infraestrutura que favorecessem a proximidade e a integração das atividades da indústria, comércio, educação e serviços com as de

pesquisa da Universidade. Nos anos subsequentes duas áreas foram designadas para a implantação de EBTs, que deram origem aos Ciatec – Polo I e Ciatec – Polo II, ambos comumente chamados de Parques Tecnológicos da Ciatec. A partir da década de 2000, a Unicamp passou a estabelecer elos mais estreitos com o setor produtivo. Daí decorre, em 2003, a criação de sua Agência de Inovação, denominada Agência de Inovação Inova Unicamp, com o objetivo de fortalecer parcerias entre a Universidade, empresas e órgãos do governo e incentivar a cultura e o ambiente inovador e empreendedor. Mais especificamente, a Inova Unicamp tem a missão de identificar oportunidades e promover atividades de estimulo à inovação e ao empreendedorismo, ampliando o impacto do ensino, da pesquisa e da extensão em favor do desenvolvimento socioeconômico. Coube à Inova-Unicamp implantar o Polo de Pesquisa e Inovação da Unicamp que, no final de 2012, passou a ser denominado Parque Científico e Tecnológico da Unicamp. Face ao nome do parque criado, o autor considera importante distinguir os modelos de parques tecnológicos de parques científicos, embora ambos tenham a mesma finalidade, ou seja, facilitar o fluxo de conhecimento, possibilitar a geração de empregos, a cultura empreendedora e favorecer formação de clusters de inovação e a competitividade. O parque tecnológico é um complexo produtivo industrial e de serviços, concentrado e cooperativo que agrega empresas cuja produção se baseia em P&D. Trata-se de um empreendimento urbanístico promotor da cultura da inovação, da competitividade, do aumento da capacitação industrial, fundamentado na transferência de conhecimento e tecnologia. Constituem exemplos em Campinas os Parques Tecnológicos da Ciatec (Polos I e II), geridos pelo município, o Polis de Tecnologia, gerido pelo CPqD, o Techno Park Campinas, gerido pela Associtech e o CTITec, gerido pelo Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer. Já o modelo de parque científico se caracteriza pelo compartilhamento das infraestruturas entre universidades e empresas para a elaboração e execução de projetos por tempo determinado. Seu foco está na formação de recursos humanos através de parceria com empresas. O Parque da Unicamp constitui exemplo deste modelo.

PARCERIAS Nesse contexto o pesquisador entende que o Parque Científico e Tecnológico da Unicamp se aproxima do conceito de parque científico, pois seu foco está na formação de recursos humanos através da possibilidade de grupos de pesquisa da Unicamp realizarem projetos em parceria com empresas. As instalações das infraestruturas desse Parque encontram-se atualmente em curso em área específica do campus, bem como, também, através de edital público, a prospecção de empresas que possam vir a constituí-lo. Segundo edital, a sua ocupação pode se dar segundo as modalidades A e B. As empresas que optam pela A se instalam em local fixo construído pela Universidade e as pertencentes à B constroem seu próprio prédio na área do empreendimento. Em ambos os casos o objetivo é o de desenvolver atividades de P&D, por período determinado, em parceria com os grupos de pesquisas da Unicamp. No primeiro capítulo da dissertação o autor caracteriza o significado da Geografia da Inovação e dos modelos de parques científicos e tecnológicos. Mostra que a Geografia da Inovação contempla o estudo do espaço geográfico e sua relação com o desenvolvimento tecnológico. Vem a propósito a citação de Milton Santos no frontispício do trabalho: “A compreensão da organização espacial, bem como sua evolução, só se torna possível mediante a acurada interpretação do processo dialético entre formas, estruturas e funções através do tempo”.

Dentro desses paradigmas, o segundo capítulo pretende contribuir para o entendimento dos parques científicos e tecnológicos, destacando o papel da universidade como ator principal na consolidação desses espaços de inovação. Na sequência referese à geografia desses parques no Brasil, mostra as iniciativas do Sistema Paulista de Parques Tecnológicos (SPTec), uma política estadual que visa o credenciamento dos parques no Estado com a finalidade de angariar recursos e dar visibilidade e credibilidade para esses espaços de inovação. Por fim, o geógrafo descreve o processo histórico de Campinas, sobretudo, da Unicamp e sua função como protagonista na consolidação de um polo tecnológico. São descritas então as condições que propiciaram a criação de cinco parques na cidade: 1) Ciatec (Polos I e II); 2) Techno Park Campinas; 3) Polis de Tecnologia; 4) CTI-Tec; e 5) Parque Científico e Tecnológico da Unicamp.

Park apresenta-se como um parque tecnológico possuidor de avançada infraestrutura e capaz de motivar atividades de CT&I dentro e fora do território de Campinas. No ano de 1992 era inaugurado outro importante espaço de inovação em Campinas, o Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer (CTI), unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), que atua em P&D na área de tecnologia da informação, cujos principais focos de atuação são microeletrônica, componentes eletrônicos, sistemas, mostradores de informação, software, aplicações de tecnologia da informação, robótica, visão computacional, tecnolo-

CAMPINAS COMO POLO Com efeito, em 1970 surgia a concepção de “Parque de Alta Tecnologia de Campinas” (PACT), enquanto política pública local, proposta inovadora que sinalizava com a possibilidade de Campinas tornar-se um polo tecnológico devido à existência de infraestruturas de CT&I de excelente qualidade como a Unicamp, a PUC-Campinas e o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Telebrás, atualmente CPqD, criado em 1976 como empresa estatal que detinha o monopólio dos serviços públicos de telecomunicações no território nacional, posteriormente privatizado. Esta iniciativa impulsionaria a criação da Companhia de Desenvolvimento do Polo de Alta Tecnologia de Campinas (Ciatec), em 1983, posteriormente consolidado em dois polos. O estudo apontou que na atualidade, a Ciatec encontra obstáculos para consolidar seu parque, sobretudo, o credenciamento no SPTec. Em seguida, na década de 1990, por iniciativa da empresa Unimovel, ligada ao Grupo DPaschoal, surgiu o “Techno Park Campinas”, apontado como um dos pioneiros a concretizar o modelo de condomínios empresariais no Brasil. Atualmente, após o credenciamento definitivo no SPTec, o Techno

O geógrafo Lucas Baldoni, autor da dissertação de mestrado: conceitos da


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e setembro de 2015

ação, ção, da concepção aos obstáculos

ão do Parque Científico e Tecnológico da Unicamp Fotos: Antoninho Perri

Inauguração do Parque Científico e Tecnológico da Unicamp, em março de 2013: fomentando a pesquisa e estreitando as relações entre a Universidade e empresas empreendedoras

gias de impressão 3D para indústria e medicina, software de suporte à decisão. No ano 2010, o CTI iniciou a implantação do seu parque tecnológico, denominado CTITec, que logo obteve o credenciamento no SPTec. Na sequência, inspirado na realidade de parques tecnológicos, o CPqD criou, em 1999, o Centro Empresarial Tecnológico de Campinas, denominado “Polis de Tecnologia”, como nova alternativa para empresas que desejam se instalar na região. Este parque obteve o credenciamento no SPTec. Por último, o estudo demonstra e analisa a iniciativa da Unicamp, por intermédio de sua Agência de Inovação, para consolidar

a Geografia da Inovação para fundamentar pesquisa

dentro do seu campus universitário e, consequentemente no território de Campinas, o seu parque científico.

PONTO DE INFLEXÃO Para o autor, o Parque Científico e Tecnológico da Unicamp, estabelecido em 2008, coloca a Universidade na condição de importante ator na consolidação do Polo Tecnológico de Campinas e a decisão de construí-lo dentro do campus constitui um ponto de inflexão nesse processo. A gestão da Inova Unicamp configura a preocupação no estabelecimento de parcerias em P&D com empresas que venham a se instalar nesse espaço de inovação.

Para ele, a decisão de construir o parque dentro do campus resulta também da constatação dos incipientes resultados conseguidos por outros parques anteriormente instalados em Campinas, o que ele credita à pouca interação entre os gestores dos espaços de inovação da cidade, atribuindo a ausência de resultados expressivos à falta de diálogo entre os atores envolvidos no processo, a fatores econômicos, legais, institucionais, políticos, entre outros. Na sequência da publicação, o pesquisador analisa a formação do Parque Científico da Unicamp e as ações implementadas para sua implantação no interior do campus. Ao estabelecer a trajetória que precede a vinda desse espaço de inovação para dentro da Universidade, ele procura entender o seu aspecto visível no espaço geográfico e analisa seu modelo de ocupação. Frise-se que a implantação da Unicamp na cidade de Campinas teve como objetivo principal abrigar uma nova estrutura organizacional com ênfase especial na pesquisa tecnológica que mantivesse forte vínculo com o setor produtivo. Em decorrência, desde o início, seus acadêmicos participaram ativamente do processo de elaboração de políticas públicas para assentar o potencial de CT&I a serviço de produção industrial da cidade, estabelecendo estratégias para aproximação com o governo e empresas locais. O pesquisador apresenta então, os principais eventos que, a partir de 2000, motivaram a Universidade a criar, em 2003, a Inova Unicamp. Mostra que, a partir daí, e nos anos subsequentes, um conjunto de ações de significativa importância protagonizadas pela agência culminaram, em 2008, na criação do Parque Científico da Unicamp. O autor considera que a partir desse ponto de inflexão tornou-se possível avaliar o grau de sucesso desse espaço de inovação e, sobretudo, analisar a estratégia empreendedora da Universidade para sua consolidação. Trata-se, diz ele, “de um empreendimento em processo de construção, diferenciado em relação a outros espaços de inovação de Campinas, o que demanda o entendimento do modelo de ocupação na área que lhe é destinada dentro do campus”. São analisados então os modos de ocupação do Parque, a caracterização do seu modelo, seu aspecto visível, assim entendida a estrutura técnica responsável pela execução de suas funções.

ESTRATÉGIAS

DE CONSOLIDAÇÃO

A dissertação é concluída com um quadro de ações que posicionam a estratégia adotada pela Unicamp para a consolidação de seu parque e mostra os resultados gerados nos primeiros anos de atuação da Inova no que tange à sua construção e termina com uma análise acerca do grau de sucesso desse parque científico no período 2008/2015. Entre as principais ações empreendedoras da Universidade para alavancar o potencial do seu parque científico o pesquisador destaca: criação da Inova; elaboração de estudos; participação em eventos; regulamentação de iniciativas, estabelecimento de parcerias e elaboração de trabalhos conjuntos; promoção de sua institucionalização; consolidação de editais; materialização física do empreendimento através de recursos inicialmente disponibilizados pela Universidade e de sua captação externa. Ao analisar o grau de sucesso do empreendimento no período estudado, Lucas destaca que os resultados mais importantes correspondem à vinda de empresas âncoras, à disponibilidade de prédios e aos projetos concretizados via acordos de cooperação. Ele considera que a estruturação desse espaço de inovação, através da consolidação da infraestrutura urbanística e da construção de prédios, constitui os pontos mais críticos para a materialização do empreendimento, evidenciados pelo congelamento de alguns projetos anunciados. Estes obstáculos vão sendo progressivamente superados com o estabelecimento de parcerias com empresas privadas, estimuladas por agências de financiamento,

que possibilitam inclusive a construção de prédios. Mas estas construções são ainda escassas devido à incipiente disponibilidade de capital, o que bloqueia a vinda de projetos colaborativos. Em face dessas dificuldades, o Parque Científico da Unicamp chegou ao ano de 2015 com duas empresas âncoras: a Lenovo, interessada em investir em um centro de P&D de software de última geração, e a Innova – Energias Renováveis. A primeira optou por ocupar o Parque conforme a modalidade A, enquanto a segunda o fará com base na modalidade B, propostas no Edital, que determina o modelo de ocupação do Parque. O autor entende que, para a construção do Parque Científico e Tecnológico da Unicamp, é necessária a busca de investimentos e que embora haja uma integração entre as escalas de análise geográfica no seu processo de construção, mostrando sua materialização no local, as forças necessárias para sua consolidação devem provir de instituições de fomento de âmbito regional e nacional. Ressalta, entretanto, que a estruturação do Parque se encontra em curso e que motivos financeiros determinaram retardos na sua agenda de implantação.

CONCLUSÕES DO ESTUDO O pesquisador divide em três grupos as conclusões a que chegou no estudo sobre o Parque Científico da Unicamp: as relacionadas ao seu processo de construção; as relativas à sua imersão no Polo Tecnológico de Campinas; e as estabelecidas à luz dos conceitos de Geografia da Inovação. Quanto ao processo de construção do Parque ele reforça a natureza do seu caráter científico; de que sua construção encontra-se na fase inicial e não evoluiu como o esperado; que uma das razões desse atraso deve-se à falta de recursos financeiros, impondo-se a necessidade de maiores esforços para a expansão da modalidade A, já que as empresas têm mais interesse em usar as instalações do próprio empreendimento do que arcar com construções que passam a ser propriedade da Universidade, porque construídas em seu campus. Quanto à inserção no Polo Tecnológico de Campinas, o autor destaca os esforços da Universidade, desde a década de 1960, amplificados depois de 2008, principalmente na busca de maiores investimentos em P&D e formação de recursos humanos; considera que os poucos projetos de P&D entre os gestores do Polo Tecnológico decorrem das características da cultura empreendedora local, que cria obstáculos para ações conjuntas; enfatiza que face à complexidade do projeto os resultados alcançados ainda não são suficientes para alavancar o Parque Científico da Unicamp e, consequentemente, a efetiva consolidação de um polo tecnológico internacionalmente competitivo em Campinas, embora as expectativas dos principais gestores dos parques da cidade vejam a iniciativa como catalizadora de parcerias. Por outro lado, a Geografia da Inovação mostra que o avanço tecnológico de Campinas permite a construção de espaços de inovação com potencial em CT&I; que o Parque da Unicamp pode usufruir da proximidade dos espaços de inovação na cidade para o estabelecimento de parcerias, criando um ambiente propício para atividades inovodoras, retendo na região uma mão de obra altamente qualificada e possibilitando ainda o aumento de oportunidades para atuações acadêmicas.

Publicação Dissertação: “A estratégia empreendedora da Unicamp para a consolidação do Parque Científico e Tecnológico” Autor: Lucas Baldoni Orientador: André Tosi Furtado Unidade: Instituto de Geociências (IG)


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Campinas, 21 a 27 de setembro de 2015

Pesquisadora alerta para os riscos do clareamento dental Cirurgiã-dentista analisa efeitos de diferentes concentrações e dois espessantes de géis clareadores Foto: Antonio Scarpinetti

Thayla Hellen Nunes Gouveia, autora da dissertação: “Gostaria que o nosso trabalho suscitasse a conscientização da necessidade de uma indicação correta do material a ser empregado no clareamento”

RESULTADOS O primeiro trabalho mostrou que efetivamente o espessante proposto em substituição ao carbopol, o natrosol, teve uma resposta satisfatória tanto para as resinas recémconfeccionadas quanto para as envelhecidas. Nas amostras envelhecidas os valores de rugosidade foram mantidos. Já nas amostras não envelhecidas, o espessante natrosol não influenciou na dureza superficial do material. Observou-se ainda que as resinas envelhecidas apresentaram alterações em todas as propriedades medidas, independentemente do tipo de espessante empregado. Estes testes comprovaram, então, que, quando envelhecido, o material restaurador sofre maior degradação em todos os parâmetros considerados. Como, neste caso, as amostras não foram submetidas a testes de pigmentação, as mudanças de cor provocadas pelo envelhecimento artificial acelerado, decorreram de fatores intrínsecos ao material e qualquer alteração seria inerente à sua natureza, pois com o passar do tempo seus componentes podem sofrer oxidação provocando escurecimento da resina. Por isso as restaurações amarelam com o tempo. Estas constatações levam a pesquisadora a concluir que “nas restaurações envelhecidas o agente clareador potencializa os efeitos deletérios do material, enquanto nas restaurações recém-realizadas esses efeitos são minimizados, principalmente em relação à microdureza, particularmente com a utilização do espessante natrosol”. Em decorrência, ela destaca a importância prévia de uma avaliação criteriosa por parte do cirurgião-dentista em relação ao que pode acontecer com as restaurações antigas presentes no paciente, após um tratamento clareador. Para situações que não demandem substituições das restaurações após o término do tratamento clareador, outro questionamento, discutido na literatura sem consenso, foi levantado: seria necessário realizar algum procedimento nestas restaurações para que suas propriedades ópticas, como cor e brilho, sejam restabelecidas? Para a autora, as respostas a estas perguntas demandam outros estudos.

CUIDADOS

CARMO GALLO NETTO carmo@reitoria.unicamp.br

m cada época a valorização de determinadas características estéticas humanas faz aumentar significativamente a demanda por produtos e tratamentos específicos. Nos dias atuais, por exemplo, é alta a demanda pelo clareamento dos dentes. Embora o procedimento altere completamente a cor dos dentes sem desgastá-los, muitos questionamentos são feitos com relação a sua seguridade. O tratamento clareador é realmente um procedimento seguro? Que efeitos secundários pode causar nas restaurações diretas com resina composta que estão há algum tempo na boca. Os tipos de espessantes empregados nos géis clareadores, que são líquidos, para lhes dar consistência, influem diretamente nas restaurações prejudicando suas propriedades físicas? Com o objetivo de analisar o efeito de géis clareadores, em diferentes concentrações e com diferentes espessantes, nos materiais restauradores e, de certa forma, tentar responder algumas destas perguntas, a cirurgiã-dentista Thayla Hellen Nunes Gouveia realizou pesquisas in vitro em que avalia os efeitos do envelhecimento artificial acelerado, do clareamento e do manchamento nas propriedades físicas de um compósito nanoparticulado utilizado para restaurações estéticas. Com a finalidade de estimar, em curto tempo, a longevidade clínica das restaurações, ela submeteu a resina selecionada ao envelhecimento artificial acelerado e também se deteve em verificar se após o clareamento ela se mostrava mais manchada. Para tanto, mergulhou as amostras em café. O trabalho foi desenvolvido no contexto da linha de pesquisa, sobre clareamento, mantida pela professora Débora Alves Nunes Leite Lima, na Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP) da Unicamp, orientadora do estudo, financiado pela Capes. Vale frisar o entusiasmo da pesquisadora pelo trabalho que realiza, já manifesto no frontispício de sua dissertação, em que cita Steve Jobs: “Para ter sucesso é necessário amar de verdade ao que se faz”. Natural de Juazeiro do Norte, no Ceará, e graduada em odontologia no seu Estado, ela procurou a FOP instigada por ex-professores que já tinham passado pela sua pós-graduação. Thayla explica que, com o tempo, a resina passa por um processo de envelhecimento, que altera sua cor, brilho, rugosidade média e dureza. Existem fatores intrínsecos ao material que o modificam ao longo do tempo e outros externos como tipo de alimentação, consumo de molho de tomate, refrigerantes, álcool, café e hábitos individuais, como o uso de tabagismo.

FEITOS

Primeiramente, para verificar a degradação provocada pelos agentes químicos utilizados no clareamento sobre o material das restaurações, foram preparadas, em formas adequadas, amostras, no formato de finos comprimidos, com superfícies devidamente regulares e polidas, de uma das resinas de tecnologia mais avançada.

Parte dessas amostras foi então submetida ao envelhecimento artificial acelerado. Em seguida, as amostras envelhecidas ou não foram submetidas ao tratamento clareador caseiro, simulando um tratamento utilizado pelo próprio paciente em casa, com orientação de um cirurgião-dentista. O objetivo foi estudar a ação dos radicais liberados pelo clareador sobre as resinas restauradoras. Para tanto, 100 amostras da resina selecionada foram distribuídas em dez grupos, metade deles constituído pelo material envelhecido. Cada grupo recebeu, na forma de géis clareadores, respectivamente, peróxido de carbamida 16%, com espessante carbopol; peróxido de carbamida, com espessante natrosol; apenas o espessante carbopol; apenas o espessante natrosol; e deixado sem tratamento o grupo de controle. O procedimento simulou o ambiente úmido, fechado, com temperatura constante que caracterizam as condições bucais e respeitou o tempo demandado nessas aplicações, o número delas e seus intervalos. Com estes procedimentos, a pesquisadora pretendeu inicialmente verificar as alterações de cor, brilho, rugosidade média e dureza ao longo do tempo nas amostras das resinas artificialmente envelhecidas para estimar sua longevidade clínica. Ela comparou também a ação de dois agentes espessantes diferentes empregados nos clareadores – um comumente utilizado, o carbopol, e outro, o natrosol, sugerido em decorrência dos trabalhos que vêm sendo realizados pelo grupo de pesquisa coordenado pela professora Débora –, em relação às restaurações envelhecidas ou não. As variações de cor, brilho, rugosidade média e dureza foram determinadas através de equipamentos específicos e foi utilizado um microscópio de força atômica para detectar alterações nas superfícies, impossíveis de serem identificadas a olho nu. Esses procedimentos permitiram avaliar os efeitos dos produtos aplicados nas resinas recém-realizadas e envelhecidas. Em um segundo momento do estudo, a partir de 120 novas amostras da resina, metade das quais também submetidas ao envelhecimento artificial acelerado, a autora submeteu as amostras de resina novamente aos procedimentos clareadores, agora comparando o produto clareador caseiro com o utilizado em consultório, de concentração muito superior e que portando deve ser aplicado por um cirurgião-dentista. No procedimento, ela montou três grupos de 20 amostras tanto nas séries envelhecidas ou não, aplicando sobre elas, respectivamente, peroxido de carbamida a 10%, o produto caseiro; peroxido de hidrogênio a 35%, utilizado em consultório; restando um grupo de controle sem aplicação. Mantiveram-se nos dois casos os procedimentos que envolvem as aplicações tanto em casa como no consultório e também verificadas as mesmas propriedades físicas, com a diferença de que, em cada grupo de 20, dez amostras foram submetidas depois do clareamento a tratamento com café. Nesta segunda fase as superfícies foram analisadas com a utilização da microscopia eletrônica de varredura.

Estas circunstâncias a levam a enfatizar que o clareamento, embora muito procurado, precisa ser endossado e realizado com muito critério por um cirurgião-dentista. A preocupação é com a oferta muito grande de produtos clareadores disponíveis em farmácias ou supermercados e aplicados indiscriminadamente sem o acompanhamento de um profissional. Mesmo porque o clareamento pode não apresentar resultados satisfatórios em todos os casos. Existem alterações cromáticas que são intrínsecas à estrutura dental, e dependendo da severidade destas, o clareamento não é indicado. Além disso, o produto clareador pode apresentar toxicidade aos tecidos moles, mesmo em baixa concentração, o que pode causar lesões nas gengivas e bochechas quando não utilizado corretamente. “Por isso tudo, a população precisa ser alertada sobre a necessidade de o produto clareador ser indicado criteriosamente por um cirurgião-dentista tanto para o tratamento em consultório como em casa”, diz ela. Embora hoje se saiba que o clareamento é seguro se bem indicado e conduzido, sua recomendação exige um diagnóstico correto das razões que levaram à alteração da cor do dente para garantir que os seus resultados sejam os esperados. Estes apresentam-se geralmente eficazes nos manchamentos fisiológicos e causados por uso de dieta pigmentante. Há ainda a necessidade de uma indicação criteriosa do produto a ser utilizado de acordo com o perfil de cada paciente. Neste particular, afirma Thayla, “gostaria que o nosso trabalho suscitasse a conscientização da necessidade de uma indicação correta do material a ser empregado no clareamento, particularmente em pacientes que apresentam restaurações estéticas que não serão trocadas posteriormente”. Thayla ressalva que os géis clareadores causam alterações nas superfícies das resinas compostas, influenciando negativamente as suas propriedades ópticas. Ainda, devido ao aumento de rugosidade superficial, essas resinas podem ficar mais suscetíveis ao manchamento. Entretanto, o estudo não permite avaliar a profundidade destas alterações no material restaurador. Outros estudos são necessários para indicar com segurança a necessidade ou não de substituições ou apenas uma manutenção das restaurações através de procedimentos de polimento. Esse estudo a pesquisadora pretende desenvolver durante o doutorado já iniciado sob supervisão da mesma orientadora.

Publicação Dissertação: “Efeito do envelhecimento artificial acelerado, clareamento e manchamento nas propriedades físicas de um compósito nanoparticulado” Autora: Thayla Hellen Nunes Gouveia Orientadora: Débora Alves Nunes Leite Lima Unidade: Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP) Financiamento: Capes


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Geógrafa propõe

zoneamento geoambiental para regiões vulneráveis Foto: Divulgação/Prefeitura Municipal de Caraguatatuba

Ferramenta técnica de planejamento foi aplicada em trabalho de campo no litoral de São Paulo ISABEL GARDENAL bel@unicamp.br

unicípios litorâneos como Caraguatatuba, São Paulo, precisam de uma maior atenção das autoridades governamentais para a realização de um planejamento urbano, uma vez que ficam situados em áreas de dinâmica frágeis, segundo estudo de mestrado apresentado ao Instituto de Geociências (IG). “Eles podem enfrentar riscos, não somente à devastação do meio ambiente, mas também à população. Isso porque faltam políticas de organização territorial de infraestrutura urbana”, concluiu a geógrafa Cibele Oliveira Lima, autora da dissertação. O trabalho de Cibele – orientado pela docente do IG Regina Célia de Oliveira no período entre 2013 e 2015 – traz proposta de um zoneamento geoambiental, que surge como ferramenta técnica de planejamento integrado e passa a representar uma solução para o ordenamento racional dos recursos para regiões de maior vulnerabilidade. Esse zoneamento garante a manutenção da biodiversidade, dos processos naturais e de serviços ambientais ecossistêmicos. A proposta de zoneamento geoambiental defendida por Cibele parte de uma metodologia organizada pelos pesquisadores José Rodriguez, Edson da Silva e Agostinho Cavalcanti (2004) no livro Geoecologia das Paisagens: Uma Visão Geossistêmica de Análise Ambiental. Nessa metodologia, efetuam-se primeiramente inventários físico e socioeconômico (com o maior número de informações do município), organizados em texto sistêmico e em cartas temáticas na escala 1:50.000, que

Vista parcial de Caraguatatuba: município passou a ter problemas socioespaciais em razão da ocupação irregular do território e do aumento da população

ajudam a detalhar a fragilidade e o estado ambiental da região. Essas informações, salientou a mestranda, são comparadas para chegar a um diagnóstico que aponta os principais impactos ambientais na área estudada. Então é que se elabora o zoneamento geoambiental, com ações para o desenvolvimento futuro do município, para a preservação do meio ambiente e para a melhoria na qualidade de vida. Cibele e sua orientadora fizeram o trabalho de campo em Caraguatatuba. Para essa tarefa, elas também contaram com a participação da Defesa Civil. Juntas visitaram 19 áreas de ocupação irregular em zonas de “muito alto” e de “alto risco” a escorregamentos e a inundações. Trata-se de assentamentos localizados nos núcleos Tinga, Jaraguazinho, Rio do Ouro, Benfica, Cantagalo, Casa Branca, Martim de Sá e Olaria, no setor Central do município, e Sertão dos Torinhos, que se localiza no setor Sul. Essas áreas se constituem as mais frágeis e críticas ambientalmente falando, afirmou a pesquisadora.

Ao conhecer o território, ela calibrou as informações dos mapas, acrescentou novos dados, fez a coleta de material fotográfico e conversou com moradores locais sobre situações recentes. Também esteve na Universidade de Havana, em Cuba, onde fez um estágio orientado pelo professor Rodriguez, um dos autores da metodologia. Foi aí que compreendeu o valor do quadro físico e socioeconômico da área, da produção de cartas e mapas temáticos, e dos trabalhos de campo supervisionados pela Defesa Civil. A geógrafa reforçou a pertinência de estudos de natureza geoambiental que apontem pontos de fragilidade ambiental. Esses estudos, constatou, podem colaborar para planos de disciplinamento de uso que, além de intervir com menor risco, podem promover a manutenção da qualidade dos sistemas naturais costeiros.

CARACTERÍSTICAS Cibele escolheu Caraguatatuba – cidade que tem cerca de 100.800 habitantes vivenFoto: Divulgação

A geógrafa Cibele Oliveira Lima, autora da dissertação, durante trabalho de campo em Cuba, onde desenvolveu parte do estudo

do em uma área de 485 km² – pela sua importância como polo regional do litoral norte de São Paulo, pela sua relevância econômica para a região e porque possui poucos estudos ambientais nessa escala. Historicamente, contou a pesquisadora, a ocupação dessa cidade foi feita com a chegada de estrangeiros que se instalaram na Fazenda dos Ingleses (hoje um sítio arqueológico). Isso trouxe à cidade benefícios como aumento da população, aparecimento de trabalhadores agrícolas, artesãos e comércio, e crescimento substancial da arrecadação municipal. Com o desenvolvimento turístico e o novo cenário de transformação, impulsionado por projetos como o pré-sal, veio a necessidade de um estudo que aliasse o uso dos recursos naturais com as atividades econômicas, de forma que o meio ambiente sofra o menor impacto possível. “Mudanças são necessárias para planejar o futuro, avaliar os impactos socioambientais dos grandes empreendimentos, procurar formas de usá-los para a sustentabilidade local e regional, e mitigar os efeitos negativos”, salientou Cibele. Caraguatatuba cresceu. Novos bairros e estradas surgiram e, a partir de 1950, o fluxo de turismo aumentou exponencialmente. Contribuiu para a instalação de novas infraestruturas urbanas e obras de saneamento que comportam as necessidades de uma população cada vez mais flutuante. Mas nessa mesma época, o município passou a ter problemas socioespaciais, ocupação irregular do território e aumento exacerbado de seu contingente populacional, todos decorrentes de um planejamento ineficaz. Hoje, um dos principais problemas é a população flutuante de alta temporada. Outros são o aumento do fluxo de migrantes de outras regiões menos desenvolvidas do litoral norte e a supressão das vegetações originais (como manguezal e mata atlântica), que, mesmo protegidos por lei, sofrem pressão do desenvolvimento e da instalação de mineradoras ou ocupação urbana irregular. “Tudo isso tem implicações para a qualidade de vida e a destruição do meio ambiente local. No caso do aumento de turistas e migrantes, têm surgindo problemas socioespaciais de falta de estruturação do aparelho urbano, o que tem feito com que as pessoas passem por inconvenientes como falta de luz, de água, de abastecimento de comida e de coleta de lixo, produzindo inclusive problemas de saúde”, reparou a autora. Com a destruição da vegetação original e perda de inestimável patrimônio de fauna e flora, os processos erosivos e de escorregamento de massa (que ocorrem naturalmente) passaram a se intensificar e a trazer problemas de segurança para a população que vive em áreas de risco, discutiu a mestranda. Apesar disso, Caraguatatuba ainda é o município mais estruturado do litoral norte, em termos de ações de Defesa Civil e da Prefeitura. Por outro lado, mesmo com essas ações para melhorar as condições de vida da população, não ficou claro o cuidado do governo municipal com o meio ambiente. O maior obstáculo é a falta de articulação com o poder público, que muitas vezes acaba usando instrumentos antigos e defasados ou com escala não adaptada às nuances do município. Na opinião de Cibele, o zoneamento deve partir de diagnósticos específicos para cada área avaliada, com vistas a identificar as causas e as medidas para conter e gerenciar os impactos ambientais, à luz de uma visão sistêmica, a fim de fazer uma correta interpretação. “É preciso entender que a ação do homem é um elemento ativo e participativo que pode alterar as escalas do tempo e agilizar os processos naturais. É preciso dizer que uma proposta de zoneamento deve assegurar, ainda que em longo prazo, a igualdade no acesso aos recursos naturais, econômicos e socioculturais, melhorando a qualidade do meio”, descreveu a pesquisadora.

Publicação Dissertação: “Zoneamento geoambiental do município de Caraguatatuba (SP)” Autora: Cibele Oliveira Lima Orientadora: Regina Célia de Oliveira Unidade: Instituto de Geociências (IG) Financiamento: Fapesp


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Painel da semana  Ciência & Arte nas Férias - A Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP) da Unicamp receberá, de docentes e pesquisadores da Universidade, projetos para a edição de 2016 do Programa Ciência & Arte nas Férias. Eles devem ser submetidos ao Fundo de Apoio ao Ensino, à Pesquisa e à Extensão (Fapex/PRP), até 21 de setembro (nova data), por meio do formulário eletrônico http://www.prp.gr.unicamp.br/ faepex/pesquisa/auxCAF/loginFSP_CAF.php. As escolas das Diretorias de Ensino (Leste e Oeste) de Campinas e as da Rede Pública de Ensino Médio dos municípios de Limeira e de Piracicaba, devem efetuar a inscrição dos estudantes, até o mesmo dia, no site http://www. prp.rei.unicamp.br/sistema_pibic_em/areaCAF/. O Programa Ciência & Arte nas Férias visa proporcionar aos alunos do ensino médio da rede pública, a oportunidade de participar no desenvolvimento de projetos de pesquisa nos laboratórios da Unicamp, durante o período de férias escolares (6 de janeiro a 5 de fevereiro de 2016), sob a supervisão de professores/pesquisadores da Universidade. Mais detalhes podem ser obtidos pelo telefones 19-3521-2973 / 3521-4614 ou e-mail ciencianasferias@reitoria.unicamp.br  Patrimônios, construções participativas e multifocais - Seminário internacional acontece entre os dias 21 e 25 de setembro. O objetivo é reunir pesquisadores nacionais e internacionais, gestores públicos e agentes comunitários para debater, de forma aberta e democrática, temas relativos ao patrimônio material e imaterial em diferentes contextos territoriais. A proposta é compreender e valorizar as experiências (acadêmicas e não-acadêmicas) que destacam os papéis participativos das comunidades junto aos seus patrimônios e a multivocalidade na definição e gestão destes bens. O evento é organizado pelo Laboratório Interdisciplinar do Patrimônio, Ambiente e Comunidades (Lipac/Nepam) e faz parte da Rede de Pesquisa “Trabajo en red para la acción multivocal en arqueología, antropologia y ambiente” – Trama 3. Conta ainda com o apoio da linha pesquisa “Cultura visual, história intelectual e patrimônios” , do Programa de Pós-graduação em História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH). Consulte a programação completa no link https://1seminariolipac.wordpress.com/programacao-geral/  Redação científica - O Espaço da Escrita oferece aos docentes, pesquisadores e alunos de pós-graduação da Unicamp, o curso básico “Método Lógico para Redação Científica”, dia 21 de setembro, às 9 horas, no auditório III do Centro de Convenções da Unicamp. O curso terá 8 horas/aula e será ministrado pelo professor Gilson Luiz Volpato (UNESP/Botucatu). Ele foi organizado para todos que queiram aprender do zero ou aperfeiçoar a escrita de textos acadêmicos desde a perspectiva da ciência empírica. Mais detalhes pelo e-mail workshops.escrita@reitoria.unicamp.br ou no site http://www.cgu.unicamp.br/espaco_da_escrita/cgu-espaco-escrita-eventos_.php

 Seis sigma - White belt - No dia 22 de setembro, das 9 às 13 horas, na Faculdade de Tecnologia (FT) da Unicamp, acontece um curso introdutório de Seis sigma - White belt, na modalidade extensão. O curso é organizado pelo professor Marcos Borges (FT). O objetivo é fornecer uma visão geral sobre a metodologia Seis Sigma para possíveis aplicações. Outras informações podem ser obtidas pelo telefone 19-2113-3353 ou e-mail karen@ft.unicamp.br  Indicadores de qualidade para a graduação - O Espaço de Apoio ao Ensino e Aprendizagem (EA2), órgão da Pró-Reitoria de Graduação (PRG) da Unicamp, organiza no dia 22 de setembro, às 9 horas, no Centro de Convenções, o II Seminário “Construindo indicadores de qualidade para a graduação”. Refletir criticamente sobre as interfaces entre projeto pedagógico /proposta curricular e avaliação à luz dos indicadores de qualidade do ensino de graduação concebidos; Discutir as mediações necessárias para viabilizar processualmente o conjunto de indicadores de qualidade propostos pela comunidade acadêmica, e subsidiar teoricamente a proposição de diferentes instrumentos de avaliação (das aprendizagens, da qualidade dos cursos e PAG) sensíveis ao conjunto de indicadores de qualidade afirmados pela comunidade acadêmica estão entre os objetivos do encontro. Mais detalhes no site do evento http://www. ea2.unicamp.br/index.php?option=com_icagenda&view=list&layout= event&id=82&Itemid=117  Neurociência cognitiva em aprendizagem - O Serviço de Apoio ao Estudante (SAE), por meio de seu Setor de Orientação Educacional, organiza, dia 22 de setembro, às 12 horas, na sala CB 03 do Ciclo Básico, uma palestra com o professor Benito Damasceno, do Departamento de Neurologia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM). Na ocasião, ele abordará o tema “Neurociência cognitiva em aprendizagem”. O objetivo e oferecer, aos alunos da Universidade, subsídios para que eles aprimorem o seu processo de aprendizagem.  Mostra de trabalhos do Cotuca - O Colégio Técnico de Campinas, o Cotuca, organiza a sua V Mostra de Trabalhos de Cursos Técnicos, dia 24 de setembro, das 9 às 17 horas, no Ginásio do Cotuca (Rua Jorge de Figueiredo Corrêa 735), no Parque Taquaral em Campinas - SP. O objetivo é despertar e incentivar vocações científicas e tecnológicas aos alunos regularmente matriculados em cursos técnicos. Estudantes com conhecimentos na área de metrologia poderão participar do 1º Prêmio Desafio Mahle. Mais detalhes pelo e-mail vanessa@cotuca.unicamp.br ou telefone 19-3521-9906.  A participação brasileira em grandes telescópios O Instituto de Física “Gleb Wataghin” (IFGW) recebe, dia 24 de setembro, às 17 horas, em seu auditório, o professor Marco Dias, presidente da Sociedade Astronômica Brasileira. Ele irá falar sobre a participação brasileira em grandes telescópios como o ESO (European Southern Observatory) no Chile e como poderemos aprender mais sobre o Universo com o uso destes aparelhos. Mais detalhes pelo e-mail orlando@ifi.unicamp.br  Imaginários da fé - A Biblioteca da Área da Engenharia e Arquitetura (BAE), por meio do Projeto Lendo Letras e Imagens, organiza, até 25 de setembro, a exposição fotográfica “Imaginários da Fé”, do jornalista e fotógrafo Antonio Scarpinetti, funcionário da Assessoria de Comunicação e Imprensa (Ascom) da Unicamp. A mostra, que é composta por cenas folclóricas do interior do Estado de São Paulo, apresenta retratos da peregrinação e festa de folias de santos reis na região dos municípios de Olímpia e Guaraci, durante o ciclo natalino e o ciclo dos encontros de congos em maio. A exposição é resultado de um trabalho que não se esgota com a imagem em si, mas que privilegia o contexto, a vivência e o ato da celebração em sua raiz. Visitas podem ser feitas de segunda a sexta-feira, das 7h30 às 22 horas, no 2º piso da Biblioteca Central Cesar Lattes (BCCL). A entrada é livre. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone 19-3521-6477 ou e-mail danif@unicamp.br  Abastecimento, distribuição e armazenagem de alimentos - O Instituto Confúcio da Unicamp e o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação (NEPA) organizam debate com alunos, professores e pesquisadores sobre abastecimento e distribuição de alimentos e reposicionamento do sistema de armazenagem. Será no dia 25 de setembro, às 10 horas, no anfiteatro do Departamento de Tecnologia de Alimentos (DTA) da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA). O evento está sob a responsabilidade do professor Walter Belik. Mais informações pelo telefone 19-3521-4022 ou e-mail nepa@unicamp.br  Cotuca Aberto ao Público - O Colégio Técnico da Unicamp (Cotuca) organiza no dia 26 de setembro, mais uma edição do Colégio Aberto ao Público. Trata-se de uma oportunidade para os candidatos conhecerem a escola e os cursos oferecidos pela unidade.

Destaque ara marcar a pré-abertura dos 50 anos da Unicamp, a Orquestra Sinfônica da Unicamp e a Ópera Estúdio apresentam a ópera “Don Giovanni”, de W. A. Mozart (1756/1791), no Theatro Municipal de Paulínia, nos dias 30 de setembro e 1º de outubro. A entrada é gratuita. A montagem tem direção musical e regência do maestro Abel Rocha (titular da Orquestra Sinfônica de Santo André), direção cênica de Matteo Bonfitto (professor do Departamento de Artes Cênicas do Instituto de Artes da Unicamp), e coordenação de Angelo Fernandes (diretor do Ópera Estúdio). “Don Giovanni” conta, ainda, com o Coro Contemporâneo de Campinas, do Instituto de Artes da Unicamp, regido por Angelo Fernandes, formado por 40 alunos de graduação e pós-graduação em Música. O elenco reúne os cantores Willian Donizetti, Volnei dos Santos, Raíssa Amaral, Daniel Duarte, Susana Boccato, Fernando Barreto, Ana Beatriz Machado e Raphael Domeniche.

Neste dia, os laboratórios ficarão abertos à visitação para que os alunos, sob a supervisão de professores, apresentem as atividades desenvolvidas nos cursos do Cotuca. No evento, os visitantes poderão esclarecer dúvidas com alunos e professores. O Colégio Aberto ao Público funcionará das 9 às 17 horas, na Rua Jorge de Figueiredo Corrêa, 735, no Parque Taquaral, em Campinas. Mais detalhes no site http://www.cotuca.unicamp.br/ ou telefone 19-3521-9906.  Feira cultural do CIS-Guanabara - O Grupo de Projetos de Extensão (GPECIS) do Centro Cultural de Inclusão e Integração Social (CIS-Guanabara) da Unicamp organiza no dia 26 de setembro, das 14 às 17 horas, a próxima edição da Feira Cultural ‘Primavera em Flor’. O evento contará com apresentações de rap, dança circular, oficinas de artes manuais e exposição de trabalhos artesanais. Participantes do Projeto de Extensão em Cultura (do primeiro semestre de 2015) também realizarão uma mostra de trabalhos. Para o evento cultural a entrada é livre e aberta ao público em geral. O CISGuanabara, órgão vinculado à Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários (Preac) da Unicamp, fica à rua Mário Siqueira 829, no bairro do Botafogo, em Campinas-SP. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone 19-3231-6369 ou e-mail aquarela@unicamp.br.

Eventos futuros  Deleuze e máquinas e devires e ...- O Laboratório de Estudos Audiovisuais (Olho) da Faculdade de Educação (FE) organiza, entre 28 e 30 de setembro, no Centro de Convenções da Unicamp, o VI Seminário Conexões “Deleuze e Máquinas e Devires e ...”. A abertura do evento será às 9 horas. Inscrições, programação e outras informações no link http://seminarioconexoes.wix.com/conexoes, email acamorim@unicamp.br ou telefone 19-3521-5647.

Teses da semana  Artes - “Camuflagens e desaparições: ensaios fotográficos em narrativas visuais” (mestrado). Candidata: Marília Lourenço Guimarães Zaitz. Orientadora: professora Luise Weiss. Dia 21 de setembro de 2015, às 10 horas, na sala 3 da Pós-graduação do IA.  Computação - “Classificação multiclasse multiescala de imagens de sensoriamento remoto” (mestrado). Candidato: Agnaldo Aparecido Esmael. Orientador: professor Ricardo da Silva Torres. Dia 24 de setembro de 2015, às 14 horas, no auditório do IC. “KOMODO2 - inferência genômica em larga escala” (mestrado). Candidato: Jorge Augusto Hongo. Orientador: professor Guilherme Pimentel Telles. Dia 25 de setembro de 2015, às 9 horas, no auditório do IC.  Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo - “Implantação de conjuntos habitacionais: as lições da produção dos institutos de aposentadoria e pensões” (mestrado). Candidata: Natalia Taroda Ranga. Orientadora: professora Silvia Aparecida Mikami Gonçalves Pina. Dia 24 de setembro de 2015, às 10 horas, na sala de defesa de teses 2 do prédio de salas de aula da FEC.  Engenharia Elétrica e de Computação - “IntelFlow: um enfoque proativo para adicionar inteligência de ameaças cibernéticas para Redes Definidas por Software” (mestrado). Candidato: Javier Richard Quinto Ancieta. Orientador: professor Christian Rodolfo Esteve Rothenberg. Dia 22 de setembro de 2015, às 9 horas, na PE12 da FEEC. “Sistema de medida de função trabalho com fonte de elétrons de nanotubos de carbono” (doutorado). Candidato: Marcos Henrique Mamoru Otsuka Hamanaka. Orientador: professor Peter Jürgen Tatsch. Dia 24 de setmebro de 2015, às 9 horas, na CPG da FEEC. “Propostas de controles de potência e otimização do desempenho do gerador de relutância variável aplicado em geração eólica conectada à rede elétrica de baixa tensão” (doutorado). Candidato: Tárcio André dos Santos Barros. Orientador: professor Ernesto Ruppert Filho. Dia 25 de setembro de 2015, às 9 horas, na FEEC.  Engenharia de Alimentos - “Uso da meta-análise como ferramenta na avaliação de dados disponíveis na literatura sobre ina-

do Portal

Ópera integra programação dos 50 anos da Unicamp Foto: Marília Vasconcelos

SERVIÇO

DESORDEM DOS AFETOS Com música de Mozart e libreto de Lorenzo da Ponte, “Don Giovanni” (o nome remete ao personagem conhecido na literatura como Don Juan) é uma peça sobre a desordem dos afetos. Os personagens vagam num mundo afogado em emoções e desejos violentos, tendo como tema central o “don juanismo” clássico na psicologia moral como símbolo do enlouquecimento do desejo. No final do século 18, a Revolução Francesa está às portas da Europa. A peça foi muitas vezes apontada como sendo “prórevolução”, a favor do novo espírito da época, de questionamento da ordem aris-

tivação de micro-organismos por métodos físicos e químicos” (mestrado). Candidato: Leonardo do Padro Silva. Orientador: professor Anderson Souza Sant’Ana. Dia 29 de setembro de 2015, às 10 horas, no auditório do Departamento de Ciências dos Alimentos da FEA. “Elaboração de leite achocolatado enriquecido com óleo de chia livre ou microencapsulado e adoçado com diferentes edulcorantes” (mestrado). Candidata: Juliana Burger Rodrigues. Orientadora: professora Helena Maria André Bolini. Dia 23 de setembro de 2015, às 14 horas, no anfiteatro do DEPAN da FEA. “Modelagem preditiva de deterioração de pães integrais multigrãos por fungos filamentosos” (mestrado). Candidata: Juliana Lane Paixão dos Santos. Orientador: professor Anderson de Souza Sant´Ana. Dia 23 de setembro de 2015, às 14 horas, no auditório do DCA da FEA. “Influência da fração lipídica e da etapa de resfriamento na cristalização e estabilidade física de chocolate amargo” (mestrado). Candidata: Simone Correa de Oliveira. Orientadora: professora Priscilla Efraim. Dia 24 de setembro de 2015, às 14 horas, no auditório do DTA I (Carnes) da FEA. “Compostos biativos de abricó (mammea americana), fruta de região amazônica brasileira” (doutorado). Candidata: Pollyane da Silva Ports. Orientadora: professora Helena Teixeira Godoy. Dia 25 de setembro de 2015, às 9 horas, no anfiteatro do DCA da FEA.  Engenharia Química - “Determinação experimental dos parâmetros da equação de Nusselt em tanque com impulsor mecânico e serpentina espiral de fundo” (doutorado). Candidato: Carlos Alberto Amaral Moino. Orientador: professor Elias Basile Tambourgi. Dia 21 de setembro de 2015, às 10 horas, na sala de defesa de teses do bloco D da FEQ. “Produção de biossurfactante por Pantoea sp. utilizando casca de abacaxi e milhocina e aplicação na biorremediação” (doutorado). Candidata: Fabíola Carolina Gomes de Almeida. Orientador: professor Elias Basile Tambourgi. Dia 22 de setembro de 2015, às 14 horas, na sala de defesa de teses do bloco D da FEQ.  Física - “Integrabilidade e ressonâncias: Aplicações dos métodos de Melnikov e de continuação numérica” (doutorado). Candidata: Gabriela Iunes Depetri. Orientador: professor Alberto Saa. Dia 25 de setembro de 2015, às 14 horas, no auditório de Pós-graduação do prédio D do IFGW.  Odontologia - “Avaliação das atividades anticâncer, antinociceptiva e anti-inflamatória de produtos oriundos da artemisia annua l” (doutorado). Candidato: Fabrício de Faveri Favero. Orientadora: professora Mary Ann Foglio. Dia 21 de setembro de 2015, às 14 horas, na sala da Congregação da FOP. “Percepções dos agentes comunitários de saúde sobre educação e promoção da saúde bucal em unidades de saúde da família: uma análise qualiquantitativa” (mestrado profissional). Candidata: Ana Alexandra de Rezende. Orientadora: professora Karine Laura Cortellazzi Mendes. Dia 25 de setembro de 2015, às 13h30, na sala de seminários I do Cepae da FOP. “Analise mecânica de cinco técnicas de fixação de fraturas mandibulares bilaterais: um estudo in vitro em mandíbulas de poliuretano” (doutorado). Candidata: Raquel Correia de Medeiros. Orientador: professor Jose Ricardo de Albergaria Barbosa. Dia 25 de setembro de 2015, às 14 horas, na sala da Congregação da FOP.  Química - “Fases fluoradas como sorventes para extração em fase sólida de pesticidas e compostos perfluorados” (mestrado). Candidata: Cristiane Vidal. Orientadora: professora Isabel Cristina Sales Fontes Jardim. Dia 21 de setembro de 2015, às 14 horas, na sala IQ05 do IQ. “Estudos de reduções enzimáticas de alcenos ativados” (doutorado). Candidato: Bruno Ricardo Silva de Paula. Orientador: professor Paulo José Samenho Moran. Dia 21 de setembro de 2015, às 14 horas, na sala IQ14 do IQ. “Avaliação da fração bioacessível e biodisponível de nutrientes e contaminantes em cortes de carne bovina” (doutorado). Candidata: Ana Beatriz Perriello Leme. Orientadora: professora Solange Cadore. Dia 21 de setembro de 2015, às 14 horas, no miniauditório do IQ. “Dinâmica molecular do receptor ativador da proliferação de peroxissomos γ: associação com ligantes e proteínas corregulatórias” (doutorado). Candidata: Melina Mottin. Orientador: professor Munir Salomão Skaf. Dia 25 de setembro de 2015, às 14 horas, na sala IQ14 do IQ. “Caracterização molecular de matéria orgânica sedimentar por técnicas cromatográficas e de espectrometria de massas” (doutorado). Candidata: Giovana Anceski Bataglion. Orientador: professor Marcos Nogueira Eberlin. Dia 25 de setembro de 2015, às 14 horas, no miniauditório do IQ.

Integrantes da Orquestra Sinfônica da Unicamp, que será regida pelo maestro Abel Rocha

tocrática, principalmente por meio da figura do criado de Don Giovanni, Leporello, um homem ressentido e revoltado com seu mestre, que reclama todo o tempo de sua “vida de escravo”. Neste campo dos humores da alma, seus afetos, desejos e vontades, Don Giovanni se insere numa longa reflexão acerca da psicologia moral. Ele é um homem dominado pelo desejo e incapaz de pôr limi-

tes racionais à sua compulsão de possuir uma mulher após a outra. Esta compulsão de um desejo que se repete infinitamente, o leva à destruição, assim como a uma quase destruição das mulheres sobre quem ele exerce seu domínio sedutor. “Don Giovanni” faz parte da série de montagens realizadas pelo Ópera Estúdio em parceria com a Orquestra da Unicamp, que resultou nas produções “La Clemenza

Ópera “Don Giovanni”, de W. A. Mozart Com: Orquestra Sinfônica da Unicamp/Ópera Estúdio/Coro Contemporâneo de Campinas Data: 30 de setembro e 1º de outubro Horário: 20h Local: Theatro Municipal de Paulínia (Rod. José Lozano Araújo, 1551 - Parque Brasil 500, Paulínia – SP) Telefone: (19) 3933-2140 Entrada gratuita

di Tito”, “A Flauta Mágica”, “As Bodas de Fígaro”, de Mozart, e “Dido & Aeneas”, de Purcell. “Este trabalho tem proporcionado aos alunos de canto do Instituto de Artes/ Unicamp um grande desenvolvimento técnico vocal e cênico-musical, além de criar possibilidades de pesquisa para pós-graduandos do programa de pós-graduação em música”, destaca o professor Angelo Fernandes. (Maria Cláudia Miguel)


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Campinas, 21 a 27 de setembro de 2015

Como os idosos veem a saúde Preocupação com vida ativa e autônoma predomina em entrevistas feitas para a tese Foto: Antonio Scarpinetti

ISABEL GARDENAL bel@unicamp.br

studo de doutorado da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) com uma população de 1.247 pessoas com mais de 65 anos, dos municípios de CampinasSP e de Belém-PA, concluiu que a percepção desses idosos sobre a sua própria saúde, o seu desempenho funcional e a sua satisfação com a vida atuou como amortecedor para os efeitos dos riscos sobre a funcionalidade. A pesquisa, de Efigênia Passarelli Mantovani, também constatou que essa população demonstrou muita preocupação com a manutenção de uma vida ativa e autônoma. Por outro lado, segundo a estudiosa, independentemente do nível de desenvolvimento social das amostras das duas cidades, as condições socioeconômicas sugeriram interferências no envelhecimento, às vezes protegendo e outras precipitando os riscos nessa fase. A tese, desenvolvida no formato de três artigos, foi defendida no programa de PósGraduação em Saúde Coletiva e teve orientação do professor Sérgio Roberto de Lucca. A pesquisadora empregou como base parte dos resultados obtidos do projeto Fibra (Fragilidade em Idosos Brasileiros), polo Unicamp, uma pesquisa nacional feita a partir de 2008, envolvendo 3.478 idosos residentes em sete cidades brasileiras: Campinas-SP, Belém-PA, Ivoti-Rio Grande do Sul, Poços de Caldas-Minas Gerais, Ermelino Matarazzo-SP, Campina Grande-PB e Parnaíba-PI. O projeto contou com a coordenação geral da professora Anita Liberalesso Neri, do Programa de Pós-Graduação em Gerontologia da FCM. Efigênia selecionou Campinas e Belém para avaliar as relações entre condições de gênero, idade e renda familiar desses idosos. O objetivo foi traçar um perfil dos idosos residentes nos dois municípios, descrevendo as condições de saúde e de satisfação com a vida. Essas duas cidades foram escolhidas pelo fato de terem mais de 1 milhão de habitantes e de serem populações diferenciadas em termos de condições de desenvolvimento econômico. Enquanto o PIB per capita de Campinas, entre 2008 e 2009, era de R$ 29.731, 00, o de Belém era de R$ 9.793,00. A amostra foi composta de 676 idosos de Campinas e de 571 de Belém, de ambos os sexos. Em Campinas, 54% deles apresentavam uma renda superior a três salários mí-

Efigênia Passarelli Mantovani, autora da tese: “Boa saúde constitui-se um elemento-chave de uma vida longa e com autonomia para esses idosos”

nimos. Em Belém, 65,5% da amostra tinha uma renda familiar de menos de um a três salários mínimos. “Esses dados refletiram que, na renda média mais elevada de Campinas, é possível supor que as condições estruturais da sociedade contribuem fortemente para o padrão de vida melhor de seus moradores”, explicou.

QUESTÕES

Efigênia analisou questões abertas sobre velhice saudável e velhice feliz. Tanto para o conceito de velhice saudável como para o conceito de felicidade, a expressão mais citada pelos avaliados foi saúde. “Logo, boa saúde constitui-se um elemento-chave de uma vida longa e com autonomia para esses idosos”. Saúde e funcionalidade foram motivos de forte preocupação para os idosos. Mas, em ambas as cidades, eles se declararam muito satisfeitos com as relações familiares e de amizade, e com a capacidade de resolver situações do dia a dia. Quanto ao item satisfação, Efigênia observou que, “curiosamente, às vezes o idoso apresentava várias doenças, mas, quando se comparava com outros idosos da mesma idade, ele julgava sua saúde melhor”, disse. Foto: Antonio Scarpinetti

Quando Efigênia estudou a avaliação da saúde nas duas amostras, essa autoavaliação associou-se à baixa escolaridade, três ou mais doenças crônicas e défice visual. Foram notadas associações adicionais com fadiga, três ou mais sinais e sintomas de saúde – como incontinência urinária e fecal, problemas de mastigação, sintomas depressivos e outros –, uso de serviços públicos de saúde e depressão. Ao avaliar o número de doenças e a capacidade funcional, a pesquisadora verificou que, em Campinas, os idosos que não citaram doenças crônicas ou que relataram apenas uma ou duas estavam muito satisfeitos com a vida em comparação a outros da mesma idade e também com a capacidade de resolver problemas, com as amizades, com o ambiente, com o serviço de saúde e com o transporte. Já em Belém, para os mesmos parâmetros, os idosos se intitularam satisfeitos com a vida de uma forma geral, não se atendo a aspectos específicos. Conforme a estudiosa, os idosos campineiros relataram mais acesso ao sistema cooperativo de assistência médica (convênios) e os de Belém um uso predominante dos serviços públicos (principalmente do Sistema Único de Saúde - SUS).

Publicação Tese: “Satisfação com a vida, condições e autoavaliação da saúde entre idosos residentes na comunidade”. Autora: Efigênia Passarelli Mantovani Orientador: Sérgio Roberto de Lucca Unidade: Faculdade de Ciências Médicas (FCM)

No ar, o legado de Moacir Santos PATRÍCIA LAURETTI patricia.lauretti@reitoria.unicamp.br

Lucas Zangirolami Bonetti: autor do projeto deu palestra sobre a obra e a trajetória de Moacir Santos

Em Campinas, os que tiveram melhor desempenho num teste de marcha demonstraram maior nível de satisfação com a vida, com a capacidade de resolver problemas do dia a dia e também com as amizades. Alta força de preensão palmar também correspondeu a maior satisfação para resolver os problemas do dia a dia. Em Belém, os que exibiram melhor desempenho na marcha tiveram um nível mais elevado de satisfação com a memória para resolver situações do dia a dia. “A motivação foi maior para sair, encontrar grupos de amizade, utilizar os meios de transporte e resolução de problemas do cotidiano”, descreveu. Para Efigênia, os resultados da sua investigação deixaram claro que ações de curto prazo devem ser orientadas pela efetivação de políticas públicas ao segmento idoso. “Então os serviços e os programas devem focalizar os idosos, principalmente aqueles com sinais sugestivos de vulnerabilidade social e em saúde”, defendeu. Na sua opinião, em médio prazo, as ações devem incluir planejamento de serviços que abranjam grupos de convivência, instituições de longa permanência e cuidados que os idosos necessitam. Em longo prazo, é preciso planejar e avaliar ações de educação e de saúde para crianças, jovens e adultos, a fim de lhes garantir um envelhecimento melhor. De acordo com o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2013 eram 21,6 milhões de idosos no Brasil com idade igual ou superior a 60 anos. As estimativas para 2050 é de que o número de idosos centenários chegue a 2,2 milhões. Em 1999, eram 145 mil, número que deve aumentar 15 vezes até 2050, sinalizou Efigênia, que é profissional de educação física e que trabalha com idosos em faculdades de terceira idade e em instituições de longa permanência.

oi lançado, no último dia 14, o site “Trilhas Musicais de Moacir Santos”, resultado de um projeto desenvolvido pelo aluno da Unicamp, Lucas Zangirolami Bonetti, que recebeu apoio do programa Rumos, do Instituto Itaú Cultural. Parte do conteúdo do site foi desenvolvida para a dissertação de mestrado de Lucas, tema de reportagem no Jornal da Unicamp. Em uma das salas do Instituto de Artes (IA), Lucas deu uma palestra sobre o compositor e sobre o conteúdo disponibilizado na página da internet. “O objetivo é levar ao público transcrições em partitura de algumas das trilhas musicais compostas por Moacir Santos para o cinema brasileiro, no início da década de 1960 e também outras informações complementares, de modo a ser um ponto de referência sobre o tema, de acesso universal e gratuito”. A obra do maestro, arranjador e compositor que viveu boa parte de sua trajetória profissional nos Estados Unidos, vem sendo resgatada principalmente após a iniciativa dos músicos Mário Adnet e Zé Nogueira, que transcreveram alguns de seus

arranjos originais, cinco anos antes do compositor morrer, em 2006. Adnet e Nogueira lançaram três livros de partitura: Coisas, Ouro Negro e Choros & Alegria disponibilizando o material que ajudou na difusão da obra do compositor e na realização de trabalhos acadêmicos. Eles também gravaram o álbum duplo Ouro Negro, com as participações de Milton Nascimento, João Donato, Gilberto Gil, Djavan, Ed Motta e do próprio Santos. “Podemos encarar esse site como uma continuação natural desse legado de resgate da obra de Moacir”, afirma Lucas. O aluno da Unicamp, que agora está no doutorado, especializou-se em trilhas musicais para o cinema, que Moacir Santos fez quando ainda estava no Brasil. Estão disponíveis no site as partituras das trilhas dos filmes do período brasileiro: Seara Vermelha, Ganga Zumba, Os Fuzis e O Beijo. A página traz ainda informações gerais sobre os filmes e a análise das trilhas sonoras. Do conteúdo para além da dissertação, Lucas acrescentou filmes do período norte-americano com um estudo preliminar das trilhas. A página já está online (http://www.trilhasmoacirsantos. com.br/trilhas_moacir_santos.html).


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Campinas, 21 a 27 de setembro de 2015 Foto: Reprodução/Divulgação

Massacre em Odessa em cena de “O Encouraçado Potemkin”, filme dirigido pelo russo Serguei Eisenstein: ao contemplar a linguagem cinematográfica, audiodescrição amplifica repertório imagético de pessoas com deficiência visual

Aquilo que o olhar não vê sequência de imagens traz algumas das cenas mais fortes do cinema de Serguei Eisenstein: o massacre na escadaria de Odessa em O Encouraçado Potemkin. O filme é exibido para uma plateia de cegos. Um audiodescritor narra o que acontece na tela. Como descrever as imagens do terror vivido por uma multidão sendo metralhada? Ou o desespero de uma mãe que vê o filho baleado? Só há uma maneira de ser fiel à proposta do russo Eisenstein: contemplar, na audiodescrição, (abreviada por AD) a linguagem cinematográfica. Assim, em vez de dizer: “O menino ferido tomba. A mãe continua descendo. O menino grita ‘mãe’ com o sangue escorrendo pela testa. Ela se vira. Abre a boca apavorada ao ver o filho no chão. Ele chora e desmaia. Ela leva as mãos à cabeça, arregala os olhos”, o audiodescritor prefere: “O menino ferido tomba. A mãe continua descendo. O menino grita ‘mãe’ com o sangue escorrendo pela testa. Ela se vira. Abre a boca apavorada ao ver o filho no chão. Ele chora e desmaia. Ela leva as mãos à cabeça, arregala os olhos e vem de encontro à câmera. A multidão corre desenfreada. Foco de pés pisoteando o corpo e a mão do menino que se contrai. Seu corpo rola e o peito é pisoteado diante do olhar de pavor da mãe”. A plateia veria outro filme e, desse modo, a experiência do cinema, que já não é comum à pessoa com deficiência visual, seria ainda mais singular. Quando um audiodescritor de cinema conhece os movimentos de câmera e os artifícios da montagem, pode usar a linguagem cinematográfica para enriquecer o trabalho com o objetivo de ajudar a ampliar o repertório imagético dos cegos. Para quem não enxerga, a possibilidade de entendimento do simbólico que tem relação com o visual, a fruição da arte ou de uma imagem poética, dependem de uma mediação. Esta é a ideia defendida pela audiodescritora Isabel Pitta Ribeiro Machado na dissertação de mestrado “A parte invisível do olhar - audiodescrição no cinema: a constituição das imagens por meio das palavras: uma proposta de educação visual para a pessoa com deficiência visual no cinema”. Isabel reforça que a imagem no cinema se comunica pelo conteúdo e pela forma como o conteúdo é captado. “O conteúdo é respon-

sável pelo sentido lógico e racional. A forma de registro são os planos e movimentos da câmera. Por isso é muito importante uma audiodescrição que não se restrinja somente ao conteúdo da imagem, mas se estenda também à sua forma de comunicação, pois um dos objetivos da AD é aumentar o repertório imagético das pessoas com deficiência visual. Como audiodescritora de cinema eu não posso desprezar nenhuma dessas formas de comunicação”. A pesquisadora salienta que a linguagem cinematográfica é importante na audiodescrição, para que o espectador possa absorver o sentido do filme, como apregoa o construtivismo russo de Einseinstein, “no qual a articulação dos planos é o que dá o sentido do filme”.

ACESSIBILIDADE

A audiodescrição é um recurso de acessibilidade para cegos, mas também idosos, pessoas com dislexia, síndrome de Down, ou baixa acuidade visual. “É uma forma de registro a mais da imagem, então mesmo para quem enxerga, mas tem alguma deficiência intelectual, ter acesso a mais uma forma de registro é mais uma forma de compreensão”. Na prática, o trabalho do audiodescritor consiste em descrever oralmente todas as informações visuais, sejam elas estáticas ou em movimento. Em um museu, o foco será os objetos, em um passeio turístico todo o ambiente ao redor. “Para que a pessoa cega possa conhecer uma obra de arte, como um quadro, uma fotografia ou mesmo uma escultura que não se possa tocar, é necessária a acessibilidade comunicacional, que consiste em promover, de algum modo, o acesso àquelas imagens, seja por meio da audiodescrição que pode ser em áudio guia ou impressão Braille, ou uma reprodução em três dimensões”. As imagens em movimento são um capítulo à parte. “Para acessibilidade de imagens em movimento como teatro ou cinema, somente o acesso sonoro não permite a compreensão do conteúdo e, por isso, o acesso às imagens por meio da audiodescrição é fundamental”, ressalta. Sendo assim, na dança, o audiodescritor descreve o que se passa no palco, assim como no teatro e no cinema, quando a audiodescrição ocorre nos intervalos das falas. Usando ou não a terminologia própria do cinema, ela elabora um roteiro de AD, depois de estudar o filme e seu autor. A última revisão é feita por um cego. A audiodescrição pode ser feita ao vivo, como uma

tradução simultânea, ou pode ser gravada. Com a Lei do Audiovisual, o recurso de acessibilidade passou a ser obrigatório para projetos que recebem financiamento público. No entanto, Isabel ainda considera preocupante “a fragmentação das ideias sobre inclusão e acessibilidade nas escolas e nas universidades, cujas histórias mostram que, em grande parte, o ensino inclusivo tem sido pensado pelas áreas da educação, da assistência social e da saúde”, enquanto que, de acordo com a autora, deveria estar ocupando o debate também nas áreas das artes. A pesquisa também discorreu sobre a aquisição do conhecimento das pessoas com deficiência visual, que ocorre de maneiras diferentes entre os que nasceram cegos e aqueles que perderam a visão no decorrer da vida, seja na infância ou mais velhos. “A pessoa que nasce cega constrói seus conceitos por meio dos sentidos, assim como os videntes. No caso de não ter o sentido da visão, seu processo de conhecimento das coisas se dá por meio da estimulação. Na elaboração do conceito de nuvem, por exemplo, uma audiodescrição do movimento das nuvens pode criar em cada pessoa cega diferentes ideias de nuvem, pois a associação de ideias ocorre de uma forma individual, ligada a vários fatores, inclusive às experiências na infância e à maneira como cada um foi estimulado”. Uma nuvem branca, por exemplo, pode ser descrita com o apoio da manipulação de um pedaço de algodão, para que o cego associe a maciez do algodão à impressão visual do vidente ao olhar para uma nuvem. A descrição das cores também é importante. “Quando se lê a história de Chapeuzinho Vermelho, e as crianças escutam a palavra “vermelho” sabendo que é uma cor, mas não a conhecem ou percebem pelo tato, a associam ao conhecimento que tiveram, por meio dos que veem, à cor da maçã, do morango e do céu no pôr ou nascer do sol”. Como descreve as imagens em movimento no intervalo das falas, um grande desafio para o audiodescritor é ser conciso e ao mesmo tempo conseguir passar um número considerável e importante de informações. Um grande paradigma para o audiodescritor é tentar ser claro e objetivo, enquanto o olhar não o é. Isabel sabe disso. Estudou filosofia, o cinema e o olhar, além de textos específicos que a inspiram, como “Carta sobre os cegos”, do filósofo e escritor francês Denis Diderot.

Publicação Dissertação: “A parte invisível do olhar - Audiodescrição no cinema: a constituição das imagens por meio das palavras: uma proposta de educação visual para a pessoa com deficiência visual no cinema” Autora: Isabel Pitta Ribeiro Machado Orientador: Nuno César de Abreu Unidade: Instituto de Artes (IA)

Isabel Pitta Ribeiro Machado, autora da dissertação: “É muito importante uma audiodescrição que não se restrinja somente ao conteúdo da imagem”

Ainda em 1999, quando não se falava sobre o recurso no Brasil, assumiu a audiodescrição de filmes para os cegos que frequentavam o Centro Cultural Louis Braille de Campinas (CCLBC). O projeto se transformou em um Ponto de Cultura. Ao longo de 11 anos, a audiodescritora discutiu filosofia e cinema com o grupo de pessoas com deficiência visual. Para desenvolver a pesquisa, Isabel ministrou um curso de cinema no Museu da Imagem e do Som (MIS) Campinas, para pessoas com e sem deficiência visual. “Um dos objetivos da realização do curso foi criar uma base de argumentação sustentada pela tríade conhecimento da linguagem cinematográfica, conhecimento da audiodescrição e formas de aplicabilidade para o público com deficiência visual”. Isabel observa que o ambiente de discussão permitiu um avanço das ideias sobre a audiodescrição no cinema. Os filmes estudados foram exibidos com a audiodescrição ao vivo e, em alguns trechos, acompanhados com o roteiro de AD. A autora da dissertação considera a audiodescrição como uma obra de arte, uma criação que é fruto de escolhas, de um olhar próprio. Quando, em uma de suas sessões de cinema, narrou para os cegos a saída de um personagem por um portão de ferro art noveau, descobriu, por meio da plateia, que ninguém havia explicado para aquelas pessoas o que era, ou como era o estilo art noveau. De modo geral o universo visual não é apresentado aos cegos. Da mesma forma o conhecimento audiovisual do mundo. “Narrar o close do beijo, o close da lágrima escorrendo, é diferente de falar ‘ela está chorando’, ‘eles estão se beijando’. A pessoa com deficiência visual que desenvolve o simbólico e conhece uma imagem poética, tem a oportunidade de conhecer a arte e responder o que o cineasta Andrei Tarkovski finalmente pergunta: quem precisa da arte?”.

Foto: Antonio Scarpinetti

PATRÍCIA LAURETTI patricia.lauretti@reitoria.unicamp.br


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