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Jornal daUnicamp Litoral ameaçado

IMPRESSO ESPECIAL 1.74.18.2252-9-DR/SPI Unicamp

CORREIOS

www.unicamp.br/ju

Campinas, 19 a 31 de dezembro de 2011 - ANO XXV - Nº 517 - DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

FECHAMENTO AUTORIZADO PODE SER ABERTO PELA ECT

Foto: Adriano Vizoni/ Folhapress

O Projeto Clima, coordenado por docentes da Unicamp, investiga as mudanças ambientais e climáticas registradas no litoral norte paulista, região que vem sendo alvo de profundas transformações em razão do crescimento desordenado. Os estudos reúnem mais de 50 pesquisadores e várias instituições e institutos. Páginas 6 e 7

Foto: Antonio Scarpinetti

Na foto maior, praia em Ubatuba; no destaque, ocupação irregular em Barra do Sahy, em São Sebastião

Própolis do NE mata células leucêmicas

Protegidos, mas ainda dependentes

Por um parto sem problemas

Pesquisas coordenadas pelo professor Yong Park, da FEA, abrem perspectiva para ensaios pré-clínicos.

Tese aponta que programas de combate à pobreza não promovem a independência dos beneficiários do Estado.

Adolescentes também adoecem

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O Jornal da Unicamp volta a circular em fevereiro de 2012


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Campinas, 19 a 31 dezembro de 2011 Fotos: Antoninho Perri

Própolis vermelha combate células leucêmicas humanas Pesquisa conduzida na FEA abre perspectiva para futuros ensaios pré-clínicos MANUEL ALVES FILHO

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manuel@reitoria.unicamp.br

esde 1995, o professor Yong Park, da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp, tem dedicado especial atenção às propriedades da própolis brasileira. Durante esse período, pesquisas conduzidas por ele e sua equipe classificaram 12 grupos dessa substância natural e constataram que ela possui atividades antimicrobianas, anticancerígenas e anti-HIV, para ficar em apenas três exemplos. Mais recentemente, estudo coordenado por Park classificou um 13º grupo, constituído pela chamada própolis vermelha, que ocorre somente no Nordeste do país. Ensaios in vitro desenvolvidos nos laboratórios da FEA em colaboração com a Faculdade de Ciências Médicas (FCM) comprovaram que este último é capaz de induzir a apoptose (morte programada) em células leucêmicas humanas. O resultado do trabalho abre perspectiva para futuros ensaios pré-clínicos. Embora relevante, a pesquisa coordenada por Park ainda está longe de propiciar o desenvolvimento de uma droga para combater a leucemia, como adverte o farmacêutico Gilberto Carlos Franchi Júnior, integrante da equipe. De acordo com ele, ainda é preciso cumprir um longo caminho até chegar a esse objetivo. “Dois dos desafios é identificar e isolar a substância que tem o efeito citotóxico. Depois, é preciso fazer os testes pré-clínicos e clínicos. Por enquanto, o que nós fizemos foi constatar a atividade da substância no combate às células leucêmicas e comprovar que a ação da própolis vermelha é maior do que a da própolis verde, que é a mais comum no Brasil”, explica. Dito de modo simplificado, o que os cientistas fizeram foi primeiro coletar a própolis vermelha em colmeias localizadas nas proximidades da costa e de rios nordestinos. De acordo com o professor Park, foi observado que as abelhas coletavam o exsudato vermelho (substância resinosa) da superfície da planta Dalbergia ecastophyllum,

O professor Yong Park (à direita) e os pesquisadores Gilberto Franchi Júnior e Viviane Toreti (acima): próximos desafios da equipe são identificar e isolar a substância que tem o efeito citotóxico

Amostra da própolis vermelha (à esq.), que ocorre somente no Nordeste brasileiro: substância é mais eficaz que a própolis verde (à direita)

conhecida popularmente como rabode-bugio. Tanto a própolis quanto o exsudato foram analisados e ambos apresentaram similaridade entre seus componentes químicos. Em seguida, os extratos etanólicos das própolis vermelha e verde foram testados, in vitro, em células leucêmicas humanas. “Ambos demonstraram capacidade de eliminar as células leucêmicas, mas a própolis vermelha apresentou um efeito mais eficaz”, afirma Franchi Júnior. O resultado do trabalho, intitulado Efeitos comparativos de extratos etanólicos de própolis brasileira em células leucêmicas humanas por teste de MTT, foi publicado no periódico científico Evidence-Based Complementary and Alternative Me-

dicine (eCAM) e provocou grande interesse por parte dos pesquisadores da área. Uma das consequências dessa repercussão foi o contato do site Global Medical Discovery Series, que selecionou o mesmo artigo para ser publicado na sua próxima edição. O portal dedica-se especialmente à divulgação de estudos científicos que podem contribuir para o desenvolvimento de futuros medicamentos.

Trabalho das abelhas A própolis é uma resina coletada pelas abelhas melíferas de exsudatos de árvores, principalmente resinas de botões florais jovens. Os insetos misturam cera a essa substância, que depois é utilizada para vedar a colmeia, protegendo assim o enxame

do ataque de micro-organismos e outros insetos. Conforme o professor Park, inicialmente se pensava que a própolis era uma só. Com a realização de diversas pesquisas ao longo dos últimos 16 anos, o docente pôde constatar, no entanto, que a substância varia de acordo com a origem botânica. Assim, a resina coletada no Sul do país apresenta compostos e propriedades diferentes da extraída no Nordeste, em razão das características da flora de cada região. De maneira geral, no entanto, os testes feitos em aproximadamente 600 amostras coletadas pela equipe do professor Park indicam que a própolis apresenta em sua composição química principalmente polifenóis, flavonoides agliconas e seus deri-

vados. As variações quantitativas desses compostos também estão associadas ao ambiente vegetal. Considerado a maior autoridade mundial em própolis, o docente da FEA demonstra aversão a mesuras. Entretanto, se diz honrado e feliz por ter o trabalho reconhecido e, sobretudo, por poder passar metade do ano viajando pelo mundo para compartilhar seus conhecimentos com colegas de diversas áreas interessados no tema. “Temos que continuar pesquisando. O Brasil tem a maior biodiversidade do mundo, e muitas fontes para a produção de medicamentos ainda podem ser descobertas aqui”, defende. Além do professor Park e do farmacêutico Gilberto Franchi Júnior, também participaram da pesquisa em torno da própolis vermelha os seguintes pesquisadores: Cleber Moraes, Viviane Toreti, Andreas Daugsh e Alexandre Nowill.

............................................. ■ Publicações

Artigo publicado - Franchi Jr, Gilberto Carlos; Moraes, Cleber S.; Daugsch, Adreas; Nowill, Alexandre Eduardo; Park, Yong K. Efeitos comparativos de extratos etanólicos de própolis brasileira em células leucêmicas humanas por teste de MTT. Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine (eCAM) Artigo aceito - Franchi Jr, Gilberto Carlos; Moraes, Cleber S.; Daugsch, Adreas; Nowill, Alexandre Eduardo; Park, Yong K. Efeitos comparativos de extratos etanólicos de própolis brasileira em células leucêmicas humanas por teste de MTT. Global Medical Discovery Series

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UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas Reitor Fernando Ferreira Costa Coordenador-Geral Edgar Salvadori De Decca Pró-reitor de Desenvolvimento Universitário Paulo Eduardo Moreira Rodrigues da Silva Pró-reitor de Extensão e Assuntos Comunitários Mohamed Ezz El Din Mostafa Habib Pró-reitor de Pesquisa Ronaldo Aloise Pilli Pró-reitor de Pós-Graduação Euclides de Mesquita Neto Pró-reitor de Graduação Marcelo Knobel Chefe de Gabinete José Ranali

Elaborado pela Assessoria de Imprensa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Periodicidade semanal. Correspondência e sugestões Cidade Universitária “Zeferino Vaz”, CEP 13081-970, Campinas-SP. Telefones (019) 3521-5108, 3521-5109, 3521-5111. Site http://www.unicamp.br/ju. E-mail leitorju@reitoria.unicamp.br. Twitter http://twitter.com/jornaldaunicamp Coordenador de imprensa Eustáquio Gomes Assessor Chefe Clayton Levy Editor Álvaro Kassab (kassab@reitoria.unicamp.br) Chefia de reportagem Raquel do Carmo Santos (kel@unicamp.br) Reportagem Carmo Gallo Neto Isabel Gardenal, Maria Alice da Cruz e Manuel Alves Filho Editor de fotografia Antoninho Perri Fotos Antoninho Perri e Antonio Scarpinetti Coordenador de Arte Luis Paulo Silva Editor de Arte Joaquim Daldin Miguel Vida Acadêmica Hélio Costa Júnior Atendimento à imprensa Ronei Thezolin, Felipe Barreto e Patrícia Lauretti Serviços técnicos Dulcinéa Bordignon Everaldo Silva Impressão Pigma Gráfica e Editora Ltda: (011) 4223-5911 Publicidade JCPR Publicidade e Propaganda: (019) 3327-0894. Assine o jornal on line: www.unicamp.br/assineju


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Campinas, 19 a 31 dezembro de 2011

Foto: Fernando Canzian/Folhapress

Falta emancipar

Casal e filhos em Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco: famílias mantêm as crianças na escola por meio dos benefícios do Bolsa Família Foto: Antoninho Perri

Tese aponta que programas de combate à pobreza não promovem a independência dos bene�iciários do Estado MANUEL ALVES FILHO

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manuel@reitoria.unicamp.br

s programas de transferência de renda e segurança alimentar adotados por Brasil, México e Peru reduziram a taxa de pobreza nos três países da América Latina, mas têm se mostrado insuficientes para superar o problema definitivamente. A constatação faz parte da tese de doutorado da economista Luciana Rosa de Souza, que acaba de ser defendida no Instituto de Economia (IE) da Unicamp. De acordo com o estudo, além de apresentarem limitações, as iniciativas encontram-se pulverizadas e fragmentadas, fatores que dificultam a promoção da emancipação dos beneficiários. “Falta a esses países a criação de uma rede de proteção social mais ampla, de forma a fazer com que as pessoas deixem de se tornar dependentes do Estado”, avalia a autora do trabalho, que foi orientada pelo professor Walter Belik. Luciana conta que decidiu investigar as ações de combate à pobreza nas referidas nações porque cada uma delas adotou um desenho de política diferente. O México, por exemplo, enxerga o programa de transferência de renda como uma alternativa de melhorar a vida das futuras gerações. Nesse sentido, o país está mais preocupado com os filhos dos pobres do que com estes propriamente ditos. Uma das políticas executadas é o depósito anual de uma determinada quantia em dinheiro numa conta em nome do estudante que apresenta bom desempenho escolar. Ao cabo do que seria o ensino médio brasileiro, o beneficiário pode usar o montante para abrir um negócio próprio ou pagar a faculdade. Além disso, o México também mantém políticas nas áreas de segurança alimentar e nutrição. No Peru, o conjunto de medidas apresenta um desenho com caráter mais emancipatório, pelo menos na formulação, conforme a autora da

Luciana Rosa de Souza, autora da tese: “Falta a esses países a criação de uma rede de proteção social mais ampla, de forma a fazer com que as pessoas deixem de se tornar dependentes do Estado”

tese. O objetivo é tirar o beneficiado da pobreza, oferecendo-lhe, num período de até seis anos, condições para uma futura inserção no mercado de trabalho. “Já o Brasil parece estar caminhando mais na direção da efetivação desses programas sociais como um direito”, considera. Ainda que as ações sejam diferentes entre si, Luciana diz ter encontrado um aspecto que as aproxima. “Ainda que os desenhos sejam distintos, todos eles se afunilam naquilo que eu chamo no trabalho de ‘estratégias de combate à pobreza’. E o que são essas estratégias? Nada mais do que a tentativa dos países de agrupar os diversos programas, que se encontram fragmentados e pulverizados. Atualmente, essas políticas não têm interface umas com as outras; não existe transversalidade”, aponta. E é justamente o desenho desses programas, prossegue a autora da tese, que impede que eles avancem na proposta de emancipar a população mais pobre da tríade latino-americana. De maneira geral, os países colocam os programas de transferência de renda como a solução de todos os males, quando isso está longe de ser verdade. “No geral, a coisa funciona da seguinte maneira. Emerge uma crise, os governos apressam-se em ampliar o número de atendidos e o consequente repasse de recursos. Ocorre, no entanto, que esse tipo de política tem alcance e impacto limitados. Não é por outra razão que tanto o Brasil quanto o México ainda têm pelo menos 20% de seus habitantes situados abaixo da linha de pobreza. No Peru, essa taxa está acima de 30%”, informa. E o que falta para que essas ações deixem o campo do assistencialismo

e ingressem na esfera mais efetiva da promoção social dos pobres? Na opinião de Luciana, a deficiência está na ausência de uma rede de proteção social mais ampla para atender a essas populações. “Essas pessoas carecem de serviços essenciais de todas as naturezas. Elas precisam de políticas públicas na área da saúde, educação, transporte, moradia, segurança etc. Não adianta repassar R$ 200 por mês para um beneficiado e esperar que ao cabo de algum tempo ele consiga se inserir no mercado de trabalho e se manter com seus próprios recursos, sem que ele tenha recebido educação formal ou qualificação profissional”, assinala. A economista observa que os programas pertencentes a uma rede de proteção social somente têm eficácia quando são dirigidos à sociedade como um todo e não exclusivamente para os pobres. “Enquanto for algo ‘apenas para pobre’, o quadro não vai mudar. Por analogia, uma política pública na área de transportes só poder ser considerada como tal se os moradores do DIC 5 e do Cambuí [bairros de Campinas (SP)] pegarem o mesmo metrô para se dirigir à Unicamp”. Luciana explica que a intenção da sua tese não foi estabelecer comparações quantitativas entre os três países tomados para estudo, até porque eles apresentam dimensões geográficas, populações e problemas diferentes. Ademais, Brasil e México já vêm adotando ações de combate à pobreza há cerca de15 anos. No Peru, a experiência tem seis anos, e somente agora os primeiros resultados poderão ser de fato avaliados. “A ideia do trabalho foi entender melhor a evolução da política social na América Latina, tomando

os três países como exemplo. Não foi possível, obviamente, comparar números. Enquanto no Brasil os programas de combate à pobreza somam 13 milhões de beneficiados, no México e no Peru esses números são, respectivamente, 5,6 milhões e um milhão”. Em relação especificamente ao Brasil, a economista entende que as iniciativas adotadas pelo governo federal têm contribuído para a redução dos níveis de pobreza, mas adverte que elas não são as únicas responsáveis por esse avanço. Um fator que ajudou a tirar um contingente significativo de brasileiros da linha de pobreza foi o crescimento econômico do país nos últimos anos. “As pesquisas têm apontado que o que tem reduzido a pobreza por aqui é muito mais a formalização do mercado de trabalho do que a transferência de renda”, diz. Ainda em relação ao Brasil, Luciana pensa que o país talvez possa dar um passo à frente com o advento do Plano Brasil sem Miséria, lançado há aproximadamente seis meses pelo governo Dilma Rousseff. Dito de modo simplificado, a ação pretende seguir na direção da emancipação dos assistidos, a partir da criação de uma rede articulada de serviços. A promessa de seus idealizadores é identificar quem precisa, mas ainda não é alcançado pelos programas de promoção social, e ajudar quem já recebe a buscar outras formas de renda e de melhoria das condições de vida. Entre as medidas práticas previstas estão a qualificação da mão de obra e identificação de oportunidades de emprego para os mais pobres. “Aparentemente, o que se deseja é oferecer suporte para que o beneficiário se emancipe. Se

isso for de fato implementado, pode representar um avanço”, pondera. Luciana faz questão de destacar que a sua tese não é contra os programas de combate à pobreza. “Na verdade, o trabalho é favorável a esse tipo de política pública, mas tem por obrigação apontar as limitações das ações que têm sido adotadas. É preciso que os formuladores de políticas públicas também reconheçam essas insuficiências, para que não continuemos batendo na mesma tecla. Do contrário, o Brasil corre o risco de ainda apresentar, daqui a 16 anos, um índice de pobreza próximo dos 20% da sua população”. De modo geral, acrescenta a autora da tese, tanto o Brasil quanto os outros dois países precisam unificar suas ações de combate à pobreza e definir objetivos mais claros. “Todos necessitam de um choque de gestão nessa área”. A economista conta que lançou mão de uma metodologia simples para desenvolver o seu estudo. Ela basicamente olhou para o desenho e checou os resultados das ações de combate à pobreza executadas pelas nações tomadas para análise. Luciana, que atualmente é professora da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) e da Faculdades de Campinas (Facamp), usou dados fornecidos por instituições como a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) e Banco Mundial, entre outras. “Também utilizei algumas informações oficiais dos três países pesquisados, mas evitei me basear fortemente nelas, na tentativa de ser o mais imparcial possível”, esclarece.

............................................................. ■ Publicações Artigos SOUZA, Luciana Rosa de . Desenho e Implementação dos Programas Bolsa Família e Juntos: construindo uma curva de aprendizagem . In: V Seminário Internacional - Programas de Transferencia Condicionados en América Latina y el Caribe: perspectivas de los últimos 10 años, 2010, Santiago - Chile. V Seminário Internacional - Programas de Transferencia Condicionados en América Latina y el Caribe: perspectivas de los últimos 10 años, 2010. SOUZA, Luciana Rosa de . Conditional Cash Transfer and food security policies with the point of contact between both concepts? The example of Brazil. In: XIII Congresso BIEN, 2010, São Paulo. Anais do XIII Congresso do BIEN, 2010. SOUZA, Luciana Rosa de . Drawing and implementation of the programs “Juntos” and “Bolsa Familia”: constructing a ‘curve of learning’. In: XIII Congresso BIEN, 2010, São Paulo. Anais do XIII Congresso do BIEN, 2010. Tese: “Entre a teoria e a prática: uma análise das políticas de combate à pobreza em três países da América Latina – México, Brasil e Peru” Autora: Luciana Rosa de Souza Orientador: Walter Belik Unidade: Instituto de Economia (IE)

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Campinas, 19 a 31 dezembro de 2011 Fotos: Antoninho Perri

Estudo demonstra como falhas no atendimento obstétrico podem causar mortes de mães CARMO GALLO NETTO

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carmo@reitoria.unicamp.br

ão recorrentes nos noticiários das TVs os casos em que mulheres grávidas acometidas de complicações morrem por falta de assistência em tempo hábil ou até por não chegarem a ser atendidas. Meio milhão de mortes maternas ocorre no mundo anualmente entre gravidez, parto e puerpério - período que sucede ao parto. A grande maioria delas em países em desenvolvimento. Embora essas mortes possam ser evitadas, as causas das complicações que as originaram não são previsíveis. A maior parte das complicações que podem levar a óbitos ocorre em proporções semelhantes nos mais diversos contextos socioeconômicos, mesmo naqueles em que a educação é adequada, o prénatal cumpre rotinas corretas e que contam com bom suporte nutricional. As complicações não discriminam países ricos ou pobres. O que determina então a gritante diferença entre os índices de mortalidade materna quando comparados países de menor e de maior desenvolvimento? Os indicadores de mortalidade materna se mostram extremamente sensíveis a dois fatores: cuidados obstétricos adequados e, talvez mais importantes, à presteza com que são aplicados. Estes dois principais indicadores levaram, em 1990, à adoção de um modelo teórico denominado três demoras, Three delays model, com o objetivo de estudar as causas das mortes maternas desde o início das complicações até o óbito. O modelo considera os fatores que interferem na busca pelo cuidado adequado e que podem contribuir para as chances de sobrevivência. Esses fatores são compartimentados em três fases: demora na decisão da mulher e/ou da família em procurar cuidados; demora de chegar a uma unidade de cuidados adequados de saúde; demora em receber os cuidados adequados na instituição de referência. Com base nesse modelo, Rodolfo de Carvalho Pacagnella, obstetra e professor da Universidade Federal de São Carlos, desenvolveu estudo que permitiu determinar essas demoras no atendimento obstétrico como uma das principais causas de óbito das mães. O trabalho foi orientado no sentido de aprofundar o referencial teórico sobre o tema e avaliar a associação entre demoras na obtenção de cuidados obstétricos adequados e diferentes desfechos maternos segundo o modelo three delays. Com efeito, os pesquisadores constataram que a utilização desse modelo, que antes se atinha às pacientes que morriam, passa a ser estendido para o universo das sobreviventes a partir do conceito de near-miss materno, constituindo uma alternativa ao conceito de mortalidade materna. O autor da pesquisa explica que esse novo conceito se debruça sobre o estudo dos casos de complicações que potencialmente poderiam ter levado à morte, que não se concretizou devido a intervenções ou cuidados. São os casos que ele chama de “quase morte”. O conceito near-miss materno, que estuda as sobreviventes, permite uma análise mais acurada porque se aplica a um universo que, além de muito maior, é constituído por pessoas que podem ser contatadas. A aplicação exclusiva do modelo “three delays”, conforme concebido, levaria apenas ao estudo dos casos de óbitos, que além de bem menores, inviabilizam verificações diretas com as vítimas. A tese de doutorado, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Tocoginecologia da Faculdade de Ci-

Momentos que antecedem o parto: conceito near-miss materno, que estuda as sobreviventes, permite uma análise mais acurada

Quando a demora pode ser fatal

O obstetra Rodolfo de Carvalho Pacagnella, autor da tese, e o professor José Guilherme Cecatti, orientador: levantamento de ocorrências em vários grupos

ências Médicas (FCM) da Unicamp, foi orientada pelo professor titular de obstetrícia José Guilherme Cecatti.

Modelo e conceito Para a medida de saúde de uma maneira geral são utilizados alguns índices, como mortalidade infantil no caso de crianças. Para a saúde materna se utilizavam até muito recentemente os índices de mortalidade materna durante gravidez, parto e puerpério.

Apesar de importante para diferenciar o desenvolvimento de diferentes países, a mortalidade nesses períodos é relativamente pequena e os números minimizam o problema. Então os profissionais envolvidos com saúde materna e a OMS procuraram entender o problema de maneira mais ampla, de modo a caracterizar um indicador que pudesse refletir com consistência as complicações que ocorrem nos três períodos e que permitisse discriminar

países em vários graus de desenvolvimento. Rodolfo conta que, em um universo de mais de 82 mil partos investigados, 9.555 mulheres apresentaram complicações graves. Dentre estas, 8.645 constituíram casos com complicações consideradas potencialmente ameaçadoras à vida; 770 referem-se a situações com complicações que levaram à falência de órgãos (near miss materno); e 140 delas morreram.

Pesquisas da Unicamp norteiam ações Há vários anos a Unicamp vem desempenhando um papel importante no estudo do thre delays model e mais recentemente no emprego do conceito de near-miss materno. O professor Cecatti estima que há uma década se tenta encontrar uma linguagem comum para caracterizar complicações graves associadas à gravidez que potencialmente poderiam ter levado à morte. Em 2009 um grupo da OMS, no qual a Unicamp tem efetiva participação, chegou a uma classificação de consenso sobre quais seriam as condições que caracterizariam essas complicações graves. Para esse consenso contribuíram vários trabalhos desenvolvidos na Universidade pelo grupo liderado por Cecatti, que à época representava a Unicamp na OMS. Começaram então os estudos para investigar essas complicações

em vários locais do mundo. O início ocorreu no Brasil através de uma pesquisa multicêntrica, financiada pelo CNPq, englobando as cinco regiões do País e 27 hospitais de referência de grande porte, principalmente universitários. Realizou-se então, durante um ano, a chamada vigilância prospectiva para identificar a variedade, a quantidade e a gravidade dos casos, quantos deles levaram à morte, como evoluíram, para determinar quanto esses dados estavam concordes com outros estudos internacionais relatados. Embora essa grande coleta tenha sido concluída há cerca de um ano, algumas análises já foram publicadas e outras estão em andamento em estudos que envolvem mestrados e doutorados, vários próximos à conclusão. A tese de Rodolfo, a primeira a ser apresentada, explora

uma pequena fração desse estudo maior, que são as demoras. Embora constituísse uma teoria aceita como verdadeira, ela não havia sido testada no mundo de maneira sistemática, prospectiva, em um grupo planejado. A pesquisa tratou de identificar os fatos que influíram nas três fases de demoras e baseou-se em mulheres vivas que se tornaram testemunhas da sua história. Para levar avante o estudo o professor Cecatti criou, em 2008, a Rede Brasileira de Estudos em Saúde Materna e Perinatal, que continua ativa. A partir dela, centros menores representados por vários hospitais universitários brasileiros puderam se conectar de forma a fomentar a ampliação e troca de dados, além de possibilitarem o desenvolvimento de outros trabalhos acadêmicos na Unicamp e em outras universidades.

Com base em dados sobre demoras ele comparou as ocorrências nesses vários grupos, fato inédito na literatura. Estas comparações o levaram a concluir que as demoras mais significativas ocorreram com as mulheres que chegaram a óbito. E essas demoras puderam ser localizadas na própria paciente, no sistema de saúde, no hospital, no médico ou profissional de saúde. “Embora isso pareça óbvio, nunca tinha sido antes determinado de maneira sistemática, através de dados concretos, de forma a confirmar os pressupostos de partida: mais demoras, mais mortes”, afirma ele. Para o pesquisador os problemas mais graves decorrem da demora do hospital em ministrar os cuidados adequados. Ademais, emergem também as demoras relacionadas à organização dos serviços de saúde, ao transporte e à comunicação entres os vários níveis de assistência quanto à transferência das pacientes. Os dados mostram que cerca de 40% das pacientes pesquisadas enfrentaram algum tipo de demora. Esse índice sobe para 52% nas mulheres que apresentaram alguma complicação grave. As vítimas de complicações mais graves, que quase levaram à morte, passaram por algum tipo de demora em uma das três fases propostas pelo modelo three delays. E entre as que morreram, 84% enfrentaram pelo menos alguma demora, o que mostra claramente a associação entre demora e evolução da complicação.

Adequação Rodolfo considera o conceito das três demoras extremamente importante e atual nos trabalhos envolvendo morte materna, principalmente quando associado ao conceito de near-miss, que amplia e dinamiza sua utilização. Para ele, o estudo mostra a adequação do conceito à realidade e sua viabilidade. Dele conclui que quanto maior o número de demoras, mais graves as complicações maternas, especialmente se essa demora ocorrer em nível terciário, ou seja, no local em que a mulher deveria receber o cuidado adequado, que lhe permite a sobrevivência. A expectativa do professor Cecatti é a de que o estudo leve inicialmente algumas regiões do país a organizar um sistema de vigilância epidemiológica em relação ao atendimento da mulher, semelhante ao que existe nos centros mais desenvolvidos. Constata que a região de Campinas, face à estrutura de que dispõe, caminha célere para isso. Ele defende enfaticamente que cada local que possua unidade hospitalar com atendimento para grávidas tenha pessoal treinado e claramente identificado com os critérios da OMS. “É o que vai permitir identificar casos graves, de forma que diagnosticado o problema a paciente possa ser encaminhada e receber assistência necessária. É a única maneira de testar o alcance dos modelos conceituais que estamos aplicando. Sem dúvida nenhuma, para a redução da mortalidade materna não basta um pré-natal bem feito se não existir um sistema organizado. É para sua consolidação que nossa pesquisa quer contribuir”. Para Rodolfo, o modelo three delays constitui um importante referencial teórico para o estudo dos casos de near-miss materno e a análise de demoras na assistência obstétrica nesses casos pode fornecer dados precisos sobre as determinantes da mortalidade materna. A frequência de demoras na assistência obstétrica está diretamente relacionada ao pior desfecho materno e são significativamente mais prevalentes entres os casos classificados como de near-miss materno ou de óbitos. Quanto às pacientes, os dados mostram ainda que se associam positivamente à prevalência de demoras no recebimento do cuidado obstétrico idade da gestante, gestação precoce, cor não branca, baixa escolaridade, antecedentes de aborto e internação pelo SUS.

.............................................................. ■ Publicação

Tese: “Morbidade materna grave: explorando o papel das demoras no cuidado obstétrico” Autor: Rodolfo de Carvalho Pacagnella Orientador: José Guilherme Cecatti Unidade: Faculdade de Ciências Médicas (FCM)

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Campinas, 19 a 31 dezembro de 2011

Mecanismos complementares adotados por governos serviram para atenuar efeitos da crise

Guinada para a política fiscal

Fotos: Antoninho Perri

ISABEL GARDENAL

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bel@unicamp.br

crise econômico-financeira de 2008, iniciada nos Estados Unidos, mexeu nas estruturas do modelo teórico dominante (ortodoxo), que depositava total confiança na política monetária e que minorizava a política fiscal, considerada ineficiente quase que consensualmente. Essa crise mostrou que a política monetária em si não foi suficiente para debelá-la e que é necessário adotar mecanismos fiscais complementares. Mudanças efetivas estão por ser feitas a fim de se obter um melhor mix de política – tanto da política fiscal, para ter uma maior aceitação e execução, quanto da política de ajuste econômico. Foi o que concluiu Flávio Arantes dos Santos em sua dissertação de mestrado, apresentada ao Instituto de Economia (IE), depois de tentar entender a teoria que está por detrás da execução da política econômica e em que medida essa crise influenciou a mudança dessa teoria. “Essa forma de se fazer política econômica, centrada unicamente na política monetária, tinha sido validada através de um amplo processo, de 20-30 anos atrás, criandose a visão de que era o melhor modo de se praticar política macroeconômica”, comenta o economista. O estudo de Flávio foi concebido para o contexto econômico-financeiro mundial, e o recorte realizado por ele incluiu uma avaliação de 2008 até 2011 (mas cuja crise ainda prossegue), pois foi quando os ortodoxos começaram a pensar mais teoricamente a política fiscal e as formas de validar essa prática. A política fiscal, explica ele, é o meio pelo qual um governo ajusta seus níveis de gastos e receitas para monitorar e influenciar a economia de um país. Isso se relaciona às medidas que mudam a tributação, os incentivos fiscais ou o montante das transferências e, na época da crise, pode ser exemplificado pela redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Ele procurou demonstrar que, a partir desse marco, a política fiscal começou a ser mais usada no mundo, uma vez que, antes, o que se tinha é que o modelo não era viável. “Mas ainda hoje, nas discussões sobre o tema, fala-se muito em política monetária, que é o ajuste da taxa de juros do Banco Central (BC)”, explica. A corrente ortodoxa se armou com argumentos tratando a política fiscal como ineficiente e defendendo o argumento do Estado mínimo. A prática de aumentar ou reduzir a taxa de juros, para brecar a inflação ou para estimular a economia, que caracterizam a política monetária, ficou abalada nessa crise. “Contudo, este foi um episódio no mercado financeiro em que todos os governos tentaram medidas monetárias de estímulo da economia por redução de taxa de juros ou por incentivo à liquidez”, contextualiza Flávio. Como as medidas monetárias foram insuficientes, os governos recorreram aos grandes pacotes de estímulo fiscal. No caso dos EUA, foram injetados US$ 700 bilhões na tentativa de os gastos estimularem a economia. O caso brasileiro foi “dúbio”, garante o mestrando, isso porque o governo tomou a crise para justificar medidas que já integravam suas estratégias políticas. Uma delas foi atuar para consolidar melhor o mercado interno, o consumo. O Brasil já vinha de um histórico de incentivos para se gastar no país. Quando estourou a crise, enquanto em outros países se faziam estímulos fiscais, o governo brasileiro deu um passo além para validar as medidas que já tomava e fazer mais. Os exemplos

Montadora de veículos: governo brasileiro reduziu tributos no setor durante a crise para incentivar o consumo

para onde ela estava atirando e como mais clássicos foram a redução de triMapeamento estava atirando para saber o que estava butação para carro e para linha branca, Ele conta que, para atingir seus buscando”, conta. além do aumento de transferências. O mapeamento permitiu notar que Indagado sobre essa estratégia do objetivos, fez um mapeamento da governo, Flávio opina que as medidas discussão teórica em favor da política os ortodoxos estavam indo para o camde política fiscal foram inteligentes e monetária e depois mapeou a discus- po de multiplicadores fiscais, estabilique a crítica que os economistas hete- são da política fiscal, fato inédito nos zadores automáticos e sustentabilidade rodoxos têm é com relação à execução debates da teoria dominante. Quando das contas públicas. Eles acreditam que da política apenas via BC. Quando ele houve a crise e foram buscadas medidas a sustentabilidade das contas públicas usa um único instrumento de política de incentivo fiscal para solucioná-la, (ou seja, o governo gastar menos do econômica, torna-se debilitado, isso não se sabia por onde começar, posto que arrecada para gerar superavit porque esta é apenas uma forma de se que há anos não surgiam propostas primário e pagar juros da dívida) é fazer política econômica, e política de mais consolidadas. O mestrando diz condição indispensável à estabilidade que ninguém mais, da visão ortodoxa, da economia e crescimento econômico. ajuste. Os profissionais que lidam com pensava sobre a política fiscal e, quando E buscam isso a todo o custo. Acontece política fiscal entendem que as medidas essa ala se voltou para ela, foi ‘um tiro que, com a crise, ainda que defendendo fiscais têm ação mais direta no mercado para todos os lados’. “Tentei mostrar a sustentabilidade das contas públicas, passaram a aceitar que ela e na demanda agregada não viesse a todo custo e e, se bem-elaboradas e que os governos poderiam bem-executadas, são mais extrapolar os gastos para efetivas que qualquer ousocorrer a economia e só tra política. À guisa de depois que as economias curiosidade, quando a voltassem a crescer poeconomia está desestimuderia retomar um maior lada, não há consumo. Se controle fiscal. Com isso, ao invés de apenas reduzir a crise foi pretexto para a taxa de juros, também que todos refletissem difesão tomadas medidas de rente da visão dominante gasto público, se o goverdo funcionamento da econo gasta diretamente com nomia: de que existe uma dinheiro (investindo ou política só – a de juros. solucionando problemas A primeira área de de cadeias), isso em si se escape, lembra Flávio, constitui uma demanda foi apelar para medidas que gera renda e emprealternativas, de política gos. Logo, conclui o pesfiscal. As evidências sinaquisador, as medidas fisFlávio Arantes dos Santos, autor da dissertação: mapeamento da discussão teórica lizaram que essa política cais são mesmo eficientes.

era eficiente nas soluções. “Apesar do descrédito da corrente ortodoxa, foi o que salvou as economias de uma crise mais forte, ainda que as provas sugiram que ela não é a política para substituir a política monetária, com vistas ao incentivo da demanda e ajuste do produto”, pontua. “Ela pode ser complementar à política monetária de acordo com o pensamento heterodoxo (é o pensamento do IE da Unicamp).” Dentre os países que se sobressaíram na visão da política fiscal, durante a crise mais aguda, o Brasil foi um deles. “Quando o ex-presidente Lula afirmou que a crise não tinha sido tão forte aqui, isso foi fato”, assegura Flávio. O país se deu bem pelas medidas que já vinha tomando. Ao revisar a literatura, o economista observou que a política monetária, para a corrente ortodoxa, era a política mais acertada e que por isso recorreu a argumentos contrários à política fiscal. “Convencionou-se não se falar nessa política.” O pesquisador também apontou que, a partir dessa crise, a política fiscal começou a ser revista, vindo à baila num movimento simultâneo, tanto de necessidade de ajuda como medidas teóricas para busca de sua validação. “Como essa visão dominante não pensava e não discutia política fiscal, foi meio que o caos”, dimensiona o autor.

Peculiaridades Foram mapeados os pontos de divergência e de convergência na política fiscal. Um dos pontos para o qual não existe acordo é o tamanho do multiplicador fiscal (o quanto a política fiscal vai impactar a demanda agregada); hipoteticamente, se os seus defensores acham que o aumento de 1% nos gastos públicos vai aumentar o Produto Interno Bruto (PIB) em 2,5% ou 4%, eles não conseguem saber o quanto. Essa foi a área de maior divergência, segundo Flávio. Já o ponto de convergência é quanto aos estabilizadores automáticos. Eles querem reforçar o que já existe e que é medida fiscal. Quando começa a cair o PIB, por exemplo, começa a haver desemprego; quando existe desemprego, aumenta o pagamento do seguro-desemprego, que é um estabilizador automático. Enquanto as pessoas o estão recebendo, o PIB não cai muito, já que elas ainda têm renda para gastar. “Esse mecanismo fiscal tem que ser fortalecido para a visão dominante, seja aumentando prazos de pagamento (e a quantidade) ou produzindo mecanismos de estabilizadores automáticos capazes de serem ativados quando começa a cair o produto por longo período. Ainda que não chegando a um consenso em tudo, as duas correntes creem que este tipo de medida automática, para conter a queda no PIB, deve ser encorajada”, considera Flávio. Após o mapeamento, concluiu-se que, não obstante as provas da crise e da queda do PIB nos países, da falha do modelo teórico que justifica essa prática de política econômica, as mudanças ainda são marginais. É que esses modelos teóricos não abrigavam o setor financeiro, que foi onde começou a crise. Passaram a colocar variáveis indicando o funcionamento deste setor para dar ares de controle. Nesse sentido, tiveram mudanças, principalmente nessa visão do setor financeiro. Para o economista, falta pensar em outros ajustes, e diretos, sobre a demanda agregada, que sejam utilizados para quando ocorre algum problema na economia real. A ideia é usar a política fiscal quebrando estereótipos de que ela é ineficiente e gera inflação. É preciso usar o seu potencial para não ficar ‘refém’ da política monetária, assinala Flávio, que é graduado pela Unicamp e atua em um projeto no Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT) do Instituto de Geociências e como colaborador no Centro de Conjuntura de Política Econômica (Cecon) do IE.

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Tese: “A nova síntese neoclássica frente à crise econômica: a volta da política fiscal?” Autor: Flávio Arantes dos Santos Orientador: Antonio Carlos Macedo e Silva Unidade: Instituto de Economia (IE) Financiamento: Capes

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Campinas, 19 a 31 de dezembro de 2011

PROJETO Pesquisas coordenadas por docentes da Unicamp priorizam dimensão humana ao investigar mudanças ambientais e climáticas no litoral norte paulista

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MARIA TERESA MANFREDO Especial para o JU

beleza natural e a diversidade biológica do litoral norte paulista sobreviveram por séculos à ocupação humana. Porém, de algumas décadas para cá, alguns fatores, entre os quais o desenvolvimento de grandes empreendimentos e o acesso franqueado por rodovias, transformaram a região, que é margeada pela Mata Atlântica. Sua riqueza natural está ameaçada pelo crescimento urbano e populacional e pela possibilidade de exploração de petróleo. As mudanças climáticas, que já vêm ocorrendo em todo o mundo, amplificam esse problema. Composto pelos municípios de Ubatuba, Caraguatatuba, São Sebastião e Ilhabela, o litoral norte tem aproximadamente 2 mil km2 e uma população de 281.778 habitantes, de acordo com o censo demográfico de 2010 do IBGE. A população da região, classificada como de alta vulnerabilidade social e ambiental, necessita urgentemente repensar a maneira de lidar com seu crescimento urbano, desenvolvimento econômico e preservação do patrimônio natural para as futuras gerações. É o que constata o Projeto Clima conduzido na Unicamp desde 2009 e que vem gerando importantes frutos. Também conhecido como GenteClima, o projeto temático, financiado pela Fapesp e denominado “Crescimento urbano, vulnerabilidade e adaptação: dimensões sociais e ecológicas das mudanças climáticas no litoral norte de São Paulo”, tem por objetivo compreender como as dinâmicas demográficas e sociais interagem com as dinâmicas ecológicas. O projeto é liderado por pesquisadores do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam) e do Núcleo de Estudos de População (Nepo), ambos da Unicamp, e conta com a participação de cientistas de instituições nacionais e internacionais. Com mais de 50 docentes, doutores, doutorandos, mestrandos e graduandos envolvidos, o projeto teve início em junho de 2009, tem duração prevista de quatro anos e é coordenado pela pesquisadora Lúcia da Costa Ferreira, do Nepam. Dividido em quatro componentes, o projeto contempla as seguintes áreas de estudos do Nepam e Nepo: “Crescimento e morfologia das cidades e vulnerabilidade de suas populações, infraestrutura e lugares”; “Mudanças ambientais globais e políticas públicas em nível local: riscos e alternativas”; “Conflitos entre a expansão urbana e a cobertura florestal e suas consequências das mudanças ambientais globais para o litoral de São Paulo”; e “Expansão Urbana e mudanças ambientais no litoral norte de São Paulo: impactos na biodiversidade”.

Segundo Lúcia, o Clima nasceu da interação entre Nepo e Nepam, sempre promovida pelo professor e demógrafo Daniel Hogan, falecido em abril de 2010. “Com a criação do curso de doutorado em Ambiente e Sociedade, nos empenhamos em pensar um projeto agregador, que abarcasse professores e alunos do programa de pós-graduação”, explica Lúcia. Além da pesquisadora do Nepam, o projeto conta com coordenação de outros pesquisadores nos subprojetos. São eles: Leila da Costa Ferreira, também do Nepam, Carlos Alfredo Joly, do Instituto de Biologia (IB), e Roberto Luiz do Carmo, do Nepo. Conforme afirma Carmo, esse estudo é parte importante da agenda de pesquisa global – não apenas para a comunidade científica brasileira – pois traz em seu escopo pesquisas empíricas que relacionam vulnerabilidade às mudanças climáticas. “A abordagem interdisciplinar proposta para esta análise socioecológica é necessária para tratar dessa complexa questão”, argumenta. Priorizando essa abordagem, um dos principais objetivos do projeto temático é diagnosticar, descrever e mapear as dinâmicas sociais, políticas, demográficas e ambientais da área em questão, buscando identificar as principais mudanças ocorridas nestes termos – considerando a caracterização ecológica (com foco na biodiversidade) e também a questão da ação humana diante de tal quadro. Neste sentido, são considerados tanto os conflitos ambientais nessa região como as possíveis respostas em termos de políticas públicas para resolução de tais problemas, de acordo com Leila da Costa Ferreira, coordenadora no âmbito de Políticas Públicas. Além disso, Carmo lembra que o Projeto Clima busca identificar, descrever e mapear fenômenos e processos como o uso e ocupação do solo na região; a produção e consumo de recursos naturais; a causa da mortalidade de certos grupos locais; a experiência dos governos municipais em tentar harmonizar o crescimento econômico, a justiça social e a proteção ambiental em nível local; e conflitos locais, regionais e globais, considerando a ocupação irregular do Parque da Serra do Mar. Sem perder de vista a dimensão humana, um dos alvos do projeto é avaliar como as mudanças ambientais, decorrentes dos recentes processos de produção e ocupação do solo na região, irão afetar a biodoversidade terrestre – com alteração da mudança de cobertura do solo, mudanças na composição florística, na estrutura e no funcionamento das florestas, explica Simone Aparecida Vieira, pesquisadora do Nepam. “Com base no conhecimento tradicional dos pescadores, o projeto tentará identificar possíveis mudanças na composição das espécies, na diversidade e no tamanho dos peixes capturados”, afirma.

Sob am

Praia de Picinguaba, em Ubatuba: tese defendida por Eliane Simões defende que habitant

Site vai reunir dados Uma página na internet do Projeto Clima (http:// w.w.w.nepam.unicamp.br/nepam/projetoclima) pretende ampliar a rede de conhecimento a respeito das questões socioambientais e, desta maneira, contribuir para o fortalecimento dos debates sobre o tema entre os mais diversos setores da sociedade. Ainda em fase de construção, o site, segundo os pesquisadores, contribuirá para o desenvolvimento dessa rede de informações e o fortalecimento do diálogo entre membros de diferentes áreas da comunidade científica e entre estes e os demais setores da sociedade. Também em construção está um banco de dados geográficos do litoral norte. Fundamental, por exemplo, para a verificação da cobertura vegetal da área, o banco será utilizado pelos pesquisadores do projeto, com diferentes objetivos.

Projeto já rendeu dissertações, teses e 89 artigos Ao longo desses dois anos de pesquisa, o Projeto Clima tem alcançado resultados expressivos. São 11 capítulos de livros, teses, dissertações e 89 artigos publicados entre anais de congressos e periódicos científicos – entre os quais, 7 internacionais. Além disso, no Nepo já há um banco de dados demográficos consolidado sobre a área em questão, disponível para os pesquisadores envolvidos. Os primeiros resultados desse projeto temático já geraram trabalhos que ultrapassaram as fronteiras brasileiras, sendo debatidos em congressos científicos na China, Estados Unidos, Suíça, Alemanha, Cuba, Chile, Portugal, Itália e Holanda. Uma das teses de doutorado concluídas no âmbito do Projeto Clima foi a de Eliane Simões, em Ambiente e Sociedade. O estudo de Eliane focou os processos decisórios relacionados à gestão da presença de populações no Núcleo Picinguaba do Parque Estadual da Serra do Mar, em Ubatuba. Com enfoque nas restrições ao uso e acesso aos recursos naturais, a pesquisadora analisou situações ocorridas entre 2001 e 2009, do ponto de vista do jogo de interações entre atores governamentais e residentes

da área. Segundo Eliane, ao contrário do que propaga o senso comum, a manutenção de populações residentes na Unidade de Conservação pode contribuir para a preservação da biodiversidade. Essa integração se daria, de acordo com Eliane, quando a população é incluída nos processos decisórios, por meio de mecanismos participativos, integradores e reconhecidos como legítimos na formulação de ações e políticas públicas. A pesquisadora esclarece, ainda, que os pactos formulados sempre significaram acomodações temporárias aos conflitos do momento, que gerariam novas necessidades a serem assimiladas ao patamar de negociação atingido, através de novas rodadas de negociações. “Isso implica em aceitar que os conflitos, em especial de uso de territórios e recursos naturais, não são solucionáveis, mas sim geradores de possibilidades potenciais de negociação, diretamente relacionados à capacidade de governança instalada na localidade”, argumenta Eliane. Uma das dissertações de mestrado já concluídas no âmbito do projeto foi o da demógrafa Francine

Modesto dos Santos, que versou sobre populações em situação de risco ambiental em São Sebastião. O estudo examinou as profundas transformações econômicas, sociais e ambientais que ocorreram no município entre 1970 e 2010 – dado o advento de grandes empreendimentos, como a construção da Rodovia Rio-Santos na década de 1970. Francine buscou compreender a percepção que as populações bairros têm dos riscos e de quais estratégias podem lançar mão para enfrentar os perigos, elementos que permitem analisar a vulnerabilidade do lugar do ponto de vista demográfico. Segundo a pesquisadora, o acelerado processo de urbanização e a redistribuição espacial da população no município fortaleceram uma série de perigos ambientais que afetam diferentes grupos sociais de maneiras distintas. Hoje os perigos como deslizamentos de morros, inundações, contaminações do solo e acidentes industriais têm suas consequências agravadas devido à forma de uso e ocupação da terra, sobretudo nos bairros do entorno do Terminal Marítimo da Petrobrás.

A professora Lúcia da Costa Ferreira, coo Projeto Clima: região é marcada por grand transformações ambientais

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CLIMA

Transformações, vulnerabilidade e percepções do risco

meaça

tes de Unidade de Conservação podem contribuir para a preservação da biodiversidade

ordenadora do des e rápidas s

Vista área dos bairros Itatinga e Olaria, em São Sebastião: habitantes do município convivem com situação de risco ambiental

Os professores Leila da Costa Ferreira, do Nepam, e Carlos Alfredo Joly, do IB, que coordenam subprojetos

Lúcia da Costa Ferreira enfatiza que, como toda faixa litorânea, a região é marcada por grandes e rápidas transformações ambientais. Entretanto, numa perspectiva que considera a relação entre elementos ecológicos e sociais, a coordenadora do projeto lembra que nos últimos anos houve um incremento da atividade industrial na região, sobretudo do segmento naval, além de investimentos do porto de São Sebastião e na Unidade de Tratamento de Gás, em Caraguatatuba. Nesse contexto, houve um aumento no investimento em ampliação de infraestrutura viária, como a duplicação da Rodovia Tamoios. Nesse quadro de alterações socioambientais, a pesquisadora destaca também as mudanças decorrentes da explosão do mercado imobiliário, com a instalação da indústria do turismo veranista. Tal fenômeno deflagrou conflitos diversos, trazendo novos valores e questões para a sociedade local, o que, muitas vezes, acaba por modificar valores tradicionais – como a desvalorização da atividade pesqueira local. Outro fator que altera a dinâmica social e que veio a reboque de tais transformações foi a migração. “Seja pela atração de altos quadros para serem absorvidos nesse mercado industrial que cresce na região, sejam trabalhadores atraídos por empregos na construção civil, fato é que na última década um grande número de migrantes veio para o litoral norte, trazendo à tona questões referentes à moradia, saneamento básico, estrangulamento dos serviços públicos, já normalmente precários na área”, lembra a coordenadora. Ademais, num quadro de recente interesse pela possibilidade de exploração de petróleo no país, por meio da tecnologia de exploração da camada de pré-sal, a região também ganhou visibilidade neste aspecto. Lúcia explica que para a exploração de petróleo em tão profunda camada geológica é preciso a utilização de tecnologia muito avançada, “o que, mesmo assim, não garante a total ausência de riscos de acidentes ambientais da magnitude do que ocorreu recentemente na bacia de Campos, no Rio de Janeiro, ou ainda mesmo se pensarmos no caso recente ocorrido no Golfo do México”, afirma Lúcia. É a partir deste cenário socioambiental que a pesquisadora do Nepam Gabriela Marques Di Giulio busca, em sua pesquisa de pós-doutoramento, entender como a população que vive na região do litoral norte percebe sua capacidade de proteção, adaptação e reação frente aos riscos associados às mudanças climáticas e ambientais, bem como aos conflitos que poderão ser gerados com novos empreendimentos na região, entre os quais obras viárias, oleodutos e gasodutos, linhas de transmissão ou expansão urbana. Utilizando como método de pesquisa qualitativa a realização de grupos focais com diferentes atores sociais, a pesquisadora também busca identificar e compreender como os indivíduos participam do debate e do processo decisório a respeito desses possíveis riscos. Além disso, ela analisa as estratégias de comunicação de risco adotadas pelos pesquisadores envolvidos no Projeto Clima em suas relações e diálogos com os demais grupos sociais envolvidos na arena desse debate. Para Gabriela, “em situações de riscos, o conhecimento das condições locais ajuda não só a determinar que dados são consistentes e relevantes, como também a definir os problemas que devem ser alvo das políticas públicas. Daí a necessidade de colocar em prática também uma pesquisa mais participativa, que envolva os

diferentes grupos sociais que estão na arena do risco”. Em um contexto de mudanças ambientais e climáticas, a pesquisadora lembra que os desafios para o enfrentamento dessas situações incluem também a aparente inabilidade em lidar com os riscos e as lacunas na avaliação da vulnerabilidade dos locais. “É preciso identificar e compreender como os riscos são percebidos, já que os eventos associados a mudanças ambientais e climáticas sinalizam que as percepções individuais interferem fortemente nas condutas e nas ações mitigadoras e adaptativas”, afirma. Além dos grupos focais, o estudo conduzido pela pesquisadora também envolve a realização de workshops interativos, reunindo pesquisadores do Projeto Clima, representantes de órgãos governamentais, líderes de organizações sociais e nãogovernamentais. O primeiro desses workshops (de cooperação internacional) aconteceu em julho deste ano no núcleo Caraguatatuba do Parque da Serra do Mar, onde pesquisadores do Projeto Clima, alguns representantes locais e pesquisadores da Universidade de Griffith, da Austrália, trocaram conhecimentos sobre o tema, lançando a possibilidade de um estudo comparado no futuro entre a costa paulista e South East Queesland. É também com o intuito de realizar uma ponte de cooperação internacional que a doutoranda em Ambiente e Sociedade Fabiana Barbi passará um mês em Shangai, na China, trocando experiências sobre o caso brasileiro e chinês referente a políticas públicas e mudanças climáticas. O Projeto Clima ainda conta com a colaboração de diversos institutos e universidades, tendo como instituições parceiras a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa); Universidade de Indiana (Estados Unidos); Universidade de Durham (Reino Unido); Universidade de Griffith (Austrália); Associate Faculty Earth System Governance – IHDP; Universidade Federal de São Carlos (UFSCar); Universidade do Vale do Paraíba; e Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Outra realização do Projeto Clima, que decorre de cooperação internacional, será a visita do professor e antropólogo Emílio Moran à Unicamp. Moran é diretor do Anthropological Center for Training and Research on Global Environmental Change, da Universidade de Indiana (Estados Unidos) e estará na Unicamp de fevereiro a abril de 2012. O pesquisador visitante abordará as possibilidades de aplicação de um framework policêntrico e interdisciplinar, capaz de integrar vários níveis de organização da ação humana, sobrepostos para enfrentar os complexos problemas da mudança climática global. Serão examinados o “estado da arte” dentro dessa temática, instrumentos metodológicos e ferramentas técnicas para a organização coletiva de dados, além de planejamento conjunto de publicações. Com esse intercâmbio de ideias, “pretende-se criar as bases institucionais e teórico-metodológicas de colaboração no intercâmbio de estudantes e professores, pesquisas comparadas e divulgação científica internacional.”, explica Lúcia da Costa Ferreira Outra realização neste mesmo sentido é o workshop para a criação de uma rede Ibero-americana de pesquisa em Ambiente e Sociedade, com enfoque nas dimensões humanas das mudanças ambientais e climáticas em áreas protegidas e seu entorno. Tendo a Unicamp como sede do evento de abertura, a rede é liderada pelo Nepam e conta com apoio do convênio Santander-Unicamp. A iniciativa está ancorada na troca de experiências em uma ampla variedade de ecossistemas e de realidades socioculturais e políticas. Neste workshop, realizado entre os dias 12 e 13 de dezembro, participaram pesquisadores de países latino-americanos (Brasil, Peru, Chile, Cuba, Bolívia e México) e da Espanha, que estão envolvidos em atividades de pesquisa no âmbito das dimensões humanas das mudanças ambientais e climáticas.

............................................................................................................................................................................................................................................................................. LEIVA, F. A. “Populações Tradicionais e Conservação da Biodiversidade Uma relação contratual para manutenção dos territórios”. Apresentado no VII Congresso Chileno de Antropología, San Pedro de Atacama, Outubro 2010. MARTINS, R. D. A.; FERREIRA, L. C. Climate Change Policy and Action at the Local Level in Brazil: Tales from Two Mega Cities. Colorado Conference on Earth System Governance. Colorado, USA, May 17-20, 2011. MARTINS, R. D. A.; FERREIRA, L. C. Double Exposure in the Northern Coast of the State of São Paulo, Brazil. Berlin Conference on the Human Dimensions of Global Environmental Change. Berlin, Germany, October 8-9, 2010. MARTINS, R. D. A.; FERREIRA, L. C. Vulnerability and Adaptive Capacity to Climate

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fundamentos. Livro CEDEM/ALAP Población, Educación, Ambiente Y Desarrollo. SEIXAS, S. R. C.; RENK, M. Projetos do setor de Petróleo e Gás no Sudeste Brasileiro: algumas considerações sobre o desafio desenvolvimento x preservação ambiental. In: Herculano, S (org.) Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas - o caso de Macaé (RJ) [ISBN: 978-85-89150-07-1]. Niterói: PPGSD da UFF, 2010. FERREIRA, L.C.; S. TAVOLARO; M.D.O. GIESBRECHT; R.D.A. MARTINS, C.. Questão Ambiental na América Latina: Teoria Social e Interdisciplinaridade. In: Ferreira, L.C. (ed). A Questão Ambiental na América Latina: Teoria Social e Interdisciplinaridade. Campinas: Ed. Unicamp, 2011

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Campinas, 19 a 31 dezembro de 2011

Adolescentes não adoecem?

Foto: Antoninho Perri

Estudo derruba teorias ao mostrar por que 20% dos jovens Campinas têm diagnóstico de doença crônica MARIA ALICE DA CRUZ halice@unicamp.br

Q

uem deve atender os adolescentes? Quantos pais já fizeram essa pergunta no momento em que o filho, ao atingir 14 anos de idade, precisou passar por atendimento médico? De acordo com a pediatra Marici Braz, o impasse está também na cabeça dos médicos, pois o pediatra especializa-se em atender crianças, e o clínico nem sempre está preparado para lidar com o paciente que acaba de sair da infância. Esta lacuna faz, segundo Marici, com que o adolescente seja “terra de ninguém” e pode estar ligada ao mito de que adolescente não fica doente. Mas em sua dissertação de mestrado, com dados obtidos do inquérito populacional realizado em 2008 e 2009 (ISACamp 2008/2009), ela observou que 20% dos adolescentes de Campinas têm diagnóstico de doença crônica (asma, doença cardíaca hipertensão, diabetes, etc). Outro fator preocupante é que 60% dos entrevistados referem ter algum problema de saúde como dor de cabeça, dor nas costas, insônia, nervosismo, entre outros. “É consenso falar que eles não ficam doentes, mas os números estão registrados, e é preciso tomar iniciativas em relação a isso”, enfatiza Marici. Os adolescentes acima de 15 anos apresentaram maior prevalência de doenças crônicas, segundo a pediatra. Asma foi a doença mais citada pelos adolescentes (8%), seguida das doenças do coração, manifestadas por 2%

A pediatra Marici Braz, autora da dissertação: defendendo a avaliação biopsicossocial do adolescente

dos entrevistados, hipertensão, 1%, e diabetes, menos de 1%. Porém, ao declarar os problemas de saúde, 10% referem-se a problemas emocionais e 6%, a insônia, 42% dizem ter alergia, e 25%, dor de cabeça. As adolescentes grávidas apresentaram maior razão de prevalência de doença crônica quando comparadas a adolescentes não-grávidas, o que não significa que as doenças sejam ligadas à gravidez. Marici informa que em pesquisas realizadas em outros países, verificou-se que as adolescentes com doenças crônicas têm mais parceiros sexuais e tomam menos anticoncepcionais. Diante dessas informações, esta pode ser também uma hipótese para a maior prevalência. “Deve-se tomar cuidado para não inverter a causa”, diz Marici. A ocorrência de doenças crônicas também é expressiva entre adolescentes trabalhadores, também inseridos no grupo acima de 15 anos. Ela explica que a mesma evidência ocorre entre os adultos, pois quanto mais velho, mais sujeito a desenvolver doenças crônicas. “Talvez porque estejam se

aproximando mais da idade adulta”, explica Marici. A maior prevalência também aparece entre adolescentes com quadro de obesidade. Em relação aos problemas de saúde, foi encontrada maior prevalência em adolescentes do sexo feminino, o que ocorre também entre os adultos. Esse dado pode estar ligado a um fator cultural, já discutido amplamente, que diz respeito ao fato de a mulher procurar mais atenção médica. “Homem é mais reservado, se queixa menos”, acrescenta. Além disso, a mulher busca mais informações sobre cuidados com a saúde. De acordo com Marici, enquanto pesquisas com adultos mostram que a prevalência de doenças está ligada à escolaridade e à situação socioeconômica, entre os jovens não foi encontrada nenhuma evidência nesse sentido. Os dados levantados devem mudar a ideia de que o adolescente não fica doente e contribuir para que os serviços de saúde sejam organizados para um melhor acolhimento dos jovens. De cinco anos para cá, segundo a pediatra, as coisas estão melhorando. Ela

informa que em Campinas é realizado um curso de capacitação de médicos pediatras, enfermeiros, psicólogos da rede básica de saúde para estimular o atendimento dos adolescentes com outro enfoque, abordando a questão da puberdade e da sexualidade. “O que preconizamos no atendimento do adolescente é fazer algo ampliado, como uma avaliação biopsicossocial do adolescente”, afirma Marici. De acordo com ela, as queixas podem ser somente psicossomáticas, mas não é por isto que não são importantes. Segundo a pediatra, a avaliação do contexto familiar e socioeconômico em que vivem os adolescentes, as situações de ansiedade pelas quais estão passando devem ser valorizadas, assim como a questão do corpo e a busca da autonomia. A pesquisa pode mudar o olhar dos pais, da sociedade e da medicina em relação à saúde dos adolescentes. Para Marici, os dados são importantes também para repensar a formação dos médicos. Dentro da pediatria, o futuro médico deve ser estimulado a olhar para o adolescente de forma diferen-

Nas n bas ca ciada. Para ela, se o clínico tiver este olhar, enxergará o adolescente não como adulto, mas com características próprias de sua faixa etária. Porém, a Sociedade Brasileira de Pediatria define que o pediatra seria o melhor profissional para acompanhar o jovem até os 20 anos de idade. Hoje, já existe uma discussão para que o atendimento se estenda até os 24 anos, segundo Marici. A pediatra lembra que o novo modelo de vida, com acesso à informática, espaço cibernético, também é um aspecto novo para o qual os médicos devem se confrontar neste momento. Alguns sintomas podem estar relacionados com o tempo que o adolescente permanece diante do computador. Mas esse tema ficará para o doutorado, em que ela avaliará a qualidade de vida e os hábitos saudáveis dos adolescentes, passando por alimentação, atividade física, uso de cigarro e álcool, acesso dos adolescentes ao serviço de saúde, entre outros. Médica do departamento de Pediatria da FCM, Marici afirma que os adolescentes somente procuram atendimento em situação de doença aguda. “Neste momento em que eles chegam com queixa aguda, procuramos acolhê-los e aproveitar a oportunidade de propor um seguimento com agendamento de retorno”. Esse é o momento de fazer avaliação geral do paciente. A pediatra lembra que na adolescência o próprio paciente deve expor os sintomas e conversar diretamente com o médico, pois quando é criança quem observa os sintomas são os pais. Para que eles falem o que estão sentindo é preciso que o médico o acolha e ele sinta confiança e estabeleça uma boa relação médico-paciente. O inquérito foi realizado com mil adolescentes. “Esperamos, de fato, contribuir para mudar essa visão de que todo adolescente é saudável”, conclui Marici.

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Dissertação: “Doenças crônicas e problemas da saúde em adolescentes do município de Campinas” Autora: Marici Braz Orientação: Antonio de Azevedo Barros Filho Unidade: Faculdade de Ciências Médicas (FCM)

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Engenheiro propõe método para troca de redes de água Outros critérios devem ser levados em conta no momento de decidir sobre a reabilitação RAQUEL DO CARMO SANTOS kel@unicamp.br

As redes de abastecimento de água nem sempre deveriam ser substituídas apenas pelo seu tempo de uso, como usualmente é considerado no planejamento das empresas. É importante que outros critérios pesem na balança no momento de decidir sobre a reabilitação. “O envelhecimento das tubulações pode levar ao aumento da frequência de vazamentos e outras consequências, mas itens como qualidade e a pressão da água, índice de perdas e energia elétrica também devem ser observados”, acredita o engenheiro Alex Orellana. E foi este método analítico que ele se propôs a desenvolver para planejamento de reabilitação de redes de água na Companhia de Saneamento Básico

Alex Orellana, autor da dissertação: “Itens como qualidade e a pressão da água devem ser observados”

de São Paulo (Sabesp), Unidade de Negócio Norte. O estudo foi realizado a partir do caso real de quase seis quilômetros de rede de água e com todos os dados verídicos da Unidade de Negócio Norte da Sabesp. Os resultados demonstraram que setores com tubulações que estariam em primeira ou segunda ordem de prioridade para serem substituídas, unicamente pelo critério da idade da tubulação, acabaram caindo para a décima posição. “O método

aponta onde estão os pontos de pior desempenho e, a partir disso, monta-se uma planilha de priorização”, explica. O estudo rendeu o título de mestre ao engenheiro que apresentou o trabalho na Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (FEC). Orientado pelo professor José Gilberto Dalfré Filho, Orellana conseguiu com a pesquisa provar que outros critérios são importantes na hora da decisão. Ele explica que as redes de abastecimento de água instaladas

antes da década de 1970 já sofreram muita deterioração pelo tempo de uso. O tempo médio de duração da tubulação gira em torno de 50 anos. No entanto, a substituição destas tubulações é algo complexo e demanda um planejamento viável. “Um exemplo é imaginar que as reabilitações ocorreriam a 1% ao ano. Isto quer dizer que seriam necessários 16 anos para se concluir o processo, considerando que 1/5 do sistema estaria em condições de troca”, exemplifica.

Alex Orellana lembra ainda a questão dos custos para reabilitação. Em determinados casos, o processo fica muito mais oneroso em comparação com a instalação de um sistema novo. Com a crescente demanda para expansão das redes, substituir as tubulações antigas acaba sendo dispendioso para a empresa, sem considerar as tecnologias, que devem ser de ponta. Em uma rua movimentada, explica, é necessário recuperar o desempenho da rede sem destruir o espaço. “Este processo é algo difícil de alcançar. Por isso, as empresas não entram com fortes investimentos neste aspecto”, argumenta. Nestes termos, explica, esta é uma das grandes contribuições da pesquisa, pois conseguindo determinar quais pontos apresentam pior desempenho, teoricamente o retorno financeiro também ocorrerá. “O estudo se mostra atraente, pois é possível reduzir o índice de perdas com melhoria da qualidade e, consequentemente, haverá retorno da economia de despesas”, atesta.

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Dissertação: “Metodologia para o planejamento de reabilitação de redes de distribuição de água” Autor: Alex Orellana Orientador: José Gilberto Dalfré Unidade: Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (FEC)

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Campinas, 19 a 31 dezembro de 2011

Fotos: Felipe Christ

Roberto Lotufo, diretor executivo da Agência de Inovação Inova Unicamp: ensinando aos empreendedores como começar um negócio de sucesso

Alexandre Neves, presidente do Grupo Unicamp Ventures: experiências práticas de relacionamento empreendedor, com obtenção de resultados reais

O sócio-fundador da Positron, Marcos Ferretti: abordando questões básicas de custo e tempo e trazendo a equipe para a realidade de mercado

Mentoria estreita laços entre ambientes acadêmico e empresarial Iniciativas orientam alunos empreendedores na consolidação e fortalecimento de startups ADRIANA ARRUDA

H

Especial para o JU

á atualmente uma tendência global de incentivo à formação de startups, empresas recém-criadas ou em fase de constituição, cujas atividades estão relacionadas à pesquisa e desenvolvimento de ideias inovadoras e que tenham potencial de rápido crescimento. Competições de empreendedorismo – fomentadas por investidores e diversos atores do sistema de inovação – são cada vez mais comuns e incentivam talentos a se tornarem empreendedores. No entanto, ao entrar em contato com os desafios do mercado, jovens empreendedores tendem a falhar por não terem conhecimento sobre a realidade empresarial. Uma alternativa que potencializa a vi-

talidade de aprendizado desses jovens por meio da oferta de conhecimento e experiência é a mentoria empresarial. De acordo com o diretor executivo da Agência de Inovação Inova Unicamp, Roberto Lotufo, a mentoria é utilizada nas etapas de criação e fortalecimento de startups e de reconhecimento de novos empreendedores. “O modelo, ainda recente no Brasil, aproveita a experiência de profissionais para ensinar aos empreendedores menos experientes como começar um negócio de sucesso”, afirma. Com o objetivo de fortalecer a área de empreendedorismo e estreitar laços entre a comunidade acadêmica e empresarial, a Unicamp está cada vez mais alinhada com as iniciativas de mentoria empresarial. Uma delas está atrelada ao contexto do Desafio Unicamp de Inovação Tecnológica, competição de modelo de negócios criada em 2011 e idealizada pela Agência de Inovação Inova Unicamp. O intuito é estimular a criação de negócios de base tecnológica a partir de tecnologias protegidas da Unicamp (patentes e programas de computador). Durante os quatro meses da competição, cada equipe é orientada por dois mentores, sendo um da comunidade acadêmica e outro empresarial. O sócio-fundador da Positron, Marcos Ferretti, foi um dos mentores empresariais da competição: “Acompanhei a equipe vencedora do Desafio durante todo o processo.

Inicialmente, o grupo escolheu uma patente da Unicamp com uma boa análise de mercado”, relata. O acompanhamento do grupo foi realizado por meio de estudos e reuniões com Ferretti e também com o mentor acadêmico, o professor Fernando Cabral. “Em nossos encontros, ouvi as ideias para o modelo de negócios da equipe e abordei questões básicas de custo e tempo, trazendo a equipe para a realidade de mercado. O grupo teve contato com distribuidores e fabricantes e até com concorrentes para saber o custo de produtos semelhantes”, relata Ferretti. Da mesma maneira, o professor Cabral colocou o grupo em contato com outros profissionais de sua área, ampliando a rede de contatos da equipe. Os alunos se aproximaram de empresas do setor farmacêutico e de cosmético para fazer a validação de seu modelo de negócios junto aos potenciais clientes. “Ao longo da competição, alinhamos o modelo de negócios e abordamos estratégias de marketing”, afirmou Ferretti. Com o auxílio fundamental dos mentores, o grupo foi vencedor do Desafio Unicamp e um dos três finalistas do Prêmio Santander de Empreendedorismo. Outra iniciativa bem-sucedida de mentoria implantada pelo Grupo Unicamp Ventures com o apoio da Inova Unicamp é o Conselho de Startups, que existe há dois anos. O Grupo Unicamp Ventures é uma rede de relacionamento

formada por empresários ex-alunos, ex-professores e empreendedores que passaram pela Unicamp. “O Conselho é um trabalho voluntário de aconselhamento e visa apoiar e incentivar a atividade empreendedora”, afirmou Alexandre Neves, presidente do Grupo Unicamp Ventures. Segundo Neves, os conselheiros podem ser empreendedores, executivos ou investidores interessados em disseminar sua expertise em empreendedorismo. Em 2011, o Conselho somou 35 empresas e 34 conselheiros, sócios e diretores de empresas filhas como Dextra, Ci&T e Movile, além de conselheiros executivos de grandes empresas, como Abril, Avanade, Anhembi Morumbi, Accenture e Siemens. Esses conselheiros entram em contato com o Unicamp Ventures, que faz a correspondência entre conselheiro e startup aconselhada, de acordo com o perfil de ambos. Promovendo um balanço dos dois últimos anos, Neves afirma que a iniciativa obteve conquistas fundamentais. “Além de criarmos um ecossistema de empreendedorismo importante para a Unicamp e região, realizamos experiências práticas de relacionamento empreendedor e obtivemos resultados reais, como investimento de fundos em startups e a criação da IVP – Inova Ventures Participações S.A, empresa de participações tendo 48 empreendedores e investidores da região”, lembrou.

Para os próximos anos, o Conselho objetiva aumentar a maturidade de startups e estabelecer um padrão de acompanhamento que possibilite melhor colaboração entre os envolvidos. “É preciso buscar formas de aumentar o comprometimento de todos, já que é difícil manter uma estrutura de longo prazo baseada apenas em doações”, opina Neves. Ainda de acordo com o presidente da rede Unicamp Ventures, não há pré-requisitos para a escolha das startups aconselhadas. “Buscamos saber se determinada empresa tem um projeto suficientemente interessante para atrair os conselheiros. No entanto, como temos mais empresas do que conselheiros, há limitação”, afirmou. Apesar das iniciativas já existentes, o assunto da mentoria empresarial é pouco difundido no Brasil. Pensando nessa lacuna, a Universidade pretende ampliar sua rede de mentores – que atualmente conta com 67 profissionais – e aprimorar as técnicas de mentoria. “Buscamos pessoas com conhecimento de planejamento estratégico, gestão de empresas e da atividade empresarial em geral. A ideia é que sejam profissionais voluntários, que doem tempo para aconselhar jovens empreendedores a criar seu próprio negócio”, ressalta Lotufo. Os interessados em fazer parte da rede de mentores da Unicamp devem preencher as informações no portal www.inova.unicamp.br/unicampempreende.

Um cardápio de recursos variados A importância da mentoria empresarial está cada vez mais sendo reconhecida e acatada por empresas e institutos brasileiros. Pensando nessa demanda atual, o instituto Empreender Endeavor Brasil tem a atividade de mentoria fortemente instituída em seu escopo de atuação. “O instituto apoia empreendedores que tenham poten-

cial de alto impacto e tem a missão de ‘antecipar’ grandes empresas, visando gerar empregos e renda”, afirmou Fernanda Antunes, analista da Endeavor, no Fórum de Empreendedorismo e Inovação com tema de Mentoria Empresarial, evento promovido pela Agência de Inovação Inova Unicamp. O instituto possui uma rede de 245 mentores oficiais e engloba empresários, investidores, advogados, executivos e consultores. “Em nossa didática, um mentor pode aconselhar um empreendedor que, consequentemente, irá transmitir essas informações para outros empreendedores e implantálas em seu plano de negócios. Por outro lado, temos um sistema em que vários mentores conversam com o empreendedor em outreach, a chamada plataforma web”, explicou a analista. A Endeavor atualmente apoia 95 empreendedores e 50 empresas. As empresas do instituto cresceram 60% e geraram mais de 20 mil empregos ao longo dos anos. “Trabalhamos com empreendedorismo de alto impacto e Maure Pessanha, da Artemísia: empreendedores são acompanhados durante nove meses

investimos na geração de conhecimento, atualizando o site com artigos, promovendo workshops e disponibilizando áreas de pesquisas”, acrescenta Fernanda. A Aceleradora, organização que realiza gestão e capital semente para startups, também investe no sistema de mentoria. Entre seus resultados, a Aceleradora soma mais de 200 startups apoiadas com mentoria, mais de 500 empreendedores capacitados e 30 fundos de investimento em todo o mundo em sua rede de contatos. “Costumamos dizer que a startup busca por um modelo de negócios escalável em um ambiente de extrema incerteza”, afirmou Yuri Gitahy, fundador da Aceleradora. Gitahy explica que, para atender a todos, a equipe utiliza metodologias de acordo com a necessidade de cada startup. “Realizamos palestras, meetups e mentoria. As sessões podem ser presenciais ou remotas e, além disso, damos acesso a investidores nacionais e internacionais parceiros da Aceleradora”, explica. Ao longo do

projeto, a Aceleradora concede apoio a startups em áreas como marketing, vendas, tecnologia, gestão, estratégia e jurídico. Em geral, o mentor concede de 6 a 12 horas por ano para cada empresa. Outros modelos de mentoria explorados no Fórum de Empreendedorismo e Inovação foram os da rede Artemísia, que trabalha com modelos de negócios de impacto social. “A metodologia de destaque é a Aceleradora de Impacto, programa voltado aos empreendedores que possuam negócios em estágio inicial, que são acompanhados durante nove meses”, explicou Maure Pessanha, diretora da Artemísia. Ao longo dos meses, o programa oferece acompanhamento jurídico e financeiro. Pessanha explica que, em um primeiro momento do programa, há a organização do encontro para o matching, que é a fase de correspondência entre conselheiro e aconselhado, na qual são abordadas questões de necessidades dos negócios e maneiras de torná-lo viável para a sociedade. Em seguida, realiza-se o pitch de Yuri Gitahy, fundadorda Aceleradora: metodologias de acordo com a necessidade

empreendedores – como é tratada a apresentação dos aconselhados – e diversas reuniões. “O mentor ouve, faz perguntas e abre portas para os aconselhados. Além de beneficiar o empreendedor com sua vasta experiência, a mentoria proporciona aos conselheiros o contato com o novo e com a energia de quem está começando”, afirma Pessanha.


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Campinas, 19 a 31 de dezembro de 2011

Unicamp ganha prêmio por maior produção científica per capita Foto: Antoninho Perri

Primeira edição do SciVal Brasil, criado pela Elsevier, contemplou 9 instituições brasileiras

científicos publicados em revistas indexadas, colaboração com instituições brasileiras e estrangeiras e citações por documento. A Unicamp foi apontada como a Instituição de ensino e pesqui-

sa com maior produção científica por docente. “A conquista desse importante prêmio reflete as diversas ações empreendidas ao longo da última década

pelas pró-reitorias da Unicamp na área de ensino e pesquisa, bem como a dedicação dos docentes e pesquisadores”, disse o coordenador-geral da Universidade, Edgar De Decca, que

esteve em Brasília para a cerimônia de premiação. Segundo ele, o resultado também consolida o esforço da Unicamp para manter a excelência de sua estrutura de ensino e pesquisa, não só através dos investimentos em laboratórios e bibliotecas, mas também pela contratação dos melhores professores e seleção dos melhores alunos, tanto na graduação quanto na pós-graduação. “Todos esses fatores evidenciam o retorno que a Unicamp, como instituição pública, vem dando à sociedade e ao país”, completou. De acordo com pesquisas recentes, o Brasil ocupa o 13º lugar no ranking de países de maior produtividade científica. O Prêmio SciVal acontece também em outros países do mundo, como forma de homenagear representantes das diversas comunidades científicas. “Há seis anos, premiamos os grandes talentos da pesquisa científica brasileira. Nas edições anteriores, reconhecemos os pesquisadores. Este ano, foram consagradas as instituições que mais se destacaram em distintas categorias”, diz Dante Cid, diretor regional de vendas e marketing da Editora Elsevier para a América do Sul. Segundo Cid, o prestígio conquistado pela comunidade é mais do que devido. “O Brasil experimenta, hoje, um novo patamar de desenvolvimento científico e tecnológico graças à efetiva articulação do governo federal com estados, municípios, iniciativa privada, comunidade científica e sociedade civil”, destacou.

Geral da Administração (DGA) O evento faz parte das comemorações dos 45 anos da Unicamp. Informações: 19-3521-8065

dezembro, às 14 horas, na FEA.

dispositivo esportivo da cidade de Curitiba (1899-1918)” (doutorado). Candidato: Marcelo Moraes e Silva. Orientadora: professora Carmen Lucia Soares. Dia 19 de dezembro, às 14 horas, na FE.

lidade do uso da liga AA332 para processos de tixoconformação” (mestrado). Candidato: Marcos Antonio Naldi. Orientador: professor Eugênio José Zoqui. Dia 20 de dezembro, às 9 horas, na FEM.

- “Um projeto de vida na igreja” (mestrado). Candidato: Paulo de Tarso Leite do Canto. Orientadora: professora Agueda Bernardete Bittencourt. Dia 21 de dezembro, às 10 horas, na FE.

 Geociências - “Modelagem geossistêmica aplicada aos complexos agroindustriais de soja e algodão no território do extremo oeste da Bahia” (mestrado). Candidata: Liliane Matos Goes. Orientador: professor Archimedes Perez Filho. Dia 19 de dezembro de 2011 , às 9h30, no auditório no IG.

A

Unicamp acaba de conquistar o prêmio SciVal Brasil por ter apresentado a maior produção científica por docente no período 2006/2010. Criada pela respeitada Editora Elsevier, com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior do Ministério da Educação (Capes/ MEC), a primeira edição do prêmio consagrou nove instituições brasileiras que, juntas, produziram mais de 73 mil trabalhos em quatro anos e se destacaram pela representatividade no cenário científico. A cerimônia de entrega ocorreu no dia 7 de dezembro, em Brasília. O Prêmio homenageia instituições de ensino e pesquisa que mais contribuem para o desenvolvimento do país. As vencedoras foram selecionadas a partir de nove indicadores de produção científica extraídos da ferramenta de gestão de produção científica SciVal, da Elsevier, como número de artigos

Vida Teses da semana Painel da semana Teses da semana Livro da semana Destaques do Portal da Unicamp

aa c dêi ma c

Painel da semana  Prêmio Paepe – As Comissões Julgadoras Locais já elegeram os melhores projetos da edição 2011 do Prêmio Paepe. Foram inscritos 193 projetos nas diversas Unidades e Órgãos da Universidade, dos quais foram selecionados 37 para concorrer ao melhor projeto da Unicamp. A entrega dos prêmios será feita no dia 19 de dezembro, às 15 horas, na sala do Conselho Universitário (Consu). A divulgação do projeto escolhido pela Comissão Julgadora Geral ocorre na mesma ocasião.  Faço Parte desta História - Publicação será lançada no dia 19 de dezembro (nova data), às 11 horas, no auditório da Diretoria

Livro

da semana

O coordenador-geral da Universidade, professor Edgar De Decca: resultado consolida o esforço da Unicamp para manter a excelência de sua estrutura de ensino e pesquisa

 Curso do IEL - O curso Multimodalidade e construção de sentidos no meio digital será ministrado pela professora Inês Signorini, de 16 a 31 de janeiro de 2012, das 8 às 13 horas, no IEL. As matrículas devem ser feitas de 19 a 21 de dezembro. A organização é da Coordenadoria de Pós-graduação do IEL. Mais detalhes: 19-3521-1506.  Vestibular 2012 - A Comissão Permanente para os Vestibulares da Unicamp (Comvest) divulga, dia 20 de dezembro, a lista de convocados e dos locais de prova da 2ª fase do Vestibular 2012.  Funciona a Arte? - Objetivo do evento promovido pela Galeria de Arte Unicamp é apresentar e discutir a função da arte no campus universitário. O evento é aberto aos funcionários e ocorre no dia 20 de dezembro, no andar térreo da Biblioteca Central Cesar Lattes (BC-CL). Mais informações 19-3521-6561.

Tese da semana  Alimentos - “Biodiversidade de fungos aflatoxigênicos e aflatoxinas em Castanha do Brasil” (mestrado). Candidata: Thaiane Ortolan Calderari. Orientador: professor José Luiz Pereira. Dia 19 de dezembro, às 14h30, na FEA. - “Efeito da adição de dióxido de carbono ao leite cru sobre as características do leite UHT armazenado a diferentes temperaturas” (mestrado). Candidata: Maria Elisabete Fernandes Dias. Orientadora: professora Mirna Lucia Gigante. Dia 20 de

 Artes - “O teatro da memória. A eloquência das ruínas na paisagem urbana” (doutorado). Candidato: George Rembrandt Gutlich. Orientadora: professora Ivanir Coseniosque Silva. Dia 19 de dezembro às 14 horas, na Galeria do IA.  Biologia - “Psitacídeos do cerrado: sua alimentação, comunicação sonora e aspectos bióticos e abióticos de sua distribuição potencial” (mestrado). Candidato: Carlos Barros de Araújo. Orientador: professor Luiz Octavio Marcondes Machado. Dia 19 de dezembro, às 14 horas, na sala de defesa de teses do IB. - “Especialização individual no uso do espaço em morcegos frugívoros” (mestrado). Candidata: Patrícia Kerches Rogeri. Orientador: professor Sérgio Furtado dos Reis. Dia 19 de dezembro, às 14 horas, na sala 11 do prédio da pós-graduação do IB.  Economia - “Uma nova dimensão da vulnerabilidade externa da economia brasileira (1980-2010): análise a partir das condições de entrada, permanência e saída de capitais” (mestrado). Candidato: Fernando D’Angelo Machado. Orientador: professor Plinio Soares de Arruda Sampaio Junior. Dia 20 de dezembro, às 15 horas, na sala IE-23 do Pavilhão de aula da Pós-graduação do IE. - “Questão agrária e assentamentos rurais no estado de São Paulo: o caso da região administrativa de Ribeirão Preto” (doutorado). Candidato: Joelson Gonçalves de Carvalho. Orientador: professor Wilson Cano. Dia 21 de dezembro, às 14 horas, na sala 23 (Pavilhão de Pós-graduação) do IE.  Educação - “Novos modos de olhar, outras maneiras de se comportar: a emergência do

 Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo - “Concepção e comprovação da eficiência do quebra-mar de garrafa PET” (mestrado). Candidata: Luana Kann Kelch Vieira. Orientador: professor Tiago Zenker Gireli. Dia 22 de dezembro, às 9 horas, na FEC.  Engenharia Elétrica e de Computação - “Avaliação dos efeitos da interferência de co-canal na probabilidade de erro de Bit e na eficiência espectral de redes celulares em canais AWGN” (mestrado). Candidata: Gina Andrea Quelal Quelal. Orientador: professor Celso de Almeida. Dia 19 de dezembro de 2011, às 9 horas, na FEEC. - “Avaliação do desempenho de redes de radio cognitivo em ambientes com desvanecimento shadowing” (mestrado). Candidato: Francisco Martins Portelinha Junior. Orientador: professor Paulo Cardieri. Dia 20 de dezembro de 2011, às 10 horas, na sala PE-11 - piso térreo/ prédio da CPG/FEEC. - “Controle de sistemas nebulosos TakagiSugeno usando relaxações LMIs” (doutorado). Candidato: Eduardo Stockler Tognetti. Orientador: professor Pedro Luis Dias Peres. Dia 20 de dezembro, às 9h30, na sala PE-11.  Engenharia Mecânica - “Análise da viabi-

 Linguagem - “Sintaxe da posição do verbo e mudança gramatical na história do português europeu” (doutorado). Candidato: André Luis Antonelli. Orientador: professor Charlotte Marie Chambelland Galves. Dia 20 de dezembro, às 13 horas, na sala de defesa de teses do IEL.  Engenharia Elétrica e de Computação - “Caracterização dos parâmetros de desvanecimento da distribuição alpha-mu: medidas e estatísticas” (mestrado). Candidato: Aravind Krishnan. Orientador: professor Michel Daoud Yacoub. Dia 21 de dezembro, às 14 horas, na FEEC.  Química - “Determinação de elementos metálicos em nutrição enteral” (doutorado). Candidata: Greice Trevisan Macarovscha. Orientadora: professora Solange Cadore. Dia 19 de dezembro, às 14 horas, no Miniauditório do IQ. - “Epilepsia e Morita-Baylis-Hillman: uma abordagem sintética para ceramidas antiepilépticas” (mestrado). Candidata: Nathalia Christina Gonçalves Yamakawa. Orientador: professor Fernando Antônio Santos Coelho. Dia 19 de dezembro, às 14 horas, na sala IQ-14.

Poem(a)s Autor: E. E. Cummings Tradução: Augusto de Campos ISBN: 978-85-268-0892-8 Ficha técnica: 2a edição revista e ampliada, 2011; 248 páginas; formato: 16 x 23 cm Área de interesse: Literatura Preço: R$ 44,00

Sinopse: Um dos inventores da poesia moderna, E. E. Cummings atua diretamente sobre a palavra — desintegra-a e cria, com suas articulações e desarticulações, uma verdadeira dialética de olho e fôlego, que faz do poema um objeto sensível, quase palpável. Sua poesia constitui uma das mais sérias tentativas de fazer funcionar dinâmica e poeticamente o instrumento verbal, reduzindo a

um mínimo a distância entre experiência e expressão. (Augusto de Campos) Tradutor: Augusto de Campos (São Paulo, 1931), poeta, ensaísta e tradutor, um dos lançadores da Poesia Concreta, publicou por esta editora dois livros de traduções: Emily Dickinson — Não sou ninguém (2008) e Byron e Keats — Entreversos (2009).


Campinas, 19 a 31 de dezembro de 2011 Foto: Antoninho Perri

O professor Felipe Rudge, orientador, e Indayara Bertoldi Martins, autora da tese: ganho de tempo, agilidade e ampliação da capacidade de transmissão

A rede do futuro

Estudo analisa desempenho de sistemas que utilizam pacotes ópticos

CARMO GALLO NETTO

S

carmo@reitoria.unicamp.br

obrecarga decorrente do aumento do tráfego na internet, segurança, acesso rápido, sinais persistentes e que não escapam aos receptores mesmo móveis e imagens sem distorção são alguns dos problemas que o usuário dos meios de transmissão de dados, áudio e vídeo esperam resolvidos no futuro, com o progresso das tecnologias. Esse futuro pode não estar distante, conforme sugere tese apresentada na Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC) da Unicamp, pelo Departamento de Semicondutores, Instrumentos e Fotônica (DSIF). O estudo desenvolvido por Indayara Bertoldi Martins, que foi orientada pelos professores Felipe Rudge e Edson Moschim, analisa o desempenho de redes ópticas avançadas que utilizam pacotes ópticos de comutação fotônica. Os atuais sistemas de comunicação óptica são constituídos por redes de fibras ópticas em nível interurbano e metropolitano. Nas redes de acesso, que conectam o usuário à central telefônica, são utilizadas múltiplas tecnologias, entre as quais, e mais recentemente, a fibra óptica. Além disso, há a superposição de múltiplas redes de vários provedores que precisam manter interconexão com essas redes, a exemplo do que ocorre com as operadoras telefônicas. Para atender à complexidade desse sistema de comunicação foram desenvolvidas tecnologias específicas. Uma das tecnologias emergentes de intersecção de sinais nos nós das redes envolve a comutação fotônica, que permite o chaveamento e roteamento – separação e encaminhamento – dos sinais ópticos sem necessidade de conversão eletrônica, como ocorre atualmente. Isso leva ao ganho de velocidade e flexibilidade, além da redução de custos com equipamentos. O trabalho, integralmente desenvolvido no Labo-

ratório de Tecnologia Fotônica (LTF) da FEEC, mostra que nesses nós há possibilidade de roteamento do sinal óptico sem necessidade da conversão óptico-elétrica. Disto resulta ganho de tempo, agilidade e consequente ampliação da capacidade efetiva de transmissão, além de maior qualidade e disponibilidade dos serviços. Nesses projetos devem também ser previstos estudos sobre as condições adversas de operação das redes, tais como falhas de linha ou dos nós. Esta necessidade determinou a verificação de como quebras de linha ou problemas em um nó afetam a distribuição de tráfego de pacotes na rede. Indayara enfatiza que se deteve em investigar, por meio de simulação computacional no âmbito de redes metropolitanas, o desempenho dessas redes ópticas avançadas, usando tecnologia de Chaveamento de Pacotes Ópticos (Optical Packet Switching – OPS), com arquiteturas de redes baseadas em malha e em anel, e dos nós ópticos com roteamento sem conversão opto-elétrica dos pacotes. O estudo visou simplificar o caminho entre dois usuários finais da rede óptica, objetivando conexão mais simples, mais rápida e confiável. As arquiteturas de redes metropolitanas hoje são as de anel, para a rede tronco, e de estrela, para rede de acesso do usuário. Assim, a rede tronco une as centrais metropolitanas, e a rede de acesso liga o usuário às centrais. Existe, porém, outra interconexão possível entre os nós, que é a arquitetura em malha, à semelhança de uma rede de pesca. Ela permite chegar de um nó a outro por diferentes caminhos, oferecendo grande possibilidade de alternativas. Embora de implantação mais cara, a rede em malha é mais segura, mais robusta e de melhor solução para atender aos avanços tecnológicos e às necessidades e exigências cada vez maiores dos usuários. O professor Rudge destaca a originalidade do trabalho de Indayara, que compara as alternativas de anel e malha, utiliza chaveamento fotônico nos nós, estuda como o conjunto se comporta para resolver problemas que já existem e atende necessidades vislumbradas para o futuro. Para tanto, a pesquisadora verificou através de simulações computacionais desenvolvidas no LTF o desempenho desse tipo de tecnologia e propôs modelos de configurações que melhorassem parâmetros de qualidade e fluxo de tráfego. “Estudamos então a capacidade desta arquitetura de entregar dados ao cliente, mesmo quando ocorre uma falha no sistema. Verificamos quais as alternativas que a rede pode oferecer

como mecanismos de proteção, que são os caminhos de redundância. Constatamos que a estrutura de malha dispõe de mais opções sem que haja sobrecarga excessiva em nenhum caminho específico, com o tráfego de dados se redistribuindo suavemente”. Indayara explica que, ao passar dos sistemas com conversão opto-elétrica para os sistemas com roteamento óptico puro, o padrão de qualidade aumenta, pois quanto menos etapas, conversões e processamentos de sinais, maior a rapidez. A vantagem do novo sistema é o da utilização apenas da camada óptica, embora sua implantação ainda esteja no futuro e necessite de novas configurações dos nós e a demanda de novos equipamentos. O professor Felipe Rudge acrescenta que a inovação esbarra na compatibilidade entre a nova tecnologia e as que estão em uso. “Certas tecnologias não conversam diretamente entre si. Muitas vezes são necessárias interfaces para essa compatibilização. A comutação de sinais diretamente no plano óptico constitue uma quebra de paradigma. Estamos propondo uma tecnologia muito à frente, que ainda requer algum tempo para implementação prática”. Segundo o docente, existem entretanto algumas soluções intermediárias, não tão radicais, que começam a ser comercialmente implantadas em alguns países. Elas compatibilizam inovações com tecnologias usuais, estabelecendo uma interface entre os sistemas novos e os existentes”.

Desempenho Constituiu objetivo geral da pesquisa investigar a importância de novas tecnologia de chaveamento fotônico, em especial OPS e OBS (packet switching e burst switching), no comportamento dinâmico de redes ópticas avançadas e analisar o desempenho de redes de transmissão de dados quanto à confiabilidade, capacidade de sobrevivência de transmissão e o estudo da compatibilidade de tráfego para futuras convergências de redes wireless-fiber. Focalizada em âmbito metropolitano, mostra o desempenho de tráfego digital de alta capacidade, que percorre as redes atuais, em várias configurações de redes, levando em conta inclusive falhas, rupturas de enlaces e problemas em nós. A tese trouxe um conjunto de contribuições originais e relevantes, apresentadas em congressos nacionais e internacionais – Espanha, França, Itália, Áustria, Australia, Nova Zelandia e EUA – além de artigos submetidos a periódicos de prestígio. Os pesquisadores alinhavam algumas das conclusões mais significativas

que extraem do trabalho. Constatam que a configuração em malha é bem mais robusta e oferece uma qualidade de serviços bem superior que a de estrela. Entendem que o estudo apresenta alternativas de soluções futuras de altíssima capacidade, ainda não demandadas em uma série de usos e situações atuais. Eles consideram que o processo aumenta a capacidade efetiva da rede, diminui o tempo de espera, de atraso, e garante maior satisfação do cliente, o que futuramente deve incentivar investimentos de corporações. Além de tudo, garante o aumento de proteção contra problemas físicos que podem ocorrer na rede. Para os pesquisadores, o estudo traz a contribuição em metodologia e em simulação com base em sistemas realistas, passíveis de serem implantados. Trata-se, segundo eles, de uma contribuição metodológica bastante significativa e de simulação facilmente reproduzida. Rudge mostra na tela do computador um diagrama obtido através da simulação para um nó e uma montagem experimental em laboratório, com os respectivos equipamentos demandados. Indayara acrescenta: “Tivemos a preocupação de pensar o futuro. Com a explosão de mercados e de tecnologias, a tendência é que aumente substancialmente o tráfego na internet e a nossa preocupação foi a de analisar o comportamento desse fluxo para as redes existentes”. A pesquisadora conclui que as exigências e necessidades futuras determinarão investimentos e implantações de novas tecnologias. “Estamos criando soluções para problemas reais e específicos apontando para o futuro, embora o estudo ofereça desdobramentos para aplicações imediatas”, afirma. O trabalho foi totalmente desenvolvido no Laboratório de Tecnologia Footônica (LTF), concebido e criado há mais de doze anos pelo professor Edson Moschim. Nele têm sido realizados trabalhos experimentais e de simulação computacionais originais, de forma autônoma e em cooperação com empresas e universidades nacionais e internacionais, o que tem propiciado a contínua formação de profissionais qualificados nas suas áreas de atuação.

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Tese: “Análise de desempenho e sobrevivência de redes ópticas convergentes com chaveamento fotônico em topologias de anel e malha”. Autor: Indayara Bertoldi Martins Orientadores: Felipe Rudge Barbosa e Edson Moschim Unidade: Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC)

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Descobertas da

paleoecologia H

MARIA ALICE DA CRUZ halice@unicamp.br

á 90 milhões de anos, alguns animais deixaram vestígios de sua existência no mundo. No município paulista de Monte Alto, na região da Bacia Bauru, desde a década de 1990, as escavações vêm se tornando cenas cada vez mais comuns aos olhos da população local. Lá, mais precisamente na Fazenda Santa Irene, em 1997 e 1998, a bióloga e paleontóloga Sandra Aparecida Simionato Tavares descobriu que dinossauros carnívoros e crocodilos também fizeram morada, a partir da identificação de dentes fossilizados. Além disso, a grande surpresa foi a descoberta de um grande dinossauro saurópode (herbívoro) da família dos titanossauros. A descoberta de dentes fossilizados de animais carnívoros associados a fósseis de um dinossauro herbívoro, além de estudos geológicos do local, permitiram reconstruir a vida em um tempo remoto por meio de informações preservadas nas rochas, segundo a autora da dissertação. De acordo com Sandra, a hipótese era de que

A paleontóloga Sandra Aparecida Simionato Tavares, autora da dissertação, durante escavação (acima) e preparando fósseis: (abaixo) reconstituindo a vida em um tempo remoto

os dentes, encontrados isolados (sem maxila, prémaxila ou mandíbula) próximos ao saurópode, pertenciam a dinossauros e Crocodilyformes carnívoros, e que os dentes foram perdidos durante a predação do grande dinossauro herbívoro. “Para comprovar a nossa hipótese, durante a pesquisa fizemos análises mascrocópicas (descrição das formas dos dentes, temos medidas) e análises microscópicas (MEV) para obter dados de estruturas presentes nos dentes que não conseguíamos ver a olho nu”. De posse dos objetos, Sandra pôde iniciar uma

interpretação paleoecológica do afloramento de Santa Irene. A ciência, segundo ela, permite fazer uma reconstrução do ambiente dos dinossauros, ampliando o conhecimento da paleofauna e oferecendo informações ainda desconhecidas sobre o mundo dos dinossauros. Sandra explica que na paleontologia é comum a descrição de novas espécies de animais por meio da análise morfológica dos fósseis, porém, poucos contemplam o fator ambiental. De acordo com a pesquisadora, é difícil classificar dentes isolados em nível de espécie, uma vez que suas características morfológicas são muito semelhantes, porém, é possível enquadrá-los em nível de família por meio da análise microscópica, principalmente dos dentículos presentes nas carenas dos dentes. Por meio das análises, foi possível concluir que 18 dos 26 dentes que foram analisados pertencem a dinossauros terópodes. A formação em biologia ajudou na análise morfológica dos dentículos apresentando com morfologias distintas e com sulcos. “Foi possível enquadrar os dentes analisados como pertencentes a dinossauros da família Abelisauridae e Dromaeosauridae”, acrescenta. A paleontóloga conta que a família Abelisauridae é representada por dinossauros carnívoros que variam de 1,5 a 12 metros de comprimento, e a família dos Dromaeosauridae corresponde a dinossauros também carnívoros, porém menores. “Eram dinossauros pequenos que poderiam medir até 3 metros de comprimento”, explica. Os outros dentes envolvidos na pesquisa, segundo Sandra, foram enquadrados como dentes de Crocodyliformes, que diferente dos dentes de Theropoda, são comumente cônicos, com estriamento ao longo da carena, podendo ou não apresentar bordos serrilhados. A seção basal arredondada é uma das principais características que permitem a classificação de dentes isolados como Crocodyliformes. Na Fazenda Santa Irene, além dos vertebrados, verificou-se a presença de iconofósseis (resultado de atividades de animais em sedimentos e rochas), o que possibilita o registro da presença de animais de corpo mole que normalmente não se preservam, mas servem para mostrar comportamentos das assembleias fossilíferas e auxiliar nas interpretações paleoambientais e paleoecológicas. Sandra explica que durante muito tempo, os iconofósseis foram considerados como simples evidências indiretas de antigas formas de vida ou estruturas sedimentares secundárias, mas no momento atual demonstram extrema relevância na interpretação de vários organismos fósseis e das condições sedimentológicas de diversos ambientes. Além da análise de ambiente, Sandra realizou análises tafonômicas (processos ocorridos desde a morte até a transformação em fósseis – transporte do material, análise dos sedimentos que formaram a rocha) e várias pesquisas de campo no afloramento a fim de conhecer melhor a geologia do local. “Elaboramos um perfil estratigráfico para entendermos como era o ambiente no período Cretáceo Superior, 90 milhões de anos atrás aqui em Monte Alto, em especial na Fazenda Santa Irene, local em que os fósseis foram coletados”, acrescenta. Aos olhos da paleocologia, a pesquisadora

constata que o afloramento Santa Irene era caracterizado por rios com barras arenosas. Segundo a paleontóloga, naquele ambiente coabitavam pelo menos três grupos de animais: dinossauros carnívoros, crocodilos e dinossauros herbívoros. Uma das deduções de Sandra é de que os animais habitavam ou transitavam pelo ambiente. “Não há sinais de que os fósseis tenham sido transportados até o local no qual foram coletados, mas sim que a carcaça do Aeolosaurus serviu de alimento para outros animais no local de sua morte”, explica. Esta constatação de que a carcaça de titanosaurídeo (dinossauro herbívoro) deve-se ao fato de terem sido encontrados ossos do pós-crânio do herbívoro, com alto grau de articulação, associados apenas a dentes isolados de dentes de dinossauros e crocodilos carnívoros, provavelmente necrófagos. “Percebemos que os fósseis estavam articulados, com fêmur preservado, por exemplo. Ossos e dentes estavam muito bem preservados. Quando são transportados perdem algumas características. Acreditamos que ele ficou preservado numa barra arenosa”, acrescenta Sandra. De acordo com Sandra, as reconstituições que se podem criar a partir de vestígios preservados nas rochas há milhões de anos, trazem por si a essência que move a Paleontologia. “Porque não se trata de estudar ossos sem vida e sim de conseguir reconstruir a vida em material hoje inerte,

mas com uma história que permite ver toda a sua evolução, muitas vezes resumida em uma delgada camada de rocha”. Para a paleontóloga, o material analisado associado ao ambiente de deposição permite a reconstituição de um retrato ímpar de um ecossistema há muito extinto, onde animais coexistiam em condições adversas e prosperavam. “A morte do grande saurópode permitiu que animais predadores/necrófagos e saprófagos se mantivessem vivos, e que invertebrados se abrigassem em um solo incipiente e provavelmente frágil em formação.”

Monte Alto De acordo com Sandra, as escavações paleontológicas realizadas no município de Monte Alto, desde 1990, têm revelado significativas informações para o entendimento paleoambiental de depósitos cretácicos da Bacia Bauru, especificamente, da Formação Adamantina. A sequência de descobertas levou à criação do Museu Paleontológico de Monte Alto. A construção do espaço foi necessária, pois não havia um lugar adequado para armazenamento e acondicionamento dos fósseis. Segundo Sandra, ela própria ingressou no museu quando ainda estudava biologia, e aos poucos foi se interessando por Paleontologia. A primeira descoberta foi feita na área urbana. Mesmo a Fazenda Santa Irene está localizada a apenas 16 quilômetros da cidade. Hoje, a relação da população com as evidências de que esses animais habitaram o município é normal, mas ainda há quem duvide da idade dos fósseis, aproximada a 90 milhões de anos. A qualquer sinal de um fóssil, o museu é imediatamente acionado por alguém da população.

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Dissertação: “Fósseis do Afloramento Santa Irene, Cretáceo Superior da Bacia Bauru: inferências paleoecológicas” Autora: Sandra Aparecida Simionato Tavares Orientação: Fresia Ricardi Branco Unidade: Instituto de Geociências (IG)

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Fotos: Divulgação

Fêmures e vértebras caudais no afloramento (figuras A e B), e expostos no Museu de Paleontologia de Monte Alto (figuras C e D)


Jornal da Unicamp - Edição 517