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Uma família de fé e perseverança: receita de convivência com o Semiárido

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Ano 7 • nº 1441 Julho/2013 Belém do São Francisco - PE Boletim Informativo do Programa Uma Terra e Duas Águas

Uma família de fé e perseverança: Receita de convivência com o Semiárido. Lagoa de Pedra Vermelha é uma Comunidade Rural, distante 54 km da Sede, Belém do são Francisco/PE, Sertão de Itaparica do Submédio São Francisco. Lá, vive a família do agricultor Saturnino da Silva Barros, 48 anos, e da agricultora Maria Antônia da Silva Barros, 49 anos. Eles têm três filhos: Carlos André da Silva Barros, 25 anos, Carla Adeneilde da Silva Barros, 24 anos e Antônio Carlos da Silva Barros, 18 anos. Presente na vida da família está a irmã de Saturnino Maria do Carmo da Silva Barros, 43 anos, (especial) e a sogra Antônia Maria de Jesus, 73 anos. Esta é uma família típica do sertão pernambucano: Trabalhadora, humilde, honesta, cheia de fé e esperanças. Ligados às suas raízes, vivem da agricultura familiar, destacando-se a criação de animais de pequeno porte, haja visto, o tempo prolongado das estiagens e a má distribuição das chuvas, que dificultam o plantio e a colheita. “Nestes últimos três anos, por exemplo, tem arado, tem a burra, mas cadê a chuva?” diz Saturnino. Para o agricultor essas dificuldades eles sempre tiveram por causa da insuficiência, escassez e distância para encontrar água. “Nós já sofremos muito pra buscar água lá nos olhos d'água nas serras e nos caldeirões de pedra”. Diz dona Maria Antônia. E acrescenta: “Era distante, aproximadamente 12 km e tínhamos que ir buscar água com a lata na cabeça e no lombo do animal, muitas vezes com o sol escaldando”. Era água pra beber, cozinhar, tomar banho e pra tudo, lembra. A senhora Maria Antônia também partilha a sua experiência de vida relatando que começou a trabalhar muito cedo com o seus pais e depois com o seu esposo com quem conviveu 44 anos e aprendeu muito da lavoura. Ela diz: “Sou agricultora e tenho orgulho de ser agricultora, as forças é que estão poucas. Estou com essa idade mais haja feijão e milho pra eu quebrar. Antes eu trabalhava de dia na roça e a noite, na luz do candeeiro eu costurava para sustentar minha família”. Enfatiza. Ela ainda lembra que em ano bom colhiam muito feijão, milho, abóbora e algodão e relembra 1985 como um ano de muita chuva e de fartura. Apesar dos aperreios e sofrimentos devido a escassez de água na região, a família Barros sempre lutou, se organizou, teve fé e nunca desanimou, tampouco, teve que migrar para se aventurar em terras alheias. Mantevese unida e resistente, acreditando que um dia as coisas poderiam melhorar, como de fato melhorou. O casal conserva a memória de pessoas que no início ajudou muito toda a comunidade. Emocionado, o senhor Saturnino conta que a sua mãe era catequista e certo dia ao visitar a comunidade para celebrar o Crisma, o então Bispo da Diocese de Floresta na época, Dom Adriano, ficou sabendo da história de uma vaca que a família criava que sempre paria três bezerros e essa história sensibilizou o Bispo à ajudar os criadores da região investindo em um poço artesiano, pois, entendeu que uma fonte de água na comunidade faria toda a diferença, além de despertar para uma nova consciência na relação com o semiárido. Resumiu.


Boletim Informativo do Programa Uma Terra e Duas Águas

Articulação Semiárido Brasileiro – Pernambuco

Outra grande conquista aconteceu em 2006 com a instalação de uma Bomba d'água Popular (BAP) através da Articulação no Semiárido (ASA) e o Polo Sindical dos Trabalhadores (as) Rurais do Submédio São Francisco – PE/BA em parceria com a Volkswagen/Autovisão Brasil, empresa doadora. Em momentos críticos, a BAP atendeu aproximadamente 200 famílias e 1500 cabeças de animais, da comunidade e dos povoados circunvizinhos. De acordo com Saturnino, o zelador da BAP, “melhorou muito a vida da comunidade com a instalação da bomba. Antes de ela ser instalada no poço a gente puxava água com um cano (sonda) e chegou dia de ter 100 vasilhas pra encher com a água retirada através do cano. Este trabalho causava muito sofrimento e surgiam brigas quando alguém colocava a vasilha na frente da outra”. É importante destacar que algumas famílias já tinham sido beneficiadas em 2001 com uma cisterna de 16.000 litros. Hoje, com os melhoramentos provenientes da implementação dessas tecnologias, pode-se dizer que a rotina da família Barros mudou e Já não disputa a água do poço, tampouco, percorre longas distâncias à procura da água para saciar suas necessidades. Os filhos tiveram mais tempo para estudar, como no caso de Carla Adeneilde que se formou em História pelo Centro de Ensino do Vale do São Francisco (CEVASF). Além disso, aumentou a criação animal e está bastante diversificada, com caprinos, ovinos, galinha de capoeira, pato, peru e duas vaquinhas da senhora Antonia Maria que garantem o leite e a coalhada da família.

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Contudo, segundo o senhor Saturnino, ainda faltam muitas coisas acontecerem, uma delas é a horta orgânica comunitária que foi pensada com a instalação da BAP, porém, com a dificuldade de água na região e o fluxo de pessoas e animais se utilizando a água do poço, ficou inviável a implantação da horta. Dona Antônia Maria fala da importância de uma horta na comunidade: “Seria muito bom se tivesse uma horta na comunidade, porque as verduras que a gente compra são vendidas por pessoas que vem da cidade em um caminhão e além de caro são cheias de veneno”. Agora, com as novas tecnologias para produção do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2) em processo de construção na comunidade são grandes as expectativas de Dona Maria Antonia e o senhor Saturnino e reascendem as esperanças da implantação das hortas e quintais produtivos. O exemplo de vida dessa família é apenas um recorte das várias histórias protagonizadas pelos fortes agricultores e agricultoras que humildemente nos ensinam que é possível criar alternativas de convivência à partir da união, da força de vontade, da participação das coisas da comunidade, fé e perseverança e um pouco de investimento. Uma receita simples para novas possibilidades em um semiárido rico em vida.

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