Ano 7 • nº1073 Novembro/2013 Januária
Boletim Informativo do Programa Uma Terra e Duas Águas
Criar, experimentar e fazer do semiárido o melhor lugar pra se viver MANOEL MESSIASPereira Araújo vive na comunidade de São Pedro a 100 quilômetros de Januária com o seu pai Silvino Gomes Araújo. Próximo moram seus dois irmãos: Edilene Araújo Barbosa e Ademar Pereira Araújo. Criando e transformando Manoel busca melhorar a vida da família. Manoel fala, “a gente sofria muito entre 4 a 6 meses sem água, só que a gente tem próximo, uns 430 metros, o rio São Pedro e eu tinha de aproveitar este recurso disponível e resolver este problema. Além disso, a principal atividade aqui é a criação de gado e o custo para irrigar pasto não compensa, precisava de algo que não desse gasto nenhum”. Hoje Manoel tem 03 hectares de área irrigada que serve no período da seca para alimentar 25 cabeças de gado. Na chuva o gado fica na solta se alimentando da mata da região, o cerrado. Ele explica que desta necessidade nasceu a Manoel Messias e ao fundo a roda d’água Roda D'água. Manoel fez duas rodas, uma para ele irrigar o pasto e outra para o irmão que usa para irrigar a horta. O uso é durante a seca, no tempo da chuva a correnteza é forte e a roda não aguenta a velocidade e pressão. Ele não sabia como fazer uma roda, foi aprendendo no fazer, usando os recursos que tinha disponível. Manuel relata, “comecei experimentando há uns 07 anos atrás, fiz a primeira Roda D'água, antigamente colocava a pá de folha de buriti, e descobri que ele molhado ficava muito pesado, vi que tinha que colocar algo mais leve. Esta primeira roda tinha 02 metros de altura, feita com latas de óleo, a pá de folha de buriti e um cano de 25, mas ela não pegava água suficiente”. Desta primeira experiência foram ocorrendo as mudanças para torná-la mais eficiente. “Mudei a pá para folhas de zinco, material mais leve, a pá passou a ter 40cm por 25cm, com 28 latas de óleo que chegam a captar por giro, 20 litros d'água. O giro despeja na calha de zinco e joga em uma saída de cano de 50mm que capta toda água. O centro da roda é de caibro e os aros de cipó que duram 03 anos, fazendo manutenção todo ano.” Nesta estrutura, segundo ele, a roda consegue jogar em torno de 01metro e meio acima da barranca do rio, a própria altura da roda ajuda na pressão da água que desce por gravidade e cai em umas canaletas no solo por onde irriga a terra.
Boletim Informativo do Programa Uma Terra e Duas Águas
Articulação Semiárido Brasileiro – Minas Gerais
Manoel conta que quando o rio fica muito baixo coloca galhos e folhas para represar a água e dar mais velocidade a roda. A Roda D'água sai aproximadamente 100 reais, gasta com o zinco, prego e arame, a madeira e as latas são itens reaproveitados. Além da Roda D'água, Manoel conta que sempre faz uma engenhoca ou outra, está sempre inventando. Calha que capta a água no giro da roda.
Ele é pedreiro, fez a alvenaria na parede para embutir TV e DVD. Seu quarto foi construído no sentido de dar continuação e aproveitar o caimento do telhado da casa, sem ter de erguer novas vigas, fez cavando um metro abaixo da terra e assim pode apenas continuar o telhado. É também encanador, fez todo o encanamento da casa além de um banheiro. Ao mesmo tempo, Manoel instala na comunidade as antenas parabólicas e um conserto elétrico e outro. Isso tudo aprendeu fazendo da força de vontade. Saiu de casa jovem para trabalhar em Brasília e voltou em 2002. Manoel conta que morou 12 anos em Brasília com o objetivo de juntar dinheiro e voltar pra casa, para perto de sua mãe e seu pai. Explica que o que gosta é da vida na roça, onde se sente muito mais útil do que na cidade. Roda D’água 20 litros por giro
Aliás, Manoel também é artesão. Desde que se mudou para Brasília faz arte, pega fio e inventa da própria cabeça, miniaturas de chapéu, bicicleta, cestinhas, conta que considera mais como passatempo. “Fiz uma sinuquinha, meus sobrinhos jogavam muito, gastavam muito dinheiro, fora o bar não ser um bom ambiente para crianças. Aí fui e fiz a sinuquinha. A mesinha, eu fiz do vidro da janela de um ônibus. A lateral é feita de madeira mesmo, a bolinha eu peguei dos desodorantes roll on. O difícil foi descobrir o contrapeso ideal para a bolinha, com o ar ela é muito leve, testei com areia, mas ela ficou muito pesada, foi aí que descobri a água, injeto com uma seringa, fica perfeita. A caçapa é feita com cano de PVC, inclusive, com sistema de bica que leva as bolas até a gaveta. Sinuca de materiais aproveitados Com a experiência de Manoel podemos ver que o carinho com os pais, a vontade de achar solução para as dificuldades, o amor a terra, a criatividade e acima de tudo não ter medo de experimentar e buscar torna a vida no Semiárido a melhor pra se viver.
Realização
CÁRITAS BRASILERIA REGIONAL MINAS GERAIS
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