Ano 8 • nº 1360 Janeiro/2014 Trairi
Boletim Informativo do Programa Uma Terra e Duas Águas
A experiência da Juventude Rural da comunidade Vieira dos Carlos, onde canta o Sabiá
Companhia Musical O Canto do Sabiá
Intercâmbio de experiências com outros jovens de outras comunidades
Viveiro de Mudas
O assentamento Várzea do Mundaú fica localizado no município de Trairi, numa divisa entre a região litorânea e o Semiárido cearense, composta por quatro comunidades: Várzea do Mundaú, Vieira dos Carlos, Salgado do Nicolau e Jandaíra. A história deste assentamento é uma história de luta e resistência, agricultores e agricultoras se organizaram para permanecerem nas suas terras, terras essas que pulsam a ancestralidade de povos que resistem e lutam por sua identidade cultural e o direito de uma vida para homens e mulheres. Foi no ano de 1980 que os supostos donos queriam retirar os moradores e moradoras daquelas terras, foram muitas ameaças e muitos conflitos. Em decorrência desses conflitos, o agricultor Manoel Veríssimo e seus dois filhos, Raimundo e Francisco Veríssimo, foram cruelmente assassinados no dia 09 de julho de 1986. O sentimento de solidariedade impulsionou a todos e todas e as comunidades vizinhas a garantir seus direitos, a resistir e a permanecer. E é com esta força e enraizado de resistência que nasce o grupo de jovens da Comunidade Vieira do Carlos, em torno de 20 jovens e adolescentes que acreditam que podem transformar sua comunidade em um lugar bom de viver. O grupo começou a se organizar a partir do grupo de Coral da Igreja, com a chegada do projeto Assentamentos em Ação executado pelo Centro de E s t u d o s d o Tr a b a l h o e d e A s s e s s o r i a a o Trabalhador/CETRA e com apoio do INCRA e o projeto Terra Viva: Um Novo Olhar da Juventude sobre o Meio Rural com o apoio do Fundo Itaú de Excelência Social (FIES), começaram a desenvolver atividades socioculturais, oficinas de fotografias, oficinas de música, de pinturas em blusas e sensibilização da organização da juventude rural. “Além disso, a gente está valorizando cada vez mais o nosso local, aprendi isso com as fotos, a valorizar o que é nosso,
Boletim Informativo do Programa Uma Terra e Duas Águas Articulação Semiárido Brasileiro – Ceará
Viveiro de Mudas trouxe para os jovens o cuidado com a natureza e seu lugar que fui conhecendo mais e ficando com mais vontade de contribuir com o meu lugar”, explica a jovem líder Fabiana Menezes. Com esses estímulos o grupo de jovens começou a criar autonomia das suas atividades, além da Cia Musical O Canto do Sabiá foram beneficiados com uma Casa Digital e mantêm um Viveiro de Mudas Nativas. A Cia Musical O Canto do Sabiá é composta por 20 jovens e adolescentes, grande parte mulheres, que cantam e tocam músicas do cancioneiro popular, músicas da manifestação cultural tradicional do assentamento (o Drama) e músicas de Luiz Gonzaga. As letras escolhidas afirmam a identidade cultural do local desses jovens, como nos conta Breno Veríssimo: “É um orgulho para mim chegar em um lugar 2 para me apresentar com o grupo e dizer que eu faço parte do Canto do Sabiá, me dá um sensação de conquista, porque hoje vivemos em um mundo em que pouco se vê a identidade cultural de um lugar, e poder resgatar essa identidade é muito gratificante para mim com toda certeza. Para a comunidade o grupo é a esperança para nossa juventude, que através das músicas são incentivadas a dar continuidade ao trabalho desenvolvido, além de afastar eles das várias coisas que os levam ao mau caminho”. Quem faz a gestão da Casa Digital são os próprios jovens, que organizam e se dividem nas atividades de manutenção e de acesso a internet. O Viveiro de Mudas foi uma iniciativa apoiada pelo CETRA, no qual os jovens produzem mudas nativas e vendem para a instituição, assim conseguem a sustentabilidade da Casa Digital e do grupo musical. O viveiro também estimula uma consciência ambiental e a valorização das Sementes Crioulas e Plantas Nativas. Toda essa articulação da juventude da comunidade do Vieira dos Carlos vem influenciando outros grupos de jovens das comunidades vizinhas. Com frequência o grupo recebe intercâmbios de experiências, realizando trocas de saberes com outros jovens. Participam de Encontros Territoriais Agroecológicos e da Rede de Comunicação Popular do Território dos Vales do Curu e Aracatiaçu, apresentando suas canções com o grupo O Canto do Sabiá e da Exposição Fotográfica “Meu lugar tem as Cores do Semiárido”. As experiências de aprendizado coletivo têm obtido êxito, que se reflete nos jovens como Breno e Fabiana: “É bom viver na natureza, aprendemos a não desmatar, a cuidar das coisas da terra, não temos vontade de sair da zona rural, aqui a gente aprende e ensina” ao que Breno completa: “Estamos resgatando o gosto pelo plantio, pelos cantos do Drama, Reisados e Quadrilhas, isso que tava morrendo, nós estamos reestruturando”.Reisados e Quadrilhas, isso que tava morrendo, nós estamos reestruturando”.
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