Ano 7 • nº1273 Julho/2013 Barra do Mendes
Boletim Informativo do Programa Uma Terra e Duas Águas
História que se refaz... As tecnologias implantadas pelo Centro de Assessoria do Assuruá (CAA) vêm mudando a vida de muitas famílias no semiárido baiano. A convivência com o semiárido é uma das pautas levantadas pela Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) e as organizações que compõem sua rede de articulação. Esta iniciativa está levando mais do que tecnologias de captação da água das chuvas às famílias do campo, está promovendo cidadania e qualidade de vida em diversos lugares do Sertão. É visível a satisfação das famílias assistidas por projetos sociais que privilegiam o acesso à água e o manejo racional e sustentável do solo. Ter como produzir em sua própria terra, ter segurança hídrica e a garantia na qualidade do plantio orgânico, são alguns dos muitos benefícios que brotam das diversas experiências de convivência com o Semiárido. A família do agricultor Iudetino de Souza Barbosa (73 anos), morador do povoado de Ponta da Várzea, município de Barra do Mendes (BA), é um exemplo de como se pode mudar a realidade de um povo com iniciativas simples e baratas. Beneficiário de uma cisterna de produção, Iudetino conta, com grande entusiasmo, jamais ter visto em sua propriedade uma época tão farta. Tomates, pimentões, alface, coentro, e muitos outros alimentos brotam de uma terra antes abandonada. Tamanha é a variedade de cultivos e tão satisfatório é o volume de produção, que a família afirma sem medo: “essa cisterna mudou nossa vida”. Nem nas antigas épocas de chuva a família de seu Iudetino havia visto uma produção tão sustentável e rica. “Eu nunca tive em meu quintal um roçado assim, hoje se eu quiser fazer um cortado de folha, plantar pra comer um feijão, um milho, uma batata... tudo que nós quisermos de plantio, temos em nosso roçado. E o que não tiver, nós temos como plantar”, afirmou com um sorriso largo o homem que viveu toda sua vida na roça. Nova história - Olhando a terra e o milagre da produção brotando por meio da cisterna e com o verde já imponente em seu canteiro produtivo, um sorriso simples aflora no rosto de D. Maria Francisca Barbosa, esposa de seu Iudetino há mais de 50 anos. Com uma nostalgia cativante a senhora sertaneja, forte como nunca, lembra como tudo estava antes do seu “tanque” chegar: a terra secava em boa parte do ano e a família se via muitas vezes cansada de semear com esperança e a esperar vida. Tão recente passado ainda povoa a memória de D. Maria. Mas, não abate a força da mulher nascida e criada no meio do barro vermelho. Matriarca da família, ela nunca deixou de lutar.
Boletim Informativo do Programa Uma Terra e Duas Águas
Articulação Semiárido Brasileiro – Bahia
E mesmo com as poucas oportunidades que tinha, em muitos momentos ela viu brotar novas imagens da sua realidade – novas cenas que aplacavam os momentos mais duros e ocupavam o lugar das lembranças não boas. “Corpo sem alma é matéria sem vida”. Assim é a terra do sertão sem a força e perseverança das mãos sertanejas: um vasto corpo sem alma e pedindo para viver. A família de D. Maria sempre soube que era preciso perseverar, mas a falta da água, tão preciso bem para a produção familiar, era sempre massacrante. Como fazer para sobreviver? Como permanecer, se as águas sempre escorriam para longe nos tempos de inverno? As cisternas, reservatórios individuais fincados na terra, que captam a água barrenta das enxurradas, nunca pareceram para a família de D. Maria uma alternativa. A família desconfiava, parecia não ter muita esperança naquelas “caixas”. Porém, com o projeto P1+2 e seus cursos, D. Maria e seu Laudetino, puderam enxergar o “poço” de onde brotaria a “alma-água” para suas plantações. Chegou ao sertão que D. Maria vivenciou tão intensamente, o sopro de vida às sementes que mãos cheias de sonhos, no ventre a terra colocaram. O técnico do projeto... sabedor da tecnologia ensinou como se fazia, e a plantação, agora regada, cresce viçosa sem veneno, garantindo a boa alimentação. É a cor da vida... No tomate, pimentão, hortaliças, cenoura, batata, milho e feijão, que garantem o prato cheio na mesa sempre farta. Hoje a família de D. Maria está feliz como nunca. Finalmente eles podem plantar e colher o alimento que sempre souberam cultivar. E a partir da sabedoria adquirida desde seus antepassados; da cultura popular enraizada no manejo 2 da terra; do vigoroso mexer no solo, a família de d. Maria vivencia a revolução no sertão. A revolução da produtividade, da agroecologia e do acesso à água. E agora, a felicidade está maior por lá, como relatou Marli Barbosa Sodré, filha da senhora Francisca. Marli veio visitar a família após algum tempo morando em São Paulo e quando viu a nova realidade, abismada disse: “Nossa! Fiquei impressionada com o que vi, comi tomate, salada... muitas coisas da produção da roça, quando minha mãe me disse que tinha uma cisterna eu pensei eu era coisinha pequena, quando vi fiquei impressionada”. Com inteligência, sabedoria e determinação, cuidar com respeito do povo sertanejo, que já nasceu com espírito trabalhador e adora consumir o que produz da terra, é tarefa fácil, gratificante. Ouvir a melodia que seus instrumentos de trabalho ressoam afinados ao vento é algo que faz com que o P1+2 seja mais que uma iniciativa construtora de cisternas. Ela é, antes de qualquer coisa, uma verdadeira construtora de esperanças dos vários Iudetinos e Marias, Marlis, e tantos e tantos outros lutadores que transbordam incontáveis sonhos de ver a vida brotar e produzir o verde, num cenário que foi por instantes um emaranhado de tons de marrom.
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