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ESTRANGEIROS, EXTRACOMUNITÁRIOS E TRANSNACIONAIS: PARADOXOS DA ALTERIDADE NAS MIGRAÇÕES INTERNACIONAIS BRASILEIROS NA ITÁLIA

João Carlos Tedesco

Passo Fundo/Porto Alegre/Chapecó

Coedição 2010


Copyright © Editora Universitária/Edipucrs/Argos Maria Emilse Lucatelli Editoria de Texto

Sabino Gallon

Revisão de Emendas

Alisson Gampert Spanemberg Produção da Capa

Fotos da Capa

“Imigrantes sendo deportados”. Disponível em: http://redmigraciones.blogspot. com/2009_11_01_archive.html. Notícia de Alex Martins Moraes. Rede Migrações. “Embarcações de imigrantes ao sul da Itália”. Disponível em: http://movimentopropatria.wordpress. com/2007/02/13/imigracao/

Sirlete Regina da Silva

Projeto Gráfico e Diagramação

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Sumário Considerações iniciais ................................................................ 13 1 - O estrangeiro/imigrante na modernidade: horizonte de tensões externas e internas. Síntese de algumas concepções............................................................................. 27 Um sujeito ambivalente: o olhar de Georg Simmel .....................28 A contínua preocupação com os “de fora”: Norbert Elias e Scotson ............................................................................................35 Um sujeito atípico. Aspectos da fenomenologia social de Schutz 40 Secularização, cosmopolitismo e individualização: o diagnóstico da modernidade em Park e Merton ........................45 As migrações e o empreendedorismo: análises de Sombart .......49 O estrangeiro e a psicanálise: o outro como necessidade de autoafirmação, projeção e negação do sujeito...............................52 O estrangeiro na globalização: sociedades complexas, modernidade “líquida” e a “grande comunidade” .........................62

2 - Um mundo em movimento: dados e trajetórias do fenômeno migratório atual ................................................... 78 Pessoas em números ......................................................................78 As pessoas e as barreiras...............................................................83 Pessoas e dinheiro ..........................................................................97 Pessoas e seus projetos de vida ...................................................100 Um pertencimento xenófobo ........................................................104 A modernidade ameaçada............................................................108 Pessoas e a mobilidade territorial............................................... 110


3 - A imigração e algumas de suas simbologias...................... 118 Sair para “mudar de vida” ........................................................... 119 Convivências, cidadania e culturas.............................................120 Os ditos lavori da immigrati .......................................................130 Trabalho independente e desejo de empreender ........................133 Uma identidade ampliada e transnacional ................................140

4 - O campo religioso e a ideologia do pertencer ..............................147 Uma crença pragmática...............................................................148 O retorno do Espírito Santo. “Jesus, Jesus, mude minha vida...” ...........................................................................................149 Recorrência ao divino...................................................................153 Assistência e mediação: pragmatismo em ação ..........................154

5 - O pertencimento étnico e a hospitalidade pragmática ..... 163 Um pertencimento funcional e um familismo legal ...................164 Os ditos oriundi ...........................................................................167 Redes formais e intercâmbios......................................................172 Princípios de transmigração e solidarismo.................................179 Contatos e intercâmbios ..............................................................187

6 - O retorno ao local de origem e o retorno do retorno: ressignificando espaços ....................................................... 199 Os rearranjos do retorno..............................................................201 “Fazê a vida e... retorná”. O retorno do filho próspero! .............205 “O normal aqui é você voltá, mas e o que você encontra lá?” ....216

7 - Laços e redes sociais: fios que se tecem e recortam territórios e etnicidades ...................................................... 222 Fronteiras e tempos em interação...............................................222 Identificações e conflitos internos ...............................................224 Estratégias, racionalidades adaptativas e fragilidades identitárias ...................................................................................227 Princípios de uma característica de transnacionalidade ...........231

8 - O gênero na imigração: redefinições de papéis ................. 236 Trabalho, família e a crise do Estado social ...............................237 Centralidade da família... ainda que fragmentada ....................243


Lógicas familiares entre subalternidade e emancipação de gênero ......................................................................................247

9 - Escolarização e interculturalidade: socialização e pragmatismo ...................................................................... 256 Capital humano, projeção e segregação ......................................257 Educação/escola: reflexos e dinâmicas dos processos migratórios ...................................................................................266 Interculturalidade: etnias, nacionalidades e representações ....273 Indivíduo e sociedade: integração problemática ........................280

Palavras finais ......................................................................... 283 Referências ............................................................................... 290


Considerações iniciais Nós [imigrantes] não migramos só porque queremos, mas porque também nos querem. Essa é a verdade! (Imigrante brasileiro na Itália)

Nas últimas décadas, as migrações internacionais assumiram importância e complexidade crescentes, principalmente no que diz respeito a características, temporalidades dos fluxos, destinos migratórios, formas espaciais dos deslocamentos, políticas públicas de controle e gerenciamento, estratégias dos imigrantes, dinâmicas de retorno, causalidades múltiplas, questões culturais, novas feições dos processos, etc.1 Essa realidade é tão premente e dinâmica que, em vez de nações que migram, fala-se mais em fluxos que atravessam o mundo (fluxo de imigrantes, turistas, refugiados, tecnologia, capitais, imagens midiais, ideologias, lutas sociais, direitos, produtos étnicos, etc.), redes com ampla eslasticidade e múltiplos vínculos, produzindo fronteiras deslizantes e dinâmicas transmigracionais. Como diz Ambrosini, ainda que se façam presentes tantas tentatidas de fechamento e de impedimento dos fluxos, as migrações revelam a porosidade dos confins nacionais; expressam a existência de uma “globalização de baixo”, ou seja, das pessoas comuns, das famílias, de suas redes de relações, que reagem a uma localização imposta na busca de um futuro melhor,2 porém que se integram a macroprocessos, a dinâmicas complexas, muitas delas não tão visíveis. 1 2

PAVIANI, J. Globalização e humanismo latino. Porto Alegre: Edipucrs, 2000. AMBROSINI, M. Un’altra globalizzazione. La sfida delle migrazioni transnazionali. Bologna: Il Mulino, 2008.


Desse modo, o mercado de trabalho, que é o elo irradiador dos fluxos (tanto no espaço de origem como no de destino), transcende em grande parte os sistemas políticos, ainda que ambos possam estar conectados, assim como a dita globalização do alto e de baixo. A globalização de baixo muda a demografia da população, da força de trabalho, dos alunos nas escolas; altera também o Estado-nação, desnaturalizando confins, pertencimentos e relações; alimenta-se com o campo dos negócios, da esfera afetiva (em grande parte familiar, étnica e nacional). Assim, os imigrantes também são atores, não simples vítimas dos processos de globalização; lutam pela inclusão, pela inserção nos espaços migratórios em situação menos traumática; enfrentam legislações restritivas, encurtam distâncias, amenizam estigmas; desejam obter renda e emprego digno, retornar para seu espaço de origem e expressar, simbólica e efetivamente, certo empoderamento e reconhecimento social.3 Nesse sentido, o fenômeno migratório deve ser visto como um fato social amplo, totalizante, do mundo atual, de experiências humanas de mudanças sociais (aspirações, emancipações, etc.), que refletem múltiplas relações, expressões, jeitos de ser, dimensões políticas, religiosas, identitárias, de ambas as sociedades envolvidas. É uma dinâmica que não possui um só vetor, nem um só espaço e tempo; alimenta-se, sim, de múltiplos processos do mundo contemporâneo. Ainda que, em geral, quando se fala em migrações, os fatores econômicos e demográficos preponderem, ou sejam mais fáceis de serem visualizados, não se devem desmerecer os processos políticos e culturais das sociedades, em especial daquela de destino. Os campos político e jurídico se esforçam para controlar, selecionar, disciplinar, priorizar, excluir e punir, ou melhor, lançam mão de uma série de ações que objetivam definir quem se enquadra ou não nos processos normativos que a sociedade de destino imprime. Porém, o campo político, em si, é uma parte do processo e se revela em interação com dimensões culturais (raça, etnias, religiões, famílias, parentesco, nacionalidades e identidades, costumes e formas de integração social).4

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AMBROSINI, Un’altra globalizzazione..., p. 9. PALIDDA, S. Mobilità umane. Introduzione alla sociologia delle migrazioni. Milano: Cortina, 2008. João Carlos Tedesco


Em termos culturais e sociais, falou-se muito nos últimos tempos em tráfico de culturas, ou seja, um mundo em movimento, espaço de interações e de trocas culturais, de transformações da tradição (sobre esta última, nem tanto de seu fim, mas de seu deslocamento, despersonalização e desritualização).5 As culturas se mesclam; os países de destino incorporam em seu interior culturas diferentes, vistas até como estranhas e, por isso, difíceis de serem entendidas, concebidas e intercambiadas. Por isso, como forma de reação a esses fluxos e trocas culturais, desenvolvem-se no interior de países de destino dos fluxos ideias de separação, de segregação étnica e espacial, neorracismos, estratégias de defesa da identidade e de culturas, fundamentalismos religiosos e culturais, purezas étnicas; políticas de controle, gestão, seleção e discriminação da imigração, além de uma concepção ambígua, quando não falaciosa, em torno do estrangeiro também ganham vida.6 No dizer de Bauman,7 para habitantes do Primeiro Mundo, as fronteiras dos Estados foram derrubadas, como foram para as mercadorias, o capital e as finanças. Para os habitantes do Segundo Mundo, os muros constituídos pelos controles de imigração, as leis de residência, a política de “ruas limpas” e “tolerância zero” ficaram mais altos; os fossos que os separam dos locais de desejo e da sonhada redenção ficaram mais profundos, ao passo que todas as pontes, assim que se tenta atravessá-las, revelam-se pontes levadiças. Os primeiros viajam à vontade, divertem-se bastante viajando [...], são adulados e seduzidos a viajar, sempre recebidos com sorriso e de braços abertos. Os segundos viajam às escondidas, muitas vezes ilegalmente, às vezes pagando por uma terceira classe superlotada, ainda por cima são olhados com desaprovação, quando não presos e deportados ao chegarem.

É nesse cenário concreto que se desenvolvem as representações e os estereótipos sobre o estrangeiro. Este, na visão de Bauman, continua sendo um sujeito que não se adapta aos mapas cognitivos, morais e estéticos do mundo e, com sua simples presença, torna opaco o que deveria ser transparente. Por isso, continua provocando incertezas, alterando modelos de comportamentos que eram considerados está5 6

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GIDDENS, A. Il mondo che cambia. Bologna: Il Mulino, 2000. Ver HELLER, A. Dove siamo a casa? Milano: Franco Angeli, 1998. Nesse sentido pode-se ter uma bela análise em BAUMAN, A. La solitudine del cittadino globale. Milano: Feltrinelli, 2000. BAUMAN, Z. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1997. p. 27. Estrangeiros, extracomunitários e transnacionais: paradoxos da alteridade nas migrações internacionais

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veis (em especial dos europeus), difundindo ansiedade e preocupação, ou seja, como um sujeito que não é capaz de se adequar à concessão da ordem; logo, é um indefinido, cuja inserção é imprecisa, concebido como cognitivamente ambivalente e anômalo.8 A imigração e a emigração são dois lados de uma mesma moeda, de um mesmo processo, tanto macro quanto micro, vivido por nações e regiões mundo afora, nos mercados de trabalho e sujeitos que os corporificam. Sabemos que, dependendo do espaço de referência, as noções se alteram, são concebidas de forma diferenciada. Não há dúvidas, como diz Sayad, de que a expansão econômica, em geral, torna-se a grande consumidora de emigrantes. Diz o autor que um imigrante é substancialmente entendido como força de trabalho, força de trabalho provisória, em trânsito; é o trabalho que o faz ser; é o trabalho que condiciona sua existência. Portanto, ser imigrante e estar desocupado é, ao mesmo tempo, um paradoxo. O imigrante só existe para o trabalho; aceita-se o imigrante em sua transitoriedade, como alguém que chegou, mas que em curto tempo retornará ao seu local de origem. Os seus filhos podem até estudar e fazer cursos, mas devem continuar o trabalho dos pais, sem também dar muito custo aos setores produtivos, à vida dos autóctones e à esfera pública. O imigrante é alguém que é de um outro lugar e que, mais cedo ou mais tarde, deve retornar; portanto, em teoria, não tem por que se integrar e se sentir no país de destino. Segundo Sayad, o imigrante continua sendo identificado e/ou correlacionado com analfabetismo, falta de cultura e qualificação, desvinculado dos mecanismos e regras da sociedade, da economia e da cultura dita “civilizada”.9 Aliás, o imigrante sempre carregou consigo uma imagem, uma figura ambivalente: é vizinho, mas é e está distante; exerce fascínio e temeridade, incluso e excluso; revela mudanças e desejos, estratégias de imutabilidade cultural e social, de comportamentos e comunicação. “Nem cidadão, nem estrangeiro [...], o imigrante situa-se nesse lugar ‘bastardo’ de que Platão fala, a fronteira entre o não ser-social. Deslocado, no sentido de incongruente e de importuno, ele suscita o embaraço [...]. Incômodo em todo o lugar, e doravante tanto em sua socieda8 9

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BAUMAN, Z. La società dell’incerteza. Bologna: Il Mulino, 1999. p. 55. SAYAD, D. L’immigrazione o i paradossi dell’alterità. L’illusione del provvisorio. Verona: Ombre Corte, 2008. p. 33-34. João Carlos Tedesco


de de origem quanto em sua sociedade receptora, ele obriga a repensar completamente a questão dos fundamentos legítimos da cidadania e da relação entre o Estado e a Nação ou a nacionalidade.”10 Abertura e fechamento são dialetizados quando da presença do estrangeiro, e é aí também que reside sua ambiguidade. Ele delimita a distância social em razão das dimensões físico-espacial e cultural; está presente e distante, no sentido de que interpela, exerce influência individual e grupal na sociedade hospedante, bem como de não se dissolver no todo no grupo a fim de abrir mão de sua especificidade, de uma arma que lhe é própria (que também é causa de seu estigma), que é sua cultura e nacionalidade.11 O imigrante gera inquietude; é um sujeito que demonstra poder viver desterritorializado, ou seja, sem país de origem, ou melhor, parcialmente em dois; essa fluidez, mobilidade, estranhamento cultural e hibridez podem causar medo e insegurança,12 provocar etiquetamento e bloqueios de liberdade e de expressão cultural. Diante disso, estratégias adaptativas surgem de ambos os lados (entre os ditos autóctones e os de fora), bem como tentativas de socialização, seja no campo do trabalho, seja da escola e, enfim, da vida cotidiana. O que é mais observado no cotidiano dos jornais e da mídia televisiva dos países de destino é a dimensão proibitivo-policialesca e militar do fenômeno migratório. No cotidiano das relações concretas, formas de concepção neocoloniais preponderam e se alimentam com maior força no espaço e nas formas de trabalho. Na Itália isso tudo já se tornou lugar-comum, pois a mídia de maior espaço e os jornais das regiões de maior presença de imigrantes dedicam amplos espaços à questão migratória diariamente e, em geral, com notícias que revelam certa dimensão negativa em relação aos imigrantes, necessidade de controle público, etc. A União Europeia, por exemplo, adotou uma nova política de controle de imigração, que entrará em vigor a partir de 2012, acordada por unanimidade entre os 27 países membros. O objetivo da nova lei, chamada “Diretriz de Retorno”, é controlar a imigração adaptando-a 10

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BOURDIEU, P. A imigração ou os paradoxos da alteridade. In: SAYAD, A. A imigração. São Paulo: Edusp, 1991. p. 11-12. ZANFRINI, L. Sociologia delle migrazioni. Roma-Bari: Laterza, 2006. DAL LAGO, A. Esistono davvero i confliti tra culture? In: GALLI, C. (a cura di). Multiculturalismo. Bologna: Il Mulino, 2005. p. 45-80. Estrangeiros, extracomunitários e transnacionais: paradoxos da alteridade nas migrações internacionais

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às necessidades do mercado de trabalho. Seus pontos básicos são: organizar a imigração; combater a imigração ilegal e expulsar os irregulares; fortalecer o controle das fronteiras; aumentar a cooperação com os países de origem e melhorar o sistema de acolhida e assistência. O novo pacto busca instituir uma espécie de blue card que funcionará como guia de controle aos imigrantes. Essa nova deliberação foi intensamente criticada na América Latina e em outros países da África por ser considerada xenófoba. Segundo Sarkosy, que em 2008 era presidente do Bloco Europeu, a medida visa controlar e combater a imigração clandestina, que hoje chega a oito milhões no conjunto da União Europeia.13 A medida ocasionou reações muito fortes de governos que possuem grandes fluxos de imigrantes na Europa, como é o caso da Bolívia, Venezuela e também do Brasil. Cartas foram enviadas por chefes de estado ao Parlamento Europeu cobrando alteração das medidas e identificando-as como discriminatórias e historicamente injustas. A política do atual governo Berlusconi na Itália caminha no sentido de uma instrumentalização sensacionalista que a mídia promove em torno de fatos negativos, produzidos real ou ficticiamente, os quais envolvem imigrantes, em geral, para justificar ações repressivas, aprovar decretos considerados e legitimados como emergenciais – por isso, mais fáceis de serem aprovados –, como é o caso de leis contra violência sexual, “decreto antiestupro”. Este, no fundo, não se destinou tanto a proteger as mulheres, pois, ainda que as estatísticas14 demonstrem o contrário, grande parte dos estupros é atribuída aos imigrantes, ou, como é produzido sensacionalismo midiático em torno de alguns fatos, estes acabam produzindo generalidades associadas àqueles. Outras leis foram aprovadas no calor dos acontecimentos, em 2009, como é o caso da que criminaliza e penaliza energicamente os crimes cometidos por imigrantes e da que busca considerar também como crime a entrada e/ou presença no país de ilegais, inclusive com grande conotação fascista. Há, ainda, a efetivação de guardas, ou melhor, de rondas parapoliciais, ao modelo da polícia repressiva fascista 13

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União Européia reforça barreiras antiimigração. Zero Hora, Porto Alegre, 17 out. 2008. p. 39. Na Itália, em 2006, 90% dos estupros foram cometidos por italianos, não por estrangeiros – e ainda menos por imigrantes clandestinos. Outro aspecto importante é que em cerca de 70% dos casos o abuso sexual de crianças, meninas e mulheres ocorre em casa e por parentes chegados. ISTAT, 2008. João Carlos Tedesco


– de triste memória –, de caráter voluntário, ligadas aos prefeitos das cidades, em geral, e administradas pela Lega Nord, com a função de proteger as mulheres e todos os cidadãos de qualquer tipo de violência. No centro da medida da efetivação das milícias civis estão o controle migratório interno, a repressão e vigilância; sem dúvida, o alvo são os imigrantes, vistos como os protagonistas e demiurgos de todos os problemas, em especial nesse período de grande crise econômica e que se reflete mais diretamente no campo do trabalho e em suas políticas de precarização levadas a cabo pelo capital, com o aval da esfera política e da cultura sistêmica do capitalismo. Medidas são tomadas para alterar o cotidiano dos imigrantes, como, por exemplo, a proibição de serem construídas grandes mesquitas; de encontrar-se em grupo no interior das praças; de praticar prostituição, inclusive em locais privados; de carregar mochilas ou malas próximo de monumentos históricos, etc. Muitos comitês de voluntários já foram institucionalizados, dentre os quais, como já vimos, os dos espaços de comando político da Lega Nord, expressos nos programas “Vêneto seguro”, “Sentinelas antidegradação”, “Milão mais seguro”, “Socorro Monza”. Esse processo tende a promover conflitos e tensões cotidianas e, ao mesmo tempo, também reações contrárias de grupos e cidadãos autóctones, os quais percebem que as medidas são discricionárias e discriminatórias e que, ao invés de produzir equilíbrio social, produzem mais tensões, as quais acabam distanciando as comunidades e grupos sociais, alimentando xenofobia e permitindo visualizar um culpado pela atual crise econômica que se abateu pelo mundo todo, ou seja, os imigrantes. Em maio de 2009, a Câmara italiana aprovou leis que fecham ainda mais o cerco aos imigrantes ilegais: punição com multa de cinco a dez mil euros para quem entrar ou permanecer na Itália sem permissão; três anos de reclusão para qualquer pessoa que alugue uma casa a um imigrante ilegal; seis meses de detenção, não mais três, para imigrantes ilegais nos Centros de Permanência Temporária (CPT). Nesse período, as autoridades italianas identificarão e mandarão de volta a seus países de origem os ilegais; mulheres ilegais não poderão registrar na Itália os filhos que nascerem no país.15 É de se imaginar que, se a agressão sofrida por Berlusconi em dezembro de 2009 em Mi15

Itália fecha o cerco aos imigrantes ilegais. Zero Hora, Porto Alegre, 14 maio 2009. p. 28. Estrangeiros, extracomunitários e transnacionais: paradoxos da alteridade nas migrações internacionais

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lão tivesse sido promovida por imigrantes, não por um italiano, novas medidas poderiam ser legitimadas contra esses! Além das medidas mencionadas, há as que obrigam médicos a denunciar imigrantes ilegais que necessitam de atendimentos em hospitais, clínicas públicas e qualquer outro estabelecimento de saúde pública;16 que fixaram o pagamento de oitenta a duzentos euros (dependendo do tipo de solicitação) para obter a renovação e/ou pedido de permissão de residência no país. (Nesse sentido, disse-nos um imigrante senegalês: “Já que somos culpados por tudo, somos a solução também da crise econômica!”). Outra medida é a que classifica a imigração ilegal como crime, além de prever prisão de até quatro anos para quem não obedecer à ordem de expulsão. Outra é a criação de escritórios e/ou repartições públicas especializados em receber denúncias sobre a presença de imigrantes clandestinos extracomunitários.17 No fundo, serão centros de delação e têm o poder de vigilância e de várias ingerências, além de legitimar ações de linchamento e outras formas de violência, como as evidenciadas cotidianamente por autóctones em ruas e bairros das cidades. Essas medidas todas não são fruto apenas da realidade italiana. Talvez na Itália se processem em razão das oportunidades políticas atuais existentes no bloco de poder, porém não há dúvidas de que revelam algo mais estrutural da dinâmica migratória internacional atual. O campo religioso também não ficou de fora, ou seja, como o governo Berlusconi possui maioria no Parlamento e um dos partidos mais fortes que compõem a coalisão de governo tem em sua bandeira principal o dito problema immigrazione, uma medida foi aprovada no sentido de impedir a construção de mesquitas pelos muçulmanos, a não ser que haja a aprovação em referendum popular. No campo educacional, sua proposta é mais polêmica ainda, ou seja, a de instituir a obrigação de classes e salas separadas para alunos estrangeiros. Esta causou polêmica internacional e, acreditamos, não será implementada.

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A organização dos “Médicos sem Fronteiras” (MSF) fez uma campanha de protesto sob o lema “Somos médicos e não espiões”, contra esta emenda. Jornais da Itália e de várias partes do mundo, como o Le Monde, criticaram imensamente a medida; inclusive, alguns deles a classificaram como racista por desenvolver um clima de intolerância racial. João Carlos Tedesco


Enfim, se a União Europeia, em conjunto, manifesta processos conservadores em suas políticas, é porque a questão da imigração já adentrou em cenários amplos das sociedades; já faz parte de seu tecido social, não mais apenas dos horizontes pragmáticos e funcionais do mundo do trabalho. Portanto, é uma realidade complexa, dinâmica e reveladora das grandes transformações da sociedade contemporânea.

Nossas intenções e recursos de pesquisa Nosso estudo pretende oferecer alguns subsídios teóricos e empíricos baseados na experiência de pesquisa com imigrantes brasileiros nas regiões Norte e Nordeste da Itália (Vêneto e Lombardia). Daremos ênfase a fatores estruturantes do fenômeno migratório internacional, correlacionados à dinâmica econômica global, aos horizontes subjetivos que envolvem grupos sociais e étnicos, às concepções e mediações de redes formais e informais e das relações que vão se constituindo em torno da realidade emigratória brasileira para a Itália. A dimensão das redes será nosso eixo central. A ideia é mostrar aspectos dessa dinâmica, algumas das estratégias de ambos os lados (imigrantes e autóctones), entrecruzando e imbricando elementos de uma globalização do alto e outra de baixo em correlação. Pesquisamos na região do Vêneto e da Lombardia em várias etapas dos anos de 2005, 2006, 2008/9 e 2010 (em geral, entre os meses de dezembro e fevereiro, período de nossas férias acadêmicas). Organizamos questionários e os entregamos pessoalmente a imigrantes brasileiros (em torno de 260) em nossas visitas e contatos pessoais em seus espaços de habitação, no trabalho, em momentos de festa, de encontros religiosos, etc. Utilizamos também contatos pela internet, via e-mail, tanto na Itália quanto em períodos em que que estávamos no Brasil; esta foi um ferramental importante para obtenção de relatos e informações variadas sobre o cotidiano de imigrantes. Com esta estratégia de pesquisa fizemos algumas entrevistas mais aprofundadas. A mediação de Igrejas, tanto a católica quanto as evangélicas, foi também fundamental. Nos encontros religiosos de que participávamos aproveitávamos para entrevistar, conversar aleatoriamente, dirigir a conversa para determinados focos e temas que eram de interesse à pesquisa. Os call centers e os centros de internet de “brasileiros”, Estrangeiros, extracomunitários e transnacionais: paradoxos da alteridade nas migrações internacionais

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tanto em Verona como em outras cidades das regiões já informadas, tornaram-se pontos de encontro de brasileiros, em especial nos finais de semana. Nesses espaços conseguíamos avançar em nossa pesquisa em razão de intercâmbios, de relatos de histórias de vida, de preocupações com os familiares (após os contatos via internet – MSN – ou telefone, percebíamos mais facilmente a sensibilidade de muitos imigrantes em relação às suas famílias, ao horizonte afetivo em geral, seus problemas e vínculos entre os espaços, o fato “de tá aqui e tá lá”). Também conseguíamos realizar entrevistas em profundidade, com longos relatos de vida. Pesquisas realizadas em centros de estudos migratórios tanto de Verona quanto de Milão foram também fundamentais para a obtenção de dados genéricos e específicos sobre o fenômeno migratório italiano. Contato com pesquisadores de Milão, em especial com o professor Maurizio Ambrosini, bem como em Verona, com os professores Emílio Franzina e Federica Bertagna, permitiu-nos dialogar, refletir e intercambiar sobre essa realidade vivida pelo país, inclusive comparando-a com aspectos da antiga e grande emigração de um século e pouco atrás. Os locais de maior fluxo de saída de imigrantes no Brasil também foram pesquisados. Contatamos com dezenas de famílias do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Tentamos entender os processos que estão envolvidos na decisão de emigrar, algumas das relações e estratégias produzidas, as redes e capitais sociais que se molduram e viabilizam novos fluxos, alguns dos traumas e dos problemas ocasionados pela decisão de emigrar para quem fica e para quem sai. Nesse cenário fomos construindo redes de “conhecidos”, por meio das quais passamos a receber informações sobre onde havia “retornados” e onde havia famílias de emigrantes para a Itália. Em Pato Branco e Criciúma, bem como em algumas outras cidades de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, essa realidade se mostrou dinâmica e intensa – “aqui tu encontra uma atrás da outra”, nos disse uma senhora ao chegarmos a Guarapuava, no Paraná. Enfim, buscamos, com os recursos que tínhamos em mãos, acercarmo-nos ao máximo do nosso objeto de pesquisa. As técnicas foram variadas e não obedeceram a um rigor metodológico e previamente definido, visto que as circunstâncias iam exigindo redefinições, criações, formas variadas de contato e de obtenção de informações. Porém, 22

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buscávamos sempre registrar as falas, os contatos, da forma que nos era permitido e autorizado. Juntamos um material amplo e variado, que, como muitos já nos disseram, “daria pra fazer alguns livros só de depoimentos”, com amplos relatos de fatos do cotidiano, biografias de imigrantes, histórias de vida em que a decisão de emigrar se tornou traumática, e não só para o sujeito que emigrou. Percebemos causas múltiplas de emigração, redes de contato e de vários outros âmbitos que vão promovendo o processo, desilusões de retornados em relação ao país para o qual emigraram e/ou ao local de retorno. São múltiplas histórias, mescladas a múltiplos dilemas, à espera de visibilidade. Não há dúvida de que a realidade migratória internacional revela nuanças que o rigor metodológico não consegue abarcar. Processos foram acontecendo, a dita “bola de neve” foi se constituindo (canais que se interligam em virtude da obtenção de informações “de um e de outro”); realidades demonstravam-se repetitivas, outras, completamente diferenciadas; fomos buscando um pouco de cada em ambas as dimensões; questionários iam sendo distribuídos aleatoriamente, muitos deles com auxílio dos próprios imigrantes, que “faziam o meio de campo” junto a outros conhecidos seus, e assim por diante, tanto no local de origem como na Itália. Não buscamos trabalhar com a preocupação da representatividade nem muito com dados estatísticos (percentuais, alterações quantitativas, projeções) das escolhas previamente definidas, etc.; buscamos, sim, construir nosso intrumental em torno de alguns grandes eixos temáticos, os quais foram desenvolvidos neste trabalho.

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1 O estrangeiro/imigrante na modernidade: horizonte de tensões externas e internas. Síntese de algumas concepções Todas as sociedades produzem estrangeiros, mas cada uma os produz de modo particular. Bauman

Na fase nascente do capitalismo moderno, vários autores discutiram a figura do estrangeiro, todos tendo como pano de fundo a sociedade ocidental, o capitalismo em última análise, seus elementos constituintes, sua dinâmica evolutiva e econômica em especial, os processos sociais e culturais daí decorrentes (assimilação, aculturação, conflitos) e, principalmente, em sua ótica problematizadora e conflituosa em termos de aceitação e convivência social. O Outro, o imigrante, interno à sociedade europeia mais desenvolvida e/ou norte-americana, passou a ser objeto do campo sociológico na passagem do século XIX para o XX, até meados deste, quando o capitalismo se consolidou nesses espaços. As intensas migrações de população em direção aos grandes centros industriais chamavam a atenção de estudiosos. A antropologia, a sociologia, a economia, a demografia e a psicologia encarregam-se da empreitada de compreender o estrangeiro, o estranho que vive “entre, por meio de, e em nós”.18 Transformações imensas na estrutura econômica e política aconteciam na Europa na virada do século, fruto da industrialização crescente, da infraestrutura de transportes, dos impérios financeiros, das múltiplas identidades

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MEO, M. Lo straniero inventato. Riflessioni sociologiche sull’alterità. Milano: Franco Angeli, 2007.


que se entrecruzavam, revelando um mundo em movimento, e as ciências sociais buscavam dar uma contribuição. Queremos, neste capítulo, reconstituir algumas ideias e correntes do pensamento crítico moderno em torno da figura do estrangeiro, em geral correlacionado e identificado ao imigrante. A intenção é agregar conceitos, mostrar as bases analíticas de um corpus de análise social e perceber que é em torno de representações e imaginários construídos na história que os grupos humanos vão formando suas concepções, deliberações, aceitações e processos de convivência social. A ideia é mostrar também que, não obstante mais de um século já se ter se passado, poucas alterações aconteceram nessa realidade; aliás, ao contrário, ao que nos parece, temos cada vez mais dificuldade de conviver e de aceitar os que “são de fora”.

Um sujeito ambivalente: o olhar de Georg Simmel O texto específico do autor referente ao “estrangeiro” é um ensaio curto, de não mais que dez páginas, presente no conjunto de um livro consagrado à sociologia. Porém, é evidente, aspectos em torno dessa figura perpassam toda a sua obra e, em especial, nas circunstâncias em que o autor desenvolve uma contundente crítica à cultura moderna. O autor escreveu o ensaio sobre o estrangeiro por volta de 1908; foi um dos primeiros teóricos preocupados com as formas sociais que a metrópole moderna produzia. O centro de sua análise é a cidade grande: a Berlim que se modernizava, atraía, diferenciava e crescia sob a égide do capitalismo e de sua dinâmica mercantil, em especial guiada pela lógica do dinheiro, pela intensa migração e pelas inovações tecnológicas. O autor cita exemplos de judeus, comerciantes, profissionais liberais, dentre outros, inseridos em várias sociedades, como os ditos “estrangeiros”.19 A questão do estrangeiro revela o olhar sensível e fino de Simmel ao mundo em movimento com a modernidade e o capitalismo ganhando corpo; com o metropolitismo padronizando a vida urbana, massificando ações, gostos e consciências; com as reações dos indivíduos, 19

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Desenvolvemos aspectos do pensamento de Simmel com relação à modernidade em TEDESCO, J. C. Georg Simmel e as sociabilidades do moderno: uma introdução. Passo Fundo: UPF Editora, 2006. João Carlos Tedesco


sua resignação e contraposição, sua liberdade e as formas cativas de sociação, sua evolução e rupturas. No ensaio o autor define o lugar singular do estrangeiro no espaço físico, no campo social e simbólico. O estrangeiro participa e provoca um cenário que une dimensões contrárias: pertencimento e ruptura, alteridade e desejo de participar, distanciamento e proximidade, socialização e dessocialização;20 um sujeito ambivalente, próprio da modernidade, que provoca mobilidade na fixidez e, ao mesmo tempo, distância e proximidade sem ser ou querer ser um pertencente da/na cultura e sociedade hospedante.21 O estrangeiro, nesse sentido, é um sujeito-síntese, uma configuração entre familiaridade e estranhamento, emoção/afetividade e indiferença, engajamento e liberdade, suspeição e perigo; é um recém-chegado e que terá de definir sua situação/localização e representação no mundo; alguém que tem grande tendência a permanecer nas margens, uma vez que seu mundo natural é outro e a sociedade de acolhimento não consegue lhe assegurar inclusão, mas atrai e está no centro das atenções.22 Para Simmel, o estrangeiro guarda para si elementos de indiferença e envolvimento. Pertencer ao grupo não significa ser considerado parte integrante.23 O conflito é constitutivo da relação com o estrangeiro; é a mola que movimenta e sustenta a existência social; é um elemento ativo e ambivalente de socialidade, em especial em sociedades que ganham feições multiculturais.24 O estrangeiro de Simmel é alguém portador de uma diversidade cultural que está numa posição externa e marginal em relação aos elementos centrais da comunidade de destino.25 A noção de distância e de proximidade processa-se no fato de que o estrangeiro não faz parte desde o início no novo ambiente. Por isso, é portador de diversidade; é aceito e expulso; é, ao mesmo tempo, fora e 20

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RAPHAEL, F. “L’étranger” de Georg Simmel. In: WATIER, P. (Sous la direction de). Georg Simmel. La sociologie et l’experience du monde moderne. Paris: Méridiens Klincksieck, 1986. p. 257-279, cit., p. 257. TEIXEIRA, C. C. (Org.). Em busca da experiência mundana e seus significados: Georg Simmel, Alfred Schutz e a antropologia. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000. Idem. POLLINI, G.; SCIDÀ, G. Sociologia delle migrazioni e della società multietnica. Milano: Franco Angeli, 2002. SIMMEL, G. Sociologia: estúdios sobre las formas de socialización. Madrid: Castilla, 1977. PERRONE, L. Da straniero a clandestino. Napoli: Liguori, 2005. Estrangeiros, extracomunitários e transnacionais: paradoxos da alteridade nas migrações internacionais

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dentro do grupo; vive uma condição social e econômica marginal, mas produz uma função positiva: sua presença reforça os vínculos internos à comunidade (cria genericamente uma cultura, um pertencimento, um “nós” e um “eles”); sua identidade define seus confins. Assim, os seus processos de exclusão definem o seu grau de inclusão. “Em nível individual, a relação como o estrangeiro suscita contemporaneamente fascínio e medo da diversidade, atração pela novidade e temor pela instabilidade e a precariedade que o novo pode provocar.”26 O estrangeiro também está exposto ao risco econômico, no mercado de trabalho, na lógica do dinheiro; é o que não tem vínculos, é móvel e imprime relações ocasionais, objetivas; não possui vínculos afetivos, parentais, nem redes sociais. Isso pode lhe conferir liberdade, objetividade e exposição aos limites, à fragilidade e aos riscos. O estrangeiro, para Simmel, é aquele cidadão “que não é daqui e está ali”; é um sujeito da unidade da distância e da proximidade; representa a mobilidade que nos intriga e pode nos invejar; é uma “não-relação” (não se conhece nem se reconhece, está no espaço de outrem, está perto e longe); sua presença reafirma nossa singularidade e diferença, bem como, e em razão disso, os processos de exclusão e marginalização social.27 O estrangeiro é um viajante que não deixa de sê-lo ainda que permaneça num espaço fixo; um viajante potencial, alguém que carrega consigo a transnacionalidade simbólica, visto que, embora não tenha partido, não superou completamente a liberdade de ir e vir; alguém que se fixou em um grupo espacial particular, ou em um grupo cujos limites são semelhantes aos limites espaciais. É alguém que está aqui e está lá, ou pode não estar aqui, não estando também lá. Todavia, sua posição no grupo da sociedade de destino é determinada, essencialmente, pelo fato de não ter pertencido a ela desde o começo, de ter introduzido qualidades que não se originaram, nem poderiam se originar, no próprio grupo.28 O migrante, para Simmel, está na dimensão da aventura; é aquele que extropola o seu contexto, o que já viveu, que se afasta, se desloca, sai da segurança e a cruza com a insegurança; passa do calculável

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PERRONE, L. Da straniero a clandestino. Napoli: Liguori, 2005. p. 54. WAIZBORT, L. As aventuras de Georg Simmel. São Paulo: Editora 34, 2000. SIMMEL, G. O estrangeiro. In: MORAES FILHO, E. (Org.). Sociologia. São Paulo: Ática, 1983. p. 182. João Carlos Tedesco


ao incalculável; aposta no destino, em algo que não lhe transmite segurança imediata; afronta-o, permite viver a intensidade do suspense; é a vida que se realiza para além do premeditado e das causalidades. Aventurar-se significa deixar para trás muita coisa, suspender-se por um tempo, congelar o tempo para depois voltar ao normal; é não pensar no passado nem no futuro; é o aqui e o agora ou o nunca mais; é distanciar-se do que é próximo para aproximar o que parece ser ou estar distante: o sonho, como parte deslocada da vida. O migrante é esse sujeito que deixa para trás muita coisa, os seus, as certezas construídas até então; projeta-se e desloca-se em múltiplos âmbitos, não apenas no físico, mas objetiva retornar, aproximar-se mais por meio do distanciamento, para sentir-se e subjetivar-se; corre riscos, incorpora situações desfavoráveis; afasta-se do real, intenciona congelá-lo para melhor tê-lo posteriormente.29 O estrangeiro é objeto e causa de mudanças sociais, por isso sua dimensão de proximidade e distância, ou melhor, síntese de opostos que podem se complementar, se sintetizar e se unificar. “A unificação de proximidade e distância envolvida em toda a relação humana organiza-se, no fenômeno do estrangeiro [...]; a distância significa que ele, que está próximo, está distante; e a condição de estrangeiro significa que ele, que também está distante, na verdade, está próximo, pois ser um estrangeiro é naturalmente uma relação muito positiva: é uma forma específica de interação.”30 O tempo de permanência no espaço do outro conduz a que o estrangeiro possa gozar de certos atributos do grupo. Essa seria a “objetividade positiva”, diria Simmel, que unifica a distância e a proximidade. Simmel faz do estrangeiro um sujeito de conflito, pois pode fazer o grupo pensar que sua identidade é mais fluida e menos coesa e tenaz, mais livre; pode alterar as substâncias que davam a ideia do “estar seguro em casa”; é um olhar afastado, com liberdade de juízo, imparcial e objetivo e que pode produzir estrangeirice no grupo de inserção. Segundo Simmel, a solidariedade que unia o indivíduo à sociedade e ao seu grupo de pertencimento na sociedade tradicional com a economia monetária e o desenvolvimento da técnica, principalmente 29

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SIQUEIRA, S. Sonhos, sucesso e frustrações na emigração de retorno: Brasil-Estados Unidos. Belo Horizonte: Argumentum, 2009. SIMMEL, O estrangeiro..., p. 182. Estrangeiros, extracomunitários e transnacionais: paradoxos da alteridade nas migrações internacionais

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nas metrópoles modernas, rompeu-se; porém, produziu, de um lado, liberdade pessoal e, por outro, a dependência, a qual aumenta e se alimenta reciprocamente com o distanciamento da subjetividade.31 A modernidade redefine tempos e espaços, ambos envoltos na noção de movimento e indefinição. Proximidade e distância no espaço vão auxiliar na diferenciação dos conteúdos e sujeitos no meio social. Estranheza e/ou intimidade são fatores espaçopsicológicos e relacionais; aproximar pode significar afastar.32 O aumento da proximidade revela e produz a estranheza e, ao mesmo tempo, a distância. A estraneidade do estrangeiro revela-se quando de sua proximidade e vizinhança. O estrangeiro se produz na dinâmica do espaço e do tempo; não é só aquele que passa rápido num cenário, mas aquele que não é “de origem”, não nasceu no grupo e não pertence a este desde o início. Contudo, é o que traz novidade e diferença ao grupo, que, ao percebê-lo, percebe-se como diferente e se protege afastando-se do outro, do considerado forasteiro. Por isso, não entram nessa concepção do autor apenas questões de nacionalidade, raça, etnias, mas espaço; pode ser o migrante rural e/ou de cidades com características culturais diferentes; sedentarismo e gregarismo de indivíduos e grupos, a partir de novas dinâmicas societais, vão definir o estrangeiro em relação a um grupo social. Os espaços vão alterar códigos de conduta e reciprocidades, maneiras de ser e de viver, de se comportar e absorver valores, regras e normas da sociedade hospedante.33 Noções de vagabundo, desqualificado, sujo, errante e perigoso vão se produzir a partir dessa dialética do “de fora” com o “de dentro”; é nessa intimidade de atração (do diferente, da pluralidade e repulsão, do desejo de diferença) que o jogo recíproco (defesa/ataque) formula tensões, funcionalidade e exclusões, coloca em questionamento a identidade social e sua assimilação. O imigrante, o estrangeiro, o aventureiro e o blasé são produzidos no interior da metrópole. O aventureiro, por exemplo, estranha-se, mas, ao mesmo tempo, pela sua excentricidade, expressa um sentimento trágico da vida, uma capacidade, ainda que fragmentária, pas31

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SOUZA, J.; OELZE, B. (Org.). Simmel e a modernidade. Brasília: UnB, 1998; ver também WAIZBORT, L. As aventuras de... MEO, M. Lo straneiro inventato. Riflessioni sociologiche sull’alterità. Milano: Franco Angeli, 2007. WAIZBORT, L. As aventuras de Georg Simmel. São Paulo: Editora 34, 2000. João Carlos Tedesco


sageira, rápida e presentista de sentir, de significar e de dar conteúdo à vida.34 A condição de estrangeiro (adjetivado na figura do aventureiro) é sempre marginal, como aquela dos pobres e dos inimigos internos; não é um membro do nosso “nós”; pertence, como nós, à comunidade humana em geral, mas não pertence à nossa comunidade específica.35 Na ideia de aventureiro podemos inferir que esteja presente a noção de mobilidade espacial, de ruptura com a comunidade de origem, dificuldade de assimilação, produção de relações sociais orientadas pela indiferença ou ao conflito. O aventureiro representa a construção simbólica do inimigo, da segregação, do homem marginal, o qual não pertence a nenhum mundo – nem ao velho, que abandonou, nem ao novo, que adotou.36 É a partir disso que estratégias de inclusão convivem com estratégias fundadas na indiferença e na hostilidade. Segundo Simmel, a essência da experiência moderna está no aventureiro, que é o exemplo externo do individualismo que se alimenta no e com o presente. “A essência da aventura é de ser cortada fora do resto da vida e da sua continuidade.”37 Os eventos se seguem sem se sedimentar, e cada fato novo aparece como independente do que o precedeu; desse modo, desenvolvem-se as noções de descontinuidades, de autonomia entre passado e futuro, mobilidades e modificações que a acompanham.38 Para Simmel, a experiência do estrangeiro é produto de um horizonte relacional, historicamente situada no cenário da modernidade, envolto num sistema de significados como reflexo da cultura que a referencia; é uma figuração sociológica de algo em relação e de representação do outro (o outro, o de fora, o estranho, o bárbaro, o extracomunitário, o nômade, o cigano...),39 construção relacional e conceitual que se alterou historicamente e que continua se modificando em razão das condições socioeconômicas, políticas e identitárias da sociedade. A modernidade será o epifenômeno integrador desse processo por carregar e problematizar elementos centrais, como tradição/inovação, mo34 35 36 37 38 39

VOZZA, M. Introduzione a Simmel. Roma, Bari: Laterza, 2003. cit., p. 98. SIMMEL, G. Sull’intimità. Roma: Armando, 1996. COTESTA, V. Lo straniero. Roma-Bari: Laterza, 2002. JEDLOWSKI, P. Il sapere dell’esperienza. Milano: Il Saggiatore, 1998. p. 80. MAFFESOLI, M. No fundo das aparências. Petrópolis: Vozes, 1996. TODOROV, T. Noi e gli altri. Torino: Einaudi, 1991. Estrangeiros, extracomunitários e transnacionais: paradoxos da alteridade nas migrações internacionais

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bilidade/fronteiras, identidades, direitos, industrialismos, liberdade, uso do dinheiro.40 A figura do estrangeiro é redefinida e central para a compreensão das transformações dos mecanismos de normatização e convivência social. O capitalismo congrega esses fatores ao desenvolver dimensões de liberdade, de autonomia, racionalismo, etc., produzindo diferenças, integrações/desintegrações, adaptações.41 O estrangeiro/estranho/diferente vai sendo, então, produzido no horizonte das representações, tendo esse paradigma como referente.42 A cidade aparece como território privilegiado do estrangeiro, pois é nessa que ele absorve com mais intensidade sua utilidade econômica e a ausência de necessidade de ligação mais orgânica com a sociedade de acolhida.43 O estrangeiro torna-se sinal de diferença, de alteridade incompreensível e que é difícil assimilar; representa outros valores ou costumes e singularidades; é o transitório e precário no permanente, por isso provoca reações de desestabilidade em uma sociedade que entende se perpetuar pela reprodução de si mesma em sua pretensa homogeneidade.44 Já dissemos que o estrangeiro não é um indiferente ou um insensível puro e simples em sua sociedade, em relação ao que passa em sua cidade. Seu não envolvimento orgânico e grupal (no sentido do nivelamento, do esquema de estereótipos), sua liberdade diante da objetividade social, o faz um fora “do jogo”, um outro, alguém a desconfiar, que faz o jogo do inimigo; portanto, não confiável. Num regime totalitário, em geral fundado sobre a tendência à homogeneidade e à coesão/coerção, o estrangeiro não pode ser tolerado, pois tende a escapar ao controle social. Enfim, a figura simbólica do estrangeiro manifesta o transitório e precário em meio ao que demonstra querer ser unidimensional; representa, também, a própria característica humana da dinâmica entre proximidade e distanciamento da experiência. Simmel afirma que “a distância no interior da relação significa que o próximo está distan-

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SIMMEL, G. Philosophie de l’argent. Paris: PUF, 1987. SIMMEL, G. Sociologia. Torino: Edizione di Comunità, 1998. TEIXEIRA (Org.). Em busca da experiência mundana e seus significados, 2000. JOSEPH, I. Le passant considerable. Paris: Méridiens, 1985. TEIXEIRA (Org.). Op. cit. João Carlos Tedesco


te, mas a própria alteridade significa que o distante está próximo”;45 encontra-se no horizonte da ambivalência, pois pode se tornar uma figura central, estimulante e reflexiva das ligações sociais e, também, suspeito e hostilizado; necessidade e risco/atração/repulsão compõe sua performance e estatuto simbólico na sociedade, bem como os referenciais que tensionam sua presença.46 O estrangeiro é uma categoria de regulação social e de negação da individualidade;47 expressa o contraditório e a ambivalência no/do meio societal.

A contínua preocupação com os “de fora”: Norbert Elias e Scotson Estes autores48 demonstram processos de construção social da marginalidade que vão além de fenômenos raciais, de classe, de etnia, envoltos em múltiplos outros fatores. O cenário de análise desses é uma nova zona industrial (vilarejo de cerca cinco mil habitantes) denominada ficticiamente de Winston Parva, no Midlands, na Inglaterra, em meados da década de 1950, a qual se processava historicamente com profundas fraturas em seu interior (duas de zonas operárias e uma de pequenos burgueses) em virtude das dinâmicas de desenvolvimento e progresso que se evidenciavam. Uma das zonas operárias era composta já por três gerações; a outra era mais recente (primeira metade do século XX, durante a Segunda Guerra Mundial, atraída pelo espaço de trabalho na indústria bélica instalada). Espaços variados vão construindo a noção de velhos e novos residentes, não obstante ambos os grupos não se diferenciassem nos âmbitos religiosos, de classe e nacionalidade. A duração de tempo de residência será fator de determinação da lógica da superioridade e inferioridade. Elementos como hierarquia social, autoimagem, estigmatização, orgulho/poder, medo, pertencimento grupal, tradição cultural, temporalidade de existência, anomia (tensão entre grupos “nômicos” e anô45 46 47 48

Cf. JOSEPH, I. Le passant considérable. Paris: Librairie des Méridiens, 1985. TEIXEIRA, (Org.). Em busca da experiência mundana e seus significados... COTESTA, Lo straniero, 2002. ELIAS, N.; SCOTSON, J. L. Os estabelecidos e os outsiders: sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2000. Estrangeiros, extracomunitários e transnacionais: paradoxos da alteridade nas migrações internacionais

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micos), estilo de vida, homogeneidade, coesão e solidariedade social entre grupos, submissão e conformidade, prestígio, relações de poder no cotidiano, imagens e símbolos de superioridade, depreciação e inferiorização de outras camadas, imagens estereotipadas e estigmatizadas, etc. são aspectos trabalhados na pesquisa dos autores. Esses autores analisaram aspectos que seriam de suma importância e centrais no campo sociológico posterior, como é o caso das formas singulares de relações de poder, de exclusão, violência simbólica e formas variadas de diferenciação social.49 “O grupo estabelecido atribuía aos seus membros características humanas superiores; excluía todos os membros do outro grupo de contato social não profissional com seus próprios; e o tabu em torno desses contatos era mantido através de meios de controle social como a fofoca elogiosa no caso dos que o observavam, e a ameaça de fofocas depreciativas contra os sujeitos de transgressão.”50 A pesquisa dos autores adentra em inúmeros processos e dimensões da vida econômica, social, da urbanização, das intersubjetividades envolvidas.51 Os autores falam de um estrangeiro moderno, fruto da mobilidade social; é um estrangeiro, é um estranho no sentido espacial e cultural. Nos conflitos em questão, os estrangeiros são vistos como potenciais concorrentes no mercado de trabalho; além disso, vizinhança, convivência, tradições, contatos, redes sociais, usos e costumes, enfim, códigos não escritos, reproduzidos como “espírito comum” e que unia as famílias dos estabelecidos estavam em perigo. O grande desafio desse grupo, portanto, era dificultar a presença de desconhecidos que se avizinhavam fisicamente e em termos de objetivos de vida, principalmente no campo do trabalho.52 Abrir mão desse prestígio conquistado, da configuração habitativa, da imagem coletiva do grupo, de seu percurso histórico e cultural no referido território era pedir demais! O estrangeiro desse cenário amedrontava porque era a expressão e a imagem do próprio grupo estabelecido, porém em décadas anteriores, de uma representação negativa. “A existência de um grupo de outsiders que não partilha do reservatório de lembranças comuns nem tampouco, ao que parece, das 49 50 51 52

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ELIAS; SCOTSON, Os estabelecidos e os outsiders..., p. 19. Idem, p. 20. PERRONE, L. Da straniero a clandestino. Napoli: Liguori, 2005. Idem. João Carlos Tedesco


mesmas normas de respeitabilidade do grupo estabelecido age como um fator de irritação; é percebida pelos membros desse grupo como um ataque a sua imagem e a seu ideal de nós. A rejeição e estigmatização dos outsiders constituem seu contra-ataque.”53 O grupo estabelecido lança mão de sua identidade cultural de “radicados”, que os faz se autoconsiderarem melhores que os externos. Fatores como coesão, historicidade e pertencimento cultural da zona mais antiga vão produzir estruturas coletivas de exclusão do grupo mais novo em diversos âmbitos sociais (direção de clubes, associação religiosas, assistenciais, etc.). As realidades que (dis)posicionam os grupos são configuradas no agir social; as estratégias acionadas vão refletir processos de grupos, “carisma de grupo”.54 O carisma de grupo expresso pela zona operária mais antiga fundamenta-se na própria socialidade construída no decorrer do tempo e manifesta-se em processos simbólicos de normatização social, regras, estilos e códigos morais difusos no grupo. Os autores mostram que o processo de valorização de um grupo e de desvalorização de outro é parte integrante de um único mecanismo simbólico: o intercâmbio e a coesão de códigos culturais. “No caso de diferenciais de poder muito grande e de uma opressão correspondentemente acentuada, os grupos outsiders são comumente tidos como sujos e quase inumanos [...]. A auto-imagem e a auto-estima de um indivíduo estão ligadas ao que os outros membros do grupo pensam dele.”55 Imagens e estereótipos auxiliam na produção de elementos de valorização de um e de estigmatização de outros e, também, na incorporação da identidade negativizada pelo grupo inferiorizado (estigmatizado), dificultando-lhe estratégias de contraposição. Valores da tradição, das velhas famílias da zona mais antiga, foram se desenvolvendo no interior do grupo como importantes; logo, violar esses valores pode gerar cólera, hostilidade e desprezo. No convívio, as diferenças passaram a ser demarcadas; configurações de relações produzem situações de competição, de conflito, de diferenciações e, talvez, com o tempo, processos de acomodação. “O novo chegado não é marginal enquanto se encontra em um outro lugar, mas porque naquele local se encontra um grupo social constituído com suas regras, os seus códigos, 53 54 55

PERRONE, Da straniero a clandestino, p. 21. COTESTA, Lo straniero. ELIAS; SCOTSON, Os estabelecidos e os outsiders..., p. 29 e 40. Estrangeiros, extracomunitários e transnacionais: paradoxos da alteridade nas migrações internacionais

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a suas distribuição de poder, que não abre as portas aos outros, mas atua ativamente para mantê-los à margem da sociedade. Assim se compreende melhor como o estrangeiro deve permanecer marginal na sociedade que vive e trabalho.”56 Os autores nos permitem ver como os grupos se pensam, se voltam para si mesmos, se autorrepresentam. Estratégias de dominação dos que se autoconsideram “os melhores”, a construção simbólica da autoimagem de grupos como “indivíduos superiores”, podem levar a que os próprios indivíduos inferiores se sintam carentes de virtudes, julgando-se humanamente inferiores.57 O alto grau de coesão de famílias que se conheciam de longa data caracteriza um carisma de grupo, controles sociais, sentimento de superioridade social. Está presente nesse processo uma espécie de sociodinâmica da estigmatização em relação aos recém-chegados, como arma para manter a superioridade social de um grupo.58 Os autores deixam claro que esse “carisma de grupo” se constrói pela coesão, pela sujeição de condutas a padrões específicos de controle dos afetos.59 “O orgulho por encarnar o carisma do grupo e a satisfação de pertencer a ele e de representar um grupo poderoso [...] estão funcionalmente ligados à disposição dos membros de se submeterem às obrigações que lhe são impostas pelo fato de pertencerem a esse grupo.”60 Esse processo implica uma lógica rígida de afetos, de vigilância em relação à busca de mérito, sacrifício e submissão às normas grupais, profunda consciência de pertencimento grupal; processos sociais de desqualificação dos outros grupos considerados anômicos, os quais desrespeitam as normas e tabus coletivos, produzem e disseminam doenças, são indisciplinados, desordeiros, ignorantes, imorais, sujos, inumanos, ruins e barulhentos. É necessário produzir insultos, envergonhamento, marginalização, tratamento com frieza, exclusão em cargos de representação social, estereótipos, como instrumentos de poder e de produção de representações sociais negativadas. Nesse sentido,

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COTESTA, Lo straniero, p. 38. MEO, Lo straniero inventato. Idem. COTESTA, op. cit. ELIAS; SCOTSON, Os estabelecidos e os outsiders..., p. 26. João Carlos Tedesco


surge e é produzida uma “hierarquia classificatória”61 dos grupos, das famílias e da ordem de status de uma comunidade, a qual influencia na vida cotidiana comunitária. A construção da identidade do grupo dos mais “antigos” passa a ser fundamental para expressar a sua importância e legitimar a exclusão dos novos chegados. A legitimidade da noção de “velhas famílias” se dá também pelo horizonte das “famílias conhecidas” em sua localidade, as quais se conhecem há várias gerações, significando que quem pertence a uma família antiga “não apenas tem pais, avós e bisavós como todo o mundo, mas que seus pais, avós e bisavós são conhecidos em sua comunidade, em seu meio social e são geralmente conhecidos como pessoas de bem que aderem ao código social aceito desse meio”.62 O estudo no vilarejo de Winston Parva demonstra que numa determinada situação, não obstante a igualdade de classe social, religiosa, de atividade e de estilo de vida, o pertencimento a um grupo estruturado e mais forte, em comparação com um indivíduo isolado ou pertencente a grupos frágeis, torna-se a base de ulteriores exclusões, desprezo e negociação da identidade: “O desprezo e a sistemática negociação da identidade tornam-se meios para realizar a exclusão.”63 Nesse horizonte migratório, os autores percebem os mecanismos de inclusão/exclusão que se configuram nas relações entre radicados e externos, vistos também como expressão de processos mais amplos das sociedades, nas suas diferenciações internas, tradições, valores e estruturações internas, competições, lutas internas, antipatias, interdependências, redes de famílias e seus recursos, considerados legitimadores de poder e de proteção sociocultural e espacial.64 São esses mecanismos de exclusão e estratégias de diferenciação que levam a que, com a chegada dos novos moradores, os estabelecidos adquiram prestígio e honorabilidade; submeter, envergonhar, desprezar e difamar transfere poder e superioridade aos outros. O poder de estigmatizar reforça a dominação e a superioridade do grupo estabelecido; é importante criar contrapontos para se legitimar no espaço e nas relações sociais. 61 62 63 64

ELIAS; SCOTSON, Os estabelecidos e os outsiders..., p. 166. Idem, p. 171. COTESTA, Lo straniero, p. 39. ELIAS, N.; SCOTSON, J. L. Stratigie dell’esclusione. Bologna: Il Mulino, 2004. Estrangeiros, extracomunitários e transnacionais: paradoxos da alteridade nas migrações internacionais

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Os autores mostram como o “externo” é uma relação social, é uma construção social, produto socioespacial; no caso específico, uma categoria social “perigosa”, considerada anômica, invasora de um espaço já ocupado, reservado a um determinado grupo em sua evolução dinâmica;65 é um outro dentro de um “nós”/grupo e a estranheza coabitando e gerando obstáculos, inquietudes, ânsia e preocupação a uma condição de bem-estar geral.66 Ainda que o processo, por ser dinâmico, possa se alterar e produzir certa reciprocidade e interação que reduzam os conflitos internos, diferenças se manterão; ostracismos, resistências e adaptações serão a tônica do cotidiano. Enfim, os autores nos brindam com uma excelente reflexão sobre a socialização/sociabilidade na modernidade, baseada na velocidade de ambas, uma sociedade industrial que andava rápido e uma sociocultura que, de certa forma, não a acompanhava;67 estratégias de proteção e de enfrentamento, bem como relações e tensões sociais na promoção da inserção e convivência entre grupos na sociedade atual.

Um sujeito atípico. Aspectos da fenomenologia social de Schutz A corrente fenomenológica, na metade do século XX e em algumas décadas posteriores, também deu sua contribuição à definição do estrangeiro, em geral pelo horizonte simbólico-culturalista. Alfred Schutz68 foi sua grande expressão. Noções como as de cotidianidade, grupos sociais de referência, mundo social, modelos culturais, saber e pensar comuns, dentre outras, são referenciadas para explicar e figurar o estrangeiro. Schutz analisa a situação típica vivenciada pelo estrangeiro recém-chegado no grupo, a tipicidade que a situação apresenta, requer e produz. O autor mostra as formas diversas de significatividades vivenciadas pelos sujeitos no processo de interação, as possibilidades de nos tornarmos estrangeiros sem termos um lugar de referência específico, as tensões aí produzidas. 65 66 67 68

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ELIAS, N.; SCOTSON, J. L. Stratigie dell’esclusione. Bologna: Il Mulino, 2004. BAUMAN, Z. Modernità liquida. Roma-Bari: Laterza, 2002. PERRONE, L. Da straniero a clandestino. Napoli: Liguori, 2005. SCHUTZ, A. Saggi sociologici. Torino: Utet, 1979 João Carlos Tedesco


Sobre o autor

João Carlos Tedesco é Doutor em Ciências Sociais; fez estágio de Pós-Doutoramento e de Professor Visitante na Universidade de Verona/Itália.

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Estrangeiros, extracomunitários e transnacionais  

O processo migratório internacional revela e produz um novo tecido social, dinâmico, transfronteiriço e conflitual na sociedade contemporâne...